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Miradas da infância

Cartaz da mostra. Arte: Bento Vital. 
Programação completa. Olhar para as infâncias e pensar como elas mesmas imaginam o mundo. Essa é a proposta de Miradas da infância, mostra cinematográfica do projeto Ariadnes, que vai exibir longas-metragens protagonizados por meninos, meninas e menines e que apresentam perspectivas infantis sobre o mundo, ainda que esses filmes sejam dirigidos por adultas e adultos. Essas miradas se cruzam com questões sobre gênero, raça, sexualidade, etnia, região: quem são as crianças que o cinema nos mostra? Quais são e como são as infâncias pensadas ou lembradas pelos olhares adultos?
Programação
08/5: A princesinha
A little princess, Alfonso Cuarón, 1995
Adaptado do romance de Frances H. Burnett, o filme narra a história de uma órfã exposta a abusos em um internato de Nova York no início do século XX, após a morte de seu pai na Índia.15/5: Onde fica a casa do meu amigo
Khane-ye doust kodjast? , Abbas Kiarostami, 1987
Mistura entre ficção e documentário, o filme conta a história de Ahmed, que pega por engano o caderno de seu amigo e precisa devolvê-lo para evitar que o menino seja punido na escola, caso não leve o dever de casa.22/5: Meu pé de laranja lima
Meu Pé de Laranja Lima, Marcos Bernstein, 2012
Diante de uma realidade dura e da falta de afeto, o pequeno Zezé usa a imaginação para transformar um pé de laranja lima em seu refúgio e confidente. Entre travessuras e descobertas, ele encontra na amizade improvável com o “Portuga” o verdadeiro significado de ser amado. Baseado no clássico de José Mauro de Vasconcellos, o filme é um retrato poético e visceral sobre a infância e o momento em que a fantasia de ser criança dá lugar ao amadurecimento. Uma experiência obrigatória e emocionante que abraça qualquer um que assiste.29/5: O túmulo dos vagalumes
Hotaru no haka, Isao Takahata (Studio Ghibli), 1988
A animação percorre os desafios vividos por Seita, um adolescente de 14 anos e sua irmã Setsuko, de quatro anos, que depois de perderem seus pais precisam encontrar meios de sobreviver no Japão pós Segunda Guerra Mundial.12/6: Conta comigo
Stand by me, Rob Reiner, 1986
“Conta Comigo” é uma adaptação da novela “O Corpo” de Stephen King. O filme conta a história de quatro garotos que, ao descobrirem o desaparecimento de um menino em sua cidade natal, a fictícia Castle Rock, decidem ir à procura de seu paradeiro. Durante a busca, os amigos acabam vivendo uma aventura repleta de desafios e reflexões.”19/6: Close
Close, Lukas Dhont, 2022
Close é um drama belga que retrata a história de dois amigos inseparáveis, Léo e Rémi, de 13 anos, que veem sua relação mudar devido à pressão social. Sensível e impactante, o longa-metragem acompanha as consequências desse rompimento, abordando, desde cedo, temas como masculinidade tóxica, amizade e perda.26/6: Marte Um
Marte Um, Gabriel Martins, 2022
A partir das tensões políticas que se estabelecem no país após a eleição de um presidente de extrema-direita, Marte Um (2022) traz a história dos Martins, uma família negra de classe média-baixa que vive na periferia de Contagem, região metropolitana de Belo Horizonte. Sob um olhar sensível, a obra tece, a partir do acompanhamento de um cotidiano simples, múltiplas histórias que evidenciam a esperança frente a uma desigualdade social que sufoca sonhos.3/7: Lindinhas
Mignonnes, Maïmouna Doucouré, 2020
No longa acompanhamos Amy, uma menina de 11 anos de origem senegalesa que vive em Paris. Dividida entre dois mundos contrastantes — os valores tradicionais de sua família e a cultura influenciada pela internet —, ela se aproxima de um grupo de dança local, passando a explorar questões relacionadas à sua identidade, à descoberta da sexualidade e à hipersexualização infantil frequentemente presente nas redes sociais.- As sessões são gratuitas e acontecem sempre às 9h, na sala 207 do ICSA;
- Todas as sessões serão seguidas de uma conversa;
- Haverá emissão de certificados para quem comparecer a 75% das sessões.
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“A vida nunca mais será a mesma”: relatos testemunhais sobre a cultura do estupro no Brasil
Capa do livro O título me chamou atenção, mas não me dei conta do quão literal – e dilaceradora – seria essa história. A vida nunca mais será a mesma: Cultura da violência e estupro no Brasil, da jornalista Adriana Negreiros, narra uma experiência pessoal e testemunhal da violência de gênero e estupro no Brasil. Há um ato de muita coragem e força em realizar essa obra, em que a autora se mostra ao mesmo tempo vulnerável e combativa sobre tudo que aconteceu com ela naquele dia 24 de maio de 2003 e que acontece na vida de muitas outras todos os dias.
Ela nos conduz por todo o livro fazendo uma espécie de panorama em primeira pessoa do seu caso e de tantos outros casos que acontecem, que, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, são, em média 205 estupros por dia, com a maioria das vítimas, mulheres. Sua escrita nos faz ficar com a atenção totalmente presa para os próximos acontecimentos com a tensão do que vai acontecer, tanto nos capítulos da própria Adriana, quanto nos relatos que estão narrados na obra.
São muitas histórias que, assim como a dela, nos afligem e nos arrasam intensamente, e, além disso, nos fazem perceber o quanto o estupro faz parte da cultura brasileira. Ele está nas ruas e nos becos escuros, mas, principalmente, dentro de casa, no dia a dia de muitas mulheres e meninas que são obrigadas a conviver com essa violação – ou nem mesmo têm a chance de se defender. O estupro é quase que intrínseco à normalidade brasileira, porém, ele está nas notícias como “acontecimento episódico”, o que faz com que não enxerguemos o sangue que jorra diariamente: o estupro se repete o tempo todo.
No livro, que é uma grande reportagem, a jornalista traz aspectos jurídicos do Código Civil e da Constituição Federal, por exemplo, de como as mulheres sempre foram colocadas como objetos e posses de outro alguém – um homem, é claro – e como o sistema nos classifica como seres inferiores por toda a nossa vida. O que se expõe desse tipo de exemplo é que o machismo de todo dia é o “feijão com arroz” das mulheres, é o cotidiano em seu formato mais terrível e preocupante.
Ser constantemente colocada dessa forma ofensiva e inferior nos faz normalizar os salários menores, os cargos piores, as importunações sexuais que sofremos nas ruas, os assédios em ambientes de trabalho e acadêmicos, e, claro, os estupros cometidos. Isso nos liga diretamente com a forma como essas violências são tratadas: sempre com dúvidas em relação à versão das vítimas; menosprezo da situação por ser considerada “mimimi” e tantos outros absurdos que escutamos. A jornalista, no entanto, procura desfazer, por meio do uso de teorias feministas, esse tipo de afirmação misógina.
Por se tratar de uma escrita jornalística, a narração feita no livro nos mantém ao mesmo tempo próxima de quem o escreve e repleta de evidências e respaldo do que é dito, e isso foi uma estratégia revelada pela autora na entrevista feita pelo Ariadnes, em que ela afirma ter alterado algumas vezes até chegar na narração em primeira pessoa – que é difícil e dolorida, no entanto, peça fundamental para montagem da obra – e que a valorização do relato testemunhal é importante produtor de conhecimento.
Seu registro de experiência é como um fio condutor, ao se refletir nas entrevistas durante todo o livro, que, mais uma vez, foge do senso comum de culpabilização feminina e reproduz uma visão sensível. As histórias são individuais, claro, mas juntas formam um coletivo da epidemia de violência que o Brasil enfrenta há anos e, no livro, podemos observar as consequências de se viver dessa maneira.
O encontro de Adriana com o feminismo, por exemplo, a faz enxergar e contar os casos de outra perspectiva, que pensa como o sistema contribui para a continuidade das violências e não para uma resolução dela. Falar, em primeira pessoa, sobre como um episódio traumático mudou completamente sua vida, é um fator essencial para a construção dessa empatia e ética feminista da narrativa.
Durante a leitura, me lembrei de uma roda de conversa sobre estupro no Colégio de Aplicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, colégio em que estudei no Ensino Médio, e isso me despertou para a importância do acesso à informação sobre a violência de gênero e como ela nos afeta desde muito pequenas. Me lembro de, aos 15 anos, aprender a valorizar o “Não” e de como devemos parar com a culpabilização com nós mesmas e enxergar uma questão sistêmica.
A vida nunca mais será a mesma: Cultura da violência e estupro no Brasil é uma obra sobre traumas, sobre o medo paralisante e, principalmente, sobre a coragem e bravura das mulheres que contaram suas histórias. Ele nos faz refletir sobre a dura realidade de seguir em frente após tamanha violação e sobre a quantidade de mulheres que passam por isso todos os dias. Além disso, me desperta, como futura jornalista, para uma cobertura que valorize os relatos testemunhais e uma cobertura sensível e justa com as vítimas.
Serviço:
Título do Livro: A vida nunca mais será a mesma: Cultura da violência e estupro no Brasil
Autora: Adriana Negreiros
Editora: Objetiva
Ano de Lançamento: 2021
Minha classificação: O livro aborda temas muito densos e pesados, como violência e estupro. Não é indicado para ser lido com/por crianças.
Texto por Lia Junqueira.
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“Como encaminhar as denúncias de assédio?” – Live para nos guiar nesses casos

Imagem: Captura de Tela da Live. Dar início a um processo que remexe traumas ou dê qualquer tipo de gatilho não é fácil para ninguém – especialmente para as mulheres, que são expostas todos os dias a situações de assédio, importunação sexual e outras violências. A Live “Como encaminhar as denúncias de assédio?” nos faz uma espécie de guia completo de como agir, a quem procurar e a quais plataformas recorrer.
Ela foi exibida dia 29 de agosto, pelo canal do Youtube da Rede Brasileira de Mulheres Cientistas, e integra a Campanha #AssédioZero. O bate papo contou com a mediação de Maria Luiza Saraiva, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), e Patrícia Moreira, da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). Além delas, havia as convidadas Flávia Máximo, da UFOP, e Elisiane Szubert, da UFRGS.
É preciso colocar em mente, segundo as participantes, que o primeiro passo para a eficácia de denúncias e das ouvidorias é compreender as questões de gênero, que nos permeiam e fazem com que as coisas sejam da forma que são – com a misoginia como expressão desse sistema. Dessa forma, é fundamental que as pessoas nos cargos de ouvidoria estejam alinhadas com a luta pelo fim da descriminação de gênero, para prosseguirem com os relatos sem que haja o corporativismo machista já conhecido por nós.
A professora do Departamento de Direito, Flávia Máximo, nos conta como está sendo a experiência da primeira Ouvidoria especializada em questões de gênero em uma universidade pública, que atende alunas, servidoras e mulheres da comunidade, ademais, atendem pessoas LGBTQIA + e também denúncias de racismo. Na UFOP, começou como uma denúncia de aluna sobre um professor, depois disso ganhou forma como Projeto de Extensão, até chegar ao seu reconhecimento como Ouvidoria Feminina.
Ela nos lembra que as universidades ficam em segundo lugar quanto aos ambientes em que mais ocorre assédio – só perdem para bases militares. Somente neste ano, já são cerca de 70 denúncias na instituição, sendo a maioria de assédio moral/sexual, e não podemos esquecer que esses números são subnotificações dos casos reais que não chegam a serem notificados. Eles ocorrem de maneira específica: são relações de poder, sejam elas entre professor e aluna, servidor e aluna, aluno e aluna, e, até mesmo, por professora e aluna.
Uma conceituação sobre assédio é colocada de forma clara: “O assédio pode ser configurado como condutas abusivas exaradas por meio de palavras, comportamentos, atos, gestos, escritos que podem trazer danos à personalidade, à dignidade ou à integridade física ou psíquica de uma pessoa, pôr em perigo o seu emprego ou degradar o ambiente de trabalho.” Ou seja, os comentários que escutamos na rua, nos ônibus ou quaisquer outros atos, são importunação sexual, que também é crime e pode ser registrado.
As pesquisadoras nos alertam, dessa forma, sempre que houver a possibilidade de iniciar e prosseguir com a denúncia, fazê-lo, pois, assim, a garantia de que essa pessoa vai ser punida por seus atos com as devidas responsabilizações é maior. Por mais que esse processo seja complicado e doloroso, e claro, respeitamos quem não desejar ou continuar com ele, é muito importante que as denúncias sejam efetuadas.
Elisiane Szubert, da Ouvidoria Geral da UFRGS, nos dá dicas dos elementos indispensáveis ao fazer um registro de assédio ou qualquer tipo de violência, para que não haja qualquer irregularidade da parte do acusado. A descrição é primordial para esses casos, no qual muitas vezes não contém provas concretas – como vídeos, e-mails, fotos ou testemunhas – e, portanto, a palavra de quem está denunciando é a única fonte de informação.
A ouvidora comenta ainda sobre a preservação da identidade das denunciantes, que precisam dessa discrição pois, sobretudo em relações de poder, seriam prejudicadas diretamente por um sistema machista. Além disso, o relato contado é levado totalmente em conta, para que não somente uma responsabilização possa vir, mas também um processo de acolhimento das vítimas.
O processo de realização das denúncias é exaustivo e, infelizmente, pode trazer questionamentos para todas as mulheres, de falta de credibilidade e amenização do caso. No entanto, ao levá-lo ao conhecimento dos devidos órgãos, como ouvidorias ou a plataforma Fala BR, que serve para reportar questões como essas, o processo de responsabilização – como demissão e afastamento – pode ocorrer da maneira ideal.
O assédio permeia nossas vidas e nossa existência, mas continuaremos lutando contra ele, juntas. #AssédioZero
Serviço:
Título da Live: “Como encaminhar as denúncias de assédio?”
Participantes: Maria Luiza Saraiva, Flávia Máximo, Patrícia Moreira e Elisiane Szubert.
Disponível em: https://www.youtube.com/live/x2IQrHX_8h8?feature=shared
Minha classificação: A live aborda temas difíceis e sensíveis, com representações de
violência e assédio. Não é indicado assistir com crianças.
Por Lia Junqueira
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Ele era um amigo – que me assediava dentro da minha casa

Chegar a um novo lugar é sempre repleto de descobertas e, muitas vezes, experiências ruins que somos alertadas tardiamente sobre não fazer. Assim foi minha chegada a esta cidade e a esta casa. Era tudo lindo, as amizades, as vivências, as festas e até as comidas do Restaurante Universitário – que não costumam ser isso tudo.
Fui notando uma aproximação esquisita, sempre com cumprimentos calorosos e comentários sem noção de um amigo que frequentava muito minha casa. Por muitos meses me questionei: será que é assédio ou esse é o jeito dele?
Com o passar do tempo, comecei a frequentar uma academia na cidade e, muitas vezes que chegava em casa, lá estava ele pronto para comentar sobre as mudanças em meu corpo, frutos dos novos exercícios. Eu ficava acuada e nem respondia, mas estávamos na frente de todo mundo – até mesmo da namorada dele – e ninguém parecia ficar incomodado.
A sensação de estranhamento foi aumentando e eu já não conseguia ficar nos mesmos ambientes sem sentir medo dos comentários desse amigo. Outras meninas que moravam comigo começaram a relatar comportamentos desse mesmo cara, e, para além de comentários, havia mordidas e passadas de mão pelo corpo.
Na verdade, esse era o “jeito dele”, o jeito assediador de ser. Pelo fato de esses atos acontecerem na frente de todas as pessoas que estavam ao nosso redor, era normalizado e a famosa “passada de pano” acontecia diariamente. As tentativas de distanciamento eram falhas, porque ele estava sempre por perto, e sempre sob o mesmo teto que o meu. Quando fomos falar sobre o que estava acontecendo, uma delas só aconselhou: “Não falem nada, só tentem não ficar perto”.
Desde 2018 o Ariadnes escuta relatos anônimos sobre assédio.
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‘Quando o não, não é uma opção’: uma intervenção para aguçar nosso olhar crítico

Parte inicial da intervenção, no Instituto de Ciências Sociais Aplicadas. Foto: Lia Junqueira. No dia 16 de agosto, aconteceu no Instituto de Ciências Sociais Aplicadas (ICSA) da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) a intervenção “Quando o não, não é uma opção”, proposta pela disciplina Corporalidades, do curso de Jornalismo, pelo professor Evandro Medeiros. Foi um momento para refletir sobre os corpos e seus pertencimentos no mundo – principalmente os femininos – em que dois jovens se colocaram à disposição do público, que podia pintá-los com as tintas disponíveis.
A intervenção nos transporta para um ambiente de medo e insegurança, no auditório do ICSA, em que notícias escritas e impressas em cartazes sobre os abusos e feminicídios recentes no Brasil, com roupas penduradas e luzes apagadas. Além disso, um áudio é passado em looping, falando desses sentimentos do que é ser mulher nesse país – que nos mata, nos despreza e ignora nossas dores.
De acordo com o último relatório do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, estima-se que no Brasil ocorram 822 mil casos de estupro por ano, sendo mais de 80% das vítimas, mulheres. Esses números nos alertam para essa epidemia que ocorre e não é colocada como prioridade nas notícias que acompanhamos, por isso, a intervenção nos provoca ao apresentar casos reais que ocorrem ao nosso redor a todo momento – segundo o IPEA, seriam 2 estupros por minuto.

Segundo momento da intervenção, dentro do auditório do ICSA. Foto: Lia Junqueira. Existe uma concepção errada de que os corpos femininos pertencem aos homens e, além disso, de que quando sofrem violências, elas são culpabilizadas por suas próprias dores. É preciso refletir sobre esses padrões e papéis dentro de nossa sociedade e confrontar nossas próprias noções preestabelecidas sobre gênero, poder e controle – justamente o que é aguçado na intervenção.
“Quando o não, não é uma opção” traz referências de uma das principais artistas performáticas contemporâneas, Marina Abramović, que desafia seu corpo e sua mente em suas intervenções artísticas. Em “Rhythm 0”, de 1974, a artista se colocou disponível por 6 horas com 72 objetos em uma mesa que poderiam ser utilizados da maneira que o público entendesse.
Ao final, ela estava com vários cortes em seu corpo e tinha sofrido diversos abusos, e, segundo relatos da época, um homem teria apontado uma arma carregada – disponibilizada por ela – para seu pescoço. Marina teve o intuito de explorar as relações de seu corpo com o público, os seus limites pessoais e as possibilidades da mente.
Os resultados da performance de 74 refletem como os corpos femininos são vistos e desrespeitados por essa sociedade que os enxerga como propriedade e lugar de violência. Nos resultados de “Quando o não, não é uma opção”, ainda vemos reflexos dessa sociedade patriarcal, misógina – não somente com pinturas mas também comentários feitos –, mas já pode-se vislumbrar um momento de maior reflexão acerca do tema.

Momento final da intervenção. Foto: Lia Junqueira. Por Lia Junqueira.
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De quantas formas um corpo pode ser violentado?

Amy Adams em cena do filme O filme Animais Noturnos, baseado no livro Tony e Susan, conta sobre Susan Morrow (Amy Adams), uma mulher que trabalha com exposições de arte e está passando por um momento de muitas dúvidas sobre sua vida pessoal, quando recebe um livro intitulado Animais Noturnos, escrito por seu ex-marido Edward Sheppard (Jake Gyllenhaal), um homem com o qual ela não tem contato há mais de 20 anos. Ao abrir a obra, ela se depara com uma dedicatória que a homenageia, Edward diz que queria que ela fosse a primeira a ler, pois ela sempre havia sido sua melhor crítica. Ao iniciar a leitura, a protagonista do filme percebe que a obra parece ser sobre personagens que refletem ela e o ex-marido. As características físicas são exatamente as mesmas, mas há uma diferença: nessa história eles têm uma filha e são uma família feliz formada pelo casal Laura (Isla Fisher) e Tony Hastings (Jake Gyllenhaal) e a jovem de 14 anos India Hastings (Ellie Bamber).
Conforme a narrativa se desenvolve, vão sendo mostradas inúmeras violências contra as personagens femininas do livro, que acabam sendo sequestradas, torturadas, estupradas e mortas, e vemos Tony Hastings perder tudo o que lhe importava, a família. O restante da obra foca na busca dele por justiça. Já a vida de Susan, enquanto lê esse texto truculento, começa a relembrar seu passado com Edward e sentir culpa pela forma como seu relacionamento terminou. Ela havia decidido ir embora por não sentir que eles tinham as mesmas expectativas sobre a vida. Ao fim do filme, Susan decide encontrar Edward em um restaurante. Ela fica à espera dele a noite toda mas ele nunca aparece, como uma espécie de golpe final na protagonista.
Na trama há um grande clima de vingança no livro Animais Noturnos, pois por meio dele, o autor consegue tocar em todas as feridas de Susan. Ele comete inúmeras violências físicas com as figuras femininas da história, enquanto violenta Susan psicologicamente com a trama. Ao longo do filme, sabemos que a protagonista fez um aborto durante a separação deles. Ele descobriu e, anos depois, cria uma filha para ser violada na ficção, India, fruto da relação de Tony e Laura e uma menina extremamente parecida fisicamente com a filha que Susan teve com seu companheiro. Fica claro que, ao longo dos anos, Edward continuou observando-a de longe e buscou maneiras para poder realizar esse ato vingativo.
Os mecanismos de punição utilizados no longa nos fazem refletir sobre as diferentes maneiras de se violentar uma pessoa, pois apesar de Edward em nenhum momento cometer uma agressão física contra Susan, ele comete inúmeras violações psicológicas contra ela, e expõe na agressividade do livro seu ódio sobre as figuras femininas. A história faz parecer que Tony perdeu tudo, mostra o seu sofrimento e busca por justiça como uma desculpa para exibir uma quantidade enorme de violência para gerar culpa em Susan, como se ela tivesse feito Edward perder tudo, como se ela ainda estivesse em dívida com ele. A forma como o personagem busca se vingar da mulher nos remete a Heleieth Saffioti no livro Gênero, Patriarcado, Violência, que exibe como a violência de gênero pode ser cometida de muitos jeitos que refletem a cultura de dominação e exploração das mulheres pelos homens.
Como no trecho em que Saffioti diz: “A magnitude do trauma não guarda proporcionalidade com relação ao abuso sofrido. Feridas do corpo podem ser tratadas com êxito num grande número de casos. Feridas da alma podem, igualmente, ser tratadas. Todavia, as probabilidades de sucesso, em termos de cura, são muito reduzidas e, em grande parte dos casos, não se obtém nenhum êxito”. O trauma psicológico, o intuito de Edward, deixa clara uma forma de violência que busca mexer com as feridas emocionais de Susan, sendo realizada por meio do recurso da representação de violências de gênero praticadas pelo autor contra suas personagens, como maneira de puni-las. E através da dedicatória do livro, ele insinua que aquelas violações são feitas para Susan, para rememorar/vingar o modo como ela “destruiu” a família deles, ao decidir seguir o que acreditava, e por conta disso ela teria, na perspectiva dele, merecido agora estar vivenciando diversas violências, e consumir o conteúdo agressivo da obra Animais Noturnos.
Por Lívia Labanca
Serviço:
Título original: Nocturnal Animals
Onde assistir: Prime Video
Classificação indicativa: 16 anos (A16)
Classificação da autora: 16
Gênero: Drama
Gatilhos: violência psicológica, sequestro, assédio, estupro e feminicídio.
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“Se você contar”: um documentário sobre histórias de abuso sexual infantil

Créditos da imagem: Observatório 3° setor Se você contar é um documentário, do ano de 2017, dirigido pela jornalista e cineasta Roberta Fernandes, que também é sócia da produtora Andaluz Filmes. Com 30 minutos de duração, o filme retrata oito histórias que têm um crime em comum: o abuso sexual infantil. Nele, cinco mulheres contam seus próprios relatos e o de outras e, apesar de serem casos e pessoas diferentes, as histórias se assemelham muito em diversos pontos.
Todos os abusos ali contatos aconteceram com agressores de dentro da própria casa da vítima ou que pertenciam ao círculo familiar, como irmão mais velho, pai ou padrasto, fato que dificulta a realização de denúncias e confunde a criança quanto à sua responsabilidade (que é nenhuma).
Isso porque, muitas vezes, o agressor ameaça a vítima – completamente indefesa e vulnerável – de que se ela contar o abuso, ninguém acreditará nela e haverá consequências negativas, como intensificação da violência contra a própria criança ou contra alguém que ela ama. Mas, contradizendo o nome do documentário, as mulheres, com muita coragem, contam abertamente sobre a violência que sofreram.
Muitas relatam que, por o criminoso pertencer ao círculo familiar, tinham uma relação de confiança com ele, o que dificultou ainda mais reconhecer que estavam sendo violentadas. Dacylane (25), uma das testemunhas, conta que foi abusada, aos 6 anos de idade, pelo padrasto.
“Eu era uma criança marcada, medrosa… que já não olhava para os brinquedos da mesma forma, já não conseguia ficar perto daquela pessoa que eu tanto admirava. Quando eu ia tomar banho, ele entrava no banheiro, me tocava e falava: ‘Ninguém vai acreditar em você, e se você falar, eu mato você, sua mãe e quem souber’ (…) Eu sentia dor, nojo, vergonha e, principalmente, culpa.”
As outras mulheres, de maneira similar, contam como esse trauma também as afetou: sentiam medo constantemente, uma vez que nem na própria casa estavam seguras, muito pelo contrário, lá era o ambiente em que estavam mais vulneráveis e expostas. Além disso, o abuso sexual no contexto familiar constitui uma experiência que afeta o desenvolvimento emocional da criança, que resulta em prejuízos que podem se prolongar até a vida adulta.
Por isso, esse tipo de violência representa um fator de risco para o desencadeamento de transtornos psicológicos, como depressão, ansiedade e síndrome do pânico. São mulheres que, mesmo adultas, podem se ver indefesas devido à situação a que foram expostas na infância. Mulheres que foram violadas e desrespeitadas profundamente, quando nem sequer sabiam o que era uma relação sexual e, muito menos, um abuso sexual.
Débora (41), relata como até hoje ela é impactada pelo ocorrido: “Eu perdi minha infância, né?! Quando um adulto faz isso, ele rouba a infância da criança. Durante muitos anos, não senti prazer, porque a memória do que aconteceu vem à mente, e isso acontece até hoje.”
Além disso, a visão do que família significa também pode ser alterada para essas vítimas. De acordo com o artigo “Sobrevivendo ao abuso sexual no cotidiano: formas de resistência utilizadas por crianças e adolescentes”, o abuso sexual nesse contexto rompe o imaginário de família como garantia de segurança. Isto é, compromete as futuras relações familiares e interfere na saúde das mulheres em qualquer idade.
Como mulher que também foi vítima desse tipo de abuso, posso contribuir com o meu relato. Muito semelhante com os casos do documentário, meu agressor era do meu círculo familiar, meu próprio irmão: uma pessoa em quem eu confiava e, de certa forma, até admirava. Quando criança, eu não tive educação sexual na escola, o que dificultava meu entendimento sobre consentimento, corpo e abuso.
Então, quando meu irmão se sentia à vontade para tocar meu corpo, eu não sabia identificar que aquilo ultrapassava o que eu tinha na mente como “brincadeira de criança e de irmãos”. Lembro que eu estranhava o comportamento, mas logo me corrigia e pensava: “Não, com certeza não é nada demais, ele é meu irmão e jamais faria qualquer coisa comigo”.
Essa falta de compreensão não só dificultou que eu me defendesse, como também impediu que eu confidenciasse o ocorrido à minha rede de apoio, que, no caso, eram os meus pais. Apenas muitos anos depois (na época, eu tinha 8 anos e a violência aconteceu até os 10), é que fui compreender o que tinha acontecido e, aí sim, contar para alguém, mas sempre com o receio de que ninguém acreditaria.
Ainda bem que tive o privilégio de alguém acreditar em mim, mas muitas mulheres não têm, e são obrigadas a passarem por isso sozinhas e carregarem esse trauma sem nenhuma ajuda ou suporte emocional. Relatar o que tinha acontecido, me ajudou a perceber que eu tinha, sim, sofrido um abuso e que essa dor deveria ser validada e reconhecida, por mim e pelas pessoas que me amam.
É uma violência que, sem dúvidas, impacta na formação da nossa personalidade e em como a gente se define e, por isso – em um mundo onde as mulheres são sexualizadas e descuidadas desde a infância – educação sexual é extremamente importante.
Ao contrário do que muitas pessoas pensam, educação sexual não tem a ver com ensinar sobre sexo. É ensinar sobre consentimento, sobre os limites que ninguém pode ultrapassar com seu corpo e sobre como recorrer a uma rede de apoio caso você reconheça algum comportamento estranho em relação a você.
Por Maria Clara Soares
Serviço:
Título original: Se você contar
Onde assistir: Youtube
Classificação indicativa: 12 anos
Classificação indicativa da autora: 12 anos. Justificativa: os relatos, bastante detalhados, podem servir de gatilho
Aviso de gatilho: Este texto aborda questões de abuso sexual na infância
Gênero: Denúncia
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“Rompendo o silêncio” para expor as relações de poder nas universidades brasileiras

Imagem: Cartaz de divulgação da série documental Rompendo o silêncio é uma série documental brasileira lançada em 2021 pela HBO. Ela aborda a temática da cultura da violência e hierarquia dentro das universidades brasileiras, por meio de relatos de vítimas, dados estatísticos e análise de profissionais e especialistas sobre as violências retratadas. A série conta com 5 episódios que foram lançados semanalmente, com em média 60 minutos, e destrincham temas como trote, discriminação, assédio sexual, violência moral e de gênero e estupro.
Estudantes de universidades do estado de São Paulo contam suas experiências da época que entraram no curso de Medicina. Apesar de existir uma lei estadual, desde 1999, que veda trotes sob coação, agressão física, moral ou qualquer outra forma de constrangimento que possa acarretar risco à saúde ou a integridade física dos alunos, a cultura dos trotes continua. No documentário as vítimas relembram as violências sofridas no período que chegaram à faculdade e as consequências de terem denunciado esse esquema de relações de poder. Pessoas que ingressam na faculdade costumam ser chamadas de “bixos” e são obrigadas e coagidas a participarem de diversas atividades invasivas, além de consumirem álcool e passarem por diversas situações constrangedoras. Esse sistema de trotes é uma forma de relação de poder e as mulheres são as que mais sofrem, sendo objetificadas, obrigadas a dançar sensualmente, ingerir alcool, simular sexo oral em objetos e ler revistas pornográficas para os veteranos.
Esse problema existe tanto em universidades públicas quanto nas particulares, pois o ensino superior ainda é um ambiente historicamente cisheteronormativo, masculino e branco. Mesmo que mulheres e pessoas negras sejam maioria em alguns cursos, continuam sendo minoria social. O racismo, o machismo e o preconceito contra a comunidade LGBTQIA+ e outras formas de discriminação. minam a diversidade e restringem o potencial dos e das estudantes, perpetuando um clima de exclusão e apagamento para membros dessas comunidades, prejudicando a livre expressão de identidade, afetando negativamente o bem-estar emocional e destruindo sonhos de ter um diploma no ensino superior.
O assédio sexual pode ser expresso através de palavras, gestos, contatos físicos, avanços sexuais não solicitados e outras formas de conduta que intimidam a vítima. Já o assédio moral pode se expressar através de ameaças, ridicularização, difamação, críticas constantes e outros tipos de tratamento desrespeitosos. Está ligado a um padrão de comportamento repetitivo, persistente, abusivo e humilhante que prejudica psicologicamente a vítima. No documentário, as vítimas desses assédios contam as consequências em suas vidas, que vão desde desenvolvimento de transtornos mentais a atraso para se formar ou até abandono do curso. Principalmente por ser, geralmente, numa relação de hierarquia como professor e aluna ou orientador e orientando, o desempenho acadêmico é afetado pois a vítima é obrigada a manter contato com seu abusador ao longo do curso Isso porque, mesmo com a denúncia, os professores continuam ofertando disciplinas normalmente e os alunos continuam matriculados. O assédio também pode ser horizontal, vindo de pessoas da mesma posição, como um relato apresentado no qual uma professora da universidade foi violentada psicologicamente por seus companheiros de trabalho.
No último episódio da série documental, o tema discorrido é estupro. Mulheres que já foram vítimas dessa violência contam sobre os traumas e a dificuldade de denunciar. Assédio sexual e estupro são comuns nas universidades, principalmente em festas acadêmicas onde o abusador aproveita da embriaguez das vítimas ou coloca substâncias entorpecentes na bebida para deixá-las inconscientes. Isso se dá pela construção da masculinidade pautada na violência, fazendo com que os homens tenham orgulho de ter relações sexuais com mulheres, mesmo sem consentimento, dificultando combate à cultura do estupro. Além disso, a culpabilização da vítima nessas situações, por ter bebido, saído ou conversado com o abusador, também dificulta a denúncia e a lidar com o acontecimento, causando depressão, limitando a pessoa a usufruir de sua própria sexualidade e às vezes levando ao suicídio, pois os danos do abuso sexual não são limitados apenas à violência.
Denunciar violências sofridas é um ato de coragem e resistência. No ambiente acadêmico é frequentemente uma tarefa árdua e complexa, em grande parte devido à priorização do nome da universidade. Muitas vítimas hesitam em relatar casos de assédio, discriminação ou abuso, temendo a minimização de suas experiências, retaliação e silenciamento. A pressão para manter a reputação da instituição pode criar um ambiente onde questões sensíveis são varridas para debaixo do tapete, mantendo um ciclo de impunidade e corporativismo que protegem os abusadores.
Serviço
Título da série: Rompendo o silêncio
Onde assistir: HBO Max
Gatilhos: Violências sexuais, racismo, homofobia, assédio moral e psicológico.
Classificação indicativa: 16 anos (A16)
Minha classificação: 16 anos (A16)
Contém relatos de violência de gênero, racismo, LGBTQIA+fobia e consumo de drogas.
Gênero: Drama.
Texto por Ana Luiza Rodrigues .
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Quem matou Eloá? Quando a violência é confundida com amor

Crédito da imagem: capa do documentário Eloá Cristina Pimentel tinha apenas 15 anos quando foi sequestrada, mantida em cárcere privado e posteriormente assassinada pelo seu ex-namorado Lindemberg Alves, de 22 anos na época. Tudo isso enquanto os olhos da mídia nacional estavam todos voltados para o local em que o crime se dava. Essa é a história contada no documentário Quem matou Eloá? de 2015, dirigido por Lívia Perez. O produto audiovisual conta com a presença de convidados para assistirem notícias do crime, e irem comentando/questionando o modo como a mídia o abordou. Essas pessoas vão desde mulheres do movimento feminista até advogados que trabalharam na época. O documentário é muito premiado por trazer o conteúdo de uma forma muito ética, exemplificando o problema da persistência da violência contra a mulher no Brasil, não só a psicológica e a física, como também a midiática, perpetrada pela grande mídia televisiva nacional. Alguns dos prêmios foram:
– Melhor Curta-metragem – ATLANTIDOC Festival Internacional de Cine Documental de Uruguay 2015;
– Prêmio Eder Mazini de Montagem 2016 – Memorial do Cinema Paulista;
– Melhor Filme (Categoria Mulheres) – IX Encuentro Hispanoamericano De Cine Y Video Documental Independiente “Contra El Silencio Todas Las Voces” 2016.
Na época os veículos televisivos atuaram de modo muito ativo e incisivo durante a cobertura do caso, tendo chegado inclusive a ligar para Lindemberg durante o sequestro, para conversar com ele enquanto nem mesmo a polícia estava tendo esse tipo de contato, de modo a colocar a vida de Eloá em último plano. Muito era comentado sobre como o homem responsável por cometer o crime era uma “boa pessoa”, um “jovem trabalhador” que estava apenas sofrendo de “paixão”, e que isso estava ocorrendo porque a vítima não queria reatar o relacionamento com ele, como se isso de algum modo justificasse a violência para com a jovem. Ao longo dos dias de cárcere, o sequestrador fazia ameaças e falava da vida dela como algo constantemente em risco, deixando claro que ela já não tinha mais valor para ele, enquanto isso, na televisão nós víamos pessoas falando sobre como só queriam que tudo acabasse bem, sendo esse “bem” os dois juntos como casal.
Em seu livro lançado originalmente no ano 2000, intitulado Tudo sobre o amor, a autora bell hooks fala sobre o sentimento de forma ampla, de como ele se insere em vários momentos da nossa vida, e principalmente de como em nenhum deles o amor se une à violência. Segundo a autora, “onde há abuso, a prática amorosa fracassou”, sendo assim, o ato violento se encontra completamente oposto a tudo o que o amor propõe, ao cuidado e o afeto. Antes do sequestro, Lindemberg já havia agredido Eloá, não só de forma física como também psicológica, tentando impor seu controle sobre ela, o que nos remete a uma frase de Carl Jung citada por hooks, “se o desejo de poder predomina, o amor estará ausente”.
O que havia sido exposto nas imagens de televisão não era um casal que estava passando por um desentendimento, eram duas meninas menores de idade (posto que em alguns dias Eloá foi mantida em cativeiro junto a sua amiga Nayara) que haviam sido sequestradas e estavam com suas vidas em risco. Ao passo que a grande mídia estava romantizando a situação, o que é extremamente perigoso, porque ensina para as meninas e mulheres que assistem a confundir amor e violência, a achar que quando Lindemberg comete um crime, este é perdoável porque ele fez isso movido por “paixão”. A história ficou tão ficcionalizada que nos últimos momentos as pessoas acompanhavam mais como se fosse uma novela do que como se aquelas meninas fossem pessoas reais.
O fim foi Eloá morta com tiros após cerca de 100 horas de sequestro, e Nayara também ferida. Embora tenha sobrevivido, pouco tempo depois a jovem sobrevivente foi chamada para fazer uma entrevista no Fantástico, tendo que responder perguntas bem invasivas sobre o que elas passaram no local do sequestro. Pelo documentário nós vemos a população chocada com o ocorrido, como se durante todos aqueles dias esse final não estivesse iminente, de forma a mostrar como as pessoas não estavam de fato tendo entendimento da gravidade da situação. E isso ilustra a forma como muitas vezes a violência contra a mulher no Brasil é tão normalizada que acaba não sendo levada a sério, um feminicídio não é um “caso de amor” ou de “paixão”, assim como nenhuma forma de violência de gênero reflete isso, tudo o que mostra é uma tentativa de imposição de poder.
Por Lívia Labanca
Serviço:
Título original: Quem matou Eloá?
Onde assistir: YouTube
Classificação indicativa: 12 anos (A12)
Classificação da autora: 14
Gatilhos: Violência de gênero, sequestro, cárcere privado e feminicídio.
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‘Rafiki’: um filme revolucionário desde o nome

Kena e Ziki, protagonistas do filme, sorriem de mãos dadas. Imagem: Divulgação. Rafiki significa amiga ou amigo em Swahili (ou suaíli), uma das línguas oficiais do Quênia. É também a palavra que dá nome à história de romance/drama dirigida por Wanuri Kahiu, premiada cineasta queniana. O filme conta a história de amizade e amor entre Kena (Samantha Mugatsia) e Ziki (Sheila Munyiva), que são jovens quenianas.
O drama explora a aproximação das duas meninas enquanto seus pais disputam a prefeitura da cidade em que moram. Elas percebem que a relação entre elas tornou-se amor, o que é crime no Quênia com pena que pode durar até 14 anos, e enfrentam diversos ataques simplesmente por demonstrarem seu afeto. Até mesmo amigos das meninas as atacam, batendo em Kena como forma de punição por estar com Ziki.
Quando o casal é descoberto pela família e pela polícia, as meninas são presas e isso determina o rumo que iriam tomar, mesmo que contra suas vontades. Pode-se dizer que é uma “reinterpretação” subversiva – ao romper a heteronormatividade – de Romeu e Julieta, um amor proibido e condenado, capaz de alterar completamente suas trajetórias de vida.
Para a criação do filme, Wanuri inspirou-se no conto Jambula Tree*, escrito pela autora ugandense Monica Arac de Nyeko. No entanto, ela coloca duas mulheres como protagonistas dessa trama de amor, o que é uma forma positiva de representação amorosa entre não somente pessoas negras, mas também mulheres, fazendo com que o cinema seja esse local de mais pluralidade e uma janela de novas representações para quem assiste.
Ainda que Kena e Ziki passem por agressões físicas, humilhações e assédios morais, o sentimento das duas não é apagado nem mesmo pelo tempo. Os sentimentos de afeto, carinho e amor por uma mulher não são questionados em sua completude, e sim problematizados pela situação no país em que a obra é retratada. Tanto que as duas encontram-se após anos e percebem que aquela chama nunca apagou-se completamente, mas sim manteve-se acesa em seus corações.
Quando digo que Rafiki é revolucionário desde o nome não é mentira, tanto que essa palavra costuma ser utilizada por casais homoafetivos no Quênia, que não podem identificar-se como namorado/namorada. É uma estratégia de sobrevivência que a diretora faz uma espécie de ironia ou homenagem ao colocar como título de sua obra. Além disso, o filme coloca de forma sublime a doçura de um amor que é podado por conta da sociedade, fazendo com que a reflexão seja: será que eu estou errada por ser mulher e gostar de outra mulher ou o sistema que está errado por me fazer esconder e ter vergonha dos meus sentimentos?
É impossível afirmar uma coisa só, já que é preciso complexificar tudo e todas as vivências. Mas Kahiu nos deixa com essa “pulga atrás da orelha” quando a representação desse amor entre duas mulheres quenianas atinge uma potência tamanha no mundo e em um dos festivais de cinema mais importantes, o Festival de Cannes. A diretora decide enfrentar não só o país em que ser LGBTQIA + é criminalizado, mas sua representação cinematográfica.
“Rafiki é sobre o direito humano mais importante, o de amar”, como ressalta Álex Vicente, em matéria do El País, mas, que amor é esse? Em “Tudo Sobre o Amor: Novas Perspectivas” bell hooks afirma que “sem justiça, não pode haver amor” (hooks, 2020, p. 72), e nos faz refletir sobre as formas de representação do amor. A diretora nos faz viajar por tudo isso e viajar dentro de nós mesmas nessa busca pela “grande história de amor”, que é anunciada no cartaz de divulgação.
Ocupar o local de estreia de uma obra queniana no Festival de Cannes e ser banido dos cinemas do seu país de origem é uma das exemplificações mais complexas da realidade. É o que Rafiki consegue fazer com maestria quando o assistimos. Wanuri coloca sua própria vida em risco quando assina e dirige o filme que a mudaria completamente. É uma representação gostosa e dolorosa ao mesmo tempo, que compõe o “AfroBubbleGum”, movimento que defende a “arte africana vibrante e leve”.
Movimentos como esses são essenciais para desfazer preconceitos ancestrais, como os que defendem que na África só existe fome, miséria e doença. O que, obviamente, é mentira. No continente africano existem diversos tipos de vivência, com alegria, cores vibrantes, saúde e valorização daquelas vidas.
O filme aborda a adolescência mesclando o tema com a sexualidade, o que ainda é pouco falado. É interessante representações diversas para esse público, que está em um momento de descobertas intensas.
*O conto de Monica Arac de Nyeko só está disponível em inglês. No entanto, deixo aqui o link para quem quiser ler.
Serviço:
Título: Rafiki
Onde assistir: TelecineClassificação Indicativa: A14 (14 anos)
Minha classificação: O filme possui cenas de violência contra mulher. Contém cenas de LGBTQIA+fobia. Não é indicado assistir com crianças.
Por Lia Junqueira.
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Roda de Conversa aborda assédio contra mulheres
Um lugar de escuta e acolhimento em meio a tantas violências na universidade

Imagem: Lívia Labanca Nesta última quinta-feira (17), aconteceu no auditório do ICSA, das 17h às 19h, a roda de conversa “Assédio sexual e moral – como isso te afeta?”. O evento contou com a integrante da Andorinhas – a Rede de Mulheres da UFOP – Alice Costa; com a participante da Ouvidoria Feminina da UFOP, Flávia Pereira; com a coordenadora do Ariadnes, Karina Gomes Barbosa; com a analista de políticas públicas Patrícia Souza; e com a monitora de atendimento Rafaella Biagi.
A palestra foi pensada pelo InterPET e teve como organizadores o PET ICSA em conjunto com o PET Pedagogia. Nela, foram abordados assuntos relacionados ao assédio no ambiente universitário, e à importância de um ambiente acolhedor e receptivo – onde seja possível realizar denúncias – como a Ouvidoria Feminina.
No evento, as mulheres explicam conceitos de violências que, muitas vezes, são confundidos, como assédio e importunação sexual: o primeiro refere-se a quando o assediador tira vantagem de sua posição em relações de trabalho para constranger a vítima e obter alguma vantagem sexual. Já o segundo diz respeito à prática do ato libidinoso contra a vontade do outro. Isto é, atos como apalpar, desnudar, masturbar-se em público, entre outros, caracterizam-se como crimes de importunação.
Há também o assédio moral, que se enquadra como sendo o comportamento abusivo com a vítima, por meio de palavras, gestos e atos que podem trazer danos à dignidade e à integridade física ou psíquica dela. Todas essas violências são muito frequentes no ambiente universitário e, por isso, a Ouvidoria torna-se um espaço essencial de acolhimento e apoio às vítimas.
A professora Flávia Pereira conta que, em 2019, a Ouvidoria teve “apenas” 9 denúncias durante o ano todo. Mas que, atualmente, contabilizando até agosto de 2023, o órgão já tinha recebido 69 denúncias de assédio na universidade. Situações que, infelizmente, são responsáveis por muitas evasões acadêmicas, abandonos de carreira, problemas psicológicos e suicídios.
A analista de políticas públicas Patrícia Souza explica sobre alguns dos transtornos psicológicos que vítimas de abusos na universidade podem enfrentar: estão vulneráveis a ficarem abaladas emocionalmente, terem problemas de autoestima física e intelectual e a sentirem muita angústia, especialmente diante da situação de, muitas vezes, terem que encontrar o abusador – geralmente em posição superior na hierarquia acadêmica – na faculdade.
Nos momentos finais, a roda de conversa foi aberta para tirar as dúvidas das alunas, que envolviam questionamentos sobre como realizar uma denúncia e sobre a importância de ter um ambiente de escuta quando se sofre uma violência. Foi um debate muito importante e informativo, visto que muitas estudantes não conheciam esse projeto aliado à luta das mulheres, mas, agora, sabem que têm com quem contar diante de uma situação de abuso.
Se você for uma vítima de violência de gênero na UFOP e deseja ter um espaço seguro para conversar, entre em contato com a Ouvidoria Feminina! Estamos todas juntas contra o machismo na universidade (e em qualquer lugar).
Instagram: ouvidoriafeminina
Contato: (31) 988667678
E-mail: ouv.femininaufop@gmail.com
Por Maria Clara Soares
