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Miradas da infância

Cartaz da mostra. Arte: Bento Vital. 
Programação completa. Olhar para as infâncias e pensar como elas mesmas imaginam o mundo. Essa é a proposta de Miradas da infância, mostra cinematográfica do projeto Ariadnes, que vai exibir longas-metragens protagonizados por meninos, meninas e menines e que apresentam perspectivas infantis sobre o mundo, ainda que esses filmes sejam dirigidos por adultas e adultos. Essas miradas se cruzam com questões sobre gênero, raça, sexualidade, etnia, região: quem são as crianças que o cinema nos mostra? Quais são e como são as infâncias pensadas ou lembradas pelos olhares adultos?
Programação
08/5: A princesinha
A little princess, Alfonso Cuarón, 1995
Adaptado do romance de Frances H. Burnett, o filme narra a história de uma órfã exposta a abusos em um internato de Nova York no início do século XX, após a morte de seu pai na Índia.15/5: Onde fica a casa do meu amigo
Khane-ye doust kodjast? , Abbas Kiarostami, 1987
Mistura entre ficção e documentário, o filme conta a história de Ahmed, que pega por engano o caderno de seu amigo e precisa devolvê-lo para evitar que o menino seja punido na escola, caso não leve o dever de casa.22/5: Meu pé de laranja lima
Meu Pé de Laranja Lima, Marcos Bernstein, 2012
Diante de uma realidade dura e da falta de afeto, o pequeno Zezé usa a imaginação para transformar um pé de laranja lima em seu refúgio e confidente. Entre travessuras e descobertas, ele encontra na amizade improvável com o “Portuga” o verdadeiro significado de ser amado. Baseado no clássico de José Mauro de Vasconcellos, o filme é um retrato poético e visceral sobre a infância e o momento em que a fantasia de ser criança dá lugar ao amadurecimento. Uma experiência obrigatória e emocionante que abraça qualquer um que assiste.29/5: O túmulo dos vagalumes
Hotaru no haka, Isao Takahata (Studio Ghibli), 1988
A animação percorre os desafios vividos por Seita, um adolescente de 14 anos e sua irmã Setsuko, de quatro anos, que depois de perderem seus pais precisam encontrar meios de sobreviver no Japão pós Segunda Guerra Mundial.12/6: Conta comigo
Stand by me, Rob Reiner, 1986
“Conta Comigo” é uma adaptação da novela “O Corpo” de Stephen King. O filme conta a história de quatro garotos que, ao descobrirem o desaparecimento de um menino em sua cidade natal, a fictícia Castle Rock, decidem ir à procura de seu paradeiro. Durante a busca, os amigos acabam vivendo uma aventura repleta de desafios e reflexões.”19/6: Close
Close, Lukas Dhont, 2022
Close é um drama belga que retrata a história de dois amigos inseparáveis, Léo e Rémi, de 13 anos, que veem sua relação mudar devido à pressão social. Sensível e impactante, o longa-metragem acompanha as consequências desse rompimento, abordando, desde cedo, temas como masculinidade tóxica, amizade e perda.26/6: Marte Um
Marte Um, Gabriel Martins, 2022
A partir das tensões políticas que se estabelecem no país após a eleição de um presidente de extrema-direita, Marte Um (2022) traz a história dos Martins, uma família negra de classe média-baixa que vive na periferia de Contagem, região metropolitana de Belo Horizonte. Sob um olhar sensível, a obra tece, a partir do acompanhamento de um cotidiano simples, múltiplas histórias que evidenciam a esperança frente a uma desigualdade social que sufoca sonhos.3/7: Lindinhas
Mignonnes, Maïmouna Doucouré, 2020
No longa acompanhamos Amy, uma menina de 11 anos de origem senegalesa que vive em Paris. Dividida entre dois mundos contrastantes — os valores tradicionais de sua família e a cultura influenciada pela internet —, ela se aproxima de um grupo de dança local, passando a explorar questões relacionadas à sua identidade, à descoberta da sexualidade e à hipersexualização infantil frequentemente presente nas redes sociais.- As sessões são gratuitas e acontecem sempre às 9h, na sala 207 do ICSA;
- Todas as sessões serão seguidas de uma conversa;
- Haverá emissão de certificados para quem comparecer a 75% das sessões.
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Mulheridades nos ensinam: live sobre racismo, sexismo e transfobia no ambiente acadêmico

Imagem: Captura de Tela da Live. Disponível em:
Live: Racismo, sexismo e transfobia no ambiente acadêmicoNo Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra e Dia Internacional da Mulher Negra Latino Americana e Caribenha, 25 de julho, foi ao ar a segunda live da campanha #AssédioZero, da Rede Brasileira de Mulheres Cientistas. Data mais que simbólica nesse país de tantas representações, que foi citada pelas participantes logo no início da conversa.
As professoras presentes foram Joyce Alves, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), e Viviane Japiassú, que dá aulas no Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ) e na Universidade Veiga de Almeida (UVA). O papo foi mediado por Rosângela Hilário, da Universidade Federal de Rondônia (UNIR). Essa live não estava no script original do cronograma da rede, mas, felizmente, as pesquisadoras tiveram esse momento tão importante de conversa sobre mulheridades do “não lugar”.
Ao falar em mulheres e/ou pessoas do “não lugar” ou das que não são nem mesmo o “outro”, de Simone de Beauvoir, elas debatem sobre racismo, sexismo, transfobia e assédio partindo de uma perspectiva muito interessante, a interseccionalidade. Pois, como afirma Viviane, é impossível colocar todos os temas sobrepostos, já que assim ficaria difícil de distinguir quais são as afetações enfrentadas por essas mulheres/grupos.
É preciso identificar e saber que ferramentas utilizar contra cada tipo de preconceito, tendo em vista sempre a não hierarquização das opressões, como colocado por Audre Lorde e citado na conversa das pesquisadoras:

Imagem: Captura da Tela da Live. Esse tipo de pensamento é fundamental para relacionar raça, classe, sexualidade, gênero e todos os tipos de recortes, uma vez que não os entendemos como superiores e/ou mais importantes em relação aos outros, mas sim novos fatores a serem pensados. O que significa que podem ser colocados como “camadas”, que, no caso do tema desse bate-papo, são camadas que são quase inexistentes para a sociedade.
Quando as participantes falam em “mulheridades”, elas consideram todas as pessoas que performam o papel de gênero feminino, como mulheres trans e travestis, mulheres pretas e quilombolas, indígenas, etc. Justamente esse grupo é colocado como “base” da pirâmide social – considerando um homem branco cis hétero como topo – ou, muitas vezes, nem mesmo pertence a essas classificações.
Elas falam sobre a conquista desses lugares de existência, dentro e fora da academia, em que não existem representantes para essas mulheres, muito menos quando elas precisam de algum suporte. O que gera desistência e/ou inexistência desses corpos inseridos em universidades públicas ou privadas, pós-graduação, docência e posições de liderança. Se os debates de entre homens e mulheres (cis) já foram ampliados, é hora de ampliar e pensar soluções para pessoas trans, pessoas pretas, pessoas com deficiência e todas as demais, aplicando a devida interseccionalidade, claro.
Rosângela coloca, com veemência, a academia como esse local de pessoas brancas, cis e heternormativas, em que não é interessante alterar essa estrutura, afinal, quem quer abrir mão de seus privilégios? Ninguém. Portanto, são barreiras imensas a serem quebradas por essas mulheres, que são o “não lugar” ainda.
A não existência de dados sobre quantas pessoas trans existem no Brasil é absurda. Além disso, a falta de dados e recortes de raça, gênero e sexualidade só atrasa o processo de melhoria e possibilidade de existência dessas pessoas todos os dias. Joyce destaca um ponto importante em sua fala: “Não sou livre enquanto outra mulher for prisioneira. Mesmo que as correntes dela sejam diferentes da minha. Oh, Tereza de Benguela, nosso espelho ancestral, sua alma ainda vive, e entre nós, é maioral! Nós honramos sua luta, sua força atemporal.”
Com isso, ela discute bastante a questão de que, antes de chegar e citar a universidade/academia, é preciso muita luta anterior. Muitas dessas mulheres ainda vivem em serviços análogos à escravidão, não têm acesso a educação de qualidade, saneamento básico e tantos outros direitos. É preciso complexificar o tópico e entender que ele não está no mesmo patamar que o feminismo branco, cis e hétero, é muito além disso.
A Lei Maria da Penha (n. 11.340) completou 17 anos recentemente e é uma das referências na legislação contra violência contra a mulher. No entanto, onde estão as políticas públicas para essas pessoas discutidas na live? O que está reservado para elas? A importância da ciência e da política serem diversas é essencial para essas populações subjugadas o tempo inteiro.
As hierarquias massacram no mercado de trabalho, nas escolas, nas universidades e em qualquer lugar existente. Dessa forma, é preciso garantir paridade e equidade para, a partir daí, haver efetividade nas ações. Além disso, Joyce ressalta a importância da democratização do acesso, para que não só pós-graduandas consigam compreender, mas também funcionárias terceirizadas que atuam nesses espaços.
Serviços:
Título da Live: “Racismo, sexismo e transfobia no ambiente acadêmico”
Participantes: Viviane Japiassú Viana, Joyce Alves e Rosangela Hilário.
Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=cTTkS7bDUss
Minha classificação : A live aborda temas difíceis e sensíveis, com representações de violência e assédio. Não é indicado assistir com crianças.
Por Lia Junqueira.
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‘Close’ e a masculinidade tóxica que mata

Leo e Remi, personagens principais, abraçados. Imagem: Cartaz de Divulgação do filme. Aviso de Gatilho: este texto fala sobre suicídio.
A história de Close é dilaceradora do início ao fim. São muitas expectativas, muitos desenrolares e uma experiência – incrível – sobre as dores do crescimento com esse drama belga de 2022. O filme conta a trajetória de amizade de dois pré-adolescentes, Leo e Remi, ambos de 13 anos, e como ela foi subitamente interrompida. Dirigido por Lukas Dhont, cineasta belga que já explorou temática de gênero e sexualidade outras vezes, como em “Girl – O Sonho de Lara”.
O filme se passa em uma área rural europeia, em que os dois meninos eram amigos muito próximos, passavam tempo juntos brincando, correndo, andando de bicicleta, dentre outras atividades. Eles eram, inclusive, muito próximos fisicamente, dormindo juntos, demonstrando afeto e carinho, o que era completamente comum e visto sem julgamentos por suas famílias.
Ao iniciar um novo ano letivo, esse contato íntimo entre os dois começa a ser observado por colegas de classe, que os questionam sobre suas sexualidades e relação tão próxima, o que é visivelmente uma prática de bullying com eles. A partir disso, é possível perceber a separação entre os dois personagens, em que a amizade fica abalada por comentários homofóbicos e sexistas – no sentido de podar a demonstração de sentimentos por se tratar de dois meninos. No entanto, fica nítido que Leo tenta se desvencilhar desse local sensível, realizando outros comportamentos mais “másculos”. Enquanto, ao contrário disso, Remi mantém-se carinhoso e se vê em uma série de tentativas para continuar com sua amizade, porém, fica sem resposta.
Esse processo é muitíssimo complicado pois, como Raí Carlos Marques e Fátima Niemeyer colocam em seu artigo “Os impactos da masculinidade tóxica no bem-estar do homem contemporâneo: uma reflexão a partir da Psicologia Positiva”, “logo ao nascer a observação das genitais suplanta qualquer outra preocupação com as necessidades do recém-nascido, criando, desde o primeiro momento, uma série de expectativas quanto ao comportamento esperado dele, e formando, a partir destas, a subjetividade que irá moldá-lo, de forma tão sutil a ponto de ser naturalizada. Com isso, desde pequenos os meninos já carregam a carga do que se espera deles no futuro; ouvindo frases como ‘homem não chora’, ‘aja como um homem’, ‘parece mulherzinha’, ‘filho meu tem que ser pegador’”.
Sendo assim, a intensa confusão gerada no imaginário de meninos que não correspondem às expectativas colocadas para eles, assim como a dupla de Close, gera impactos irreversíveis. À medida em que Leo afasta-se de Remi, gera um misto de sentimentos diferentes para cada um; enquanto o primeiro tem acessos de raiva e certos comportamentos agressivos, o segundo fica triste e acuado.
Em um dia de passeio da escola, Leo percebe a ausência de seu amigo, mas não imagina que, ao retornar à escola seria recebido com a notícia da morte de Remi. As mães de todos os alunos estão presentes na escola, devido à tristeza e comoção pela perda de um jovem da pequena comunidade. No entanto, não é possível conter essa miscelânea de sentimentos sentida pelo melhor amigo e parceiro de Remi.
Lidar com os sentimentos de uma criança que está, obviamente, em processo de construção de sua identidade e passando por um trauma é algo muito bem explorado nesse filme. Acredito que, ao colocar essa confusão de sensações após a perda de seu melhor amigo e lidar com uma certa “culpa” – falo aqui da sensação gerada pelo filme –, misturada com a raiva e impotência desse acontecimento, é interessante observar o poder dos discursos da masculinidade tóxica em crianças.
Ao me referir à masculinidade tóxica, falo de muitos dos ideais que compõem a personalidade e caráter masculinos, em como eles vão se portar frente a sociedade, como vão se relacionar – seja em uma relação amorosa, heteronormativa ou não – e como isso é problemático não só para quem lida com esses homens, mas para eles próprios. Esse tipo de comportamento “tóxico” é refletido em todas as instâncias de suas vidas, pois, ao não expor seus sentimentos, pelo medo da vulnerabilidade, por exemplo, é uma questão que afeta diretamente a vivência dos homens, os faz adoecer – muitas vezes, literalmente.
A necessidade de mostrar uma virilidade invencível é catastrófica, mesmo para crianças, como no caso de Close, em que Remi se coloca nesse local de vulnerabilidade mas não é correspondido e nem acolhido. Enquanto isso, Leo o bloqueia e se auto-bloqueia, com seus medos, inseguranças e desejos de mostrar quem é, tudo isso reprimido por essa masculinidade.
A morte de Remi, dessa forma tão violenta e cruel, nos mostra exatamente como esse conjunto de comportamentos imposto aos meninos em formação, – e, claro, homens adultos – é extremamente perigoso para a sanidade mental e integridade física, tornando a vida questionável.
O filme aborda a infância e início da adolescência mesclando o tema com a sexualidade, o que ainda é pouco falado. É interessante representações diversas para esse público, que está em um momento de descobertas intensas.
Serviços:
Classificação Indicativa: 12 anos (A12)
Gênero: Drama
Onde assistir: Mubi
Minha Classificação: Não indico o filme para crianças e adolescentes, ele trata de temas sensíveis como bullying e suicídio. Até mesmo para pessoas adultas, pode ser muito pesado ao tratar do processo de descoberta, sendo LGBTQIA+, e suas afetações.
Minha Classificação Indicativa: 16 anos (A16)
Gatilhos: o filme trata de suicício.
Por Lia Junqueira
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Entre a realidade e a ficção: “Eu não sou um homem fácil”

Créditos da imagem: cena do filme Eu não sou um homem fácil é um filme francês, lançado em 2018 pela plataforma Netflix e dirigido por Eléonore Pourriat. Com 98 minutos de duração, a produção é classificada como comédia romântica e envolve todo um cenário de crítica à sociedade patriarcal e misógina em que vivemos.
A trama gira em torno da mudança de perspectiva que Damien (Vincent Elbaz) sofre ao bater a cabeça em um poste: antes, ele vivia em um mundo machista e protagonizado por homens, mas agora se vê em uma realidade invertida, na qual as mulheres estão no controle. No novo mundo, as mulheres é que ocupam os lugares de chefia e assediam os homens oferecendo vantagens no trabalho em troca de sexo.
Damien começa a ficar desesperado quando percebe que preocupações tidas pelas mulheres em seu mundo agora são dos homens: eles se sentem pressionados a depilar o corpo e participam de movimentos “masculinistas” em prol do fim da desigualdade de gênero. Além disso, usam roupas decotadas e têm seus corpos frequentemente sexualizados, enquanto as mulheres estão mais cobertas por calças e blazers.
O protagonista se apaixona por Alexandra (Marie-Sophie), que, no mundo matriarcal, é sua versão feminina: relaciona-se com vários homens, assedia-os e os trata como conquistas sexuais. Ao longo do filme, Damien tenta explicar a realidade patriarcal de seu mundo para Alexandra, que sequer consegue imaginar uma realidade na qual as mulheres são vistas como símbolo de fragilidade.
De maneira crítica e irônica, a produção traz as mulheres como o “sexo forte” e novas narrativas são criadas: elas são escolhidas para gestar devido à sua força natural, mas os afazeres domésticos e a criação dos filhos ficam por conta dos homens. Nesta realidade, elas correm pelas ruas sem camisa com a tranquilidade de que não serão assediadas.
A crítica pode ser percebida até no próprio nome do filme, uma vez que foi feito um trocadilho com a frase popularmente conhecida direcionada às mulheres “não seja uma mulher fácil”. Essa advertência é utilizada para repreendê-las sexualmente e, geralmente, é acompanhada de outras falas, como: “se você for fácil, ninguém vai te querer/valorizar”, passando a mensagem de que as mulheres têm que reprimir seus desejos, enquanto os homens, quando têm o mesmo comportamento, são vistos positivamente como “garanhões”.
Nos últimos minutos do filme, Alexandra sofre um golpe e, quando acorda, depara-se com a realidade que Damian tanto falou (e essa nós, infelizmente, conhecemos bem), em que as mulheres são submissas no trabalho, no lar, e são vítimas de assédios e abusos. A personagem também se choca com as roupas curtas e sensuais que as mulheres usam, uma vez que, no seu mundo, eram os homens que se preocupavam com a estética e em ficar atraentes.
O objetivo principal do filme é criticar o patriarcado e trazer o questionamento do porquê a estranheza do cenário de submissão é válida apenas para quando os homens são inferiorizados. Afinal, lidamos com esse mesmo contexto na nossa sociedade, mas com as mulheres vivendo essa subalternidade, que, infelizmente, foi naturalizada e vista como histórica e normal.
Um exemplo dessa estranheza é na cena em que Damien é assediado física e verbalmente em um bar: violência que, fora da ficção, inúmeras mulheres sofrem todos os dias. Ao final da trama, é possível perceber que uma sociedade matriarcal seria tão ruim quanto a patriarcal, uma vez que qualquer contexto em que apenas um dos gêneros detenha do poder e seja beneficiado em detrimento do outro será desfavorável.
Além disso, podemos perceber que uma simples “inversão” ou “espelhamento” não seria a solução para resolver o problema da desigualdade de gênero, apenas trocaria de questão. Neste caso, se pudéssemos escolher uma realidade, como foi feito no longa, o ideal seria uma em que não houvesse desigualdade nem privilégios em relação a um gênero e, para isso, seria (e é) necessário mudar toda uma estrutura machista e patriarcal, que traz inúmeros malefícios à sociedade.
Por Maria Clara Soares
Serviço:
Título original: Je Ne Suis Pas Un Homme Facile
Onde assistir: Netflix
Classificação indicativa: 14 anos (A14)
Classificação da autora:
14 anos (A14)
Justificativa: cenas de sexo, violência e preconceito explícitas. A narrativa também exige um certo pensamento crítico, que a partir de 14 anos, o indivíduo conseguiria compreender melhorGênero: Comédia romântica
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Uma história de luta e resistência: Elisa y Marcela

Créditos da imagem: cena do filme Elisa y Marcela é um filme espanhol, lançado em 2019 pela Netflix e dirigido por Isabel Coixet. Com 113 minutos de duração, o longa é baseado na história real de Elisa Sánchez Loriga e Marcela Gracia Ibeas, um casal lésbico que enfrentou o preconceito e as adversidades para ficarem juntas no contexto de uma sociedade extremamente homofóbica do século XIX.
Inspirada no livro do escritor Narciso de Gabriel e por uma viagem feita à Galicia, comunidade autônoma espanhola, Isabel promete trazer à tona o legado e contar a história dessas duas mulheres, que foram o primeiro e único casal homossexual a se casar pela Igreja Católica. A diretora lança o filme no Festival Internacional de Cinema de Berlim e em alguns cinemas da Espanha antes de chegar na plataforma de streaming.
A trama gira em torno do romance sáfico entre Elisa (Natalia de Molina) e Marcela (Greta Fernández), e da violência e exclusão social que elas sofrem ao afirmar esse amor entre mulheres. As duas se conheceram numa escola de freiras em que Elisa era uma das professoras e, Marcela, aluna. O preconceito já começa quando o pai de Marcela percebe que há um carinho entre elas e, após ver um beijo na bochecha, dá um tapa na filha. Em seguida, a manda para um colégio interno em Madrid para mantê-la longe da companheira.
Três anos se passam… elas se reencontram e começam a morar juntas, mas, neste momento, sofrem com os comentários homofóbicos da comunidade, que desconfia que elas sejam um casal. Então, Elisa decide se passar por homem com a identidade de seu primo, Mario, que havia falecido há alguns anos e, assim, poder se casar e ficar junto de sua amada. A esta altura, Marcela tinha engravidado – o pai não é mencionado no filme – para dar mais credibilidade à farsa da identidade de Mario.
Ele, então, conversa com o padre e o convence a casá-los na Igreja Católica, com a desculpa de que sua mulher estava grávida e, por isso, tinham que adiantar o casamento. Após a cerimônia, a comunidade começa a desconfiar que Mario é Elisa disfarçada e denuncia a união, que é até publicada no jornal com a manchete “O casamento sem homem”. A história repercute tanto que chega a toda a Espanha, França e Portugal.
Como consequência, o casal é excomungado da Igreja Católica, e Mario é submetido a um exame extremamente invasivo para “checar” seu gênero baseado em percepções estritamente biológicas. A saída que encontraram foi fugir para Portugal, mas foram detidas pouco tempo depois. Na cadeia, Marcela deu à luz à sua filha Ana (Sara Casanovas), que depois é deixada para ser criada por um casal que as ajudou a fugir para a Argentina.
A narrativa começa e termina com o encontro de Ana, já adulta, e sua mãe. Nas cenas, Ana questiona Marcela, agora uma senhora de idade, se passar por todo esse preconceito, violência e abandonar sua própria filha valeu a pena para ficar com Elisa. A mãe da menina não responde, mas vai ao encontro de sua esposa em seu cavalo branco, dando a resposta implícita de que “sim”, valeram a pena todos os sacrifícios para ficar com a mulher que ama.
O filme faz uma crítica à sociedade homofóbica que reprime, violenta e invalida as relações homoafetivas, que, infelizmente, são alvo de preconceito e discriminação até os dias atuais. No final do longa, são mostradas informações chocantes a respeito da perpetuação da homofobia ao decorrer dos anos: o casamento gay, por exemplo, só é permitido em 25 países hoje em dia, e em 72 países a homossexualidade é punida com prisões e penas de morte.
Mesmo com todos esses empecilhos, o casamento de Elisa e Marcela foi símbolo de resistência e nunca conseguiu ser anulado. Hoje, Corunha – província onde moravam – tem uma rua com seus nomes, para que, apesar das tentativas de apagamento e deslegitimação pelos homens que se consideravam donos das histórias, da ciência e das relações, o legado das mulheres que amaram umas às outras jamais seja esquecido.
Produções como essa, em que os crimes do passado por intolerância são exibidos, são extremamente importantes para a construção de uma sociedade mais instruída e consciente, para que, no futuro, as famílias homossexuais sejam respeitadas e validadas, e amar seja permitido independente do gênero.
Por Maria Clara Soares
Serviço:
Título original: Elisa y Marcela
Onde assistir: Netflix
Classificação indicativa: 18 anos
Classificação indicativa da autora: 14 anos. Justificativa: O filme tem cenas de sexo explícitas e aborda violências que podem gerar gatilhos
Aviso de gatilho: este texto aborda questões de homofobia
Gênero: Drama, Romance
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As violências sofridas por Audrie, Daisy e inúmeras outras

Lançado em 2016 pela Netflix, o documentário Audrie e Daisy conta as histórias de violência sexual que Audrie Pott, uma estudante de 15 anos da Califórnia, e Daisy Coleman, de 14 anos, de Maryville, sofreram. Além disso, a produção também traz à tona relatos de diversas mulheres que passaram pelo mesmo tipo de violência, e traz entrevistas com alguns dos próprios abusadores escondidos sob pseudônimos.
Audrie Pott era uma menina doce e gentil, filha de pais divorciados. A jovem tinha alguns problemas de autoestima e, por isso, usava diversas camadas de roupa e era muito reservada. Em setembro de 2012, foi a uma festa em que alunos de sua escola também estariam. Lá – como a maioria dos adolescentes dessa idade – a menina consumiu álcool e ficou em estado vulnerável. Após perceberem isso, seus colegas se aproveitaram da situação e abusaram da menina.
Os 3 abusadores não tiveram suas identidades reveladas devido ao fato de serem menores de idade, mas desenharam por todo o seu corpo – inclusive nas partes íntimas – frases extremamente desrespeitosas e perturbadoras, como “fulano esteve aqui” e “mais forte”. Não satisfeitos, violentaram-na com objetos, tiraram e espalharam fotos do corpo desenhado da vítima para humilhá-la ainda mais.
Audrie acordou depois do ocorrido e não se lembrava de nada, mas estranhou os desenhos no corpo e sabia que algo muito errado tinha acontecido. Na escola, notou que as pessoas a olhavam diferente, e uma busca feita em seu computador revelou que a menina tinha implorado aos abusadores para que contassem o que tinha se passado naquela noite, e também que apagassem as fotos que haviam tirado.
A menina não aguentou tanta humilhação e tirou sua própria vida 10 dias depois, em 12 de setembro de 2012. Enquanto isso, os garotos responsáveis receberam de 30 a 45 dias de detenção e puderam continuar frequentando a escola normalmente. Os pais da vítima recorreram por uma pena maior, mas perderam o processo em razão da idade dos criminosos. Então, eles criaram a fundação Audrie Pott, para ensinar jovens sobre consentimento e tentar diminuir casos de abuso sexual.
No mesmo ano, Daisy Coleman, uma garota de 14 anos do Missouri – que já tinha perdido o pai em um acidente de carro alguns anos antes – foi estuprada por Matthew Barnett. Tudo começou em uma noite de janeiro de 2012, quando Daisy e sua amiga Paige, de 13 anos, estavam bebendo em casa, e os amigos de seu irmão as chamaram para beber com eles. Elas, que se consideravam estranhas e excluídas, ficaram deslumbradas com o convite dos jogadores populares.
Chegando lá, as meninas consumiram álcool e ficaram muito bêbadas, quando, então, foram abusadas sexualmente. Daisy foi estuprada por Matthew e deixada na porta de sua casa vestindo uma camiseta, num frio de 5 graus negativos. A mãe da menina, Melinda Coleman, a encontrou e, ao dar um banho quente na filha, percebeu que seu corpo estava muito vermelho, além de suas partes íntimas inchadas. Foi quando a levou para o hospital e, lá, confirmaram sua suspeita: Daisy tinha sido estuprada.
Além disso, depois do ocorrido, descobriram que Jordan Zech, também amigo de seu irmão, tinha filmado o abuso. Daisy e sua família registraram um boletim de ocorrência, mas Matthew era de uma família influente e, por isso, quase não foi penalizado: foi condenado a 4 meses de prisão, que depois foi alterado para 2 anos de liberdade condicional. O xerife considerava que já tinha feito muito e que não havia provas suficientes para caracterizar o ocorrido como estupro. No próprio documentário ele afirma: “As garotas têm tanta culpa quanto os garotos nesse mundo”.
Enquanto isso, devido à popularidade e posição privilegiada do violentador, Daisy era xingada e difamada constantemente, além de ter sido taxada como mentirosa. A menina foi tão retalhada que as pessoas criaram uma hashtag no twitter chamada “Daisy é uma mentirosa”. Ela foi suspensa da equipe de líder de torcida, desenvolveu um quadro de depressão e tentou tirar a própria vida inúmeras vezes. Não só a vítima foi penalizada, mas sua família também: Melinda foi demitida do emprego e eles tiveram a casa incendiada.
Após sofrer tantas injustiças, em 4 de agosto de 2020 – 4 anos após o documentário – Daisy, com apenas 23 anos, tirou sua própria vida. Amigos relataram que poucas semanas antes, ela tinha descoberto que, em razão do estupro sofrido, não poderia ter filhos. Eles contam que esse diagnóstico foi muito impactante para a vítima, pois evidenciou ainda mais o quanto o abuso tinha sido brutal.
Além disso, Daisy reclamava que estava sendo assediada por um homem, que invadiu e tinha as chaves de sua casa. Ela confidenciou que estava constantemente amedrontada: não conseguia comer e nem dormir. Apesar de ter denunciado, a polícia avaliou que a garota estava segura.
Melinda, com seus 58 anos, também tirou a própria vida 4 meses após a morte da filha. Poucas horas antes de falecer, postou em suas redes “não há eu te amo suficiente que eu poderia ter dito enquanto segurava seu corpo sem vida e frio. Sempre foi um orgulho ser sua mãe e melhor amiga”. Melinda também relatou em uma matéria feita logo após a morte de Daisy que não poderia viver sem a filha, e que achava que tinha falhado muito com ela.
Matthew, na época com 26 anos, foi questionado sobre como se sentia com a morte de Daisy e de sua mãe. A resposta foi: “Realmente não tenho nenhum comentário, é muito triste”.
Esses casos são reflexos do quanto, devido a um sistema patriarcal e misógino, os homens se acham donos e proprietários dos corpos femininos, do quanto os consideram objetos sexuais descartáveis e insignificantes. Além disso, a necessidade – tão frequente em casos de violência contra a mulher – de expor, ridicularizar e humilhar as vítimas se dá em razão de satisfazer o desejo masculino em inferiorizar e tornar a vítima submissa.
Casos como esses exemplificam o quão devastador é um abuso sexual, as consequências físicas e psicológicas que as mulheres carregaram são extremamente severas. E, infelizmente, embora os exemplos contados aqui sejam de mais de 10 anos atrás, atualmente a situação continua a mesma: no Brasil, segundo uma notícia divulgada pelo G1 em 2021, uma mulher é vítima de estupro a cada 10 minutos. Dados extremamente preocupantes, evidência de como a mulher ainda é objetificada em pleno século XXI.
Por Maria Clara Soares
Serviço:
– Título original: Audrie e Daisy
– Onde assistir: Netflix
– Classificação indicativa: 16 anos
– Aviso de gatilho: este texto aborda questões de estupro, abuso sexual e suicídio
– Gênero: Documentário
Links utilizados no texto:
Vídeo sobre o caso de Audrie:
Vídeo sobre o caso de Daisy:
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O mês do orgulho LGBTQIA+ na mídia brasileira

6ª Marcha Trans da Cidade de São Paulo, em junho de 2023. Direitos da imagem aqui. Em 28 de junho de 1969 aconteceu uma rebelião em Nova York, conhecida como revolta de Stonewall, que foi ocasionada pela reação de um grupo de homens homossexuais contra a violência policial. Nesta época, muitos estabelecimentos que tinham como público pessoas LGBTQIA+ eram perseguidos e atacados pela polícia. Mas em uma noite num bar gay, chamado Stonewall Inn, os clientes se recusaram a serem revistados pela polícia sem motivos. O que desencadeou em uma confusão e mais tarde em revoltas que duraram 5 dias até serem contidas. A partir daí a luta pelos direitos LGBTQIA+ ganharam mais visibilidade e reconhecimento.
Por isso, junho é considerado o mês do orgulho e dia 28 é considerado o dia do orgulho LGBTQIA+ em diversos países. Essa data é marcada por passeatas e discussões em prol dos direitos e conquistas desta população.
Com o objetivo de mapear como a mídia brasileira discutiu e deu visibilidade a data,importância e necessidade dessas discussões, fizemos um apanhado de notícias e reportagens de diversos veículos de informação publicadas no mês do orgulho LGBTQIA + no ano de 2023.
No nosso mapeamento, a maioria dos conteúdos foram indicações de obras artísticas com protagonismo LGBTQIA+, enfatizando a importância de consumi-los. Também há conteúdos informativos sobre a situação da população queer na legislação brasileira. Na lista abaixo, tem conteúdos que vão de indicação de livros, séries e filmes a reportagens sobre iniciativas e os avanços nas leis pró-LGBTQIA+ no Brasil.
Indicações:
Melhores finais de filmes LGBTQIA+ do séc. XXI, segundo o site de cinema IndieWire: Agência Diadorim
A mídia pode ser uma ajudante para entender e reconhecer desejos que já estavam ali. Funcionários do them escolheram filmes que os “tornaram” queer: Filmes que nos deixaram gays – them
Talles Rodrigues sugere HQs nacionais com temática LGBTQIA+: Nexo
Cinco livros para entender o movimento LGBTQIA+ no Brasil: Agência Diadorim
7 livros recentes com temática LGBTQIA+ para ler no Mês do Orgulho: Revista O Grito
Artistas LGBTQIA+ contam porque acreditam na arte como estratégia para recriar imaginários sobre a comunidade: Revista Afirmativa
Avanços para a população LGBTQIA+ na legislação brasileira:
Parlamentares propuseram cerca de 4 leis pró-LGBTQIA+ por mês, desde 2019: Agência Diadorim
Governo federal lança ações e iniciativas interministeriais voltadas à população LGBTQIA+: sul21
Dados sobre violência contra pessoas LGBTQIA+:
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Por Ana Luiza Rodrigues
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A Hora da Estrela – Quais são os corpos válidos nesse mundo?

Cena do filme de 1985 de Suzana Amaral “A hora da estrela” é uma obra ficcional escrita por Clarice Lispector, publicada em 1977, que ganhou adaptação para o cinema em 1985, o longa foi dirigido por Suzana Amaral, e teve roteiro produzido por ela em conjunto com Alfredo Oroz, e também com a autora deste livro clássico da literatura brasileira. A obra narra a história de Macabéa, uma jovem datilógrafa de 19 anos, vinda de Alagoas para São Paulo. Ela é órfã e foi criada por uma tia que morreu há pouco tempo, e com quem tinha uma relação complicada, por sofrer muitas repressões. Agora, Macabéa se vê sozinha enquanto tenta viver em uma das principais capitais do país, e nós acompanhamos suas desventuras pela voz de Rodrigo S., que é o personagem que escreve sobre ela e que se intitula como a única pessoa que a ama.
A protagonista é vista como alguém sem valor, que não tem noção de quem é, não consegue fazer nenhuma tarefa direito, e que sempre se desculpa pelo espaço que ocupa no mundo. Ela diz não se sentir muito como gente, e de fato nunca é tratada como tal. Está prestes a ser demitida de um emprego que não paga nem salário mínimo, porque apesar de se esforçar com o pouco que sabe, não consegue executar o trabalho da forma esperada pelos seus chefes.
Ao longo da trama a jovem conhece Olímpico, um homem vindo da Paraíba com quem passa a ter um envolvimento amoroso, mas a relação entre os dois é turbulenta e cheia de violências psicológicas dele para com ela. Macabéa é uma mulher que tem curiosidade pelo mundo, quer entender como tudo funciona, por isso está constantemente fazendo perguntas que Olímpico não sabe responder. E isso faz com que ele se irrite profundamente, e sempre a alerte de que curiosidade demais não é bom para uma mulher “direita”.
A narrativa mostra a protagonista sendo constantemente questionada sobre quem ela é como pessoa, e principalmente como mulher, como se a forma como ela é rompesse com o resto do mundo, e isso fizesse dela menos “gente”. Através disso, voltamos a Butler no livro “Quadros de Guerra” publicado em 2009, e seus questionamentos sobre quais corpos são vistos como válidos e importantes. Macabéa é uma mulher nortista, de classe baixa, que vive sozinha, e que não teve acesso a muitos conhecimentos comuns às pessoas ao seu redor na capital, e essas diferenças são intrínsecas à forma como ela se constrói ao longo de sua vida.
Os caminhos perpassados pela interseccionalidade de elementos que compõem a protagonista como pessoa e como mulher, estão presentes nos modos como ela vai ser vista pelo mundo. Ela é frequentemente vítima de xenofobia, misoginia e outros preconceitos diversos por conta da forma como vive, mas Macabéa é apaixonada pela vida e por descobrir coisas novas, e por isso não se deixa abater. Ao longo da trama, vemos a elaboração de uma vida tida como precária pela forma como é enquadrada por quem a enxerga diariamente. As pessoas ao seu redor a diminuem, e ela se vê apenas no papel de tentar se desculpar e melhorar as coisas na medida do possível.
Ao fim, Olímpico termina com ela, mas não sem antes agir com desprezo para com Macabéa, dizer que a jovem lhe custou muito pouco, que é como um cabelo na sopa, e que ela “não dá vontade de comer”, tudo isso para atingi-la em um golpe final, e ir ficar com uma amiga da protagonista. Macabéa se vê sozinha, e decide buscar ajuda em uma cartomante que prevê uma virada completa em sua vida, vê a vinda de um homem que irá mudar a sua vida, vê dinheiro e felicidade bem próximos. Mas ao sair de lá, a personagem morre e tem o único momento de glória de sua vida, seu momento de estrela, seu momento de parar de sofrer.
Tudo o que acontece nessa história nos leva a refletir sobre quais corpos são tratados como válidos ou não. Macabéa é despersonalizada durante toda a trama, tida como alguém que não traz nenhum benefício ao mundo, por isso é constantemente maltratada pelas pessoas ao seu redor, como se seu modo de viver desse “passe livre” para a tratarem mal. Especialmente por Olímpico, que apesar de dividir muitas características semelhantes com ela – como o fato de ser de fora da região sudeste, sendo um nordestino de classe baixa que também não conhece muito sobre o mundo -, age como se fosse superior a ela, como se pudesse a tratar de qualquer jeito, e assim a diminuir.
O único momento glorioso da vida de Macabéa acaba sendo o momento em que sua vida se extingue, porque esse é o momento em que seu corpo ganha paz, e para de ser maltratado. O que nos leva a Butler novamente, as formas como o mundo em que vivemos, é capaz de transformar certas vidas em precárias através das desigualdades, e fazer com que seus corpos sejam vítimas de preconceitos e má qualidade de vida. Macabéa é uma mulher que merecia viver tendo momentos de “estrela” quando quisesse, sem ser desmerecida diariamente apenas por ser quem ela era, porque seu corpo é um corpo válido, embora não fosse tratado como tal.
Por Lívia Labanca
Serviço:
Título original: A hora da estrela
Páginas: 88
Editora: Rocco
Ano de publicação da edição: 1988
Classificação indicativa: 12 anos (A12)
Gatilhos: Violência psicológica e xenofobia.
Classificações da autora:
14 anos (A14)
Justificativa: nível de violência psicológica e preconceitos exibidos ao longo da trama, não recomendado para crianças justamente por esse motivo. -
Adriana Negreiros: por uma ética feminista da narrativa testemunhal
Autora do livro A vida nunca mais será a mesma, a jornalista Adriana Negreiros conversa com o Ariadnes sobre violência contra mulheres, um projeto de jornalismo informado pelos feminismos e as dificuldades de produzir uma obra jornalística sobre uma experiência que ela compartilha com as personagens: a violência sexual.
Na obra, além de narrar sua história e a de outras mulheres, ela traça um panorama histórico que envolve legislação, Judiciário e política para demonstrar que, longe de ser um acontecimento individual, o estupro diz respeito a toda a sociedade.

A jornalista Adriana Negreiros. Foto: Divulgação/Penguin Random House Queria começar perguntando como você chegou nas histórias que você narra no livro, naquelas personagens?
Eu fiz um trabalho mesmo de investigação jornalística, de técnicas do jornalismo, pra encontrar aquilo que a gente chama nas redações de personagens, considerando o livro como uma grande reportagem. Estabeleci como um dos primeiros passos encontrar personagens que contassem aquela história para além da minha. Comecei a fazer a garimpagem de uma forma convencional para uma repórter. Na época eu tinha tido muito contato com grupos de leituras de mulheres e de livros escritos por mulheres, por causa do meu livro anterior [Maria Bonita: sexo, violência e mulheres no cangaço, de 2018].
E aí eu sabia, porque havia participado de alguns encontros, que, para além de discutir o livro em questão, havia uma espécie de terapia coletiva que acontecia ali. Especialmente porque Maria Bonita lidava com muitas questões íntimas, como violência sexual. Nesses encontros isso acabava por despertar nas participantes uma necessidade de contar essas histórias. Então um primeiro passo que adotei para encontrar os personagens foi pedir às organizadoras desses clubes de leituras que dissessem nos encontros que eu estava fazendo um livro sobre violência sexual e gostaria de ouvir histórias. A partir daí eu já consegui alguns personagens.
O segundo método foi perguntar para as pessoas conhecidas se conheciam alguém que estivesse disposto a contar essa história anonimamente. A partir daí consegui pelo menos uma personagem. E um terceiro caminho que adotei foi utilizar as redes sociais. Na época eu tinha um perfil no Facebook, escrevi que estava fazendo uma pesquisa sobre violência sexual e gostaria de ouvir mulheres, e assim também eu consegui outras histórias. Quando eu tinha um conjunto de histórias que não eram similares, que cada uma delas contava uma perspectiva da violência sexual, reuni essas histórias, as personagens que eu achava que eram as mais significativas, e comecei a fazer as entrevistas.
Claro que no processo de garimpar eu recebi muito mais ofertas de relatos do que pude usar. Tinha histórias que não eram exatamente aquilo que eu queria contar ou o que aconteceram num marco temporal que não pretendia abordar. Selecionei as que eu achava que diziam a respeito à história que eu pretendia contar.
Você tem mais ou menos noção de quantas mulheres chegaram a você?
Foram muitas. Até fiquei surpresa, foi muita gente. Especialmente quando eu coloquei no Facebook, porque tinha um alcance maior, muita gente me escreveu. Eu diria que 90% de mulheres. Houve também homens que me escreveram para contar que haviam sido vítimas de abuso sexual. Mas eu meu foco eram as mulheres, né? Então não fui adiante nessas conversas com os homens.
Tive que reduzir para um terço, talvez um quarto, do que tive de retorno e o que efetivamente utilizei no livro. Quando eu comecei a pesquisa pensei ‘Vai ser muito difícil encontrar quem queira contar a história’. E depois a dificuldade era filtrar aquelas que eu achava que tinham a ver com o livro. E também dizer para as pessoas que haviam se oferecido pra contar as histórias que infelizmente não poderia utilizar. Mas aconteceu o inverso do que eu imaginava, tive mais personagens do que eu tinha espaço para contar as histórias delas.
Imagino que não tenha sido um processo fácil entrar em contato com todas essas narrativas que chegaram para você.
Escrevi esse livro no auge da pandemia. Eu morava em Portugal e a gente estava bem confinado mesmo. Então foram nove meses do começo, do momento em que decidi escrever o livro, até entregar para a editora. Nove meses que eu não saía de casa, e fiquei muito absorvida pelas histórias. Foram nove meses assim, bem pesados, em relação aos temas.
Eu passava o dia inteiro envolvida com essa pesquisa. Os dias em que tinha que fazer as entrevistas eram os piores, porque eram relatos muito, muito complicados de ouvir. Muitas vezes, as personagens não conseguiram contar de primeira o que havia acontecido, elas pediam para que a gente conversasse depois, em outro momento, para que elas pudessem se recompor.
Todas as conversas, exceto uma, foram virtuais, por causa da pandemia e porque eu estava em Portugal. Uma das personagens por acaso morava em Portugal, uma brasileira que havia se mudado para lá, e com ela consegui conversar pessoalmente. Todas as outras foram virtuais, e foram conversas muito difíceis.
Tinha a dificuldade que era fazer a entrevista e a dificuldade maior, que era depois transcrevê-las. Eu ficava ouvindo aquilo com muito mais detalhes e também me questionando se havia sido correta o suficiente para abordar aqueles casos com as personagens. Esse processo era muito mais complicado. Realmente não foi fácil, mas foi o que deu para fazer.
Quando você se preparou para as entrevistas, você usou algum manual, de como conduzir entrevistas com perspectiva de gênero ou usou mais sua experiência como jornalista?

Foi mais a minha experiência como jornalista mesmo, porque entrevista é o que nós jornalistas fazemos o tempo inteiro, então obviamente eu já tenho uma certa conduta que utilizo nas entrevistas que utilizei também para esse livro. Mas havia uma diferença fundamental em relação às entrevistas que sempre fiz como jornalista: é que eu estava numa posição diferente. Todas as entrevistadas sabiam que eu contaria no livro a minha história, que eu tinha passado por aquilo que queria ouvir delas. Isso já estava dado desde o começo, e já me colocava numa posição diferente do jornalista convencional que vai ouvir uma história que não conhece ou pela qual jamais passou.
Então todos os nossos padrões de objetividade e de distanciamento, todos os meus padrões foram colocados em xeque, porque a minha posição naquela relação era diferente da que eu usualmente tenho quando vou entrevistar alguém. É de muito mais proximidade. E quando eu disse isso para todas as entrevistadas, já se estabeleceu uma relação de cumplicidade entre mim e elas que foi fundamental para que a história corresse de forma mais fluida. É uma cumplicidade que nós jornalistas sempre procuramos criar com o entrevistado para que a entrevista renda. Mas nesse caso nem precisei de um esforço muito grande para isso porque a cumplicidade já estava dada, desde o começo.
Também tinha outro aspecto que diferenciava das entrevistas convencionais que é o fato de que eu não tinha como fazer uma pesquisa prévia sobre a entrevistada. Eram figuras anônimas sobre quem eu não sabia nada, exceto uma que eu conhecia. O que eu dizia era ‘Me conte sua história’, já no começo. Não tinha uma pauta pré-definida de perguntas, tinha perguntas genéricas que fazia a todas. Basicamente os temas que me interessavam no livro: a história em si, obviamente, e especialmente como essas mulheres passaram a lidar com o medo.
O medo era um componente muito importante para mim no livro, e os impactos que aquilo teve na vida dessas mulheres, na sequência. Como elas conseguiram levar suas vidas após a violência sexual. Tinha uma metodologia que era intuitiva, mesmo, e com essas diferenças em relação a uma entrevista convencional.
Você falou dessa questão dos critérios de objetividade… O tipo de projeto a que você se dedicou não é muito convencional no jornalismo. E, além disso se refletir nas entrevistas, como você explicou, como foi escrever em primeira pessoa parte considerável do livro? Em relação à posição normal do jornalista, que não está tão dentro do que está narrando?
Eu sabia que não tinha como ter um distanciamento daquela história por um motivo óbvio, né? Quando eu pensei no projeto do livro, não tinha pensado em contar minha história logo no começo. Eu tinha pensado em fazer um livro sobre a cultura do estupro, um livro reportagem sobre estupro no Brasil.
Eu agi dessa maneira porque é assim que nós jornalistas costumamos fazer. Nós nos distanciamos daquilo que pretendemos narrar. Aí comecei a pensar que devia procurar personagens, e no meio dessa reflexão sobre qual seriam os caminhos do livro, eu pensei ‘Bom, mas a personagem cuja história eu conheço melhor é a minha própria história. Talvez não faça sentido eu abrir mão dessa história em nome de uma suposta objetividade jornalística’.
Um aspecto que me fez pensar sobre tudo isso foi o meu encontro com as teorias feministas, porque na epistemologia feminista existe uma grande valorização da experiência, dos relatos em primeira pessoa, contrariando toda aquela ciência positivista, aquela ideia de que o sujeito e objeto não podem se confundir. Então eu já estava muito contaminada por essas teorias feministas que valorizam a experiência.
Isso me fez pensar que talvez fosse valioso eu contar a minha história, juntando um pouco do jornalismo com o feminismo, com a teoria feminista. Isso me levou a me assumir como personagem. Mas num segundo momento, depois que decidi que ia contar a minha história, pensei que ia ficar esquisito, do ponto de vista estilístico, uma narrativa em primeira pessoa e depois uma narrativa em terceira pessoa. Pensei ‘Como é que eu vou juntar isso para que fique coerente no livro?’.
Então comecei a escrever me tratando como uma terceira pessoa. Eu tinha decidido que não ia revelar quem as personagens eram, mesmo que elas quisessem, porque quando elas contam essas histórias, não contam apenas as histórias delas, mas as de muitas outras pessoas envolvidas, e seria muito complicado lidar com tanta gente envolvida. Pedi a elas que escolhessem um nome que as remetessem à infância. Eu também havia escolhido um nome para mim, Andreia, porque era como eu deveria me chamar, mas depois acabei me chamando Adriana.
Comecei a contar a história da Andreia, e mandei para minha editora os primeiros capítulos. Ela leu e disse ‘Olha, Adriana, se você não quiser falar que é você, não tem problema nenhum, mas acho que dá para a gente encontrar um caminho’. Porque a minha intenção era ao final do livro, no epílogo, dizer que Andreia era eu, mas a minha editora achou que ficava esquisito. E realmente ficava esquisito, porque eu falava coisas sobre mim que só poderia saber se fosse eu, como pensamentos, esse tipo de coisa que eu não tinha como obter a partir de uma entrevista.
No terceiro momento eu reescrevi esses primeiros capítulos como Adriana, em primeira pessoa, e foi muito melhor, porque fiquei muito mais à vontade e acho que o livro acabou ficando muito mais interessante. Também acabei encontrando uma maneira de não ficar esquisito do ponto de vista da narrativa, separando em blocos o que era minha história e o que era a história das outras personagens, de maneira que o texto não ficasse confuso.
Estava certa de que naquele livro, por todas as circunstâncias, por mais que eu tentasse narrar a questão legal, a questão política que está relacionada à violência sexual, da forma mais objetiva possível, claramente ali eu era um sujeito entranhado na história.
O que a gente aprende nos estudos feministas não pode ser desvalorizado, do personagem com seu conhecimento situado. Tanto que a epígrafe do livro é uma citação da Donna Haraway, uma feminista que fala muito sobre o lugar do sujeito como produtor de conhecimento. [Fiz isso] Certa também de que a minha experiência era valiosa para que a gente pudesse refletir a respeito daquele tema.
Numa entrevista que a Adriana Ferreira da Silva fez com você e Débora Diniz, você fala que a decisão de coletivizar essas histórias tinha a ver com a postura feminista de que o pessoal é político, de que a violência não é apenas algo que acontece isoladamente com as mulheres. De que outros modos o feminismo informa o livro? Há nele outras pistas do seu encontro com o feminismo?
Pois é, junto com a experiência, certamente a premissa fundamental desse encontro entre o jornalismo e feminismo é a ideia de que a minha história não era uma história individual. A nossa tendência no jornalismo é contar casos, de tais personagens, dando às vezes a impressão de que aquelas histórias são muito pontuais. E no caso da violência sexual, o que acontece é que geralmente as histórias são contadas quase como um exoticismo.
Uma mulher que foi estuprada, às vezes ela vai para o noticiário quase como se fosse um uma mulher vítima de um raio, como se fosse algo muito raro de acontecer. A gente percebe muito isso no noticiário sobre violência sexual. Quando eu decidi contar a minha história e a história de outras mulheres, a ideia era exatamente mostrar que eram histórias individuais mas que contavam uma história maior, coletiva.
Se a gente pegar os números sobre estupro no Brasil, os dados são assustadores. É de fato uma epidemia de violência sexual. Nesse sentido, a escolha por contar a minha história e de outras mulheres, muitas delas bem diferentes de mim, era identificar esse aspecto coletivo da violência sexual.
Ainda no meu encontro com o feminismo, há uma autora, acho que é a Iris Marion Young, que fala muito sobre essa relação do público com o privado e como a gente aprendeu ao longo da história que o espaço de segurança da mulher é o espaço da intimidade, da privacidade.
Isso que faz com que as mulheres sejam colocadas na esfera privada e não ocupem os espaços públicos do poder. Ao longo do livro, algo que ficou muito claro a partir das histórias das personagens é que o espaço da intimidade é que é o espaço de perigo para muitas mulheres. As estatísticas também mostram que a maioria dos casos de abuso sexual ocorre dentro de casa, tendo como algozes pessoas muito próximas.
Então eu diria que a teoria feminista tem sido para mim um guia para que eu possa contar uma história. Foi bastante nesse segundo livro e foi também no Maria Bonita. Acho que não existe uma metodologia feminista, ao modo da ciência tradicional, não existe um método cartesiano pra gente aplicar na produção desse conhecimento, mas acho que existe uma ética feminista que nos conduz ao longo de uma investigação. O fato de eu ser uma mulher feminista faz com que eu conte o livro de uma maneira diferente do que se eu fosse um homem. Certamente a história seria outra.
Esse encontro com o feminismo inclusive é o tema do meu projeto de doutorado. Estou investigando se existe uma metodologia feminista para contar histórias de vida de mulheres e parto da hipótese de que não há, que na verdade há essa ética feminista, que nos conduz e que faz com que a gente tenha um olhar diferente sobre algumas questões.
Também é uma aproximação muito grande com jornalismo, porque o que a gente faz no jornalismo é sempre procurar os ângulos cegos de uma história. Contar uma história de um jeito diferente, como ninguém nunca contou. Se a gente se guiar pelo feminismo a gente vai contar todas as histórias por um ângulo diferente, porque as histórias sempre foram contadas pelo ângulo que os homens viam, não pelo ângulo que as mulheres viam.
É um livro pós #MeToo, inclusive nele você fala sobre o movimento e como ele abala um pouco a opinião pública. Você acha que tem impactos do #MeToo ou da reverberação do movimento na existência do livro e depois na circulação, na recepção dele?
Acho que sim. Acho que esse livro só foi possível por causa da popularização do feminismo, quando houve um espaço para que as mulheres pudessem contar sobre as violências que sofreram e um espaço de acolhimento para essas histórias. Acho que o #MeToo e todos os movimentos para que as mulheres quebrassem o silêncio nessa década, como a campanha #meuamigosecreto, incentivaram muitas mulheres, inclusive famosas, a contarem as histórias que haviam sofrido. A diferença é que o acolhimento era diferente, pela própria força dos diversos feminismos que se mostravam a partir dali. Uma força que muitas vezes era midiática, né? Claro que há muita apropriação do feminismo por parte do capitalismo, mas de certa forma a gente encontrou um terreno de acolhimento para que essas histórias fossem ouvidas e não fossem necessariamente ridicularizadas.
Isso incentivou a mim também. O meu caso ocorreu em 2003, eu já era jornalista e era uma história que eu podia ter contado há muito mais tempo. Mas só me senti validada para contá-la agora, tanto tempo depois. E certamente foi o meu encontro com o feminismo que me deu força para fazer isso. Não fosse o feminismo, eu jamais iria contar essa história, porque sei que ela não teria o mesmo acolhimento, que eu seria ridicularizada, que alguém poderia dizer que foi culpa minha, que eu tô fazendo drama com algo que partiu de mim.
Todas essas questões que a gente tem discutido nos últimos tempos fazem com que a gente tenha mais espaço. Não à toa, junto com meu livro houve uma série de outros livros que tratavam do tema, tanto na ficção quanto na não-ficção. Isso não é um uma coincidência, é um sinal do espírito do tempo.
Você falou no começo da entrevista sobre a questão do medo. E no livro você narra outros episódios em que houve gatilhos, até na apuração do Maria Bonita. Relatar publicamente desse jeito sua história teve um efeito também subjetivo pra Adriana, enquanto uma mulher que sofreu uma violência sexual?
Sim. Percebo que sim. Eu publiquei Maria Bonita, meu primeiro livro, e morava aqui em São Paulo. E Maria Bonita me deu muitos insights sobre a questão da violência sexual. Não à toa, e uma prova de que o feminismo está certo, quando eu contei a história da Maria Bonita, a violência era um elemento central. Acho que meu inconsciente foi me guiando ali, porque até então quando se falava sobre as cangaceiras, esse era um assunto secundário, quando muito, porque nem se mencionava, era algo que nem estava ali no escopo das discussões sobre o cangaço, a violência sexual a que as cangaceiras haviam sido submetidas. O livro ficou muito concentrado nisso, e na sequência eu assinei um contrato para escrever outro livro, em que ainda tô trabalhando, mas sempre pensando ‘Puxa vida, tem essa história do estupro, isso merece um livro’.
Eu só bati o martelo de que ia escrever esse livro depois de uma conversa com minha editora, mas quando eu já morava em Portugal. Fui para lá em 2018 e, numa viagem que fiz ao Rio, me encontrei com minha editora e decidi escrever o livro. Acho que o fato de estar longe do centro dos acontecimentos, de onde eu tinha sido violentada, fez com que eu tivesse mais coragem para escrever o livro.
Eu tinha uma série de medos. Eu tinha medo de encontrar o agressor, de ele já ter sido solto, ou de reviver aqueles cenários, de acontecer de novo. [Em Portugal] Eu estava num espaço que julgava protegido. E acho que era, de certa forma, era uma cidade pequena, onde eu tinha tudo mais ou menos sob controle. Foi muito importante para mim escrever o livro naquele espaço de segurança. Me deu muito mais coragem, e uma série de medos que eu carregava comigo aqui em São Paulo já não tinha lá. Por exemplo, eu ia para o supermercado de carro e achava que nada ia me acontecer, ia ao shopping center, dirigia e não ficava olhando para todos os retrovisores.
Coisas que parecem banais, mas faziam muita diferença na minha rotina. Passei quatro anos morando em Portugal. Lancei o livro e fui fazer outras coisas da vida e, no final do ano passado [2022], decidimos voltar. Quando a gente falava em voltar, eu pensava ‘Puxa vida, lá vou eu viver com medo de novo’, e isso me aterrorizava muito. Retornamos para São Paulo e eu noto agora que essa é uma questão que já não é só minha. Já falei tanto sobre isso, já compartilhei tanto essa história e já discuti tanto, já falei tanto sobre esse medo, que essa nova vida é mais suave nesse aspecto do que era antes.
O medo, o pavor que eu tinha, que era muito constante, era aumentado por eu manter um segredo. Era como se eu tivesse um medo que não podia explicar para as pessoas de onde vinha. Quase um medo irracional. Quando eu consegui compreender, após escrever o livro, discutir muito a respeito, nas entrevistas e nas conversas que sempre ocorrem, fui me dando conta de que esse medo não era à toa. Consegui racionalizar um pouco mais.
Acho que hoje eu faço coisas que não fazia antes de me mudar do Brasil. Já consigo ir ao supermercado sozinha, por exemplo, e ir ao estacionamento sem tem que pedir sempre pra um segurança me acompanhar até o carro. Parece um exemplo banal, mas para mim é muito relevante. Acho que tô muito mais apaziguada. Eu sei que o perigo existe, que tá à espreita, mas me sinto mais no controle da situação do antes. E certamente o fato de eu ter escrito livro e ter falado sobre isso, de não ser mais um segredo que eu carregava, para mim teve grande valia.
E tem outro aspecto que é interessante. Antes de escrever o livro, sempre que alguém falava sobre violência sexual eu ficava incomodada, até vermelha. Eu não entendia porque ficava assim, porque as pessoas nem sabiam o que aconteceu comigo. Eu achava que de alguma maneira a pessoa estava invadindo um segredo que eu tinha. Depois que publiquei o livro, deixou de ser segredo e já não me constranjo mais com essa com essas referências. Certamente isso tem a ver com esse processo de cura pela fala ou pelo relato.
Ainda nessa linha, o que se fala muito sobre esses eventos traumáticos, como a violência sexual ou violência doméstica, é que são muito lacunares, porque a memória eventualmente fica bloqueada, você se lembra de partes, não se lembra de outras. Quando você foi costurar isso narrativamente, como você lidou com essa tensão de uma tendência do jornalismo a contar histórias completas, que façam um sentido, que não tenham furo?
A meu favor, eu tinha o fato de que na época do crime eu precisei escrever e-mails para a minha advogada contando o que tinha acontecido. Foi até sugestão dela, que disse ‘Olha, como você é jornalista, vai ter mais facilidade em escrever a história do que me contar. Você vai escrever com todos os detalhes que puder’, porque são muito importantes para o trabalho dos advogados. Eu recuperei esses e-mails que tinha enviado, que eu já não tinha mais e ela tinha nos arquivos do processo.
Só reli esses e-mails quase 20 anos depois, não lembrava de muita coisa. Quando você lê, revive tudo aquilo. Estava quase escrevendo uma matéria quando contei o que tinha acontecido comigo, pela riqueza de detalhes, quase uma tentativa de me distanciar um pouco. Tinha até um certo cuidado com o texto na hora de escrever os e-mails, o que parece meio esquisito, porque afinal de contas era uma situação traumática, mas talvez fosse uma forma também de encontrar um distanciamento, né? Como se aquilo não tivesse acontecido comigo, como se estivesse contando a história de outra pessoa.
Esses documentos me ajudaram muito na reconstrução da história e também outras coisas, como agendas da época, trocas de e-mails com outras pessoas. A partir daí fui fazendo uma investigação jornalística sobre o meu próprio caso e uma coisa vai puxando a outra, vai fazendo lembrar. Naturalmente, também tem muita edição da memória, né? Waly Salomão fala que a memória é uma ilha de edição. Mas é uma história que eu construo a partir do meu passado e também muito a partir do que consigo reconstruir. Eu não tinha a pretensão de produzir um documento objetivo, no sentido de ser absolutamente indubitável em relação a qualquer questão, porque a gente sabe como é a nossa memória. Mas fiz um esforço muito grande para contar a história, entre muitas aspas, como aconteceu, ou seja, como ser fiel aos fatos.
E algumas lacunas são apresentadas no livro, tem coisas que realmente não me lembro, não tenho como reconstruir e eu digo isso. Por exemplo, no dia em que fui fazer o B.O. na delegacia, não tenho nenhuma lembrança. Lembro de poucos detalhes e o que eu conto é a partir do próprio B.O.: o horário, quem me atendeu e tudo mais. No livro eu digo que só posso contar porque eu tenho o B.O. Não lembro de nada do que aconteceu naquele dia. Não sei se me sentei, se tomei água, café, nada.
No caso da das personagens, eu adotei a mesma estratégia. Contei a história a partir da lembrança delas, da memória delas. Elas eram as minhas fontes, e também havia lacunas que elas não conseguiam preencher, e essas lacunas estão devidamente apresentadas, e pontos que não se conectam. Porque isso também é uma informação muito relevante.
No caso da violência sexual há uma tendência do Judiciário de tentar exigir da vítima que ela conte a história sem nenhuma contradição, como se ela fosse uma testemunha privilegiada e distanciada daquele fato, e não um sujeito envolvido naquela situação de violência, e portanto sujeita a todos os traumas e a todos os esquecimentos decorrentes.
Isso também foi usado contra mim, porque o processei o shopping center onde fui sequestrada e os advogados do shopping tentavam desclassificar o meu depoimento com base em eventuais falhas ou com base estereótipos. Por exemplo, eles tinham a ideia de uma vítima de violência sexual ensanguentada, sangrando ou com olho roxo, roupas rasgadas, e usavam isso contra mim: ‘Mas ela tava com as roupas recompostas, ela não estava chorando, tava com boa aparência’. Teve até um segurança do shopping ou uma enfermeira, isso está no nos autos do processo, que diz ‘Ela estava nervosa, mas nem tanto’, também reforçando os estereótipos de que a mulher necessariamente tem que estar aos prantos ou descabelada depois. Tanto as lacunas, quanto esses estereótipos, quanto a idealização da vítima e a idealização do agressor, procurei deixá-los bastante evidentes no livro.
Por Karina Gomes Barbosa
Livro: A vida nunca mais será a mesma, 2021
Editora: Objetiva
Gatilhos: estupro, violência doméstica, violência contra mulheres. -
A universidade precisa fazer mais contra as violências de gênero

A frequência com que ouvimos casos sobre violências de gênero envolvendo a comunidade da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) tem sido quase diária. Não apenas aqui. Nas redes, sites jornalísticos, se repetem sem cessar histórias nos campi universitários, escolas, creches, do país e do mundo.
Ainda que, nos últimos anos, a universidade tenha criado importantes estruturas, como a Ouvidoria Feminina, e regulamentado normas e procedimentos nos casos de violências contra as mulheres e sobre o uso do nome social, a realidade cotidiana se impõe às medidas – necessárias, mas insuficientes.
Em primeiro lugar, pouco falam sobre inúmeros grupos minorizados, especialmente a comunidade LGBTQIA+. Além disso, focam nas dimensões jurídica e institucional de um problema que precisa, urgentemente, ser também abordado pelas perspectivas subjetiva e educacional – ainda mais em uma universidade.
Os tempos da justiça, do trauma e do testemunho muitas vezes divergem em casos como esses, e as instituições devem construir formas de acolhimento para além da burocracia e das exigências de punição (que não podem, contudo, ser desprezadas). Isso exige investimento e disposição para encarar um problema crônico. Também é imprescindível assumir um papel educador que extrapole currículos, mas mire em uma formação transversal e coletiva de toda a comunidade acadêmica.
Finalmente, é preciso que a gestão venha a público falar sobre o problema com as pessoas da universidade. O silêncio institucional é doloroso. Soa como descaso ou medo, gera outras camadas de indignação e desalento. Estudantes, servidores, servidoras se sentem desamparados por não poderem estudar, trabalhar, circular pelos espaços sem medo, em segurança. Mas as vítimas desejam mais: querem ser reconhecidas, ouvidas, acolhidas.
Por Karina Gomes Barbosa
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“I May Destroy You” e o olhar além do óbvio para as violências sexuais

Imagem: Divulgação, na foto a protagonista Arabella. Aviso de gatilho: este texto fala sobre estupro e agressões sexuais.
I May Destroy You é uma série britânica, lançada em 2020 na HBO Max, possui 12 episódios com cerca de 30 minutos de duração cada. Indicada a vários prêmios, foi criada, dirigida, roteirizada e protagonizada por Michaela Coel e tem o elenco majoritariamente negro. Na série, acompanhamos Arabella Essiedu (Michaela Coel), uma escritora jovem adulta famosa por seus tuítes e por seu livro inspirado neles, que se tornou um sucesso, chamado Chronicles of a Fed Up Millennial (em português, Crônicas de uma Millennial de Saco Cheio) e está trabalhando em sua próxima obra.
No primeiro episódio da série, somos apresentados à vida de Arabella, seu ciclo de amigos, trabalho e relacionamentos. Ela está escrevendo seu segundo livro, mas enfrenta um bloqueio criativo, então, para relaxar e fugir dessa tarefa, em uma noite resolve sair para beber com alguns amigos. Arabella bebe e usa drogas, fica muito alterada e acorda no outro dia em seu trabalho, sem se lembrar de partes da noite anterior e de como chegou até ali. É daí que se inicia a trama principal: Arabella descobrindo, lentamente, por meio de confusos flashbacks, que foi drogada e abusada em uma cabine de banheiro, ao ter sido deixada pelos amigos no bar. Através da narrativa do roteiro, vamos descobrir e relembrar os acontecimentos daquela noite junto com ela. O que transmite a sensação de estar vivendo aquela situação com a protagonista.
Em 2015, enquanto passava por um bloqueio criativo, ao escrever a série Chewing Gun, Coel vivenciou uma situação muito parecida com a da protagonista, fazendo com que I may destroy you possua forte teor testemunhal. Isso pode explicar o olhar sensível e certeiro ao descrever e interpretar as fases do trauma do abuso sexual por que Arabella passa ao longo da série. A protagonista não é retratada como frágil, inocente e boazinha. Ela é uma pessoa normal, que erra e acerta, e foi fragilizada por causa do abuso. Mas, com ajuda psicológica, de seus amigos e de um grupo de apoio para mulheres que foram abusadas, ela consegue elaborar o trauma.
O processo de entender o que aconteceu e processar os sentimentos para Arabella é lento. Passa a sensação de que era difícil aceitar a gravidade da situação e acreditar que isso realmente aconteceu com ela. Isso é intensificado pelo fato de Arabella ser uma mulher negra, não rica e nunca ter se atentado tanto às questões de gênero. Em Gênero, raça e classe, Angela Davis, diz que as interseccionalidades* entre gênero, raça e classe não devem ser separadas e tratadas como lutas diferentes e hierárquicas, mas sim em conjunto. Desse modo, Arabella não deveria se preocupar em ter mais uma batalha e abandonar as outras, como o antirracismo, mas lidar com todas elas como uma mulher negra que vive nos estratos médios da sociedade.
A relação de consentimento e abuso é bem retratada na série e vai além do óbvio, pois, às vezes, não resconhecemos que a falta de consentimento, seja qual for, pode ser estupro. O quarto episódio se destaca ao abordar outras formas de violência, quando, simultaneamente, Arabella e Kwame (Paapa Essiedu) são violados de formas diferentes. Arabella se relaciona sexualmente com um homem e durante a relação ele tira o preservativo sem ela saber, depois, ao ser questionado, relata que achou que ela tivesse notado. E Kwame, melhor amigo de Arabella, é um homem gay que usa aplicativos de paquera frequentemente. Ele vai para casa de um match, que conheceu num desses aplicativos, e eles transam consensualmente, mas antes de ir embora, Kwame é imobilizado, pressionado na cama enquanto o homem se esfrega nele.
É importante ressaltar que, ainda que a relação seja consentida, pode haver abuso e tanto Arabella quanto Kwame, foram vítimas de crime. No Brasil, o “Stealthing” – retirada do preservativo durante a relação sexual sem o consentimento da outra pessoa – é considerado crime de violação sexual mediante fraude e pode levar a pena de dois a seis anos de reclusão. E mesmo que a relação tenha começado consensualmente e, depois, uma das partes se negou, é estupro e pode resultar em reclusão de 6 a 10 anos.
A dificuldade da denúncia é comum entre as vítimas de violência sexual. Tanto no âmbito judicial quanto no pessoal, como contar para a família e amigos. Pois gera medo de julgamentos, culpabilização e falta de apoio, além de fazer a vítima reviver todo o trauma. Arabella, assim que percebeu que tinha algo de errado, foi para a delegacia fazer uma denuncia, isso geralmente não acontece, pois o ato gera medo e muitas vezes exige tempo. Como Sara Ahmed diz em seu texto O tempo da denúncia, esse processo pode demorar e o tempo não deveria ter tanta importância.
*Interseccionalidade é a sobreposição ou intersecção de identidades sociais. Como se fosse uma encruzilhada de opressões.
Por Ana Luiza Rodrigues
Serviço:
Título da série: I May Destroy You
Onde assistir: HBO Max
Classificação indicativa: 16 anos (A16)
Minha classificação: 16 anos (A16)
Contém violência de gênero, cenas de estupro, cenas de sexo e nudez. Além de uso de drogas lícitas e ilícitas. Aborda questões de sexualidade positivamente.
Gatilhos: Estupro e violências sexuais.
Gênero: Drama.
