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“Olhos d’água” e a violência na literatura de Conceição Evaristo
A obra ficcional Olhos d’água (2014), de Conceição Evaristo, é uma coleção de contos com enfoque na população afro-brasileira, abordando a forma como a pobreza e a violência rodeiam esse grupo desde sua chegada ao mundo. Neles, Conceição nos apresenta um grande número de mulheres que são faces de diversas brasileiras acometidas pelas exclusões e desigualdades. Entre mães, filhas, avós e amantes, a autora apresenta Ana Davenga, Duzu-Querença, Natalina, Luamanda, Cida, Zaíta, Maíta, Maria e outras diversas mulheres, todas acometidas pela dor e vulnerabilidade, postas nesse mundo sofrido e obrigadas a celebrar a vida mesmo diante das violências, mortes e reveses.
Conceição Evaristo, professora universitária, mulher negra, mãe e escritora, nasceu em 1946 na cidade de Belo Horizonte, cursou Letras no Rio de Janeiro e é mestre e doutora na área de literatura. Com uma escrita sensível, explora a violência e a exclusão social atribuídas, principalmente, às mulheres negras. Em Olhos d’água, ela traz o costumeiro tom terno de sua literatura, trazendo uma reflexão profunda sobre temas graves. As personagens simbolizam diferentes identidades, desenvolvendo as ficções a partir da vivências dessas faces para além da questão do gênero, mas permeando a questão racial e de classe social. Dessa forma, percorremos um dos contos que narra a história de uma dessas mulheres vítimas de violências em suas diferentes formas de manifestação.

Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil Duzu-Querença
Nesse conto, o terceiro da coleção, somos apresentados às personagens Duzu e Querença, evidenciando já no título se tratar da perspectiva de duas mulheres, ambas negras. Um narrador onisciente inicia anunciando a velha Duzu, uma mulher negra moradora de rua, com as unhas sujas, que gera medo a quem caminha pelas calçadas. Ferida pelo desespero, pela fome e pelo medo, o narrador começa a exposição do passado dessa senhora e os acontecimentos que a levaram até ali.
Quando criança, Duzu foi levada à capital do Rio de Janeiro acompanhada dos pais, com a promessa de uma boa casa, um bom emprego e um futuro de estudos pela frente. Vinda do interior, “era caprichosa, com cabeça para leitura, possuidora de muito saber e sorte”. Zé Nogueira, pescador e pai de Duzu, estava em busca de um novo ofício, na tentativa de proporcionar boas condições de vida para a filha e para a mulher. Com uma família rodeada de pobreza e discriminação racial, além de pais sem condições financeiras para criá-la, Duzu foi deixada com Dona Esmeraldina, proprietária de uma casa que abrigava muitas meninas, trocando trabalhos de limpeza por moradia e comida. Sem seu conhecimento – e sem esclarecimento ao leitor se os pais detinham essa informação –, Duzu passou a morar em um prostíbulo.
Conforme crescia, a criança aos poucos se viu diante de cenas de sexo entre homens e mulheres, sendo inserida em um contexto onde ela era molestada por homens desconhecidos e paga para manter o silêncio. Exposta a essas situações diversas vezes, Duzu adentrou a vida adulta ainda na infância, sem ter conhecimento do que a rodeava e o que tais situações significavam. Os sentimentos, pensamentos e ações da personagem chegam ao leitor através do narrador, de forma a nunca nos deixar saber o que ela realmente pensa e como realmente se sente. Nessas situações de abuso, o narrador conta a história de forma a parecer que Duzu era conivente com tais ações, como se gostasse de determinadas situações. Ao mesmo tempo, deixa claro a falta de maturidade dela e como não parecia saber o significado do que lhe acontecia. Quando ela é estuprada por um desses homens e o relato do abuso chega aos ouvidos da dona do prostíbulo, Dona Esmeraldina apresenta duas “opções”: trabalhar como prostituta para ter casa e comida ou ir embora. Sem rede de apoio e abandonada pelos pais, Duzu obtém um quarto próprio para receber clientes e fica. Em nenhum momento o acontecimento é reconhecido como um estupro.
O Brasil ocupa o segundo lugar no ranking mundial de exploração sexual de crianças e adolescentes, crime previsto no Código Penal e no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Segundo o Instituto Liberta, a cada hora três crianças são abusadas no Brasil e cerca de 51% têm entre 1 a 5 anos de idade. Todos os anos, 500 mil crianças e adolescentes são explorados sexualmente no país e apenas cerca de 7,5% dos dados são denunciados às autoridades. Entretanto, foi apenas em 2025 que entrou em análise um projeto de lei (PL 2.927/2025) que tipifica como crime o ato de submeter, induzir ou atrair à prostituição alguém que não possa oferecer resistência. O déficit de punições como essa, além da negligência e fiscalização do Estado em relação a políticas já existentes, tornam casos como o de Duzu próximos a realidade brasileira.
Com a dominação masculina se tornando rotina, Duzu passa a viver os dias com homens violentando seu corpo. Abusos e estupros se tornam o cotidiano e, mesmo ao sair do prostíbulo de Dona Esmeraldina, sem ter para onde ir, percorre os bordéis da região sem conseguir sair desse ciclo, levando sua profissão para onde vai.“Acostumou-se aos gritos das mulheres apanhando dos homens, ao sangue das mulheres assassinadas. Acostumou-se às pancadas dos cafetões, aos mandos e desmandos das cafetinas. Habituou-se à morte como uma forma de vida.” Conceição Evaristo
Ao envelhecer, sem demandas do antigo trabalho e cansada, Duzu passa a morar na rua, sem tanto contato com seus nove filhos e diversos netos. Ela se mostra uma idosa feliz, delirante e fantasiosa. Nas últimas páginas do conto, parece reviver momentos onde a infantilidade e a inocência são permitidas, fase que lhe foi tirada na infância. Sem esclarecimento, morre nas ruas, fantasiada para o carnaval com restos de roupas. Morre animada por uma época onde “mesmo com toda dignidade ultrajada, mesmo que matassem os seus, mesmo com a fome cantando no estômago de todos, com o frio rachando a pele de muitos, com a doença comendo o corpo, com o desespero diante daquele viver-morrer, por maior que fosse a dor, era proibido o sofrer”. Imersa na fantasia, ela é assassinada.
A jovem negra Menina Querença é apresentada no fim do conto, ao passo em que se recorda da avó, Duzu, outra mulher negra. Com um nome que simboliza o ato de querer a alguém ou alguma coisa o afeto, Querença relembra o passado com carinho em um tempo onde sua avó vivia seus últimos anos, entre sonhos e delírios. Conhecida por ser inteligente, empática, com um futuro brilhante, lembra a avó quando menina. Ajuda as crianças mais novas da favela, participa do grupo de jovens da Associação de Moradores e do grêmio da escola. Ainda inserida em um contexto de desigualdade, pobreza e exclusão social, sonha, assim como Duzu, em continuar estudando. Em paralelo com nossa realidade, apenas 14,9% das mulheres negras acima de 25 anos concluíram o ensino superior, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). De acordo com o instituto, apenas 56% das pessoas pretas no Brasil concluíram o ensino básico. Duzu faz parte dessa porcentagem, tendo os estudos interrompidos em tenra idade, e o medo que perpassa sua família é que, para além de seus filhos, seus netos também se tornem uma estatística.
Ao saber da morte de sua avó, voltando da escola, a neta relembra a história de sua família. Relembra de quando sua avó ensinou a ela a brincadeira das asas. Lembra de seus sonhos, de como deseja mantê-los vivos e da necessidade de reinventar a vida. Olha para o corpo fantasiado de Duzu e lamenta a solidão da avó desde o momento em que foi posta no mundo, enquanto visualiza suas semelhanças. E Conceição Evaristo nos faz acompanhar a esperança de uma família que, gerada através da exploração sexual contra uma menina cheia de sonhos, fantasia sobre sair de um ciclo vicioso.Serviço:
Título original: Olhos d’água
Gênero: Ficção
Recomendação de leitura: acima de 17 anos
Justificativa: Abordagem de temas complexos como pobreza, racismo, violência e desigualdade social.*Este texto integra a mobilização do Ariadnes nos 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres que começaram 25 de novembro, Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres, e vão até o dia 10 de dezembro, Dia Internacional dos Direitos Humanos.
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Quem tem pena de Jorginho Ninja?

Jorginho Ninja pede perdão a Gerluce: a novela convida não apenas a personagem, mas também nós, em casa, a absolvermos o violador. Foto: Divulgação. Jorginho Ninja acabou de sair da cadeia. Preso e com uma doença incurável, se converteu a uma denominação evangélica e busca duas coisas depois de cumprir pena: conhecer a filha que havia pedido para a namorada abortar; e obter o perdão da ex-namorada, menina que ele manteve em cárcere privado, num relacionamento abusivo que a afastou de amigos, família e rede de apoio.
Essa é a trama de Juliano Cazarré em Três Graças, novela em exibição às 21h na Globo. À época chefe do crime organizado na comunidade da Chacrinha, ele foi o homem que feriu Gerluce (Sophie Charlotte), causando um trauma tão profundo e duradouro que a mulher reagiu com terror a um toque inesperado e indesejado do homem; tão brutal que ela se recusa a revelar à filha o nome do progenitor biológico de Joélly.
Capítulo após capítulo temos visto o novo Jorginho. Penitente, arrependido, contrito, respeitando o tempo de Gerluce, mas esperançoso de construir uma relação com Joélly, a adolescente cuja criação não contou com participação ou interesse algum dele por 15 anos. Nas apariçõs de Jorginho, há versículos bíblicos e música de louvor. Ele mora na igreja! A trilha sonora é comovente, as conversas com o pastor são honestas. Ele até deu um apavoro no inútil Raul, pai do filho que Joélly espera, fazendo um gesto do bem.
Notícias davam conta de que a trama de Jorginho e Gerluce seria de um estupro, mas a novela resolveu amenizá-la. Amenizar trocando estupro por cárcere privado? Como é pra gente imaginar que esse bebê foi concebido, numa relação em que a menina foi praticamente sequestrada? Qual o consentimento possível de uma menina presa? Realmente esperam que a gente diferencie o que Jorginho fez de um estupro?
Mais que isso: por que a trama foi suavizada? Pelo horário? Duvido que seja a única razão. Me parece que a emissora resolveu atenuar o crime de Jorginho porque seria muito difícil para Gerluce perdoar o homem que a estuprou e para Joélly aceitá-lo. Seria muito difícil para nós, espectadoras, construirmos qualquer empatia por aquele homem.
E a trama, claramente, deseja/espera que a gente dê outra chance a Jorginho; se compadeça dele, torça por ele (será que vem por aí uma cura milagrosa?). Gerluce que engula seu trauma, que seja forçada a aceitar esse abusador pelas ruas, pela comunidade, em sua vida. O sofrimento dela tem muito, muito menos valor que o sofrimento e o arrependimento dele.
Mas inadvertidamente, trocar estupro por cárcere privado de uma menina de 15 anos não ameniza NADA. Nos convida a preencher as lacunas dessa narrativa com histórias que sabemos muito reais, cotidianas, corriqueiras. É de uma sordidez extrema que estejamos sendo convidadas a sentir pena de Jorginho ao mesmo tempo em que a mídia exibe diuturnamente crimes terríveis; e enquanto a mídia continua a tratar de modo ambíguo, machista e, às vezes, misógino violências contra a mulher.
As inúmeras chances a Jorginho são um tapa em nossa cara; mas no fim das contas pouco diferem do modo como a sociedade e a mídia vêm os violadores e as violências que cometem contra nós.
Se você passa por alguma violência e necessita de ajuda, entre em contato com a Central de Atendimento à Mulher pelo Disque 180 ou WhatsApp no número (61) 9610-0180.Por Karina Gomes Barbosa
*Este texto integra a mobilização do Ariadnes nos 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres que começaram 25 de novembro, Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres, e vão até o dia 10 de dezembro, Dia Internacional dos Direitos Humanos.
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O que Três Graças revela sobre a maternidade adolescente e a misoginia da sociedade

Joélly Maria, Gerluce Maria das Graças e Lígia Maria compõem o núcleo familiar de mães solo da novela Três Graças. Foto: Divulgação Após um final, diga-se de passagem, bem decepcionante do remake de Vale Tudo, a Globo possui um diamante a ser lapidado em suas mãos com a nova produção de Aguinaldo Silva, Três Graças, que tem a premissa de contar a história de três mulheres da mesma família — avó, mãe e filha, respectivamente — que ficaram grávidas na adolescência. Gerluce Maria das Graças integra uma família de mães solo: é filha de Lígia Maria e mãe de Joélly Maria, que, no início da trama, descobre uma gravidez aos 15 anos e, assim como a mãe e a avó, será uma mulher que criará sozinha sua criança.
Novamente retomando a antecessora de Três Graças, é muito bom ver novelas voltando a pautar assuntos sérios — como a gravidez na adolescência — com a importância que o tema exige, além de um encadeamento lógico, sem recorrer constantemente a publicidades. O autor teve a ideia da obra ao se deparar, em um posto de saúde, com diversas jovens grávidas e sozinhas.
A cena presenciada pelo autor que desencadeou a história é muito comum, já que, segundo o Centro Internacional de Equidade em Saúde da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), uma em cada 23 adolescentes brasileiras entre 15 e 19 anos se torna mãe a cada ano. Além disso, a gestação precoce possui forte relação com privação social, evasão escolar e ausência de políticas públicas eficazes, além de oferecer inúmeros riscos à gestante. Também é considerada uma gravidez de risco por ter, por exemplo, mais chances de pré-eclâmpsia, um distúrbio que aumenta a pressão arterial e força o parto prematuro; complicações no parto; infecção urinária ou vaginal da gestante. Além disso, quando a grávida tem menos de 45 quilos, pode haver impactos no peso do bebê. Por fim, levando em consideração o psicológico, existem chances muito grandes de a gestante desenvolver depressão pós-parto, já que ainda muito novas elas são inseridas num contexto de obrigações da maternidade que podem ser cruéis.
Algumas pautas que já eram historicamente tratadas em novelas da Globo acabaram sendo colocadas de lado nos últimos tempos, e aquilo que vinha se tornando um progresso regrediu de várias formas, de acordo com recentes decisões tomadas pela emissora. A consequência disso foi justamente a perda de espaço para assuntos como gravidez na adolescência, trazida de volta agora com o dramaturgo.
Com essa ausência, vêm a desinformação e o desconhecimento da realidade. Logo no anúncio do elenco de Três Graças, diversos comentários eram: “Você tá querendo que eu acredite que essa mulher vai ser avó?”. Algumas dessas reações se referem a Gerluce, personagem de Sophie Charlotte.

Reprodução / X-Twitter As novelas sempre foram mecanismos de extrema importância para a comunidade brasileira e importantes para a construção de nossa identidade. Trazer realidades vividas por grande parte da sociedade sempre foi uma premissa das obras; entretanto, o crescente conservadorismo no país tenta, de muitas formas, mascarar essas realidades.
A psicóloga perinatal Rafaela Schiavo, entrevistada pelo portal de notícias Terra, explica que “o tabu de falar com adolescentes sobre sexo e sexualidade pode aumentar os casos de gravidez na adolescência, sim. Precisamos que professores e escolas abram mais espaço para esse diálogo com os pais, para ensiná-los a conversar com os filhos”. Sem esse diálogo aberto, que pode muitas vezes ser debatido em novelas, as adolescentes ficam vulneráveis a desinformação, julgamentos e pressões sociais, o que muitas vezes dificulta o acesso a escolhas conscientes sobre sua própria sexualidade e maternidade.
Outros comentários em redes sociais evidenciam a misoginia que as mulheres enfrentam cotidianamente, especialmente durante a gravidez, ainda mais quando ocorre na adolescência.

Reprodução / X- Twitter Diante de uma cena construída de forma cuidadosa, que dá origem à premissa da novela, surgem falas como esta: “Não tem galantaria, deu porque quis”. Esse comentário escancara a misoginia, vinda de homens que se consideram sempre críticos de maneira justa, mas que nunca culpabilizam o pai — que, diga-se de passagem, não passa de um playboy inconsequente que frequentemente também se coloca no lugar de vítima.
A história da família brasileira nasce na família patriarcal, ainda hoje impregnada desse modelo. Vivemos em um país que, em 2022, tinha 49,1% dos lares brasileiros chefiados por mulheres, segundo o Censo Demográfico do IBGE. Esse dado representa um aumento significativo em relação a 2010, quando o percentual era de 38,7%, e mostra uma aproximação entre a proporção de chefes de família mulheres e homens, já que homens são “novos demais, não dão conta”, enquanto as mulheres, além de serem expostas a riscos evidentes à saúde e, muitas vezes, se encontrarem sozinhas, acabam assumindo responsabilidades que, na prática, não deveriam recair apenas sobre elas.
A história de Joélly Maria segue a proposta de uma telenovela de qualidade e é reflexo de uma realidade que ainda atinge muitas adolescentes brasileiras. Ignorá-la é fechar os olhos para questões sociais urgentes. A obra, logo no seu início, já mostra uma grande construção, espero que Aguinaldo não nos decepcione.
Serviço:
Título original: Três Graças
Onde assistir: Globoplay
Gênero: Telenovela
Classificação: 12 anos (A12)
Classificação da autora: 12 anos (A12)
Justificativa: Pode conter cenas, temas ou linguagens não recomendados para menores dessa idade, embora não contenha conteúdo extremamente explícito.*Este texto integra a mobilização do Ariadnes nos 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres entre os dias 25 de novembro, Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres, e o dia 10 de dezembro, Dia Internacional dos Direitos Humanos.
Por Marcela Pauline
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Violência coercitiva e anulação do testemunho no âmbito privado em Garota do Momento

Personagem Clarice, de Garota do Momento — Imagem: TV Globo Para além do traço de personalidade noveleira, parte da minha pesquisa de mestrado envolve estar em contato com as narrativas de diversas telenovelas brasileiras ao longo das décadas. É a partir delas que nós, telespectadores, nos deparamos com espelhos tanto distorcidos quanto semelhantes às tensões sociais que enfrentamos em sociedade. No caso de Garota do Momento (TV Globo, 2024-2025), somos expostos à violência coercitiva e à anulação do testemunho de Clarice (Carol Castro). Ambientada na cidade do Rio de Janeiro de 1940, a história se inicia quando a personagem, viúva, mãe de Beatriz (Duda Santos) e aspirante ao mercado da arte, conhece Juliano (Fábio Assunção) em uma exposição. Ele, empresário e futuro herdeiro da Perfumaria Carioca, acaba se apaixonando à primeira vista e, de pronto, lhe propõe casamento.
Logo nos primeiros capítulos, somos apresentados ao acontecimento chave da narrativa: Clarice acaba testemunhando um crime de Juliano. Valéria (Julia Stockler), mãe de sua filha Isabel (Maísa) confronta o homem sobre uma promessa de casar-se com ela e mudar para os Estados Unidos em busca de tratamento para a criança, que tem um problema cardíaco. Após uma briga, Juliano a empurra, e ela morre ao cair em uma mesa de vidro. Clarice tenta socorrer a mulher, mas ao perceber o óbito, corre para denunciar o ato e acaba sofrendo um acidente de bonde. É aí que a personagem tem o seu destino nas mãos de Juliano e de sua mãe, Maristela (Lilia Cabral). Ao perceberem sua perda de memória, mãe e filho decidem reescrever toda a vida de Clarice, colocando Isabel como sua filha no lugar de Beatriz e encobrindo o assassinato de Valéria. Com a ajuda do Dr. Pimenta (Xando Graça), eles também passam a dopar a mulher continuamente para bloquear sua memória e manter a ordem narrativa construída para a família.
A violência de gênero, como nos apresenta Lourdes Maria Bandeira (2019), professora e pesquisadora brasileira, ocorre por motivações e situações onde o indivíduo é subjugado por questões de raça, idade, classe, dentre outras, em relação àquele núcleo familiar (p. 450). Para este texto, proponho seguirmos até o capítulo 157, exibido no dia 6 de maio deste ano. Após se recordar da noite do crime, Clarice recolhe suas coisas para ir embora da mansão, mas Juliano a cerca, tentando manipular a situação: “A Valéria, ela foi lá porque ela ia atrapalhar o nosso casamento. Eu não podia deixar isso acontecer”, diz Juliano.
Clarice é apresentada na trama como uma mulher de classe social distinta à de Juliano e Maristela, que comandam o grande império da Perfumaria Carioca. A violência que ambos exercem sobre ela, portanto, acaba sendo persistente e multiforme, envolvendo força simbólica e física, com o objetivo de submeter seu corpo e sua mente à vontade e liberdade da família Alencar (Bandeira, 2019). Assim, compreendemos que, além da violência física exercida contra Valéria, Juliano reconfigura toda a vida de Clarice em nome da sua vontade em viver um casamento pleno com ela — uma plenitude fortemente contestável. A partir de bell hooks (2019), teórica feminista e professora, fica evidente para nós que Juliano tenta esconder as violências que exerce ao tentar controlar a situação de maneira que não sofra nenhum tipo de consequência ou retaliação por seus atos: “Isso é um assunto nosso. Faz muito tempo isso, não tem mais o que fazer com isso. Sou eu e você. A gente dá conta desse segredo. Me perdoa, eu amo você. Vai ficar tudo bem”, insiste ele, apelando ao vínculo íntimo para silenciar a verdade.
Garota do Momento nos coloca frente à representação da violência simbólica gerada na intimidade e privacidade das famílias que, por serem tidas como “normais” e corriqueiras, acabam por manter o sistema hierárquico e de poder (Bandeira, 2019). A violência contra Clarice, especialmente no capítulo citado, é a expressão máxima do controle patriarcal exercido por Juliano, o que a própria personagem reivindica: “Você mandou desovar o corpo, você me privou da minha identidade, me afastou da minha filha, me entregou uma outra criança nos braços que não era minha. E você me dopou durante anos para bloquear a minha memória com aqueles remédios que me deram dores de cabeças terríveis. Pelo amor de deus, Juliano, você me torturou”.
É neste ponto que observamos que parte da luta feminista ganha materialidade: tornar pública a violência sofrida por mulheres, a fim de reconhecer o poder familiar no processo de silenciamento deste problema, que envolve a sociedade em geral (Bandeira, 2019). Percebendo que não conseguiria manipular Clarice, Juliano a tranca no quarto, mas não a impede de gritar. É com a chegada de Maristela que ambos articulam as possíveis consequências, caso a situação se torne pública. “Mas ela não tem como provar que a Valéria morreu. O máximo que pode acontecer é nós sermos acusados de inventar um novo passado, uma identidade. Nada que um bom advogado não nos liquide a questão, com um juiz comprado, naturalmente”, articula Maristela. Nesta fala, a personagem já demonstra como o sistema — incluindo o Estado e suas instituições de justiça — pode ser instrumentalizado como órgão central de controle para exterminar qualquer possibilidade de ameaça ao patrimônio e propriedade da família (Bandeira, 2019).
O papel de Maristela é fundamental para demonstrar que, ao ser uma mulher que exerce sua autoridade coercitiva a fim de manter a posição de poder de sua família (hooks, 2019), Maristela não só apoia o uso da violência contra Clarice, mas também articula sua internação forçada com a ajuda de Juliano e do dr. Pimenta. “Você vai calar a boca da sua esposa de uma vez por todas. Eu vou ligar para o dr. Pimenta”, diz enquanto prepara uma mordaça e entrega ao filho. Após contê-la durante toda a noite, Clarice é apresentada no dia seguinte como “louca” para a equipe médica. Aos gritos de protesto, ela busca no médico uma tentativa de intervenção contra Juliano e seus crimes. “Percebeu que ela tá completamente lelé? Agora deu pra cismar que eu matei uma pessoa. Eu infelizmente vou ter que pedir pro dr. caprichar no sossega leão. Ela tá completamente fora de si”, mente o homem.
Marcada pelo gênero e sua posição de esposa na hierarquia familiar, Clarice tem seu testemunho anulado pelo marido e seu corpo contido pela força de outros homens. A espetacularização da loucura na narrativa ilustra como acontece a anulação da voz de diversas mulheres em sociedade. Ela representa a forma como a sociedade patriarcal tenta desqualificar testemunhos que ousam romper com segredos familiares e desafiam a ordem social hegemônica. A história desta personagem é um lembrete contundente de que a luta não se restringe à violência física explícita, mas se estende ao combate à violência simbólica e institucional que valida a narrativa do agressor e da “mulher histérica”. A libertação de mulheres como Clarice simboliza a urgência de garantir que seu testemunho seja reconhecido e protegido pelo conjunto da sociedade. Se você passa por alguma violência e necessita de ajuda, entre em contato com a Central de Atendimento à Mulher pelo Disque 180 ou WhatsApp no número (61) 9610-0180.
Por: Natalia Lima Amaral
Serviço:
Título Original: Garota do Momento
Onde Assistir: Globoplay
Duração: 202 capítulos
Classificação Indicativa: 12 anos (A12)
Classificação das autoras: 12 anos (A12)
Gênero: Telenovela/Romance*Este texto integra a mobilização do Ariadnes nos 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres que começaram no dia 25 de novembro, Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres, e vão até o dia 10 de dezembro, Dia Internacional dos Direitos Humanos.
Referências
BANDEIRA, Lourdes Maria. Violência de gênero: a construção de um campo teórico e de investigação. In: HOLLANDA, Heloisa Buarque de (org). Pensamento feminista brasileiro: formação e contexto. Rio de Janeiro: Bazar do tempo, 2019.
hooks, bell. O movimento feminista para acabar com a violência. In: Teoria feminista: da margem ao centro. São Paulo: Perspectiva, 2019.
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The Handmaid’s Tale e o controle do feminino
Na série The Handmaid’s Tale, lançada em 2017 pela Hulu, acompanhamos June, uma mulher que, após um golpe de líderes religiosos de extrema-direita nos Estados Unidos, é obrigada a ser uma aia. As aias são um grupo de mulheres que, por sua fertilidade, são selecionadas pelo Estado teocrático para serem estupradas e controladas, buscando uma solução para a baixa taxa de natalidade do país. Assim, a protagonista passa a ser chamada de Offred; os nomes delas são designados a partir da família à qual elas servem no momento (de Fred – of Fred, em inglês) – uma maneira de descaracterizar suas identidades. Para além da violência sexual, essas mulheres são alvo de diversas violações, sendo exploradas pelo governo de ocasião.

As aias reunidas na 6ª temporada. Reprodução: Prime Video De acordo com a Lei Maria da Penha, são 5 os tipos de violência contra a mulher: a violência física, que é qualquer ação que afete a integridade e/ou a saúde do corpo feminino; a violência psicológica, sendo qualquer conduta que prejudique o emocional e a autoestima da mulher, tendo controle de seu comportamento; a violência sexual, que violenta a vítima de forma não desejada sexualmente; a violência patrimonial, que é responsável por tirar das mulheres seus pertences como recursos econômicos, trabalho, documentos pessoais etc; e a violência moral, colocando a vítima em situações de injúria, calúnia e/ou difamação. A partir desses dados e analisando o contexto da série, entendemos que as aias são vítimas de todas as violências contra a mulher previstas pela lei brasileira – e outras, ainda não cobertas pela legislação.
A obra audiovisual é inspirada no livro de mesmo nome, traduzido para o Brasil como O conto da aia, da autora canadense Margaret Atwood. Assim como na série, Offred mora na então atual República de Gilead, pertencendo a uma família de alto escalão do governo. Para além das aias, as mulheres são divididas em outras 4 categorias: esposas, tias (responsáveis pelo treinamento das novas aias), marthas (funcionárias domésticas) e jezebels (mulheres forçadas a prostituição). Em todos os casos, elas possuem papéis pré-definidos e são impossibilitadas de exercerem outras tarefas, sendo proibidas de agirem em prol de si mesmas.
A distopia mostra um mundo onde a figura feminina é reprimida a todo tempo, sempre com base em discursos religiosos. Com o objetivo de melhorar a taxa de natalidade do país, as aias são tratadas somente como máquinas reprodutoras, sendo estupradas constantemente. A violação ocorre por meio de um ritual que, na série, é baseado em uma parte específica da Bíblia:
“Raquel, vendo que não dava filhos a Jacó, teve inveja de sua irmã e disse a Jacó: Dá-me filhos, senão eu morro. Então Jacó irou-se contra Raquel e disse: Estou eu, porventura, no lugar de Deus, que te impediu o fruto do ventre? E ela disse: Eis aqui minha serva Bila; entra a ela, para que ela dê à luz sobre os meus joelhos, e eu assim tenha filhos por ela” (Gênesis 30:1-3)
Após a leitura, o estupro é realizado, imobilizando a aia entre as pernas da esposa. Na distopia, atos sexuais são exclusivos para reprodução: mais uma maneira de controle dos corpos e da sexualidade feminina, tendo em vista que os homens frequentam prostíbulos ilegais. Neles, eles são atendidos por mulheres que, na visão da sociedade de Gilead, são rebeldes demais para o sistema; dentre elas, antigas pesquisadoras da academia ou as que fugiram do Centro Vermelho (local de treinamento das aias). As jezebels tem uma falsa sensação de liberdade, tendo em vista que escolheram trabalhar naquele local, tendo acesso a livros e podendo se relacionar sexualmente para além da reprodução; porém, seus corpos ainda são controlados pelo Estado, sendo tratadas somente como objetos de prazer para os homens. Na ficção (e na vida real) a violência contra a mulher não é um fato isolado – é um problema estrutural, que se fortalece diariamente na sociedade

“Aias” contra o PL do Estuprador no Rio de Janeiro, 2024. Reprodução: Tomaz Silva/Agência Brasil O mundo de Gilead não é tão distante da realidade: de acordo com a Secretaria de Comunicação Social do Governo Federal, em 2024 foram realizadas 573.131 ligações para o Disque 180 em todo o território nacional. Destas, 32.591 relataram sofrerem violências há mais de um ano, sendo metade de todas denúncias (46,4%) ocorridas diariamente. Em 2025, a Comissão de Direitos Humanos do Senado, presidida por Damares Alves (Republicanos- DF), aprovou o PL 2.524/2024, proibindo a realização do aborto após 22 semanas de gestação: mais um ato que limita a autonomia das mulheres sobre seus próprios corpos e seus direitos reprodutivos, tendo em vista que nem mesmo em casos de risco à saúde da gestante o aborto poderá ser realizado. The Handmaid’s Tale é muito além de uma distopia – é o retrato de uma sociedade não tão distante que, baseada na desumanização e controle das mulheres, passou a tomá-las para si.
Se você passa por alguma violência e necessita de ajuda, entre em contato com a Central de Atendimento à Mulher pelo Disque 180 ou Whatsapp no número (61) 9610-0180.
Título original: The Handmais’s Tale
Temporadas: 6 temporadas (2017-2025
Onde assistir: Disney+, Globoplay, Paramount e Amazon Prime Video
Gênero: Série de romance distópico Temas: Totalitarismo, papéis de gênero, religião, mercantilização do corpo feminino, violência
Classificação: 18 anos (A18) Nossa classificação: 18 anos (A18)
Justificativa: A série contém cenas explícitas de abuso sexual e violência de gênero, podendo causar gatilhos.*Este texto integra a mobilização do Ariadnes nos 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres entre os dias 25 de novembro, Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres, e o dia 10 de dezembro, Dia Internacional dos Direitos Humanos.
Por Maria Vital
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Violência e maldição na linguagem de “Pssica”
*Aviso de gatilho: o texto trata de violência sexual e estupro
Pensar numa realidade de violência sexual que atinge meninas e mulheres é indigesto, mas, infelizmente muito próximo do nosso cotidiano. Elas acontecem na rua, em ambientes educacionais, na política, e (principalmente) dentro de casa. De acordo com dados do estudo Sem deixar ninguém para trás: gravidez, maternidade e violência sexual na adolescência, a maioria (67%) dos 69.418 estupros cometidos entre 2015 e 2019 tiveram como vítimas meninas com idade entre 10 e 14 anos.
Porém, quando olhamos para disposição dos números no Brasil, observamos que a subnotificação ainda perdura em casos de estupro e abuso sexual, com apagão de informações em algumas regiões, como norte do país. Dessa forma, deslocar nosso olhar para realidade brutal paraense é tarefa da minissérie Pssica, de 2025. Dirigida por nomes conhecidos do cinema nacional, Quico e Fernando Meirelles, a obra é produzida pela O2 Filmes e Netflix.
Algumas das meninas que acompanhamos durante a série. Imagem: divulgação/Netflix O trabalho percorre os rios do Pará, em especial na região de Belém e Ilha do Marajó, e se entrelaça com histórias de outros personagens, retratando outras facetas de violência – como roubos de carga, relações entre organizações criminosas e assassinatos. Porém, o foco deste texto será a trama de tráfico e abuso sexual de meninas.
Imergindo nos rios do Pará
Quando Janalice (Domithila Cattete) tem imagens sexuais divulgadas sem consentimento na escola, seus pais – por indicação da igreja que frequentam – enviam a menina de 16 anos para morar com a tia durante um período. A ideia é que a distância seria tempo de reflexão e perdão. Mas, ao contrário disso, a adolescente se vê em mais uma situação de violência quando é estuprada pelo namorado da tia dentro de casa.
Na tentativa de fugir desse lugar, ela conhece Dionete (Ademara Barros) – que também está envolvida em um esquema de exploração sexual e consumo abusivo de drogas – e Miltinho (Luca Dan), uma criança indígena em busca de sua irmã (Sendí Baré), sequestrada da aldeia e levada para o Marajó, onde servia de escrava sexual. Em meio a essas relações, os ratos d’água – gangue que atua na região e responsáveis por sequestrar meninas para o tráfico e exploração sexual – recebem indicações de um “perfil” a ser encontrado: garotas brancas, bonitas e jovens. Nesse momento, a série vai nos conduzindo pela maldição que guia a narrativa ali: não há escapatória, o destino será implacável.
Jana é sequestrada e se junta a outras meninas em uma fazenda afastada de tudo. Sua função ali é servir ao dono do local, Zé Ilídio (Cláudio Jaborandy), seja sexualmente ou com afazeres domésticos. As cenas são de completa brutalidade, com detalhes e closes dos estupros ali cometidos, o que nos deixa estarrecidas, claro, mas ao longo da série torna-se “comum” de tanto assistir.
Quando afirmo violência e maldição como linguagem em Pssica, me refiro ao modo como as imagens são dispostas, a trama é construída e o ciclo de acontecimentos ruins é a única possibilidade ali. “Pssica” é uma gíria da cultura nortista e remete ao azar, a algo negativo que persegue alguém e, logo de cara, fica evidente que tratar de temas tão densos e complexos é sim algo difícil. No entanto, ao utilizar-se da violência de maneira tão exacerbada, me parece que a série quer trazer mais choque e menos reflexão aprofundada.
Com o tempo acelerado e tudo acontecendo de forma tão agressiva, alguns pontos da narrativa se perdem e vão por um caminho equivocado – como a paixão súbita de Preá (Lucas Galvino), um dos ratos d’água, por Jana durante o sequestro. Me pergunto se há espaço para debater a violência sexual ou se ela fica como detalhe em meio a tantos acontecimentos. Ao valer-se dessa linguagem brutal, unida com a “maldição” que acompanha as personagens, a série não nos dá margem para pensar de maneira diferente, imaginar soluções possíveis.
A sensação de assistir chega a ser sufocante, mas ao mesmo tempo eletrizante, como algo que nos prende na narrativa. A própria personagem de Janalice transmite, a partir de seus olhares, a captura de nossa atenção ao vê-la como vítima desse esquema, que de tão real soa grotesco. Ao reforçar a realidade do tráfico humano ou de exploração sexual, a maldição – ou pssica – torna-se um destino comum a tantas meninas e mulheres; para onde quer que elas forem, sempre enfrentarão violências.

Janalice está constantemente cercada por violência. Imagem: reprodução/Netflix Justamente esse ponto me trouxe um certo incômodo com a série, ao não nos confrontarmos com alguma saída viável para Jana ou as outras personagens que acompanhamos. É claro que não espero um final feliz típico de contos de fada, pois a realidade não nos permite tal devaneio. Mas, novamente me questiono: será que tal representação, repleta de violência, é a ideal para promover a reflexão necessária?
Depois de chegar na ilha e de uma tentativa de fuga fracassada, resultando na morte de uma das garotas do grupo, ocorre uma festa em que Janalice é entregue “de presente” para o prefeito da cidade. O que, mais uma vez, reforça esse funcionamento normal das violações contra meninas: todo mundo sabe, todo mundo faz. Dentre várias tentativas de alcançar a liberdade, a jovem é traficada para a Guiana Francesa e vive em cárcere numa casa de prostituição.
No final das contas, Jana consegue sair dali com a ajuda de Mariangel (Marileyda Soto) e retorna para o Brasil em segurança. Ela decide não retornar para sua casa, onde a mãe reside sozinha após o suicídio do pai durante a busca pela menina. Os traumas e memórias de sobrevivência marcam a jovem permanentemente. Ela não poderá voltar a ser o que era jamais.
Entre cativeiros ficcionais e reais
Edyr Augusto, jornalista paraense e autor do livro homônimo que deu origem à série, afirma que a história não é baseada em um só relato real, mas no cotidiano de violência observado por ele. O escritor conta que reuniu notícias de jornais locais por dois anos para construir a trama, ou seja, a inspiração é totalmente concreta e reflexo da cultura de exploração e abuso sexual contra meninas e mulheres no norte do Brasil.
Assim como Mariana Brennand, diretora de Manas, afirma que o filme não é inspirado em uma personagem, a história de Pssica não diz respeito apenas a um acontecimento, mas sim a um panorama da realidade vivenciada por essas pessoas, que estão no que a professora e pesquisadora Patrícia Hill Collins chama de “cativeiro” no livro X. Ela afirma que a violência tem sido uma tecnologia potente para que as pessoas fiquem em seus “lugares demarcados”, nesses cativeiros.
Ou seja, a estrutura de violência sexual à qual meninas e mulheres são submetidas, sobretudo as negras e de baixa renda, é reforçada, reproduzida e gerenciada por práticas sociais que a sustentam. Em Pssica, observamos como prefeitos, vereadores e pessoas com dinheiro e poder estão intrinsecamente envolvidos nos esquemas, ultrapassando inclusive a fronteira do Brasil com Guiana. A lógica da exploração e tráfico dessas meninas está ligada portanto à falta de ação do Estado e das polícias, que se veem cerceados por grandes estruturas financeiras, com anuência de governos locais.
Ao apenas reproduzir essa realidade tão crua, sem escapatórias, nos vemos também cerceadas por essas pragas, entranhadas no cotidiano brasileiro. Porém, diferente de algo supostamente determinado, como a vida de Janalice, o combate à violência contra meninas e mulheres é um conjunto de ações que exige planejamento e informação ampla para todas as pessoas.
Não será possível alcançar uma democracia que não olhe para essas meninas; abusadas, estupradas e forçadas a serem mães por um Estado que se comprova inimigo. No entanto, ao termos acesso apenas a imagens que reforçam tais violências, é como se as imagens de controle (termo cunhado por Patricia Hill Collins) fossem as únicas possíveis. Elas chocam, nos deixam estarrecidas. Mas é preciso vislumbrar ações palpáveis para alterar esse cenário, estratégias concretas para debatermos.
Enquanto o espanto e o distanciamento forem nossos únicos recursos, a realidade permanecerá como pssica, essas maldições insolucionáveis. No entanto, sabemos que há maneiras de alterar a vida de meninas e mulheres – e isso precisa ser feito coletivamente. Vamos juntas pela eliminação da violência contra mulheres.
Alguns dados importantes sobre violência sexual contra meninas:
Panorama da violência letal e sexual contra crianças e adolescentes no Brasil
Sem deixar ninguém para trás: gravidez, maternidade e violência sexual na adolescênciaServiço:
Título original: Pssica
Onde assistir: Netflix
Gênero: Thriller; Violência; Suspense.
Temas: Violência sexual; Região Norte; Tráfico de meninas.
Classificação: 18 anos (A18)
Nossa classificação: 18 anos (A18)
Justificativa: Abordagem de temas sensíveis como estupro, violência explícita, uso de drogas ilícitas e exploração de meninas e mulheres.*Este texto integra a mobilização do Ariadnes nos 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres que começaram no dia 25 de novembro, Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres, e vão até o dia 10 de dezembro, Dia Internacional dos Direitos Humanos.
Por Lia Junqueira
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A infância ameaçada: Manas e a realidade da violência sexual contra meninas no Brasil

Cena do filme “Manas” de Marianna Brennand. Foto: Divulgação Em 2024 foram registrados mais de 85 mil casos de estupro no Brasil, de acordo com dados publicados na 19º edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, organizado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). Esse foi o maior número registrado desde 2011, quando o FBSP iniciou esse levantamento. Desses 85 mil, cerca de mais de 65 mil foram casos de estupro de vulnerável, sendo que o número de meninas vítimas desse crime chega a quase 56 mil. Das vítimas, 42% tinham entre 10 e 13 anos, quase 68% dos casos aconteceram dentro de casa e 59,5% dos agressores tinham relação familiar com as vítimas.
Essa realidade é retratada no filme Manas (2024), dirigido pela cineasta Marianna Brennand e estrelado por Jamilli Correa, Dira Paes, Fátima Macedo, Ingrid Trigueiro, Samira Eloá, Rômulo Braga e Rodrigo Garcia. A obra é ambientada no estado do Pará e retrata os casos de abuso e exploração sexual que são registrados na Ilha do Marajó. A narrativa acompanha a história de Marcielle (Jamilli Correa), uma menina de 13 anos que, após sofrer abusos por parte do pai (Rômulo Braga) e de um homem que ela conhece em uma balsa (Rodrigo Garcia), decide romper com esse ciclo de violência que atinge as meninas da comunidade onde vive.
Um destaque foi a escolha da diretora de não mostrar explicitamente nenhuma cena de abuso. A tensão construída pela montagem das cenas e a trilha sonora já são suficientes para trazer essa sensação para o público. Isso também é relevante pela escolha do elenco, já que a atriz que interpreta a protagonista tinha 13 anos quando aconteceram as gravações. Esse tipo de instrumento narrativo é importante também para a obra representar a realidade dos crimes, mas sem “reproduzir” o crime em si, já que muitas vezes, a escolha por reproduzir cenas de violência tira um pouco o foco da denúncia e foca mais no ato.
Na história, Marcielle vive com os pais e irmãos em uma casa numa pequena comunidade ribeirinha aos arredores da Ilha do Marajó. Ela também tem uma irmã que foi para a região sul do Brasil, e sempre questiona a mãe (Fátima Macedo) sobre a razão de a jovem ter feito isso. A mãe sempre responde que a irmã está em um lugar melhor com um homem que ela conheceu na balsa. No filme, a balsa é um ponto importante para entender a dinâmica da expectativa de vida das mulheres da comunidade e a violência sexual que acontece na ilha.
A balsa representa um lugar ambíguo: ao mesmo tempo que as jovens daquela região a enxergam como um meio de conseguir uma vida melhor, ela também representa um lugar de abuso e violência. A balsa demonstra que a violência contra corpos femininos é tão normalizada na sociedade em que vivemos que chega num ponto que as próprias vítimas normalizam esse tipo abuso, como no caso da amiga da protagonista, interpretada por Samira Eloá. Os homens que usam a balsa para se locomover pelo lugar muitas vezes são trabalhadores de fora de Marajó que se aproveitam da vulnerabilidade econômica e da pouca experiência de vida das jovens (elas acabaram de sair da infância), para aliciá-las a dormir com eles.
Ao longo da narrativa, é revelado para o espectador o ciclo de violência sexual que acontece com as meninas e mulheres daquela comunidade. Por exemplo, um dia o pai de Marcielle pede para irem caçar juntos no meio da floresta, algo que deixa a mãe apreensiva. Nesse dia, Marcielle é estuprada pelo próprio pai. Depois disso, uma sequência de abusos acontece, não só com ela, mas com todas as meninas daquele lugar. No final do filme, a mãe dela revela que também foi violentada pelo próprio pai e expulsa de casa pela mãe quando ficou grávida.
A policial interpretada por Dira Paes prende os homens que estavam envolvidos no abuso das jovens e tira a guarda das meninas dos pais, pois quem devia cuidar e preservar a dignidade delas está cometendo violências ou sendo omisso em relação a elas. Quando essa policial questiona a mãe de Marcielle sobre ela saber o que acontecia nas balsas, a mulher diz que não queria que acontecesse com a filha o mesmo que aconteceu com ela.
O ponto de virada na história acontece quando Marcielle percebe que aquele tipo de situação, mesmo comum entre aquelas jovens, não é adequada e nem aceitável. Um dia, ao chegar em casa e não encontrar a irmã mais nova, que tem menos de 10 anos, ela fica preocupada com o que pode ter acontecido. Mesmo com a resistência da mãe em dizer onde a menina está, a protagonista vai atrás do pai abusador na floresta. Lá ela coloca um fim àquele ciclo de abuso e salva a irmã do mesmo que aconteceu com ela.
A partir dessa obra e os dados obtidos pelo FBSP, observamos que a violência sexual contra crianças e adolecentes do gênero feminino é tratada socialmente como algo normalizado e extremamente recorrente. Mesmo sendo um crime passível de punição (Lei nº 12.015/2009), os homens ainda se sentem confortáveis em dominar os corpos femininos e os números indicam que o principal tipo de corpo atacado é o infantil, negro (55,6%) e de baixa renda. Isso revela que não apenas o estupro está enraizado na sociedade, mas também a pedofilia.
Outro fator que temos que considerar quando olhamos para os dados sobre violência sexual cometidas contra crianças é a subnotificação de casos e de gênero. Ou seja, mesmo que os números apresentados sejam alarmantes, ele pode ser maior. E mesmo que a ocorrência dos casos prevaleça contra meninas, não podemos esquecer que os meninos também estão vulneráveis a esse tipo de crime. O estudo aponta que existe uma subnotificação maior entre os casos de violência sexual cometida contra garotos. A principal razão disso são as barreiras sociais e simbólicas que fazem parte da sociedade patriarcal em que vivemos.
Serviço:
Título Original: Manas
Onde Assistir: Amazon Prime Video
Duração: 1h 41min(101min)
Gênero: Drama
Classificação Indicativa: 16 anos(A16)
Nossa Classificação: 18 anos(A18)
Justificativa: O filme apresenta situações implícitas de abuso sexual contra menores de idade e pode causar gatillhos.*Este texto integra a mobilização do Ariadnes nos 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres entre os dias 25 de novembro, Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres, e o dia 10 de dezembro, Dia Internacional dos Direitos Humanos.
Por Mariana Amaral
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O cambiante jornalismo na cobertura de feminicídios: o caso Catarina Kasten
O feminicídio de Catarina Kasten, no último dia 21 de novembro, em Santa Catarina, é mais uma demonstração da permanência dos problemas do jornalismo brasileiro na cobertura dessa violência. É preciso reconhecer avanços históricos, como o uso do termo feminicídio e a referência ao Disque 180 em parte considerável da cobertura. A perspectiva de gênero, porém, continua ausente, com exceção de veículos feministas, como o Portal Catarinas.
Pelo resto da imprensa, no caso de Catarina ou no entorno dele, se repetem problemas exaustivamente apontados por pesquisas feministas:
- Os títulos na voz passiva são focalizados na mulher, tirando de foco o suspeito ou feminicida e centrando toda a ação na vítima. O feminicida de Catarina foi rapidamente identificado e preso, mas ainda assim as manchetes eram sobre ela.
- O uso do termo “morta” retira a gravidade da violência, afinal uma pessoa pode ser morta em um acidente, uma fatalidade. Feminicídio é um crime com autoria.
- A vítima perde gradualmente a identidade e se torna a “estudante de pós-graduação da UFSC”; a “professora morta em SC”.
- O jornalismo dá grande destaque aos detalhes das violências sofridas, adotando a perspectiva do jornalismo policial e, em alguns casos, policialesco. No caso do feminicídio de Catarina, o laudo que apontou a violência sexual foi repercutido à exaustão.
- Feminicídios de mulheres brancas ganham mais visibilidade e são cobertos de forma mais humanizada que os de outros grupos. Diversos veículos publicaram matérias sensíveis narrando quem Catarina era, para além de constituí-la publicamente como vítima de um crime. Essa sensibilidade não se aplica a mulheres negras ou com deficiência, por exemplo.
- Não há um enquadramento estrutural sistemático que conecte cada caso – e os casos – aos valores patriarcais, à misoginia. Há uma melhora, sim, pois agora os dados muitas vezes são apresentados. Mas a discussão mais profunda, sobre as bases de nossa sociedade que permitem ou legitimam esses acontecimentos, permanece ignorada.

Amostra das primeiras notícias sobre o feminicídio de Catarina Kasten: os problemas continuam. Quais seriam as causas da perpetuação desses problemas?
Nós já sabemos que o jornalismo é masculino, em seus valores, rotinas produtivas, cargos diretivos, estruturas de propriedade. Mas gradualmente, mulheres e jovens profissionais se integram à prática profissional. Essas gerações, mais acostumadas às discussões de gênero, poderiam introduzir novas formas de noticiar esses assuntos. A cobertura do feminicídio de Catarina Kasten, felizmente, está anos luz à frente dos casos paradigmáticos de violência midiática contra mulheres, apesar dos problemas.
E, ainda assim, aqui estamos. No Ariadnes, temos discutido sobre esse estado de coisas e levantado algumas hipóteses. Uma delas é que, apesar de uma maior presença da discussão de gênero e sexualidade na sociedade, a formação em jornalismo ainda é deficiente nesse aspecto. Há pouca institucionalização, poucas disciplinas em currículos pelo país.
Outro problema é a formação continuada. Há poucas oportunidades de especialização na temática – ainda que tenha havido iniciativas recentes importantes nesse sentido. E mesmo com mais possibilidades de complementar a formação, é difícil exigir de profissionais precarizados e precarizadas, em processos de adoecimento e com salários baixos, que se atualizem por conta própria – e, muitas vezes, do próprio bolso.
Na universidade temos buscado oferecer esse tipo de formação complementar tanto para futuros e futuras jornalistas como para jornalistas da região. O resultado tem sido, até agora, um reflexo de toda nossa atuação: a pouca ou inexistente participação masculina e o baixo interesse do veículos de Mariana, Ouro Preto, Itabirito.
Isso indica que os homens não se sentem implicados na discussão de gênero e sexualidade – como se ser um homem hétero na sociedade não envolvesse essas duas dimensões. Uma herança do posicionamento do homem como sujeito universal e de quem difere dele como Outro. Também aponta (à parte as questões mais crônicas da profissão) para um cenário de desinteresse, por parte de profissionais do jornalismo da região, de modificar o modo como cobrem violências de gênero, especialmente violências contra a mulher – as que merecem mais atenção.
Diante desse cenário, às vezes parece que nós, da academia, ficamos falando para o vazio. Parece que nossa atuação não encontra eco nem suscita mudanças sociais. Isso é um engano. As mudanças são visíveis e devem ser celebradas. Os erros que apontamos repetidamente, denunciados até que deixem de existir e possamos praticar, produzir e consumir um outro jornalismo.
*Este texto integra a mobilização do Ariadnes nos 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres entre os dias 25 de novembro, Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres, e o dia 10 de dezembro, Dia Internacional dos Direitos Humanos.
Por Karina Gomes Barbosa
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Elegia de um crime: A reconstrução dura de uma vida cruel

Fotografia de Isabel Burlan utilizada no filme-documentário “Elegia de um crime”. Foto: Divulgação. Isabel Burlan da Silva, nascida em 28 de agosto de 1958 no Rio Grande do Sul, era mãe de cinco filhos, irmã, filha, promotora, cozinheira e mais tarde faxineira. Sempre sonhou em ter uma família, mesmo vivenciando períodos conturbados na infância e adolescência. Cresceu cercada pela simplicidade e com um ciclo pequeno de familiares e amigos. Ouvia constantemente discursos defensores da família tradicional e da submissão ao marido, feitos pelas mulheres que a rodeavam.
Conforme crescia, Isabel se tornou uma mulher forte e resiliente que se viu diante de mortes fortuitas quando mais velha. Em 2001, enfrentou a morte de um dos seus cinco filhos, Rafael Burlan da Silva, assassinado com sete tiros pelas costas no Capão Redondo, bairro da periferia na Zona Sul de São Paulo. Três anos depois, o pedreiro gaúcho Vânio Porto, seu marido, partiu de forma pouco esclarecida. “Morreu de bêbado. Bateu a cabeça e morreu”, declara o amigo de infância do pedreiro Thiago Luna Delena. Assolada por tais perdas, Isabel se mudou para Uberlândia, em Minas Gerais, buscando oportunidades de se restabelecer e enfrentar a dor do luto.No ano de 2010, Isabel começou a se envolver com um homem mais novo, vindo da Bahia e que, segundo familiares, tinha interesse no dinheiro da parceira. Este foi um relacionamento conturbado e agressivo, com términos, discussões constantes e ameaças. O companheiro de Isabel chegou a atear fogo na casa com ela dentro, dormindo. Os vizinhos relataram ouvir as brigas, os gritos. Eles contam das tentativas contínuas em fazer com que Isabel saísse daquele relacionamento, daquela casa, daquela cidade. Em fevereiro de 2011, na cidade de Uberlândia, Jurandir Muniz de Alcantara, companheiro de Isabel, a assassinou enquanto ela dormia. A mulher morreu asfixiada e teve o corpo exposto por uma emissora de televisão com um vídeo que circula nas redes sociais até hoje, desonrando a mãe, irmã e filha de 52 anos. O assassino fugiu e o crime até hoje não teve julgamento.

Imagem: trecho do filme. A partir dessa sequência de acontecimentos, o filho de Isabel Cristiano Burlan produziu o filme-documentário Elegia de um crime (2018). O documentário fechou a Trilogia do Luto, composta por mais duas produções que relatam as outras perdas da família Burlan: a morte do pai, tratada em Construção (2007), e o assassinato de seu irmão Rafael, desenvolvida em Mataram meu irmão (2013). Ferido pelo luto e pela raiva, Cristiano busca ressignificar e dignificar a imagem da mãe, vítima de feminicídio e da exploração dessa violência pelo telejornalismo.
Eu que deveria lhe proteger, me tornei sua testemunha.[…] Só consigo pensar que sua fuga para um lugar seguro foi um breve alívio.
Cristiano BurlanO filme começa com Cristiano fazendo uma tentativa de contato com a polícia, no qual implora para fazerem um flagrante onde o feminicida poderia estar. O assassino, foragido, com um mandado de prisão e acusado de matar outras duas mulheres além de Isabel, ainda vive na cidade do crime, e periodicamente é visto por moradores que têm conhecimento do caso. Ainda assim, a polícia afirma não ter controle de ação sem provas concretas. A partir desse momento, Cristiano procura intervir no curso dos acontecimentos com a gravação do documentário.
Durante as filmagens, o diretor se reencontra com a repórter responsável pela reportagem na época do crime, exibida na TV Vitoriosa, afiliada ao SBT. Cristiano buscava ajuda na procura pelo assassino, o qual acreditava ainda estar nos arredores da cidade. A repórter, Cassia Bomfim Del Cassale, foi solícita e gentil durante toda a produção, representando um papel importante. Ao ser lembrada da reportagem que produziu em 2011, que expôs o corpo de Isabel, ela comenta que muitas coisas sobre a forma como relatam casos violentos na televisão mudaram em respeito aos familiares das vítimas. Mas aponta que exibir essas imagens mórbidas dá Ibope, “o povo quer ver”.Os casos de violência no Brasil são explorados, principalmente, pelo telejornalismo policial. O uso da imagem de Isabel na reportagem a transforma em apenas mais uma vítima, um número, deixando marcado na memória de Cristiano e de seus familiares imagens violentas como o último momento de uma pessoa querida, apagando lentamente as lembranças de Isabel quando ainda estava viva. No filme, o filho reconhece que, no enterro da mãe, seu primeiro ímpeto foi filmá-la no caixão, e confessa a culpa em relação a esse pensamento que o atormentou profundamente. Como cineasta, Cristiano reconheceu existir um limite onde a filmagem passa a ser antiética, desonra da qual Isabel foi vítima.
Ouvimos a dor pelas vozes dos filhos, tios, tias. Muitos dizem ter sido um crime anunciado. A maioria demonstra tristeza e revolta pela forma como ela morreu e pelo feminicida continuar impune até hoje. Os entrevistados não são nomeados e não conseguimos saber qual o nível de proximidade de cada pessoa com ela, mas é tangível o amor e a preocupação de todos. Os nomes são informados apenas nos créditos finais. Essa parece ser uma tentativa de não prejudicar a intensidade das imagens e das conversas, levando o foco para Isabel, para sua vida e a família que ela formou.
Esse ato é um mergulho na memória que traz à tona, de forma fragmentada, recordações do passado, enquanto o diretor, que também é um personagem e familiar da vítima, tenta buscar vingança. Inicialmente, seu propósito é realizar a prisão do assassino de Isabel sozinho, sem a ajuda de um sistema que falhou em defender seus familiares no passado, sendo esse seu ato criminoso. Entretanto, Cristiano assume, ao fim do documentário, que seu ato criminoso, sua vingança, é a capacidade e a oportunidade de realizar filmes – e não de fazer justiça com as próprias mãos. A penúltima imagem do filme é uma filmagem de Isabel junto com familiares, com um sorriso no rosto enquanto observa a cena que se passa ao redor. Linda, como tantos relatos destacaram. Em seguida, vemos uma fotografia do assassino, com a legenda:
“PROCURADO: Jurandir Muniz de Alcântara”. Abaixo da foto, uma orientação: “Caso tenha alguma informação, ligue para a polícia”.
É dessa forma que Cristiano Burlan finaliza seu ato criminoso.
Serviço:
Título original: Elegia de um crime
Onde assistir: Google Play ou Embaúba Play
Gênero: Documentário
Classificação: 14 anos (A14)
Classificação da autora: 14 anos (A14)
Justificativa: Abordagem de temas sensíveis como feminicídio e luto, sem cenas violentas.*Este texto integra a mobilização do Ariadnes nos 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres que começaram ontem, 25 de novembro, Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres, e vão até o dia 10 de dezembro, Dia Internacional dos Direitos Humanos.
Por Letícia Gabrielli
