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  • O que Três Graças revela sobre a maternidade adolescente e a misoginia da sociedade

    Joélly Maria, Gerluce Maria das Graças e Lígia Maria compõem o núcleo familiar de mães solo da novela Três Graças. Foto: Divulgação

    Após um final, diga-se de passagem, bem decepcionante do remake de Vale Tudo, a Globo possui um diamante a ser lapidado em suas mãos com a nova produção de Aguinaldo Silva, Três Graças, que tem a premissa de contar a história de três mulheres da mesma família — avó, mãe e filha, respectivamente — que ficaram grávidas na adolescência. Gerluce Maria das Graças integra uma família de mães solo: é filha de Lígia Maria e mãe de Joélly Maria, que, no início da trama, descobre uma gravidez aos 15 anos e, assim como a mãe e a avó, será uma mulher que criará sozinha sua criança.

    Novamente retomando a antecessora de Três Graças, é muito bom ver novelas voltando a pautar assuntos sérios — como a gravidez na adolescência — com a importância que o tema exige, além de um encadeamento lógico, sem recorrer constantemente a publicidades. O autor teve a ideia da obra ao se deparar, em um posto de saúde, com diversas jovens grávidas e sozinhas. 

    A cena presenciada pelo autor que desencadeou a história é muito comum, já que, segundo o Centro Internacional de Equidade em Saúde da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), uma em cada 23 adolescentes brasileiras entre 15 e 19 anos se torna mãe a cada ano. Além disso, a gestação precoce possui forte relação com privação social, evasão escolar e ausência de políticas públicas eficazes, além de oferecer inúmeros riscos à gestante. Também é considerada uma gravidez de risco por ter, por exemplo, mais chances de pré-eclâmpsia, um distúrbio que aumenta a pressão arterial e força o parto prematuro; complicações no parto; infecção urinária ou vaginal da gestante. Além disso, quando a grávida tem menos de 45 quilos, pode haver impactos no peso do bebê. Por fim, levando em consideração o psicológico, existem chances muito grandes de a gestante desenvolver depressão pós-parto, já que ainda muito novas elas são inseridas num contexto de obrigações da maternidade que podem ser cruéis. 

    Algumas pautas que já eram historicamente tratadas em novelas da Globo acabaram sendo colocadas de lado nos últimos tempos, e aquilo que vinha se tornando um progresso regrediu de várias formas, de acordo com recentes decisões tomadas pela emissora. A consequência disso foi justamente a perda de espaço para assuntos como gravidez na adolescência, trazida de volta agora com o dramaturgo.

    Com essa ausência, vêm a desinformação e o desconhecimento da realidade.  Logo no anúncio do elenco de Três Graças, diversos comentários eram: “Você tá querendo que eu acredite que essa mulher vai ser avó?”. Algumas dessas reações se referem a Gerluce, personagem de Sophie Charlotte.

    Reprodução / X-Twitter

    As novelas sempre foram mecanismos de extrema importância para a comunidade brasileira e importantes para a construção de nossa identidade. Trazer realidades vividas por grande parte da sociedade sempre foi uma premissa das obras; entretanto, o crescente conservadorismo no país tenta, de muitas formas, mascarar essas realidades.

    A psicóloga perinatal Rafaela Schiavo, entrevistada pelo portal de notícias Terra, explica que “o tabu de falar com adolescentes sobre sexo e sexualidade pode aumentar os casos de gravidez na adolescência, sim. Precisamos que professores e escolas abram mais espaço para esse diálogo com os pais, para ensiná-los a conversar com os filhos”. Sem esse diálogo aberto, que pode muitas vezes ser debatido em novelas, as adolescentes ficam vulneráveis a desinformação, julgamentos e pressões sociais, o que muitas vezes dificulta o acesso a escolhas conscientes sobre sua própria sexualidade e maternidade.

    Outros comentários em redes sociais evidenciam a misoginia que as mulheres enfrentam cotidianamente, especialmente durante a gravidez, ainda mais quando ocorre na adolescência.

    Reprodução / X- Twitter

    Diante de uma cena construída de forma cuidadosa, que dá origem à premissa da novela, surgem falas como esta: “Não tem galantaria, deu porque quis”. Esse comentário escancara a misoginia, vinda de  homens que se consideram sempre críticos de maneira justa, mas que nunca culpabilizam o pai — que, diga-se de passagem, não passa de um playboy inconsequente que frequentemente também se coloca no lugar de vítima.

    A história da família brasileira nasce na família patriarcal, ainda hoje impregnada desse modelo. Vivemos em um país que, em 2022, tinha 49,1% dos lares brasileiros chefiados por mulheres, segundo o Censo Demográfico do IBGE. Esse dado representa um aumento significativo em relação a 2010, quando o percentual era de 38,7%, e mostra uma aproximação entre a proporção de chefes de família mulheres e homens, já que homens são “novos demais, não dão conta”, enquanto as mulheres, além de serem expostas a riscos evidentes à saúde e, muitas vezes, se encontrarem sozinhas, acabam assumindo responsabilidades que, na prática, não deveriam recair apenas sobre elas.

    A história de Joélly Maria segue a proposta de uma telenovela de qualidade e é reflexo de uma realidade que ainda atinge muitas adolescentes brasileiras. Ignorá-la é fechar os olhos para questões sociais urgentes. A obra, logo no seu início, já mostra uma grande construção, espero que Aguinaldo não nos decepcione.

    Serviço:
    Título original: Três Graças
    Onde assistir: Globoplay
    Gênero: Telenovela
    Classificação: 12 anos (A12)
    Classificação da autora: 12 anos (A12)
    Justificativa: Pode conter cenas, temas ou linguagens não recomendados para menores dessa idade, embora não contenha conteúdo extremamente explícito.

    *Este texto integra a mobilização do Ariadnes nos 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres entre os dias 25 de novembro, Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres, e o dia 10 de dezembro, Dia Internacional dos Direitos Humanos.

    Por Marcela Pauline

    Leia mais críticas do especial:

  • Violência coercitiva e anulação do testemunho no âmbito privado em Garota do Momento

    Personagem Clarice, de Garota do Momento — Imagem: TV Globo

    Para além do traço de personalidade noveleira, parte da minha pesquisa de mestrado envolve estar em contato com as narrativas de diversas telenovelas brasileiras ao longo das décadas. É a partir delas que nós, telespectadores, nos deparamos com espelhos tanto distorcidos quanto semelhantes às tensões sociais que enfrentamos em sociedade. No caso de Garota do Momento (TV Globo, 2024-2025), somos expostos à violência coercitiva e à anulação do testemunho de Clarice (Carol Castro). Ambientada na cidade do Rio de Janeiro de 1940, a história se inicia quando a personagem, viúva, mãe de Beatriz (Duda Santos) e aspirante ao mercado da arte, conhece Juliano (Fábio Assunção) em uma exposição. Ele, empresário e futuro herdeiro da Perfumaria Carioca, acaba se apaixonando à primeira vista e, de pronto, lhe propõe casamento.

    Logo nos primeiros capítulos, somos apresentados ao acontecimento chave da narrativa: Clarice acaba testemunhando um crime de Juliano. Valéria (Julia Stockler), mãe de sua filha Isabel (Maísa) confronta o homem sobre uma promessa de casar-se com ela e mudar para os Estados Unidos em busca de tratamento para a criança, que tem um problema cardíaco. Após uma briga, Juliano a empurra, e ela morre ao cair em uma mesa de vidro. Clarice tenta socorrer a mulher, mas ao perceber o óbito, corre para denunciar o ato e acaba sofrendo um acidente de bonde. É aí que a personagem tem o seu destino nas mãos de Juliano e de sua mãe, Maristela (Lilia Cabral). Ao perceberem sua perda de memória, mãe e filho decidem reescrever toda a vida de Clarice, colocando Isabel como sua filha no lugar de Beatriz e encobrindo o assassinato de Valéria. Com a ajuda do Dr. Pimenta (Xando Graça), eles também passam a dopar a mulher continuamente para bloquear sua memória e manter a ordem narrativa construída para a família.

    A violência de gênero, como nos apresenta Lourdes Maria Bandeira (2019), professora e pesquisadora brasileira, ocorre por motivações e situações onde o indivíduo é subjugado por questões de raça, idade, classe, dentre outras, em relação àquele núcleo familiar (p. 450). Para este texto, proponho seguirmos até o capítulo 157, exibido no dia 6 de maio deste ano. Após se recordar da noite do crime, Clarice recolhe suas coisas para ir embora da mansão, mas Juliano a cerca, tentando manipular a situação: “A Valéria, ela foi lá porque ela ia atrapalhar o nosso casamento. Eu não podia deixar isso acontecer”, diz Juliano.

    Clarice é apresentada na trama como uma mulher de classe social distinta à de Juliano e Maristela, que comandam o grande império da Perfumaria Carioca. A violência que ambos exercem sobre ela, portanto, acaba sendo persistente e multiforme, envolvendo força simbólica e física, com o objetivo de submeter seu corpo e sua mente à vontade e liberdade da família Alencar (Bandeira, 2019). Assim, compreendemos que, além da violência física exercida contra Valéria, Juliano reconfigura toda a vida de Clarice em nome da sua vontade em viver um casamento pleno com ela — uma plenitude fortemente contestável. A partir de bell hooks (2019), teórica feminista e professora, fica evidente para nós que Juliano tenta esconder as violências que exerce ao tentar controlar a situação de maneira que não sofra nenhum tipo de consequência ou retaliação por seus atos: “Isso é um assunto nosso. Faz muito tempo isso, não tem mais o que fazer com isso. Sou eu e você. A gente dá conta desse segredo. Me perdoa, eu amo você. Vai ficar tudo bem”, insiste ele, apelando ao vínculo íntimo para silenciar a verdade.

    Garota do Momento nos coloca frente à representação da violência simbólica gerada na intimidade e privacidade das famílias que, por serem tidas como “normais” e corriqueiras, acabam por manter o sistema hierárquico e de poder (Bandeira, 2019). A violência contra Clarice, especialmente no capítulo citado, é a expressão máxima do controle patriarcal exercido por Juliano, o que a própria personagem reivindica: “Você mandou desovar o corpo, você me privou da minha identidade, me afastou da minha filha, me entregou uma outra criança nos braços que não era minha. E você me dopou durante anos para bloquear a minha memória com aqueles remédios que me deram dores de cabeças terríveis. Pelo amor de deus, Juliano, você me torturou”.

    É neste ponto que observamos que parte da luta feminista ganha materialidade: tornar pública a violência sofrida por mulheres, a fim de reconhecer o poder familiar no processo de silenciamento deste problema, que envolve a sociedade em geral (Bandeira, 2019). Percebendo que não conseguiria manipular Clarice, Juliano a tranca no quarto, mas não a impede de gritar. É com a chegada de Maristela que ambos articulam as possíveis consequências, caso a situação se torne pública. “Mas ela não tem como provar que a Valéria morreu. O máximo que pode acontecer é nós sermos acusados de inventar um novo passado, uma identidade. Nada que um bom advogado não nos liquide a questão, com um juiz comprado, naturalmente”, articula Maristela. Nesta fala, a personagem já demonstra como o sistema — incluindo o Estado e suas instituições de justiça — pode ser instrumentalizado como órgão central de controle para exterminar qualquer possibilidade de ameaça ao patrimônio e propriedade da família (Bandeira, 2019).

    O papel de Maristela é fundamental para demonstrar que, ao ser uma mulher que exerce sua autoridade coercitiva a fim de manter a posição de poder de sua família (hooks, 2019), Maristela não só apoia o uso da violência contra Clarice, mas também articula sua internação forçada com a ajuda de Juliano e do dr. Pimenta. “Você vai calar a boca da sua esposa de uma vez por todas. Eu vou ligar para o dr. Pimenta”, diz enquanto prepara uma mordaça e entrega ao filho. Após contê-la durante toda a noite, Clarice é apresentada no dia seguinte como “louca” para a equipe médica. Aos gritos de protesto, ela busca no médico uma tentativa de intervenção contra Juliano e seus crimes. “Percebeu que ela tá completamente lelé? Agora deu pra cismar que eu matei uma pessoa. Eu infelizmente vou ter que pedir pro dr. caprichar no sossega leão. Ela tá completamente fora de si”, mente o homem.

    Marcada pelo gênero e sua posição de esposa na hierarquia familiar, Clarice tem seu testemunho anulado pelo marido e seu corpo contido pela força de outros homens. A espetacularização da loucura na narrativa ilustra como acontece a anulação da voz de diversas mulheres em sociedade. Ela representa a forma como a sociedade patriarcal tenta desqualificar testemunhos que ousam romper com segredos familiares e desafiam a ordem social hegemônica. A história desta personagem é um lembrete contundente de que a luta não se restringe à violência física explícita, mas se estende ao combate à violência simbólica e institucional que valida a narrativa do agressor e da “mulher histérica”. A libertação de mulheres como Clarice simboliza a urgência de garantir que seu testemunho seja reconhecido e protegido pelo conjunto da sociedade. Se você passa por alguma violência e necessita de ajuda, entre em contato com a Central de Atendimento à Mulher pelo Disque 180 ou WhatsApp no número (61) 9610-0180.

    Por: Natalia Lima Amaral

    Serviço:

    Título Original: Garota do Momento
    Onde Assistir: Globoplay
    Duração: 202 capítulos
    Classificação Indicativa: 12 anos (A12)
    Classificação das autoras: 12 anos (A12)
    Gênero: Telenovela/Romance

    *Este texto integra a mobilização do Ariadnes nos 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres que começaram no dia 25 de novembro, Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres, e vão até o dia 10 de dezembro, Dia Internacional dos Direitos Humanos.

    Referências

    BANDEIRA, Lourdes Maria. Violência de gênero: a construção de um campo teórico e de investigação. In: HOLLANDA, Heloisa Buarque de (org). Pensamento feminista brasileiro: formação e contexto. Rio de Janeiro: Bazar do tempo, 2019.

    hooks, bell. O movimento feminista para acabar com a violência. In: Teoria feminista: da margem ao centro. São Paulo: Perspectiva, 2019.

  • The Handmaid’s Tale e o controle do feminino

    Na série The Handmaid’s Tale, lançada em 2017 pela Hulu, acompanhamos June, uma mulher que, após um golpe de líderes religiosos de extrema-direita nos Estados Unidos, é obrigada a ser uma aia. As aias são um grupo de mulheres que, por sua fertilidade, são selecionadas pelo Estado teocrático para serem estupradas e controladas, buscando uma solução para a  baixa taxa de natalidade do país. Assim, a protagonista passa a ser chamada de Offred; os  nomes delas são designados a partir da família à qual elas servem no momento (de Fred – of Fred, em inglês) – uma maneira de descaracterizar suas identidades. Para além da violência sexual, essas mulheres são alvo de diversas violações, sendo exploradas pelo governo de ocasião.

    As aias reunidas na 6ª temporada. Reprodução: Prime Video

    De acordo com a Lei Maria da Penha, são 5 os tipos de violência contra a mulher: a violência física, que é qualquer ação que afete a integridade e/ou a saúde do corpo feminino; a violência psicológica, sendo qualquer conduta que prejudique o emocional e a autoestima da mulher, tendo controle de seu comportamento; a violência sexual, que violenta a vítima de forma não desejada sexualmente; a violência patrimonial, que é responsável por tirar das mulheres seus pertences como recursos econômicos, trabalho, documentos pessoais etc; e a violência moral, colocando a vítima em situações de injúria, calúnia e/ou difamação. A partir desses dados e analisando o contexto da série, entendemos que as aias são vítimas de todas as violências contra a mulher previstas pela lei brasileira – e outras, ainda não cobertas pela legislação.

    A obra audiovisual é inspirada no livro de mesmo nome, traduzido para o Brasil como O conto da aia, da autora canadense Margaret Atwood. Assim como na série, Offred mora na então atual República de Gilead, pertencendo a uma família de alto escalão do governo. Para além das aias, as mulheres são divididas em outras 4 categorias: esposas, tias (responsáveis pelo treinamento das novas aias), marthas (funcionárias domésticas) e jezebels (mulheres forçadas a prostituição). Em todos os casos, elas possuem papéis pré-definidos e são impossibilitadas de exercerem outras tarefas, sendo proibidas de agirem em prol de si mesmas.

    A distopia mostra um mundo onde a figura feminina é reprimida a todo tempo, sempre com base em discursos religiosos. Com o objetivo de melhorar a taxa de natalidade do país, as aias são tratadas somente como máquinas reprodutoras, sendo estupradas constantemente. A violação ocorre por meio de um ritual que, na série, é baseado em uma parte específica da Bíblia: 

    “Raquel, vendo que não dava filhos a Jacó, teve inveja de sua irmã e disse a Jacó: Dá-me filhos, senão eu morro. Então Jacó irou-se contra Raquel e disse: Estou eu, porventura, no lugar de Deus, que te impediu o fruto do ventre? E ela disse: Eis aqui minha serva Bila; entra a ela, para que ela dê à luz sobre os meus joelhos, e eu assim tenha filhos por ela” (Gênesis 30:1-3)

    Após a leitura, o estupro é realizado, imobilizando a aia entre as pernas da esposa. Na distopia, atos sexuais são exclusivos para reprodução: mais uma maneira de controle dos corpos e da sexualidade feminina, tendo em vista que os homens frequentam prostíbulos ilegais. Neles, eles são atendidos por mulheres que, na visão da sociedade de Gilead, são rebeldes demais para o sistema; dentre elas, antigas pesquisadoras da academia ou as que fugiram do Centro Vermelho (local de treinamento das aias). As jezebels tem uma falsa sensação de liberdade, tendo em vista que escolheram trabalhar naquele local, tendo acesso a livros e podendo se relacionar sexualmente para além da reprodução; porém, seus corpos ainda são controlados pelo Estado, sendo tratadas somente como objetos de prazer para os homens. Na ficção (e na vida real) a violência contra a mulher não é um fato isolado – é um problema estrutural, que se fortalece diariamente na sociedade

    “Aias” contra o PL do Estuprador no Rio de Janeiro, 2024. Reprodução: Tomaz Silva/Agência Brasil

    O mundo de Gilead não é tão distante da realidade: de acordo com a Secretaria de Comunicação Social do Governo Federal, em 2024 foram realizadas 573.131 ligações para o Disque 180 em todo o território nacional. Destas, 32.591 relataram sofrerem violências há mais de um ano, sendo metade de todas denúncias (46,4%) ocorridas diariamente. Em 2025, a Comissão de Direitos Humanos do Senado, presidida por Damares Alves (Republicanos- DF), aprovou o PL 2.524/2024, proibindo a realização do aborto após 22 semanas de gestação: mais um ato que limita a autonomia das mulheres sobre seus próprios corpos e seus direitos reprodutivos, tendo em vista que nem mesmo em casos de risco à saúde da gestante o aborto poderá ser realizado. The Handmaid’s Tale é muito além de uma distopia – é o retrato de uma sociedade não tão distante que, baseada na desumanização e controle das mulheres, passou a tomá-las para si. 

    Se você passa por alguma violência e necessita de ajuda, entre em contato com a Central de Atendimento à Mulher pelo Disque 180 ou Whatsapp no número (61) 9610-0180.

    Título original: The Handmais’s Tale
    Temporadas: 6 temporadas (2017-2025
    Onde assistir: Disney+, Globoplay, Paramount e Amazon Prime Video
    Gênero: Série de romance distópico Temas: Totalitarismo, papéis de gênero, religião, mercantilização do corpo feminino, violência
    Classificação: 18 anos (A18) Nossa classificação: 18 anos (A18)
    Justificativa: A série contém cenas explícitas de abuso sexual e violência de gênero, podendo causar gatilhos.

    *Este texto integra a mobilização do Ariadnes nos 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres entre os dias 25 de novembro, Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres, e o dia 10 de dezembro, Dia Internacional dos Direitos Humanos.

    Por Maria Vital


  • Violência e maldição na linguagem de “Pssica”

    *Aviso de gatilho: o texto trata de violência sexual e estupro 

    Pensar numa realidade de violência sexual que atinge meninas e mulheres é indigesto, mas, infelizmente muito próximo do nosso cotidiano. Elas acontecem na rua, em ambientes educacionais, na política, e (principalmente) dentro de casa. De acordo com dados do estudo Sem deixar ninguém para trás: gravidez, maternidade e violência sexual na adolescência, a maioria (67%) dos 69.418 estupros cometidos entre 2015 e 2019 tiveram como vítimas meninas com idade entre 10 e 14 anos. 

    Porém, quando olhamos para disposição dos números no Brasil, observamos que a subnotificação ainda perdura em casos de estupro e abuso sexual, com apagão de informações em algumas regiões, como norte do país. Dessa forma, deslocar nosso olhar para realidade brutal paraense é tarefa da minissérie Pssica, de 2025. Dirigida por nomes conhecidos do cinema nacional, Quico e Fernando Meirelles, a obra é produzida pela O2 Filmes e Netflix.

    Algumas das meninas que acompanhamos durante a série. Imagem: divulgação/Netflix

    O trabalho percorre os rios do Pará, em especial na região de Belém e Ilha do Marajó, e se entrelaça com histórias de outros personagens, retratando outras facetas de violência – como roubos de carga, relações entre organizações criminosas e assassinatos. Porém, o foco deste texto será a trama de tráfico e abuso sexual de meninas.

    Imergindo nos rios do Pará

    Quando Janalice (Domithila Cattete) tem imagens sexuais divulgadas sem consentimento na escola, seus pais – por indicação da igreja que frequentam – enviam a menina de 16 anos para morar com a tia durante um período. A ideia é que a distância seria tempo de reflexão e perdão. Mas, ao contrário disso, a adolescente se vê em mais uma situação de violência quando é estuprada pelo namorado da tia dentro de casa. 

    Na tentativa de fugir desse lugar, ela conhece Dionete (Ademara Barros) – que também está envolvida em um esquema de exploração sexual e consumo abusivo de drogas – e Miltinho (Luca Dan), uma criança indígena em busca de sua irmã (Sendí Baré), sequestrada da aldeia e levada para o Marajó, onde servia de escrava sexual. Em meio a essas relações, os ratos d’água – gangue que atua na região e responsáveis por sequestrar meninas para o tráfico e exploração sexual – recebem indicações de um “perfil” a ser encontrado: garotas brancas, bonitas e jovens. Nesse momento, a série vai nos conduzindo pela maldição que guia a narrativa ali: não há escapatória, o destino será implacável. 

    Jana é sequestrada e se junta a outras meninas em uma fazenda afastada de tudo. Sua função ali é servir ao dono do local, Zé Ilídio (Cláudio Jaborandy), seja sexualmente ou com afazeres domésticos. As cenas são de completa brutalidade, com detalhes e closes dos estupros ali cometidos, o que nos deixa estarrecidas, claro, mas ao longo da série torna-se “comum” de tanto assistir.  

    Quando afirmo violência e maldição como linguagem em Pssica, me refiro ao modo como as imagens são dispostas, a trama é construída e o ciclo de acontecimentos ruins é a única possibilidade ali. “Pssica” é uma gíria da cultura nortista e remete ao azar, a algo negativo que persegue alguém e, logo de cara, fica evidente que tratar de temas tão densos e complexos é sim algo difícil. No entanto, ao utilizar-se da violência de maneira tão exacerbada, me parece que a série quer trazer mais choque e menos reflexão aprofundada. 

    Com o tempo acelerado e tudo acontecendo de forma tão agressiva, alguns pontos da narrativa se perdem e vão por um caminho equivocado – como a paixão súbita de Preá (Lucas Galvino), um dos ratos d’água, por Jana durante o sequestro. Me pergunto se há espaço para debater a violência sexual ou se ela fica como detalhe em meio a tantos acontecimentos. Ao valer-se dessa linguagem brutal, unida com a “maldição” que acompanha as personagens, a série não nos dá margem para pensar de maneira diferente, imaginar soluções possíveis. 

    A sensação de assistir chega a ser sufocante, mas ao mesmo tempo eletrizante, como algo que nos prende na narrativa. A própria personagem de Janalice transmite, a partir de seus olhares, a captura de nossa atenção ao vê-la como vítima desse esquema, que de tão real soa grotesco. Ao reforçar a realidade do tráfico humano ou de exploração sexual, a maldição – ou pssica – torna-se um destino comum a tantas meninas e mulheres; para onde quer que elas forem, sempre enfrentarão violências. 

    Janalice está constantemente cercada por violência. Imagem: reprodução/Netflix

    Justamente esse ponto me trouxe um certo incômodo com a série, ao não nos confrontarmos com alguma saída viável para Jana ou as outras personagens que acompanhamos. É claro que não espero um final feliz típico de contos de fada, pois a realidade não nos permite tal devaneio. Mas, novamente me questiono: será que tal representação, repleta de violência, é a ideal para promover a reflexão necessária? 

    Depois de chegar na ilha e de uma tentativa de fuga fracassada, resultando na morte de uma das garotas do grupo, ocorre uma festa em que Janalice é entregue “de presente” para o prefeito da cidade. O que, mais uma vez, reforça esse funcionamento normal das violações contra meninas: todo mundo sabe, todo mundo faz. Dentre várias tentativas de alcançar a liberdade, a jovem é traficada para a Guiana Francesa e vive em cárcere numa casa de prostituição. 

    No final das contas, Jana consegue sair dali com a ajuda de Mariangel (Marileyda Soto) e retorna para o Brasil em segurança. Ela decide não retornar para sua casa, onde a mãe reside sozinha após o suicídio do pai durante a busca pela menina. Os traumas e memórias de sobrevivência marcam a jovem permanentemente. Ela não poderá voltar a ser o que era jamais.

    Entre cativeiros ficcionais e reais 

    Edyr Augusto, jornalista paraense e autor do livro homônimo que deu origem à série, afirma que a história não é baseada em um só relato real, mas no cotidiano de violência observado por ele. O escritor conta que reuniu notícias de jornais locais por dois anos para construir a trama, ou seja, a inspiração é totalmente concreta e reflexo da cultura de exploração e abuso sexual contra meninas e mulheres no norte do Brasil.

    Assim como Mariana Brennand, diretora de Manas, afirma que o filme não é inspirado em uma personagem, a história de Pssica não diz respeito apenas a um acontecimento, mas sim a um panorama da realidade vivenciada por essas pessoas, que estão no que a professora e pesquisadora Patrícia Hill Collins chama de “cativeiro” no livro X. Ela afirma que a violência tem sido uma tecnologia potente para que as pessoas fiquem em seus “lugares demarcados”, nesses cativeiros. 

    Ou seja, a estrutura de violência sexual à qual meninas e mulheres são submetidas, sobretudo as negras e de baixa renda, é reforçada, reproduzida e gerenciada por práticas sociais que a sustentam. Em Pssica, observamos como prefeitos, vereadores e pessoas com dinheiro e poder estão intrinsecamente envolvidos nos esquemas, ultrapassando inclusive a fronteira do Brasil com Guiana. A lógica da exploração e tráfico dessas meninas está ligada portanto à falta de ação do Estado e das polícias, que se veem cerceados por grandes estruturas financeiras, com anuência de governos locais. 

    Ao apenas reproduzir essa realidade tão crua, sem escapatórias, nos vemos também cerceadas por essas pragas, entranhadas no cotidiano brasileiro. Porém, diferente de algo supostamente determinado, como a vida de Janalice, o combate à violência contra meninas e mulheres é um conjunto de ações que exige planejamento e informação ampla para todas as pessoas.  

    Não será possível alcançar uma democracia que não olhe para essas meninas; abusadas, estupradas e forçadas a serem mães por um Estado que se comprova inimigo. No entanto, ao termos acesso apenas a imagens que reforçam tais violências, é como se as imagens de controle (termo cunhado por Patricia Hill Collins) fossem as únicas possíveis. Elas chocam, nos deixam estarrecidas. Mas é preciso vislumbrar ações palpáveis para alterar esse cenário, estratégias concretas para debatermos. 

    Enquanto o espanto e o distanciamento forem nossos únicos recursos, a realidade permanecerá como pssica, essas maldições insolucionáveis. No entanto, sabemos que há maneiras de alterar a vida de meninas e mulheres – e isso precisa ser feito coletivamente. Vamos juntas pela eliminação da violência contra mulheres. 

    Alguns dados importantes sobre violência sexual contra meninas: 
    Panorama da violência letal e sexual contra crianças e adolescentes no Brasil 
    Sem deixar ninguém para trás: gravidez, maternidade e violência sexual na adolescência 

    Serviço:
    Título original: Pssica
    Onde assistir: Netflix
    Gênero: Thriller; Violência; Suspense.
    Temas: Violência sexual; Região Norte; Tráfico de meninas.
    Classificação: 18 anos (A18)
    Nossa classificação: 18 anos (A18)
    Justificativa: Abordagem de temas sensíveis como estupro, violência explícita, uso de drogas ilícitas e exploração de meninas e mulheres.

    *Este texto integra a mobilização do Ariadnes nos 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres que começaram no dia 25 de novembro, Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres, e vão até o dia 10 de dezembro, Dia Internacional dos Direitos Humanos.

    Por Lia Junqueira 

    Leia mais críticas do especial:

  • A infância ameaçada: Manas e a realidade da violência sexual contra meninas no Brasil

    Cena do filme “Manas” de Marianna Brennand. Foto: Divulgação

    Em 2024 foram registrados mais de 85 mil casos de estupro no Brasil, de acordo com dados publicados na 19º edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, organizado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). Esse foi o maior número registrado desde 2011, quando o FBSP iniciou esse levantamento. Desses 85 mil, cerca de mais de 65 mil foram casos de estupro de vulnerável, sendo que o número de meninas vítimas desse crime chega a quase 56 mil. Das vítimas, 42% tinham entre 10 e 13 anos, quase 68% dos casos aconteceram dentro de casa e 59,5% dos agressores tinham relação familiar com as vítimas.

    Essa realidade é retratada no filme Manas (2024), dirigido pela cineasta Marianna Brennand e estrelado por Jamilli Correa, Dira Paes, Fátima Macedo, Ingrid Trigueiro, Samira Eloá,  Rômulo Braga e Rodrigo Garcia. A obra é ambientada no estado do Pará e retrata os casos de abuso e exploração sexual que são registrados na Ilha do Marajó. A narrativa acompanha a história de Marcielle (Jamilli Correa), uma menina de 13 anos que, após sofrer abusos por parte do pai (Rômulo Braga) e de um homem que ela conhece em uma balsa (Rodrigo Garcia), decide romper com esse ciclo de violência que atinge as meninas da comunidade onde vive. 

    Um destaque foi a escolha da diretora de não mostrar explicitamente nenhuma cena de abuso. A tensão construída pela montagem das cenas e a trilha sonora já são suficientes para trazer essa sensação para o público. Isso também é relevante pela escolha do elenco, já que a atriz que interpreta a protagonista tinha 13 anos quando aconteceram as gravações. Esse tipo de instrumento narrativo é importante também para a obra representar a realidade dos crimes, mas sem “reproduzir” o crime em si, já que muitas vezes, a escolha por reproduzir cenas de violência tira um pouco o foco da denúncia e foca mais no ato. 

    Na história, Marcielle vive com os pais e irmãos em uma casa numa pequena comunidade ribeirinha aos arredores da Ilha do Marajó. Ela também tem uma irmã que foi para a região sul do Brasil, e sempre questiona a mãe (Fátima Macedo) sobre a razão de a jovem ter feito isso. A mãe sempre responde que a irmã está em um lugar melhor com um  homem que ela conheceu na balsa. No filme, a balsa é um ponto importante para entender a dinâmica da expectativa de vida das mulheres da comunidade e a violência sexual que acontece na ilha. 

    A balsa representa um lugar ambíguo: ao mesmo tempo que as jovens daquela região a enxergam como um meio de conseguir uma vida melhor, ela também representa um lugar de abuso e violência. A balsa demonstra que a violência contra corpos femininos é tão normalizada na sociedade em que vivemos que chega num ponto que as próprias vítimas normalizam esse tipo abuso, como no caso da amiga da protagonista, interpretada por Samira Eloá. Os homens que usam a balsa para se locomover pelo lugar muitas vezes são trabalhadores de fora de Marajó que se aproveitam da vulnerabilidade econômica e da pouca experiência de vida das jovens (elas acabaram de sair da infância), para aliciá-las a dormir com eles.      

    Ao longo da narrativa, é revelado para o espectador o ciclo de violência sexual que acontece com as meninas e mulheres daquela comunidade. Por exemplo, um dia o pai de Marcielle pede para irem caçar juntos no meio da floresta, algo que deixa a mãe apreensiva. Nesse dia, Marcielle é estuprada pelo próprio pai. Depois disso, uma sequência de abusos acontece, não só com ela, mas com todas as meninas daquele lugar. No final do filme, a mãe dela revela que também foi violentada pelo próprio pai e expulsa de casa pela mãe quando ficou grávida.

    A policial interpretada por Dira Paes prende os homens que estavam envolvidos no abuso das jovens e tira a guarda das meninas dos pais, pois quem devia cuidar e preservar a dignidade delas está cometendo violências ou sendo omisso em relação a elas. Quando essa policial questiona a mãe de Marcielle sobre ela saber o que acontecia nas balsas, a mulher diz que não queria que acontecesse com a filha o mesmo que aconteceu com ela.

    O ponto de virada na história acontece quando Marcielle percebe  que aquele tipo de situação, mesmo comum entre aquelas jovens, não é adequada e nem aceitável. Um dia, ao chegar em casa e não encontrar a irmã mais nova, que tem menos de 10 anos, ela fica preocupada com o que pode ter acontecido. Mesmo com a resistência da mãe em dizer onde a menina está, a protagonista vai atrás do pai abusador na floresta. Lá ela coloca um fim àquele ciclo de abuso e salva a irmã do mesmo que aconteceu com ela.     

    A partir dessa obra e os dados obtidos pelo FBSP,  observamos que a violência sexual contra crianças e adolecentes do gênero feminino é tratada socialmente como algo normalizado e extremamente recorrente. Mesmo sendo um crime passível de punição (Lei nº 12.015/2009), os homens ainda se sentem confortáveis em dominar os corpos femininos e os números indicam que o principal tipo de corpo atacado é o infantil, negro (55,6%) e de baixa renda. Isso revela que não apenas o estupro está enraizado na sociedade, mas também a pedofilia. 

    Outro fator que temos que considerar quando olhamos para os dados sobre violência sexual cometidas contra crianças é a subnotificação de casos e de gênero. Ou seja, mesmo que os números apresentados sejam alarmantes, ele pode ser maior. E mesmo que a ocorrência dos casos prevaleça contra meninas, não podemos esquecer que os meninos também estão vulneráveis a esse tipo de crime. O estudo aponta que existe uma subnotificação maior entre os casos de violência sexual cometida contra garotos. A principal razão disso são as barreiras sociais e simbólicas que fazem parte da sociedade patriarcal em que vivemos. 

    Serviço:

    Título Original: Manas
    Onde Assistir: Amazon Prime Video
    Duração: 1h 41min(101min)
    Gênero: Drama
    Classificação Indicativa: 16 anos(A16)
    Nossa Classificação: 18 anos(A18)  
    Justificativa: O filme apresenta situações implícitas de abuso sexual contra menores de idade e pode causar gatillhos. 

    *Este texto integra a mobilização do Ariadnes nos 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres entre os dias 25 de novembro, Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres, e o dia 10 de dezembro, Dia Internacional dos Direitos Humanos.

    Por Mariana Amaral

  • O cambiante jornalismo na cobertura de feminicídios: o caso Catarina Kasten

    O feminicídio de Catarina Kasten, no último dia 21 de novembro, em Santa Catarina, é mais uma demonstração da permanência dos problemas do jornalismo brasileiro na cobertura dessa violência. É preciso reconhecer avanços históricos, como o uso do termo feminicídio e a referência ao Disque 180 em parte considerável da cobertura. A perspectiva de gênero, porém, continua ausente, com exceção de veículos feministas, como o Portal Catarinas.

    Pelo resto da imprensa, no caso de Catarina ou no entorno dele, se repetem problemas exaustivamente apontados por pesquisas feministas:

    • Os títulos na voz passiva são focalizados na mulher, tirando de foco o suspeito ou feminicida e centrando toda a ação na vítima. O feminicida de Catarina foi rapidamente identificado e preso, mas ainda assim as manchetes eram sobre ela.
    • O uso do termo “morta” retira a gravidade da violência, afinal uma pessoa pode ser morta em um acidente, uma fatalidade. Feminicídio é um crime com autoria.
    • A vítima perde gradualmente a identidade e se torna a “estudante de pós-graduação da UFSC”; a “professora morta em SC”.
    • O jornalismo dá grande destaque aos detalhes das violências sofridas, adotando a perspectiva do jornalismo policial e, em alguns casos, policialesco. No caso do feminicídio de Catarina, o laudo que apontou a violência sexual foi repercutido à exaustão.
    • Feminicídios de mulheres brancas ganham mais visibilidade e são cobertos de forma mais humanizada que os de outros grupos. Diversos veículos publicaram matérias sensíveis narrando quem Catarina era, para além de constituí-la publicamente como vítima de um crime. Essa sensibilidade não se aplica a mulheres negras ou com deficiência, por exemplo.
    • Não há um enquadramento estrutural sistemático que conecte cada caso – e os casos – aos valores patriarcais, à misoginia. Há uma melhora, sim, pois agora os dados muitas vezes são apresentados. Mas a discussão mais profunda, sobre as bases de nossa sociedade que permitem ou legitimam esses acontecimentos, permanece ignorada.
    Montagem com diversas manchetes de jornais sobre um feminicídio recente. Sobre elas, um X roxo.
    Amostra das primeiras notícias sobre o feminicídio de Catarina Kasten: os problemas continuam.

    Nós já sabemos que o jornalismo é masculino, em seus valores, rotinas produtivas, cargos diretivos, estruturas de propriedade. Mas gradualmente, mulheres e jovens profissionais se integram à prática profissional. Essas gerações, mais acostumadas às discussões de gênero, poderiam introduzir novas formas de noticiar esses assuntos. A cobertura do feminicídio de Catarina Kasten, felizmente, está anos luz à frente dos casos paradigmáticos de violência midiática contra mulheres, apesar dos problemas.

    E, ainda assim, aqui estamos. No Ariadnes, temos discutido sobre esse estado de coisas e levantado algumas hipóteses. Uma delas é que, apesar de uma maior presença da discussão de gênero e sexualidade na sociedade, a formação em jornalismo ainda é deficiente nesse aspecto. Há pouca institucionalização, poucas disciplinas em currículos pelo país.

    Outro problema é a formação continuada. Há poucas oportunidades de especialização na temática – ainda que tenha havido iniciativas recentes importantes nesse sentido. E mesmo com mais possibilidades de complementar a formação, é difícil exigir de profissionais precarizados e precarizadas, em processos de adoecimento e com salários baixos, que se atualizem por conta própria – e, muitas vezes, do próprio bolso.

    Na universidade temos buscado oferecer esse tipo de formação complementar tanto para futuros e futuras jornalistas como para jornalistas da região. O resultado tem sido, até agora, um reflexo de toda nossa atuação: a pouca ou inexistente participação masculina e o baixo interesse do veículos de Mariana, Ouro Preto, Itabirito.

    Isso indica que os homens não se sentem implicados na discussão de gênero e sexualidade – como se ser um homem hétero na sociedade não envolvesse essas duas dimensões. Uma herança do posicionamento do homem como sujeito universal e de quem difere dele como Outro. Também aponta (à parte as questões mais crônicas da profissão) para um cenário de desinteresse, por parte de profissionais do jornalismo da região, de modificar o modo como cobrem violências de gênero, especialmente violências contra a mulher – as que merecem mais atenção.

    Diante desse cenário, às vezes parece que nós, da academia, ficamos falando para o vazio. Parece que nossa atuação não encontra eco nem suscita mudanças sociais. Isso é um engano. As mudanças são visíveis e devem ser celebradas. Os erros que apontamos repetidamente, denunciados até que deixem de existir e possamos praticar, produzir e consumir um outro jornalismo.

    *Este texto integra a mobilização do Ariadnes nos 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres entre os dias 25 de novembro, Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres, e o dia 10 de dezembro, Dia Internacional dos Direitos Humanos.

    Por Karina Gomes Barbosa

  • Elegia de um crime: A reconstrução dura de uma vida cruel

    Fotografia de Isabel Burlan utilizada no filme-documentário “Elegia de um crime”. Foto: Divulgação.

    Isabel Burlan da Silva, nascida em 28 de agosto de 1958 no Rio Grande do Sul, era mãe de cinco filhos, irmã, filha, promotora, cozinheira e mais tarde faxineira. Sempre sonhou em ter uma família, mesmo vivenciando períodos conturbados na infância e adolescência. Cresceu cercada pela simplicidade e com um ciclo pequeno de familiares e amigos. Ouvia constantemente discursos defensores da família tradicional e da submissão ao marido, feitos pelas mulheres que a rodeavam.

    Conforme crescia, Isabel se tornou uma mulher forte e resiliente que se viu diante de mortes fortuitas quando mais velha. Em 2001, enfrentou a morte de um dos seus cinco filhos, Rafael Burlan da Silva, assassinado com sete tiros pelas costas no Capão Redondo, bairro da periferia na Zona Sul de São Paulo. Três anos depois, o pedreiro gaúcho Vânio Porto, seu marido, partiu de forma pouco esclarecida. “Morreu de bêbado. Bateu a cabeça e morreu”, declara o amigo de infância do pedreiro Thiago Luna Delena. Assolada por tais perdas, Isabel se mudou para Uberlândia, em Minas Gerais, buscando oportunidades de se restabelecer e enfrentar a dor do luto.

    No ano de 2010, Isabel começou a se envolver com um homem mais novo, vindo da Bahia e que, segundo familiares, tinha interesse no dinheiro da parceira. Este foi um relacionamento conturbado e agressivo, com términos, discussões constantes e ameaças. O companheiro de Isabel chegou a atear fogo na casa com ela dentro, dormindo. Os vizinhos relataram ouvir as brigas, os gritos. Eles contam das tentativas contínuas em fazer com que Isabel saísse daquele relacionamento, daquela casa, daquela cidade. Em fevereiro de 2011, na cidade de Uberlândia, Jurandir Muniz de Alcantara, companheiro de Isabel, a assassinou enquanto ela dormia. A mulher morreu asfixiada e teve o corpo exposto por uma emissora de televisão com um vídeo que circula nas redes sociais até hoje, desonrando a mãe, irmã e filha de 52 anos. O assassino fugiu e o crime até hoje não teve julgamento.

    Imagem: trecho do filme.

    A partir dessa sequência de acontecimentos, o filho de Isabel Cristiano Burlan produziu o filme-documentário Elegia de um crime (2018). O documentário fechou a Trilogia do Luto, composta por mais duas produções que relatam as outras perdas da família Burlan: a morte do pai, tratada em Construção (2007), e o assassinato de seu irmão Rafael, desenvolvida em Mataram meu irmão (2013). Ferido pelo luto e pela raiva, Cristiano busca ressignificar e dignificar a imagem da mãe, vítima de feminicídio e da exploração dessa violência pelo telejornalismo.

    Eu que deveria lhe proteger, me tornei sua testemunha.[…] Só consigo pensar que sua fuga para um lugar seguro foi um breve alívio.

    Cristiano Burlan

    O filme começa com Cristiano fazendo uma tentativa de contato com a polícia, no qual implora para fazerem um flagrante onde o feminicida poderia estar. O assassino, foragido, com um mandado de prisão e acusado de matar outras duas mulheres além de Isabel, ainda vive na cidade do crime, e periodicamente é visto por moradores que têm conhecimento do caso. Ainda assim, a polícia afirma não ter controle de ação sem provas concretas. A partir desse momento, Cristiano procura intervir no curso dos acontecimentos com a gravação do documentário.

    Durante as filmagens, o diretor se reencontra com a repórter responsável pela reportagem na época do crime, exibida na TV Vitoriosa, afiliada ao SBT. Cristiano buscava ajuda na procura pelo assassino, o qual acreditava ainda estar nos arredores da cidade. A repórter, Cassia Bomfim Del Cassale, foi solícita e gentil durante toda a produção, representando um papel importante. Ao ser lembrada da reportagem que produziu em 2011, que expôs o corpo de Isabel, ela comenta que muitas coisas sobre a forma como relatam casos violentos na televisão mudaram em respeito aos familiares das vítimas. Mas aponta  que exibir essas imagens mórbidas dá Ibope, “o povo quer ver”.

    Os casos de violência no Brasil são explorados, principalmente, pelo telejornalismo policial. O uso da imagem de Isabel na reportagem a transforma em apenas mais uma vítima, um número, deixando marcado na memória de Cristiano e de seus familiares imagens violentas como o último momento de uma pessoa querida, apagando lentamente as lembranças de Isabel quando ainda estava viva. No filme, o filho reconhece que, no enterro da mãe, seu primeiro ímpeto foi filmá-la no caixão, e confessa a culpa em relação a esse pensamento que o atormentou profundamente. Como cineasta, Cristiano reconheceu existir um limite onde a filmagem passa a ser antiética, desonra da qual Isabel foi vítima.

    Ouvimos a dor pelas vozes dos filhos, tios, tias. Muitos dizem ter sido um crime anunciado. A maioria demonstra tristeza e revolta pela forma como ela morreu e pelo feminicida continuar impune até hoje. Os entrevistados não são nomeados e não conseguimos saber qual o nível de proximidade de cada pessoa com ela, mas é tangível o amor e a preocupação de todos. Os nomes são informados apenas nos créditos finais. Essa parece ser uma tentativa de não prejudicar a intensidade das imagens e das conversas, levando o foco para Isabel, para sua vida e a família que ela formou.

    Esse ato é um mergulho na memória que traz à tona, de forma fragmentada, recordações do passado, enquanto o diretor, que também é um personagem e familiar da vítima, tenta buscar vingança. Inicialmente, seu propósito é realizar a prisão do assassino de Isabel sozinho, sem a ajuda de um sistema que falhou em defender seus familiares no passado, sendo esse seu ato criminoso. Entretanto, Cristiano assume, ao fim do documentário, que seu ato criminoso, sua vingança, é a capacidade e a oportunidade de realizar filmes – e não de fazer justiça com as próprias mãos. A penúltima imagem do filme é uma filmagem de Isabel junto com familiares, com um sorriso no rosto enquanto observa a cena que se passa ao redor. Linda, como tantos relatos destacaram. Em seguida, vemos uma fotografia do assassino, com a legenda:

    “PROCURADO: Jurandir Muniz de Alcântara”. Abaixo da foto, uma orientação: “Caso tenha alguma informação, ligue para a polícia”.

    É dessa forma que Cristiano Burlan finaliza seu ato criminoso.

    Serviço:
    Título original: Elegia de um crime
    Onde assistir: Google Play ou Embaúba Play
    Gênero: Documentário
    Classificação: 14 anos (A14)
    Classificação da autora: 14 anos (A14)
    Justificativa: Abordagem de temas sensíveis como feminicídio e luto, sem cenas violentas.

    *Este texto integra a mobilização do Ariadnes nos 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres que começaram ontem, 25 de novembro, Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres, e vão até o dia 10 de dezembro, Dia Internacional dos Direitos Humanos.

    Por Letícia Gabrielli

  • “Caso Eloá: Refém ao Vivo” e a repetição da espetacularização da violência 

    Ao retratar o caso Eloá com simulações e ficção, o documentário se distancia do debate crítico sobre violência de gênero. Imagem: divulgação/Netflix

    Em 2008, ano em que o Brasil parou para acompanhar o sequestro e feminicídio de Eloá Pimentel, de 15 anos, a violência de gênero crescia. Naquele ano, a Central de Atendimento à Mulher registrou um aumento de 22,3% nos relatos de violência em comparação com o ano anterior, totalizando 24.523 chamados. Quase a totalidade das agressões era classificada como violência doméstica (94,1%), e em mais da metade dos casos (63,2%), o agressor era o cônjuge da denunciante. Estes dados demonstram que o drama de Eloá era a regra, não a exceção, em um país onde a Lei Maria da Penha (2006) ainda engatinhava, refletido no aumento de 245% nas solicitações de informação sobre a lei, e o termo feminicídio ainda não existia legalmente, pois a legislação foi sancionada apenas em 2015.

    Eloá Cristina Pimentel era a irmã do meio de dois irmãos, Ronickson e Douglas, filha de Ana Cristina e Everaldo. Aos 12 anos, a menina começou a namorar Lindemberg Fernandes Alves, de 19 anos. Ele era amigo de seu irmão mais novo e morava nas proximidades de sua casa. Eloá vivia com a família no bairro Jardim Santo André, no município de Santo André, em São Paulo. Em seu diário e em mensagem enviada durante entrevista, Eloá demonstrava ser carinhosa e ligada à família.

    A espetacularização e banalização da violência contra mulher 

    Após três anos de namoro, Lindemberg não aceitou o término, passando a perseguir e ameaçar Eloá. Foi neste contexto que, no dia 13 de outubro de 2008, iniciou-se o sequestro que seria televisionado por cinco dias, transformando a dor em consumo público.

    No início do sequestro, estavam no apartamento Eloá, sua amiga Nayara Rodrigues e mais dois colegas de turma, que haviam se reunido na casa de Eloá para fazer um trabalho escolar quando Lindemberg invadiu. Os meninos foram liberados e, algum tempo depois, Nayara também foi liberada, mas retornou ao local para negociar com o sequestrador. O Grupo de Ações Táticas Especiais (GATE) da Polícia Militar de São Paulo foi acionado pela polícia ao perceber a gravidade da situação.

    Desde o primeiro momento, Lindemberg demonstrava que sua intenção era matar Eloá e tratava as meninas com agressividade, gritando e xingando-as. Ainda assim, o governador da época, José Serra (PSDB), a polícia e os jornalistas que cobriam o caso tratavam o crime como um ato de um “menino” que estava agindo por “amor”. Por não possuir antecedentes criminais e ter um emprego, Lindemberg não era visto como uma ameaça real, mas sim como alguém movido pela paixão, o que facilitou a narrativa de que se tratava de um “crime passional” e desqualificou a violência de gênero explícita que se desenrolava. 

    Neste contexto, a mídia transformou o cárcere privado de Eloá em um espetáculo de cinco dias. O sequestro se tornou um “reality show” transmitido ao vivo, no qual a ética jornalística foi substituída pela audiência, resultando na desconsideração do risco de vida da vítima e de Nayara Rodrigues e num foco no protagonismo do agressor. O caso é, ainda hoje, exemplo de um erro jornalístico que, ao acompanhar o caso 24 horas por dia, mantinha o sequestrador informado pela televisão e diminuía o impacto da brutalidade do crime. Isso se dava ao ligar para o sequestrador para “bater-papo”, interferindo na negociação que estava sendo feita pela polícia, ainda que ineficaz. Inclusive, a cobertura do sequestro e feminicídio de Eloá são o tema central do primeiro documentário sobre o crime, “Quem matou Eloá?”, dirigido por Lívia Perez, de 2015, disponível no Youtube. Oito anos depois, a Netflix lançou outro documentário sobre o caso. “Caso Eloá: Refém ao Vivo” conta com a participação dos familiares e amigos de Eloá, da promotora do caso, de jornalistas e policiais que trabalhavam na época. 

    O novo documentário, diferente do primeiro, vai além da cobertura da mídia e também aborda a negociação, contextualiza o relacionamento de Eloá e Lindemberg, mostra mais detalhes do crime. A produção traz a versão da família da vítima, do jornalista que ligou para Lindemberg ao vivo e do negociador. Há críticas sobre o sensacionalismo, a romantização da mídia e a comoção do público com o Lindemberg durante o sequestro. 

    Mas o documentário se perde na própria lógica que critica. Ao contar com encenações e simulações dramáticas, músicas de suspense, e ao mostrar imagens de Eloá baleada sendo retirada da casa, a produção corre o risco de cair, mais uma vez, na espetacularização da violência de gênero, mantendo o foco no terror e nas minúcias do crime, e não na vida tirada e na responsabilidade estrutural. O formato de true crime, ao focar no drama do crime em si, corre o risco de cair novamente na espetacularização da dor, fixando a memória do agressor que a mídia original tanto alimentou, em vez de focar inteiramente na vida e na trajetória interrompida de Eloá.

    Em “Quem Matou Eloá?” (2015), uma frase dita no documentário se encaixa perfeitamente neste contexto: “Apontar a câmera para uma cena real de sequestro e editar como se fosse um filme de ação, a ideia é subtrair a realidade do fato; você transforma aquilo numa narrativa de filme justamente para dar a impressão para quem está assistindo de que aquilo não é real”. Ao invés de adotar uma abordagem documental, a nova produção, feita 17 anos após o crime e com um grande acervo de imagens de época, escolhe incorporar o recurso da encenação e simulação. O documentário usa uma atriz que, sem ter o rosto revelado, encena a escrita no diário de Eloá e recita as frases que ela própria escreveu. Essa escolha, assim como a simulação de Eloá sendo perseguida por Lindemberg, reforça uma narrativa artificial e ficcional. 

    A mídia acompanhou o caso exaustivamente durante os cinco dias, e a mistura de imagens de arquivo com a dramatização me deixou confusa sobre o que era um fato filmado na época e o que é simulação. Para contar uma história de violência, não é preciso ser literal. O próprio documentário da Netflix prova que existem outros elementos que podem compor a narrativa com o devido peso, como as imagens da casa após o crime: bagunçada, suja, com sangue no chão. Os vestígios do horror que aconteceu ali, e não a encenação, que denunciam a violência.

    A história de Eloá mostra que a violência de gênero cometida por companheiros e ex-companheiros não é um desvio, mas uma prática estrutural ainda muito presente no nosso país. A infantilização e a defesa do agressor, como ocorreu com Lindemberg, continuam sendo estratégias que desresponsabilizam homens e descredibilizam as vítimas, nutrindo a ideia equivocada de que ciúme ou “amor demais” justificam a brutalidade. Muitos agressores não têm antecedentes e podem parecer “bons” para a sociedade, e justamente por isso a violência se mantém. Não são monstros, são homens comuns. 

    Reconhecer esse padrão, denunciar e tratar esses casos com seriedade é fundamental para romper o ciclo. Eloá não pode ser lembrada apenas pelo crime de que foi vítima, mas pela urgência de enfrentar a normalização da violência que ainda coloca tantas meninas e mulheres em risco.

    *Este texto integra a mobilização do Ariadnes nos 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres que começam hoje, 25 de novembro, Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres, e vão até o dia 10 de dezembro, Dia Internacional dos Direitos Humanos.

    Por Ana Luiza Rodrigues

  • Em busca do toque e da dor na Berlim de Wenders

     Cena do filme Asas do Desejo com os atores Solveig Dommartin e Bruno Ganz. A imagem é colorida que mostra uma mulher de cabelos loiros e cacheados, envolta em um roupão listrado azul e branco, ela está apoiada em um carro antigo de cor azul escuro, com as mãos cruzadas à frente, e tem uma asa branca parcialmente visível nas costas. Um homem com um casaco longo e escuro e um cachecol cinza, está ao seu lado e também se apoia no carro.
    Asas do Desejo, fábula poética sobre anjos que coloca a imortalidade em xeque, em favor dos sentimentos humanos – eu tenho um desejo ardente por você, baby

    O cinema, em sua essência, sempre buscou conciliar o visível e o invisível, o concreto e o etéreo. Em Asas do Desejo (Der Himmel über Berlin, 1987), Wim Wenders não apenas concilia, mas estabelece um fascinante diálogo dialético entre esses polos, utilizando a melancolia de uma Berlim pré-queda do Muro, (o que não se sabia à época da criação do filme), como palco para um dos mais belos e profundos ensaios cinematográficos sobre a condição humana. O filme, erroneamente traduzido para o português (o título original significaria “Um Céu Sobre Berlim”), apresenta Damiel (Bruno Ganz) e Cassiel (Otto Sander), anjos que flutuam sobre uma Berlim despedaçada e em transformação. A cidade, registrada em plongê absoluto e com a câmera em constante movimento, revela grandes espaços urbanos em que uma humanidade melancólica tenta suportar a vida.

    A obra se revela como uma sinfonia da cidade elegíaca, e esses movimentos de câmera aéreos adquirem um sentido poético e político quando pensamos a escolha das localidades gravadas, o preto e branco e o contraste geral nessa mistura cinza. Wenders faz a câmera pairar, pairar e flutuar sobre a cidade, sobrepondo, até de maneira ostensiva, o odiado Muro de Berlim, de forma a, talvez, encenar o anseio dos berlinenses de superar a gravidade da história e transpor essa feia barreira física. É extraordinário pensar que essa divisão, que parecia “poeticamente fixa e imutável como a margem de um rio”, desapareceria apenas dois anos depois do lançamento do filme, tornando a obra um registro histórico comovente da (literalmente) queda.

    A escolha da Gedächtniskirche — a igreja bombardeada em novembro de 1943, durante a Segunda Guerra Mundial, e mantida em ruínas, conhecida como a “igreja quebrada pela razão” (kappute kirshe) — como ponto de observação de Damiel é um golpe de mestre do diretor. Do alto desse símbolo de destruição, o anjo testemunha a vocação humana para a dor e a devastação, estabelecendo uma clara antítese entre a criatura etérea e o mundo mundano, guerra e paz. O que é divino está acima, enquanto o humano fica abaixo, sendo observado. Essa dimensão de cidade ferida é reforçada pela inclusão brilhante de imagens de arquivo da capital destruída em 1945, e pela cena em que os anjos vagueiam pela Potsdamer Platz, que em 1987 era ainda um “terreno baldio, um lote vago, um crepúsculo quase rural do nada”, no que julgo ser uma tentativa de evocação de memórias dos espectadores.

     Igreja Memorial Kaiser Wilhelm e seu complexo arquitetônico moderno na Breitscheidplatz, Berlim. Fotografia em preto e branco, em plano aberto e elevado, que capta um conjunto arquitetônico contrastante em uma grande praça urbana. A estrutura central é o que resta da torre neorromânica original, danificada por bombardeios na Segunda Guerra Mundial. Ela é alta, maciça e tem o topo quebrado, sendo o principal símbolo do memorial.
    A Kaiser-Wilhelm-Gedächtniskirche em Berlim, uma igreja que simboliza um poderoso contraste entre uma cicatriz, um lembrete e símbolo contra a guerra. Reprodução: https://www.gedaechtniskirche-berlin.de/besuchen

    A cidade ferida 
    Os anjos de Wenders são seres de conhecimento puro, capazes de ouvir os lamentos e lhes oferecer esperança, uma centelha de paz ou um pouco de conforto, de compreender a humanidade em sua “dimensão epistemológica”. No entanto, é precisamente essa plenitude intelectual que os condena à imortalidade vazia e desprovida de emoções. Eles não podem sentir o odor azedo, o frio, o calor, o gosto do sangue ou o simples toque, já que esse mundo dos anjos (filmado em um austero preto e branco) é um mundo de intelecto e saber, mas desprovido de coração e de cor. E é justamente nesse ponto que reside o grande poder filosófico do filme, o desejo de Damiel não é por poder, mas por experiência. Ele deseja “poder achar em vez de saber”, ansioso pela incerteza e pela materialidade da vida, querendo submeter-se ao próprio tempo e ao “abraço sensual de crescer, envelhecer e morrer”. 

    Cassiel, mesmo simpático à causa, resume a atração pela brevidade da vida ao imaginar o quão emocionante deve ser “entusiasmar-se com o mal pela primeira vez – ser um selvagem!”. O cinema de Wenders vai ilustrar essa distância entre o intelecto e o coração através da biblioteca estatal de Berlim, capturada com paixão pelo cinema que ele desenvolve. Ali, os anjos, “guardiões do saber”, divagam, e o ponto alto dessa cena é a presença de Homero (Curt Bois) – o poeta da efemeridade e das guerras – que busca eternizar a cidade no papel. Ele sublinha a ideia de que a busca humana pela imortalidade reside na arte, o único meio de sobreviver ao tempo que Damiel, ironicamente, deseja abraçar.

    Soren Kierkegaard, O Conceito de Angústia

    O recurso do fluxo de consciência, emprestado da literatura (como a de William Faulkner), é a ponte perfeita para que os anjos acessem a “forma mais genuína” das grandes angústias humanas. O filme evoca a ideia de que a natureza complexa da dor humana se torna o meio para que os anjos “ouçam” os pensamentos em sua essência mais desesperada e profunda. A relação dialética entre intangibilidade e materialidade, eternidade e efemeridade, celestial e mundano é o centro temático que Wenders articula com um primor estético apurado e sem igual. O momento narrativo mais potente para mim, à beira do rio Spree (ao lado do Muro), coloca a conversa dos anjos sobre o surgimento do conflito e das guerras lado a lado com o grande símbolo da divisão humana.

    Vale notar ainda a figura de Peter Falk, o ator de Hollywood (e fã do Amerikanismus que Wenders tanto aprecia), que é o único a sentir a presença dos anjos. Falk atua como uma ponte cultural e um ser em transição — um anjo caído ou um ser que, por ser ator, é capaz de tudo, simbolizando a capacidade humana de transformação, empatia e a entrega à vida em sua totalidade através da entrega de corpo e alma às artes.

    Dela, para a eternidade

    A inclusão da música “From Her to Eternity” da banda Nick Cave and The Bad Seeds no filme, é um elemento crucial e profundamente ressonante que enriquece a atmosfera e os temas centrais da obra. A banda é conhecida por seu som pós-punk/rock gótico e tem sonoridade intensa, mórbida e teatral. O som da música, com acordes dissonantes, percussão tribal e a performance vocal característica de Nick Cave, injeta uma dose de crueza e paixão terrena no filme. Acredito que a escolha da banda e da música serve para ancorar o espectador no mundo físico e visceral da Berlim ocidental da época, em contraste com o mundo etéreo e contemplativo dos anjos. 

    A música aparece de forma marcante quando o anjo Cassiel (Otto Sander) e, em particular, o anjo Damiel (Bruno Ganz) observam o show da banda em um clube escuro e lotado, justamente longe de onde os anjos normalmente ficam. Peculiarmente, nessa cena eles exploram o subterrâneo da humanidade, algo inédito até então, devido aos ângulos sempre gravados de cima, com um olhar superior aos acontecimentos. Os anjos, que normalmente só percebem o mundo em preto e branco, veem a performance ao vivo, e a música se torna uma poderosa manifestação do sofrimento, da paixão e da intensidade da experiência humana, e Damiel, que já está fascinado pela trapezista Marion (Solveig Dommartin), é exposto a essa explosão de emoção. 

    A música funciona como uma tentação sonora que o atrai ainda mais para o “peso” da vida humana, com seus prazeres e dores, justamente por tratar da obsessão de um homem por uma vizinha do andar de cima, cujos sons ele ouve até mesmo através do teto. Ele espia sua vida, seus choros e seus segredos, e essa sensação de vigilância íntima e claustrofóbica ecoa a própria condição dos anjos, que observam e ouvem os pensamentos mais profundos dos humanos, mas não podem intervir ou interagir. A frase mais reveladora é: 

    “This desire to possess her is a wound / and it’s nagging at me like a shrew / But I know that to possess her / is, therefore, not to desire her.” (“Este desejo de possuí-la é uma ferida / e está me atormentando como uma megera / Mas eu sei que possuí-la / é, portanto, não desejá-la.”). 

    Essa parte da música captura perfeitamente o dilema de Damiel. Para ele, possuir (sentir, tocar, amar) Marion significaria perder a eternidade e sua pureza angelical. A canção expõe o conflito central entre a eternidade angelical e a intensidade finita do amor humano. “From Her to Eternity” não é apenas uma trilha sonora, é também um comentário temático e emocional do filme, serve como um grito primal de angústia e desejo que os anjos, em sua quietude, anseiam por compreender e sentir. Representa ainda o coração pulsante e caótico da humanidade que atrai Damiel para o abandono de sua imortalidade. É um dos momentos mais vibrantes e inesquecíveis de Asas do Desejo, selando a conexão do filme com o underground cultural e o espírito da Berlim da época, que até hoje é conhecida globalmente por ser um cenário abrangente para novos estilos musicais e raves. 

    O triunfo da cor e do amor

    A renúncia de Damiel à sua vida perene culmina na cena de sua queda, e no renascimento nos braços de seu companheiro. Ao se tornar humano, a fotografia se transforma: o preto e branco do mundo angelical cede lugar a um mundo cheio de cores e matizes. Essa mudança visual é a manifestação literal da experiência sensorial, portanto o anjo caído, agora homem, está livre para desenvolver o amor pela trapezista Marion (Solveig Dommartin). O diálogo final entre os amantes e a divagação de Damiel remetem à arte barroca, a obra faz lembrar a tela “O Amor Vitorioso” (Amor Vincit Omnia) de Caravaggio, em que o amor triunfa sobre todas as criações humanas e a destruição das guerras. Damiel, ao experimentar o espanto incompreensível de se reconhecer no interior do outro, descobre que esse sentimento que ele tem dificuldade em nomear é aquilo que os humanos chamam simplesmente de amor.

     Pintura a óleo, estilo barroco, que mostra o deus Cupido, uma criança/adolescente nu de asas escuras, em pé e sorrindo. O ambiente é escuro, com forte iluminação focada nessa figura que representaria o Cupido. A seus pés, estão espalhados desordenadamente objetos que simbolizam as criações e esforços humanos (instrumentos musicais, armaduras, ferramentas de ciência). A pose vitoriosa do Cupido e os objetos derrotados representam o tema central do amor que triunfa sobre todas as atividades e conquistas humanas
    O Amor Vitorioso” (Amor Vincit Omnia) de Caravaggio, uma obra-prima do barroco, nos lembra que o amor triunfa sobre todas as criações humanas e a destruição das guerras.

    Asas do Desejo é, portanto, uma obra-prima que utiliza a leveza da fantasia romântica para explorar as grandes gravidades da história, da mortalidade e da cultura. Wenders transforma a divisão e a melancolia de Berlim em uma ode atemporal à plenitude sensorial da vida humana, entregando um cinema de ideias, quase um filme-ensaio, e absolutamente distinto, sem igual, que eu recomendo que todos que leram até aqui assistam, apreciem e compartilhem suas ideias sobre.

    Asas do Desejo (Der Himmel über Berlin) — Alemanha, 1987

    Direção: Wim Wenders

    Temas: Humanidade, anjos, desejo, Berlim, amor, sentidos, mortalidade, conexão

    Duração: 127 min

    Classificação indicativa do Blu-Ray: A16

    Nossa classificação indicativa: Livre para todos os públicos

  • Um homem bonito sempre vai me salvar quando eu for possuída?

    O Exorcista é um filme de terror lançado em 1973 que conta a história da possessão de Regan (Linda Blair), uma doce menina de 12 anos. Dirigido por William Friedkin, o clássico ganhou uma versão estendida em 2000, a narrativa nos leva para um lugar conhecido, a salvação de um corpo feminino por um homem másculo. O longa é uma adaptação do livro de mesmo nome, escrito por William Peter Blatty em 1971 e foi inspirado em caso real, o exorcismo de Roland Doe. A mudança do gênero do personagem principal acontece desde o livro – é claro, porque colocariam um garoto para sofrer se o sofrimento feminino traz mais comoção?

    Imagem retirada do Blog Hiperion

    O Exorcista é um filme de terror lançado em 1973 que conta a história da possessão de Regan (Linda Blair), uma doce menina de 12 anos. Dirigido por William Friedkin, o clássico ganhou uma versão estendida em 2000, a narrativa nos leva para um lugar conhecido, a salvação de um corpo feminino por um homem másculo. O longa é uma adaptação do livro de mesmo nome, escrito por William Peter Blatty em 1971 e foi inspirado em caso real, o exorcismo de Roland Doe. A mudança do gênero do personagem principal acontece desde o livro – é claro, porque colocariam um garoto para sofrer se o sofrimento feminino traz mais comoção?

    “Essa porca é minha!”

    Pazuzu, o demônio que possui a menina, é um espírito ligado ao sexual e ao formato fálico. Tanto no Iraque quanto em Georgetown, ele é representado com um enorme pênis. Os efeitos especiais do filme por si só já são grotescos, mas Regan se transforma com a possessão, indo de uma garota angelical, de cabelos loiros impecáveis e bochechas rosadas, semelhante à representação dos anjos, para um ser feio, com cara de velho e mal comportado.

    Além disso, a cena do crucifixo em que o demônio machuca o corpo da garota, violando-a, enquanto grita que a porca é dele marca o quanto ele é territorial. Isso sem contar que ele afasta os homens da casa e passa a ser o homem que faltava naquele espaço.

    Para que a filha seja salva, mesmo que Chris seja ateia, ela recorre ao exorcismo, e precisa que um padre, homem a salve. A tese “Irmã, porque há sangue saindo da sua cabeça? Discussões sobre a loucura feminina nos filmes O que terá acontecido a Baby Jane, o Bebe de Rosemary e O Exorcista” ainda diz da mulher como precursora do mal da sociedade, como acontece com Lilith e Eva. No caso de Regan o mal, em formato de demônio, domina seu corpo. Sempre utilizando da religiosidade como a única forma de salvação. Nesse filme, o mantra Deus, Pátria e Família é um dos guias do enredo. 

    Essa tendência de volta ao tradicional – e do terror que a ruptura representa – pode vir a ser um resgate das tradições do The American Way of Life, após os anos 60 com a ascensão dos hippies e de uma quebra do conhecimento dos Estados Unidos como um local da família ideal.

    Por Ana Beatriz Justino