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Miradas da infância

Cartaz da mostra. Arte: Bento Vital. 
Programação completa. Olhar para as infâncias e pensar como elas mesmas imaginam o mundo. Essa é a proposta de Miradas da infância, mostra cinematográfica do projeto Ariadnes, que vai exibir longas-metragens protagonizados por meninos, meninas e menines e que apresentam perspectivas infantis sobre o mundo, ainda que esses filmes sejam dirigidos por adultas e adultos. Essas miradas se cruzam com questões sobre gênero, raça, sexualidade, etnia, região: quem são as crianças que o cinema nos mostra? Quais são e como são as infâncias pensadas ou lembradas pelos olhares adultos?
Programação
08/5: A princesinha
A little princess, Alfonso Cuarón, 1995
Adaptado do romance de Frances H. Burnett, o filme narra a história de uma órfã exposta a abusos em um internato de Nova York no início do século XX, após a morte de seu pai na Índia.15/5: Onde fica a casa do meu amigo
Khane-ye doust kodjast? , Abbas Kiarostami, 1987
Mistura entre ficção e documentário, o filme conta a história de Ahmed, que pega por engano o caderno de seu amigo e precisa devolvê-lo para evitar que o menino seja punido na escola, caso não leve o dever de casa.22/5: Meu pé de laranja lima
Meu Pé de Laranja Lima, Marcos Bernstein, 2012
Diante de uma realidade dura e da falta de afeto, o pequeno Zezé usa a imaginação para transformar um pé de laranja lima em seu refúgio e confidente. Entre travessuras e descobertas, ele encontra na amizade improvável com o “Portuga” o verdadeiro significado de ser amado. Baseado no clássico de José Mauro de Vasconcellos, o filme é um retrato poético e visceral sobre a infância e o momento em que a fantasia de ser criança dá lugar ao amadurecimento. Uma experiência obrigatória e emocionante que abraça qualquer um que assiste.29/5: O túmulo dos vagalumes
Hotaru no haka, Isao Takahata (Studio Ghibli), 1988
A animação percorre os desafios vividos por Seita, um adolescente de 14 anos e sua irmã Setsuko, de quatro anos, que depois de perderem seus pais precisam encontrar meios de sobreviver no Japão pós Segunda Guerra Mundial.12/6: Conta comigo
Stand by me, Rob Reiner, 1986
“Conta Comigo” é uma adaptação da novela “O Corpo” de Stephen King. O filme conta a história de quatro garotos que, ao descobrirem o desaparecimento de um menino em sua cidade natal, a fictícia Castle Rock, decidem ir à procura de seu paradeiro. Durante a busca, os amigos acabam vivendo uma aventura repleta de desafios e reflexões.”19/6: Close
Close, Lukas Dhont, 2022
Close é um drama belga que retrata a história de dois amigos inseparáveis, Léo e Rémi, de 13 anos, que veem sua relação mudar devido à pressão social. Sensível e impactante, o longa-metragem acompanha as consequências desse rompimento, abordando, desde cedo, temas como masculinidade tóxica, amizade e perda.26/6: Marte Um
Marte Um, Gabriel Martins, 2022
A partir das tensões políticas que se estabelecem no país após a eleição de um presidente de extrema-direita, Marte Um (2022) traz a história dos Martins, uma família negra de classe média-baixa que vive na periferia de Contagem, região metropolitana de Belo Horizonte. Sob um olhar sensível, a obra tece, a partir do acompanhamento de um cotidiano simples, múltiplas histórias que evidenciam a esperança frente a uma desigualdade social que sufoca sonhos.3/7: Lindinhas
Mignonnes, Maïmouna Doucouré, 2020
No longa acompanhamos Amy, uma menina de 11 anos de origem senegalesa que vive em Paris. Dividida entre dois mundos contrastantes — os valores tradicionais de sua família e a cultura influenciada pela internet —, ela se aproxima de um grupo de dança local, passando a explorar questões relacionadas à sua identidade, à descoberta da sexualidade e à hipersexualização infantil frequentemente presente nas redes sociais.- As sessões são gratuitas e acontecem sempre às 9h, na sala 207 do ICSA;
- Todas as sessões serão seguidas de uma conversa;
- Haverá emissão de certificados para quem comparecer a 75% das sessões.
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Quando o jornalismo encontra um modo de caçar likes
Nos manuais do bom jornalismo, o perfil é considerado um gênero nobre. Ao flertar com a literatura, a construção de um bom perfil exige a simbiose entre um grande personagem — não necessariamente famoso, mas que tenha uma boa história para contar — e um olhar observador aguçado. Lá nos primeiros períodos da formação jornalística, aprendemos com os teóricos Muniz Sodré e Maria Helena Ferrari que, diante do perfilado, o repórter adota geralmente duas posturas: ou se mantém a uma distância asséptica, ouvindo o protagonista, ou mergulha na partilha de um determinado momento a fim de traduzir essa experiência para quem lê.
A primeira abordagem resulta na entrevista clássica que, se nos anos 80 já podia ser feita por telefone, hoje se resolve com um e-mail ou uma troca de áudios no WhatsApp. Mas, honestamente, os grandes perfis, que capturam a essência humana e olham para além dos fatos, são aqueles em que o jornalista se envolve, sente e habita o mundo vivido pelo personagem. Isso não significa invalidar a precisão dos textos mais formais e distantes, mas reconhecer que, quando a subjetividade e a empatia entram nessa equação, a narrativa ganha contornos muito mais profundos e honestos.
E é justamente a falta desse tato e dessa disposição para partilhar experiências que me incomodou no perfil da “bicha medonha”. Publicado pela revista Piauí, o texto de Tiago Coelho é um relato frio e engraçadinho de uma trajetória marcada por violências. João Vitor Uliana é, inegavelmente, um personagem fascinante, cuja história é atravessada por camadas complexas e contínuas negações de existência, algo muito comum a crianças queer. Reduzir essa densidade a uma cartilha perfilesca de “início-meio-fim”, empacotada com a moral de superação e ressignificação, é um modo muito rasteiro de narrar vivências dissidentes. É uma forma de lavar as mãos diante de toda uma vida em que os nãos se impuseram de forma categórica. O que resta é apenas o olhar de um observador externo que espera o exótico, o excêntrico, o estranho emergir para se divertir com o espetáculo.

Perfil veiculado na página da revista Piauí, em 06 de fevereiro de 2026. Foto: Reprodução/Piauí Dividido em dez partes, da infância à idade adulta, o texto se rende ao fluxo preguiçoso do clichê coming of age, impondo uma linearidade normativa a uma vida que não obedece a essa regra. A infância opressora, a adolescência roubada, a juventude vexatória e, por fim, a “volta por cima”, exaltando a lógica cristã de “faça uma limonada a partir dos limões”, soam como se estivéssemos recebendo um recado neoliberal conformista: tá vendo? É só ser resiliente e acreditar que as coisas boas virão!
O texto destaca, em uma série de adjetivos pesados, que crianças que não se encaixam nos padrões de gênero e sexualidade passam a ser hostilizadas e rotuladas. Mas que violência sistêmica é essa que o narrador, encoberto pelo manto da isenção, apenas cita, sem aprofundar, pressupondo que o leitor tenha uma ideia de toda a sua dimensão? Um perfil denso não pode se dar ao luxo de ter a superficialidade de um tweet. Nesse contexto, “Lady Gaga, Orkut, Glee, Gossip Girl, calça skinny” não são apenas adereços estéticos que compõem o estereótipo de um gay dos anos 2000, mas dispositivos de sobrevivência. Mas por que isso é tão significativo para esses indivíduos? São detalhes aos quais o perfilador precisa estar atento, precisa buscar… afinal, a base do bom jornalismo não é a curiosidade? Ou ela ficou apenas para os aspectos biológicos que acontecem no cérebro adolescente e que explicam detalhadamente uma excitação sexual, ou, para usar a grafia do autor, quando o “$@&” ficou “#%&*”?
Toda uma vivência permeada de violências e interrupções pseudo-engraçadinhas serve para acolher um clímax memístico, quando João Vitor se torna conhecido na internet. O texto é conduzido em um tom de fofoca de programa televisivo de baixo orçamento. Para todos nós que, um dia, fomos uma espécie de “bicha medonha” na vida de alguém, faltou a sensibilidade para lidar com a exposição de um personagem tão denso e cheio de nuances. O bom jornalismo não deve operar como uma máquina de caçar likes, nem se rebaixar a alimentar a curiosidade mórbida alheia. O jornalismo de verdade é aquele capaz de olhar para um sujeito como João Vitor e enxergá-lo além do meme, além do rótulo “criança viada”, além da superação mastigada de uma dor transformada em entretenimento de internet.
por Flávio Reis
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Live discute como desnaturalizar e nomear as violências dentro da universidade

Pesquisadoras da Anpof durante live. Imagem: captura de tela. Na sexta-feira (20), aconteceu a live “Assédio sexual e moral nas universidades”, promovida pela Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia (Anpof) como parte da campanha do 8M. A conversa foi mediada pelas professoras Silvana Ramos (USP/RBMF) e Janyne Sattler (UFSC/Anpof) e teve como convidadas as pesquisadoras Heloísa Buarque de Almeida e Mariana Kuhn de Oliveira.
Um dos pontos centrais do debate foi a importância do questionamento de ações e comportamentos – que hoje entendemos como assédio moral/sexual –, que antes eram normalizados. Além disso, locais de poder endossados não só pelas hierarquias já existentes nas instituições, mas também daquelas subjetivas como sobrenomes importantes, carreiras notórias e valorização dentro da academia foram alguns dos pontos destacados na conversa, uma vez que o controle sobre mulheres e outros corpos dissidentes estão constantemente à mercê do aval de pessoas assim – quase sempre homens brancos dentro da cisheteronormatividade.
A partir dessa perspectiva, o debate partiu do entendimento de que a definição do que é considerado violência não é fixa, mas construída a partir de relações históricas e políticas, sendo também atravessada por interseccionalidades, como gênero, classe, raça e sexualidade. Nesse contexto, à medida que novos enquadramentos e entendimentos sociais emergem, os movimentos sociais e a mídia agem como mediadores da transformação e exigem novas ações institucionais, ainda que, por vezes, a própria mídia reforce imaginários já cristalizados na sociedade.
No Brasil, marcos como a Lei Maria da Penha representam um ponto de inflexão na forma de compreender e enfrentar essas violências, ampliando o debate público e institucional. Outro ponto destacado foi a limitação na tipificação de leis para compreender o assédio moral no ambiente universitário. Embora o entendimento sobre o crime nasça no campo trabalhista, especialmente da Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT), a referência se mostra deslocada diante das relações acadêmicas, que nem sempre se configuram como vínculos formais de trabalho, ainda que sejam normalmente hierarquizadas.
“Será que a gente não precisa pensar de maneira mais radical o assédio moral na universidade?”, questionou a pesquisadora Mariana Kuhn de Oliveira. Ao passo que os debates são ampliados, os relatos circulam, mais denúncias são feitas e esses lugares cristalizados são tensionados com a criação de mais ações de combate e prevenção às violências. Com isso, acontece o “rompimento com o acordo tácito de silêncio sobre as múltiplas violências contra as mulheres na vida universitária” como descreve Natália Silveira de Carvalho (2022) no artigo “Experiências Femininas na Universidade: Violência de Gênero e Resistência Feminista”.
No entanto, como alertam as pesquisadoras, apenas estratégias de punição não são suficientes para alterar a estrutura desigual que marca as relações na universidade. É preciso formação e processos educativos continuados para compreender a configuração misógina da sociedade e, além disso, nos guiar por novos caminhos possíveis e mais respeitosos, saudáveis.
Em suma, assim como pontuado pela professora e pesquisadora Heloisa Buarque de Almeida, o que antes não possuía nome e forma hoje encontra espaços, mesmo que limitados, de denúncia e reconhecimento das faces da violência no espaço social e, principalmente, no universitário. A partir do amadurecimento dos movimentos sociais e de estudos com foco na denominação e classificação das formas de violação, mesmo as subentendidas, caminhamos para um avanço.
As pesquisadoras definem um tripé de ações e boas práticas no enfrentamento ao assédio: acolhimento (pela validação do relato e sentimento das pessoas); criação e funcionamento de ouvidorias e sistemas de investigação eficazes nas instituições; e, por fim, a educação e informação sobre os temas.
Afinal, como destaca Mariana, quando deixamos de nomear a violência, acabamos por cometer uma dupla injustiça contra às vítimas. É preciso, portanto, redefinir as relações tanto dentro das universidades quanto na sociedade em geral, para alcançar mais equilíbrio, pluralidade e a eliminação das violências.
Serviço:
Acesse aqui a conversa na íntegra: https://www.youtube.com/live/r78Z5bcjU2k?si=fpxf_3VXq4tDOK3z
Acesse também o Protocolo de Enfrentamento da Violência de Gênero da Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia (Anpof): Protocolo | Filósofas Brasil
Por Lia Junqueira, Eduarda Belchior e Nicolle Soares
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Ariadnes integra primeira edição do Mapa Brasileiro da Educação Midiática
O Ariadnes, observatório de mídia, gêneros e sexualidades do curso de Jornalismo da UFOP, está presente na primeira edição do Mapa Brasileiro da Educação Midiática, lançado pelo governo federal no dia 6 de fevereiro.
O mapeamento começou em 2024 a partir de uma aliança entre a UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) e a Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom) para localizar iniciativas voltadas à produção de conhecimento sobre educação midiática, desde a Educação Básica até o Ensino Superior. No mapa, estão localizadas 225 iniciativas espalhadas por todo o Brasil. O Sudeste se destaca com um total de 114 projetos selecionados, sendo a região com o maior número.
O reconhecimento do Ariadnes no Mapa Brasileiro da Educação Midiática representa a valorização de um trabalho coletivo, baseado em pesquisas, realizado desde 2018 no campus da UFOP em Mariana. Ao ser incluído no mapeamento, o trabalho do observatório é reconhecido e quebra com as barreiras regionais, pois pode ser acessado por pessoas de todo o país, sejam elas comunicadoras ou não.
Educação Midiática
A educação midiática é uma ferramenta de formação crítica que atua diretamente na forma como recebemos e consumimos informações. Com a expansão das fake news e dos materiais sintéticos das Inteligências Artificiais Generativas, os meios de comunicação se tornam ainda mais um campo de disputa. Assim, para impedir a desinformação e promover usos comunicacionais éticos e cidadãos, as iniciativas de letramento midiático se consolidam como importantes agentes.
Rafaella Aparecida

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Como começar algo bonito com a certeza do seu fim?
Iniciaria esse texto de outra forma. Havia rascunhado parágrafos acerca da ideia cristã de benção e também da experiência de desenvolver-se no mundo enquanto criança viada. Mas essa escrita foi brutalmente interrompida pela realidade. Escrevo agora atravessado pela dor das últimas notificações que recebo de amigos e conhecidos. Mais um de nós foi assassinado e dessa vez um rosto conhecido. Longe de ser um fato isolado, o acontecimento reitera um cotidiano em que abrir jornais significa, mais uma vez, encontrar um corpo dissidente abatido de forma cruel. Diante da impossibilidade de engolir o luto acumulado, decidi começar minha reflexão pelo fim, pois Bênçãos, livro de Chukwuebuka Ibeh, é também de alguma forma sobre a morte. Não necessariamente esta morte literal que estampa as manchetes do país que mais mata LGBTs do mundo diariamente, mas a morte lenta de nossa experiência; o apagamento de indivíduos com subjetividades e afetividades que fogem à norma imposta por um sistema cruel e heterocapitalista. A notícia do meu luto é brasileira, mas a que assola o universo ficcional de Ibeh baseia-se no real que atinge a comunidade nigeriana.

Capa do livro “Bênçãos”, de Chukwuebuka Ibeh. Foto: Divulgação/Tusquets Perto de seu capítulo final, o personagem central de Bênçãos, Obiefuna, nos provoca: “como começar algo bonito com a certeza de seu fim?”. A provocação nasce do medo que toma conta dos personagens em um momento-chave do livro, no qual eles discutem como suas vidas serão transformadas. Naquele ponto acompanhamos um Obiefuna, que já está na universidade e em um relacionamento sério com outro homem, e o parlamento nigeriano então aprova uma lei que proíbe pessoas do mesmo sexo se casarem. Aqui, se faz necessário observar o contexto histórico e o momento em que isso ocorre. Essa legislação possui raízes coloniais, nas quais a Inglaterra criminalizava atos “contra a ordem da natureza”. Mesmo após a independência, em 1960, as leis anti-homossexuais foram mantidas e punidas com até 14 anos de prisão. Mas foi em 2013, ano no qual a última parte de Bênçãos se passa, que essa repressão foi endurecida, em resposta direta ao debate gerado nos Estados Unidos que impulsionou o reconhecimento federal das uniões homoafetivas.
A lei nigeriana sancionada em janeiro de 2014 trouxe uma sistematização de perseguições que incluíam extorsões, violência policial e até apedrejamentos em alguns locais, e a quarta parte do texto de Ibeh é um reflexo direto desse regime que mata e persegue milhares de sexualidades dissidentes na Nigéria. Obiefuna, que passa a infância e adolescência se escondendo, quando finalmente encontra um certo orgulho de si e uma certa capacidade de amar sem tantas amarras, se depara com um país que expulsa e invisibiliza vidas queer. Mas o que Ibeh nos mostra é que, infelizmente, esse apagamento não ocorre apenas na vida adulta por conta do endurecimento de leis e de um clima político conservador que avança cada vez mais. Típico romance de formação, Bençãos acompanha Obiefuna desde o seu desejado nascimento até o início de sua vida adulta.
De bênção à ameaça
Ser uma criança viada significa, muitas vezes, se sentir isolado, esquisito, deslocado. A vivência é gestada no silêncio de uma esfera íntima, sem ter em quem se apoiar nem ao menos com quem desabafar. É muito pesado para quem ainda tateia a própria personalidade ser apontado por todos a sua volta que é alguém diferente, mesmo que ele ainda não saiba muito bem o que quer dizer isso. Ao nos depararmos com Obiefuna, percebemos que nossa solidão tem companhia, apesar das distâncias geográficas e culturais. O que torna isso possível é a existência de uma gramática comum do medo e do desejo que aproxima realidades muito diferentes, na qual os códigos dos esconderijos são os mesmos. A dor de não se encaixar no mundo é universal. E é a partir dessa gramática que Ibeh constrói a narrativa do seu livro de estreia. Bênçãos não é exatamente um livro autobiográfico, mas é permeado por experiências vividas pelo autor. Afinal, algumas situações são tão específicas que deixam, na ficção, os rastros inconfundíveis do vivido.
Criado na classe média de Port Harcourt, Obiefuna logo percebe que o afeto familiar é condicional, ou seja, ele é amado na medida em que performa o que se espera dele. A negociação injusta é velha conhecida de corpos queer. “Não tô gostando muito do jeito que você fala. Fala direito!”. O texto de Ibeh estabelece muito bem essa pedagogia de gênero. Enquanto o protagonista é arrastado pelo irmão para o futebol, onde sua fragilidade física é punida, o espaço onde seu corpo encontra fluidez, na dança, é vetado. O ponto de virada da infância para a adolescência ocorre com a descoberta do desejo. A chegada de Aboy, aprendiz que passa a dividir o quarto com os meninos, oferece a Obiefuna uma chance rara de reconhecimento. Pela primeira vez, ele não se sente só, sente-se visto. Mas os desvios não são tolerados naquela casa, onde um olhar é o suficiente para romper o pacto familiar e sentenciar duas vidas.
Obiefuna é confinado em um seminário, abandonado afetivamente pelo pai que não está a fim de lidar com o “problema” que tem em casa e negligenciado pela mãe, que embora possua um arco redentor, escolhe fechar os olhos para toda a violência que se impõe diante do confinamento no internato. A violência que atinge Obiefuna desde a infância opera sob a lógica que Michel Foucault chamou de disciplina, intensificada no período da adolescência. O seminário atua como agente castrador, aquele que não apenas quer punir o corpo desviante, mas também transformá-lo em um corpo dócil. Nesse ponto, a narrativa toma contornos pedagógicos bem explícitos de como alguns indivíduos que são domesticados sobrevivem mais tempo no jogo heterocapitalista. A domesticação do corpo, dos gestos, da fala e dos desejos tem um preço muito alto: a morte da identidade.
A rotina exaustiva e a vigilância constante dentro do seminário funcionam como uma pedagogia da dor, na qual revivemos com Obiefuna o medo da descoberta e a lição de que quem decide viver livremente é punido. É uma lógica panóptica de mão dupla: tanto no ambiente externo quanto no movimento de autovigilância. O personagem passa a se policiar, controlando gestos e afetos numa tentativa desesperada de sobrevivência. E isso inclui aceitar humilhações e até mesmo ter sua inocência rasgada por uma pressão externa, numa iniciação sexual marcada pelo abuso de hierarquia. Em uma leitura apressada, logo bradei contra o nosso herói: covarde! Mas não é esse o movimento que sociedade, mídia e cultura nos ensinam a fazer? Para sobreviver é preciso não dar pinta, não rebolar. Não se pode gostar de Sandy e Júnior, não se pode dançar ao som de Rouge, tampouco colocar a mão na cintura. É preciso beijar a garota mesmo sem a mínima vontade, pois a galera do grupo da igreja disse que é preciso perder “o bv”. Será mesmo Obiefuna um covarde ou lhe faltaram referências pedagógicas e de existência para que ele não precisasse se esconder para sobreviver? É difícil olharmos para nossa versão infantil, pois muitas vezes fomos essa criança assustada e covarde que aceita migalhas para simplesmente passarmos despercebidos.
Ao longos dos últimos séculos no ocidente, igreja e psicanálise criaram a armadilha perfeita: a obrigatoriedade da confissão. É uma lógica perversa, pois somos incitados a falar sobre nossos desejos ocultos para descobrir a verdade sobre quem somos. O grande problema é que, ao confessar, transformamos um simples ato ou vontade passageira em uma identidade patologizada. Obiefuna não passa por um consultório psicanalítico, mas confessa ao padre. E quantos de nós temos uma história parecida? Vamos nos juntar à religião com o intuito de nos livrar dessa culpa através da confissão, Deus cura tudo, inclusive a homossexualidade. Mas é ali, no ambiente de suposto acolhimento que mais somos patologizados: “viado!”.
O desejo de Obiefuna é enquadrado como pecado antes mesmo de ser nomeado ou compreendido pelo próprio garoto. A repressão religiosa não quer que Obiefuna nem nós paremos apenas de sentir e é necessário confessar que nós somos o problema. E esse processo é absurdamente violento quando transforma nosso afeto ainda opaco, difuso, em uma verdade incontestável sobre nós mesmos. Não cometemos um erro, nós somos o erro. A criança que não deu trabalho; a criança que não se encaixou no futebol dos primos, mas encontrou refúgio nas primas; a criança que se refugiou nos estudos. No fim das contas, é tão errado assim brincar de boneca? Volto à provocação de Obiefuna: “como começar algo bonito com a certeza de seu fim?”. Bênçãos nos responde com a dureza da realidade. Olhar para esse espelho e entrar em contato com feridas ainda abertas custa caro. E me pergunto se um dia elas cicatrizarão. Por mais que as pedagogias da dor nos ensinem, elas também nos deixam exauridos. Precisamos imediatamente imaginar outras formas de existência. É preciso celebrar Obiefunas que ousam, que lutam contra a repressão, que recusam o silêncio e a covardia imposta. Que a arte e a vida não nos sirvam apenas para constatar o extermínio de nossas subjetividades, mas para desafiar a lógica do destino trágico. Diante da certeza do fim que o mundo nos promete, que a nossa maior rebeldia seja, justamente, inventar outros finais possíveis.
Livro: Bênçãos
Autor: Chukwuebuka Ibeh
Tradução: Petê Rissatti
Gênero: romance
Editora: Tusquets
Faixa etária sugerida: 14 anos
Justificativa: o livro contém cenas de violência moderada, linguagem vulgar e insinuações de atos sexuais.
Por Flávio Reis
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Não foi ciúme: violência vicária e o crime de Itumbiara

A violência vicária é uma forma de violência doméstica, psicológica e moral e pode impor penalidades ao agressor. É comum mulheres se sentirem inseguras ao andar sozinhas por uma rua deserta, especialmente à noite. Por isso, costumamos pensar em formas de tornar o caminho mais seguro: uma roupa mais coberta, menos “feminina” talvez, caminhos seguros, apertar o passo e fechar o rosto. Mesmo que essas medidas não garantam segurança, é algo que faz parte do cotidiano de muitas mulheres. Mas o perigo não é apenas esse, ele mora mais perto. De 144,2 mil casos contabilizados de agressão contra a mulher, 116,8 mil ocorreram na casa das vítimas, o equivalente a 81% do total, segundo dados do Atlas da Violência de 2024, obtidos a partir do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), do Ministério da Saúde. É difícil definir um lugar que seja de segurança.
Há algum tempo, notícias sobre agressão contra mulheres e feminicídios vêm emergindo na mídia e têm ganhando cobertura e notoriedade. Essas violências não são atuais, já existiam antes de sequer serem criadas a Lei Maria da Penha, que trata sobre violência doméstica e familiar, e a Lei do Feminicídio. O que quero reiterar é que, por vezes, imaginamos o perigo em um beco escuro, mas ele pode estar em casa, não vindo de um homem doente ou de um “monstro”, como algo incomum e isolado na nossa sociedade.
Os crimes contra mulheres por razões de gênero são um problema social que nasce do machismo e da misoginia, da visão de que a mulher é uma propriedade e, por isso, qualquer coisa pode ser feita com seu corpo e sua vida. Por essa razão, essas violências não são atípicas; elas são estruturais e se repetem há muitos séculos. O feminicídio, que é a expressão mais extrema da violência contra a mulher, passa uma mensagem, a de que um homem (porque a maioria dos feminicidas é homem) pode fazer o que quiser com aquela mulher, inclusive, decidir o seu destino, como argumentam as jornalistas Niara de Oliveira e Vanessa Rodrigues no livro História de morte matada contada feito morte morrida.
Um caso que aconteceu recentemente e ganhou repercussão foi o do secretário de Governo de Itumbiara, em Goiás, Thales Naves Alves Machado, que atirou nos próprios filhos e, depois, tirou a própria vida. Os dois meninos, Benício, de 8 anos, e Miguel, de 12 anos, morreram. Antes de cometer o crime, Thales publicou uma carta em seu perfil no Instagram. No texto, ele indicava uma crise no casamento e uma possível relação extraconjugal da esposa. Ele pediu desculpas, usou várias referências religiosas e afirmou ser “intenso e verdadeiro” e que, por isso, não conseguiria viver com as lembranças que a mulher teria causado.
Este não é um caso de violência física direta contra a mulher ou uma tentativa de feminicídio, mas esse crime também passa uma mensagem, ligada à misoginia, para a sociedade. Crimes desse tipo são denominados violência vicária, que ocorre quando o agressor utiliza os filhos como instrumento para infligir sofrimento à mulher. Ele não tirou a vida dela, mas a condenou a viver o luto dos filhos e a enfrentar o julgamento social. Ao poupar a mulher e atacar os filhos, o agressor busca uma punição que, na lógica do controle, é pior que a morte: a destruição emocional de quem fica.
Mais que isso: coloca, claramente, a suposta culpa pelo infanticídio nos atos dela. É possível perceber, por comentários em postagens sobre o caso, que as pessoas também a culpabilizam e, às vezes, até sugerem que quem deveria ter sido assassinada era ela, por “merecer” uma punição por um alegado caso extraconjugal.
As capturas de tela a seguir, tiradas da página de fofoca Choquei e da rede social X, antigo Twitter, exemplificam como esses espaços funcionam ao discutir certos temas. A Choquei publica conteúdos de forma exaustiva quando se trata se casos brutais e que estão em evidência no momento, utilizando músicas dramáticas e recursos que apelam ao emocional e não tensionam o fato, nesse caso o assassinato de duas crianças.
Com o pretexto de apenas passar a informação, a página publica várias atualizações do caso e mantém nos comentários um espaço que fomenta o julgamento e linchamento moral. A Choquei, em sua conta com milhões de seguidores, foi criada em 2014 por Raphael Sousa Oliveira com o foco em postar notícias e fofocas, apesar de ele não ser jornalista. Com postagens quase em tempo real e explicações de contexto de forma curta, que resumem os fatos – como em um lead ou tweet para que não seja necessário ler uma notícia e sair da rede social –, a página se tornou a fonte de informação de muitos brasileiros. Para prender a atenção, utilizam chamadas sensacionalistas com palavras em caps lock, como “GRAVE”, “ALERTA”, “ATENÇÃO”, “EXCLUSIVO” ou “VEJA”, acompanhadas de emojis de sirene, criando um senso de urgência que prende a atenção e estimula o engajamento rápido.
Esse método de divulgar informações já gerou consequências irreversíveis, como no caso de Jéssica Vitória Canedo, que cometeu suicídio em 2023 após a página replicar fake news sobre sua vida pessoal. Na ocasião, a Choquei manteve o conteúdo no ar mesmo após alertas de que a notícia era falsa. Recentemente, em 18 de fevereiro de 2026, o perfil oficial da página no Instagram foi desativado, deixando os usuários apenas com a mensagem de “página não disponível”, sem um posicionamento oficial sobre o motivo da queda. No X as postagens continuam normalmente.
Nesse caso de Itumbiara, a Choquei explorou detalhes do caso e expôs a vida íntima. Em meio aos posts sobre o crime, havia uma publicação com imagens feitas por detetive particular no momento em que a esposa estava com um homem. Como em postagens anteriores a mulher já estava sendo julgada nos comentários, a página viabiliza as críticas e, além disso, secundariza o assassinato das crianças, tirando-o do foco e ignorando o fato de o crime ter uma razão de gênero. A página ignora a dinâmica da violência vicária e foca nas ações da mulher, seja para tentar conferir uma justificativa para o crime, seja no que ela estava fazendo no momento, como a ida ao velório das crianças. Assim, o debate passa a ser o comportamento da sobrevivente.

Captura de tela de comentários em publicação da página Choquei, na qual havia imagens da esposa do secretário em um restaurante com um homem. Alguns comentários criticam a postura da página, mas a maioria, seja de homens ou de mulheres, é de julgamento. 
Capturas de tela de interações na rede social X, nas quais usuários reagem à notícia do crime. Os comentários evidenciam a transferência de culpa para a mãe e a afirmação de que ela deveria ter sido a assassinada. 
Há uma polarização no debate, mas a maioria dos comentários fazem juízo moral sobre a mulher. Esses comentários expõem como a sociedade ainda interpreta que mulheres devem ser punidas por seus eventuais erros de maneiras brutais e fatais. Uma parcela dos usuários tenta sinalizar a complexidade do crime e a inocência da mãe, mas há uma forte resistência em reconhecer a misoginia como a gênese da violência.
Há muito tempo é comum, nas narrativas de casos de violência de gênero e de feminicídio, que o jornalismo ou o senso comum legitimem o crime, retirando a responsabilidade da ação do homem e vinculando a brutalidade à emoção. Em 1976, Doca Street assassinou Ângela Diniz e, na época, o argumento central era o de que ela o teria seduzido e provocado ciúmes. Utilizava-se a tese da “legítima defesa da honra” para justificar o crime. Em 2008, Lindemberg Alves sequestrou e assassinou Eloá Pimentel após o término do namoro. Em diversas matérias jornalísticas, o crime era tratado de forma banal e compreensível. Em 2010, Bruno Fernandes foi o mandante do assassinato de Eliza Samudio e, por vezes, foi retratado como um jogador que perdeu o futuro e a carreira por culpa de uma “mulher interesseira”.
Esses são casos de feminicídio emblemáticos no Brasil e, em todos eles, foi construída uma narrativa de motivação emocional que teria levado esses homens ao extremo, como se tivessem sido “provocados” por atos de mulheres supostamente imorais: sedutoras, adúlteras, ingratas, interesseiras são os estereótipos que recaem sobre elas..
No caso de Itumbiara, ao se envolver com outra pessoa, a mulher “extrairia” do (ex?)marido o pior, dando, portanto, a ele razão e motivo para agir em resposta a esse desvio; é a partir dessa lógica que se tentam justificar os crimes. Mas é preciso reforçar que a violência doméstica não é uma resposta a um comportamento, mas uma ferramenta de controle.
A culpa nunca é da vítima, e a dificuldade em romper ciclos de abuso é acentuada por esse julgamento social que podemos ver nas redes, por exemplo. O machismo e a misoginia não vitimam apenas mulheres. Ao tratar os filhos como extensões de sua posse ou instrumentos de vingança contra a esposa, o agressor demonstrou que essa lógica pode se sobrepor até aos laços de paternidade. Embora a violência vicária não seja tipificada com esse nome específico na Lei Maria da Penha, ela pode impor penalidades ao agressor por se enquadrar como uma forma de violência psicológica e moral.
Por Ana Luíza Rodrigues
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Mulheres negras na política: presença e transformação

Participantes na Marcha das Mulheres Negras 2025. Foto: Ana Luíza Rodrigues No dia em que celebramos a conquista do voto feminino no Brasil, relembramos a 2ª Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver, que aconteceu em 25 de novembro de 2025, em Brasília. No mesmo lugar onde aconteceu a primeira Marcha, 10 anos atrás, em 18 de novembro de 2015, mais de 100 mil mulheres marcharam contra o racismo, a violência e pelo bem viver.
Em 2025, as ruas da capital foram tomadas por milhares de pessoas, não só mulheres negras – mas elas eram maioria, de diversas idades, lugares, orientações sexuais e marchando por múltiplas causas. Apesar da previsão do tempo marcar chuva, o dia foi ensolarado e a programação começou com a marcha, de manhã, e terminou com shows gratuitos de artistas negras no Museu Nacional da República.
A marcha teve a participação da intelectual Sueli Carneiro, das deputadas Benedita da Silva, Erika Hilton e Célia Xakriabá e da ministra Anielle Franco, e de mais 300 mil pessoas, segundo estimativa da organização. Entre as bandeiras levantadas, destacava-se uma exigência: a nomeação de uma ministra negra no Supremo Tribunal Federal (STF), um passo para que a política e o Judiciário brasileiros se tornem espaços mais inclusivos e que representem a nossa sociedade, na qual mulheres negras são o maior grupo populacional.
Bandeira do Brasil com a inscrição “Ministra Negra Já”, estendida em frente ao Palácio do Congresso Nacional, 2025. Foto: Ana Luíza Rodrigues. Nesse cenário, é importante lembrar de Marielle Franco. Seu assassinato, em 2018, tornou-se símbolo da violência política de gênero e raça no Brasil. Na 2º Marcha, Marielle se fez presente como um legado de força e luta.
Embora fosse a Marcha das Mulheres Negras, a exigência por Reparação e Bem Viver foi além dessa causa, sendo uma luta de toda a sociedade. As pautas incluíam o fim da violência policial e da brutalidade do Estado nas comunidades, o combate ao feminicídio e à violência contra a mulher e a conquista de direitos para a população LGBTQIA+, crianças, pessoas com deficiência, indígenas e imigrantes.
Essa mobilização materializa o que Angela Davis afirmou em 2017: “Quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela”. A frase conhecida da escritora, professora, filósofa e ativista socialista estadunidense foi dita por ela em uma conferência na UFBA em 2017, durante uma de suas visitas ao Brasil. A ativista provocou a reflexão de que, pelo fato de as mulheres negras estarem na base da estrutura social capitalista, ao se movimentarem, o que está acima se transforma.
Na marcha havia poucos homens, e as mulheres uniram suas vozes para reivindicar direitos para o nosso país, de forma diversa. Por isso, é importante comemorar e relembrar a importância da conquista do voto feminino, mas também focar no futuro: garantir e aumentar a presença de mulheres em cargos de destaque na política, especialmente de mulheres negras. Essa representatividade não significa que elas sempre vão ter o mesmo posicionamento, pois as mulheres são diversas e plurais. O centro da questão é que precisamos ocupar esses espaços que, historicamente, foram destinados a homens brancos. Pedir essa representatividade não é buscar uma mulher “perfeita”, mas garantir que a estrutura deixe de ser um lugar de exclusão.
Confira alguns registros da Marcha das Mulheres Negras 2025:


























Todas as imagens são de Ana Luíza Rodrigues
Por Ana Luíza Rodrigues
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Quem pode ser cientista?
Celebramos hoje, 11 de fevereiro, o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência. Instituída em 2015 pela Unesco e pela ONU Mulheres para fortalecer a ideia de que igualdade de gênero e ciência andam juntas e para contribuir com o ODS 5, sobre igualdade de gênero, a data costuma incentivar meninas e mulheres na carreira científica, especialmente em áreas com domínio masculino (as STEM – ciência, tecnologia, engenharia e matemática, na sigla em inglês).
Ainda que a situação nas STEM seja, mesmo, crítica – a média global de pesquisadoras nessas áreas é de 33,3% de mulheres e a de estudantes, 35% – o olhar precisa ser ampliado para toda a área científica. Afinal, as barreiras, visíveis ou invisíveis, estão em todos os campos, até mesmo naqueles onde as mulheres predominam, mas, frequentemente, estão sujeitas ao teto de vidro.
Um dos modos de ampliar a presença feminina no campo é mostrar que a ciência, historicamente, também é feita por mulheres. Por isso, há algum tempo, tem aumentado a produção e circulação de representações mais inclusivas e paritárias sobre gênero. Mas o que essas publicações dizem sobre quem são as mulheres cientistas e, no fim das contas, sobre ciência?
Já existe, hoje, uma boa gama de livros dedicados ao tema. Mas vou falar apenas de alguns mais conhecidos. O primeiro deles é Histórias de ninar para garotas rebeldes (Planeta de Livros Brasil), um fenômeno editorial traduzido para o português em 2017 (e já com outros volumes, um deles dedicados só a mulheres brasileiras). Tem até podcast.

Marie Curie, onipresente (com justeza) nas coletâneas de mulheres cientistas. Foto: Instagram/Planeta Brasil 
Nettie Stevens, pioneira da genética que descobriu os cromossomos sexuais.Foto: Instagram/Planeta Brasil O livro traz 100 mulheres notáveis da história, em ordem alfabética, dos mais variados campos: artistas, esportistas, políticas, ativistas, aventureiras e, claro, cientistas. Estão lá Ada Lovelace (matemática), abrindo o livro; estão lá Jane Goodall (primatologia) e Marie Curie (física), e nomes menos canônicos como Sylvia Earle (biologia).
Entre a centena de mulheres, são 18 cientistas, apenas duas de áreas fora das chamadas ciências duras: Maria Montessori, educadora (que também era médica), e Hipátia, creditada como matemática e filósofa (desconfio que ela entra no livro muito mais pela primeira que pela segunda habilidade). Dessas mulheres, apenas não são da América do Norte ou da Europa Ocidental: Ameenah Gurib (biologia), da República de Maurício, que também foi presidenta do país, e a astrônoma e poeta chinesa Wang Zhenyi.
A coleção Gente Pequena, Grandes Sonhos, publicada no Brasil pela editora Catapulta, tem até o momento 24 títulos traduzidos (publicada originalmente em espanhol, já são 125 títulos em inglês). A única cientista disponível em português é a física Marie Curie. Pra ser justa, a coleção original tem outros nomes, como Ada Lovelace, Jane Goodall, Maria Montessori e Mae Jeminson (medicina), também presentes em HDNPGR, além de Hedy Lamarr (física), Rosalind Franklin (genética), Sally Ride (física) e Simone de Beauvoir (filosofia). De novo, apenas Beauvoir não vinha das ciências duras. De novo, cientistas do Norte Global.
Já a Folha de S. Paulo publicou duas coleções. A primeira é Grandes biografias para crianças, com 25 personalidades mundiais, de 2021. Há quatro cientistas no rol: Marie Curie, Margherita Hack (astrofísica), Jane Goodall e Wangari Maathai (sustentabilidade). Das quatro, apenas Maathai não estava presente em HDNPGR; Hack não está em GPGS. E de todas, apenas Goodall não foi ganhadora de um Nobel, mas teve trajetória igualmente notória. Vale notar que Wangari Maathai, primeira mulher africana a receber um Nobel da Paz, era queniana.

Ilustração de Conceição Evaristo na coleção Pensadores para Crianças. Foto: Divulgação/Folha. Em 2024, a Folha foi mais direta na coleção Pensadores para Crianças, com 25 “grandes pensadores da humanidade a crianças”, segundo o próprio jornal. bell hooks, Conceição Evaristo, Hannah Arendt, Mary Wollstonecraft, Simone de Beauvoir (inacreditavelmente dividindo um volume com Jean Paul-Sartre!) e Maria Montessori são as 6 mulheres da lista. É uma visão mais aberta, pois se trata de pensadoras da Crítica Cultural, Literatura, Filosofia, Política e Educação. Ainda assim, apenas uma brasileira é considerada pensadora, ou produtora de ciência, nesse rol.
Há outros volumes dedicados apenas a mulheres cientistas; alguns apenas a mulheres brasileiras. Nessa, há muito mais motivos para sorrir ao encontrar o reconhecimento a brasileiras que fazem ciência. Mas a visão dominante de cientista nos produtos culturais mais vendidos parece ser a de uma mulher branca, cis, do Norte Global, que pesquisa ciências duras. Sem falar que o mérito científico está reservado a mulheres – às meninas resta sonhar e estudar. Precisamos celebrar, sim, o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência. Precisamos incentivar a ocupação da academia brasileira por corpos femininos e romper os tetos de vidro que impedem a chegada das mulheres ao topo da carreira acadêmica – maternidade, misoginia, assédio, transfobia, racismo, capacitismo… Mas precisamos, sempre, questionar também o que as representações culturais nos “vendem” como ciência e quem são as mulheres representadas como cientistas.
Por Karina Gomes Barbosa
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Por uma existência visível
Substantivo feminino, em seu sentido literal, o termo “visibilidade” é o “caráter, condição, atributo do que é ou pode ser visível, ser percebido pelo sentido da vista”, segundo o dicionário Oxford Languages. Figurativamente, é a “condição de ser efetivamente percebido, conhecido”.
O Dia da Visibilidade Trans pretende trazer a lente de uma outra ideia de visibilidade, para além da forma como os corpos trans são vistos pela sociedade. A visibilidade que a comunidade trans tem não contempla sua existência, mas sim uma visibilidade que violenta e força esses corpos a resistirem todos os dias sob olhares baseados na repulsa e na abjeção.

Símbolo de resistência e renascimento, borboleta é ilustrada em aquarela durante atividade no Centro de Referência ao Atendimento LGBTQIAPN+ em Ouro Preto (CRA LGBT+). Foto: Gabriel Maciel. É a partir da luta pelo reconhecimento da existência T que surge, no dia 29 de janeiro de 2004, com o lançamento da campanha “Travesti e Respeito”, do Ministério da Saúde, o Dia da Visibilidade Trans. A data propõe ao país — que mais mata pessoas trans no mundo — que enxergue esses corpos como dignos de existência, respeito, inclusão e direitos.
Divulgado pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), o Dossiê Assassinatos e violências contra travestis e transexuais brasileiras em 2025 traz dados que colocam — novamente —, pela 18ª vez, o Brasil como o país que mais mata a comunidade trans. De acordo com a ANTRA, apesar de um recuo de 34% em comparação a 2024, os casos de transfeminicídios apresentam uma subnotificação, dada a não gestão do Estado desses registros. Além disso, a base de dados é dependente da cobertura dos casos, que é, muitas vezes, transfóbica e não considera a identidade da comunidade — quando não completamente ausente.
A existência desses corpos causa abjeção. De acordo com a pesquisadora Julia Kristeva, o sentido da abjeção “perturba a identidade, o sistema, a ordem”, e essa ordem refere-se à heterossexualidade, à manutenção do cistema. É daí que surge a vontade compulsória de criar uma máquina social que marginaliza e violenta esses corpos.
No dossiê, a presidenta da ANTRA, Bruna Benevides, apresenta que esse processo acontece a partir de um ciclo de violências e exclusões sociais. No documento, visualizamos uma série de agressões marcadas em diferentes esferas sociais da comunidade LGBTQIAPN+. Diferentes contextos de violências apresentados em 2025 retratam o cenário exposto por Bruna, cujo primeiro ato é a negação da participação trans no convívio público e social.
A partir da transfobia estrutural, formada pela ideia desse corpo abjeto, é feita a retirada desses corpos do convívio social, marginalizando-os. Somada à negligência do Estado e à violência cotidiana — verbal e física —, temos a sua desumanização e a naturalização das violências. Por fim, nos dossiês, reportagens e demais conteúdos que retratam as mortes da comunidade, aparece o transfeminicídio.
O cenário contado pelo dossiê não é promissor, apresentando uma projeção de perda de direitos com o aumento do discurso político antitrans, somado a pseudoteorias extremistas e transfóbicas. Outro fenômeno observado é o agrupamento dessas ideologias por entidades que institucionalizam discursos de ódio cis, como evidenciado no material divulgado em 2025 pela ANTRA, que nos mostra um projeto de restringir direitos trans — muitas vezes já reconhecidos.
A defesa da existência e da visibilidade pelas vidas travestis, com o objetivo de romper o circuito de violências, deve ser estruturada de maneira interseccional, considerando gênero, raça, sexualidade, classe, deficiência e geração. Em casos recentes, como o da atriz Bruna Marquezine, em que suas características latinas foram associadas ao que a sociedade enxerga como a performance de uma pessoa trans e a gatilhos para discursos transfóbicos, percebemos o papel transversal da pauta.
Outros casos no esporte mostram o papel expansivo e coercitivo com que os padrões da cisgeneridade agem na sociedade. Partindo de uma visão colonial, a transfobia estrutural sufoca outros sujeitos também marginalizados. Nosso papel, enquanto sociedade, é o de estimular movimentos de defesa da resistência desses corpos. Em 2025, um exemplo de força contrária à ideologia antitrans foi a intervenção “Protect the Dolls” (proteja as bonecas, em português).
Impulsionada por diversas personalidades, a chamada para a ação de “proteger as bonecas” vem da cultura ballroom da década de 1980. Dolls surgiu como um termo cunhado por pessoas transfemininas como afirmação de feminilidade e confiança inabalável. A intervenção nos convida e invoca a travar uma luta coletiva junto ao movimento trans, com o objetivo de romper o circuito transfóbico, compreendendo-o desde a sua base, e afirmar, cada vez mais, a existência desses corpos.
Por Gabriel Maciel
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Ariadnes lança mapeamento inédito sobre gêneros e sexualidades na UFOP

Integrantes do Ariadnes, observatório de mídia, gêneros e sexualidades da UFOP, em uma das formações promovidas pelo projeto. Foto: Divulgação/Ariadnes. O Ariadnes – observatório de mídias, gêneros e sexualidades lança a primeira edição do Mapeamento de ações de gêneros e sexualidades na universidade, uma publicação que pretende cartografar as iniciativas nestas temáticas desenvolvidas na Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP).
O levantamento foi feito em duas etapas: na primeira, nós elencamos os grupos, projetos, coletivos, ações. Depois, convidamos todas as iniciativas a responderem um questionário para conhecermos o perfil de cada uma delas. O Ariadnes encontrou 24 ações na UFOP, das quais 12 responderam ao formulário.
A publicação traz composição, área do conhecimento, financiamento e unidade de realização, entre outras informações, que permitem um panorama inicial da presença de gêneros e sexualidades nas ações da universidade.
Os dados apontam para a necessidade de consolidação das iniciativas, assim como a urgência de ações em rede. Também mostram locais e grupos ainda não atuantes.
