Início

  • Ariadnes integra primeira edição do Mapa Brasileiro da Educação Midiática

    O Ariadnes, observatório de mídia, gêneros e sexualidades do curso de Jornalismo da UFOP, está presente na primeira edição  do Mapa Brasileiro da Educação Midiática, lançado pelo governo federal no dia 6 de fevereiro. 

    O mapeamento começou em 2024 a partir de uma aliança entre a UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) e a Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom) para localizar iniciativas voltadas à produção de conhecimento sobre educação midiática, desde a Educação Básica até o Ensino Superior.  No mapa, estão localizadas 225 iniciativas espalhadas por todo o Brasil. O Sudeste se destaca com um total de 114 projetos selecionados, sendo a região com o maior número.

    O reconhecimento do Ariadnes no Mapa Brasileiro da Educação Midiática representa a valorização de um trabalho coletivo, baseado em pesquisas, realizado desde 2018 no campus da UFOP em Mariana. Ao ser incluído no mapeamento, o trabalho do observatório é reconhecido e quebra com as barreiras regionais, pois pode ser acessado por pessoas de todo o país, sejam elas comunicadoras ou não.

    Educação Midiática

    A educação midiática é uma ferramenta de formação crítica que atua diretamente na forma como recebemos e consumimos informações. Com a expansão das fake news e dos materiais sintéticos das Inteligências Artificiais Generativas, os meios de comunicação se tornam ainda mais um campo de disputa. Assim, para impedir a desinformação e promover usos comunicacionais éticos e cidadãos, as iniciativas de letramento midiático se consolidam como importantes agentes. 

    Rafaella Aparecida

  • Como começar algo bonito com a certeza do seu fim?

    Iniciaria esse texto de outra forma. Havia rascunhado parágrafos acerca da ideia cristã de benção e também da experiência de desenvolver-se no mundo enquanto criança viada. Mas essa escrita foi brutalmente interrompida pela realidade. Escrevo agora atravessado pela dor das últimas notificações que recebo de amigos e conhecidos. Mais um de nós foi assassinado e dessa vez um rosto conhecido. Longe de ser um fato isolado, o acontecimento reitera um cotidiano em que abrir jornais significa, mais uma vez, encontrar um corpo dissidente abatido de forma cruel. Diante da impossibilidade de engolir o luto acumulado, decidi começar minha reflexão pelo fim, pois Bênçãos, livro de Chukwuebuka Ibeh, é também de alguma forma sobre a morte. Não necessariamente esta morte literal que estampa as manchetes do país que mais mata LGBTs do mundo diariamente, mas a morte lenta de nossa experiência; o apagamento de indivíduos com subjetividades e afetividades que fogem à norma imposta por um sistema cruel e heterocapitalista. A notícia do meu luto é brasileira, mas a que assola o universo ficcional de Ibeh baseia-se no real que atinge a comunidade nigeriana.

    Capa do livro “Bênçãos”, de Chukwuebuka Ibeh: ilustração de um jovem negro usando regata branca, com braços cruzados, corpo coberto por padrão de linhas, sentado diante do mar sob céu azul; selo com citação de Chimamanda Ngozi Adichie e logotipo da editora Tusquets.
    Capa do livro “Bênçãos”, de Chukwuebuka Ibeh. Foto: Divulgação/Tusquets

    Perto de seu capítulo final, o personagem central de Bênçãos, Obiefuna, nos provoca: “como começar algo bonito com a certeza de seu fim?”. A provocação nasce do medo que toma conta dos personagens em um momento-chave do livro, no qual eles discutem como suas vidas serão transformadas. Naquele ponto acompanhamos um Obiefuna, que já está na universidade e em um relacionamento sério com outro homem, e o parlamento nigeriano então aprova uma lei que proíbe pessoas do mesmo sexo se casarem. Aqui, se faz necessário observar o contexto histórico e o momento em que isso ocorre. Essa legislação possui raízes coloniais, nas quais a Inglaterra criminalizava atos “contra a ordem da natureza”. Mesmo após a independência, em 1960, as leis anti-homossexuais foram mantidas e punidas com até 14 anos de prisão. Mas foi em 2013, ano no qual a última parte de Bênçãos se passa, que essa repressão foi endurecida, em resposta direta ao debate gerado nos Estados Unidos que impulsionou o reconhecimento federal das uniões homoafetivas.

    A lei nigeriana sancionada em janeiro de 2014 trouxe uma sistematização de perseguições que incluíam extorsões, violência policial e até apedrejamentos em alguns locais, e a quarta parte do texto de Ibeh é um reflexo direto desse regime que mata e persegue milhares de sexualidades dissidentes na Nigéria. Obiefuna, que passa a infância e adolescência se escondendo, quando finalmente encontra um certo orgulho de si e uma certa capacidade de amar sem tantas amarras, se depara com um país que expulsa e invisibiliza vidas queer. Mas o que Ibeh nos mostra é que, infelizmente, esse apagamento não ocorre apenas na vida adulta por conta do endurecimento de leis e de um clima político conservador que avança cada vez mais. Típico romance de formação, Bençãos acompanha Obiefuna desde o seu desejado nascimento até o início de sua vida adulta.

    De bênção à ameaça

    Ser uma criança viada significa, muitas vezes, se sentir isolado, esquisito, deslocado. A vivência é gestada no silêncio de uma esfera íntima, sem ter em quem se apoiar nem ao menos com quem desabafar. É muito pesado para quem ainda tateia a própria personalidade ser apontado por todos a sua volta que é alguém diferente, mesmo que ele ainda não saiba muito bem o que quer dizer isso. Ao nos depararmos com Obiefuna, percebemos que nossa solidão tem companhia, apesar das distâncias geográficas e culturais. O que torna isso possível é a existência de uma gramática comum do medo e do desejo que aproxima realidades muito diferentes, na qual os códigos dos esconderijos são os mesmos. A dor de não se encaixar no mundo é universal. E é a partir dessa gramática que Ibeh constrói a narrativa do seu livro de estreia. Bênçãos não é exatamente um livro autobiográfico, mas é permeado por experiências vividas pelo autor. Afinal, algumas situações são tão específicas que deixam, na ficção, os rastros inconfundíveis do vivido.

    Criado na classe média de Port Harcourt, Obiefuna logo percebe que o afeto familiar é condicional, ou seja, ele é amado na medida em que performa o que se espera dele. A negociação injusta é velha conhecida de corpos queer. “Não tô gostando muito do jeito que você fala. Fala direito!”. O texto de Ibeh estabelece muito bem essa pedagogia de gênero. Enquanto o protagonista é arrastado pelo irmão para o futebol, onde sua fragilidade física é punida, o espaço onde seu corpo encontra fluidez, na dança, é vetado. O ponto de virada da infância para a adolescência ocorre com a descoberta do desejo. A chegada de Aboy, aprendiz que passa a dividir o quarto com os meninos, oferece a Obiefuna uma chance rara de reconhecimento. Pela primeira vez, ele não se sente só, sente-se visto. Mas os desvios não são tolerados naquela casa, onde um olhar é o suficiente para romper o pacto familiar e sentenciar duas vidas. 

    Obiefuna é confinado em um seminário, abandonado afetivamente pelo pai que não está a fim de lidar com o “problema” que tem em casa e negligenciado pela mãe, que embora possua um arco redentor, escolhe fechar os olhos para toda a violência que se impõe diante do confinamento no internato. A violência que atinge Obiefuna desde a infância opera sob a lógica que Michel Foucault chamou de disciplina, intensificada no período da adolescência. O seminário atua como agente castrador, aquele que não apenas quer punir o corpo desviante, mas também transformá-lo em um corpo dócil. Nesse ponto, a narrativa toma contornos pedagógicos bem explícitos de como alguns indivíduos que são domesticados sobrevivem mais tempo no jogo heterocapitalista. A domesticação do corpo, dos gestos, da fala e dos desejos tem um preço muito alto: a morte da identidade. 

    A rotina exaustiva e a vigilância constante dentro do seminário funcionam como uma pedagogia da dor, na qual revivemos com Obiefuna o medo da descoberta e a lição de que quem decide viver livremente é punido. É uma lógica panóptica de mão dupla: tanto no ambiente externo quanto no movimento de autovigilância. O personagem passa a se policiar, controlando gestos e afetos numa tentativa desesperada de sobrevivência. E isso inclui aceitar humilhações e até mesmo ter sua inocência rasgada por uma pressão externa, numa iniciação sexual marcada pelo abuso de hierarquia. Em uma leitura apressada, logo bradei contra o nosso herói: covarde! Mas não é esse o movimento que sociedade, mídia e cultura nos ensinam a fazer? Para sobreviver é preciso não dar pinta, não rebolar. Não se pode gostar de Sandy e Júnior, não se pode dançar ao som de Rouge, tampouco colocar a mão na cintura. É preciso beijar a garota mesmo sem a mínima vontade, pois a galera do grupo da igreja disse que é preciso perder “o bv”. Será mesmo Obiefuna um covarde ou lhe faltaram referências pedagógicas e de existência para que ele não precisasse se esconder para sobreviver? É difícil olharmos para nossa versão infantil, pois muitas vezes fomos essa criança assustada e covarde que aceita migalhas para simplesmente passarmos despercebidos. 

    Ao longos dos últimos séculos no ocidente, igreja e psicanálise criaram a armadilha perfeita: a obrigatoriedade da confissão. É uma lógica perversa, pois somos incitados a falar sobre nossos desejos ocultos para descobrir a verdade sobre quem somos. O grande problema é que, ao confessar, transformamos um simples ato ou vontade passageira em uma identidade patologizada. Obiefuna não passa por um consultório psicanalítico, mas confessa ao padre. E quantos de nós temos uma história parecida? Vamos nos juntar à religião com o intuito de nos livrar dessa culpa através da confissão, Deus cura tudo, inclusive a homossexualidade. Mas é ali, no ambiente de suposto acolhimento que mais somos patologizados: “viado!”. 

    O desejo de Obiefuna é enquadrado como pecado antes mesmo de ser nomeado ou compreendido pelo próprio garoto. A repressão religiosa não quer que Obiefuna nem nós paremos apenas de sentir e é necessário confessar que nós somos o problema. E esse processo é absurdamente violento quando transforma nosso afeto ainda opaco, difuso, em uma verdade incontestável sobre nós mesmos. Não cometemos um erro, nós somos o erro. A criança que não deu trabalho; a criança que não se encaixou no futebol dos primos, mas encontrou refúgio nas primas; a criança que se refugiou nos estudos. No fim das contas, é tão errado assim brincar de boneca? Volto à provocação de Obiefuna: “como começar algo bonito com a certeza de seu fim?”. Bênçãos nos responde com a dureza da realidade. Olhar para esse espelho e entrar em contato com feridas ainda abertas custa caro. E me pergunto se um dia elas cicatrizarão. Por mais que as pedagogias da dor nos ensinem, elas também nos deixam exauridos. Precisamos imediatamente imaginar outras formas de existência. É preciso celebrar Obiefunas que ousam, que lutam contra a repressão, que recusam o silêncio e a covardia imposta. Que a arte e a vida não nos sirvam apenas para constatar o extermínio de nossas subjetividades, mas para desafiar a lógica do destino trágico. Diante da certeza do fim que o mundo nos promete, que a nossa maior rebeldia seja, justamente, inventar outros finais possíveis.

    Livro: Bênçãos

    Autor: Chukwuebuka Ibeh

    Tradução: Petê Rissatti

    Gênero: romance

    Editora: Tusquets 

    Faixa etária sugerida: 14 anos

    Justificativa: o livro contém cenas de violência moderada, linguagem vulgar e insinuações de atos sexuais.

    Por Flávio Reis

  • Não foi ciúme: violência vicária e o crime de Itumbiara 

    A violência vicária é uma forma de violência doméstica, psicológica e moral e pode impor penalidades ao agressor.

    É comum mulheres se sentirem inseguras ao andar sozinhas por uma rua deserta, especialmente à noite. Por isso, costumamos pensar em formas de tornar o caminho mais seguro: uma roupa mais coberta, menos “feminina” talvez, caminhos seguros, apertar o passo e fechar o rosto. Mesmo que essas medidas não garantam segurança, é algo que faz parte do cotidiano de muitas mulheres. Mas o perigo não é apenas esse, ele mora mais perto. De 144,2 mil casos contabilizados de agressão contra a mulher, 116,8 mil ocorreram na casa das vítimas, o equivalente a 81% do total, segundo dados do Atlas da Violência de 2024, obtidos a partir do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), do Ministério da Saúde. É difícil definir um lugar que seja de segurança. 

    Há algum tempo, notícias sobre agressão contra mulheres e feminicídios vêm emergindo na mídia e têm ganhando cobertura e notoriedade. Essas violências não são atuais,  já existiam antes de sequer serem criadas a Lei Maria da Penha, que trata sobre violência doméstica e familiar, e a Lei do Feminicídio. O que quero reiterar é que, por vezes, imaginamos o perigo em um beco escuro, mas ele pode estar em casa, não vindo de um homem doente ou de um “monstro”, como algo incomum e isolado na nossa sociedade.

    Os crimes contra mulheres por razões de gênero são um problema social que nasce do machismo e da misoginia, da visão de que a mulher é uma propriedade e, por isso, qualquer coisa pode ser feita com seu corpo e sua vida. Por essa razão, essas violências não são atípicas; elas são estruturais e se repetem há muitos séculos. O feminicídio, que é a expressão mais extrema da violência contra a mulher, passa uma mensagem, a de que um homem (porque a maioria dos feminicidas é homem) pode fazer o que quiser com aquela mulher, inclusive, decidir o seu destino, como argumentam as jornalistas Niara de Oliveira e Vanessa Rodrigues no livro História de morte matada contada feito morte morrida.

    Um caso que aconteceu recentemente e ganhou repercussão foi o do secretário de Governo de Itumbiara, em Goiás, Thales Naves Alves Machado, que atirou nos próprios filhos e, depois, tirou a própria vida. Os dois meninos, Benício, de 8 anos, e Miguel, de 12 anos, morreram. Antes de cometer o crime, Thales publicou uma carta em seu perfil no Instagram. No texto, ele indicava uma crise no casamento e uma possível relação extraconjugal da esposa. Ele pediu desculpas, usou várias referências religiosas e afirmou ser “intenso e verdadeiro” e que, por isso, não conseguiria viver com as lembranças que a mulher teria causado.

    Este não é um caso de violência física direta contra a mulher ou uma tentativa de feminicídio, mas esse crime também passa uma mensagem, ligada à misoginia, para a sociedade. Crimes desse tipo são denominados violência vicária, que ocorre quando o agressor utiliza os filhos como instrumento para infligir sofrimento à mulher. Ele não tirou a vida dela, mas a condenou a viver o luto dos filhos e a enfrentar o julgamento social. Ao poupar a mulher e atacar os filhos, o agressor busca uma punição que, na lógica do controle, é pior que a morte: a destruição emocional de quem fica.

    Mais que isso: coloca, claramente, a suposta culpa pelo infanticídio nos atos dela. É possível perceber, por comentários em postagens sobre o caso, que as pessoas também a culpabilizam e, às vezes, até sugerem que quem deveria ter sido assassinada era ela, por “merecer” uma punição por um alegado caso extraconjugal. 

    As capturas de tela a seguir, tiradas da página de fofoca Choquei e da rede social X, antigo Twitter, exemplificam como esses espaços funcionam ao discutir certos temas. A Choquei publica conteúdos de forma exaustiva quando se trata se casos brutais e que estão em evidência no momento, utilizando músicas dramáticas e recursos que apelam ao emocional e não tensionam o fato, nesse caso o assassinato de duas crianças. 

    Com o pretexto de apenas passar a informação, a página publica várias atualizações do caso e mantém nos comentários um espaço que fomenta o julgamento e linchamento moral. A Choquei, em sua conta com milhões de seguidores, foi criada em 2014 por Raphael Sousa Oliveira com o foco em postar notícias e fofocas, apesar de ele não ser jornalista. Com postagens quase em tempo real e explicações de contexto de forma curta, que resumem os fatos – como em um lead ou tweet para que não seja necessário ler uma notícia e sair da rede social –, a página se tornou a fonte de informação de muitos brasileiros. Para prender a atenção, utilizam chamadas sensacionalistas com palavras em caps lock, como “GRAVE”, “ALERTA”, “ATENÇÃO”, “EXCLUSIVO” ou “VEJA”, acompanhadas de emojis de sirene, criando um senso de urgência que prende a atenção e estimula o engajamento rápido.

    Esse método de divulgar informações já gerou consequências irreversíveis, como no caso de Jéssica Vitória Canedo, que cometeu suicídio em 2023 após a página replicar fake news sobre sua vida pessoal. Na ocasião, a Choquei manteve o conteúdo no ar mesmo após alertas de que a notícia era falsa. Recentemente, em 18 de fevereiro de 2026, o perfil oficial da página no Instagram foi desativado, deixando os usuários apenas com a mensagem de “página não disponível”, sem um posicionamento oficial sobre o motivo da queda. No X as postagens continuam normalmente. 

    Nesse caso de Itumbiara, a Choquei explorou detalhes do caso e expôs a vida íntima. Em meio aos posts sobre o crime, havia uma publicação com imagens feitas por detetive particular no momento em que a esposa estava com um homem. Como em postagens anteriores a mulher já estava sendo julgada nos comentários, a página viabiliza as críticas e, além disso, secundariza o assassinato das crianças, tirando-o do foco e ignorando o fato de o crime ter uma razão de gênero. A página ignora a dinâmica da violência vicária e foca nas ações da mulher, seja para tentar conferir uma justificativa para o crime, seja no que ela estava fazendo no momento, como a ida ao velório das crianças. Assim, o debate passa a ser o comportamento da sobrevivente.

    Captura de tela de comentários em publicação da página Choquei, na qual havia imagens da esposa do secretário em um restaurante com um homem. Alguns comentários criticam a postura da página, mas a maioria, seja de homens ou de mulheres, é de julgamento.
    Capturas de tela de interações na rede social X, nas quais usuários reagem à notícia do crime. Os comentários evidenciam a transferência de culpa para a mãe e a afirmação de que ela deveria ter sido a assassinada.
    Há uma polarização no debate, mas a maioria dos comentários fazem juízo moral sobre a mulher.

    Esses comentários expõem como a sociedade ainda interpreta que mulheres devem ser punidas por seus eventuais erros de maneiras brutais e fatais. Uma parcela dos usuários tenta sinalizar a complexidade do crime e a inocência da mãe, mas há uma forte resistência em reconhecer a misoginia como a gênese da violência.

    Há muito tempo é comum, nas narrativas de casos de violência de gênero e de feminicídio, que o jornalismo ou o senso comum legitimem o crime, retirando a responsabilidade da ação do homem e vinculando a brutalidade à emoção. Em 1976, Doca Street assassinou Ângela Diniz e, na época, o argumento central era o de que ela o teria seduzido e provocado ciúmes. Utilizava-se a tese da “legítima defesa da honra” para justificar o crime. Em 2008, Lindemberg Alves sequestrou e assassinou Eloá Pimentel após o término do namoro. Em diversas matérias jornalísticas, o crime era tratado de forma banal e compreensível. Em 2010, Bruno Fernandes foi o mandante do assassinato de Eliza Samudio e, por vezes, foi retratado como um jogador que perdeu o futuro e a carreira por culpa de uma “mulher interesseira”. 

    Esses são casos de feminicídio emblemáticos no Brasil e, em todos eles, foi construída uma narrativa de motivação emocional que teria levado esses homens ao extremo, como se tivessem sido “provocados” por atos de mulheres supostamente imorais: sedutoras, adúlteras, ingratas, interesseiras são os estereótipos que recaem sobre elas.. 

    No caso de Itumbiara, ao se envolver com outra pessoa, a mulher “extrairia” do (ex?)marido o pior, dando, portanto, a ele razão e motivo para agir em resposta a esse desvio; é a partir dessa lógica que se tentam justificar os crimes. Mas é preciso reforçar que a violência doméstica não é uma resposta a um comportamento, mas uma ferramenta de controle. 

    A culpa nunca é da vítima, e a dificuldade em romper ciclos de abuso é acentuada por esse julgamento social que podemos ver nas redes, por exemplo. O machismo e a misoginia não vitimam apenas mulheres. Ao tratar os filhos como extensões de sua posse ou instrumentos de vingança contra a esposa, o agressor demonstrou que essa lógica pode se sobrepor até aos laços de paternidade. Embora a violência vicária não seja tipificada com esse nome específico na Lei Maria da Penha, ela pode impor penalidades ao agressor por se enquadrar como uma forma de violência psicológica e moral.

    Por Ana Luíza Rodrigues

  • Mulheres negras na política: presença e transformação

    Participantes na Marcha das Mulheres Negras 2025. Foto: Ana Luíza Rodrigues

    No dia em que celebramos a conquista do voto feminino no Brasil, relembramos a  2ª Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver, que aconteceu em 25 de novembro de 2025, em Brasília. No mesmo lugar onde aconteceu a primeira Marcha, 10 anos atrás, em 18 de novembro de 2015, mais de 100 mil mulheres marcharam contra o racismo, a violência e pelo bem viver.

    Em 2025, as ruas da capital foram tomadas por milhares de pessoas, não só mulheres negras – mas elas eram maioria, de diversas idades, lugares, orientações sexuais e marchando por múltiplas causas. Apesar da previsão do tempo marcar chuva, o dia foi ensolarado e a programação começou com a marcha, de manhã, e terminou com shows gratuitos de artistas negras no Museu Nacional da República. 

    A marcha teve a participação da intelectual Sueli Carneiro, das deputadas Benedita da Silva, Erika Hilton e Célia Xakriabá e da ministra Anielle Franco, e de mais 300 mil pessoas, segundo estimativa da organização. Entre as bandeiras levantadas, destacava-se uma exigência: a nomeação de uma ministra negra no Supremo Tribunal Federal (STF), um passo para que a política e o Judiciário brasileiros se tornem espaços mais inclusivos e que representem a nossa sociedade, na qual mulheres negras são o maior grupo populacional. 

    Bandeira do Brasil com a inscrição “Ministra Negra Já”, estendida em frente ao Palácio do Congresso Nacional, 2025. Foto: Ana Luíza Rodrigues.

    Nesse cenário, é importante lembrar de Marielle Franco. Seu assassinato, em 2018, tornou-se símbolo da violência política de gênero e raça no Brasil. Na 2º Marcha, Marielle se fez presente como um legado de força e luta.  

    Embora fosse a Marcha das Mulheres Negras, a exigência por Reparação e Bem Viver foi além dessa causa, sendo uma luta de toda a sociedade. As pautas incluíam o fim da violência policial e da brutalidade do Estado nas comunidades, o combate ao feminicídio e à violência contra a mulher e a conquista de direitos para a população LGBTQIA+, crianças, pessoas com deficiência, indígenas e imigrantes.

    Essa mobilização materializa o que Angela Davis afirmou em 2017: “Quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela”. A frase conhecida da escritora, professora, filósofa e ativista socialista estadunidense foi dita por ela em uma conferência na UFBA em 2017, durante uma de suas visitas ao Brasil. A ativista provocou a reflexão de que, pelo fato de as mulheres negras estarem na base da estrutura social capitalista, ao se movimentarem, o que está acima se transforma. 

    Na marcha havia poucos homens, e as mulheres uniram suas vozes para reivindicar direitos para o nosso país, de forma diversa. Por isso, é importante comemorar e relembrar a importância da conquista do voto feminino, mas também focar no futuro: garantir e aumentar a presença de mulheres em cargos de destaque na política, especialmente de mulheres negras. Essa representatividade não significa que elas sempre vão ter o mesmo posicionamento, pois as mulheres são diversas e plurais. O centro da questão é que precisamos ocupar esses espaços que, historicamente, foram destinados a homens brancos. Pedir essa representatividade não é buscar uma mulher “perfeita”, mas garantir que a estrutura deixe de ser um lugar de exclusão.

    Confira alguns registros da Marcha das Mulheres Negras 2025:

    Todas as imagens são de Ana Luíza Rodrigues

    Por Ana Luíza Rodrigues




  • Quem pode ser cientista?

    Celebramos hoje, 11 de fevereiro, o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência. Instituída em 2015 pela Unesco e pela ONU Mulheres para fortalecer a ideia de que igualdade de gênero e ciência andam juntas e para contribuir com o ODS 5, sobre igualdade de gênero, a data costuma incentivar meninas e mulheres na carreira científica, especialmente em áreas com domínio masculino (as STEM – ciência, tecnologia, engenharia e matemática, na sigla em inglês).

    Ainda que a situação nas STEM seja, mesmo, crítica – a média global de pesquisadoras nessas áreas é de 33,3% de mulheres e a de estudantes, 35% – o olhar precisa ser ampliado para toda a área científica. Afinal, as barreiras, visíveis ou invisíveis, estão em todos os campos, até mesmo naqueles onde as mulheres predominam, mas, frequentemente, estão sujeitas ao teto de vidro.

    Um dos modos de ampliar a presença feminina no campo é mostrar que a ciência, historicamente, também é feita por mulheres. Por isso, há algum tempo, tem aumentado a produção e circulação de representações mais inclusivas e paritárias sobre gênero. Mas o que essas publicações dizem sobre quem são as mulheres cientistas e, no fim das contas, sobre ciência?

    Já existe, hoje, uma boa gama de livros dedicados ao tema. Mas vou falar apenas de alguns mais conhecidos. O primeiro deles é Histórias de ninar para garotas rebeldes (Planeta de Livros Brasil), um fenômeno editorial traduzido para o português em 2017 (e já com outros volumes, um deles dedicados só a mulheres brasileiras). Tem até podcast.

    Páginas de livro infantil sobre Marie Curie. De um lado, texto, do outro, ilustração da cientista com vidro de laboratório.
    Marie Curie, onipresente (com justeza) nas coletâneas de mulheres cientistas. Foto: Instagram/Planeta Brasil
    Página de livro sobre Nettie Stevens. De um lado, texto, do outro ilustração da cientista olhando algo em um microscópio.
    Nettie Stevens, pioneira da genética que descobriu os cromossomos sexuais.Foto: Instagram/Planeta Brasil

    O livro traz 100 mulheres notáveis da história, em ordem alfabética, dos mais variados campos: artistas, esportistas, políticas, ativistas, aventureiras e, claro, cientistas. Estão lá Ada Lovelace (matemática), abrindo o livro; estão lá Jane Goodall (primatologia) e Marie Curie (física), e nomes menos canônicos como Sylvia Earle (biologia).

    Entre a centena de mulheres, são 18 cientistas, apenas duas de áreas fora das chamadas ciências duras: Maria Montessori, educadora (que também era médica), e Hipátia, creditada como matemática e filósofa (desconfio que ela entra no livro muito mais pela primeira que pela segunda habilidade). Dessas mulheres, apenas não são da América do Norte ou da Europa Ocidental: Ameenah Gurib (biologia), da República de Maurício, que também foi presidenta do país, e a astrônoma e poeta chinesa Wang Zhenyi.

    A coleção Gente Pequena, Grandes Sonhos, publicada no Brasil pela editora Catapulta, tem até o momento 24 títulos traduzidos (publicada originalmente em espanhol, já são 125 títulos em inglês). A única cientista disponível em português é a física Marie Curie. Pra ser justa, a coleção original tem outros nomes, como Ada Lovelace, Jane Goodall, Maria Montessori e Mae Jeminson (medicina), também presentes em HDNPGR, além de Hedy Lamarr (física), Rosalind Franklin (genética), Sally Ride (física) e Simone de Beauvoir (filosofia). De novo, apenas Beauvoir não vinha das ciências duras. De novo, cientistas do Norte Global.

    Já a Folha de S. Paulo publicou duas coleções. A primeira é Grandes biografias para crianças, com 25 personalidades mundiais, de 2021. Há quatro cientistas no rol: Marie Curie, Margherita Hack (astrofísica), Jane Goodall e Wangari Maathai (sustentabilidade). Das quatro, apenas Maathai não estava presente em HDNPGR; Hack não está em GPGS. E de todas, apenas Goodall não foi ganhadora de um Nobel, mas teve trajetória igualmente notória. Vale notar que Wangari Maathai, primeira mulher africana a receber um Nobel da Paz, era queniana.

    Ilustração da escritora Conceição Evaristo, em traços com cores fortes. É uma mulher negra, cabelos crespos para o alto, de túnica azul, calça verde, em frente a um grande livro aberto.
    Ilustração de Conceição Evaristo na coleção Pensadores para Crianças. Foto: Divulgação/Folha.

    Em 2024, a Folha foi mais direta na coleção Pensadores para Crianças, com 25 “grandes pensadores da humanidade a crianças”, segundo o próprio jornal. bell hooks, Conceição Evaristo, Hannah Arendt, Mary Wollstonecraft, Simone de Beauvoir (inacreditavelmente dividindo um volume com Jean Paul-Sartre!) e Maria Montessori são as 6 mulheres da lista. É uma visão mais aberta, pois se trata de pensadoras da Crítica Cultural, Literatura, Filosofia, Política e Educação. Ainda assim, apenas uma brasileira é considerada pensadora, ou produtora de ciência, nesse rol.

    Há outros volumes dedicados apenas a mulheres cientistas; alguns apenas a mulheres brasileiras. Nessa, há muito mais motivos para sorrir ao encontrar o reconhecimento a brasileiras que fazem ciência. Mas a visão dominante de cientista nos produtos culturais mais vendidos parece ser a de uma mulher branca, cis, do Norte Global, que pesquisa ciências duras. Sem falar que o mérito científico está reservado a mulheres – às meninas resta sonhar e estudar. Precisamos celebrar, sim, o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência. Precisamos incentivar a ocupação da academia brasileira por corpos femininos e romper os tetos de vidro que impedem a chegada das mulheres ao topo da carreira acadêmica – maternidade, misoginia, assédio, transfobia, racismo, capacitismo… Mas precisamos, sempre, questionar também o que as representações culturais nos “vendem” como ciência e quem são as mulheres representadas como cientistas.

    Por Karina Gomes Barbosa

  • Por uma existência visível

    Substantivo feminino, em seu sentido literal, o termo “visibilidade” é o “caráter, condição, atributo do que é ou pode ser visível, ser percebido pelo sentido da vista”, segundo o dicionário Oxford Languages. Figurativamente, é a “condição de ser efetivamente percebido, conhecido”.

    O Dia da Visibilidade Trans pretende trazer a lente de uma outra ideia de visibilidade, para além da forma como os corpos trans são vistos pela sociedade. A visibilidade que a comunidade trans tem não contempla sua existência, mas sim uma visibilidade que violenta e força esses corpos a resistirem todos os dias sob olhares baseados na repulsa e na abjeção.

    Símbolo de resistência e renascimento, borboleta é ilustrada em aquarela durante atividade no Centro de Referência ao Atendimento LGBTQIAPN+ em Ouro Preto (CRA LGBT+). Foto: Gabriel Maciel.

    É a partir da luta pelo reconhecimento da existência T que surge, no dia 29 de janeiro de 2004, com o lançamento da campanha “Travesti e Respeito”, do Ministério da Saúde, o Dia da Visibilidade Trans. A data propõe ao país — que mais mata pessoas trans no mundo — que enxergue esses corpos como dignos de existência, respeito, inclusão e direitos.

    Divulgado pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), o Dossiê Assassinatos e violências contra travestis e transexuais brasileiras em 2025 traz dados que colocam — novamente —, pela 18ª vez, o Brasil como o país que mais mata a comunidade trans. De acordo com a ANTRA, apesar de um recuo de 34% em comparação a 2024, os casos de transfeminicídios apresentam uma subnotificação, dada a não gestão do Estado desses registros. Além disso, a base de dados é dependente da cobertura dos casos, que é, muitas vezes, transfóbica e não considera a identidade da comunidade — quando não completamente ausente.

    A existência desses corpos causa abjeção. De acordo com a pesquisadora Julia Kristeva, o sentido da abjeção “perturba a identidade, o sistema, a ordem”, e essa ordem refere-se à heterossexualidade, à manutenção do cistema. É daí que surge a vontade compulsória de criar uma máquina social que marginaliza e violenta esses corpos.

    No dossiê, a presidenta da ANTRA, Bruna Benevides, apresenta que esse processo acontece a partir de um ciclo de violências e exclusões sociais. No documento, visualizamos uma série de agressões marcadas em diferentes esferas sociais da comunidade LGBTQIAPN+. Diferentes contextos de violências apresentados em 2025 retratam o cenário exposto por Bruna, cujo primeiro ato é a negação da participação trans no convívio público e social.

    A partir da transfobia estrutural, formada pela ideia desse corpo abjeto, é feita a retirada desses corpos do convívio social, marginalizando-os. Somada à negligência do Estado e à violência cotidiana — verbal e física —, temos a sua desumanização e a naturalização das violências. Por fim, nos dossiês, reportagens e demais conteúdos que retratam as mortes da comunidade, aparece o transfeminicídio.

    O cenário contado pelo dossiê não é promissor, apresentando uma projeção de perda de direitos com o aumento do discurso político antitrans, somado a pseudoteorias extremistas e transfóbicas. Outro fenômeno observado é o agrupamento dessas ideologias por entidades que institucionalizam discursos de ódio cis, como evidenciado no material divulgado em 2025 pela ANTRA, que nos mostra um projeto de restringir direitos trans — muitas vezes já reconhecidos.

    A defesa da existência e da visibilidade pelas vidas travestis, com o objetivo de romper o circuito de violências, deve ser estruturada de maneira interseccional, considerando gênero, raça, sexualidade, classe, deficiência e geração. Em casos recentes, como o da atriz Bruna Marquezine, em que suas características latinas foram associadas ao que a sociedade enxerga como a performance de uma pessoa trans e a gatilhos para discursos transfóbicos, percebemos o papel transversal da pauta.

    Outros casos no esporte mostram o papel expansivo e coercitivo com que os padrões da cisgeneridade agem na sociedade. Partindo de uma visão colonial, a transfobia estrutural sufoca outros sujeitos também marginalizados. Nosso papel, enquanto sociedade, é o de estimular movimentos de defesa da resistência desses corpos. Em 2025, um exemplo de força contrária à ideologia antitrans foi a intervenção “Protect the Dolls” (proteja as bonecas, em português).

    Impulsionada por diversas personalidades, a chamada para a ação de “proteger as bonecas” vem da cultura ballroom da década de 1980. Dolls surgiu como um termo cunhado por pessoas transfemininas como afirmação de feminilidade e confiança inabalável. A intervenção nos convida e invoca a travar uma luta coletiva junto ao movimento trans, com o objetivo de romper o circuito transfóbico, compreendendo-o desde a sua base, e afirmar, cada vez mais, a existência desses corpos.

    Por Gabriel Maciel

  • Ariadnes lança mapeamento inédito sobre gêneros e sexualidades na UFOP

    Integrantes do Ariadnes após uma das atividades de formação realizadas pelo projeto, uma das ações de gêneros e sexualidades da UFOP.
    Integrantes do Ariadnes, observatório de mídia, gêneros e sexualidades da UFOP, em uma das formações promovidas pelo projeto. Foto: Divulgação/Ariadnes.

    O Ariadnes – observatório de mídias, gêneros e sexualidades lança a primeira edição do Mapeamento de ações de gêneros e sexualidades na universidade, uma publicação que pretende cartografar as iniciativas nestas temáticas desenvolvidas na Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP).

    O levantamento foi feito em duas etapas: na primeira, nós elencamos os grupos, projetos, coletivos, ações. Depois, convidamos todas as iniciativas a responderem um questionário para conhecermos o perfil de cada uma delas. O Ariadnes encontrou 24 ações na UFOP, das quais 12 responderam ao formulário.

    A publicação traz composição, área do conhecimento, financiamento e unidade de realização, entre outras informações, que permitem um panorama inicial da presença de gêneros e sexualidades nas ações da universidade.

    Os dados apontam para a necessidade de consolidação das iniciativas, assim como a urgência de ações em rede. Também mostram locais e grupos ainda não atuantes.

  • A deturpação do que é o amor em “A Melhor Mãe do Mundo”

    A Melhor Mãe do Mundo é um filme de 2025, dirigido por Anna Muylaert, que retrata a vida de Gal (Shirley Cruz), uma mulher negra, catadora de reciclagem de São Paulo que sai em uma jornada com seus filhos pelas ruas da cidade para fugir do marido Leandro (Seu Jorge). Gal sofre violência doméstica e decide dar um basta na situação e denunciar o marido, mas o filme deixa confuso se a denúncia foi efetivada.

    Gal e Rihanna em um momento de acolhimento mútuo. Foto: Divulgação.

    Segundo os dados do Mapa Nacional da Violência de Gênero, 58.549 mulheres foram vítimas de violência de gênero em São Paulo registrados por boletins de ocorrência, mas a pesquisa afirma que no Brasil mais de 58% das mulheres não procuram uma delegacia após a violência. Segundo a pesquisa Visível E Invisível: A Vitimização De Mulheres No Brasil, realizada em 2023, 65,6% das vítimas de violência contra a mulher eram negras.

    A primeira cena do filme acontece em um ambiente de denúncia e resume muito bem o longa. Gal, muito nervosa, é questionada sobre a razão de estar denunciando a violência que sofreu, o que aconteceu e se é casada no papel com o agressor, coisa que não é. Logo em seguida, ela é questionada sobre por que o homem que está sendo denunciado lhe bateu e responde que foi por causa de bebida, que não é a primeira vez que acontece, já que toda vez que ele está bêbado quer transar e se ela não transa ele bate nela. A protagonista chama o cônjuge de “coitado”, porque já que é mulher dele precisa transar. Ela ainda fala da preocupação com os filhos Rihanna e Benin, que não são de Leandro.

    Gal escolhe fugir da violência. A catadora vai buscar seus filhos na escola, mas avisam para ela que Leandro já buscou as crianças. Desesperada, ela vai até em casa e leva os meninos para uma “aventura”. O percurso de carroça até a casa de uma prima é chamado de aventura durante os três dias, nos quais ela faz o que pode para alimentar e entreter as crianças. Inclusive, pedir dinheiro para um homem que ela acreditava ser de confiança, mas que a assedia e quer trocar dinheiro por sexo, acordo que estava fora de cogitação para a catadora. 

    Depois de muito perrengue, o trio chega à casa da prima de Gal, Valdete. Na casa moram Val, seus dois filhos, Anivaldo, marido de Val, e o pai de Anivaldo. 

    Por lá, Gal não recebe tanto apoio quanto gostaria. Val fala que é algo normal, e dá o exemplo do pai de Gal, que batia na mãe dela. Além das primas já terem visto situações de violência contra a mulher, o filme e as reações de Rihanna levam a entender que os filhos de Gal presenciaram a violência. Eles não são um caso isolado da ficção: segundo o Mapa Nacional da Violência Contra a Mulher, 71% das violências têm testemunhas, e dessas, 71% são crianças.  

    Depois da fuga o agressor encontra a protagonista, pede desculpas e ela aceita, logo em seguida a pede em casamento. Nesse momento parece que o ciclo de violência vai permanecer, assim como na realidade na qual em 18% dos casos de violência doméstica a mulher permanece no relacionamento. O filme retrata uma tentativa de violência de Leandro contra Gal durante um episódio de bebedeira. A mulher ajuda o agressor a tomar banho para melhorar e ele começa a tentar forçá-la a fazer sexo e ela se nega. O surto de agressão física não vem, mas os xingos permanecem, inclusive afirmar que por ser mulher dele essa é a função dela; ele a acusa de sempre pensar mais nas crianças e diz que a filha dela estava começando a ficar mais velha.

    A ficha de Gal cai e ela foge novamente daquela situação, ela rompe o ciclo, ela sente medo de a filha sofrer algo na mão do cônjuge. No final, Rihanna admite à mãe que tinha medo de Leandro e a chama de a melhor mãe do mundo. 

    Durante a história, Gal fala diversas vezes sobre amor, que ela ama Leandro e ele a ama, mas o amor machuca? O amor estupra? O amor humilha? Assim é a forma que Leandro trata sua “esposa”, ele e tantos outros homens brasileiros que acreditam que a mulher é um objeto descartável que precisa sempre satisfazê-los. 

    O longa ainda retrata o silêncio e o apoio masculino de outros homens frente a violências sofridas. O marido de sua prima Val, Anivaldo, é o responsável por levar o agressor até onde a protagonista estava escondida. Ele também aceita o churrasco que Leandro proporciona como uma tentativa de esconder o problema. O acordo secreto masculino de apoiar uns aos outros independente do que aconteça permanece para além da ficção, casos de violência cometida por jogadores de futebol, como Robinho, Daniel Alves e Cristiano Ronaldo são exemplos na esfera geral que são midiatizados, e quantos não são? O silêncio masculino mata mulheres.

    A Melhor Mãe do Mundo é uma obra pautada na realidade, a diferença é que muitas mulheres não conseguem romper o ciclo, muitas vezes por não terem para onde ir, não terem como se sustentar. Apesar da Lei Maria da Penha e da Lei do Feminicídio, que são grandes passos para tentar mitigar a violência contra a mulher, políticas públicas de acolhimento precisam ser incentivadas, às vezes o ciclo de violência continua por dependência financeira e material, às vezes falta um espaço de escuta e acolhimento psicológico.  

    O amor não mata! O amor não agride!

    Caso esteja passando por alguma situação de violência e precisa de ajuda procure uma delegacia especializada de atendimento à mulher na sua cidade ou entre em contato com a Central de Atendimento à Mulher pelo número 180 ou Whatsapp no número (61) 9610-0180.

    Serviço: 

    Título original: A Melhor Mãe do Mundo
    Onde assistir: Netflix
    Gênero: Drama
    Classificação: 14 anos (A14) Nossa classificação: 16 anos (A16)
    Justificativa: O filme contém cena de tentativa de violência sexual.

    Por Ana Beatriz Justino

    *Este texto integra a mobilização do Ariadnes nos 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres entre os dias 25 de novembro, Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres, e o dia 10 de dezembro, Dia Internacional dos Direitos Humanos.

  • “Garotas mortas” como essência da cultura do ódio que nos assassina

    Com título cru e impactante, adentramos na leitura de um tema tão difícil: o feminicídio, que, em suma, é o assassinato de mulheres por razaão de seu gênero. O livro em formato de jornalismo literário relata três casos de feminicídio – sem solução – de jovens: Andrea Danne, de 19 anos; Maria Luísa Quevedo, de 15; e Sarita Mundín, de 20. Elas foram mortas em suas cidades de origem, respectivamente, San José, Presidencia Roque Sáenz Peña e Villa Nueva. 

    Essas histórias são narradas de forma cuidadosa e especialmente tocante, contendo toda a subjetividade dos interiores da Argentina dos anos 80 e das vivências de Selva Almada, de onde origina-se a autora e as vítimas. Além disso, conta com o olhar dela como mulher e também vítima de preconceito.

    A luta pelo direito de ficarmos vivas é coletiva. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

    Os casos investigados no livro assemelham-se mesmo que de longe. Eles são iguais em meio a tantas diferenças pois tratam-se de meninas muito jovens assassinadas única e exclusivamente por serem meninas. Cada um com sua particularidade, como Andrea, que foi encontrada em sua própria cama, sem sinais de maiores violências, senão seu peito repleto de sangue. Ou Maria Luísa, estuprada, estrangulada e deixada em um terreno baldio. E Sarita, que desapareceu sem rastros e nunca houve comprovação real de sua morte, pois não há corpo

    O desenrolar do longo trabalho de Almada resulta na sensibilidade de casos pessoais, viagens de apuração, relatos e imagens difíceis de serem vistas. Ele traça muito bem toda a linha entre a tradição regional da violência contra a mulher – com a presença de outros casos sem resolução e que continuam acontecendo –, a normalização do abuso sexual infantil e feminino como forma de arrecadar dinheiro e a impunidade masculina na crista da onda dessa sociedade. 

    Ambientação dos crimes

     O feminicídio é um crime que se dá como realidade há séculos; ele já foi maquiado como paixão, ciúmes ou crime passional e demorou a ser entendido como uma estrutura de ódio contra nós, mulheres. Muitas Andreas, Maria Luísas, Saritas e tantas outras perderam suas vidas com crimes “episódicos” e também ficaram sem solução. Nesse sentido, o livro relata, por meio de uma escrita pessoal, e diria até mesmo intimista ao compartilhar sua própria jornada, a trajetória de investigação e narração de feminicídios ocorridos na década de 80 na Argentina mas que continuam tão atuais. 

    Selva Almada, escritora argentina e graduada em Literatura, realiza com maestria a função de contar os acontecimentos com um olhar holístico e narrado na perspectiva de gênero e política. Ela elabora os onze capítulos com a tentativa de compreender os casos presente por toda criação, tanto pelas respostas daqueles crimes, sem solução até o momento, quanto da barbárie que a acompanha pessoalmente por toda a sua vida, da violência contra a mulher e a autorização social de tudo isso. 

    Garotas mortas é destroçador, inquietante e belo – no sentido da produção – pois há nele algo que se destaca: o caráter pessoal e representado quase como um diálogo, compartilhando aqueles medos, angústias e o peso de ser mulher na sociedade, seja ela qual for. O interior da Argentina, onde se originam os crimes, mostra-se rapidamente não aquele lugar pacato e harmônico, mas um local onde o abuso de crianças é normalizado por conta da questão financeira e os crimes contras as mulheres não são investigados ou minimamente aprofundados; quem dirá encontram um culpado. 

    Nesse cenário, muito bem descrito, causa-me um incômodo forte ao pensar na infância e vida adulta dessas mulheres, como local constante de incerteza e sem saber se seriam as próximas vítimas de crimes insolucionáveis. E, pior, torná-los episódicos, no sentido de não traçar um modelo estrutural, uma questão muito maior do que somente uma vida perdida, mas o feminicídio como crime quase que inerente àquela sociedade adoecida. Na contramão de tudo isso, Garotas mortas nos traz o desconforto da configuração do mundo, com palavras sensíveis e com prática jornalística capaz de escutar o lado das vítimas com atenção, afinal, como ser neutra em relação à brutalidade?

    A postura questionadora feminista adotada aqui integra e humaniza as mulheres de forma fundamental, ainda mais porque elas são colocadas em local de vulnerabilidade e fragilidade emocional, financeira e social, mostrando sua realidade e atenta às pautas mais profundas de cada uma. A autora busca inserir o feminicídio em um contexto de violência estrutural contra mulheres e, ao mesmo tempo, realiza a tarefa de dar dignidade a essas vidas individualmente.

    Almada busca por respostas por meio de uma vidente, a “Senhora” – na tentativa de contato com as meninas – e por meio de familiares e amigos, mas nunca em tom de culpabilização delas, como fizeram outros veículos na época. Ao relatar, em meio ao processo de redemocratização da Argentina, com perspectiva de gênero, a escritora lidou com reportagens escritas de formas distorcidas e, muitas vezes, em entonação de fofoca com intuito de gerar movimento nas pequenas cidades. 

    Essas abordagens são comuns na mídia, colocando a violência misógina como um acontecimento desconexo em relação ao todo e situada no noticiário policial como “mais um crime brutal” e só. No entanto, o ódio contra o feminino enraizado e realimentado todos os dias é razão suficiente para não só ir adiante com as investigações, mas também para colocar como linha do tempo todas essas garotas mortas unidas e ligadas. 

    A perspectiva de gênero, adotada pela escritora argentina, faz exatamente esse movimento de não só escutar outras mulheres com responsabilidade e vontade de entender aqueles homicídios sem respostas, mas ver semelhança entre eles e conseguir colocá-los como um problema inteiro e não só das cidades de San José, Presidencia Roque Sáenz Peña ou Villa Nueva. 

    Ao contrário do jornalismo policialesco, Garotas mortas não quer encontrar um culpado para dar fim à história de horrores e sim deseja problematizar a norma social – vista como tradição – do feminicídio como prática simplesmente impune e aceita. No vai e volta das páginas é possível se perder entre as três garotas principais e os outros tantos casos expostos, mas a ideia inicial está presente: a banalização da violação dos direitos básicos das mulheres não pode mais acontecer. Não há possibilidade de normalizar a barbárie e isso Selva Almada expõe muito claramente. 

    O livro destoa das notícias clássicas da época e situa muito bem qual é o contexto, são assassinatos em razão de gênero. Materializando-se como manual de sensibilidade e ética jornalística no contato com fontes, nas escutas respeitosas e informadas, e sem dúvida, da humanização dessas meninas, que mesmo separadas por décadas do contexto da escrita, puderam ter suas subjetividades respeitadas e obedecidas. 

    Almada nos dá caminhos possíveis para mudança

    Soa repetitivo mas é preciso gritar tantas outras vezes e continuar gritando por Andrea, Maria Luísa, Sarita e todas aquelas que continuam sendo mortas novamente, pois como a autora relata: estar vivA é apenas uma questão de sorte. Não é sobre a “personalidade forte”, estar no lugar errado, vestindo roupas “indevidas” ou qualquer outras justificativa idiota para os feminicídios ao redor do mundo. 

    Todas nós temos relatos infelizes, doloridos e indesejáveis a qualquer mulher, mas ao captar e noticiar com outros olhares, mais humanizados e éticos, pode ser que alguma trajetória seja alterada. O jornalismo com perspectiva de gênero de Selva Almada retrata toda essa angústia de tanto tempo, mas que mesmo assim, não caiu no esquecimento. Há sim uma hora de deixar ir e descansar das vítimas, como nas últimas páginas a autora se despede das meninas por intermédio da “Senhora”, mas ela não é o ponto final da estrutura montada no livro. 

    Ele excede, explode e extrapola a si mesmo em diversos âmbitos, deixando a memória respeitosa e o legado dessa estrutura que urge mudança. Os sinônimos acima representam também esse ímpeto de incômodo pressionando o peito a todo momento, por mais que não haja conclusão certeira, Garotas mortas me traz, como mulher e jornalista, a força de vontade de fazer diferente. 

    Serviço:
    Título original: Raparigas mortas 
    Gênero: jornalismo literário; casos reais; crime.
    Editora: Todavia (tradução de Sérgio Molina)
    Nossa classificação: 18 anos (A18)
    Justificativa: O livro trata de temas sensíveis como feminicídio, estupro e outras violências contra as mulheres.

    *Este texto integra a mobilização do Ariadnes nos 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres entre os dias 25 de novembro, Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres, e o dia 10 de dezembro, Dia Internacional dos Direitos Humanos.

    Por Lia Junqueira

  • “Tudo é Rio”: um retrato da realidade brasileira

    No livro Tudo é Rio, lançado em 2014 e relançado em 2021 pelo Grupo Editorial Record, conhecemos a história de Lucy, uma prostituta, e do casal Dalva e Venâncio. O romance ficcional foi escrito pela autora brasileira Carla Madeira, e aborda temas como agressão física, machismo e violência moral e, a partir disso, tece a conexão entre os protagonistas.

    Capa de Tudo é Rio, livro brasileiro best-seller de vendas. Foto: Divulgação

    A trama conta o início, meio, fim e recomeço da história de amor entre Dalva e Venâncio, um casal apaixonado. Desde o início do relacionamento, Venâncio demonstrava ser uma pessoa bastante ciumenta; em uma das passagens, a mãe de Dalva, Aurora, relata enxergar no genro sinais preocupantes do controle e atenção extrema com sua filha.

    “[…] Venâncio sofria de ciúme. Não era um ciúme comum, daqueles que provocam cenas inflamadas, caras emburradas, atitudes intempestivas ou retiradas dramáticas. Era um ciúme calado, profundo, triste. Nas noites em que a casa se enchia de amigos dos irmãos de Dalva, Venâncio ficava sem lugar; vigiava os olhares o tempo inteiro. Não tinha sossego. Procurava a certeza de que tinha razão. Era como se tentasse se preparar para o pior ganhando em troca o consolo de não ser pego de surpresa: eu sabia, eu disse que ia acontecer” – Trecho de Tudo é Rio

    Os sinais percebidos pela sogra logo se provaram reais, sendo o estopim um resultado da possessividade de Venâncio. Após alguns anos casados, Dalva engravidou: era um menino, Vicente. A mulher esperava ansiosamente a chegada de seu filho, preparando tudo que era necessário para recebê-lo; em contrapartida, o homem sentia ciúmes. Acreditava fielmente que “naquela barriga crescia um ladrão que ia roubar para sempre a mulher da sua vida”.

    “A boca do neném buscava o peito farto e úmido querendo sugar, engolir e ainda tão sem saber. O mamilo se dobrava passando na boquinha pequena, querendo ser pego por ela. Dalva se entregava a uma emoção única, da mais comovente ternura. O momento dela e do filho cegou Venâncio de uma absurda loucura. Ele arrancou o menino dos braços dela e jogou longe, bateu em Dalva, bateu, bateu. Espancou” – Trecho de Tudo é Rio

    Venâncio se sente culpado e, com seu filho praticamente morto em seus braços, o leva para uma grande amiga de Dalva e implora para que ela enterre seu filho. Após anos, o casal continua convivendo na mesma casa, mas totalmente sem contato: o amor que havia entre eles tinha acabado, os dois como fantasmas que se arrastam tristes pela cidade. Dalva, impactada pela violência do marido contra ela e seu filho, começa a sair pelas manhãs e retorna no fim da tarde: sai em silêncio e volta da mesma maneira.

    O marido todos os dias se martiriza por suas ações, culpando seu pai por tê-lo criado daquela forma, levando-o às suas ações agressivas e seu ciúmes doentio. Buscando esquecer sua vida, começa a frequentar a Casa de Manu, um prostíbulo da cidade. Nesse momento, seu caminho cruza com Lucy, a puta (como gosta de ser chamada) mais requisitada do local. Apesar de seus apelos, Venâncio não deseja seus serviços e a recusa; a partir disso, ela começa a atormentar a vida de Dalva, que passa todos os dias por ali.

    Após desavenças, Lucy finalmente consegue seduzir Venâncio e, com essa relação, acaba engravidando. Ao procurá-lo em sua casa, é recebida por ele de forma agressiva que, revoltado com a gravidez, a ameaça de morte. Naquele momento, Dalva aparece e sai em defesa da amante, da mulher que carregava agora o filho de seu marido. Depois da discussão, os três não possuem mais contato até que, 9 meses depois, Lucy deixa na porta da casa do casal o menino João, que acabara de nascer. Ali, Dalva viu a oportunidade de ser a mãe que tanto desejava poder ter sido.

    O bebê ficava em um quarto, escondido do marido. Após algum tempo, Venâncio descobriu a presença da criança e, ao observar sua esposa com ele, decidiu que tentaria reconquistá-la: comprou presentes para o menino, o ninou e construiu um berço de madeira, deixado nos aposentos de Dalva. Ao observar os cuidados dele com o neném, a mulher decidiu que era a hora de revelar o segredo que guardava, o motivo de suas saídas diárias: iria buscar Vicente, seu primogênito, que sobrevivera à violência do pai. Ela decide que podem recomeçar e serem uma família novamente.

    Assim como Dalva, diversas mulheres no Brasil são vítimas de violência praticada pelos seus parceiros. De acordo com a pesquisa “Visível e Invisível: a Vitimização de Mulheres no Brasil”, realizada pela Datafolha e publicada em 2025, 40,7% das mulheres com 16 anos ou mais já sofreram algum tipo de violência pelos parceiros ou ex -namorados. Em 57% dos casos, as agressões ocorreram dentro de casa.

    Dados como esses são importantes para compreendermos a realidade brasileira. De maneira similar à protagonista de Tudo é Rio, muitas das vítimas escolhem não denunciar: de acordo com a pesquisa, somente 25,7% procuraram ajuda de órgão oficiais. Das que não buscaram ajuda, 14% não acreditavam que a polícia pudesse oferecer solução, enquanto 13,9% tinham medo das represálias. Mulheres como Dalva não estão e não ficarão sozinhas – Se você passa por alguma violência e necessita de ajuda, entre em contato com a Central de Atendimento à Mulher pelo Disque 180 ou Whatsapp no número (61) 9610-0180.

    Infográfico produzido a partir dos resultados da 5ª edição da pesquisa. Reprodução: Fórum Brasileiro de Segurança Pública

    Título original: Tudo é Rio

    Gênero: Ficção

    Recomendação de leitura: 16 anos (A16)

    Justificativa: A obra contém cenas de violência doméstica e violência psicológica, podendo causar gatilhos

    Por: Maria Vital

    *Este texto integra a mobilização do Ariadnes nos 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres que começaram 25 de novembro, Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra as Mulheres, e vão até o dia 10 de dezembro, Dia Internacional dos Direitos Humanos.