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  • Miradas da infância

    Cartaz apresenta a frase Miradas da infância em letra de criança. Embaixo, personagens de desenho animado em negativo, com as logos do projeto na parte inferior.
    Cartaz da mostra. Arte: Bento Vital.
    Cartaz em vermelho, com bordas em amarelo e azul, contendo a programação de filmes da mostra. Na parte inferior, personagens infantis em negativo.
    Programação completa.

    Olhar para as infâncias e pensar como elas mesmas imaginam o mundo. Essa é a proposta de Miradas da infância, mostra cinematográfica do projeto Ariadnes, que vai exibir longas-metragens protagonizados por meninos, meninas e menines e que apresentam perspectivas infantis sobre o mundo, ainda que esses filmes sejam dirigidos por adultas e adultos. Essas miradas se cruzam com questões sobre gênero, raça, sexualidade, etnia, região: quem são as crianças que o cinema nos mostra? Quais são e como são as infâncias pensadas ou lembradas pelos olhares adultos?

    Programação

    08/5: A princesinha
    A little princess, Alfonso Cuarón, 1995
    Adaptado do romance de Frances H. Burnett, o filme narra a história de uma órfã exposta a abusos em um internato de Nova York no início do século XX, após a morte de seu pai na Índia.

    15/5: Onde fica a casa do meu amigo
    Khane-ye doust kodjast? , Abbas Kiarostami, 1987
    Mistura entre ficção e documentário, o filme conta a história de Ahmed, que pega por engano o caderno de seu amigo e precisa devolvê-lo para evitar que o menino seja punido na escola, caso não leve o dever de casa.

    22/5: Meu pé de laranja lima
    Meu Pé de Laranja Lima, Marcos Bernstein, 2012
    Diante de uma realidade dura e da falta de afeto, o pequeno Zezé usa a imaginação para transformar um pé de laranja lima em seu refúgio e confidente. Entre travessuras e descobertas, ele encontra na amizade improvável com o “Portuga” o verdadeiro significado de ser amado. Baseado no clássico de José Mauro de Vasconcellos, o filme é um retrato poético e visceral sobre a infância e o momento em que a fantasia de ser criança dá lugar ao amadurecimento. Uma experiência obrigatória e emocionante que abraça qualquer um que assiste.

    29/5: O túmulo dos vagalumes
    Hotaru no haka, Isao Takahata (Studio Ghibli), 1988
    A animação percorre os desafios vividos por Seita, um adolescente de 14 anos e sua irmã Setsuko, de quatro anos, que depois de perderem seus pais precisam encontrar meios de sobreviver no Japão pós Segunda Guerra Mundial.

    12/6: Conta comigo
    Stand by me, Rob Reiner, 1986
    “Conta Comigo” é uma adaptação da novela “O Corpo” de Stephen King. O filme conta a história de quatro garotos que, ao descobrirem o desaparecimento de um menino em sua cidade natal, a fictícia Castle Rock, decidem ir à procura de seu paradeiro. Durante a busca, os amigos acabam vivendo uma aventura repleta de desafios e reflexões.”

    19/6: Close
    Close, Lukas Dhont, 2022
    Close é um drama belga que retrata a história de dois amigos inseparáveis, Léo e Rémi, de 13 anos, que veem sua relação mudar devido à pressão social. Sensível e impactante, o longa-metragem acompanha as consequências desse rompimento, abordando, desde cedo, temas como masculinidade tóxica, amizade e perda.

    26/6: Marte Um
    Marte Um, Gabriel Martins, 2022
    A partir das tensões políticas que se estabelecem no país após a eleição de um presidente de extrema-direita, Marte Um (2022) traz a história dos Martins, uma família negra de classe média-baixa que vive na periferia de Contagem, região metropolitana de Belo Horizonte. Sob um olhar sensível, a obra tece, a partir do acompanhamento de um cotidiano simples, múltiplas histórias que evidenciam a esperança frente a uma desigualdade social que sufoca sonhos.

    3/7: Lindinhas
    Mignonnes, Maïmouna Doucouré, 2020
    No longa acompanhamos Amy, uma menina de 11 anos de origem senegalesa que vive em Paris. Dividida entre dois mundos contrastantes — os valores tradicionais de sua família e a cultura influenciada pela internet —, ela se aproxima de um grupo de dança local, passando a explorar questões relacionadas à sua identidade, à descoberta da sexualidade e à hipersexualização infantil frequentemente presente nas redes sociais.

    • As sessões são gratuitas e acontecem sempre às 9h, na sala 207 do ICSA;
    • Todas as sessões serão seguidas de uma conversa;
    • Haverá emissão de certificados para quem comparecer a 75% das sessões.

  • Mães na telenovela: corações fora do peito

    Imagem em plano aberto mostra três mulheres na praia. A da esquerda tem a pele negra, está sentada em uma canga listrada, com o rosto em perfil. Usa biquini e boné azuis. Ao centro uma mulher branca sentada na cadeira de praia sob um guarda sol vermelho. Ela está de biquini claro, com camisa por cima, chapéu e óculos escuros. À direita, uma mulher negra de blusa de proteção térmica salmão, com viseira rosa. Ela está agachada na areia e segura várias sacolas estampadas.
    Fátima (esquerda) finge não conhecer a mãe, Raquel (direita) em Vale Tudo. Globo/Fábio Rocha

    É sempre um período difícil quando a maior emissora de TV aberta do país, a Rede Globo, coloca no ar três novelas boas: de verdade, bagunça o dia da gente inteiro, porque é complicado perder muitos capítulos. É o que acontece agora com Garota do Momento, Dona de Mim e Vale Tudo, respectivamente às 18h, 19h e 21h.

    (É fato que a trama das seis passa por um momento ruim, claramente tentando esticar sua história – vai ser a novela do horário com o maior número de capítulos em duas décadas).

    Além do sucesso, que demonstra a força e relevância desse produto na cultura nacional, as três telenovelas têm uma coisa em comum nas engrenagens centrais que as movem: as relações entre mães e filhas. A maternidade é uma das matrizes do melodrama – que, por sua vez, é uma das fontes em que o audiovisual brasileiro bebe.

    São maternidades distintas, dada a riqueza da novela nacional, mas ainda assim maternidades bastantes calcadas nos ideais burgueses, capitalistas e, por certo, machistas da Mãe – ou do que Marcela Lagarde vai chamar de mãesposa: uma mulher que faz tudo, tudo, tudo mesmo pelos filhos, porque o amor de uma mãe pelos filhos é natural, incondicional e supera qualquer outro afeto.

    Raquel e Odete, as duas figuras femininas centrais de Vale Tudo, demonstram bem esse modelo idealizado: Raquel aceita de bom grado o papel trouxa que a filha, a vilãzinha Maria de Fátima, continuamente lhe oferece. A pobre já foi até renegada pela filha. Ética (já entrei num debate com uma amiga se kantiana ou aristotélica…) até a raiz dos fios dos belos cabelos de Taís Araújo, Raquel é alvo fácil para o utilitarismo de Fatinha.

    Esse senso ético é próximo à maternidade de Odete Roitman: ela faz de tudo para ver os filhos felizes. Os problemas são que 1) faz tudo com os outros e 2) a felicidade dos filhos é a que ela projeta. Ou seja, Odete não liga muito para os sentimentos das pessoas. Mãe ausente, ainda assim se sente no direito de ditar a vida dos filhos infantilizados e no dever de colocá-los no que ela acredita ser o eixo. Tanto é que desistiu de ir embora do Brasil para arrumar a situação de Heleninha e Afonso. Não podemos esquecer: Odete é uma vilã paradigmática da telenovela brasileira, então ainda vamos conhecer mais efeitos traumáticos dela sobre os filhos ao longo da trama.

    Cena dramática entre duas mulheres, uma de frente e a outra de costas, em um ambiente interno, discutindo com expressões emocionais intensas, simbolizando conflitos pessoais entre amizades ou familiares.
    Em Garota do Momento, Clarice (direita) faz a filha Beatriz (esquerda) triste para deixar a outra, vilã, feliz. Reprodução/Globo

    Em Garota do Momento, a maternidade transformou Clarice de uma das personagens preferidas da novela a alvo de ranço. Por ser a mãe da jovem vilã Bia, a quem criou a vida toda, ela sujeita a filha Beatriz, de quem havia perdido a memória por boa parte da trama, aos piores martírios. Clarice consegue assim, a proeza de ser Raquel e Odete ao mesmo tempo: ama demais as filhas e magoa demais uma delas, para fazer a outra feliz.

    Uma mulher negra abraça no colo uma menina negra, com alegria em um ambiente familiar. As duas se olham, e a menina tem a mão no rosto da mulher.
    Leona, uma mãe sem filha, encontra Sofia em Dona de Mim. Divulgação/Globo

    Dona de Mim traz a abordagem mais original para a questão, ainda que esteja assentada nas mesmas premissas da maternidade como destino. A novela apresenta uma mãe sem filha, Leona, que conhece Sofia, uma filha sem mãe. É desse encontro que floresce a maternidade de Leona, que nunca superou a perda da bebê que gestava, Sophya. O luto materno descarrilhou a vida da moça até ela se tornar babá de Sofia, que nunca conheceu a mãe.

    Raquel, Leona, Clarice e até mesmo Odete, de seu jeitinho deturpado, nunca negaram a maternidade, problematizaram-na, se arrependeram dela. Trata-se, em todas, de um traço inescapável e natural das personalidades de heroínas e vilãs, o que mostra a dificuldade do principal artefato audiovisual brasileiro em escapar dos modelos patriarcais disponíveis às mulheres.

    O modelo da maternidade é tão forte que engolfa outros temas sobre direitos reprodutivos nas novelas. Prova disso é o recente cancelamento do argumento desenvolvido por Glória Perez para as 21h. Rosa dos Ventos teria um aborto como ponto de partida. Parte do tabu da discussão sobre aborto no país tem a ver com o fato de que a maternidade seria algo inerente à mulher, e todas nós obviamente queremos ser mães, amamos ser mães. Se ser mãe é ter, como diz a canção, corações fora do peito, o aborto vira quase um autoextermínio… O tema é pouquíssimo tematizado na telenovela, que deixa de ser, nessas horas, o que tanto diz se orgulhar: ser um espelho da sociedade brasileira.

    Por Karina Gomes Barbosa

  • O impacto das redes sociais na “Adolescência”

    Imagem de divulgação da Netflix. Respectivamente: Eddie Miller, Jamie Miller e Detetive Inspetor Luke Bascombe

    Ser adolescente e estar no meio termo de não ser mais uma criança mas também não ser ainda uma pessoa adulta é muito difícil, como todo momento de transição. O corpo e a mente passam por transformações e passar por esse processo sem apoio e acompanhamento de adultos pode ser perigoso, principalmente se a internet for o único lugar que dê a sensação de segurança e identificação. Assim, uma criança ou adolescente pode ter contato com discursos de ódio e conteúdos violentos ou até mesmo entrar em um grupo com adultos e outros adolescentes que reforçam ideologias extremistas, como a misoginia e a comunidade incel. É isso que vem acontecendo cada vez mais

    O que é incel? O termo em inglês é a junção das palavras Celibato Involuntário, Involuntary Celibate no original. É usado para se referir a homens heterossexuais frustrados sexualmente que responsabilizam as mulheres por essas frustrações. Na internet, atualmente a palavra incel aparece em muitas discussões acerca de violência e misoginia. Ela foi criada por uma mulher chamada Alana na década de 1990, quando desenvolveu o “Projeto de Celibato Involuntário” para discutir, com outros internautas, sentimentos de timidez e dificuldades sociais. Inicialmente, o termo descrevia pessoas que, independentemente do gênero, tinham dificuldades em estabelecer relacionamentos românticos. Com o tempo, sua definição mudou e passou a ser associada a comunidades predominantemente masculinas, muitas vezes ligadas à misoginia e discursos de ódio.

    Outros conteúdos de misoginia promovidos pela machosfera vêm do movimento Red Pill. O nome, que significa “pílula vermelha” em inglês, surgiu no filme Matrix (1999), simbolizando o despertar para uma suposta realidade oculta. A partir da década de 2010, o conceito foi apropriado por comunidades virtuais, passando a representar ideias ligadas à masculinidade, críticas a valores progressistas e comportamentos sociais. No contexto atual, red pill é entendido como um movimento – ou conjunto de ideias – que se define como “realista” quanto às relações de gênero, embora reproduza visões misóginas e conservadoras.

    Em março de 2025, a minissérie britânica da Netflix Adolescência trouxe toda essa temática à tona e gerou grande repercussão na internet. Na trama, Owen Cooper estreia brilhantemente como Jamie Miller, um adolescente de 13 anos que, logo nas primeiras cenas, é preso por assassinar uma colega de escola. Sua atuação impressiona pela intensidade, complexidade e camadas emocionais do personagem. Outro aspecto que chamou a atenção é a escolha da direção: os quatro episódios são filmados em plano-sequência, sem cortes, o que amplifica a tensão e o realismo da narrativa. Inspirada em casos reais ocorridos na Inglaterra – como revelou Stephen Graham, ator e co-criador da série –, a obra mergulha em uma realidade perturbadora, conduzida por atuações marcantes e uma estética que envolve o espectador do início ao fim.

    Como dito, um adolescente matou uma colega. As informações de que Jamie assassinou Katie com várias facadas em um estacionamento de supermercado não são um spoiler. A série não é um suspense policial investigativo, mas sim um drama psicológico que chega a parecer documental e, no fim, deixa um gosto de desesperança. As motivações do crime envolvem a influência de discursos de ódio em fóruns online além do cyberbullying praticado por Kate contra o protagonista – ela mesma, uma vítima de divulgação de imagens íntimas sem consentimento. É ficção, mas retrata uma realidade tão próxima que muitas vezes não conseguimos enxergar. Ao longo da série, a pergunta que move a narrativa é: “Por que esse menino fez isso?”.  E, no final, não há uma resposta única ou definitiva, pois trata-se de um conjunto de fatores que, em certos contextos, podem levar ao extremo.

    Plataformas digitais

    É basicamente impossível usar a internet hoje em dia sem estar presente em alguma plataforma digital, especialmente nas voltadas para interação social. Por isso, a produção da Netflix não apenas retrata o impacto da ausência de orientação e diálogo familiar, mas também levanta questionamentos sobre a responsabilidade das plataformas digitais e da sociedade na formação dos jovens.

    Algum tempo antes da estreia da série, vi sendo bastante compartilhado no meu Instagram um post cuja imagem de capa trazia a frase: “Se você fosse um menino de 13 anos sem supervisão na internet, provavelmente você cresceria misógino”. Abaixo, em letras menores, lia-se: “Como educar homens que não odeiam mulheres?”. O conteúdo foi produzido pelo perfil Contente.vc, um veículo de comunicação que se baseia em dados e produz conteúdo autoral e investigativo, promovendo debates sobre temas contemporâneos em diálogo com a comunidade.

    No carrossel, o perfil simula a timeline (For You) de um adolescente de 16 anos no TikTok. Mesmo após selecionar preferências aparentemente neutras, como estilo de vida, esportes e conteúdo motivacional, não demorou para que o algoritmo começasse a recomendar vídeos com piadas sobre feminicídio e discursos de ódio contra mulheres. Isso tudo sem que o perfil seguisse nenhuma conta.

    A postagem foi republicada após o sucesso da série Adolescência e, no post, o Contente.vc explica como esses conteúdos chegam até os adolescentes e como conseguem recrutá-los. A pergunta final é direta e incômoda: você, que convive com adolescentes, tem percebido a guinada desses conteúdos rumo a discursos de ódio?

    Com certeza misoginia na adolescência não é uma novidade que “nasceu agora” com o boom das redes sociais; meninos são alvos frequentes dessa ideologia historicamente, mas com certeza o fácil acesso de muitos conteúdos na internet agravam este problema. 

    Quem nunca colocou outra data de nascimento para conseguir criar uma conta em uma rede social? Atualmente, tenho 23 anos, mas, há pouco mais de 10 anos, quando ganhei um computador, queria uma conta no Facebook para participar das interações sociais à minha volta. O problema é que eu não tinha idade para isso, a maioria das plataformas define a idade mínima de uso em 13 anos. Mas isso nunca impediu ninguém de entrar: basta alterar alguns anos no calendário e o acesso está liberado. E é aí que começa o perigo. Embora seja proibido, não há nenhum tipo de verificação real da idade do usuário. Dessa forma, 60% das crianças que usam internet no Brasil têm conta em alguma rede social, segundo a Pesquisa Tic Kids Online Brasil 2024

    No episódio “Precisamos falar sobre ‘Adolescência’”, do podcast Café da Manhã, parceria da Folha de S.Paulo com o Spotify, há uma entrevista muito boa com a juíza da Vara da Infância e Juventude do Rio de Janeiro, Vanessa Cavalieri. Nela, a juíza mostra que o problema também está no Brasil. 

    Vanessa também cita o exemplo de que, por lei, uma criança não pode comprar bebida alcoólica em um bar apenas dizendo que tem mais de 18 anos, mas na Internet, basta digitar isso para ter acesso a conteúdos impróprios, o que escancara a fragilidade dos mecanismos de controle nas plataformas digitais.

    Ao entrar nas redes sociais, abre-se um mundo de conteúdos diferentes para acompanhar, isso para uma criança ou adolescente sem supervisão é uma bomba que pode explodir a qualquer momento. Seja por cyberbullying, por conteúdos machistas e misóginos disfarçados de piada que naturalizam violência contra mulheres, pelo contato com influenciadores que compartilham discurso de ódio (adultos ou adolescentes) ou a fóruns com essa temática. Outro problema é o acesso à pornografia, que pode criar percepções erradas  sobre sexualidade e consentimento. 

    Enfim, a falta de regulação das plataformas digitais tem uma grande responsabilidade na crescente onda de adolescentes violentos. O algoritmo promove violência e entrega conteúdo nocivo sem nenhuma supervisão ou legislação, além da ausência de um programa de filtragem para as idades, grande problema a ser enfrentado. 

    Pais, sociedade e o abismo geracional 

    Como dito, misoginia e machismo na adolescência de meninos não são fenômenos recentes. Muitas vezes, tudo começa dentro de casa, quando eles são repreendidos por chorar ou por expressar atitudes associadas à performance do gênero feminino, como demonstrar sentimentos, fragilidade ou sensibilidade. No livro A Vontade de Mudar: Homens, Masculinidade e Amor, bell hooks escreve que “o primeiro ato de violência que o patriarcado exige dos homens não é contra as mulheres, mas contra si mesmos”, ao serem forçados a mutilar emocionalmente partes de sua identidade. A autora aponta que, caso essa repressão não seja bem-sucedida, os próprios homens patriarcais reforçarão essa violência emocional por meio de rituais de poder, atacando a autoestima daqueles que não se encaixam. Esse ciclo alimenta uma masculinidade frágil, que encontra nas redes um terreno fértil para a propagação de ideologias misóginas, justamente por oferecer uma falsa sensação de pertencimento e poder.

    É em casa também que a falta de supervisão nas redes permite que adolescentes tenham acesso liberado aos discursos de ódio. No último episódio da série, em uma conversa triste entre o pai e a mãe de Jamie, ela diz que acreditava que o filho estava seguro no quarto mexendo no computador; às vezes ele ficava até tarde da noite, ela via a luz acesa e batia na porta para ele desligar, sem nunca ter a curiosidade de saber o que estava acontecendo. A juíza Vanessa  também diz no podcast que “a internet é a rua”, onde os pais, ou responsáveis, não costumam deixar seus filhos sozinhos à noite ou conversando com algum estranho mais velho. Mas, por que na internet eles têm total liberdade? É importante dizer que checar e monitorar os celulares e as redes sociais dos filhos não é invasão de privacidade, é um meio de proteção e prevenção. 

    Para finalizar, outro aspecto chocante trazido na série é o enorme gap comunicacional entre pais e filhos. Os adolescentes não se sentem à vontade para se abrir ou pedir ajuda em casa, por isso acabam buscando conforto nas redes sociais, ambientes que, muitas vezes, acolhem suas angústias com discursos de ódio. É nesse contexto que muitos meninos entram em fóruns machistas, principalmente no Discord e no X (antigo Twitter), onde encontram validação para suas frustrações e começam a direcioná-las contra as mulheres. Assim, eles não conseguem acompanhar os avanços sociais e de direitos conquistados pelas mulheres e, ao se sentirem perdidos ou deixados para trás, tornam-se alvos fáceis de influenciadores de extrema direita. Estudos apontam que, apesar dos avanços para as mulheres nas últimas décadas, os meninos vêm enfrentando retrocessos significativos em áreas como educação, empregabilidade e saúde emocional, um cenário ainda mais crítico entre os jovens pobres. Sem referências positivas de masculinidade e sem espaço para diálogo, o caminho até a radicalização se torna cada vez mais curto.

    Outro exemplo dessa lacuna comunicacional e geracional é a comunicação dos adolescentes na internet. Eu, com meus vinte e poucos anos, passo boa parte do meu dia nas redes sociais e sei sobre vários memes e gírias, mas não entendi nada e nunca tinha tido contato com a comunicação por emojis, mostrada no segundo episódio da série. Depois disso, fiquei pensando: e os pais dessas crianças? Se eu, com uma diferença de apenas 10 anos, já não consigo acompanhar esse tipo de comunicação, isso complica ainda mais a situação. Até os pais que supervisionam as contas dos filhos podem não entender as entrelinhas dessa comunicação, tornando ainda mais difícil o diálogo e o acompanhamento das dinâmicas digitais dos mais jovens.

    Mas afinal, que emojis são esses? Trouxe alguns exemplos e explicações dessa linguagem da comunidade incel e red pill: 

    💊: Movimento Red Pill

    Pode estar em um comentário acusando uma pessoa de ser Red Pill ou um chamado para apoiadores daquela ideia, as pessoas que “acordaram” sobre “a verdade” das questões de gênero 

    🧨 ou 💥: Red Pill explodindo

    Quer dizer radicalização de ideias, que a pessoa “acordou” para as ideias da comunidade Incel

    🔵: Pílula azul

    Significa estado de ignorância, em uma realidade paralela que é agradável mas é falsa 

    🫘: Feijões 

    Se parece com um grão de café e vem de um meme do jogo Team Fortress 2, no qual a piada era comentar “mulheres☕” na intenção de dizer que todas são estúpidas e incompetentes. 

    💯: 80 por 20

    Representa a regra de que 80% das mulheres sentem atração por 20% dos homens. Partindo daí, o único jeito de ter uma mulher é enganando-as, pois elas são oportunistas.

    Corações coloridos:

    ❤️: Amor

    💜: Tesuda (Desejo sexual)

    🧡: Você vai ficar bem (Apoio entre amigos) 

    💛: Estou interessado. Você também? (Flerte inicial)

    🩷: Carinho sem desejo sexual

    Clique aqui e veja também emojis e sinais pedófilos  

    Na série, Kate, a menina que Jamie assassinou, comentava com vários desses emojis nas publicações dele, na intenção de chamá-lo de incel e dizer que ele não conseguiria ficar com nenhuma garota. As interações fazem a polícia pensar que eles eram amigos, mas só após a explicação de um adolescente as coisas ficam mais claras. É um assunto difícil, mas muito importante de ser debatido, pois tanto os meninos quanto as meninas são vítimas desses grupos apresentados no texto. Obviamente de formas diferentes.  

    Por Ana Rodrigues

    Serviço

    Título Original: Adolescence 

    Onde Assistir: Netflix

    Classificação Indicativa: 12 anos (A12)

    Classificação da autora: 12 anos (A12)

    Justificativa: Aborda temas delicados e complexos, como feminicídio e bullying. Não tem cenas muito explícitas de violência ou de sexo e pode gerar discussões interessantes e importantes entre pais e filhos.

    Gênero: Drama Psicológico

  • “Mentes extraordinárias” e novas imagens do amor entre homens

    A imagem mostra um homem branco, de barba e bigode, cabelos pretos curtos, sentado. Ele veste um jaleco branco de médico por cima de um suéter cinza de tricô. Ao fundo, um quadro negro.
    Zachary Quinto como Oliver Wolf. Divulgação/NBC

    Comecei a assistir a Mentes Extraordinárias por pura abstinência de uma série médica procedimental, nos intervalos dos episódios de The Pitt. Tenho birra (imerecida) com Zachary Quinto desde a época do delírio coletivo que foi Heroes, queum amigo chamou de X Men para millenials (pois é, sou dessa época). O título também me soava um tanto piegas, meio à la Hallmark (em inglês não melhora muito, Brilliant minds).

    Levou 10 minutos para a série me conquistar, e ao final do primeiro episódio estava chorando (ao final de todos os episódios). Em algum lugar no meio da temporada de 13 episódios, disponível no Brasil pelo serviço Max (produzida originalmente pela NBC), comecei a ver similaridades com os casos narrados pelo grande contador de histórias e neurologista Oliver Sacks, e bingo: o seriado é baseado nos livros imperdíveis O homem que confundiu sua mulher com um chapéu e Um Antropólogo em Marte.

    Na série, Zachary Quinto é Oliver Wolf, um neurologista brilhante, mas autocentrado e rebelde: não aceita as maneiras pelas quais a medicina encara os problemas de seus pacientes, que vão de Alzheimer a tumores cerebrais em estágio terminal, e usa abordagens centradas nos desejos das pessoas e no afeto; cura, para ele, tem outro sentido. Wolf tem, ele mesmo, uma condição neurológica rara: prosopagnosia, a impossibilidade de distinguir rostos.

    Wolf também tem muitos problemas de socialização, explicados em parte pelo passado marcado por traumas: seu pai, também médico, tinha transtorno de personalidade bipolar e sua mãe, igualmente médica, tomou decisões controversas para protegê-lo.

    Depois de ser demitido por conta de seus métodos pouco ortodoxos, Wolf vai trabalhar no Bronx General, em Nova York, a convite da melhor amiga, onde supervisiona quatro residentes na especialidade. Rapidamente ele conhece Josh Nichols, neurocirurgião com quem tromba em algumas decisões. Fosse esse um drama médico qualquer, o roteiro da relação estava traçado: disputa masculina por egos, reconhecimento, financiamento e mulheres. Um desfile, enfim, da masculinidade hegemônica que molda as performatividades de gênero dos homens no audiovisual (e na sociedade).

    Mas Mentes Extraordinárias não é uma série qualquer. Oliver é um homem gay, assim como Josh, ambos assumidos e (no presente) bem resolvidos com sua sexualidade. Do estranhamento inicial nasce uma admiração mútua pela competência de cada um (ainda que discordâncias permaneçam) e, em algum momento, paixão. Tratada com delicadeza e complexidade, o namoro dos dois rompe com uma série de estereótipos do audiovisual, em que as relações masculinas são marcadas ora por rivalidade ora por uma parceria heteronormativa (um pacto de masculinidade, os parças).

    A foto mostra dois homens da cintura para cima, olhando um para o outro. O homem da esquerda é barbudo, tem cabelos prestos e está de jaqueta de couro. Ele segura com as mãos o rosto do outro homem, que tem cabelos grisalhos curtos e veste um casaco azul. A mão dele está no braço do outro.
    Oliver Wolf e Josh Nichols em uma cena romântica da série. Divulgação/NBC

    A presença de outros afetos entre homens no audiovisual tem sido cada vez mais frequente, muitas vezes ainda tratada como drama, conflito ou gancho narrativo. Em Mentes Extraordinárias, não. A paixão move certas ações da temporada, mas a trama não está centrada nisso: Wolf e Nichols são médicos homossexuais mas nunca unidimensionais; suas vidas têm esta e outras tantas camadas, às vezes difíceis de conciliar. Quinto, produtor da série, é homossexual assumido e tem feito papeis que exploram a temática, como na peça Angels in America, sobre a epidemia de HIV nos anos 1980, e do escritor Gore Vidal.

    Não dá pra ignorar o fato de que a série mostra dois homens gays brancos, do Norte Global, bonitos  – ainda que, como aquele amigo me lembre, o personagem de Quinto não goste de tomar banho – e privilegiados (pois médicos). Estão, portanto, a salvo de certas opressões, como de raça ou classe. Mas os últimos anos, e os últimos meses nos EUA, de forma aguda, mostram que quem ousa dissentir das normas hegemônicas de gênero e sexualidade está sob risco a qualquer momento, e ocupa posições frágeis de proteção e aceitação.

    Por Karina Gomes Barbosa

    Título Original: Brilliant Minds
    Onde Assistir: Max
    Classificação Indicativa: 12 anos (A12)
    Classificação da autora: 10 anos (A10)
    Justificativa: Apesar de mostrar alguns procedimentos médicos, são muito menos explícitos que os de outras séries do tipo. A série ainda tem o bônus de tratar com delicadeza sobre relações homossexuais.
    Gênero: Médico/drama.

  • Dia das Empregadas Domésticas: uma história de luta, (in)visibilidade e conquistas

    Colagem de fotos com mulheres que apareceram no texto. Em cima: Cleunice Gonçalves, Madalena Gordiano, Mirtes Renata Santana. Em baixo: Lenira Maria de Carvalho, Creuza Oliveira, Benedita da Silva e Laudelina de Campos Melo.

    No dia 27 de abril, o Brasil comemora o dia das Empregadas Domésticas. A data homenageia as(os) trabalhadoras(es) domésticas(os) e faz referência à Santa Zita de Lucca, padroeira da categoria. Zita nasceu em 1218, na Itália, e trabalhou como empregada doméstica desde os 12 anos. Conhecida por sua generosidade, faleceu em 27 de abril de 1278 e foi canonizada em 1696 pelo Papa Inocêncio XII, após o reconhecimento de 150 milagres atribuídos à sua intercessão. 

    O trabalho doméstico é majoritariamente realizado por mulheres. Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), de 2023, o país tem 6,08 milhões de empregados domésticos — incluindo funções como doméstica, jardineiro, motorista e mordomo. Desse total, 5,539 milhões são mulheres, o que corresponde a 91,1% da categoria, enquanto apenas 540 mil são homens (8,9%). A pesquisa revela ainda que a maioria dessas trabalhadoras são mulheres negras, com média de idade de 49 anos. Apenas um terço possui carteira assinada e a maioria recebe, em média, um salário-mínimo.De acordo com a Convenção Coletiva de Trabalho firmada pelo Sindicato das Empregadas e Trabalhadores Domésticos da Grande São Paulo, o dia 27 de abril é previsto como folga remunerada para a categoria. Caso haja necessidade de trabalho nesse dia, é preciso o consentimento da trabalhadora. Nesse caso, o empregador deveria pagar o dia em dobro (100% de adicional), ou conceder uma folga compensatória na semana anterior ou posterior.

    Origem do trabalho doméstico no Brasil

    Anúncio de uma mulher escravizada. Fonte: São Paulo Antiga

    O trabalho doméstico no Brasil tem suas raízes no período colonial e imperial, quando era majoritariamente realizado por mulheres negras escravizadas. Essas mulheres desempenhavam funções como amas de leite, cozinheiras, lavadeiras e mucamas, frequentemente moravam nas residências dos senhores, recebendo apenas abrigo e alimentação como pagamento, o que limitava sua autonomia financeira e social. Além de estarem sujeitas a punições físicas. Como elas não eram enxergadas como trabalhadoras, mas como propriedades. O trabalho doméstico era considerado desonroso, reservado a negros, enquanto os brancos eram tidos como superiores. Após a abolição formal da escravatura em 1888, muitas dessas mulheres continuaram a exercer essas funções, perpetuando as desigualdades estruturais de raça e gênero na sociedade brasileira. A abolição não foi acompanhada de uma regulamentação específica para o trabalho doméstico, e a Lei Áurea não contemplava questões trabalhistas, o que fez com que muitas das condições de trabalho anteriores continuassem sem um reconhecimento formal.

    Leis Trabalhistas

    Antes da abolição da escravatura, a primeira norma que mencionou o trabalho doméstico no Brasil foi a Lei de 13 de setembro de 1830, que tratava do contrato escrito para serviços prestados por brasileiros ou estrangeiros, dentro ou fora do Império Colonial. Foi a primeira tentativa formal de regular as relações entre empregadores e trabalhadores livres no Brasil, marcando um passo importante na transição do trabalho escravo para o trabalho assalariado. 

    Com o fim da escravidão, o trabalho doméstico permaneceu sem regulamentação específica. A Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), promulgada em 1943, inicialmente excluía as empregadas domésticas de seus direitos, como férias, 13º salário e aposentadoria. O avanço dos direitos das trabalhadoras domésticas no Brasil foi resultado de décadas de mobilização liderada majoritariamente por mulheres, que fundaram sindicatos em diversas regiões com o objetivo de regulamentar a profissão. 

    A pioneira dessa organização foi Laudelina de Campos Melo, que fundou a primeira associação de trabalhadores domésticos do Brasil em 1936. Sua atuação foi decisiva para o reconhecimento da categoria: a associação que criou se tornou, em 1988, o primeiro sindicato formal das trabalhadoras domésticas, impulsionado pela promulgação da nova Constituição. Laudelina, mulher negra e ex-empregada doméstica, articulou redes de solidariedade e enfrentamento ao racismo, e sua trajetória revela a centralidade da luta das mulheres negras na conquista de direitos trabalhistas no país.

    Essa luta também culminou no primeiro Congresso Nacional das Trabalhadoras Domésticas, em 1968, em São Paulo. Como fruto dessa organização, a Lei nº 5.859/72 foi sancionada, seguida pelo Decreto nº 71.885/73, garantindo direitos como registro em carteira de trabalho, 20 dias de férias anuais remuneradas e acesso à Previdência Social. No entanto, essa legislação ainda excluía as diaristas, limitando a aplicação dos direitos.

    1988

    Em 1988, com a promulgação da Constituição Cidadã, foram conquistados direitos como salário mínimo, 13º salário, férias anuais remuneradas, licença-maternidade e paternidade, e aviso prévio. No entanto, ainda havia desigualdade em relação aos demais trabalhadores, com a categoria doméstica comparada à direitos previstos na CLT. 

    Nesse contexto de mobilização e luta por direitos, a atuação de mulheres negras no processo constituinte foi fundamental para garantir avanços, ainda que parciais, às trabalhadoras domésticas. A única deputada constituinte negra, Benedita da Silva destacou-se como uma das principais vozes nesse cenário. Integrante do chamado “Lobby do Batom” – articulação suprapartidária formada por parlamentares mulheres –, Benedita levou à Assembleia Nacional Constituinte as pautas das mulheres negras e da classe trabalhadora. 

    Como ex-empregada doméstica, ela compreendia com profundidade as desigualdades enfrentadas por essas trabalhadoras e defendeu a ampliação de seus direitos. Sua presença no parlamento, sob o lema “mulher, negra e favelada”, representava não apenas um símbolo de resistência, mas também uma força política que impulsionou a inclusão de dispositivos constitucionais voltados à igualdade de gênero e à valorização do trabalho doméstico.

    Durante a Assembleia Nacional Constituinte de 1987-1988, as trabalhadoras domésticas protagonizaram um importante capítulo da luta por direitos no Brasil. Embora o Congresso tivesse perfil majoritariamente conservador, a mobilização popular garantiu espaço para emendas vindas da sociedade civil. As mulheres, com forte atuação via Conselho Nacional dos Direitos da Mulher (CNDM), lançaram a campanha “Constituinte pra valer tem que ter palavra de mulher”, que resultou na “Carta da Mulher Brasileira aos Constituintes”. Entre as reivindicações, destacava-se a exigência da extensão plena dos direitos trabalhistas às empregadas domésticas. 

    Apesar da intensa mobilização – com caravanas a Brasília, seminários e entrega de propostas diretamente a Ulysses Guimarães –, a categoria obteve apenas alguns dos 34 direitos garantidos às demais classes trabalhadoras. Como relatado por lideranças como Lenira Maria de Carvalho e Creuza Oliveira, a luta foi marcada por exclusões, descaso da mídia e barreiras institucionais, mas também por aprendizados, solidariedade e organização coletiva, que culminaram no reconhecimento formal da profissão e no fortalecimento do movimento sindical das trabalhadoras domésticas.

    Lista de dez direitos importantes conquistados na constituinte:

    Salário Mínimo: Garantia de remuneração não inferior ao salário mínimo nacional.

    Irredutibilidade Salarial: Garantia de que o salário das trabalhadoras domésticas não poderia ser reduzido, salvo acordo coletivo.

    Acesso à Previdência Social: Incluindo aposentadoria.

    13º Salário (Gratificação de Natal): Direito ao pagamento do 13º salário, igual aos demais trabalhadores.

    Férias Anuais Remuneradas: Direito a 30 dias de férias anuais remuneradas, com um adicional de 1/3 do valor do salário.

    Licença-Maternidade: Direito à licença-maternidade de 120 dias, com garantia de salário e estabilidade no emprego durante o período.

    Aviso Prévio: Garantia do aviso prévio em caso de demissão, com as mesmas condições dos demais trabalhadores.

    Repouso Semanal Remunerado: Direito ao repouso semanal remunerado, com no mínimo um dia de descanso por semana.

    Equivalência de Direitos em Caso de Acidente de Trabalho: Direito ao reconhecimento de acidente de trabalho, com a mesma proteção oferecida aos trabalhadores urbanos.

    Proteção ao Trabalho da Mulher: A Constituição de 1988 também assegurou a proteção do trabalho da mulher, estabelecendo condições especiais para a mulher trabalhadora, incluindo as domésticas.

    Após a constituição de 88 

    O Decreto nº 3.361, de 10 de fevereiro de 2000, facultou ao empregador doméstico a possibilidade de depositar o FGTS para seus empregados, ou seja, o benefício não era obrigatório. Em 2006, novos avanços foram conquistados com a ampliação de direitos, incluindo estabilidade provisória no emprego para gestantes desde a confirmação da gravidez até 5 (cinco) meses após o parto. e o direito à folga em feriados.

    PEC das domésticas 

    ​Em 2013, Emenda Constitucional nº 72, conhecida como “PEC das Domésticas”, ampliou os direitos das trabalhadoras domésticas, incluindo jornada de trabalho de 44 horas semanais, horas extras, adicional noturno, seguro-desemprego, FGTS e seguro contra acidentes de trabalho. 

    A regulamentação desses direitos foi consolidada com a Lei Complementar nº 150, de 2015, que detalhou aspectos como o controle de jornada e o recolhimento de encargos.​ Apesar desses avanços, desafios persistem, como a informalidade ainda presente em parte significativa das relações de trabalho doméstico e a necessidade de maior fiscalização para garantir o cumprimento integral dos direitos conquistados.​ A PEC das Domésticas simboliza uma conquista fundamental na busca por justiça social e reconhecimento do trabalho doméstico como profissão digna e essencial.

    Na mídia

    Os contextos que geralmente chamam atenção e vão para a mídia são de trabalhadoras domésticas em situações polêmicas e tristes, refletindo as heranças de uma profissão marcada pelo descaso. Muitos dos casos são sobre trabalhos análogos à escravidão. Essas questões ganham visibilidade principalmente quando abusos e violações de direitos são denunciados, evidenciando as dificuldades e desigualdades ainda presentes na profissão. Mas os momentos de luta e de conquistas também foram e são midiatizados.

    Em 2020, durante a pandemia de Covid-19, discussões sobre os direitos e a segurança das trabalhadoras domésticas surgiram nas redes sociais, na Câmara dos Deputados e nos jornais. A crise sanitária expôs ainda mais as vulnerabilidades dessa categoria, que, em sua grande maioria, continuou trabalhando sem as proteções adequadas. A falta de regulamentação específica em áreas como saúde e segurança no trabalho gerou um debate crescente sobre a necessidade urgente de garantir condições de trabalho dignas e proteção social para essas profissionais. 

    Casos que se destacaram nessa época

    A primeira vítima de Covid-19 no estado do Rio de Janeiro foi uma empregada doméstica que pegou a doença da patroa que esteve na Itália. Cleonice Gonçalves tinha 63 anos e cozinhava há 20 anos para uma família do Leblon, onde pegou o vírus. O caso teve grande repercussão internacional após ser divulgado pela agência Reuters e o jornal The New York Times, com títulos como “Uma mulher brasileira pegou coronavírus nas férias. Sua empregada agora está morta”. 

    Em junho de 2020, a história que ganhou a mídia foi a da morte de Miguel Otávio Santana da Silva, de 5 anos. Ele era filho de Mirtes Renata Santana, empregada doméstica que, durante a pandemia da Covid-19, precisou levar o filho ao trabalho porque a creche estava fechada e ela não tinha com quem deixá-lo. Mesmo com o governo de Pernambuco classificando o trabalho doméstico como não essencial, Mirtes teve que continuar trabalhando para não perder o emprego. O crime ocorreu quando a patroa, Sari Corte Real, primeira-dama de Tamandaré (PE), deixou o menino sozinho no elevador do prédio onde morava, resultando em sua queda fatal do nono andar, enquanto Mirtes passeava com os cachorros da patroa.

    No final de 2020, foi o caso de Madalena Gordiano chamou a atenção do Brasil. Na cidade de Patos de Minas (MG),   ela vivia há quatro décadas em situação de trabalho análogo à escravidão. Desde os oito anos, Madalena trabalhava para a família do casal Dalton Milagres Rigueira e Valdirene Lopes, que lhe dava apenas comida em troca do serviço, sem salário, sem férias e sem nenhum direito trabalhista. 

    Um pouco sobre o audiovisual 

    Outro exemplo de representações na mídia são as obras audiovisuais, como novelas e filmes. Em sua maioria, as empregadas domésticas aparecem como figuras secundárias, embora sempre presentes. Porém, um destaque positivo foi a novela Cheias de Charme (2012), que, ao focar nas “Empreguetes”, trouxe as trabalhadoras domésticas para o centro da narrativa, abordando questões sobre o trabalho e os direitos dessa profissão. 

    Domésticas – O Filme (2001), uma comédia dramática, retrata a rotina de cinco empregadas domésticas, cada uma com pensamentos, perspectivas e sonhos diferentes. O filme destaca a individualidade de cada personagem, que, na maioria das vezes, é ignorada, já que essas mulheres costumam ser tratadas apenas como coletivo. Outro aspecto marcante é a naturalização do trabalho doméstico como o único destino esperado para mulheres pobres.  Hoje, esse cenário vem mudando: muitas filhas de empregadas domésticas conseguiram estudar e buscar outros caminhos profissionais. Além disso, o filme sugere, mesmo que de forma sutil, o quanto a relação entre patrões e empregadas pode ser atravessada pela desconfiança – especialmente em questões como possíveis roubos, o que reforça estigmas e desigualdades. O filme se passa antes da aprovação da PEC das Domésticas, o que ajuda a explicar a ainda maior desvalorização da profissão na época retratada. 

    O filme Que Horas Ela Volta? (2015) um sucesso, tanto em público quanto na crítica, ao mostrar a complexidade das relações entre patrões e empregadas no Brasil. Muitas vezes, essas relações são descritas como “próximas”, o que acaba mascarando o vínculo empregatício e reduzindo os direitos trabalhistas das empregadas. A frase “Ela é quase da família” aparece tanto nos filmes quanto na novela e, também, no cotidiano de muitas empregadas domésticas, sendo um exemplo da herança escravocrata que ainda desvaloriza o trabalho dessas profissionais, pela proximidade com as famílias e pela rotina compartilhada, que muitas vezes acaba por diminuir a sua dignidade e direitos.

    Por Ana Rodrigues

  • Raquel Pataxó: onde há uma pessoa indígena, há um povo inteiro 

    Mulher indígena da etnia pataxó, professora e pesquisadora na Universidade Federal de Ouro Preto, indivíduo-coletivo, Raquel Pataxó conversa com o Ariadnes sobre sua trajetória pessoal e como sua “caminhada de volta ao mundo” é acompanhada por uma comunidade inteira. Desde a demarcação de sua identidade no ambiente universitário até a inserção dos conhecimentos indígenas na prática de pesquisa e cotidiano acadêmico, ela se guia por meio dos sopros ancestrais para executar a tarefa de estar no mundo. 

    Raquel fala sobre os significados do 19 de abril, data que marca o Dia dos Povos Indígenas/Originários, e o que é preciso para estarmos informadas e atentas para não reproduzir estereótipos, mas sim reconhecer a luta e existência desses povos que precedem a organização de mundo que conhecemos. Os desafios são diversos e a tarefa é árdua, mas, como destaca a professora, é fundamental que as pessoas aliadas não sejam cercas, mas sim trilhas para prosseguir. 

    Imagem: Captura de tela de entrevista concedida à TV UFOP em abril de 2024.

    Gostaria que você se apresentasse falando sobre seu nome completo, idade e contando um pouco da sua trajetória de vida:

    Meu nome é Raquel Mota Mascarenhas, mas eu prefiro Raquel Pataxó. Tenho 38 anos, nasci numa cidade que se chama Itamaraju mas eu cresci num lugar vizinho que se chama Prado. São cidades que se constituem dentro do estado da Bahia. E o território de Itamaraju, a princípio, né, antes de ser uma cidade emancipada, pertencia a Prado. E Prado, antes de se tornar um aldeamento no século XIX, pertencia à cidade de Capitania de Estado de Porto Seguro. 

    Mas todos esses territórios, todas essas cidades, onde têm muitos aldeamentos também indígenas, assim como o Prado, foi no século 19 construído como um aldeamento indígena, para que fosse colonizado um território que é indígena e é um território do povo, da etnia que eu pertenço, que é a Pataxó.

    Então, eu venho desse lugar, ou seja, eu cresci no território. Mesmo que dentro de uma localidade, a princípio, classificada como um espaço urbano, no território de Prado. Então, meus parentes, meus ancestrais estão e permanecem ali onde eu nasci, de onde eu vim. Porque nós estamos ali há muitos milênios de anos.

    Então essas sobreposições de divisões coloniais, imperiais, republicanas, etc, elas foram se sobrepondo a esse lugar. Eu vim de lá e costumo falar que eu dei a volta ao mundo, tô dando a volta ao mundo, mas eu vou voltar para casa. Um dia eu volto para casa. 

    Dando sequência, gostaria que você descrevesse os significados de ser professora, pesquisadora, assistente social e mulher indígena. Como isso te constitui como identidade?

    Eu vivi nesse lugar, nessa minha terra, nesse meu seio ancestral até os 19 anos. Então com 16 anos, quando eu concluí o Ensino Médio, eu tinha muita vontade de continuar estudando. Porque eu tinha vontade de entender o mundo, entender as coisas, as relações, coisas que eu não entendia, não compreendia muito bem. E eu sempre achei, uma forma de eu continuar achando respostas. E quando a gente começa essa trajetória, a gente começa muito por um desejo, embora a gente não saiba muito bem onde é isso vai dar.

    Então eu terminei o segundo grau na minha cidade e fiquei mais ou menos três tentando vestibular, que era muito concorrido. E ainda é muito difícil passar, mas naquela época não tinha política de cotas e não tinha a possibilidade de você fazer o vestibular no seu lugar, no lugar que você reside, na escola que você estudou. Também tinha o deslocamento e para tentar esses vestibulares, até que no terceiro ano que tentei, eu passei.

    Fui aprovada para a Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), e entrei lá no curso de Serviço Social. Antes pensava em fazer Psicologia, porque eu achava que para entender as pessoas e mas eu precisava estudar psicologia. Mas, para o meu grande prazer, eu fiz uma segunda opção e me apaixonei pela profissão. Eu acho que o que eu tô procurando é aqui mesmo, então, permaneço.

    Embora a universidade tenha sido um processo difícil; porque é outro jeito de estudar, outro jeito de dialogar com os textos, com o espaço, e eu não cresci nesse ambiente. Formei no tempo esperado, de quatro anos, e trabalhei como pesquisadora com a Fundação de Apoio à Pesquisa do Espírito Santo (FAPES) e vi que gostava muito de pesquisar. Porém, também tinha a preocupação com a carreira profissional, então fiz alguns concursos e fui aprovada. 

    No entanto, muito pelas conversas que tinha com as professoras, fiz o processo de mestrado e entrei. Tive algumas questões familiares e precisei atrasar um pouco essa conclusão, mas, nesse meio tempo fui chamada para outro concurso que tinha feito para trabalhar no Tribunal de Justiça no interior do Espírito Santo. 

    Mas como tudo isso dialoga com o fato de eu ser indígena? Bom, trabalhando no tribunal, eu não me encaixei muito bem. Apesar de gostar do trabalho como assistente social, o ambiente também era muito diferente. Assim como a universidade era diferente. Eu tive um pouco de dificuldade em me adaptar em relação a como estudar e como são esses outros vínculos no início, mas depois eu me adaptei também. Entendi como funcionava.

    Mas eu não consegui me integrar, não consegui ter uma receptividade. E no tribunal de justiça especificamente, tanto no que tange à forma de vestir, de falar, que você aprende. Eu aprendo, eu sou um ser humano, eu sou capaz de aprender. Mas, mesmo aprendendo e executando, eu não me sentia feliz. Então eu tracei um objetivo de sair de lá. Durante esse processo, eu vim tentar o concurso da Universidade Federal de Ouro Preto.

    Eram três vagas. Uma era para cota de pessoa negra e duas vagas de ampla concorrência. Todos esses concursos, essas entradas na universidade, de graduação, de mestrado, a gente tá falando de um contexto que também não tem cotas indígenas.

    Eu acho que isso dialoga muito com o que o que significa ter um indígena, ter uma mulher indígena, um homem indígena, um jovem indígena nesses espaços. É um esforço muito grande, não só intelectual, mas como também de saúde mental, saúde física, e é um esforço bem complexo. E eu tenho essa personalidade que às vezes vai ficando muito inquieta nos lugares, apesar de eu ser uma pessoa na aparência muito calma, por dentro estou em outra frequência. 

    Ingressei no doutorado em 2019 na [Universidade] Federal do Rio de Janeiro, mas em 2020 veio a pandemia e retornei para minha terra, fiquei lá no período da quarentena toda. Durante a pandemia eu pensei muitas vezes em não voltar para a UFOP. Principalmente por conta dessa necessidade constante de lidar com outro mundo. Todos falamos a mesma língua entre aspas, todo mundo fala português. Mas não é a mesma forma de pensar; não é a mesma forma de comer; não é a mesma forma de respirar; é muito diferente.

    Então, às vezes, quando a gente vê uma pessoa indígena desenvolvendo uma função comum da sociedade a sensação de cansaço e de adaptação é cotidiana, nunca para. Você sempre tá se perguntando se você está falando propriamente, se vestindo, se comportando, dando um passo necessário, se não tá muito devagar, se está rápido. Porque o mesmo tempo de vida que eu vivi na minha terra, com as relações típicas, é o tempo que eu estou fora nessa caminhada de volta ao mundo.

    Estou dando essa volta, mas a verdade é que a gente nunca sai de casa, mesmo não estando nesse território, nessa demarcação da terra. Eu estou no meu território indígena, eu sou uma pessoa indígena. É impossível deixar de ser indígena. Não é só sobre como essa identidade se constitui. Nunca é sobre Raquel, essa pessoa-indivíduo que você tá vendo aqui. Eu sou, e aí esse entendimento que nós, indígenas, temos, de que a gente é um sujeito-coletivo.

    Então, o que eu faço aqui, ou o que eu deixo de fazer, se tá certo, se tá errado, são parâmetros a partir desse desse coletivo que eu faço parte. E ainda assim, é um ambiente em que esse esses outros sujeitos coletivos continuam presentes comigo. Não há uma ruptura, mas uma caminhada paralela. 

    Foi um processo que eu fui caminhando e essa caminhada foi se fazendo. Hoje eu estou entendendo, porque eu acho que nunca é sobre a gente ter uma resposta pronta, porque a gente ainda tá vivendo. Somos poucos indígenas no ensino superior, atuando como professoras. E é muito difícil passar num concurso de ensino superior quando ele não é direcionado para uma indígena. Ou seja, hoje no Brasil a gente não tem previsão legal de ter cotas indígenas para concurso público, embora tenha uma proposta de lei para atualizar a lei de cotas e incluir pessoas indígenas nessa conta. Embora haja casos, em algumas instituições, que essas cotas podem existir, por exemplo. É uma informação que eu tive muito recentemente de que é possível brigar para que isso aconteça.

    Eu passei no concurso não evidenciando esse conhecimento indígena, mas sim porque eu absorvi e soube reproduzir um conhecimento que era estritamente acadêmico. E hoje eu tô entendendo muita coisa, mas eu não quero que outros indígenas sejam aprovados a partir desse processo, por exemplo, por que eu passei. Eu acho que a gente tem que ser aprovada por inclusive demonstrar esse conhecimento [indígena].

    Não acho que seja necessariamente uma responsabilidade ou culpa dos indivíduos que constituem essa banca, mas é a reprodução de uma estrutura mesmo, de um racismo que é estrutural da sociedade como um todo. Mas que a gente pode fazer enfrentamentos. 

    Pensando no âmbito da UFOP, como é para você estar em uma universidade que não visibiliza ou discute questões e identidades indígenas? Ainda que no território de Ouro Preto/Mariana, a gente tenha presença próxima de alguns povos. 

    Olha, hoje nós temos nesse território muitas pessoas, esses sujeitos coletivos. Então a gente fala que onde um está, o nosso povo está. A gente entende que quando tem um indígena, aquele povo está presente ali. Principalmente porque somos esses sujeitos coletivos. 

    Em Ouro Preto, a gente tem indígenas de várias etnias, não só dentro da UFOP, que a gente tem Pankararu, Pataxó, Puri, tem Guarani. Mas a gente tem um povo específico, originário desse território, que é o povo Borum-Kren. É importante demarcar ainda que é um território vítima de mineração, o que traz migrantes que também são indígenas, que estão circulando para além de territórios demarcados ou de contexto de aldeamento, pode-se chamar assim. A gente tá falando de pessoas e povos indígenas que circulam consciente ou inconsciente com muito medo. 

    São povos que circulam com medo, porque a gente tem a memória de que o corpo indígena é um alvo. Então aqui, há 500 anos, 525 anos nesse território, onde entendemos como Brasil, os nossos corpos são alvo. Alvo de violência física, sexual, psicológica, financeira, vários tipos de violência. 

    Então, nem sempre você vai ver em corpo indígena todos os adereços necessários para você intuir que aquela pessoa é indígena. E às vezes você vai conviver com indígena por muitos anos e ele não vai te contar, por vários motivos; às vezes por falta de segurança, às vezes por um medo que é maior do que a confiança que ele tem, seja nas pessoas com quem ele vive, seja na instituição que ele faz parte, seja no território onde ele está, ou até mesmo a ausência de outros sujeitos indígenas.

    Porque estou falando isso? Porque eu sou um desses exemplos. Eu estou em Mariana há 10 anos e nasci sabendo que eu era indígena. Eu sempre soube que eu era indígena. Como eu falei, eu vivi no meu território, minha família cresceu ali, são várias gerações que permaneceram no território e contam essas histórias. Claro que uma história violentada, fragmentada, que é reconstituída até hoje. Eu sou mais um elemento de reconstituição dessa história, mas muita coisa é tirada da gente por conta dessas violências, pelo medo também dessa afirmação pública de ser indígena. 

    Mas por que eu estou falando isso? Porque há dez anos eu estou Mariana na universidade, mas não é há 10 anos que eu publicizo isso da forma mais ampla possível, não. A grande maioria das pessoas não sabem ou não sabiam que eu era indígena, não porque eu negava ou escondia, mas porque eu não declarava isso a qualquer pessoa, por quê? Por conta dessa trajetória de medo.

    Eu andava nos campus, olhava para as pessoas e eu precisava de gente. Eu sempre pensei: os parentes tão aqui, mas eles devem estar escondidos igual a mim. Porque é um ambiente muito hostil para ser indígena, muito violento. Quando aconteceu a pandemia, eu pensei em não voltar para cá, em pedir um desligamento da UFOP. Mas ao mesmo tempo que eu sentia isso, eu senti também um chamado para continuar. É difícil, mas tem que continuar. Não é sobre ser fácil, é sobre continuar a carreira. Então, eu permaneci na universidade, mas eu decidi, e foi uma decisão muito confiante de que eu ia tornar esse fato algo público. 

    Público no sentido que era impossível para mim não mais estar nesse lugar. Eu não queria mais me adaptar, não iria seguir algumas normas e padrões de reprodução do conhecimento, de comportamento, porque, ainda que eu tenha aprendido, eu fazia isso como uma forma de adaptação e não como uma forma de constituição de quem eu sou. 

    No momento que eu faço isso, eu vou encontrando outros indígenas que resolveram nos seus próprios caminhos fazer a mesma coisa. Então assim, na nossa cosmogonia, a gente entende que, quando um anuncia, todos são anunciados. Então, se nós estamos aqui, eu e você escondidas, e eu sempre uso essa analogia, se eu estou aqui num grupo de indígenas e um sai de trás da árvore, de trás da moita, de trás da do esconderijo, anuncia que tem gente atrás. A gente tem outros. Então, para mim foi um movimento muito ancestral mesmo, porque no momento que eu voltei da pandemia e que eu vim com com essa proposta de trabalho, de fazer isso numa outra perspectiva, numa perspectiva que me trazia felicidade e validade para mim, na minha existência e de estar na universidade, eu encontrei outros sujeitos que estavam fazendo isso também.

    Inicialmente encontrei o Danilo, o cacique Danilo Borum-Kren, que estava ingressando na universidade, como o primeiro indígena que entrou como estudante a partir de cotas. Encontrei também o Xipu-Puri, que já estava terminando a graduação. Hoje a gente sabe que vários outros indígenas passam por essa universidade sem necessariamente publicizar essa identidade, esse pertencimento por fatores esses que são de memória dessas violências institucionais.

    Nem todo indígena vai se anunciar nesse estereótipo que a gente imagina, que é o indígena que chega, fala, se declara e já ocupa o espaço e tá ali para lutar. A luta também se faz pela busca de sobrevivência, de permanecer vivo.

    Então, existem muitos segmentos indígenas que permanecem vivos, mas não necessariamente se colocando publicamente, defendendo seus direitos, buscando sua sobrevivência, lutando para que haja um respeito e a permanência dos seus descendentes, mas não necessariamente fazendo isso em espaços públicos e de amplo conhecimento.

    A ideia de fazer essa entrevista surgiu quando estávamos debatendo sobre o dia 19 de abril, que marca o Dia dos Povos Indígenas/Originários e a relação com a comunidade universitária. Sendo assim, o que você destacaria como o ponto central da discussão? O que estamos “celebrando” neste dia? 

    Acho que é muito importante que nesse dia, dos povos indígenas, não é somente uma mudança de nome, mas é a provocação para uma mudança de conteúdo, de conteúdo político, de conteúdo cultural, uma mudança de sentido coletivo. Sobre o que são os povos indígenas que são indígenas desse território antes dele ser dominado e ser estruturado a partir do capitalismo.

    Então, esses povos que estavam aqui antes desse processo de dominação, de invasão, eles guardam formas de ser, de viver, modos de viver que não têm uma centralidade na mercadoria. Ao contrário, tem uma centralidade na produção da vida. Então, são modos de ser que vão ser muito diversos, muito plurais. 

    É muito importante que os endereços, que as as grafias, que os cantos estejam nesse dia, por exemplo, dentro da escola, mas trazendo a resistência. Dia 19 de abril, ele permanece, a gente não abre mão dele, porque ele tá demarcado na cultura popular, escolar, cultural. Mas a gente retoma esse dia. Retoma exigindo que, inclusive, nada sobre nós seja feito sem a gente, né? Nada sobre nós sem nós tem sido um mote muito grande desse dia 19 de abril.

    O mês de abril também como uma demarcação dessa invasão dos territórios indígenas, ele vai também impulsionar a constituição do ATL, que é o Acampamento Terra Livre, que esse ano fez 21 anos. Um ganho desse acampamento foi a constituição de uma organização nacional, que tem várias etnias, vários povos indígenas, demarcando que nós sempre nos organizamos coletivamente. 

    A gente precisa de instrumentos de organização eficazes para lidar com essa violência institucional, pois quando falamos de 19 de abril, falamos também da necessidade da demarcação de terras e contra o Marco Temporal. São duas grandes bandeiras hoje que a gente levanta durante o mês de abril inteiro. A gente fala em abril para dar visibilidade a uma luta que é feita todos os dias. 

    A gente tem uma luta interna, que é a retomada de terra, de identidade e também tem essa luta externa que é exigir que o nosso direito da retomada cultural, da retomada, de terra seja validado. 

    Você poderia destacar, a partir do seu ponto de vista, quais lutas estão sendo mais deixadas de lado em alguma medida? O que a gente está deixando de olhar quando falamos do mês dos povos originários e indígenas?

    Poderia falar muitas coisas, mas eu sempre escuto aquilo que me vem soprado primeiro. Então, como a gente tá aqui no ambiente universitário, eu acho que existe algo que a gente precisa ainda olhar. Na minha tese de doutorado, eu tive bastante dificuldade em trazer o pensamento indígena, não dificuldade minha, mas assim, como fazer com que a academia aceitasse o pensamento indígena e a cosmogonia Pataxó como orientadora da pesquisa, como instrumento de direção da pesquisa.

    Não é uma teoria que tá num livro, não é uma estrutura teórico-metodológica que tá super sistematizada, porque nós não fomos possibilitados de fazer isso. Nós estamos fazendo isso agora. Acho que existe uma luta e que estando dentro da universidade, embora eu acredite na potência de comunicação como o Ariadnes tem, de fazer isso ir para fora da universidade, é importante também falar que antes, os indígenas, eram reduzidos a objetos: objetos de pesquisa, objetos de aproximação, objetos a serem conhecidos. Ainda que houvesse um reconhecimento da dignidade cultural do direito à autonomia, ainda eram os sujeitos falando sobre os objetos.

    Eram os pesquisadores, não-indígenas, acadêmicos e políticos falando sobre. Hoje a gente tem indígenas enquanto sujeitos, numa estrutura acadêmica, falando, nós somos sempre sujeitos. Mas como professores, como pesquisadores, como produtores, como cinegrafistas, como jornalistas, a gente tem uma massa crescente de indígenas nesses lugares. E isso traz um outro tipo de violência para nós.

    Nós que estamos nesses lugares muitas vezes somos inviabilizados ou invisibilizados, no sentido de que é preciso se aproximar da gente, mas não porque a gente fala do jeito certo de ser falado academicamente. Ou porque a gente faz caminhos, de ensino, de pesquisa, de extensão. Mas existe uma luta que é permitir, ou seja, ser aliado para que a gente consiga fazer o que viemos fazer nesses espaços.

    É preciso que os aliados não indígenas não sejam cercas, mas sejam trilhas, caminhos onde a gente possa passar para continuar nossa caminhada e seguir a nossa tarefa coletiva que a gente vai cumprir. Eu acho que existe uma luta indígena hoje, no século XXI, nesse primeiro quarto do século, que são indígenas cumprindo funções nesses ambientes que antes nos disseram que se a gente ocupasse, a gente ia deixar de ser indígena.

    E hoje existe uma luta sendo feita por mulheres indígenas, jovens indígenas, homens indígenas, população LGBTQIA+, crianças, idosos, que estão ocupando esses espaços dentro da sociedade nacional, mas não por terem deixado de ser indígenas, mas porque estão ocupando esses espaços como instrumento de luta.

    Então, é preciso que a gente não seja invalidado como indígena, não seja questionado se nós somos indígenas de verdade. Porque muitas vezes falam: “Ah, mas um indígena de verdade, professor universitário; um indígena de verdade, jornalista? Mas não tá na aldeia, né?” Ou seja, a gente tá cumprindo a tarefa e não estamos sozinhos. 

    O processo de inserção da população indígena na universidade ainda caminha a passos lentos. Ainda que o número de ingressos tenha crescido, o debate ainda enfrenta desafios com a visibilidade, por exemplo. Nesse sentido, quais estratégias você acredita como possíveis de realizar para inserir não somente o tema, mas as pessoas nesses ambientes? E como promover e articular o diálogo entre saberes tradicionais e os saberes científicos no âmbito da universidade?

    Acredito que primeiro é a instituição constituir uma política consolidada de acolhimento. Hoje a gente tem um ambiente de acolhimento, mas que é um coletivo, uma iniciativa de indígenas que estão na universidade, mas a gente tá sempre buscando por mais parentes que estejam nesses espaços. É o Coletivo Parentes, coletivo de indígenas na universidade, que tem professores, técnicos administrativos e estudantes.

    Ele foi idealizado pelo Xipu-Puri e quando aconteceu esse encontro entre eu, Danilo e ele. Ele falou assim: “Ah, eu tô aqui, eu quero fazer esse coletivo, mas eu quero encontrar primeiro uns parentes pra gente anunciar que ele existe”. Então, no momento que a gente foi anunciando, o Xipu também já conhecia outros parentes indígenas e a gente vai sempre buscando, conhecendo e convidando para ingressar no coletivo. O coletivo tem o propósito antes de qualquer outro de ser um lugar de segurança.

    Um lugar em que você vai encontrar outros indígenas que vão poder te ouvir, te acolher, explicar e contar um pouco da própria vivência na universidade. Porque depois que a gente se encontra e cada um conta a história, a gente vai ver que é tudo muito parecido, dessa caminhada, e o quanto que tem esse estranhamento também, de ser uma outra organização, é uma outra instituição e tal.

    É, mas como eu falei, eu acho que é importante que a universidade tenha uma política institucional, e que essa política institucional seja construída com os indígenas. A gente pode ser representado desde que a gente seja ouvido, que é uma bandeira de luta do movimento nacional, a gente não vai aqui reproduzir essa essa existência de outra forma

    Mas a gente tem, por exemplo, postura de professores, de estudantes, do movimento estudantil de uma forma geral, coletivos classistas, sindicatos, que têm uma uma permeabilidade à arte indígena, da literatura indígena. Isso é muito importante também, que em todas as salas de aula, em todos os temas, cabe uma leitura de alguém indígena. Cabe articular o tema daquela disciplina, daquele currículo, daquela profissão com algum aspecto indígena ao longo do curso. Acho que é a gente tá falando de um de uma luta anti-racista, que a gente também tem que enfrentar, precisa de sujeitos não indígenas, para enfrentar e ter essa luta anti-racista.

    Durante minha trajetória de pesquisa, eu cunhei um aparato metodológico ideológico que eu chamei de escuta-escrita. Então, é uma escrita que requer uma escuta, e essa escuta ela acontece o tempo todo, uma escuta desses encantados e aqui esses princípios dos antigos que nos orientam para além só do processo iluminador, para além só do livro. Então, o diálogo da universidade desse conhecimento científico, que precisa ser esterilizado, né?

    Eu acho que essa palavra define bem o conhecimento nas normas do acadêmico moderno, né? A produção do conhecimento tem que ser esterilizada. Ela toma um banho assim de de cloro, de álcool, porque ela não pode falar sobre encantaria, sobre os antepassados como orientadores, como próprios que nos guiam. E que a gente tem que escutar, senão não tem validade o que a gente tá fazendo. 

    Prosseguindo com os grupos, a gente tem também o Coletivo Borum-Kren Vivos e Fortes, que também faz esse trabalho na universidade, faz palestra, então é importante também convidar os sujeitos indígenas para estar nesses espaços, para dar visibilidade aos parentes e outros parentes se sentirem à vontade também de se colocar, porque vê que nessa instituição é seguro. Da pessoa se colocar sendo que ela é, ela precisa sentir que tem um mínimo de receptividade. Porque a gente tá falando de sujeitos, por exemplo, quando a gente pensa no povo Pataxó, a gente tá falando de um povo que vive a ameaça de morte. Que tem parentes assassinados, três parentes assassinados no último mês, dezenas de parentes que estão presos, então é desse tipo de violência que a gente está falando.

    Acho que é importante falar sobre, fazer literaturas, referências teóricas, conhecer, mas também chamar os parentes para estar nesses ambientes, né? E parentes para além da universidade, né? Para além de ser a professora ou a liderança, mas são jeitos que estão permeando esse território e essa universidade. E aí eu acho que é importante também falar, de um outro espaço, que é um espaço institucional que constitui o foco, que tem feito esses enfrentamentos, tem trazido debate, que é o Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas (NEABI) [transformado em departamento em 2025]. Ele faz parte de uma iniciativa a nível da política educacional nacional, com esse propósito e dever, que tem cumprido esse papel, de fazer esse debate dentro da instituição.

    Quatro sujeitos, coletivos que podem ser convidados, podem instrumentalizar esse lugar. Quatro porque eu também faço parte do o Wayrakuna, que é um grupo de pesquisa, uma frente de atuação do Movimento Plurinacional de Indígenas Mulheres, que também tem o mesmo nome, Wayrakuna. 

    Vimos que você trabalha com o conceito de “retomada indígena”, que, segundo o cacique Babau Tupinambá, significa “um ritual de recuperar não só a terra: é tomar na mão a vida que foi tirada”. Como você definiria o termo? E como tem trabalhado com ele no âmbito da Universidade? 

    A retomada num ambiente acadêmico também é um instrumento teórico da gente ler a realidade, da gente explicar os movimentos da intuição, da resistência indígena nos territórios. Porque a gente tem referências que falam sobre isso, dentro da oralidade, como você citou, cacique Babau, mas também dentro da escrita e até de outros pesquisadores não indígenas, pesquisando sobre isso. E aí, a gente vai ver retomada também sendo citada como reconquista nesse âmbito plural, os nomes para denominar os movimentos da realidade.

    Retomada vai ser de conhecimento geral da população para fora da população indígena muito no período da ditadura. Nos jornais e instrumentos de comunicação sobre os jornalistas, pesquisadores que observavam o movimento indígena no sujeito, os povos indígenas depois da ditadura, viam que muito era falado sobre: Vamos retomar nossos espaços, vamos retomar nossa terra, vamos fazer a luta, vamos retomar o nosso lugar, o lugar que foi tomado de nós. Nós vamos retomar aquilo que nos foi tomado. Então, essa palavra, muitas vezes, dentro desses veículos de comunicação, ela foi atribuída a ideia da retomada de terra.

    Povos indígenas que foram expulsos dos seus territórios de origem, dessas terras que ancestralmente, por milênios, o povo ocupou, foram expulsos por fazendeiros, por mineradoras, por vários negócios, no ambiente do agro, desse ambiente, ou até mesmo da constituição de cidades sobre territórios indígenas.

    O conceito de retomada foi então colocado por esses canais de comunicação e isso começou a ser difundido. Uma pesquisadora, a Rosane Lacerda, faz essa busca em canais de comunicação e vê que isso vai sendo reproduzido ali, mas ela capta algo muito importante a nível de concentração teórica na academia, mas que para a gente já era sabido, como você escutou na fala do cacique Babau, que a retomada não é só sobre terra.

    Mas o que significa a terra? A terra é esse conjunto de outros seres com os quais a gente se constitui enquanto sujeito coletivo. Então, essa coletividade que constitui, me constitui enquanto uma indígena, que é mulher, que é Pataxó, não é só sobre a minha coletividade humana de outros sujeitos humanos, mas também a coletividade da terra, do espaço, da paisagem, do clima, dos seres, animais, dos vegetais, dos minerais, do movimento desses indivíduos, humanos ou não humanos.

    A luta, a retomada de terra, ela é uma aparência, o que pode ser representado por uma sociedade que acha que terra é uma propriedade. Então, a retomada de terra para gente é retomar toda nossa resistência. É um ambiente onde a gente consegue comer, viver, flutuar, ritualizar, estar em comunhão com esse coletivo, que não é só sobre a coletividade dos seres humanos, mas essa coletividade de todos os seres que também estão naquela terra, ainda que tenham sido massacrados, às vezes até desertificados.

    Que a gente tá falando também de territórios indígenas que são terras ancestralmente ocupadas que foram violentadas ao nível de serem desertificadas. E a gente tem vários povos indígenas, como o povo Pataxó, que replanta, o nosso povo refloresta, cuida das nascentes e consequentemente repovoa de animais. Junto, coletivamente nesses territórios.

    Por Lia Junqueira 

  • A lâmina e o corpo: performatividade de gênero em samurai de olhos azuis

    Arte por Courtney von Savoye no Instagram

    Mulheres contra o patriarcado no melhor estilo Kill Bill! Em Samurai de Olhos Azuis (Blue Eye Samurai), lançada em 2023 pela Netflix, vemos Mizu, protagonista da série, entre xoguns, samurais e batalhas sangrentas de katanas no Japão feudal, do século XVII, extremamente violento, machista e racista. A obra é de autoria de Michael Green (Logan, Blade Runner 2049) e Amber Noizumi.

    Dentro de um contexto protecionista e extremamente xenófobo, o Japão feudal se torna palco da busca de vingança de Mizu contra seu pai, um homem branco vindo do Ocidente, que estuprou sua mãe e a abandonou grávida. Por ter nascido com traços japoneses e ocidentais, Mizu sofre segregação e até mesmo violências diversas das pessoas ao seu redor. Existem três pessoas “elegíveis” ao papel de pai, que estão escondidas dentro do território japonês, e é aí que sua busca começa. 

    Desde a infância, Mizu teve que se esconder, e principalmente esconder sua identidade (mulher) e seus traços estrangeiros para que não fosse morta. Sua aparência “ocidentalizada” a torna uma pária em uma sociedade xenofóbica e machista. Determinada a buscar justiça e ocultar sua verdadeira identidade, ela vive disfarçada de homem e se torna uma das espadachins mais habilidosas do país. As pessoas que tentaram protegê-la acabaram morrendo por isso, e seu desejo de vingança só se intensifica ao longo da narrativa. É notável que a história não se propõe a ser realista, e isso tende a enfurecer os espectadores homens, que assistem a narrativas impossíveis mas não conseguem entender quando é uma mulher vencendo todas as batalhas que luta, sobrevivendo a ferimentos mortais ou escalando uma montanha carregando um homem nas costas, etc.

    Violência explícita, nudez e sexo sobem a idade indicada para 18+. As cenas variam entre as de sempre, de luta de espadachins genéricas, e momentos de combate exagerados mas bem coreografadas, como quando um lance de espada derruba quatro pessoas ao mesmo tempo. O gore está presente, o que não prejudica a experiência, mas é constantemente retratado, assim como a nudez, que aparece de forma breve ao longo da série.

    A animação tem um visual impressionante inspirado no cinema samurai, como os filmes de Akira Kurosawa, com um tom maduro e violento semelhante a produções como a citada Kill Bill e a renomada série de animação Love, Death & Robots. Quem conhece a história de William Adams (Miura Anjin) – um samurai inglês que serviu no Japão no século XVII  — , sabe que este foi a inspiração para John Blackthorne na recente estreia da série Xógum: a gloriosa saga do Japão, premiada com diversos Emmys e Globos de Ouro recentemente. Percebe-se esse padrão da mídia ocidental, que gosta de empurrar essas narrativas de White Savior. Como em “O Último Samurai” (2003) – que o protagonista é o Tom Cruise – a história foca mais na cultura samurai e em aspectos de filmes genéricos de ação do que em possíveis questões de gênero, classe ou raça. 

    “White savior complex” ou “complexo do salvador branco” refere-se a quando pessoas brancas sentem-se destinadas ou no direito de salvar, ajudar, ensinar e proteger pessoas não-brancas, o termo advém do Nigeriano-Americano, Teju Cole, originalmente denominado como “White Savior Industrial Complex (WSIC)”. Isso ocorreu em um contexto de criação de campanhas de financiamentos para projetos que não direcionavam o dinheiro arrecadado para o uso explicitado, Teju explicou que “os salvadores brancos dão suporte à brutalidade policial de manhã, fundam centros de caridade de tarde, e recebem premiações de noite”, fazendo alusão ao fato de que eles não se solidarizam pelas causas raciais verdadeiramente, e sim em um movimento de autoafirmação do próprio espaço de privilégio, o que acarreta em um falso entendimento de benevolência para com quem não usufrui dos mesmos “atributos e capacidades”, (ser branco). Muita da discussão vem do trabalho de missionários, como o que ocorre no Brasil com missões evangelizadoras de igrejas evangélicas que procuram expandir seu público oferecendo à comunidades carentes e/ou fragilizadas comida e estrutura em troca da conversão à religião, como as Adventistas, Metodistas, Luteranas, Batista, Anglicanas, Menonitas e Presbiterianas. A Missão Evangélica da Amazônia – MEVA, por exemplo – “é uma organização de direito privado, de natureza filantrópica, sem fins lucrativos, que atua com os povos tradicionais da Amazônia desde 1959.” Tendo como visão: “glorificar a Deus fazendo discípulos de Jesus Cristo e facilitando o surgimento de igrejas cristãs indígenas”. Também vemos o “Projeto Joshua”, que oferece um serviço de “cartografia para evangelizar o planeta”, nos EUA. Normalmente de natureza privada, esses promotores da paz encontram raízes em, por exemplo, tribos indígenas que precisam de ajuda humanitária, mas no fim acabam apenas explorando, manipulando, abusando e deliberadamente machucando aqueles que prometeram auxiliar. Eu emprego este termo no texto pois esse é um problema que não existe agora, e pode ser datado desde antes das grandes navegações, que inicia o século da colonização. Esse problema é tão recorrente que até hoje enfrentamos essa problemática, porém agora sabemos olhá-la com a nomenclatura correta.

    A série, ao meu ver, tenta ir na contramão disso, e acaba combinando ação visceral, com dramas profundos e uma forte crítica social, abordando temas como racismo, misoginia e identidade de gênero em um Japão feudal extremamente violento e patriarcal. Gosto da tentativa de inovação, mas entendo que ainda falta muito para alcançarmos o patamar de uma boa representação midiática feminista de uma mulher coordenando esse papel.

    É impressionante como há uma mistura de realismo, técnicas e estéticas de animação muito bonitas visualmente, que elevam o teor do conteúdo. Eu gosto muito mesmo da ambientação construída dentro da série e as técnicas desenvolvidas, como na parte da apresentação de teatro tradicional japonês, que, na vida real, utiliza fantoches para as caracterizações, o que foi primorosamente reproduzido na série. 

    Não é uma obra para crianças, então não deveria ser tratado como tal. Kill Bill, por exemplo, contém muitas cenas de morte, sangue e lutas, e foi explicitamente restringido por isso. Acredito que o mesmo movimento deva ser realizado com essa série, que, por causa do estilo animado, pode confundir pais e mães desatentos. As cenas de luta, como citado anteriormente, são inspiradas no cinema, com movimentos cinematográficos e combate bem coreografado, e praticamente todo o conteúdo da série é pensado para maiores de idade, os temas não são nada infantis.

    Como em toda obra de ação com protagonistas mulheres, essa não foge ao estereótipo de que mulheres, por não poderem ser mais fortes, têm que ser mais inteligentes que os homens durante suas batalhas. Mizu é alta e esguia, e na série aparece em alguns momentos como incapaz de contar com a força bruta. Por exemplo, em um duelo, ela, ao enfrentar um samurai muito mais forte, só vence ao usar inteligência e velocidade para transformar o próprio peso do adversário contra ele. Assim como citei outros filmes inspirados em temas orientais, também gostaria de citar Mulan, por causa da semelhança com uma das cenas de Samurai de Olhos Azuis, que é o romance sugerido entre essas mulheres que estão travestidas/sendo lidas como homens e os homens guerreiros que perpetuam os estereótipos de gênero, como entre Mulan e Shang, assim como entre Mizu e Taigen. Na animação da Disney temos a insinuação disso, e até mesmo uma cena em que Shang parece enojado ao descobrir que Mulan na verdade era uma mulher, ao invés do guerreiro pelo qual começou a desenvolver uma relação de afeto. Mas isso é bem mais evidente em Samurai de Olhos Azuis, em que vemos claramente Taigen tendo uma ereção ao “brincar de lutinha” com Mizu, o que deixa ambos constrangidos, e Taigen, para acobertar o momento, diz que possivelmente ocorreu pela proximidade dos corpos e pela falta que sentia de Akemi.

    “Assim é o mundo. Concede às mulheres um número fixo de caminhos: esposa decente ou prostituta indecente.”- Seki, personagem de Blue Eye Samurai.

    Racismo e Identidade
    Desde o início da série, entende-se que ser mulher naquela época significava ser tratada como propriedade. Mizu, como citado, precisa se passar por homem para se esconder das pessoas que querem matá-la, e também para poder ser levada a sério como samurai, título reservado somente aos homens daquela época. O enredo enfatiza como as mulheres tinham poucas opções além do casamento ou da servidão, e também faz uma referência à pungente divisão de classes que define e intersseccionaliza as vivências entre Mizu e Akemi, já que todos consideram a última mais afortunada do que todas as outras mulheres da série, pois ela tem o privilégio de ser filha de um homem rico, e portanto viver a vida de forma abastada. Porém, quando Mizu derrota Taigen, noivo de Akemi, em um duelo (não somente vencendo o inimigo, mas também humilhando-o), Akemi se vê abandonada pelo noivo que começa a buscar reaver sua honra em uma batalha contra Mizu. Durante esses acontecimentos, seu pai prometeu sua mão em casamento ao filho do Xogum, e é aí que começa a história de emancipação de Akemi.


    Acho que a questão do machismo estrutural é bem explorada e abordada no plot que envolve a princesa Akemi, pois ela vê o próprio destino sendo traçado inúmeras vezes por homens que querem controlá-la. O que ela almeja é não ser um peão no xadrez da família real. A obra não mede esforços para mostrar que as mulheres podem estar no controle dos homens domando-os a partir de seus desejos, e é daí que surge a força principal da sexualidade feminina, tema que abordo também em minha análise sobre Eyes Wide Shut.


    As mulheres sentem a sua exclusão mais cruelmente quando nascem em classes mais baixas, sendo tratadas sub humanamente, e por Akemi ser de família nobre, não acreditam que ela conseguirá sobreviver nos ambientes hostis que são formados nas cidades, principalmente nos prostíbulos, locais que ela passa a frequentar após sua fuga do castelo em que morava. Porém, como ela quer encontrar Mizu, vai até um bordel popular da cidade e começa a trabalhar lá, atendendo a pedidos extremos de fetiches masculinos.


    Mizu também começa a entender esse outro lado da moeda de perto, quando passa a lidar com as histórias dessas personagens, visto que ela, ao ocultar sua identidade como mulher, não vive essas mesmas questões. Isso é demarcado quando uma das meninas do bordel, Kinuyo, uma pessoa com deficiência auditiva e de fala, é comprada por madame Kaji de seu pai abusivo. Kaji cuidou dela com gentileza e paciência, pois Kinuyo era uma menina extremamente fragilizada. Porém, o chefe Hamata a levou para tomá-la à força como esposa e continuar os abusos que já havia sofrido do pai. Para impedir que Kinuyo fosse sujeita a essas contínuas violências, Kaji contrata Mizu para secretamente matar Kinuyo, e assim não criar uma guerra com Hamata, que possui poder e influência dentro da cidade por controlar um exército de mil homens. Essa é uma das cenas mais revoltantes da série, pois como o tema é vingança, imaginamos que Kaji iria encomendar a morte dos soldados de Hamata, porém ela manda matar somente a vítima dessa estrutura opressiva, que é Kinuyo. O que é mais revoltante ainda, pois apesar disso, o assassinato dela é revelado, e Mizu vê-se perseguida e tem que eliminar todos os soldados de Hamata anyways.


    Esse episódio é muito marcante, assim como quando Kaji aconselha a princesa Akemi que a única forma de reconquistar a autonomia sobre sua própria vida era controlando a vida de seu futuro marido, neste caso o filho do Xogum, laço firmado depois que seu pai a usou como moeda de troca por poder e influência. A sequência demarca esse espaço de controle masculino, ou seja, mesmo que uma mulher consiga sua independência, ela somente ocorrerá a partir da permissão/ajuda de um homem.

    Tradução: “Pare de correr com e para homens e decida o que você quer para si própria”.
    Vingança como motor da narrativa

    Um episódio muito marcante da série é o que relata o passado de Mizu com o ponto crucial de sua mudança (a morte de sua mãe), em paralelo com um teatro tradicional da época, que conta a lenda de como surge um espírito Onryo, apelido de Mizu, um espírito sedento por vingança, parecido com um demônio.

    Mizu, ao enfrentar essas inúmeras formas de preconceitos associados a sua aparência, passa a se entender como uma aberração/besta. Isso a torna alvo de hostilidade e desconfiança, e o único local em que ela é aceita é a casa de um senhor com deficiência visual, que funde katanas. Os outros entendem, erroneamente, que seus olhos azuis são ímãs de má sorte, e os generalizam como um mau sinal, ao correlacionarem-nos com os ocidentais. Um ponto importante é que, antes de sair em sua busca movida por ódio e dor, Mizu revela ao senhor que ela tem olhos azuis, mas não revela que é uma mulher empunhando uma espada. 

    Isso é muito simbólico, pois o homem parece entender o quesito da “impureza” à qual Mizu se refere ao falar de si mesma, desenvolvendo uma metáfora relacionada à construção de espadas e Mizu, já que para criar a lâmina utiliza-se uma liga, e não o metal puro. Esse amálgama pode conter algumas impurezas, pois são elas que mantêm a lâmina junta e não deixam o metal quebradiço. Esse entendimento entre as duas partes só existe para a sua aparência, não para o seu gênero, já que quando Mizu vai revelar isso, ele a interrompe e demonstra que não quer saber mais de seus segredos.

    O objetivo da guerreira de caçar os três estrangeiros que podem ser seu pai biológico – e punir todos eles —  só aumenta ao longo da série. Spoiler: o gancho para a próxima temporada deixou muita gente ansiosa para saber como será a colaboração entre Abijah Fowler (Kenneth Branagh) – um dos principais antagonistas da série, um ocidental com forte influência no Japão  —- e Mizu para encontrar os outros candidatos à paternidade em Londres.

    Apesar dos problemas enumerados aqui, acredito que também haja espaço para apreciar a obra. A história é intensa e bem construída. Gosto do uso da animação para construção desse universo, pois é um cinema criado do zero, que pode optar por inúmeras formas, cores, estilos, o que torna a animação mágica e fluida. As personagens, que vivem dramas profundos e realistas, estão inseridas em temas atuais como o feminismo e o racismo, mesmo se tratando de uma obra que representa o passado. A série também foi aclamada pela crítica e pelo público, sendo considerada uma das melhores animações da Netflix.

    Serviço: 

    Título Original: Blue Eyes Samurai

    Onde Assistir: Netflix

    Classificação Indicativa: 18 anos (A18)

    Classificação da autora: 18 anos (A18)

    Justificativa: O filme retrata violência explícita, nudez, gore, sexo, sangue e mortes.Além disso, trata de temas sensíveis como estupro.

    Gênero: Animação/Ação

    Por Sophia Helena Ribeiro

  • Quem tem o direito de “ser menina”? 

    Quando pensamos nas fases da vida de uma pessoa que foi designada ao nascer com o gênero feminino e se identifica com ele, o processo da adolescência/pré-adolescência está marcado como um momento repleto de descobertas e processos de amadurecimento. Desde a primeira menstruação até as relações românticas que costumam se iniciar neste período, com o desenvolvimento e expressão da sexualidade, é preciso ter acesso a informações seguras para garantir a liberdade para ser quem somos. 

    No entanto, nem todas as experiências são iguais, com pessoas que conseguem vivenciar todos esses processos de maneira tranquila e outras que “pulam” alguns – não por vontade própria, mas por outros motivos que determinam suas vidas. O filme brasileiro de 2010, Sonhos Roubados, dirigido por Sandra Werneck, mostra o cotidiano de três meninas que vivem em uma comunidade do Rio de Janeiro e enfrentam diversos entraves para continuarem nessa vida. 

    Imagem: cena do filme 

    O longa acompanha Jessica, Daiane e Sabrina, estudantes da rede pública carioca, interpretadas por Nanda Costa, Amanda Diniz e Kika Farias, respectivamente. A amizade carinhosa e bonita nos mostra uma relação que vai além do apoio, existe ali um cuidado e olhares atentos umas com as outras – olhar esse que as três não recebem de seus ciclos familiares, por exemplo. A realidade penosa as coloca em situações precárias, como a necessidade de se prostituírem para garantir a alimentação de sua filha, no caso de Jessica; para que os abusos e violências do tio sejam agora pagas, para Daiane; e para complementar a renda de Sabrina, que mora de aluguel. 

    As opressões somam-se nessas vidas, fazendo com que aspectos de classe e gênero atuem na manutenção das violências sofridas e mais, colocando como “única opção” a venda de seus próprios corpos para subsistência e para alguma possibilidade de liberdade – se é que pode-se afirmar isso neste caso. A trajetória do filme nos serve de alerta para a forma com que mulheres e meninas (cisgênero ou trans) recorrem à prostituição como alternativa de sobrevivência e/ou para superar outros empecilhos, por necessidade. Porém, a forma como essas relações se dão causa danos e traumas que ficam marcados nos corpos e mentes dessas pessoas. 

    No caso de Sonhos Roubados, a identidade de “menina” é retirada à força, deixando explícito nas expressões, dia a dia escolar e formas de falar, que foi uma realidade imposta e não escolhida por nenhuma das três. Elas gostariam de ser meninas, de viver na idade e corpo que têm – por volta de 15 até 17 anos no filme –, mas se vestem da figura mulher, com roupas e experiências destinadas a elas. Quando Jessica é estuprada por dois homens dentro de um carro e é jogada para fora, o choro não é só pela violação brutal que acabou de sofrer, mas também para não estar mais naquela posição, que a fere repetidas vezes. Ela precisa ser “dura” e se impor como autoridade em algum sentido, mas ainda se lembra de quando ajudava o avô na oficina quando criança e guarda com carinho esse sentimento. 

    Quando Daiane encontra, de alguma forma, uma figura materna em Dolores (Marieta Severo), ela é “boba” e infantil, como deve ser. Seu sonho era pintar o cabelo de loiro e ter uma festa de 15 anos – idade que comemora durante a trama. Além disso, algo que vale para todas as meninas é uma sensação de cuidado que falta, ainda que seja pouco, elas o desejam. Quando Sabrina se envolve com um homem mais velho, que provê casa e comida para a jovem, ela se vê feliz, pois deseja o cuidado. 

    O filme aborda e nos incita à discussão de diversos tipos de violência, como estupro, abuso de familiares, relacionamentos abusivos, entre outros. Porém, todas elas nos levam até uma só discussão: quem tem o direito de ser menina? Por que umas podem enquanto para outras é impossível? 

    São perguntas difíceis de serem respondidas de forma objetiva, mas é possível traçar caminhos que nos levem até essas respostas: um deles, nos lembra Heleieth Saffioti – no livro Gênero, Patriarcado e Violência, de 2004 –, ao explicar sobre violência de gênero e porque mulheres e meninas estão na ponta. Ou mesmo Guacira Lopes Louro – em O Corpo Educado, de 1999 –, que expõe como a criação de meninas possui “pedagogias da sexualidade” diferentes dos meninos, com menos liberdade e mais obediência para esses corpos. 

    No final da trama entendemos que alguns sonhos foram, de fato, roubados dessas três meninas-mulheres, mas não todos. Elas resistem e buscam apoio umas nas outras, fazendo uma rede de sobrevivência – como aquela das amizades-amores que já falamos por aqui. É preciso lutar e garantir que os sonhos, infâncias e adolescências de outras meninas não sejam roubados, mas preservados e vivenciados com tranquilidade, amor e liberdade. 

    Serviço: 

    Título Original: Sonhos Roubados 
    Onde Assistir: Amazon Prime Video e Youtube 
    Classificação Indicativa: 16 anos (A16)
    Classificação da autora: 18 anos (A18)
    Justificativa: O filme retrata violência explícita e abuso sexual. Além disso, trata de temas sensíveis.
    Gênero: Drama/Amadurecimento. 

    Por Lia Junqueira

  • Apoio e ação contra o racismo

    O Ariadnes existe para acreditar nos testemunhos de pessoas que sofreram violências de gênero ou sexualidade no ambiente universitário. E em nossa prática, entendemos que é preciso compreender essas violências entrelaçadas a raça, classe, etnia, deficiência, idade, enfim, marcadores de identidade que delimitam privilégios e opressões.

    Ana Luiza está com a gente desde 2023. E ela, assim como muitas, muitos e muites de nós, foi vítima de racismo ou de outras violências e opressões fundadas em nossas identidades, que divergem do que é normalizado (o homem branco cisheterossexual). É ingenuidade pensar que Ana, como mulher negra, vive no mundo com os mesmos privilégios de mulheres brancas e homens negros, por exemplo. Assim como é ingenuidade pensar que, porque o caso ocorreu numa república particular, não diz respeito à universidade.

    Nós estamos ao lado dela desde que nos relatou as violências que enfrentou. E continuaremos caminhando assim. Porque o que ocorreu com Ana Luiza não deveria ocorrer com ninguém, e diz respeito a nós. Ficamos felizes por ver a universidade e outras instâncias demonstrando sua indignação ao acontecimento (infelizmente, mais um em uma longa história e entre outros casos recentíssimos). Contudo, repetimos o que temos falado no Ariadnes: é preciso ir além do repúdio.

    Assim como é preciso ir além das ações de punição, fundamentais para reprimir outros atos e inibir os perpetradores, para reforçar que racismo é crime; que, embora estrutural, é praticado por pessoas, contra outros sujeitos. Mas não podemos pensar em ações que mitiguem a misoginia, a lgbtqiafobia, a transfobia, o racismo, apenas na chave do que ocorre depois: porque o depois pressupõe que essas violências continuam ocorrendo. Ou seja: não questionam, não tentam desmontar, seu caráter estrutural e histórico na sociedade.

    O depois também significa, como nos lembra Débora Diniz, que aquilo que se quebrou, a integridade da Ana e tantas mulheres negras, terá de ser reparado, e talvez nunca fique inteiro novamente. Nossa missão tem de ser, em última instância, evitar a cicatriz. Nossa missão é no antes.

    Para isso, não podemos nos esquecer que estamos em um ambiente educacional, e que toda e qualquer medida deve estar fundada em ações educativas. Sem uma transformação na educação, qualquer saída é provisória. bell hooks nos convida a sermos radicais: no combate ao racismo, é preciso ser radical.

    A maioria dos, das e des estudantes chega à universidade sem letramento racial. Assim como o corpo docente, o corpo técnico, o corpo de pessoas terceirizadas. Em que medida a Educação Básica e a graduação, no Ensino Superior, nos educam em relação ao racismo e outras formas de preconceito? Aí reside a mais radical das intervenções que a universidade deve fazer: a criação de uma comunidade fundada no respeito, nas alianças, na proteção às vulnerabilidades.

    A criação de um departamento, o DEABI, Departamento de Estudos Africanos, Afro-Brasileiros e Indígenas, é passo fundamental neste sentido. A criação de disciplinas eletivas nos cursos não basta: nossa experiência mostra que quem as cursa são justamente as pessoas oprimidas ou aliadas. É preciso oferecer este letramento a toda a comunidade acadêmica, em ciclos básicos obrigatórios, para quem estuda e quem trabalha na universidade.

    Defendemos também, há anos, a criação de formações transversais em raça, inclusão, gênero e sexualidade, meio ambiente, entre outras: temas urgentes que possibilitem a uma pessoa egressa da Ufop possa se posicionar e atuar de modo crítico diante do mundo em que vivemos, seja na área que for.

    Defendemos, ainda, que a Ufop enfrente as questões estruturais relativas ao sistema republicano que organiza muito da vida estudantil da universidade. Amparo fundamental para estudantes, as repúblicas são foco histórico de violências e preconceitos que precisam ser encarados de frente pela universidade, inclusive nas repúblicas privadas.

    Uma república ufopiana só existe em função da universidade. Sem a Ufop, não haveria qualquer república em Mariana, Ouro Preto ou João Monlevade. Não estar no campus, não ser território federal, não significa um ambiente apartado. A instituição precisa se responsabilizar sobre o sistema republicano, em uma perspectiva educativa, e discutir coletivamente este espaço da vida universitária.

    O caso da Ana Luiza nos mobiliza pessoalmente; nos fere porque toca em nossos afetos mais próximos; nos dói porque a violentou. Também é importante pelo que simboliza: pela sua cotidianidade e invisibilidade (que, felizmente, dessa vez foi rompida — mas quantas outras vezes não foi?). Que seja um marco não apenas de repúdio, mas de ação. Sabemos que Ana está sendo acolhida pela gestão da Ufop, e isso é essencial. Mas é só um início. 

    Equipe Ariadnes

  • Chega de Saudade

    Mariana -MG
    2022

    Imagem: arquivo pessoal

    Perdi o ônibus! Por mais que tenha corrido na rua, pedido licença aos idosos da fila da lotérica em minha porta – que, mesmo sem me conhecer, desejam-me bom trabalho – e saído de cara amassada, ainda assim perdi o das 7h45. O próximo demora e a espera parece sem fim. Que saco! Assim que ele chega, embarco naquele vagão gelado, sem as companhias do horário anterior. Sento-me sozinha e, quase instantaneamente, puxo o celular e o fone de ouvido para escutar músicas tristes, afinal, ainda são 8 e pouco da manhã. 

    A viagem nem é tão longa assim e, em menos de 30 minutos, já estou no destino final, uma casa simpática de cor azul, com lindas artes pintadas. Ela está no final de uma ladeira e em frente a uma bela ponte. A vista é bela demais na Rua do Comércio – que não tem muitos comércios. Abro a porta, que faz parte da pintura super colorida, e na parte interior tem muito o que fazer. Sento-me na cadeira amarela de todos os dias e escrevo sobre eventos que já aconteceram. Eles falam de cultura, de educação, de entretenimento e outras muitas coisas. Em todos eles, sem exceção, lembro-me de Cristina. Que saudade!

    Desde muito pequena ela lê para mim, conta as mais diversas histórias de sua vida – que é a mais interessante do mundo –, compartilha um jeito que é só dela e eu tenho o prazer de estar ao lado. Ela aprecia tanto a leitura e a contação de histórias que propôs uma atividade em minha antiga escola: a leitura de um livro por semana. Ao final do projeto, foi homenageada pela direção e eu, ali, com um cachorro-quente nas mãos ao seu ladinho. Que saudade! 

    Todos os dias penso em tantas informações a serem contadas a ela que, quando estamos juntas, acabo me perdendo no embalo de sua voz quase que melódica. Sinto falta todos os dias de nossos cafés da tarde falando sobre os assuntos mais banais e as reflexões mais filosóficas possíveis. Agora os cafés são cheios de “falazada”, mas não as minhas favoritas, que são as de Cristina. 

    As horas passaram rápido. Peguei o ônibus das 11h30 – esse eu não perdi. A hora da aula se aproxima e estou atrasada – nenhuma novidade. Saio correndo e chego a tempo de não perder o ônibus da linha de raciocínio dessa viagem semanal. O tema é álbum, disco, música e seus mais diversos componentes. Mais uma vez todas aquelas referências à MPB, automaticamente, me fazem retornar à infância, escutando todos os LPs com Cristina. Chego à conclusão de que é difícil demais entender tão bem de música, mas não para Cristina. Porque ela entende de tudo.  

    A distância parece que nunca esteve tão grande e já não suporto mais ficar sem o carinho, cuidado e ternura dela. A rotina fica vazia sem suas correrias diárias e seu feijão com coentro. É como perder um ônibus todos os dias e o que fica é a saudade. 

    Mas não, Chega de Saudade! A manhã passou e as luzes apagaram-se, a playlist já mudou e fica somente o Cheiro de Amor – de uma das favoritas de Cristina. Está tudo bem, só perdi o ônibus, mas a viagem vai continuar. 

    *Este texto foi escrito em dezembro de 2022 e retomado em março de 2025, mês que demarca o primeiro ano sem a presença de Cristina. A saudade, agora, é além de física – por conta da distância entre Mariana/MG e Santo Aleixo/RJ –, também eterna e tem, nas memórias, um lugar de conforto. 

    Lia Junqueira

  • As Bastos são fortes

    Mariana -MG
    2023

    Imagem: arquivo pessoal

    Passou-se mais um dia agitado no antigo depósito de gás do Seu Figueiredo, com entradas e saídas de veículos enfumaçados e latidos dos cachorros do quintal. Nesse mesmo endereço, moram diferentes partes da mesma família, ali onde alguns nasceram – no mesmo cômodo onde vieram à vida – no pacato distrito de Santo Aleixo, Rio de Janeiro. Há uma casa maior, pintada com um azul desbotado, caindo aos pedaços do que já foi um dia. Ao lado, um portão enorme de metal todo vazado, dando a possibilidade de observar as árvores frutíferas, carregadas nesse momento do ano. Há também uma casa menor, de telhado antigo e fachada simples. Ela tem um jardim simpático e florido na frente, fazendo jus ao nome da rua, que é Bom Jardim. 
    Nessa mesma residência mora uma mulher baixinha de 60 e poucos anos, amigável e de riso frouxo. 

    – Cristina! – alguém grita do portão, interrompendo nossa conversa recém começada.

    Ela diz que já volta e vai ser rápida. Mentira. Mas não me surpreende, dada a capacidade comunicativa dela, que indo ao mercado conversa com, ao menos, meia dúzia de pessoas. Cristina Maria Bastos de Lima é a quinta de sete filhos. Nasceu em julho de 1958, no mesmíssimo quarto em que dorme todo dia. Seus cabelos são curtos, seus olhos são grandes e estão envoltos em seus óculos. Seus lábios estão sempre cobertos por batom. Sua voz é doce e, quando precisa, é impositiva. Sempre rodeada de muita gente e apreciadora dos momentos sozinha, em que pode chorar – não negando o estereótipo da canceriana com ascendente em câncer – e rezar para todos que promete. Ela retorna após quase meia hora e pergunto:

    – Quem é Cristina? 

    Ela pensa para responder e diz:

    – Uma mulher humilde e batalhadora. 

    – Só isso? – respondo inconformada com a resposta breve. 

    – Acho que sim né… 

    Ela considera sua vida e sua personalidade comuns e modestas. Porém, as vivências narradas denunciam a pessoa extraordinária, forte e única que é. 
    No início do papo, pergunto como foi sua criação e ela, falando quase que em terceira pessoa de si mesma, conta diversas passagens:  
    Na infância, Cristina sai de Santo Aleixo, mais ou menos no interior do Rio de Janeiro – o distrito mageense fica na região metropolitana. Por decisão do seu pai, vai com a família para Cachoeiro do Itapemirim, no Espírito Santo. Ele almejava melhores condições de estudo para as sete crianças e sucesso nas vendas de seu armarinho e, sendo assim, viu ali oportunidades. Porém, com pouco tempo seu pai descobriu que a vida ali era complicada e retornou para o endereço anterior trazendo aquela “renca” de gente. 

    A jovem desenvolveu-se muito bem na escola e, aos 18 anos, entrou na faculdade de Administração na antiga AFE, agora Universidade do Grande Rio. Sua formatura foi a primeira da família no Ensino Superior, trazendo tamanha celebração ao seu pai, que era semianalfabeto, e a sua mãe, de origem simples. Isso levou suas irmãs a ingressarem na universidade e compartilharem daquela experiência.

    – Partindo para fase adulta, quem é essa Cristina e o que ela herdou do ciclo anterior? 

    – Ai não sei, antes eu era muito quieta, tinha muita vergonha de mim… – parece que ela tem certa dificuldade de começar a falar, mas logo vem a resposta que desejava.

    Por mais que ressalte sua timidez na infância, na juventude compreendeu-se melhor e começou a ter contato com muita gente, formando novos laços que leva até hoje. No auge dessa etapa, viajava em todas as oportunidades que podia, sempre conciliando trabalho e  graduação. As viagens eram, em sua maioria, para a região Nordeste com suas irmãs, Regina Maria e Maria Isabel, e suas amigas mais próximas, Marise, Leila e outros nomes que foram surgindo. 

    Há um relato em específico sempre contado por ela: a ida a Canoa Quebrada, Ceará, em 1984. Era um verão especialmente quente e o bronze estava a todo vapor nas lindas – e pouco exploradas, na época – praias de lá. Os dias agitados acompanhavam as noites no Forró de Chão Batido em frente à casa de Dona Luci, onde as meninas ficavam. Era tamanha a animação que Cristina voltou com dois roxos na perna de tanto dançar ao som de estrelas com as músicas de Alípio Martins, cantor de sucesso na época. 
    O Grand Finale dessa viagem foi a marca eterna na pele de Regina, que tatuou, na beira da praia com Pablito, uma lua crescente com pássaros atravessando.  

    Para além dos passeios literais, havia os escritos: as pessoas com quem se correspondia – que nos anos 70 ultrapassaram a marca de 100 contatos. Essas pessoas marcaram sua trajetória de vida e permanecem como amigos após o fim da “moda” da correspondência. Moda que jamais saiu da vida dela. Sua escrita é descomplicada e gostosa de ler, seus registros fotográficos têm a beleza de um profissional das câmeras analógicas, seu estilo tem o básico e o divino em tudo. Seu jeito de ser encantava quem escrevia para Cris naquele período e continua encantando hoje. Há um relato preciso da sua irmã Regina, como parte de uma carta de aniversário escrita por Cristina em 1983, que ressalta sua ligação:

    – Falar de Cristina Maria é falar da minha existência!!! Pensa em duas pessoas ligadas pela “Alma”!!! Nossa definição??? “Junto a Ti, feito Corpo e Alma. Minha Irmã, meu Par. (Kleiton e Kledir)”. 

    Um trecho dessa mesma carta:

    – “Sei que a vida vai aprontar e o que vier, azar a dois é fácil segurar(…) Acho que nunca uma música nos descreveu tão bem, não é mesmo? Para você, com todo o meu carinho. Um beijão.”  

    Antes dos 30 anos, acompanhou todo o processo de adoecimento de sua mãe, que em menos de dois anos, após a descoberta de um câncer de estômago, faleceu sob seus cuidados. Ela ficou ao lado da Dona Deonir até os últimos momentos, paralisando sua carreira, saídas e mostrando o quão comprometida é. Não passou tanto tempo assim e seu pai, com um infarto inesperado, também deixou saudades. Sua perseverança não a deixou desanimar em meio ao período mais conturbado da sua vida. 

    É quase final de uma das entrevistas e pergunto: 

    – Você destacaria alguma grande virada em sua vida? – essa pergunta tem resposta imediata.

    – Claro! A maternidade e o câncer. Esses dois me ensinaram a ser muito, muito melhor.

    Cris foi mãe aos 45 – do segundo tempo – anos. Foi uma gravidez de risco, com direito a diabetes gestacional e quase 20 dias internada na maternidade pública Fernando Magalhães. No final das contas deu tudo certo e hoje eu estou no terceiro período de jornalismo na UFOP.
    Já o câncer, foi diagnosticado em 2010 em exames de rotina, inicialmente na mama. Desde então ela está em tratamento no Instituto Nacional de Câncer (Inca) e permanece resiliente a cada dia. Passou por quatro cirurgias e diferentes tipos de tratamento, desde quimioterapia venosa até a hormonioterapia. Ela segue em acompanhamento, forte e convicta da vida. 

    Ao final da entrevista, Cristina conta uma história:

    – Há uma passagem na família Bastos que gosto muito. Todas as mulheres da família sempre passaram pelas adversidades da vida de forma corajosa, firme e vigorosa, por isso, são conhecidas por sua garra. 

    Deonir não foi diferente; minha mãe, Cristina, não é diferente. Afinal de contas, as mulheres da família Bastos são fortes demais.

    *Este texto foi escrito em fevereiro de 2023, quando estava no terceiro período, e recuperado em março de 2025, mês que marca o primeiro ano sem Cristina. É um perfil da entrevistada, uma breve retomada à sua história de vida e sua construção sob meu ponto de vista – como filha. Além da data difícil que me atravessa, este registro é importante para seguir nessa vida, com as poesias e a força de Cristina. 

    Lia Junqueira