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Miradas da infância

Cartaz da mostra. Arte: Bento Vital. 
Programação completa. Olhar para as infâncias e pensar como elas mesmas imaginam o mundo. Essa é a proposta de Miradas da infância, mostra cinematográfica do projeto Ariadnes, que vai exibir longas-metragens protagonizados por meninos, meninas e menines e que apresentam perspectivas infantis sobre o mundo, ainda que esses filmes sejam dirigidos por adultas e adultos. Essas miradas se cruzam com questões sobre gênero, raça, sexualidade, etnia, região: quem são as crianças que o cinema nos mostra? Quais são e como são as infâncias pensadas ou lembradas pelos olhares adultos?
Programação
08/5: A princesinha
A little princess, Alfonso Cuarón, 1995
Adaptado do romance de Frances H. Burnett, o filme narra a história de uma órfã exposta a abusos em um internato de Nova York no início do século XX, após a morte de seu pai na Índia.15/5: Onde fica a casa do meu amigo
Khane-ye doust kodjast? , Abbas Kiarostami, 1987
Mistura entre ficção e documentário, o filme conta a história de Ahmed, que pega por engano o caderno de seu amigo e precisa devolvê-lo para evitar que o menino seja punido na escola, caso não leve o dever de casa.22/5: Meu pé de laranja lima
Meu Pé de Laranja Lima, Marcos Bernstein, 2012
Diante de uma realidade dura e da falta de afeto, o pequeno Zezé usa a imaginação para transformar um pé de laranja lima em seu refúgio e confidente. Entre travessuras e descobertas, ele encontra na amizade improvável com o “Portuga” o verdadeiro significado de ser amado. Baseado no clássico de José Mauro de Vasconcellos, o filme é um retrato poético e visceral sobre a infância e o momento em que a fantasia de ser criança dá lugar ao amadurecimento. Uma experiência obrigatória e emocionante que abraça qualquer um que assiste.29/5: O túmulo dos vagalumes
Hotaru no haka, Isao Takahata (Studio Ghibli), 1988
A animação percorre os desafios vividos por Seita, um adolescente de 14 anos e sua irmã Setsuko, de quatro anos, que depois de perderem seus pais precisam encontrar meios de sobreviver no Japão pós Segunda Guerra Mundial.12/6: Conta comigo
Stand by me, Rob Reiner, 1986
“Conta Comigo” é uma adaptação da novela “O Corpo” de Stephen King. O filme conta a história de quatro garotos que, ao descobrirem o desaparecimento de um menino em sua cidade natal, a fictícia Castle Rock, decidem ir à procura de seu paradeiro. Durante a busca, os amigos acabam vivendo uma aventura repleta de desafios e reflexões.”19/6: Close
Close, Lukas Dhont, 2022
Close é um drama belga que retrata a história de dois amigos inseparáveis, Léo e Rémi, de 13 anos, que veem sua relação mudar devido à pressão social. Sensível e impactante, o longa-metragem acompanha as consequências desse rompimento, abordando, desde cedo, temas como masculinidade tóxica, amizade e perda.26/6: Marte Um
Marte Um, Gabriel Martins, 2022
A partir das tensões políticas que se estabelecem no país após a eleição de um presidente de extrema-direita, Marte Um (2022) traz a história dos Martins, uma família negra de classe média-baixa que vive na periferia de Contagem, região metropolitana de Belo Horizonte. Sob um olhar sensível, a obra tece, a partir do acompanhamento de um cotidiano simples, múltiplas histórias que evidenciam a esperança frente a uma desigualdade social que sufoca sonhos.3/7: Lindinhas
Mignonnes, Maïmouna Doucouré, 2020
No longa acompanhamos Amy, uma menina de 11 anos de origem senegalesa que vive em Paris. Dividida entre dois mundos contrastantes — os valores tradicionais de sua família e a cultura influenciada pela internet —, ela se aproxima de um grupo de dança local, passando a explorar questões relacionadas à sua identidade, à descoberta da sexualidade e à hipersexualização infantil frequentemente presente nas redes sociais.- As sessões são gratuitas e acontecem sempre às 9h, na sala 207 do ICSA;
- Todas as sessões serão seguidas de uma conversa;
- Haverá emissão de certificados para quem comparecer a 75% das sessões.
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As Bastos são fortes
Mariana -MG
2023
Imagem: arquivo pessoal Passou-se mais um dia agitado no antigo depósito de gás do Seu Figueiredo, com entradas e saídas de veículos enfumaçados e latidos dos cachorros do quintal. Nesse mesmo endereço, moram diferentes partes da mesma família, ali onde alguns nasceram – no mesmo cômodo onde vieram à vida – no pacato distrito de Santo Aleixo, Rio de Janeiro. Há uma casa maior, pintada com um azul desbotado, caindo aos pedaços do que já foi um dia. Ao lado, um portão enorme de metal todo vazado, dando a possibilidade de observar as árvores frutíferas, carregadas nesse momento do ano. Há também uma casa menor, de telhado antigo e fachada simples. Ela tem um jardim simpático e florido na frente, fazendo jus ao nome da rua, que é Bom Jardim.
Nessa mesma residência mora uma mulher baixinha de 60 e poucos anos, amigável e de riso frouxo.– Cristina! – alguém grita do portão, interrompendo nossa conversa recém começada.
Ela diz que já volta e vai ser rápida. Mentira. Mas não me surpreende, dada a capacidade comunicativa dela, que indo ao mercado conversa com, ao menos, meia dúzia de pessoas. Cristina Maria Bastos de Lima é a quinta de sete filhos. Nasceu em julho de 1958, no mesmíssimo quarto em que dorme todo dia. Seus cabelos são curtos, seus olhos são grandes e estão envoltos em seus óculos. Seus lábios estão sempre cobertos por batom. Sua voz é doce e, quando precisa, é impositiva. Sempre rodeada de muita gente e apreciadora dos momentos sozinha, em que pode chorar – não negando o estereótipo da canceriana com ascendente em câncer – e rezar para todos que promete. Ela retorna após quase meia hora e pergunto:
– Quem é Cristina?
Ela pensa para responder e diz:
– Uma mulher humilde e batalhadora.
– Só isso? – respondo inconformada com a resposta breve.
– Acho que sim né…
Ela considera sua vida e sua personalidade comuns e modestas. Porém, as vivências narradas denunciam a pessoa extraordinária, forte e única que é.
No início do papo, pergunto como foi sua criação e ela, falando quase que em terceira pessoa de si mesma, conta diversas passagens:
Na infância, Cristina sai de Santo Aleixo, mais ou menos no interior do Rio de Janeiro – o distrito mageense fica na região metropolitana. Por decisão do seu pai, vai com a família para Cachoeiro do Itapemirim, no Espírito Santo. Ele almejava melhores condições de estudo para as sete crianças e sucesso nas vendas de seu armarinho e, sendo assim, viu ali oportunidades. Porém, com pouco tempo seu pai descobriu que a vida ali era complicada e retornou para o endereço anterior trazendo aquela “renca” de gente.A jovem desenvolveu-se muito bem na escola e, aos 18 anos, entrou na faculdade de Administração na antiga AFE, agora Universidade do Grande Rio. Sua formatura foi a primeira da família no Ensino Superior, trazendo tamanha celebração ao seu pai, que era semianalfabeto, e a sua mãe, de origem simples. Isso levou suas irmãs a ingressarem na universidade e compartilharem daquela experiência.
– Partindo para fase adulta, quem é essa Cristina e o que ela herdou do ciclo anterior?
– Ai não sei, antes eu era muito quieta, tinha muita vergonha de mim… – parece que ela tem certa dificuldade de começar a falar, mas logo vem a resposta que desejava.
Por mais que ressalte sua timidez na infância, na juventude compreendeu-se melhor e começou a ter contato com muita gente, formando novos laços que leva até hoje. No auge dessa etapa, viajava em todas as oportunidades que podia, sempre conciliando trabalho e graduação. As viagens eram, em sua maioria, para a região Nordeste com suas irmãs, Regina Maria e Maria Isabel, e suas amigas mais próximas, Marise, Leila e outros nomes que foram surgindo.
Há um relato em específico sempre contado por ela: a ida a Canoa Quebrada, Ceará, em 1984. Era um verão especialmente quente e o bronze estava a todo vapor nas lindas – e pouco exploradas, na época – praias de lá. Os dias agitados acompanhavam as noites no Forró de Chão Batido em frente à casa de Dona Luci, onde as meninas ficavam. Era tamanha a animação que Cristina voltou com dois roxos na perna de tanto dançar ao som de estrelas com as músicas de Alípio Martins, cantor de sucesso na época.
O Grand Finale dessa viagem foi a marca eterna na pele de Regina, que tatuou, na beira da praia com Pablito, uma lua crescente com pássaros atravessando.Para além dos passeios literais, havia os escritos: as pessoas com quem se correspondia – que nos anos 70 ultrapassaram a marca de 100 contatos. Essas pessoas marcaram sua trajetória de vida e permanecem como amigos após o fim da “moda” da correspondência. Moda que jamais saiu da vida dela. Sua escrita é descomplicada e gostosa de ler, seus registros fotográficos têm a beleza de um profissional das câmeras analógicas, seu estilo tem o básico e o divino em tudo. Seu jeito de ser encantava quem escrevia para Cris naquele período e continua encantando hoje. Há um relato preciso da sua irmã Regina, como parte de uma carta de aniversário escrita por Cristina em 1983, que ressalta sua ligação:
– Falar de Cristina Maria é falar da minha existência!!! Pensa em duas pessoas ligadas pela “Alma”!!! Nossa definição??? “Junto a Ti, feito Corpo e Alma. Minha Irmã, meu Par. (Kleiton e Kledir)”.
Um trecho dessa mesma carta:
– “Sei que a vida vai aprontar e o que vier, azar a dois é fácil segurar(…) Acho que nunca uma música nos descreveu tão bem, não é mesmo? Para você, com todo o meu carinho. Um beijão.”
Antes dos 30 anos, acompanhou todo o processo de adoecimento de sua mãe, que em menos de dois anos, após a descoberta de um câncer de estômago, faleceu sob seus cuidados. Ela ficou ao lado da Dona Deonir até os últimos momentos, paralisando sua carreira, saídas e mostrando o quão comprometida é. Não passou tanto tempo assim e seu pai, com um infarto inesperado, também deixou saudades. Sua perseverança não a deixou desanimar em meio ao período mais conturbado da sua vida.
É quase final de uma das entrevistas e pergunto:
– Você destacaria alguma grande virada em sua vida? – essa pergunta tem resposta imediata.
– Claro! A maternidade e o câncer. Esses dois me ensinaram a ser muito, muito melhor.
Cris foi mãe aos 45 – do segundo tempo – anos. Foi uma gravidez de risco, com direito a diabetes gestacional e quase 20 dias internada na maternidade pública Fernando Magalhães. No final das contas deu tudo certo e hoje eu estou no terceiro período de jornalismo na UFOP.
Já o câncer, foi diagnosticado em 2010 em exames de rotina, inicialmente na mama. Desde então ela está em tratamento no Instituto Nacional de Câncer (Inca) e permanece resiliente a cada dia. Passou por quatro cirurgias e diferentes tipos de tratamento, desde quimioterapia venosa até a hormonioterapia. Ela segue em acompanhamento, forte e convicta da vida.Ao final da entrevista, Cristina conta uma história:
– Há uma passagem na família Bastos que gosto muito. Todas as mulheres da família sempre passaram pelas adversidades da vida de forma corajosa, firme e vigorosa, por isso, são conhecidas por sua garra.
Deonir não foi diferente; minha mãe, Cristina, não é diferente. Afinal de contas, as mulheres da família Bastos são fortes demais.
*Este texto foi escrito em fevereiro de 2023, quando estava no terceiro período, e recuperado em março de 2025, mês que marca o primeiro ano sem Cristina. É um perfil da entrevistada, uma breve retomada à sua história de vida e sua construção sob meu ponto de vista – como filha. Além da data difícil que me atravessa, este registro é importante para seguir nessa vida, com as poesias e a força de Cristina.
Lia Junqueira
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Desembaça: sexualidade e gênero no funk
Mc Carol, Tati Quebra Barraco, Valesca Popozuda: o que essas mulheres têm em comum? Todas elas são cantoras de funk e falam abertamente sobre sua sexualidade, seus corpos e são citadas no podcast Desembaça. Desembaça é um podcast sobre o papel das mulheres na construção da cultura funk e foi desenvolvido como Trabalho de Conclusão de Curso da jornalista Yasmim Paulino, para concluir sua graduação na Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop).

No primeiro episódio é apresentado e contextualizado o início do funk no Brasil, entre os anos de 1980 e 1990, passando por memórias da própria locutora sobre o gênero. Os primeiros bailes eram realizados no Canecão, um espaço que posteriormente virou casa de shows de MPB e convidou a festa a se retirar, levando os encontros a ocuparem outros espaços, como subúrbios e favelas, tornando-se popular entre o público pobre e negro. Nesse episódio ela também fala sobre como o jornalismo teve um papel fundamental na marginalização do ritmo, associando os bailes ao tráfico e a outros tipos de crime, o que influencia na aceitação das músicas até hoje.
Com uma edição bem feita e fluida, Yasmim narra sobre as primeiras mulheres a enveredar por esse gênero. Nesse episódio são falados nomes de mulheres como Verônica Costa, uma das fundadoras do Furacão 2000 que sempre enaltecia as funkeiras usando termos como “glamourosas, purpurinadas e poderosas” e, como destacado durante a locução, batia de frente com outras denominações como preparadas e tchutchucas, usadas nas músicas pelos homens com uma perspectiva machista. Outros nomes são de MC Ellu, possivelmente a primeira funkeira mulher que gravou, em 1992, um funk que pautava o assédio, Mc Cacau, MC Dandara e Deize Tigrona, que começa o movimento de cantar sobre o desejo feminino na perspectiva das mulheres, dando início ao funk sensual.
No fim desse primeiro episódio, intitulado “valeu, mto obrigada mas agr virei p*ta” – trecho da música de Valesca Popozuda – Yasmim faz o seguinte questionamento: “Mas o que será que significa uma mulher cantar sobre putaria? Uma mulher negra vai subir no palco e te dizer com autonomia sobre o próprio desejo?”.
É a partir desses questionamentos que o segundo episódio, “fama de put0n@”, fala sobre outra geração de mulheres no funk, que pautam o sexo na maioria de suas composições. Nessa época o funk retratava apenas o lado masculino da sexualidade, o que começa a mudar com a nova geração, com destaque para Tati Quebra Barraco, Vanessinha Pikachu e Valesca Popozuda. Nesse episódio a locutora conta sobre uma situação vivida por Tati Quebra Barraco, que foi convidada a representar o Brasil no festival alemão Ladyfest, uma viagem financiada pelo Ministério da Cultura que recebeu diversas críticas, como a da feminista e integrante da secretaria especial de Políticas para Mulheres Rose Marie Muraro, que disse: “Tati é um objeto sexual não um agente de mudanças”, em uma entrevista para a revista Istoé em 2004.

Tati em Stuttgart para o Ladyfest em 2004 (crédito: Reprodução/Instagram (@tatiquebrabarraco)) Esse preconceito com o funk e com as funkeiras vem de um lugar da moral, como explicado por Yasmim durante o podcast. As mulheres do funk tiram “das quatro paredes do matrimônio” o sexual e cantam isso abertamente. Podemos fazer aqui uma comparação com Rita Lee, que cantava sobre sexo e posições sexuais, e é vista como símbolo de liberdade e de amor. Rita é vista como agente de mudança e não objeto sexual. Será que isso acontece porque ela era branca, classe alta e casada?
O funk da geração de Tati Quebra Barraco traz a possibilidade de fazer “emergir minorias por meio da representação midiática”, como diz a pesquisadora Natália Lima Amaral em seu TCC sobre a representação e a loucura. O funk como gênero musical, antes cantado por e na perspectiva dos homens, com a chegada das funkeiras se torna um espaço de falar também sobre a perspectiva feminina, principalmente relacionada ao sexo e ao prazer, mas não só.
MC Hariel, famoso por cantar funks conscientes, comenta, em uma entrevista com Marcelo Tas no programa Provoca da TV Cultura, sobre como os MCs têm a função de trazer e apresentar a “cultura”, músicas, livros e pensamento para a população periférica que talvez não tivesse acesso em outro formato. Além disso, Hariel responde uma pergunta dos telespectadores sobre o funk ser machista da seguinte forma: “Acho que funk é um retrato da sociedade”. Segundo ele, o grupo social que canta e escuta funk é o que mais consome televisão e outras produções das classes de cima, então criticar apenas esse gênero, e não outras produções como as novelas e filmes, é hipócrita.
Ainda no primeiro episódio o Desembaça cita uma entrevista de Valesca Popozuda em que ela fala que recebia diversas cartas de fãs falando que passaram por abuso e agressão, porque ela apresentava esse lugar de expor e dar voz a situações vivenciadas na comunidade que não eram explícitas de outras formas. As funkeiras traziam, mesmo que sem esse nome, o discurso feminista para perto das mulheres das comunidades, dando visibilidade para um assunto que não chegaria nelas de outra forma.

Valesca Popozuda (crédito: Reprodução/Instagram (@velescapopozuda)) Durante o podcast, Yasmim entrevista GG Albuquerque, crítico musical, doutorando em Comunicação na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e responsável por criar o termo poética da putaria, que é o tipo de narrativa criada por Tati Quebra Barraco, em que o sexo presente nas letras do funk perpassa questões de raça, classe e gênero. Com essa poética da putaria, as MCs trazem e dão visibilidade a assuntos pouco discutidos na perspectiva feminina, colocando em disputa, dentro do funk, o discurso do homem como dominador das relações e como o único detentor do prazer feminino.
No terceiro episódio escutamos sobre MC Carol de Niterói, Bonde das Maravilhas, MC Rebeca, MC Anitta, MC Beyonce e MC Pocahontas, que, mesmo fazendo parte da mesma geração, têm aspectos musicais distintos. Com o acesso à internet e as discussões sobre o corpo feminino ganhando novas proporções, em 2019 se inicia uma nova geração, intitulada por Tamiris Coutinho, autora do livro Cai de boca no meu b*c3t@o: O funk como potência do empoderamento feminino, como bonde das faixa rosa. Esse grupo é composto por MC Drika, Bianca, Paty Trem Barbie, entre outras funkeiras, que passam a usar o funk como um espaço empoderador em diversos aspectos de sua vida, sem necessariamente passar pelo sexo.
Ainda no terceiro e último episódio, outros pesquisadores de funk discutem sobre a dualidade do gênero musical no sentido da liberdade. GG Albuquerque diz que, mesmo o funk sendo um espaço de empoderamento, é, também, um lugar dúbio e delicado como formador de liberdades. A própria indústria cultural empurra as funkeiras para o lugar de cantar putaria, porque é o que vende. GG cita uma entrevista em que MC Dandara fala sobre isso: como o que vende é a putaria é para lá que a MC foi. Mesmo com maior visibilidade atualmente, o mercado da música ainda não valoriza o funk e nem as mulheres funkeiras fora da lógica do mercado de compra e venda.
Tamiris Coutinho fala sobre como a objetificação e o empoderamento sempre vão estar no mesmo caldo social do funk e que, para ela, o empoderamento vem no sentido do direito ao prazer que ainda é negado a algumas mulheres, e que é um espaço muitas vezes reivindicado pelas funkeiras, que passam outra perspectiva do sexo. Como disse Danilo Cymrot, autor do livro O funk na batida: Baile, rua e parlamento, em entrevista a Yasmim Paulino, o funk tem esse caráter de conseguir transgredir conceitos sociais, mas também de reforçar estereótipos, já que é um universo tão amplo.
Por Ana Beatriz Justino
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Professor da Universidade Federal de Ouro Preto é demitido por “condutas de conotação sexual impróprias”
É o primeiro docente da UFOP a ser demitido por conduta sexual inadequada
No dia 07 de fevereiro de 2025, o professor Gustavo Pereira Benevides foi demitido da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), por meio da Decisão Administrativa 1/2025 da reitoria. A decisão foi publicada no Boletim Administrativo Nº 05/2025 da instituição.
A reitoria da universidade decidiu acatar totalmente o Processo Administrativo Disciplinar (PAD) de 2024 que averiguou condutas de conotação sexual impróprias de Gustavo Pereira Benevides. Com base nas provas, o PAD recomendou a penalidade de demissão, o que foi acatado pela Ufop. A decisão destaca que as condutas ocorreram “no exercício de suas funções e com relevante repercussão sobre sua atuação funcional”.
A argumentação do Grupo Permanente de Processo Administrativo Disciplinar (Grupad) foi baseada na lei nº8112/1990, que rege a conduta dos servidores públicos federais. Mais precisamente no artigo 116, inciso IV, que diz: “É dever do servidor manter conduta compatível com a moralidade administrativa”; do artigo 117, inciso V e IX, que diz: “É proibido ao servidor promover manifestação de apreço ou desapreço no recinto da repartição e valer-se do cargo para lograr proveito pessoal ou de outrem, em detrimento da dignidade da função pública”, e do artigo 132, inciso V: “incontinência pública e conduta escandalosa, na repartição”.
Gustavo Pereira Benevides atuava como professor na Ufop desde 2007 e é membro do Departamento de Ciências Biológicas (DECBI). Estava designado a dar aulas de Anatomia Humana para os cursos de Medicina, Educação Física e Ciências Biológicas em nível de graduação. Segundo a nota da Universidade, o professor está afastado por questões médicas desde 2023.
Em nota para o G1, o escritório Resende & Mesquita Advogados Associados, responsáveis pela defesa de Gustavo, disse que “todas as medidas legais cabíveis estão sendo adotadas para assegurar a revisão da penalidade aplicada”. O acusado tem 30 dias, a contar a contar da publicação ou da ciência da acusação, para recorrer, segundo o artigo 108 da Lei nº 8.112.
Processo
O PAD é o instrumento do serviço público para “apurar a responsabilidade do servidor por infração praticada no exercício de suas atribuições, ou que tenha relação com as atribuições do cargo que ocupa”, de acordo com a Controladoria Geral da União (CGU). A responsabilização administrativa de um servidor público não exclui a possibilidade de responsabilização nas esferas civil e penal.
Confira o manual da CGU sobre o tema.Por Equipe Ariadnes
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A feminilidade no horror slasher

Final Girls e assassinos que aparecem no texto No cinema, os filmes são classificados por categorias narrativas, os gêneros cinematográficos, como o romance, a comédia, o drama, o horror e vários outros. Dentro desses existem os subgêneros. No horror, há os filmes sobrenaturais, que geralmente retratam possessões ou a presença de forças além da compreensão humana, com clássicos como O Exorcista (1973) e Invocação do Mal (2013). Também existem os filmes de found footage, que simulam gravações amadoras de eventos aterrorizantes, como em A Bruxa de Blair (1999). O horror corporal explora transformações físicas grotescas e a degradação do corpo, como em A Mosca (1986).
No gore, a violência explícita e chocante é o foco, como em Jogos Mortais (2004). Outros subgêneros incluem o terror teen, voltado para jovens e geralmente envolvendo mistérios ou perseguições, como em Pânico (1996); o terror psicológico, que lida com a mente e o medo do desconhecido, como em O Iluminado (1980); o trash, que abraça o absurdo e o exagero, como em O Ataque dos Tomates Assassinos (1978); e o thriller de horror, que combina tensão e elementos sobrenaturais ou humanos, como em Corra! (2017). Por fim, o slasher, um subgênero marcante, que ganhou destaque especialmente nos anos 80, trazendo histórias sangrentas de assassinos em série, com armas brancas, perseguições intensas e vítimas marcadas pelo destino.
O nascimento do slasher
A palavra “slasher” vem do verbo em inglês to slash, que significa cortar ou retalhar. Esses filmes têm como característica principal a presença de um assassino, que utiliza armas brancas (como facas, machados ou serras) como método de ataque, além de um figurino ou máscara memoráveis que se tornam marcas registradas.
Nos slashers, o assassino é muitas vezes o personagem mais marcante, tornando-se o ícone das franquias, como Michael Myers (Halloween), Jason Voorhees (Sexta-Feira 13), Leatherface (O Massacre da Serra Elétrica), Freddy Krueger (A Hora do Pesadelo). Além disso, os filmes frequentemente seguem um padrão narrativo envolvendo um grupo de jovens – geralmente imprudentes – que são perseguidos e assassinados, enquanto uma única sobrevivente, a famosa Final Girl (Garota Final, em português), consegue escapar do massacre. Porém, também é comum nesse subgênero que as mulheres sejam a maioria das vítimas, com mortes muito violentas. Exemplo disso é Michael Myers ser conhecido como “o matador de babás” e Jason Voorhees como “caçador de jovens que fazem sexo”.
Embora o slasher tenha se consolidado como um subgênero na década de 1980, suas origens podem ser rastreadas até filmes dos anos 60 e 70. Psicose (1960), de Alfred Hitchcock, é frequentemente citado como um precursor do gênero, com sua câmera subjetiva que coloca o público na perspectiva do assassino. Outro exemplo é Tortura do Medo (Peeping Tom, 1960), que também explora o ponto de vista do agressor.
Um filme que também fez parte do surgimento do slasher, porém menos conhecido pelo grande público, é Black Christmas (1974). A obra introduziu elementos que seriam cruciais para o gênero, como um grupo de jovens vítimas e a visão subjetiva do assassino. Entre os fãs do subgênero, é considerado um dos primeiros slashers modernos.Mas foi com Halloween (1978), dirigido por John Carpenter, que o slasher encontrou sua forma definitiva, como conhecemos hoje. O filme popularizou a figura do assassino mascarado – Michael Myers –, cujas motivações são quase sobrenaturais. Ele persegue suas vítimas com frieza e utiliza facas ou o próprio corpo para matar. Além disso, introduziu ao público a Final Girl mais famosa do horror até então: Laurie Strode, interpretada por Jamie Lee Curtis.

Laurie Strode em “Halloween” (1978) A construção das personagens femininas
Afinal, quem são as Final Girls? É provável que você já tenha lido ou escutado esse termo em algum momento. Foi citado pela primeira vez pela professora de estudos de cinema estadunidense Carol J. Clover no livro Men, Women, and Chainsaws, de 1992 (Homens, mulheres e serras elétricas, em tradução livre). Resumindo, a Final Girl é a personagem que tem desenvolvimento psicológico e introdução no início do filme. No final, é ela quem enfrenta o vilão da história, desafiando os papeis tradicionais de gênero, derrotando-o por conta própria ou sendo resgatada no último instante por alguém, como um policial. Sua sobrevivência é retratada como um “privilégio”, pois ela tem uma suposta superioridade moral, já que, diferentemente de seus amigos, ela evita certos comportamentos considerados transgressivos, como sexo e uso de drogas.
Clover também nos diz que essas personagens femininas são escritas a partir do olhar masculino. Laura Mulvey cunhou pela primeira vez o termo male gaze (olhar masculino), em seu ensaio Visual Pleasure and Narrative Cinema. E o conceito tem a ver com a forma de representar as mulheres através de estereótipos e estigmas masculinos. O olhar masculino no cinema transforma as mulheres em objetos de desejo, reduzindo sua profundidade psicológica e relevância narrativa em favor da perspectiva masculina heterossexual. Seus sentimentos e desejos são secundários, e sua presença muitas vezes não impacta a trama. Além disso, o conceito exclui olhares queer ou homossexuais, focando na visão masculina heteronormativa.
O olhar masculino no cinema também reforça a passividade das mulheres, que são apresentadas como portadoras de significado, mas não como criadoras dele. Elas não controlam a cena, apenas existem para serem observadas de forma objetificada. Enquanto isso, os homens raramente são sexualizados da mesma maneira, pois o cinema tradicional não convidaria as mulheres a desejá-los. Para participar desse olhar, a mulher precisa se identificar com a perspectiva masculina, assumindo o papel de observadora sob os mesmos moldes da objetificação que a exclui.
Apesar disso tudo, no slasher as final girls quebraram um pouco a dinâmica de identificação entre gêneros, fazendo com que os homens também conseguissem se colocar no lugar daquela personagem feminina e torcer por sua vida. Clover sugere que isso se dá pois o filme slasher “resolve” a fetichização eliminando as personagens femininas ao longo da trama e reconstruindo a final girl com características tradicionalmente masculinas, como no auto-resgate e lutar para se tornar uma heroína. Assim, mesmo quando uma mulher sobrevive, é apenas porque ela se adapta às exigências de um cinema dominado pelo olhar masculino.

Sally Hardesty após sobreviver do Leatherface em “O Massacre da Serra Elétrica” (1974) No cinema de horror, especialmente nos filmes slasher, o terror é representado como feminino, pois expressões intensas de medo e vulnerabilidade, como gritos e súplicas, são tradicionalmente associadas às mulheres. Como aponta Clover, enquanto as mortes masculinas costumam ser rápidas e ocorrer fora de cena, as vítimas femininas são perseguidas e torturadas por mais tempo, permitindo que sua angústia seja explorada visualmente. Essa lógica reforça a centralidade do olhar masculino, que não apenas objetifica e elimina as mulheres, mas também transforma sua dor e fragilidade em espetáculo. Ainda, acrescento que o fato de todas as Final Girls serem brancas, e em sua maioria loiras, reforça essa fragilidade e explica a ausência de protagonistas negras, pois elas não são vistas como pessoas indefesas e merecedoras de compaixão por sua luta em busca da sobrevivência. Ou são retratadas como transgressoras que devem ser eliminadas, especialmente quando hiperssexualizadas – outro estereótipo frequentemente associado às mulheres negras.
A exclusão não se limita apenas às Final Girls, mas se estende ao próprio cinema de horror, que é majoritariamente dominado por produções norte-americanas. A hegemonia desses filmes dita padrões estéticos e narrativos, restringe a diversidade de representações e marginaliza personagens racializados, dificultando a ampliação de olhares que fujam da perspectiva branca e ocidental, embora algumas produções recentes busquem romper com esse modelo, como os filmes de Jordan Peele.

Lupita Nyongo em “Nós” (2019) dirigido por Jordan Peele. 
Lupita Nyongo em “Nós” (2019) dirigido por Jordan Peele. O gênero slasher também reforça o fenômeno de culpabilizar as mães, principalmente pela criação na infância, pelo destino violento de seus filhos, como exemplificado nos filmes Psicose e Halloween, onde a figura materna é associada à origem da violência. Esse processo pode ser analisado a partir da psicanálise, especialmente pelas teorias freudianas sobre a relação dos filhos com suas mães.
Sigmund Freud teorizou que a relação primária da criança, especialmente dos meninos, com a mãe envolve tanto um vínculo de afeto quanto uma tensão decorrente do Complexo de Édipo. Nesse sentido, a mãe pode ser vista simultaneamente como uma figura de desejo e como uma ameaça à independência do filho, gerando um conflito psíquico que, no cinema de terror, é frequentemente representado de maneira distorcida e violenta. Em Psicose (1960), Norman Bates não apenas internaliza a presença materna a ponto de incorporar sua identidade, mas também vê sua sexualidade como algo punível pela mãe, desencadeando sua violência. O filme reforça a ideia de que a maternidade excessivamente controladora e castradora pode levar o filho à loucura e ao homicídio, ecoando estereótipos da “mãe sufocante” que, segundo a psicanálise, impediria o desenvolvimento saudável da masculinidade.
Em Halloween (1978), a figura materna é menos explícita, mas a culpa pela violência de Michael Myers ainda recai sobre sua criação, reforçando a ideia de que a falha materna na infância é a raiz do comportamento assassino. O terror slasher, de forma geral, perpetua esse imaginário ao apresentar assassinos que frequentemente têm uma relação problemática com a mãe, seja pela ausência, pelo excesso de proteção ou por uma sexualidade reprimida e distorcida.
Além do fator psicanalítico, há um simbolismo visual presente no slasher que reforça a conexão entre violência, desejo reprimido e gênero. O ato de esfaquear, central na coreografia desses filmes, muitas vezes remete a movimentos eróticos, o que intensifica a associação entre sexualidade e violência. A faca, como um símbolo fálico, é usada para penetrar os corpos das vítimas de maneira agressiva e repetitiva, transformando a cena de assassinato em um espetáculo de dominação, punição e fetiche. Essa lógica se alinha à construção dos assassinos masculinos no slasher: muitas vezes, sua violência é desencadeada por frustrações sexuais e um desejo de exercer controle sobre figuras femininas.
Dessa forma, o gênero slasher não apenas reforça a fetichização da violência contra a mulher, mas também perpetua uma visão deturpada da maternidade, responsabilizando as mães pela violência dos filhos e sugerindo que a repressão ou excesso de proteção materna pode levar à loucura e ao assassinato. Esse padrão narrativo não apenas reforça estereótipos misóginos, mas também limita as possibilidades de representação de personagens maternas e femininas no cinema de horror.

Norman Bates em “Psicose” (1960) 
Michael Myres em “Halloween” (1978) O auge e o declínio do gênero
Nos anos 80, os slashers atingiram seu auge. Franquias como Sexta-Feira 13, O Massacre da Serra Elétrica e Halloween estabeleceram fórmulas narrativas que seriam repetidas inúmeras vezes. O assassino mascarado tornou-se quase uma força da natureza, implacável em sua perseguição às vítimas.Mas, à medida que o mercado foi saturado com produções de baixa qualidade e histórias repetitivas, o gênero começou a perder força nos anos 90. Pânico (1996), dirigido por Wes Craven, subverteu vários aspectos tradicionais do gênero, numa época em que o slasher estava em crise. O filme, com metalinguagem, autorreflexão e piadas com os clichês dos filmes anteriores, renovou o slasher. Sidney Prescott (Neve Campbell), é a final girl do filme: ela luta com o assassino, Ghostface, não é virgem e consegue se salvar sozinha; na verdade, com a ajuda de outra mulher no final. Dessa forma, o filme ia contra tudo o que estava sendo feito no slasher. Porém, o subgênero não conseguiu sustentar sua popularidade por muito tempo.
O renascimento do slasher nos anos 2020
Após décadas de altos e baixos, o slasher voltou a ganhar força nos anos 2020, resgatando sua estética clássica e, ao mesmo tempo, reinventando suas narrativas. Produções como o reboot de Halloween (2018) e Pânico (2022) trouxeram de volta as icônicas Final Girls para confrontar os assassinos que marcaram o gênero, mostrando que essas personagens femininas não apenas sobreviveram ao massacre original, mas também se tornaram tão centrais à franquia quanto seus antagonistas, os assassinos mascarados.
O lançamento de novos filmes como as trilogias Rua do Medo (2021), da Netflix, e X- A marca da Morte, Pearl (2022) e Maxxine (2024), da A24, fizeram com que o subgênero passasse por uma atualização que combinou nostalgia com estética retrô e moderna, além de várias referências aos filmes dos anos 80. Saudando os slashers antigos, mas trazendo uma narrativa completamente diferente daquele tempo, continuando o que Pânico iniciou, mas de uma forma ainda mais escancarada, fugindo da protagonista inocente, branca e classe média.
Não são apenas as mulheres lutando pela vida e fugindo de vários assassinos, mas um casal de mulheres – e spoiler – que não morrem no final. Não é apenas a garota que não é mais virgem sobrevivendo, mas uma atriz de filmes eróticos; e não mais um assassino mascarado, mas uma assassina idosa. É interessante ver como estes filmes bebem na fonte do subgênero slasher mas conseguem também subverter várias chaves das representações de gênero. Como em X, em que os homens morrem primeiro que as mulheres e por meio de mortes também brutais em tela.

Deena e Sam em “Rua do Medo – 1994” (2021) 
Maxine em “X – A Marca da morte” (2022) Para o futuro
O slasher é um subgênero que, apesar de suas limitações narrativas e críticas ao longo dos anos, conseguiu se reinventar e permanecer relevante. Ele não só moldou a forma como vemos o horror, mas também criou ícones culturais que continuam a influenciar o cinema até hoje. Seja pelo apelo nostálgico ou pela capacidade de refletir temas sociais e culturais, os slashers continuam a cortar fundo na imaginação do público. Se antes a sobrevivência era um privilégio das mulheres brancas e moralmente “corretas”, hoje vemos protagonistas que não precisam mais se encaixar nesses moldes para existir.
Apesar disso, o gênero horror e seus subgêneros ainda carregam marcas de exclusão. Durante anos, personagens negros foram relegados a papéis descartáveis, sendo conhecidos por serem os primeiros a morrer e reforçando a ideia de que seus corpos não eram dignos de protagonismo. Diretores como Jordan Peele desafiam esse padrão, colocando personagens negros no centro da narrativa e subvertendo a lógica que antes os condenava à morte precoce. Da mesma forma, filmes recentes, como As Boas Maneiras (2017) e Morte, Morte, Morte (2022), ampliam a representação de gênero e sexualidade, permitindo que mulheres queer e personagens racializados tenham mais espaço na trama.
Para o futuro do slasher, espero que foque em um horror que muda quem tem direito a viver para contar a história. Antes o gênero reafirmava papeis de gênero e raça limitantes, agora ele pode se tornar um espaço de reinvenção.
Alguns produtos que me ajudaram a escrever este texto:
Slasher, gore, trash e mais: conheça os principais subgêneros do terror
Cronologia Slashers – Selvagem Podcast
Teoria do cinema feminista 101: “The Final Girl” de Carol J. Clover
Teoria do Cinema Feminista 101: Definindo o Olhar Masculino
As Final Girls são feministas?
Por Ana Rodrigues
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Blink Twice e cultura do estupro: quando o consentimento não é suficiente
*Aviso de gatilho: o texto trata de temas sensíveis como estupro e violência sexual
*O texto contém spoilers do filmeO olhar de Frida (Naomi Ackie) carrega um misto de admiração e desconfiança. Imagem: trecho do filme Com direção de Zoe Kravitz , Blink Twice – ou Pisque Duas Vezes, traduzido para o português – é um convite para entender o quanto a existência da mulher consegue ser reduzida a um objeto de desejo. O longa de 2024 acompanha a história da garçonete Frida (Naomi Ackie), que se envolve com o magnata da tecnologia Slater King (Channing Tatum) em uma das festas em que ela trabalha. Na noite do evento, ela e sua amiga Jess (Alia Shawkat) são convidadas por ele para passar alguns dias em sua ilha e, com a companhia de alguns amigos de Slater, os dias são regados a festas, bebidas e drogas, sem nenhum acesso ao mundo exterior. Entretanto, expressões, conversas e cenas aparentam um cenário delirante que o público é convidado a desvendar junto das personagens.
O espectador, mergulhado no sonho das jovens de viver uma vida de luxo e distante do trabalho e responsabilidades, percebe que há nuances que destoam desta narrativa idealizada. Durante os dias, o delírio na construção do roteiro é maximizado ao passo que a sobriedade dos convidados é reduzida e representada por cortes temporais distorcidos e cenas fragmentadas, que são dispersas – de forma proposital – na montagem cinematográfica. O frenesi dos convidados, em sua maioria mulheres, é interrompido depois de Frida perceber que sua amiga Jess está desaparecida.
Aflita com essa ausência, que é percebida após um período, e outros elementos perturbadores da ilha, ela busca algum vestígio da amiga. Um dos seus primeiros impulsos é questionar às colegas sobre o paradeiro de Jess. Frida então se depara com frases do tipo: “Que Jess?”, “Não conheço nenhuma Jess” e percebe que, assim como ela, as convidadas estavam drogadas e sem qualquer percepção de tempo. Logo, tanto a personagem quanto o espectador percebem que as memórias confusas, que eram trazidas avulsamente na trama, ocultavam uma série de violências sexuais realizadas por Slater King e seus amigos.
Mesmo com toda a sintonia sexual entre as pessoas, à noite as personagens tinham seu corpo violado através de um jogo perverso. Vestidas com um roupa longa branca com fitas por todo o corpo, parte do “figurino” de uma noite de jantar aparentemente comum que terminava com elas correndo de seus violentadores, que conseguiam alcançá-las. Ao final de um sádico jogo de “pega-pega”, os homens as amarravam pelo próprio tecido e, entorpecidas após bebidas e drogas ao longo do dia, seus corpos vulneráveis eram tratados como diversão pelos magnatas
O que tornava a violência cíclica ainda mais perversa era o apagamento das lembranças dessas mulheres com um entorpecente colocado nos perfumes, que foram dados a elas como presente na chegada à ilha e retirava – toda – a memória do abuso. A substância era utilizada para apagar não somente o direito das mulheres ao consentimento, mas também as memórias das violências sofridas – sobre as quais Slater King afirma: “quanto mais brutal, menos elas se lembrarão”.
Assim, por não saber o que realmente estava acontecendo, elas seguiam alimentando a tensão sexual e a energia descontraída durante o dia. Alienadas, drogadas e ilhadas, essas mulheres não interagiam sexualmente com esses homens, que as evitavam até o anoitecer, quando seus corpos eram violentados por diversão. Frida, por exemplo, mesmo próxima do proprietário da ilha, Slater King, durante o dia se aproximava do magnata, que recusava uma relação consentida com a mesma.
O lugar paradisíaco e divertido vai mudando de tom com o passar dos acontecimentos. Imagem: trecho do filme Além disso, a vibe que o lugar trazia era de paz, tranquilidade e curtição – era como se naquele espaço todas as pessoas estavam livres para ser quem eram, sem qualquer discriminação. No entanto, somente os homens – todos brancos, cisgêneros e heterosexuais – exerciam de fato essa liberdade. Ainda que houvesse registros de uma câmera com revelação instantânea, já que ninguém tinha acesso ao celular ou aparelhos digitais, este acervo ficava restrito ao público masculino, que revisitava os rostos e corpos das mulheres violentadas por eles neste “paraíso”.
A diretora, Zoe Kravitz, propõe ao espectador em sua obra de estreia mergulhar no horror que a postura masculina de poder é capaz de assumir a partir de um jogo perverso no qual apenas uma das partes se diverte – como de costume, a parte masculina. Durante todo o filme a tensão é construída com flashes e memórias confusas, mas, ao ingerir o veneno de uma espécie de cobra, as cenas de terror voltavam à mente com toda potência – o que é uma alusão à história de Eva, que foi picada por uma cobra, expulsa do paraíso; é o animal da curiosidade e do conhecimento, que traz de volta a memória.
Ser mulher é um estado de alerta constante
Quando finalmente o esquema é descoberto pelas mulheres, que não tinham qualquer controle sobre seus próprios corpos – como de costume –, a raiva é tamanha que a resposta que observamos é também a violência. Dessa vez, com plena consciência, e contra os corpos daqueles que homens que as estupraram durante dias a fio.
A representação de ser mulher em Blink Twice é, sobretudo, assustadora, não somente pela violação dos nossos corpos e mentes, mas também configura uma mensagem que nos deixa em alerta constante. Ser mulher é não ter a paz que desejamos; não ter direito de escolha e muito menos direito ao esquecimento. Quando, no início do filme, Frida brinca com o psicólogo de Slater King e fala “pisque duas vezes se estiver em perigo”, ela nos remete ao medo e insegurança permanentes e a necessidade de pedir ajuda. No entanto, quando se dá conta do ciclo de violência no qual está inserida, ela não tem uma figura que possa dar esse apoio que tanto precisa.
A personagem representa muito bem a luta incessante pela verdade, pelo rompimento da violência e a impossibilidade feminina de descansar, fazendo com que o filme traga uma alusão direta ao movimento #MeToo. Somos atacadas dentro de nossas casas, no trabalho, nos momentos de diversão, durante toda a vida, e não podemos nos dar ao luxo de esquecer de lutar contra essa cultura do estupro. Enquanto os homens têm a tranquilidade de cometer quaisquer abusos e terem o perdão, o direito do esquecimento e da “mudança”, estamos reivindicando o fim do silenciamento dessas violências.
Para além disso, Blink Twice expõe como nem todas as vítimas reagem da mesma forma diante da violência sofrida. Enquanto algumas mulheres, ao tomarem consciência do que aconteceu, partem para a vingança, outras recusam a verdade, pois reviver o trauma pode ser tão doloroso quanto a própria agressão. No filme, uma das personagens, que trabalhava para o abusador, também teve sua memória apagada, vivendo em um estado de desconhecimento sobre o que realmente acontecia na ilha. Quando teve suas memórias recuperadas, reagiu com revolta não contra os abusadores, mas contra quem lhe devolveu a lembrança.
Isso reflete uma realidade comum: muitas mulheres preferem não denunciar ou reivindicar justiça, porque enfrentar o sistema e revisitar a dor pode ser mais um fardo difícil de suportar. Esse é um dos motivos pontuados na matéria da BBC sobre os 11 motivos que levam as mulheres a deixar de denunciar casos de assédio e violência sexual. No filme, embora rápida, a cena evidencia que o trauma não tem uma única resposta e que a verdade, por mais libertadora que pareça, também pode ser uma prisão.
As mulheres têm o direito de decidir o que fazer com sua dor. No filme, a maioria das personagens escolheu se revoltar e vingar as violências que sofreram, mas uma não. Seu desespero não vem apenas da lembrança do abuso, mas da perda de um estado de desconhecimento que, para ela, era uma forma de proteção. Principalmente por acreditar que aquele era um lugar seguro e por isso acaba colaborando com o sistema de opressão. O trauma não deixa escolhas fáceis, ele impõe cicatrizes que cada uma lida de maneira diferente.
O não-lugar do abuso masculino
No final do longa, quando tudo já foi revelado, um homem mais jovem que estava na ilha a convite dos magnatas parece estar confuso quanto aos ataques das mulheres com o restante dos caras e questiona assustado: “o que está acontecendo, gente? eu não entendo”. O que nos deixa, enquanto público, em dúvida quanto a este personagem, que ocupa o privilégio masculino mas não tem compreensão do que aconteceu durante os dias na ilha.
Lucas (Levon Hawke) representa o não-lugar do abuso masculino. Imagem: trecho do filme Lucas (Levon Hawke) é a nova promessa no ramo das big techs na empresa de Slater King e vai para os dias de férias junto de seus amigos mais velhos. Sua trajetória fica como secundária, porém, nos momentos decisivos podemos supor que ele também estava sendo estuprado pelos homens mais velhos, que se aproveitavam de sua “inocência” e idade para perpetrar as violências. O que incita o debate sobre o abuso sexual masculino, que, quando denunciado pode ser mal visto, por isso, geralmente fica silenciado.
Em uma cena é possível ver Lucas correndo de seu abusador, claramente perturbado, mas o que ocorre não fica claro para os telespectadores, inserindo-o nesse “não-lugar”. Quando não debatemos e trazemos à tona o tema, ele continua acontecendo sem a necessidade de reflexão, reparação e até mesmo relatos – já que é tão encoberto pelo sistema machista e patriarcal que até os homens que sofrem ficam acuados de falar por medo do preconceito.
O desfecho de Blink Twice propõe a inversão dos papéis, em que as mulheres são libertas e, dessa vez, utilizam a substância de esquecimento nos homens, para que tomem o poder e eles sejam as “vítimas” delas. Ele nos faz refletir sobre os limites da crueldade humana, do ódio e desejo de abuso contra as mulheres e dos tipos de violência cometidas quando não tem ninguém olhando – ou com poder de esquecimento. Por isso, estejamos unidas e atentas, para que esta liberdade cruel e perversa não seja exercida sobre nós.
Serviço:
Título Original: Blink Twice
Onde Assistir: Prime Video
Classificação Indicativa: 18 anos (A18)
Classificação da autora: 18 anos (A18)
Justificativa: O filme retrata violência explícita e abuso sexual.
Gênero: Thriller/Suspense.Por Ana Luiza Rodrigues, Gabriel Maciel e Lia Junqueira
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Como enfrentar um ditador: The Uncensored Library
The Uncensored Library, ou a biblioteca não-censurada, é um projeto construído dentro do jogo Minecraft, que é um jogo de mundo aberto onde os jogadores exploram, constroem e sobrevivem em um ambiente feito de blocos, e permite a criação infinita, multiplayer e modos de jogo variados. O projeto foi desenvolvido para dar acesso à informação às pessoas que moram em países que sofrem com rígida censura midiática, e foi criado pelo Repórteres sem Fronteiras, Block Works, DDB Berlin e Mediamonks, em 2020, como uma forma criativa de driblar essas questões regulamentadoras. A livraria conta com um acervo de 200 artigos de países como Rússia, Egito, Arabia Saudita, México e Vietnã. Com novas atualizações, ganhou salas para o Brasil, Bielorussia, Eritreia e Irã.
Porém a Rússia e o Egito restringiram o acesso ao servidor depois de perceber o seu intuito. Apesar disso, a comunidade continua prosperando, e o conteúdo pode ser baixado e lido de forma offline também. Eu mesma só fui descobrir a existência desse servidor em janeiro de 2025, mas me surpreendi quando soube que a iniciativa até já ganhou prêmios (Peabody Award, em 2022). Decidi escrever esse texto para contar sobre a inventiva inovação, que transformou o jogo em uma ferramenta para desafiar os limites da censura jornalística dentro do espaço virtual.Em 12 de março de 2020, a biblioteca abriu suas portas, e com apenas duas semanas, o servidor já alcançava 65,000 downloads de todo o mundo, e os usuários do servidor passaram, no total, um ano e quatro meses lendo os textos sobre 180 países. No site oficial, pode-se ter acesso a mais informações (em inglês).
Governo Trump
O servidor não foi criado durante o governo de extrema direita de Donald Trump, porém acredito que seja importante ressaltar que o discurso inflamado do agora eleito presidente estadunidense é perigoso e demarca um forte levante contra diversas formas de expressão, restringindo a liberdade de diversos grupos minoritários. Recentemente Judith Butler, para o jornal britânico The Guardian, escreveu sobre Trump:
“Se continuarmos a nos sentir tomados pela indignação e paralisados pela estupefação diante de cada nova proclamação anunciada cotidianamente, não conseguiremos discernir o que as conecta. Ser dominadas, dominados, dominades por suas declarações é exatamente o objetivo de seus pronunciamentos. Estamos, em grande medida, sob seu domínio quando ele nos captura e paralisa. Embora existam muitos motivos para estarmos enraivecidos, não podemos deixar que essa raiva nos inunde e paralise nossas mentes. Pois este é o momento para compreender as paixões fascistas que alimentam essa busca descarada por poderes autoritários.”
Judith ButlerGuerra cultural
Como a cultura salva o jornalismo e a literatura do Fahrenheit 451 (ou 233º Celsius)? Para quem leu o livro, uma ficção científica distópica, sabe que essa é a temperatura necessária para queimar papel. A obra de Ray Bradbury narra a jornada de Guy Montag, um bombeiro cuja principal função é destruir livros, mas que começa a salvá-los ao invés de queimá-los. Este é, ironicamente, um dos livros banidos nos EUA. Confira alguns dos títulos presentes na lista:
- Fahrenheit 451, de Ray Bradbury
- Meio sol amarelo, de Chimamanda Ngozi Adichie
- O olho mais azul, de Toni Morison
- O Sol é para todos, de Harper Lee
- Anna Karenina, de Liev Tolstói
- Pedagogia do Oprimido, de Paulo Freire
- The ABCs of Black History, de Rio Cortez
- As Crônicas de Gelo e Fogo, de George R. R. Martin
- Jogos Vorazes, de Suzanne Collins
O episódio de censura e banimento dos livros demarca uma quadra da história que, além de lamentável, é alarmante para os EUA. Para tentar combater isso, vimos um aumento nas compras de O Conto da Aia, de Margaret Atwood, romance ambientado em uma sociedade totalitária, que foi para a lista de mais vendidos após a reeleição de Donald Trump, “e está em nono lugar na lista de livros mais vendidos da Barnes & Noble, maior rede de livrarias dos EUA”, segundo matéria da CNN. Ler livros banidos é um ato revolucionário.
Vimos também que as vendas de outros romances distópicos que tratam sobre opressão, como “1984”, de George Orwell, teve um aumento de 250% em suas vendas na Amazon, continua a reportagem.
Em 2023 e 2024, a estimativa é de que 10 mil livros foram banidos, e essa estatística pode aumentar ainda mais no governo Trump, republicano do movimento extremista MAGA (Make America Great Again). O partido é o maior responsável por essa censura sem precedentes. Como resposta, a imponente fachada do prédio da Biblioteca de Nova York (estado tradicionalmente democrata, segundo matéria do Poder 360), enfileirou cartazes que “anunciam uma campanha contra a censura de livros, […] adotadas por escolas públicas, bibliotecas e governos locais pelo território dos EUA”.

Já em outros estados, vemos justamente o movimento contrário. Iowa aprovou a lei 496 em 2023, prevendo somente o oferecimento de livros “apropriados para a idade”. Bem genérico, né? Abrindo margem para diversos tipos de interpretação sobre o que é “age appropriate”. E piora!, pois proíbe, também, qualquer descrição de “ato sexual” nas obras, ou seja, debates sobre gênero não terão espaço. Na Flórida observamos o mesmo movimento, que “estipula que qualquer livro que debata a “conduta sexual” de um dos personagens deve ser suspenso imediatamente, enquanto um processo de revisão da obra é realizado para avaliar se ela pode ou não continuar nas prateleira”. Quem revela isso é Jamil Chade, colunista do UOL, fazendo a mesma denúncia sobre estados como Utah, Carolina do Sul, Tennessee e Wisconsin.
O olho mais azul, O sol é para todos, Anna Karenina Anne Frank e Morte no Nilo
Ao analisarmos quais são as obras com foco da censura, percebemos a ligação com a pauta reacionária e fascista, fortemente disseminada pelos republicanos aliados de Donald Trump. Ele mesmo se orgulha de ter indicado “três juízes conservadores que alteraram o equilíbrio da Suprema Corte dos EUA e, que em 2022, revogaram o caso Roe vs. Wade, jurisprudência que legalizou o aborto em 1973”.
Livros como O olho mais azul, que denuncia o racismo estrutural nos EUA, está banido. Também vemos essa proibição em obras que versam sobre temas envolvendo diversidade e os direitos reprodutivos de mulheres, assim como do movimento LGBTQI+. Essas pautas são alvo de represália profunda, e a obra de Toni Morrison, por exemplo, é um romance muito impactante que aborda questões de raça, gênero, identidade e beleza em uma sociedade racista e patriarcal.Como podemos deixar de debater sobre uma menina negra que internaliza os padrões de beleza eurocêntricos, desejando ter olhos azuis como forma de escapar da opressão e da rejeição que enfrenta, como?! A obra é uma crítica contundente ao racismo internalizado e à destruição que ele causa, especialmente em mulheres e meninas negras, e apesar de ter sido lançado em 1970, ainda traz uma discussão muito atual para o nosso agora.
“Mas, como é difícil lidar com o porquê, é preciso buscar refúgio no como“
– O olho mais azul
O Sol é para Todos (ou To Kill a Mockingbird), de Harper Lee, é uma obra que, para mim, continua essencial para a compreensão de questões profundas como racismo estrutural, justiça, ética e moralidade. Ela expõe as crueldades e injustiças da sociedade (lê-se pacto da branquitude), de 1930 para com a população negra dos EUA. O livro nos desafia a refletir sobre preconceitos e a importância de lutar por equidade, mesmo quando essa luta parece perdida. Além disso, a obra ajuda a rememorar que a educação é uma poderosa ferramenta para combater a intolerância. Assim como a obra citada acima, tem relevância atemporal e sua capacidade de inspirar reflexões profundas, faz com que se torne uma leitura indispensável.
Livros que exploram mulheres progressistas/independentes, ou a emancipação feminina, como Morte no Nilo, de Agatha Christie, e Anna Karenina, de Liev Tolstói, também foram censurados. Obras tão essenciais para compreender as lutas, contradições e conquistas das mulheres ao longo da história, principalmente por tratarem de romances de época. Cada uma à sua maneira, ilumina as complexidades da condição feminina em sociedades marcadas por estruturas profundamente patriarcais e normas de gênero opressivas.
Em Morte no Nilo, personagens como Linnet Ridgeway e Jacqueline de Bellefort revelam as tensões entre autonomia, dependência emocional, ciúmes, traição e rivalidade feminina. Enquanto em Anna Karenina, a protagonista tenta se libertar e desafia as convenções sociais, em um contexto que ativamente condena suas escolhas afetivas. Essas narrativas não apenas retratam as barreiras enfrentadas pelas mulheres, mas também inspiram reflexões sobre resistência, identidade e, novamente, a busca por igualdade. Ao ler essas obras, conectamo-nos com as narrativas de mulheres que, em diferentes contextos, questionam e desafiam as expectativas impostas sobre elas.
Já O Diário de Anne Frank nos apresenta a voz corajosa de uma jovem judia que, mesmo vivenciando os horrores do Holocausto, escreve sobre sua rotina, sua identidade, as esperanças que possuía e, principalmente, sobre a força do espírito humano. Porém foi censurado, em um primeiro momento por seu pai, Otto Frank, que editou a primeira edição da obra, por conter algumas anotações sobre sexualidade e anatomia feminina, piadas com teor sexual e relatos de sua atração por uma garota. Isso ocorreu antes da publicação do diário, em 1947, e deixo aqui o link da matéria da BBC contendo um pouco desse conteúdo.
Em um segundo momento, nos EUA, o pedido de censura veio de Gail Horalek, que chama a obra de “pornográfica“. Como justificativa, ela citou, justamente, “uma passagem da versão “definitiva” do livro, que inclui material ausente da primeira edição”. Gail, mãe de uma aluna da sétima série de Northville, no Estado do Michigan, em 2013, se preocupou com as descobertas sobre o próprio corpo que Anne relata na parte amplamente censurada de seus diários. A Flórida expôs a mesma preocupação em 2023.Outros livros banidos foram os que discorriam, ou apenas apresentavam relatos de mulheres e meninas que foram alvos de abuso sexual ou estupros. Podemos citar nessa categoria o conto distópico O Conto da Aia, que foi brilhantemente discutido e apresentado na crítica da Aryanne Araújo aqui no Ariadnes, vem ler!
Por fim, gostaria de lembrá-los de que precisamos resistir a essa onda de perseguição, que acometeu os EUA e atualmente permeia diferentes partes do mundo. A discussão não se encerra quando saímos da internet, a censura pode estar mais próxima do que antecipamos. Como forma de resistir, a recomendação é continuar lendo. A citada Biblioteca Pública de Nova York propôs a criação de um grupo de leitura de adolescentes, ação que se aproxima de uma iniciativa daqui, na Universidade Federal de Ouro Preto, com o Levante dos Banidos (@leituras_banidas).
“Acreditamos que todos devem poder exercer sua liberdade de escolher o que ler. Estamos unidos às bibliotecas e comunidades de todo o país na oposição aos esforços para censurar ou proibir livros. Somos solidários com nossos colegas bibliotecários e membros da comunidade que estão sendo ameaçados. Demonstre nosso compromisso compartilhado com essa liberdade fundamental”, declarou Tony Marx, presidente da Biblioteca Pública de Nova York.
Por Sophia Helena Ribeiro
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A experiência de ser uma filha

“Is there anything so undoing as a daughter?” – Silco
(Será que há uma ruína maior do que uma filha?)
A segunda temporada de Arcane, recentemente lançada pela Netflix, constrói um universo que engloba algumas constelações de afetos e sentidos dentro das estruturas familiares. Apesar de esse não ser o foco da série, esse texto vai discorrer nesse sentido. Acredito que a maior parte das dinâmicas da história começa no núcleo familiar, ou na falta deste. Em uma análise dos sentimentos evocados por meio da animação, tracei alguns paralelos entre a construção de personagens femininos dentro da ficção e a influência da família. Aproveito para recomendar a série, que caminha entre discussões de segregação, desigualdade social, trauma, poder, tecnologia, guerra, infância e família, vale a pena assistir!
AVISO: Contém spoilers sobre a série, leia por sua própria conta e risco.
Jinx X Vander X Silco X Vi
Jinx não nasce Jinx. Ela originalmente foi nomeada como Powder, e é uma das personagens centrais de Arcane. Sua trajetória é uma das mais trágicas e complexas de toda a série. Desde criança, acompanhamos sua luta por sobrevivência e as marcas profundas em sua personalidade advindas de seus traumas. A jovem órfã é moradora de Zaun (cidade fictícia da série) e vive com sua irmã mais velha, Vi, e seu pai adotivo, Vander. Powder é uma menina sensível, insegura e frequentemente a vemos em um lugar de destaque ou sobressalência, como se ela não se encaixasse nos lugares que quer ocupar. Em uma tentativa de não ser excluída, ela sempre tenta ajudar e agradar os outros, o que tende a resultar em desastres. A primeira parte da tragédia é ter presenciado, tão nova, o assassinato de seus pais por oficiais de Piltover (outra cidade ficctícia da série), o que se transmuta em um sentimento de profundo ódio pela população de lá.
A segunda parte da tragédia começa quando, durante uma missão em Piltover, ela causa uma explosão que mata vários de seus amigos, levando-a ao sentimento de culpa e à rejeição de sua irmã Vi, sua única parente viva, já que Vander também morre posteriormente, tentando salvar as duas filhas adotivas. Após o episódio, Powder é resgatada pelo controverso Silco, porém a história deles está emaranhada em muitas outras histórias do passado. Silco era amigo próximo de Vander, assim como era de Felicia, mãe de Power e Violet (nome completo de Vi). Juntos, os amigos tinham planos de reerguer Zaun e criar um local próprio para o desenvolvimento das futuras gerações. Após a morte dela, Vander e Silco divergem em suas projeções de como construir e alcançar esse progresso e, por causa disso, acabam brigando e se tornam inimigos.
Silco, por sua vez, torna-se um líder violento e criminoso de Zaun, e a adota como filha, mudando seu nome para Jinx. Esse é um episódio simbólico da trama, já que “Jinx” pode ser traduzido como azar e foi uma das últimas palavras que ela escutou de sua irmã antes de ficarem longo tempo separadas. Sob influência de Silco, Jinx se transforma em uma figura caótica e imprevisível, que ativamente busca destruição. Silco, embora a trate de maneira protetiva, também a manipula e utiliza sua vulnerabilidade para moldá-la de acordo com seus próprios interesses, incutindo nela um profundo sentimento de inadequação e dependência emocional.
Pertencimento
A personagem de Jinx é marcada pelo traço de instabilidade emocional, alternando entre momentos de vulnerabilidade e explosões de violência. Ela busca incessantemente a aceitação e um local de acolhimento, principalmente por parte de Vi, mas é consumida pela culpa e pela rejeição que constantemente sente, acreditando que essa relação nunca será a mesma. O que nos leva ao motivo de ela continuar em sua relação tóxica com Silco, que é igualmente ambígua: embora ela o veja como uma figura paterna e, consequentemente, assimila sua imagem com um local seguro, o vínculo deles alimenta sua espiral de autodestruição. Ela começa a criar armas e explosivos que são utilizadas por Silco. Sua jornada em busca de amor e pertencimento, combinada com a tentativa de ser vista e aceita, demarca também um ciclo de violência, que é alimentado pelos traumas do passado, o que a torna uma personagem terrivelmente trágica.
Embora não seja uma relação biológica de pai e filha, organizei as características de Jinx e Silco dentro de um entendimento de uma paternidade distorcida e um vínculo estruturado pela manipulação, o amor tóxico e a dependência.
Arcane evita reduzir suas protagonistas a papéis unidimensionais de filhas obedientes ou rebeldes. Jinx, por exemplo, é uma figura que resiste ao controle, mas sua jornada também é marcada por uma busca desesperada por aprovação, seja de sua irmã, de figuras paternais como Silco ou até do mundo em geral. Ela se torna um ícone aos olhos da população de Zaun, e inconscientemente evoca no imaginário de todos que é preciso resistir à violência institucional infligida por Piltover. Porém, não o faz propositalmente e não alimenta as expectativas dessas pessoas oprimidas. Essa dualidade subverte o estereótipo da “boa filha” que tradicionalmente permeia as narrativas femininas, e também dá destaque para a complexidade da mente feminina, explorando seus aspectos psicológicos, fugindo um pouco desse espaço de ficção, e humanizando essas existências com dilemas naturais de nossa psique. Eu a considero como uma anti-heroína, já que ela não é totalmente (e nem chega a se tornar), uma vilã. Para alguns ela é uma mártir, uma guerrilheira, uma louca e, no fim, demasiadamente humana — uma humana demasiadamente traumatizada. Ao contrário de Vi, que evoca a imagem da heroína, se une a Piltover em busca de aliar-se com os “inimigos”, utiliza de ferramentas opressoras em seus conterrâneos, e após isso inicia uma caça à Jinx, em busca de conter a destruição da irmã.
A figura paterna substituída
Jinx teve contato com o pai biológico na infância Também teve o carinho e o cuidado de Vander. Em contraste, Silco nunca foi ou agiu como o pai dela, mas assume um papel paterno por se enxergar na figura abandonada e traída de Jinx, um paralelo de sua relação com Vander. Ele se torna, então, a única pessoa que a aceita e a entende, mesmo que de uma forma perversa e deturpada, já que não a vê como uma filha (pelo menos não no sentido tradicional), mas como uma ferramenta para atingir seus próprios objetivos.
Controlando-a emocionalmente, alimentando sua insegurança e sua necessidade de aprovação, percebe-se também uma possessividade, o que pode demarcar uma dependência mútua, já que Silco também foi abandonado. Ele precisa da lealdade de Jinx para realizar seus planos, enquanto Jinx, por sua vez, precisa da validação e da aceitação dele. Ele ajuda a criar essa nova identidade para ela, enquanto a mantém isolada, e Jinx cresce com o entendimento de que seu valor está diretamente ligado ao quanto ela pode agradar Silco. Seu amor é condicionado a como ela se comporta e a seus feitos, o que acaba exigindo muito do que resta da sua sanidade.
Silco só demonstra “carinho” por Jinx em certos momentos, já que ela é uma peça valiosa para o seu jogo de conquista e expansão, o que indica que ele não a enxerga mais como pessoa, e sim como arma, alimentando a falsa ideia de que ela é tudo o que ele precisa. Essa dinâmica muda completamente quando Jinx mata Silco.
Culpa
Ela perde a capacidade de discernir entre o real e o ilusório (constantemente ela é retratada ouvindo vozes), o que a leva a ter transtornos ilusórios. A culpa persegue o seu consciente e, como exemplo disso, Jinx continua escutando e conversando com Silco mesmo após sua morte, semelhante ao que ocorre depois da morte de Claggor e Mylo.
A sombra do novo velho trauma
A figura de Silco, em vez de ser um modelo de amor protetor, torna-se uma sombra que a impede de se recuperar de seus traumas e de se encontrar como sujeito. O abandono a marca profundamente. Antes da morte de Silco, Jinx se via entre dois mundos: a lealdade à figura do “pai” e o desejo de ser amada pela irmã. O conflito entre esses sentimentos é um dos motores centrais de seu sofrimento, até ela encontrar Isha, que se torna uma espécie de irmã mais nova. Jinx também parece presa em outro ciclo devido aos traumas, ela não cresce; na série vemos ela como uma figura extremamente imatura, muitas vezes presa na eu “menina”/”criança”. Vemos então, seus ataques de raiva sem sentido, como símbolo de que esta não amadureceu, mudança percebida somente nos episódios finais, em que ela assume a responsabilidade de seus atos, e volta com atitude e aparência diferente.

Vi X Jinx X Vander
Trauma, perda e abandono moldam o ambiente de Zaun, de maneiras imprevisíveis e destrutivas. A relação entre Powder e Vi, que começa com amor e proteção, se transforma em uma separação dolorosa. Powder se sente traída pela irmã e Vi sente profundamente a dor e a culpa de tudo que lhes ocorreu, por imaginar que deveria zelar e cuidar da irmã mais nova. Esse distanciamento é a peça principal dessa relação conturbada. Ela anseia reconciliação, mas é incapaz de escapar das sombras. Vi é uma das vítimas das circunstâncias e de um sistema que, esquematicamente, a abandonou.
Essa relação também revela como as responsabilidades e expectativas impostas a filhas mais velhas recaem desproporcionalmente sobre elas. Vi assume o papel de protetora de sua irmã após a morte dos pais, o que reflete uma representação comum em narrativas femininas: carregar o peso emocional e físico da sobrevivência da família. Essa dinâmica levanta questões sobre como as filhas são frequentemente moldadas pela obrigação de cuidar, mesmo em detrimento de seus próprios desejos e desenvolvimento pessoal.
O que, particularmente, é muito bem construído e desenvolvido na série, porém ainda reflete alguns estereótipos dentro da construção narrativa de personagens femininas, não escapando desse denominador comum que é a espiral de autodestruição acarretada pelo peso das obrigações dentro desse espaço de cuidadora. E, brilhantemente, a série também mostra como as mulheres, especialmente as filhas, muitas vezes carregam o legado emocional de suas famílias ou comunidades.
Nesse espaço da falta da maternidade, acredito que é refletido como um cenário onde as duas são constantemente moldadas ou definidas por padrões masculinos de autoridade, reforçando como a maternidade é frequentemente negligenciada na construção das jornadas femininas em ficção. Após a morte da mãe e do pai, elas são forçadas a se tornarem personagens autossuficientes, e vivendo em um ambiente hostil para mulheres, e acabam rodeadas da presença e do exemplo masculino. Também é importante tocar no ponto da dificuldade das filhas em afirmar sua independência emocional. Tanto Vi quanto Jinx têm suas identidades marcadas pela influência de figuras paternas, e sua luta para romper ou redefinir essas relações é uma metáfora potente para o processo de emancipação feminina.
Mel Medarda X Ambessa X Kino
Mel Medarda é uma personagem muito sofisticada, que participa de um grande jogo de influência na política de Piltover, a próspera e rica cidade do progresso. Ela é uma das Conselheiras da cidade, no posto de uma das líderes mais proeminentes na criação de leis e decisões que afetam tanto Piltover quanto Zaun. Mel é uma mulher de inteligência ímpar, habilidades diplomáticas excepcionais e um desejo claro de manter o status quo, de forma a aumentar seu domínio, o que é posteriormente explorado dentro da série por meio das ambições e expectativas de sua mãe, Ambessa Medarda.
Na série, ambas buscam desenvolver grande influência na luta por controle e status. Com diferentes papéis e atitudes, suas histórias ilustram questões de poder, política e manipulação. Mel é apresentada, muitas vezes, como manipuladora, principalmente no início de sua relação com Jayce (outro conselheiro da cidade), por oferecer apoio político e emocional para ele, ajudando-o a obter influência e, ao mesmo tempo, se beneficiando de sua ascensão. Ela então, se aproveita de suas habilidades sociais e políticas para alcançar seus objetivos e proteger seus próprios interesses com uma fachada de refinamento e ,civilidade. É implacável quando se trata de alcançar suas ambições, signo da hierarquia marcante da alta sociedade de Piltover. Sua postura política é cautelosa e estratégica, seu objetivo exterior é manter a cidade livre de quaisquer ameaças externas, especialmente vindas de Zaun.
Ambessa Medarda é de outra nação, Noxus, conhecida por sua cultura belicista. Como líder de uma família poderosa, é uma personagem mais enigmática e agressiva, e faz tudo ao seu alcance para proteger, consolidar e expandir o poder da sua família. Simboliza, dentro da trama, uma figura autoritária e militarista, com uma visão mais direta de como alcançar e manter o poder, muitas vezes usando a força e a guerra como instrumentos da “paz”.
Seu ideal político para trazer estabilidade em Piltover diverge de Mel, e sua postura é mais intolerante em relação a ameaças e a qualquer tipo de insubordinação. O relacionamento das duas é marcado por uma dinâmica complexa, na qual Ambessa exerce grande influência sobre a filha, principalmente por ter medo de perdê-la, como ocorreu com seu filho, Kino, levado pelos opositores/inimigos de Ambessa. Seus excessos em relação à força e ao poderio militar camuflavam o medo de perder Mel para a Rosa Negra, conflito que é herança das suas relações com o pai de Mel.
Herança e legado
Ambessa acredita que somente através da força é possível garantir a ordem, o que contrasta com o estilo de liderança de Mel, que representa a nova geração de líderes mais diplomáticos e estratégicos. A mãe, por sua vez, encarna essa política ultrapassada de Noxus, que só entende a linguagem da guerra, revelando como o patriarcado e as expectativas de gênero moldam as trajetórias das mulheres em busca de poder. O contraste entre a liderança feminina baseada na força (representada por Ambessa) e a liderança mais estratégica e diplomática (representada por Mel) também abre uma reflexão interessante sobre como cargos “tradicionalmente” associadas ao gênero feminino, como a diplomacia e a flexibilidade, ainda são vistos como menos “legítimos” e eficazes do que as abordagens mais agressivas e militares, consideradas masculinas (mesmo que essas características estejam transpostas em uma mulher).
As expectativas familiares e sociais que recaem sobre Mel refletem a pressão constante que mulheres em posições de poder enfrentam. Ambas têm seus próprios interesses, e as diferenças entre elas se tornam um ponto de atrito, especialmente à medida que Mel tenta se estabelecer politicamente e lidar com as expectativas de sua mãe, que ainda vê o poder através de uma lente mais controladora. O conflito entre mãe e filha reflete a diferença de abordagem dentro de uma mesma linhagem em busca de controle. Enquanto personagens como Jayce têm suas ambições apoiadas e validadas, as protagonistas femininas frequentemente lidam com dúvidas, subestimação e a constante necessidade de provar seu valor diante de figuras autoritárias. Esse contraste revela como o patriarcado impõe condições desiguais para o desenvolvimento de filhos e filhas, refletindo uma dinâmica de gênero que se perpetua até mesmo em universos fictícios.
Orianna X Singed X Vander
Singed é um cientista/alquimista que é corrompido pela culpa da morte prematura de sua filha, Orianna, e então cria a Cintila, uma espécie de químico que foi utilizado para preservar o corpo dela. Posteriormente passa a ser comercializado como droga, o que vicia uma grande parte da população de Zaun, e até mesmo de Piltover. Quando Singed encontra o corpo de Vander quase morto, ele acaba resgatando-o para utilizá-lo em seu experimento que torna Vander em Warwick, um humano transmutado em lobo. Salva a vida de Vander mas prejudica severamente sua sanidade, pois agora, em sua versão monstruosa, ele é movido pelo cheiro de sangue e pela carnificina.
Orianna, a jovem mulher que é transformada em máquina, representa também essa relação com o poder científico de Singed, que como um homem da ciência não permite ser limitado pela ética e cria a narrativa de que teria passe livre para realizar atos inumanos em nome do amor e devoção que tinha pela filha. Eu gostaria de demarcar que o caso de Singed e Orianna simboliza a forma como homens buscam o controle de corpos femininos, já que ele não permitiu que a própria filha morresse, trazendo-a de volta como uma espécie de autômata/robô.
Sua mecanização, construída a partir do desejo de seu pai por ideais de “perfeição” e “controle”, também pode ser lida como uma redução voluntária do corpo a objeto, removendo sua humanidade para moldá-la de acordo com padrões de desejo masculino, já que ela acaba perdendo sua autonomia, seus desejos e sua essência. Mulheres são frequentemente vistas como objetos a serem moldados, corrigidos, protegidos ou controlados para atender às expectativas diversas que lhes circundam.
Por fim, gostaria de celebrar o enorme sucesso da série em retratar histórias femininas complexas, com personagens bem escritas e imaginadas. League of Legends, o jogo em que Arcane se baseia, é um jogo conhecidamente racista, misógino e preconceituoso no geral, e quando paramos para refletir “que 74% da população brasileira joga online e que o jogo League of Legends é um dos jogos mais jogados atualmente – contando com mais de 8 milhões de jogadores ativos”, é de certa forma revolucionário que a série trate de romances lésbicos, protagonistas mulheres, metáforas de dinâmicas de poder e gênero, assim como reflexões em relação à gênero e família. Mesmo que esse não seja o tema principal da história, ainda assim traz visibilidade positiva para essas causas, principalmente dentro da esfera tóxica dos jogadores de LoL.
Aproveito para recomendar o estudo da Bruna Cristina Assali Pires sobre o “Comportamento tóxico de jogadores de League Of Legends pela ótica de Winnicott”, que foi citado aqui em cima. Ela conseguiu, “a partir da análise de dados, […] observar que a realização de comportamento tóxico advém, principalmente, de homens héteros, entre a faixa dos 18 anos aos 27 anos, que investem um bom tempo do seu dia jogando League Of Legends, comumente relatando que não se afetam com eventuais comportamentos tóxicos e que, inclusive, acreditam que ofensas no meio virtual possuem menos peso do que na realidade.”
Ou seja, temos provas concretas que os jogadores de League of Legends apresentam e/ou estão habituados a esse ciclo de toxicidade, e que “alguns comportamentos tóxicos são mais permitidos que outros”. O texto de Pires não é sobre Arcane (e sim sobre LoL), mas versa sobre uma parte da fanbase do material que inspirou a série, o que traz um importante viés para quem é aficionado pela lore.
Essa crítica tenta oferecer diferentes perspectivas da experiência de ser uma filha dentro de Arcane, explorando as nuances da responsabilidade, do sacrifício e também da busca por identidade. Sob uma lente feminista, a série pode ser lida tanto como uma crítica, quanto como uma exploração das pressões sociais que moldam as experiências das mulheres, especialmente no contexto familiar. Ao colocar o desenvolvimento dessas histórias no epicentro, desafia-se alguns estereótipos, porém é possível notar que questões de gênero entram em conflito até nas histórias que acreditamos serem mais progressistas.
Por Sophia Helena Ribeiro
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Por uma cobertura ética de transfeminicídios e outras violências contra a população T

Oficina ofertada no dia 31/01, por Isabela Vilela. Que pesquisou violências contra comunidade T em seu TCC Diante da ausência de formação específica nos cursos de Jornalismo, a oficina do projeto Ariadnes busca capacitar estudantes e profissionais para uma cobertura mais ética e sensível de transfeminicídios e outras violências contra a população trans.
Nos dias 30 de janeiro e 6 de fevereiro, aconteceram, no Instituto de Ciências Sociais Aplicadas (ICSA), duas oficinas de formação sobre cobertura jornalística de transfeminicídios e outras violências contra a população trans. Promovida pelo Projeto Ariadnes e ministrada pela jornalista e mestranda em Comunicação na Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) Isabela Vilela, tivemos cerca de 50 estudantes participando das discussões sobre como cobrir de forma ética violências contra a população trans.
Noticiar algo tão difícil como transfeminicídio – e outras violações dos direitos dessas pessoas – pode apresentar desafios e dúvidas, o que é comum e suscetível de acontecer em outras áreas. No entanto, o que observamos é a falta de humanização quando trata-se justamente desses sujeitos, que já (sobre)vivem e são colocados em lugares de extrema vulnerabilidade. Por isso, a oficina busca explicar as origens do preconceito direcionado para essas pessoas, pensando em como a mídia construiu sua imagem e como a reforça de maneira violenta.
Uma vez que as pessoas trans existem no mundo, elas são ora extremamente violentadas, ora sexualizadas, mas, o que é “regra” é o ódio por esse grupo, que constitui o que Isabela vai entender como uma caça às bruxas contemporânea – que inclusive está muito bem descrito em seu trabalho de conclusão de curso. Dessa maneira, as coberturas que observamos reproduzem essa visão estigmatizada, que desumaniza e produz ainda mais transfobia em alguns casos. Mas como a gente faz para mudar isso?
O primeiro passo é uma apuração bem feita e informada, checada, para que dados importantes não se percam – como nome completo e idade correta –, pois, quando falamos de violência contra pessoas trans é fundamental o reconhecimento delas enquanto pessoas. Pode parecer “básico” falar disso, mas é um erro terrível, que revitimiza e produz mais violências para esses corpos já ‘machucados’. O próximo passo é chamar o crime pelo nome correto; transfeminicídio, feminicídio, violência doméstica, violência patrimonial, etc. Sempre pensando em um contexto, em deixar claro para quem está lendo e bem explicado, os motivos desse acontecimento e como pode se relacionar com outros fatores, tipo raça, gênero e classe. Além disso, é importante pensar em dados da região ou mesmo do estado/país, para que não fique um acontecimento isolado.
Para além da violência e/ou transfeminicídio, é preciso trazer a pessoa, colocá-la na matéria ou reportagem enquanto ser humano, que tem gostos, emprego, família, uma vida completa. A reumanização é uma das chaves dessas coberturas, em que imagens, vídeos e texto devem colaborar para um fazer ético, de acordo com os direitos humanos – que foram negados anteriormente a essa pessoa.
Durante os dois dias de realização da oficina, foi bastante positivo o interesse demonstrado por quem estava presente, em que dúvidas e percepções foram colocadas de maneira aberta, num diálogo horizontal, como troca de saberes e experiências. Isabela propôs duas atividades, uma para analisar uma notícia já pronta e outra para refazê-la a partir do que foi explicado no momento de capacitação. Ambas as propostas foram essenciais para colocar em prática os ensinamentos e olhar para aquelas coberturas com olhar mais atento, em alerta para não reproduzir violências ou mesmo aumentá-las.
Ao final das oficinas, o projeto soltou um formulário com comentários e impressões da oficina, e foi interessante perceber a partir dessas falas o reconhecimento da necessidade de mudança na cobertura e de um determinado imaginário que é violento com pessoas trans.
Um desafio que nós, do Ariadnes, sempre comentamos e refletimos é a pouca – ou quase nenhuma – participação masculina em nossas ações, sejam oficinas, mostras de cinema ou quaisquer outras propostas. Observamos uma mudança tímida, com a inscrição de mais homens, mas ainda pouca pensando que é preciso implicação desse grupo, justamente para promover a mudança necessária e urgente nas coberturas, violências e formas de atuação dos comunicadores.
Algumas indicações de Isabela você pode conferir aqui:
Associação Nacional de Travestis e Transsexuais – ANTRA
Glossário ANTRA – para entender os nomes e termos.
Pesquisas e anuários da violência da ANTRA – fundamentais para acompanhar, citar e servir de alerta, já que o Brasil é, pelo 17° ano seguido, o país que mais mata pessoas trans no mundo.
Jornalismo: Transmídia Jornalismo
Artigo: Um olhar sobre feminicídio e a necessidade do reconhecimento legal frente ao assassinato de travestis e mulheres trans
Livros: O parque das irmãs magnificas – Camilla Sosa Villada
Não vão nos matar agora – Jota Mombaça
Influencers: @mandycandy @jotamombaca @erikahilton @profaleticia_





Turma do dia 31/01/2025 
Turma do dia 06/02/2025 Por Ana Rodrigues e Lia Junqueira
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O voto feminino, a CPI da Covid e a invisibilização das mulheres na mídia

Hoje, 24 de fevereiro de 2025, celebramos 93 anos da conquista do voto feminino no Brasil. A data nos remete a uma luta histórica, marcada pela mobilização de mulheres como Bertha Lutz, que enfrentaram estruturas excludentes para garantir a participação feminina nas esferas públicas. No entanto, a garantia do direito ao voto não significou, por si só, a conquista da igualdade política. Se fosse suficiente, não estaríamos discutindo até hoje a falta de representatividade nos espaços de poder. A baixa presença feminina em cargos eletivos e a invisibilidade midiática dessas lideranças refletem um cenário ainda desigual.
Um exemplo recente dessa dinâmica foi observado na CPI da Covid, realizada entre abril e novembro de 2021 no Senado Federal. As senadoras, apesar de não terem sido indicadas formalmente por nenhum dos partidos para integrar a comissão, conquistaram espaço nos debates por meio da Bancada Feminina — criada em 2021, tem direitos de liderança equivalentes aos partidários e representa as senadoras. Mesmo sem direito a voto, as parlamentares contribuíram ativamente para as investigações e desafiaram a tentativa de silenciamento imposta a elas desde o início da Comissão Parlamentar de Inquérito. No entanto, a atuação expressiva de oito senadoras não foi refletida na cobertura da imprensa.
Durante os últimos dois anos, analisei em minha pesquisa de mestrado a cobertura da CPI no Instagram dos jornais O Globo e Folha de S. Paulo — a plataforma foi escolhida pelo amplo alcance no Brasil, com 134 milhões de usuários em 2024, e por ser central para engajamento e adaptação da cobertura jornalística ao meio digital. O resultado é alarmante: das 337 publicações feitas sobre a CPI (sendo 181 de O Globo e 156 da Folha), apenas 10 postagens mencionaram diretamente as senadoras, ou seja, menos de 3% do total da cobertura.
Para efeitos de comparação, eu quis ir além. Fiz um levantamento detalhado das 69 reuniões da CPI, analisando as notas taquigráficas e os vídeos de todos os encontros. Contabilizei o tempo total de fala de cada parlamentar e depoente e, em seguida, o de cada senadora individualmente. O resultado? Das 430 horas e 22 minutos de reuniões — o equivalente a quase 18 dias ininterruptos —, as senadoras discursaram por 152 horas, 5 minutos e 19 segundos. Os dados revelam que elas participaram ativamente de 35,3% do tempo total dos debates.
Os números precisam nos dizer algo: enquanto as senadoras participaram de mais de um terço das reuniões, receberam menos de 3% da atenção dos dois principais jornais brasileiros na cobertura realizada pelo Instagram. Mas o descompasso entre a participação ativa das senadoras na CPI e a visibilidade na cobertura não foi o único achado da pesquisa. O enquadramento dado à participação feminina reforçou estereótipos de gênero. Para além da quantidade reduzida de menções, os resultados da análise qualitativa revelaram que as senadoras foram, na maioria das vezes, retratadas em narrativas de conflito e emoção, com pouca ênfase para competência técnica, atuação política ou protagonismo nos debates.
Termos como “descontrolada”, “histérica” e “machista” foram reproduzidos nas publicações, assim como imagens que sugerem agressividade – expressões faciais intensas, dedos em riste, gestos enfáticos. Quando a contribuição técnica era mencionada, frequentemente acabava sendo ignorada ou minimizada, e os conteúdos que a destacavam registraram menor engajamento.
Os dois jornais reforçaram a ocasião em que a então senadora Simone Tebet foi chamada de “descontrolada” pelo então ministro da CGU, Wagner Rosário. A cobertura desse episódio seguiu um padrão recorrente nos dois jornais, possibilitando ao leitor a percepção de que mulheres assertivas são emotivas ou agressivas, enquanto homens que adotam a mesma postura são firmes e estratégicos.
Essa abordagem dos jornais pode ser explicada pela teoria do enquadramento (framing), proposta por Erving Goffman (2012) e Robert Entman (1993). Segundo essa perspectiva, a mídia não apenas informa, mas molda a percepção do público ao enfatizar determinados aspectos da notícia. No caso da CPI, a decisão editorial de dar mais espaço ao conflito e ignorar a competência técnica das senadoras reforçou a visão de que política ainda é um território masculino, perpetuando a exclusão simbólica das mulheres da tomada de decisões e limitando o reconhecimento feminino como agentes legítimas para esse campo.
O problema, no entanto, não se restringe à mídia. A sub-representatividade feminina nos espaços de poder é estrutural. Os números das eleições de 2022 evidenciam a desigualdade. Apesar de as mulheres representarem, naquele momento, 52,6% do eleitorado, apenas 17,7% das cadeiras na Câmara dos Deputados e 14,8% do Senado foram conquistadas por elas. A literatura sobre violência política de gênero aponta que a exclusão feminina do debate público vai além do não reconhecimento da competência para esse ambiente, sendo manifestada também por meio de ataques verbais, assédios e ameaças. No Brasil, parlamentares frequentemente enfrentam essas situações, ampliando barreiras para a permanência e ascensão no sistema político.
Dados do Observatório da Mulher contra a Violência do Senado Federal, divulgados em abril de 2023, revelaram que 32% das mulheres relataram ter enfrentado algum tipo de discriminação de gênero no ambiente político. Em comparação, apenas 10% dos homens afirmaram ter passado por esse tipo de situação. Entre as formas de violência mais comuns mencionadas pelas mulheres estão: desigualdade na distribuição de recursos partidários em relação a outros candidatos; interrupções ou impedimentos durante discursos; desqualificação com base no gênero; ameaças, humilhações, chantagens, calúnias, difamações ou injúrias; além da obrigação de repassar recursos da campanha para outro candidato. Também foram relatados casos de danos à propriedade e violência sexual.
A verdade é que a reflexão sobre a participação feminina na política não deve ficar restrita ao número de mulheres eleitas, mas incluir a forma como essa presença é reconhecida e representada. A imprensa desempenha um papel central nesse processo, influenciando a percepção pública sobre lideranças femininas. No caso da CPI da Covid, tanto o silenciamento quanto o enquadramento enviesado impactaram a imagem das senadoras e reforçaram estereótipos que dificultam a ascensão política de outras mulheres.
Ao comemorarmos o aniversário do direito ao voto feminino, não podemos nos limitar à celebração. Precisamos olhar para os desafios ainda presentes e exigir mudanças. A imprensa deve reavaliar os critérios de cobertura, garantindo que a atuação feminina seja reconhecida de forma justa e proporcional. O direito ao voto foi um marco essencial, mas a verdadeira participação das mulheres na política ainda é um projeto inacabado.
Por Kelly Almeida
jornalista e Mestra em Comunicação pela Universidade de Brasília -
Violências, silenciamento e direitos da mulher em “Pedaço de Mim”
*Aviso de gatilho: este texto contém relatos de violência sexual
Um casal que sonha em ter filhos, uma família importante do Rio de Janeiro e uma sequência de crimes e violências contra a mulher. Esta poderia ser, facilmente, a descrição da primeira novela brasileira da Netflix, Pedaço de Mim. Com uma pegada dramática parecida com outras tramas que já conhecemos, a produção consegue nos prender durante 17 episódios de quase uma hora cada e nos conduzir, sem perder o fio da meada, por 18 anos da vida da família Rosenthal e Azevedo.
A série consegue trazer para o debate público um tema latente; o estupro e outras violências contra as mulheres, de forma complexa — assim como a vida real. Mas não perde a densidade das relações e decisões humanas, que passam por erros, acertos e dúvidas, claro. Sobretudo em um caso raro de superfecundação heteroparental — quando dois óvulos do mesmo ciclo menstrual são fecundados por espermatozoides de homens diferentes —, como o que aconteceu com Liana Azevedo (Juliana Paes). Na prática, isso faz com que uma mulher fique grávida de gêmeos bivitelinos de dois pais diferentes, e logo na sequência explico como tudo aconteceu.
Liana (Juliana Paes), Tomás (Vladimir Brichta) e Oscar (Felipe Abib) protagonizam Pedaço de Mim. Imagem: divulgação da série Quem dá vida aos personagens principais são Juliana Paes (Liana Azevedo), Vladimir Brichta (Tomás Rosenthal) e Felipe Abib (Oscar Oliveira), que interpretam um trio repleto de conflitos e, principalmente, crimes. O lançamento, de julho de 2024, é uma parceria da Netflix com a produtora A Fábrica; a criação e roteiro são de Ângela Chaves com colaboração de Guilherme Vasconcelos, Laura Rissin e Marina Luísa Silva, tem direção de Vicente Barcellos, Clara Kutner e Maria Clara Abreu.
A intenção do texto não é fazer um resumo da série, claro, e, por isso, indico a quem está lendo que assista se quiser ir mais a fundo na história. Aqui, vou recortar a vivência da Liana, personagem que é violentada durante toda a série, então alguns detalhes não vão estar presentes de propósito.
A invasão do outro
Passar por uma crise no casamento após tentativas frustradas de engravidar foi determinante para Tomás, marido de Liana, sair de casa e se envolver com outra mulher. Em um dia de raiva e frustração, mais do que merecidas, ela vai a uma festa com Débora (Martha Nowill), companheira de longa data, no bar de Oscar, irmão da amiga. Chegando lá elas bebem, se divertem e dançam, até que Liana é drogada e uma terrível confusão mental começa.
Débora foi embora mais cedo e seu irmão prometeu cuidar da amiga, que estava sozinha com ele – e, nessa altura, completamente incapaz de responder por si. Quando eles pedem um táxi para o apartamento de Liana, ele tenta se aproximar para um beijo, mas ela nega, se despede e agradece ao conhecido por tê-la acompanhado até em casa. Ela encosta a porta e vai se deitar, já que está sonolenta e longe de seu estado normal de consciência.
Oscar entra de volta, vai até o quarto, vê que ela está dormindo e inicia um estupro. Ela pede para não continuar, afirma que não quer e mesmo assim ele continua. É interessante como a construção da série não exibe, logo, as cenas da violência, porque é como se estivéssemos acompanhando as memórias de Liana. Na manhã seguinte ela acorda com uma sensação estranha, que é mais do que ressaca. Ela tem alguns flashes e começa a se lembrar do que havia acontecido na noite anterior.
Os sentimentos de angústia, medo, nojo, repulsa e tudo aquilo que vem em alguma situação de violação do nosso corpo tomam aquele dia inteiro, e vão durar para sempre em sua vida. Após uma tentativa de se sentir limpa com um banho, ela retorna ao quarto e vê uma camisinha jogada embaixo da cama, que não estava usada, mas apenas aberta. Ou seja, ela não só havia sido estuprada como também teria o risco de infecções sexualmente transmissíveis e gravidez – mas isso ainda não passava por sua cabeça nesse momento.
É importante ressaltar aqui, que a grande maioria de casos de estupro*, outras violências contra mulher e feminicídios são realizadas por familiares (como companheiros, namorados, pais, padrastos, etc.) e outros conhecidos. Ou seja, esses casos ocorrem pelas mãos de pessoas que estão em nosso dia a dia, pessoas que são convidadas para entrar em nossas casas ou residem nelas. Por isso, não podemos jamais culpabilizar quem sofreu, pois muitas vezes essa mulher – ou criança – não sabe que precisa “se proteger” de quem está ao seu lado.
Algum tempo depois, Liana começa a sentir os primeiros enjoos e, logo em seguida, confirma: está grávida – vale destacar aqui que ela manteve relações com seu marido, Tomás, na mesma semana que foi estuprada. Ao iniciar o pré-natal, ela descobre o caso de superfecundação heteroparental e o que era um sonho torna-se um pesadelo na vida dessa mulher, que, até este ponto, não havia relatado a violência para ninguém. O processo de entendimento e aceitação de gerar uma criança fruto de um abuso é representado de forma intensa pela personagem, com o misto de angústia constante e desejo pela maternidade que idealizou.
Liana passa por todo o processo da gravidez junto de Tomás, que não aceita a criança “que não é dele”. Imagem: cena da série O que não é falado não se materializa
Algo que me deixou extremamente inquieta enquanto assistia à série foram as violências perpetradas durante todo o período no qual acompanhamos a trajetória dessa família. São 18 anos em que Liana sente-se culpada por existir, por ter sofrido um estupro, por estar em um casamento abusivo e, pior, não admitir para si mesma o que aconteceu e carregar tudo isso de forma quase que individual. Até mesmo as amizades femininas próximas da personagem e sua mãe acabam se afastando e/ou descredibilizando seus sentimentos, fazendo com que ela fique com toda carga.
Quando acontece o momento do parto na casa de campo do casal, por exemplo, o filho de Tomás nasce primeiro e recebe toda assistência do pai. No entanto, enquanto a outra criança ainda está no processo, o homem sai do ambiente e deixa Liana sozinha parindo naquele local completamente despreparado, mais uma vez transferindo apenas para ela a responsabilidade. Importante lembrar que a série é ambientada a partir de 2006, então acredito que muitos acontecimentos buscam retratar práticas e o cotidiano da época, como tradições e uma visão de mundo do início dos anos 2000.
Com o passar dos anos, é possível enxergar um arco dos personagens, que despertam/são despertadas para novos pontos de vista esclarecedores sobre o que aconteceu no passado, e outros, como a família Rosenthal, que são tomados pela onda de conservadorismo – observado também na vida real. No entanto, algo que perpassa todos os capítulos é o lugar da mulher constantemente como objeto, da mulher desumanizada e que habita um lugar de submissão em relação ao outro.
Mayara Bichir vai descrever em sua tese “A dominação na constituição psíquica das mulheres: subjugação e resistência” como as mulheres são “negadas de seu estatuto de sujeito”, em relação a tudo. E mais, como as violências contra este grupo promovem submissão por meio da experiência traumática, que “fragmenta o eu” e as deixa em um constante sentimento de insegurança. Sendo assim, Pedaço de Mim, reforça não somente Liana enquanto objeto, como coisa, no qual ela vivencia os acontecimentos apresentados como naturais, mas também num papel de feminilidade submissa e refém da dominação masculina.
Somente no décimo sexto, e penúltimo episódio, ela afirma ter sido estuprada e reconhece o que viveu, afirmando o fato para si mesma e, conseguindo assim, romper o ciclo de violações que sofria há anos. Isso, em especial, junto com uma amiga e cunhada que deu apoio e força, a médica Silvia Rosenthal (Paloma Duarte), que constitui um lugar de potência feminina essencial para trazer informação, debate e até uma certa libertação para Liana.
Costumam nos dizer que a culpa é feminina, nasce com a gente. Mas, ela é, na verdade, construída todos os dias e nós, do outro lado, tentamos nos desvencilhar desse sentimento criado para nos aprisionar.
*Você pode conferir mais informações e materiais sobre este assunto aqui:
Violência sexual – Dossiê Violência contra as Mulheres
A explosão da violência sexual no Brasil
Brasil registra um crime de estupro a cada seis minutos em 2023
Serviço:
Título Original: Pedaço de Mim
Onde Assistir: Netflix
Classificação Indicativa: 18 anos (A18)
Classificação da autora: 18 anos (A18)
Justificativa: A série retrata violência explícita e abuso sexual.
Gênero: Drama.Por Lia Junqueira
