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Miradas da infância

Cartaz da mostra. Arte: Bento Vital. 
Programação completa. Olhar para as infâncias e pensar como elas mesmas imaginam o mundo. Essa é a proposta de Miradas da infância, mostra cinematográfica do projeto Ariadnes, que vai exibir longas-metragens protagonizados por meninos, meninas e menines e que apresentam perspectivas infantis sobre o mundo, ainda que esses filmes sejam dirigidos por adultas e adultos. Essas miradas se cruzam com questões sobre gênero, raça, sexualidade, etnia, região: quem são as crianças que o cinema nos mostra? Quais são e como são as infâncias pensadas ou lembradas pelos olhares adultos?
Programação
08/5: A princesinha
A little princess, Alfonso Cuarón, 1995
Adaptado do romance de Frances H. Burnett, o filme narra a história de uma órfã exposta a abusos em um internato de Nova York no início do século XX, após a morte de seu pai na Índia.15/5: Onde fica a casa do meu amigo
Khane-ye doust kodjast? , Abbas Kiarostami, 1987
Mistura entre ficção e documentário, o filme conta a história de Ahmed, que pega por engano o caderno de seu amigo e precisa devolvê-lo para evitar que o menino seja punido na escola, caso não leve o dever de casa.22/5: Meu pé de laranja lima
Meu Pé de Laranja Lima, Marcos Bernstein, 2012
Diante de uma realidade dura e da falta de afeto, o pequeno Zezé usa a imaginação para transformar um pé de laranja lima em seu refúgio e confidente. Entre travessuras e descobertas, ele encontra na amizade improvável com o “Portuga” o verdadeiro significado de ser amado. Baseado no clássico de José Mauro de Vasconcellos, o filme é um retrato poético e visceral sobre a infância e o momento em que a fantasia de ser criança dá lugar ao amadurecimento. Uma experiência obrigatória e emocionante que abraça qualquer um que assiste.29/5: O túmulo dos vagalumes
Hotaru no haka, Isao Takahata (Studio Ghibli), 1988
A animação percorre os desafios vividos por Seita, um adolescente de 14 anos e sua irmã Setsuko, de quatro anos, que depois de perderem seus pais precisam encontrar meios de sobreviver no Japão pós Segunda Guerra Mundial.12/6: Conta comigo
Stand by me, Rob Reiner, 1986
“Conta Comigo” é uma adaptação da novela “O Corpo” de Stephen King. O filme conta a história de quatro garotos que, ao descobrirem o desaparecimento de um menino em sua cidade natal, a fictícia Castle Rock, decidem ir à procura de seu paradeiro. Durante a busca, os amigos acabam vivendo uma aventura repleta de desafios e reflexões.”19/6: Close
Close, Lukas Dhont, 2022
Close é um drama belga que retrata a história de dois amigos inseparáveis, Léo e Rémi, de 13 anos, que veem sua relação mudar devido à pressão social. Sensível e impactante, o longa-metragem acompanha as consequências desse rompimento, abordando, desde cedo, temas como masculinidade tóxica, amizade e perda.26/6: Marte Um
Marte Um, Gabriel Martins, 2022
A partir das tensões políticas que se estabelecem no país após a eleição de um presidente de extrema-direita, Marte Um (2022) traz a história dos Martins, uma família negra de classe média-baixa que vive na periferia de Contagem, região metropolitana de Belo Horizonte. Sob um olhar sensível, a obra tece, a partir do acompanhamento de um cotidiano simples, múltiplas histórias que evidenciam a esperança frente a uma desigualdade social que sufoca sonhos.3/7: Lindinhas
Mignonnes, Maïmouna Doucouré, 2020
No longa acompanhamos Amy, uma menina de 11 anos de origem senegalesa que vive em Paris. Dividida entre dois mundos contrastantes — os valores tradicionais de sua família e a cultura influenciada pela internet —, ela se aproxima de um grupo de dança local, passando a explorar questões relacionadas à sua identidade, à descoberta da sexualidade e à hipersexualização infantil frequentemente presente nas redes sociais.- As sessões são gratuitas e acontecem sempre às 9h, na sala 207 do ICSA;
- Todas as sessões serão seguidas de uma conversa;
- Haverá emissão de certificados para quem comparecer a 75% das sessões.
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Onda Nova: desejo e liberdade sexual como resistência em tempos de repressão

As cenas iniciais de Onda Nova retratam um jogo de futebol no qual as pessoas estão transvestidas. Imagem: trecho do filme Em 1983 era exibido pela primeira vez, na 7ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, o longa brasileiro Onda Nova, que foi rapidamente censurado pela ditadura militar por “contrariar a moral e os bons costumes”. Agora em 2025, mais de 40 anos depois, o filme volta aos cinemas e – ainda assim – desafia o que é conhecido como “moral e bons costumes”. Em cenas repletas de nudez, liberdade sexual e personagens LGBTQIAPN+, assistir à obra é como um alívio em meio ao caos.
Onda Nova é quase como um manifesto contra as normas que pensamos hoje para relacionamentos e maneiras de se comportar, é livre desde sua concepção, que vem de um cinema independente. A comédia erótica conta a história do Gayvotas Futebol Clube, time feminino (é preciso lembrar que, na época, a modalidade estava recém regulamentada, já que era proibida para mulheres anteriormente) e acompanha as jogadoras, seus núcleos familiares e/ou de relacionamentos. A direção de Ícaro Martins e José Antonio Garcia traz com leveza temas considerados “tabus”, como o aborto, as relações homoafetivas e drogas, além de uma estética marcada por cores vibrantes e muito (muito mesmo) brilho.
O filme, considerado “o clássico proibido da Boca do Lixo”, conhecido polo cinematográfico da cidade de São Paulo entre 1960 e 1980, de onde borbulhavam produções marginais e inventivas, tem grandes nomes da arte, música e futebol no elenco. Desde Regina Casé, Caetano Veloso e Vera Zimmermann, até ídolos consagrados do time paulista de futebol Corinthians, como Walter Casagrande, Wladimir Rodrigues dos Santos e Olívio Pitta, que foram líderes da Democracia Corinthiana. Além disso, o locutor Osmar Santos, voz marcante das campanhas de mobilização política durante as Diretas Já, também faz participação no trecho do jogo contra a seleção italiana.
José Antonio Garcia, um dos diretores da produção, comenta que a intenção era brincar e subverter os papéis ditos “femininos e masculinos”, justamente para questionar e nos fazer pensar para além daquilo que está colocado como norma. Desde o início acompanhamos atividades “tipicamente” atribuída aos homens sendo desempenhadas por mulheres (e meninas), como o ato de pichar, jogar futebol, dirigir táxi, ter diversos parceiros e parceiras sexuais e até mesmo ser rebelde com a família – um comportamento mal visto para meninas que têm de ser “belas, recatadas e do lar”, ao contrário dos meninos que são, por natureza, aventureiros.

Poster de divulgação do filme, recriado por Helena Garcia, filha do cineasta José Antonio Garcia Ao desafiar as performances de gênero, Onda Nova abre a possibilidade de brincar e fazer piada de coisas já consagradas, como o núcleo familiar de Lili (Cristina Mutarelli), jogadora do time, no qual a mãe é interpretada pelo ator Patrício Bisso, uma pessoa autoritária em que, na maioria das cenas, aparece lendo jornal e fumando. Enquanto isso, o pai fica num canto fazendo tricô, ironizando essa figura de pai e mãe que nos parece intocável.
Além disso, algo muito presente e importante para a narrativa são o desejo e tesão que praticamente todos os personagens manifestam, seja em transas entre pessoas do mesmo gênero ou diferentes. Em tempos de menos sexo explícito nas telonas, a produção de 83 é um chamado às pornochanchadas da época, que trazem o corpo como centro, o prazer como consequência deliciosa do ato. Afinal de contas, podemos pensar na máxima de que “cinema brasileiro é só putaria” como algo interessante a ser observado e discutido, pois a liberdade dita “excessiva” incomodava a parcela mais conservadora da população – e continua incomodando.
É evidente que precisamos pensar em quais maneiras o sexo está sendo colocado, qual papel as pessoas estão desempenhando (principalmente os femininos), ou mesmo se há representação de violências para que ele ocorra, como estupros e abusos. No entanto, quando a temática faz parte da narrativa – ou existe de maneira complementar –, a experiência de poder explorar os corpos e a nudez de maneira tranquila torna-se incrível.
Neste momento, em que estamos no mês do orgulho, é preciso pensar em quais ondas novas estamos dispostas a entrar de cabeça, deixando para trás o que nos impede de ser quem somos da maneira mais livre possível. Que nossos desejos possam florescer e encontrar caminhos abertos – ainda que estejamos em tempos difíceis com os fantasmas criados em volta do gênero, como diz Judith Butler em Quem tem medo do gênero? (2024). É preciso desafiar, coletivamente, todas as normas criadas e reforçadas na performatividade de ser mulher, homem e de ser gente nesse mundo.
A obra nacional refaz esse movimento – que, diga-se de passagem, estamos precisando, vide a onda de jovens conservadores – disruptivo e até mesmo revolucionário, de quem se coloca como quer e provoca quem ainda tem uma visão ‘ultrapassada’ das relações. As Gayvotas voaram e surfaram nessa onda com autenticidade, enfrentando diversos dilemas dessa transição entre adolescência e vida adulta que estariam adentrando, como os primeiros amores, questões financeiras e sentimentais. Tudo isso sem perder o senso de humor (um tanto quanto ácido em algumas passagens, mas maravilhoso).

Time das Gayvotas e o treinador. Foto: trecho do filme O time feminino e o enredo tornam possível a vida de pessoas que estavam sendo condenadas nesse período histórico apenas por existirem e estarem ocupando determinados lugares – como os da arte, música e cinema. As Gayvotas dão vida ao que o regime militar gostaria de destruir, e mesmo agora, o que a extrema direita poderia classificar como “ideologia de gênero”, “mamadeira de piroca” e os tantos outros absurdos inventados. Quando, na verdade, a luta representada pelas mulheres, pessoas negras e LGBTQIAPN+ são apenas para viverem seus amores e vidas em paz – o que todos queremos e desejamos.
Ao assistir o longa na Estação Net Rio, cinema de rua tradicional do Rio de Janeiro e que costuma trazer obras independentes e alternativas, com minha companheira naquela segunda-feira após o show de Lady Gaga, me deu gás e vontade de mais. Mais liberdade e menos impedimentos. Espero que neste junho possamos enxergar mais ondas – boas e novas – como essa, apesar de tudo.
Serviço:
Título Original: Onda Nova
Onde Assistir: Mubi e ClaroTV+
Duração: 1h 42min (102min)
Classificação Indicativa: 18 anos (A18)
Classificação da autora: 18 anos (A18)
Justificativa: O filme retrata cenas de sexo e linguagem explícita, uso de drogas lícitas e ilícitas.
Gênero: Comédia/EsportePor Lia Junqueira
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O Marco Civil, o STF, os riscos à liberdade de imprensa e as big techs

Montagem produzida por Sophia Ribeiro. Enquanto o Supremo Tribunal Federal (STF) se prepara para retomar o julgamento da constitucionalidade do artigo 19 do Marco Civil da Internet, jornalistas e veículos de comunicação acompanham com atenção, e preocupação, os desdobramentos desse processo. Mais do que um debate técnico sobre responsabilização de plataformas digitais pelos conteúdos circulados nelas, trata-se de uma decisão que terá implicações profundas para a liberdade de imprensa no Brasil. Quando pensamos no artigo 19, entendemos que ele estabelece o seguinte: as plataformas só podem ser responsabilizadas por conteúdos de terceiros após o descumprimento de uma ordem judicial específica. Essa regra oferece uma proteção importante à liberdade de expressão e ao jornalismo investigativo, pois impede a remoção automática ou preventiva de conteúdos legítimos com base em interpretações subjetivas, mas tem sido palco de inúmeras disputas políticas, principalmente quando pensamos no embate recente do bilionário extremista Elon Musk x o ministro do STF Alexandre de Moraes.
Diante da ausência de uma atuação legislativa por parte do Congresso Nacional, o STF tem assumido esse papel de liderança nas discussões de questões regulatórias da internet. No entanto, essa atualização precisa ser equilibrada e alinhada aos princípios constitucionais e aos tratados internacionais dos quais o Brasil é signatário, como o Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos (ICCPR). Esses instrumentos fornecem critérios claros para os limites da liberdade de expressão, como incitação à violência e discurso de ódio, sem abrir espaço para interpretações amplas, imprecisas e arbitrárias.
O receio de uma grande parcela dos jornalistas é que, como as plataformas só são responsabilizadas quando há o descumprimento de uma ação judicial, os conteúdos que necessitam urgentemente de suspensão continuam circulando nas redes. Pornografia infantil, desinformação sobre processos eleitorais, incitação à violência, discursos de ódio, golpes financeiros e apologia à abolição do Estado de Direito continuam no ar até o Judiciário ser acionado. O antropólogo David Nemer, pesquisador da área de desinformação e tecnologia, explica que esses produtos continuam no ar justamente por aumentarem o engajamento, alavancarem curtidas, comentários e compartilhamentos, que consequentemente dão uma resposta monetária positiva às big techs. Conteúdo criminoso é considerado polêmico e, portanto, gera lucro. Por outro lado, as possíveis mudanças no Marco Civil, reportagens críticas, investigações sobre corrupção e coberturas de figuras públicas, e até das próprias plataformas, como Meta ou X, poderiam ser excluídas da internet antes mesmo de qualquer análise judicial, gerando um efeito inibidor no jornalismo e prejudicando o acesso da sociedade à informação.
Caso Monark e a instrumentalização política contra a imprensa
A título de exemplo podemos citar o famigerado caso do youtuber e streamer Bruno Monteiro Aiub (popularmente conhecido como Monark). Fazendo uma rápida (não tão rápida assim) recapitulação para quem desconhece o caso, o ministro Alexandre de Moraes determinou o bloqueio de perfis dele no Rumble e Discord. As plataformas tentaram, posteriormente, recorrer da decisão, tomada pelo magistrado em 2023, e que atingiu também, além das contas citadas, outros perfis na Meta, Telegram e Twitter. A acusação seria de que o influenciador divulgou “notícias fraudulentas” sobre a atuação do STF e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), e essa decisão foi tomada dentro do contexto do inquérito que apurou a omissão de autoridades nos atos de 8 de janeiro, que culminaram na tentativa de golpe de Estado e depredação das sedes dos três poderes, em Brasília. Mas o que isso tem a ver com o Marco Civil da Internet? Pois bem, o argumento do falecido Twitter seria uma interpretação arbitrária e até mesmo lesiva, perniciosa e mal intencionada da lei, na busca por uma ‘brecha’ legal:
“Além da garantia constitucional da vedação à censura, a legislação infraconstitucional, qual seja, a Lei nº 12.965/2014 (“Marco Civil da Internet”), aplicando expressamente a garantia constitucional da liberdade de expressão e a vedação à censura, prevê, em seu artigo 19, que o bloqueio de conteúdo na internet deve se limitar àquele tido por ilícito, e indica expressamente que a ordem de remoção deve conter, sob pena de nulidade, a localização inequívoca do conteúdo a ser removido – isto é, a URL específica do conteúdo reputado infringente”, como consta na reportagem da CNN sobre o caso Monark.
A plataforma também solicitava que Moraes reconsiderasse a decisão ou que enviasse o caso para apreciação do plenário do STF. Os argumentos usados pelas outras plataformas envolvidas são praticamente iguais. O Discord alega que a ordem de bloqueio na plataforma atingiria um servidor com uma comunidade de quase 1.500 membros, e que esses integrantes “não se confundem com a pessoa do influenciador Monark, os quais, ao que tudo indica, utilizavam esse servidor de forma lícita, no exercício de suas garantias individuais, para o compartilhamento de conteúdo e conversas sobre assuntos diversos”, ou seja, o coletivo não deve sofrer pelas falas de um indivíduo. Será mesmo?
“Não há nos autos qualquer indicação de que a pessoa alvo da investigação figure entre os membros do servidor ou mesmo de que haja conteúdo ilícito no canal”, continua a defesa do Discord. Por fim, além do bloqueio dos perfis de Monark, Moraes determinou também que ele se abstenha de divulgar fake news sobre o STF e o TSE, e uma multa em caso de descumprimento de R$ 10 mil por dia, tanto para as plataformas, quanto para ele.
A pior parte é que em recurso ao ministro, “o Twitter disse que a decisão de Moraes pode representar violação à Constituição Federal, dada a possibilidade de caracterizar censura de conteúdo lícito nas centenas de postagens de Monark na plataforma, além de possível censura prévia de conteúdo futuro lícito, não necessariamente vinculado ao objeto do inquérito em curso”, segundo reportagem da CNN.
Para mim, um dos aspectos mais preocupantes é exatamente esse uso político da nova interpretação. Como alertam os próprios autores do Marco Civil, há risco de que figuras públicas passem a usar alegações vagas, como “ofensa à honra”, para exigir a remoção de conteúdos jornalísticos sem necessidade de ordem judicial. O que impede que um político tente tirar do ar uma matéria incômoda? Esse cenário fragilizaria o jornalismo e feriria diretamente o direito à informação. Mas também abre espaço para prerrogativas como o caso Monark, em que há uma clara tentativa de subversão dos mecanismos que deveriam proteger a informação dentro da internet.
É fundamental que medidas contra desinformação e discursos de ódio sejam tomadas com responsabilidade, respeitando o devido processo legal e os direitos individuais. A regulação da internet é necessária e urgente, especialmente diante do crescimento de grupos que usam as redes para propagar discursos de ódio, desinformação e violência, como ficou evidente em episódios trágicos, incluindo crimes orquestrados por comunidades online. O desafio é garantir que essa regulação ocorra de forma democrática, transparente e participativa, como foi o processo de construção do Marco Civil, que durou sete anos e envolveu ampla consulta pública.
O STF tem um papel importante na interpretação das leis, mas a elaboração de normas sobre responsabilidade de plataformas deve partir do Legislativo, instância legítima para representar a vontade popular. A concentração de decisões sensíveis em um único poder, ainda que motivada pela omissão de outro, pode gerar desequilíbrios institucionais e insegurança jurídica. Ainda que o protagonismo do STF tenha sido decisivo para proteger a democracia em momentos críticos (como nas eleições de 2022), é essencial que essa atuação seja pontual e respeite os limites constitucionais.
A resposta à desinformação e aos abusos nas redes sociais precisa envolver o Congresso Nacional, a sociedade civil e sobretudo especialistas. Em 2021, tivemos o emblemático caso de uma medida provisória (1.068/2021) assinada pelo então presidente Jair Bolsonaro, que suscitou uma manifestação contrária da Procuradoria-Geral da República (PGR), sobre alterações no Marco Civil da Internet. A justificativa da MP? O governo alegou que a intenção era reforçar direitos e garantias dos usuários da rede e combater a “remoção arbitrária e imotivada de contas, perfis e conteúdos por provedores”, segundo matéria da CNN. A oposição e entidades da sociedade civil criticaram e questionaram a iniciativa do governo veementemente, e até o então procurador-geral da República Augusto Aras apontou a alteração como “repentina” e abrupta, pois não houve tempo para análise do mérito da adesão desta medida.
Violência de gênero
Essa preocupação se soma a um cenário ainda mais preocupante para o exercício do jornalismo no Brasil. Em 2023, foram registrados 181 casos de violência contra jornalistas, segundo a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), número que, mesmo inferior aos anos anteriores, ainda é expressivo. As jornalistas mulheres, em especial, continuam sendo alvo de ataques constantes, como no caso recente de Fabiana Tostes, alvo de violência política em Vitória (ES). O Marco Civil pode e deve ser aprimorado para enfrentar questões como discursos de ódio, violência de gênero e racismo online, e é importante frisar que esses desafios não anulam a importância de preservar as garantias que ele oferece à liberdade de imprensa e à segurança jurídica de quem informa.
Em matéria para o Migalhas, Laura Porto julga que na era da “hiperdigitalização” o artigo 19 se torna obsoleto à lógica atual, ao condicionar a responsabilização das plataformas apenas aos casos em que houver o descumprimento de ordem judicial. Ou seja, o modelo atual, baseado no princípio da neutralidade, não dá conta dos desafios contemporâneos, como a disseminação de desinformação, discurso de ódio e riscos à integridade democrática. A crescente influência das plataformas exigiria uma regulação mais robusta e transparente, com responsabilidades proporcionais ao seu poder. Modelos internacionais como o Digital Services Act (DSA) da União Europeia e o NetzDG da Alemanha demonstram como é possível equilibrar a liberdade de expressão com responsabilidade social. No Brasil, além do julgamento da constitucionalidade do artigo 19 pelo STF, a Comissão de Reforma do Código Civil propõe a criação de um capítulo sobre o “Direito ao Ambiente Digital Transparente e Seguro”, com obrigações específicas para as plataformas, especialmente as de amplo alcance como o Twitter/X, Youtube, Instagram e Facebook.
Um outro exemplo dessa obsolescência é o caso de difamação contra a vereadora Marielle Franco, assassinada junto com o motorista Anderson Gomes em 2018. “A morte física não foi suficiente, era necessário matar também a sua memória e honra. E foi assim que deu-se início à tentativa de assassinar de novo Marielle, ao se atacar sua imagem e memória”, analisam as autoras Clara Becker e Gabriela de Almeida Pereira em coluna para o Metrópoles. A partir do texto, começamos a entender o processo de disseminação de fake news que tentava ligá-la ao tráfico de drogas como forma de justificar a brutalidade do seu assassinato. Segundo a polícia, os mandantes e autores do crime foram encontrados, mas ainda não se sabe quem são os responsáveis pela difamação de Franco dentro da internet.
E quando retornamos ao embate entre Musk e Alexandre de Moraes, entendemos então, que o debate sobre a regulação das redes sociais reacendeu, principalmente quando o estadunidense crítica e mede forças quanto à restrição de perfis no X, enquanto Moraes responde adicionando Musk no inquérito das milícias digitais, afirmando que “as redes sociais não são terra de ninguém”. Para quem quiser saber mais, o Estadão produziu uma matéria sobre as brechas que existem atualmente na legislação quando o assunto é redes sociais, e o Núcleo Jornalismo traz notícias sobre ocorrências e exemplos que demonstram o porquê devemos nos preocupar com a regulação das redes, vale a pena ler sobre!
Apesar de haver o Marco Civil da Internet e a Lei Geral de Proteção dos Dados, para o especialista em Direito Digital e coordenador do curso de Direito da ESPM, Marcelo Crespo, a principal dificuldade para regulamentar as redes, atualmente, é o lobby feito pelas grandes plataformas. Na reportagem do Estadão, ele reforçou que, em questões sobre quais conteúdos devem ser retirados do ar, por exemplo, a maioria das plataformas segue seus próprios parâmetros e políticas. Quando pensamos em quais ferramentas temos à disposição, encontramos medidas que envolvem avaliações de risco, canais acessíveis de denúncia e responsabilização ativa em casos de danos causados por conteúdos gerados por terceiros, que são propostas cabíveis e suficientes para algumas das problemáticas que enfrentamos nos ambientes da internet, mas não para todas.
Essas mudanças visam um novo modelo de governança digital, que reconhece o poder das plataformas e exige delas condutas compatíveis com a proteção dos direitos fundamentais, promovendo um ambiente digital mais seguro, ético e democrático. Em resumo, o julgamento do artigo 19 pelo STF pode marcar um ponto de virada: ou reafirmamos o compromisso com a liberdade de imprensa e com o devido processo legal e promovemos novos debates a partir disso, ou corremos o risco de abrir espaço para práticas que silenciem o debate público em nome da conveniência e do usufruto das big techs. A escolha que fizermos agora terá impacto direto sobre o futuro do jornalismo, da democracia e do acesso à informação no Brasil.
Por Sophia Helena Ribeiro
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Quem pode ser mulher no esporte?

Imane Khelif recebendo a medalha de ouro em Paris, 2024. Imagem: Instagram da atleta No dia 1º de agosto de 2024, no combate das oitavas de final da categoria de até 66 quilos do boxe feminino da Olimpíada de Paris, a lutadora argelina Imane Khelif enfrentava a italiana Angela Carini. Aos 46 segundos de embate, Carini decide abandonar a luta após receber um golpe forte em seu nariz.
Após a desistência, difamações começaram a ser feitas questionando o gênero de Imane. Tal discussão, no entanto, foi iniciada em 2023, quando a lutadora, juntamente com a taiwanesa Lin Yu-ting, foi desclassificada por supostamente não atender os critérios de saúde de elegibilidade, no Campeonato Mundial Feminino, na Índia, pela Associação Internacional de Boxe (IBA). A IBA não é reconhecida pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) desde 2019, por acusações de corrupção, manipulação de resultados e má gestão. Tal teste, baseado em hormônios, alegou altos níveis de testosterona no corpo da atleta e cromossomos XY, mas os resultados coletados pela IBA não foram divulgados publicamente.
Assim, negligenciando a complexidade cromossômica humana, Imane Khelif começou a ser atacada de maneira transfóbica através das redes sociais e plataformas jornalísticas. Dentre algumas publicações feitas por grupos reacionários, tem-se:
“Para validar as emoções doentias de um HOMEM, uma mulher perde uma oportunidade na vida! Depois de ter apanhado muito por 46 segundos, a italiana desiste de continuar a luta contra o nosso amigo boxeador XY. A segurança das atletas mulheres não importa para o COI”.
Houve falas transfóbicas de figuras como Sergio Moro, Nickolas Ferreira, Donald Trump, o empresário Elon Musk, JK Rowling e Giorgia Meloni, primeira-ministra da Itália, repercutindo assim, informações falsas sobre a identidade de gênero de Imane, que não é uma mulher trans.
O Comitê logo se pronunciou, desmentindo toda essa repercução, afirmou que Khelif é sim uma mulher cis, vítima de uma decisão manipulada e arbitrária da Associação Internacional de Boxe, que teria começado esse boato, criticando os “ataques pouco éticos” contra a atleta. O Comitê Olímpico Argelino disse que as acusações são “mentirosas” e “totalmente injustas”. “Estamos todos com você, Imane. A nação toda te apoia”, acrescentou.
A delegação argelina informou que Imane Khelif foi desclassificada do Mundial de Boxe devido ao hiperandrogenismo, uma condição que resulta em níveis elevados de hormônios masculinos. Desde o incidente, ela está em tratamento e recebeu autorização do COI para participar dos Jogos Olímpicos de 2024, que utilizava dos mesmos critérios das Olimpíadas de Tóquio.
A transfobia no jornalismo
Portais como Metrópole e CNN Brasil publicaram matérias, que ou corroboram para o questionamento transfóbico da identidade de gênero de Khelif ou contribuíram para a estigmatização de gênero da atleta. Dentre algumas manchetes, “Desordem de diferenciação sexual: entenda o caso de boxeadoras olímpicas”, do Metrópoles, ou “Caso de boxeadora argelina reprovada em teste de gênero provoca onda de desinformação nas redes” da CartaCapital, e “Após polêmica e medalha de ouro, boxeadora argelina faz mudança no visual; veja”, da CNN Esportes se destacaram.
Essas reportagens evidenciaram-se negativamente pelo tratamento sensacionalista e preconceituoso das questões de identidade de gênero no contexto esportivo. Assim, títulos como “Desordem de diferenciação sexual” (Metrópoles) utilizam uma terminologia patologizante, sugerindo que a identidade ou a condição biológica da atleta se configura como uma anomalia ou algo passível de correção, reforçando estigmas e desinformação. A linguagem técnica, sem o devido contexto, pode alienar o público e desumanizar a atleta, ao invés de promover uma compreensão adequada das complexidades envolvidas. Dessa forma, a escolha discursiva não cumpre um papel informativo, mas sim contribui para a perpetuação de preconceitos já presentes na sociedade.
Além disso, manchetes como “Após polêmica e medalha de ouro, boxeadora argelina faz mudança no visual; veja” (CNN Esportes) desviam o foco das realizações esportivas da atleta para aspectos superficiais, como sua aparência, o que evidencia um enquadramento além de sensacionalista, reducionista, ao chamar a transfobia de polêmica.
Esse tipo de abordagem desumaniza a atleta e reforça estereótipos sobre expressões de gênero, transformando uma questão pessoal em espetáculo midiático. Por fim, expressões como “boxeadora argelina reprovada em teste de gênero provoca onda de desinformação” (CartaCapital) contribuem para a manutenção de uma narrativa ambígua e desinformada sobre os testes de gênero, que, frequentemente, são alvo de críticas por seu caráter excludente em relação às atletas que não se enquadram nas normas binárias. Já que, desde 1990, são mais de 20 variações cromossômicas identificadas na área.
Para além desse mérito, jornais passaram a assumir a interssexualidade da boxeadora, que nunca havia se pronunciado sobre tal questão. Portais como Gazeta do Povo, JOTA, R7 Esportes e G1 tiveram matérias publicadas não mais questionando a identidade de gênero de Imane, mas sim espetacularizando essa suposta interssexualidade, baseada na presença de cromossomos XY em seu organismo em teste realizado pela IBA, que como citamos, não é regulamentado pela COI. Manchetes como “Vitória Histórica: Atleta Intersexual Brilha nas Olimpíadas” (R7) apenas contribuem para transformar tal condição em um ponto de curiosidade pública e de espetacularização, novamente desumanizando a boxeadora.
Outra questão que deve ser ressaltada é a utilização desse caso por alguns veículos de comunicação para a produção de matérias que não são de interesse público. Um exemplo disso é uma notícia veiculado pelo jornal O Globo, com o seguinte título: “Alvo de fake news e campeã olímpica, boxeadora Imane Khelif passa por transformação no visual; veja vídeo”. Essa publicação possui um caráter de “caça-clique”, uma vez que o corpo do texto é uma descrição de um vídeo, no qual Imane vai a um salão de beleza. No Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros está posto que os jornalistas devem buscar provas que fundamentam as informações de interesse público. Logo, o jornal não se manteve fiel à deontologia, pois além do conteúdo não ser de interesse público, a manchete também serve para causar mais especulações e curiosidade a respeito da boxeadora.
Em decorrência dos assédios virtuais, injúrias e difamações, Khelif contratou um escritório de advocacia em Paris. Ela e sua equipe abriram uma queixa e o Ministério Público francês confirmou o recebimento e iniciou uma investigação, informada no dia 14 de agosto, por provocação pública à discriminação e ciberbullying com base no gênero e origem. Apesar de todos os ataques sofridos, Imane Khelif ganhou o ouro na competição feminina e boxe no peso médio no dia 9 de agosto.
No artigo publicado pela articulista do Jornal da USP, pertencente à Universidade de São Paulo (USP), a professora Gabrielle Weber estabelece o diálogo com a perspectiva de gênero, que é pertinente ao caso de Imane. Gabrielle, que é travesti e ativista, levanta o seguinte questionamento em sua coluna do Jornal: Pode uma pessoa cis sofrer transfobia? O que aprendemos com o caso da boxeadora argelina Imane Khelif. O texto publicado dia 28/08, ainda no mês em que o debate da investigação de Imane estava inflamado, propõe o questionamento a este jornalismo exemplificado nas matérias acima. O debate levantado acerca do gênero da atleta é construído, como revela ela, por uma sociedade dita como transvestigadora.
O termo é apresentado por Gabrielle e define o caso de Imane que, mesmo sendo uma pessoa cis, sofreu transfobia. Isso é ocasionado pelo epicentro da violência de gênero observada no esporte, que reverbera para a estrutura do jornalismo esportivo, ancorado em moldes patriarcais da sociedade e acrítico sobre a pauta de gênero e sexualidade. Dentro disso, o termo e pensamento levantado chama atenção a pesquisa Masculino, o Gênero do Jornalismo, que estabelece a estrutura conservadora dos veículos comunicacionais. O trabalho de Marcia Veiga Silva, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), interrelaciona-se com a ‘transvestigação’ apontada por Gabrielle.
Ética
O jornalismo, em especial o esportivo, é ancorado na preservação dos valores dentro da ordem. Dito isso, uma mulher cis, sem a passabilidade do seu gênero a partir de elementos biológicos ou de performance, pode sim sofrer transfobia destes meios comunicacionais. A partir de matérias posteriores à competição verifica-se a atenção dada à expressão de gênero que Imane assumiria: quando ela “muda seu visual”, a mídia observa o movimento como um resultado da pressão exercida pela investigação de gênero. No momento em que Imane reorganiza seu modo de estar na sociedade, esses meios se aquietam em virtude do entendimento daquele indivíduo do espaço que ele deve ocupar.
Quanto à justificativa cientificista da mídia sobre o debate da formação cromossômica, destacam-se também as raízes de uma comunicação baseada em uma sociedade orientada pela ciência e razão, tipicamente estabelecidas por uma sociedade conservadora que não estabelece relações aprofundadas.
Realizar a cobertura do caso dando credibilidade ao laboratório de pesquisa, a um comitê com problemas e a resultados não divulgados, e centrado apenas no âmbito da ciência biológica, é um erro comunicacional em virtude dos elementos sociais que permeiam a situação de Imane. A cobertura não se propõe questionar a dúvida da comunidade esportiva sobre o gênero da atleta e não menciona informativamente sobre a Intersexualidade e Transexualidade, sendo um potencial gancho pensado no viés do interesse público e não “do público”.
Urge entender um jornalismo realizado pela perspectiva gendrada, atento às reverberações sociais e implicações, entendendo o caso de Imane distante de uma perspectiva próxima ao fait divers. Traduzido como fato diverso, o termo é bastante usado para designar o jornalismo popular que coloca pautas importantes, como a performatividade de gênero, em um local de curiosidade. Junto a isso, em primeira instância, é importante utilizar como elemento norteador os Princípios Internacionais da Ética Profissional no Jornalismo, que no princípios seis preconiza o “respeito à privacidade e à dignidade humana” e no três refere-se “à responsabilidade Social do Jornalista”.
Por Gabriel Maciel Penha, Joyce Campolina de Assis e Maria Cecília Saldanha Quadros
Produzido para a disciplina Crítica de Mídia e Ética Jornalística em 2024.1REFERÊNCIAS
FENAJ. Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros. FENAJ. Disponível em: www.fenaj.org.br
AGÊNCIA BRASIL. Boxeadora Imane Khelif é ouro após ser alvo de fake news sobre gênero. Agência Brasil, 10 ago. 2024. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/esportes/noticia/2024-08/boxeadora-imane-khelif-e-ouro-apos-ser-alvo-de-fake-news-sobre-genero
ANSA. Boxeadora argelina processa Musk e Rowling por cyberbullying. Ansa, 14 ago. 2024. Disponível em: https://ansabrasil.com.br/brasil/noticias/esporte/2024/08/14/boxeadora-argelina-processa-musk-e-rowling-por-cyberbullying_c5d59a17-c723-492c-bb52-f5b171fe2b26.html
ANSA. Após polêmica, Imane Khelif conquista medalha de ouro no boxe. Ansa, 09 ago. 2024. Disponível em: https://ansabrasil.com.br/brasil/noticias/esporte/2024/08/10/apos-polemica-imane-khelif-conquista-medalha-de-ouro-no-boxe_b4c76fe6-77f2-4926-9742-94e896ecb7e9.html
CORREIO BRAZILIENSE. MP francês anuncia investigação de ciberbullying contra campeã olímpica argelina Imane Khelif. Correio Braziliense, 14 ago. 2024. Disponível em: https://www.correiobraziliense.com.br/mundo/2024/08/6920200-mp-frances-anuncia-investigacao-de-ciberbullying-contra-campea-olimpica-argelina-imane-khelif.html
CNN. Campeã olímpica, Imane Khelif abre queixa após polêmica sobre gênero. CNN, 10 ago. 2024. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/esportes/olimpiadas/campea-olimpica-imane-khelif-abre-queixa-apos-polemica-sobre-genero/
JOTA. O caso Khelif e a participação de atletas intersexo no desporto de elite. Jota, 7 ago. 2024. Disponível em: https://www.jota.info/artigos/o-caso-khelif-e-a-participacao-de-atletas-intersexo-no-desporto-de-elite
R7 ESPORTES. Vitória histórica: atleta intersexual brilha nas Olimpíadas. R7 Esportes, 3 ago. 2024. Disponível em: https://esportes.r7.com/olimpiadas/vitoria-historica-atleta-intersexual-brilha-nas-olimpiadas-03082024/
BBC. Imane Khelif: boxeadora argelina não se importa com boatos, diz família à BBC. BCC, 6 ago. 2024. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/cje22n011jlo#:~:text=Em%202024%2C%20Khelif%20sofreu%20persegui%C3%A7%C3%A3o,final%20em%20apenas%2046%20segundos.
EXAME. Polêmica no boxe olímpico: entenda o caso de Imane Khelif e as regras de elegibilidade de gênero. Exame, 2 ago. 2024. Disponível em: https://exame.com/esporte/polemica-no-boxe-olimpico-entenda-o-caso-de-imane-khelif-e-as-regras-de-elegibilidade-de-genero/
FANTÁSTICO. Luta fora do ringue: a batalha da boxeadora Imane Khelif contra fake news sobre seu gênero. Fantástico, 04 ago. 2024. Disponível em: https://g1.globo.com/fantastico/noticia/2024/08/04/luta-fora-do-ringue-a-batalha-da-boxeadora-imane-khelif-contra-fake-news-sobre-seu-genero.ghtml
O GLOBO. Olimpíadas: Imane Khelf, boxeadora argelina vítima de polêmica, conquista medalha de ouro. O Globo, 09 ago. 2024. Disponível em: https://oglobo.globo.com/esportes/olimpiadas/noticia/2024/08/09/olimpiadas-imane-khelif-boxeadora-argelina-vitima-de-polemica-conquista-medalha-de-ouro.ghtml
G1. MP francês anuncia investigação de ciberbullying após denúncia da campeã olímpica argelina Imane Khelif. G1, 14 ago. 2024. Disponível em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2024/08/14/mp-frances-anuncia-investigacao-de-ciberbullying-contra-campea-olimpica-argelina-imane-khelif.ghtml
CNN. Após polêmica e medalha de ouro, boxeadora argelina faz mudança no visual; veja. CNN, 15 ago. 2024. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/esportes/olimpiadas/apos-polemica-e-medalha-de-ouro-boxeadora-argelina-faz-mudanca-no-visual-veja/
JORNAL DA USP. Pode uma pessoa cis sofrer transfobia? O que aprendemos com o caso da boxeadora argelina Imane Khelif. Jornal da USP, 29 ago. 2024. Disponível em: https://jornal.usp.br/articulistas/gabrielle-weber/pode-uma-pessoa-cis-sofrer-transfobia-o-que-o-aprendemos-com-o-caso-da-boxeadora-argelina-imane-khelif/
METRÓPOLES. Desordem de diferenciação sexual: entenda caso de boxeadoras olímpicas. Metrópoles, 10 ago. 2024. Disponível em: https://www.metropoles.com/saude/desordem-diferenciacao-sexual-boxeadoras
ESTADÃO. Lutadora argelina é alvo de campanha de desinformação nas redes; entenda o caso. Estadão, 02 ago. 2024. Disponível em: https://www.estadao.com.br/estadao-verifica/imane-khelif-boxe-trans-falso/
SILVA, Marcia. Masculino, o gênero do jornalismo: um estudo cobre os modos de produção das notícias. 2010. 250 . Programa de Pós Graduação em Comunicação e Informação – Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Disponível em: https://lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/25629/000753018.pdf?sequence=1&isAllowed=y
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Projeto Ariadnes promove debates sobre relações de gênero e sexualidade dentro da universidade
Entre os dias 05/05 e 09/05, aconteceu, no Instituto de Ciências Sociais Aplicadas (ICSA) da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), a Semana de Integração do período 2025.1. O Projeto Ariadnes participou em peso das atividades da semana. Na quarta-feira (07/05), às 17h, foi realizada a oficina “Chegar à Universidade: Aprender a Praticar Relações de Gênero Saudáveis”. Ainda na quarta, às 19h, a orientadora do projeto, Karina Gomes Barbosa, juntamente com a estudante de Jornalismo e bolsista do projeto Ana Luiza Rodrigues, participou da mesa de conversa “Violências de Gênero e Sexualidades: Abuso e Assédio no Ambiente Universitário”.

Ana Luíza Rodrigues à esquerda, Laís Fonseca do Carmo ao centro e Karina Gomes Barbosa à direita. Foto: Carmen Maria Gomes. Oficina
A oficina foi realizada na Hemeroteca do ICSA e contou com a participação da equipe do Ariadnes e da comunidade ufopiana. O objetivo foi integrar calouros e veteranos, e apresentar questões que se configuram como violências de gênero. A dinâmica foi pensada a partir do entendimento do projeto que a universidade é um ambiente atravessado por questões de gênero, sexualidade e raça (entre outros marcadores). Quem chega a esse ambiente, muitas vezes não sabe identificar ou como agir frente a essas violências.






No primeiro momento o projeto se apresentou e em seguida começamos as interações. A oficina é composta por um antibingo com situações que podem ser vivenciadas dentro do ambiente universitário. Englobamos como ambiente universitário espaços fora das salas de aula, como repúblicas estudantis e festas. Quem fecha a cartela com essas situações, “ganha” a brincadeira e um mimo de consolo.
A intenção da dinâmica é que não se feche a cartela, já que constam de violências vivenciadas pelos participantes ou por alguém conhecido. O objetivo ao fim do antibingo é discutir sobre essas questões de forma pedagógica e criar, mesmo que de forma singela, um espaço de escuta, acolhimento e discussão sobre essas temáticas dentro da universidade.
Durante o sorteio são debatidos temas principais entre as frases da cartela, possibilitando a apresentação de assuntos como consentimento, relações de poder e desconforto. Entre as “pedrinhas” do bingo estavam frases como: “Privilegiar só algumas pessoas nas falas em sala, e silenciar outras” e “Falar do corpo íntimo de uma pessoa para outra sem seu consentimento” que iniciam essas discussões.
Mesa de conversa
Idealizada pelos estudantes do curso de Serviço Social da UFOP Isabela Werneck, Aline Martins e Douglas Henrique, a mesa de conversa contou com a presença da mestranda em Direito Laís Fonseca do Carmo, integrante do projeto Ouvidoria Feminina, do curso de Direito da UFOP; da estudante de Jornalismo da UFOP Ana Luiza Rodrigues, peça fundamental do coletivo Ariadnes; e da docente do curso de Jornalismo da Ufop Karina Gomes Barbosa, coordenadora do Ariadnes.

Foto: Carmen Maria Gomes 
Foto: Carmen Maria Gomes 
Foto: Carmen Maria Gomes Promover o debate, a troca de ideias e a reflexão colabora com a transformação. Dessa forma, a conversa abriu espaço para a participação das presentes, que foram vítimas e sobreviventes em casos de violências de gênero e sexualidade. À medida que cada uma se abria, o ambiente se tornava mais acolhedor, o que incentivava outras pessoas a se pronunciarem também.
Esse cenário reforça a importância de projetos com temática de gênero e sexualidade dentro da universidade e a necessidade desse trabalho que luta por mudanças. Para que essa transformação aconteça, é fundamental a participação da comunidade universitária, a fim de quebrar o estigma de que a violência de gênero é um problema a ser combatido apenas pelas mulheres. É necessário engajar uma cultura que preza pelo respeito e igualdade.
Acolhimento, voz e instrução
De acordo com a pesquisa “Violência contra a mulher no ambiente Universitário”, realizada em 2015 pelo Instituto Avon com o Data Popular, cerca de 2,9 milhões de mulheres já sofreram algum tipo de violência ou assédio. Dentre as universitárias entrevistadas, 67% já sofreram algum tipo de violência (sexual, psicológica, moral ou física) praticada por um homem no ambiente universitário. Além disso, uma pesquisa realizada pela CNN Brasil demonstrou que, nos últimos 10 anos, as universidades demitiram apenas 6% dos professores acusados de assédio sexual. Em grande parte dos casos, observa-se a ausência de punições ou mesmo de investigações em relação aos docentes.
A Ouvidoria Feminina é um órgão oficial que atua no recebimento de denúncias de violência(s) contra mulheres no âmbito da UFOP, conforme a Resolução CUNI 2249. A organização recebe, examina e relata as denúncias, presta atendimento jurídico e formaliza as denúncias perante a Pró-Reitoria de Assuntos Comunitários (PRACE) ou a Pró-Reitoria de Gestão de Pessoas (PROGEP) — segundo essa cartilha. A ouvidoria também auxilia na formulação de denúncias e representações no âmbito criminal para mulheres em situação de violência.
Por sua vez, o Ariadnes é um observatório de mídia, gênero e sexualidade que atua como projeto de extensão e incentivo à diversidade da UFOP. Além de estudos de formação, também realizamos escutas testemunhais, críticas de mídia e reportagens, contribuindo diretamente com a comunidade universitária mas também com os moradores locais.
Ambas as apresentações e projetos tentam, de alguma forma, suprir a necessidade da universidade de debater temas de violência de gênero. Esses espaços servem como integração entre calouros e veteranos e como um espaço seguro de discussão de violências sofridas dentro das universidades, que se mostram lugares inseguros para as mulheres.
Conversar sobre atos violentos contra a mulher no ambiente acadêmico é de suma importância, tendo em vista como são frequentes tais crimes. Nosso desejo é que todos possam ter uma ótima experiência dentro da universidade. Entretanto, em caso de qualquer tipo de violência sofrida, estamos à disposição para ajudar. O projeto busca oferecer suporte, respeitando e colaborando com as decisões tomadas pelas vítimas.
Contato da Ouvidoria Feminina:
Contato: (31) 9 8866-7678
E-mail: ouv.feminanaufop.sico@ufop.edu.br
Instagram: @OuvidoriaFeminina
Fala.BR : https://falabr.cgu.gov.br/web/home
Contado do Ariadnes:
E-mail:ariadnes@ufop.edu.br
Instagram: @projetoariadnesPor Ana Beatriz Justino, Marcela Pauline e Maria Vital
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Pecadores: A memória como resistência

Personagens femininas, citadas no texto | Imagens retiradas do filme “Pecadores” Autumn Durald Arkapaw é uma diretora de fotografia norte-americana que, em 2025, se tornou a primeira mulher a filmar em tecnologia IMAX. Este formato utiliza película de 70mm e permite captar imagens com resoluções mais altas e detalhadas, proporcionando uma experiência visual imersiva, especialmente em grandes telas.
O feito histórico foi alcançado com Pecadores, novo longa do diretor Ryan Coogler, lançado em abril e já com mais de 200 milhões de dólares arrecadados. O filme marca mais uma colaboração de Coogler com o ator Michael B. Jordan, repetindo a parceria vista em Creed e Pantera Negra. A diretora de arte Hannah Beachler, vencedora do Oscar por Pantera Negra, também retorna para trabalhar com o diretor em Pecadores.
Afinal, sobre o que é esse filme que chamou tanta atenção no último mês? Embora esteja classificado como terror e fantasia, ele vai muito além disso. É uma produção que mistura (muita) música, drama, ancestralidade, questões raciais dos Estados Unidos, afro-surrealismo e vampiros. Acho que é justamente essa combinação que explica o sucesso. Eu, pelo menos, nunca tinha visto nada parecido.
Ao assistir ao trailer, pode parecer que o terror está no ataque vampírico, mas antes disso o cenário já é aterrorizante por si só. A história se passa nos Estados Unidos de 1932, no Delta do Mississippi, durante a Grande Depressão. Mesmo 60 anos após a abolição da escravidão, pessoas negras ainda viviam em condições de trabalho precárias, recebendo salários em moedas de madeira. Além da constante ameaça de grupos secretos da Ku Klux Klan, há ainda o bônus dos vampiros, que funcionam como uma alegoria.
Mas, antes de falar disso. Vamos introduzir um conceito que citei anteriormente, que o filme utiliza para construir toda a narrativa. O afro-surrealismo é uma estética cultural, artística e literária que vem da experiência negra, mostrando seu deslocamento no mundo branco, utilizando elementos oníricos, simbólicos e espirituais para expressar realidades vividas. Diferente do surrealismo europeu, que se concentra no inconsciente e nos sonhos, o afro-surrealismo foca em olhar pro passado, pensar o futuro visando mudar o presente, abordando as complexidades da vida cotidiana negra.
A primeira pessoa a usar esse termo foi Amiri Baraka em 1974, para descrever o trabalho do escritor Henry Dumas. Foi desenvolvido em 2009, quando D. Scot Miller publicou o Manifesto Afrosurreal, delineando os princípios do movimento e o diferenciando do afrofuturismo, que idealiza futuros possíveis para a diáspora africana. Exemplos de produtos audiovisuais que utilizam o afro-surrealismo são os filmes Corra! (2017), ELEGUÁ (2018) e EGUM (2020) e a série Atlanta (2016). O afro-surrealismo conversa muito com o gênero terror, aproveitando do ar de estranheza elevado ao absurdo.
É importante o uso do termo “afro” em expressões como afrofuturismo e afro-surrealismo, pois ele demarca uma reivindicação de pertencimento e autoria negra. Além de representar uma ruptura epistemológica com movimentos que, embora considerados universais, são eurocêntricos e predominantemente brancos.
Voltando ao filme, é dentro dessa estética que Pecadores acompanha a história de Sammie Moore (Miles Caton), um jovem apelidado de Pastorzinho por ser filho de um pastor. Ele trabalha com sua família em uma plantação de algodão no Mississippi e é apaixonado por música, especialmente por cantar e tocar blues, mas enfrenta a reprovação do pai, que acredita que esse tipo de música pode atrair demônios.
Os outros personagens principais são os primos de Sammie, os gêmeos interpretados por Michael B. Jordan: Elijah Smoke e Elias Smoke, mais conhecidos como Fumaça e Fuligem. Eles são criminosos que passaram alguns anos em Chicago, onde lutaram na Segunda Guerra Mundial e chegaram a trabalhar para o gângster Al Capone. Ao retornarem ao Mississippi, usam o dinheiro acumulado no Meio-Oeste para comprar uma propriedade que, sem que soubessem, havia pertencido a um membro da Ku Klux Klan, e a transformam em uma casa de blues, um espaço onde pessoas negras pudessem se divertir e celebrar sua cultura.
A narrativa já começa com a promessa de uma tragédia, lançando o espectador diretamente em uma atmosfera de tensão. Depois desse primeiro impacto, o filme volta no tempo e desacelera para apresentar os personagens e suas relações. Esse retorno permite que a trama se desenvolva aos poucos, criando conexão e familiaridade até a grande inauguração do bar de blues, que reúne todos os personagens. Assim, quando o perigo enfim se concretiza, o envolvimento já está estabelecido e a tensão e o suspense são mais eficazes.
No longa, as personagens femininas ocupam papeis coadjuvantes, mas estão longe de ser reduzidas a acessórios ou apenas interesses românticos, como ainda é comum em muitas narrativas. Elas têm voz e personalidades bem definidas, influenciando diretamente o rumo dos acontecimentos. Há também uma atenção visível à forma como seus corpos e desejos são retratados, com cenas de sexo que priorizam o prazer feminino e evitam o olhar masculino tradicional. Essa abordagem mais cuidadosa se explica pela presença de mulheres por trás das câmeras, o que contribui para representações mais complexas e humanas.
Annie (Wunmi Mosaku), por exemplo, é uma curandeira hoodoo – prática espiritual afro-americana – e tem um papel fundamental para compreender e explicar o que está acontecendo e o que deve ser feito após a aparição de vampiros. Todos a escutam e respeitam seu conhecimento. Mulher negra que foge dos padrões estéticos das mocinhas do cinema, especialmente das que costumam interpretar pares românticos de galãs como Michael B. Jordan, Annie é uma presença marcante para o desenrolar da história.
Quem provoca os principais acontecimentos é Mary (Hailee Steinfeld), a única pessoa “branca” presente na inauguração do bar. Ex-namorada de Fuligem, ela é uma personagem determinada, que sabe o que quer e age com firmeza. Grace Chow (Li Jun Lin) desencadeia a principal cena de ação do filme. Embora sua atitude seja impulsiva, ela não é tratada como burra, como costuma acontecer com personagens femininas em filmes de terror; seu gesto nasce da urgência de proteger a filha. Pearline (Jayme Lawson), por sua vez, é uma mulher casada, mas que escolhe viver aquela noite com liberdade, se divertindo e se permitindo o prazer, sem culpa ou repressão.
Sobre a alegoria do vampirismo, o filme funciona como um terror de vampiros, mas se torna ainda mais interessante quando entendemos que o terror vai além disso. A música é uma forma de entretenimento, expressão cultural, ancestralidade e muito mais. A trama principal de Pecadores aborda isso. Na primeira cena do filme, uma narração em off diz que existem pessoas nascidas com o dom de tornar a música verdadeira e que têm o poder de atravessar gerações e quebrar a barreira que separa os vivos e os mortos, do passado e do futuro.
É isso que chama a atenção dos vampiros: com a festa acontecendo na inauguração do bar de blues, Pastorzinho toca a música I Lied to You e em uma cena maravilhosa que parece ser um plano sequência, o teto e as paredes do bar somem, pegam fogo e vemos uma mescla de gerações festejando juntas, com a aparição de uma representação do folclore afro americano, DJ e pessoas de várias épocas curtindo a música. Representam ritmos que vieram do blues.
O blues surgiu no final do século XIX, no sul dos Estados Unidos, a partir dos cantos de trabalho, lamentos e espiritualidades de pessoas negras escravizadas e seus descendentes. Com forte carga emocional e expressão de resistência, o blues influenciou diretamente gêneros como jazz, rock, soul, R&B, hip-hop e o funk, sendo base fundamental para a música popular mundial.
A partir da catarse musical, os vampiros ficam tentados a morder aquelas pessoas, principalmente o Pastorzinho. Pois quando mordida, a pessoa passa todas suas lembranças ao vampiro e eles queriam aquele poder de atravessar gerações. Os vampiros não queriam apenas matar, mas usar os corpos negros e os “poderes” musicais pra propagar sua cultura e encontrar sua própria ancestralidade. Isso é ficção? Sim, mas tem a base em uma verdade.
Elvis Presley ser conhecido como “rei do rock” é um exemplo desse processo – sem vampiros – de sugar, tirar, se apropriar, no qual artistas brancos se tornam símbolos de gêneros que nasceram nas comunidades negras – não por falta de artistas negros. Assim como os vampiros do filme, que querem se apropriar não só da vida, mas da memória, da história e da potência que atravessa gerações, a indústria da música historicamente se alimenta da criatividade negra, transformando-a em produto lucrativo, mas apagando seus verdadeiros criadores. O filme, ao usar essa alegoria, nos mostra como esse roubo não é apenas material, mas também simbólico e espiritual. É a tentativa constante de capturar uma cultura sem carregar sua dor, sua luta, sua representatividade e ancestralidade.
Outro aspecto desse assunto que também vemos em Pecadores é o estigma sobre a música negra, até dos próprios negros, e como o processo de apagamento faz com que o que vem da negritude seja visto como maligno, até o branco se apropriar e “legitimar”. Desde o início do filme, o pai de Pastorzinho o alerta sobre o perigo de tocar blues e atrair demônios e maldições. Essa temática rende uma ótima cena pós-créditos com Buddy Guy, um dos maiores guitarristas e cantores de blues da história, e usa uma lenda antiga como metáfora.
A lenda de Robert Johnson: dizem que, na década de 1930, ele teria feito um pacto com o diabo em uma encruzilhada no Mississippi, trocando sua alma por talento musical. A partir dali, teria se tornado um dos músicos mais influentes da história, mesmo enfrentando apagamento e preconceito em vida. O próprio Johnson, ciente da repercussão que essa história causava, alimentava a lenda em suas músicas – composições como Cross Road Blues e Me and the Devil Blues fazem referência direta ao suposto pacto, o que só aumentava a repercussão.
Essa narrativa de “pacto” reflete muito mais do que uma simples superstição: revela como, historicamente, a genialidade negra foi tratada como algo sobrenatural, perigoso ou até demoníaco, ao invés de ser reconhecida como fruto de talento, ancestralidade e resistência. E o filme Pecadores brinca justamente com essa lenda, trazendo o elemento fantástico como uma metáfora e usando do afro-surrealismo para descrever essa história de maneira diferente. No fundo, o que está em jogo não é só uma história de vampiros e maldições, mas uma crítica direta aos modos como a cultura negra é constantemente sugada, apropriada e esvaziada. Enquanto os verdadeiros criadores são marginalizados e suas histórias associadas ao medo, à criminalização e ao misticismo.
Indico o filme, que no cinema é uma experiência incrível e as músicas são muito boas. Ele trata de vários assuntos interessantes, como os que citei aqui e outros, mesmo que sem se aprofundar, sobre as relações raciais nos Estados Unidos, para além dos brancos colonizadores e os negros, com representações de chineses, irlandeses e indígenas.
Por Ana Rodrigues
Serviço
Título Original: Sinners
Onde Assistir: Compra ou aluguel na Amazon Prime Video e Apple TV+
Duração: 2h e 17m (132min)
Classificação Indicativa: 16 anos (A16)
Classificação da autora: 16 anos (A16)
Justificativa: O filme retrata violência e linguagem explícita, cenas de sexo e uso de drogas lícitas
Gênero: Terror/Fantasia/Drama/Musical
Rotten Tomatoes: 97%
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O crime da Praia dos Ossos
Ângela Diniz em duas edições da Fatos&Fotos O caso da morte de Ângela Diniz, conhecido como “O Crime da Praia dos Ossos”, foi um dos crimes de feminicídio mais emblemáticos e controversos do Brasil, também na cobertura jornalística. Ângela Diniz, uma socialite brasileira famosa por sua beleza e vida social intensa, foi assassinada em 30 de dezembro de 1976 por seu então namorado, Doca Street, em sua casa de veraneio na Praia dos Ossos, em Búzios, no estado do Rio de Janeiro.
Ângela Maria Fernandes Diniz nasceu em Belo Horizonte em 1944, filha de uma família de classe alta. Ao longo de sua vida, tornou-se uma figura notória no jet set carioca, frequentando festas e eventos sociais, sendo conhecida por seu estilo de vida livre e pelas relações amorosas com homens influentes.
Em meados de 1975, Ângela começou um relacionamento com Raul Fernando do Amaral Street, mais conhecido como Doca Street, um empresário paulista de família rica. O relacionamento, no entanto, era marcado por intensos ciúmes, brigas e desentendimentos, com episódios de violência.
No fim de 1976, Ângela e Doca estavam em sua casa de praia, na Praia dos Ossos, em Búzios, quando uma discussão entre o casal culminou na tragédia. Doca Street sacou um revólver e disparou quatro tiros contra Ângela Diniz, matando-a instantaneamente. O corpo de Ângela foi encontrado com três tiros no rosto e um na nuca, o que indicava a brutalidade do crime. Logo após o assassinato, Doca fugiu, mas foi capturado pouco tempo depois e confessou o crime, alegando ter agido em legítima defesa por ter sido ofendido e humilhado por Ângela.
O primeiro julgamento de Doca Street ocorreu em 1979 e causou grande repercussão nacional. No tribunal, ele adotou uma defesa baseada na tese da legítima defesa da honra, que alegava que ele agiu em reação a supostas humilhações e provocações por parte de Ângela, tentando justificar o assassinato como uma defesa à sua masculinidade e dignidade.
Surpreendentemente, essa argumentação encontrou eco na sociedade da época, marcada por um machismo profundo. Doca Street foi inicialmente condenado a dois anos de prisão em regime aberto, uma pena extremamente branda, considerando a gravidade do crime.
A sentença gerou enorme revolta, especialmente entre movimentos feministas, que viram no caso um símbolo da impunidade e da violência de gênero no Brasil. A máxima “Quem ama não mata” se tornou uma das bandeiras do movimento, questionando o machismo estrutural e a conivência da sociedade com crimes de violência contra a mulher. O impacto do crime e do julgamento de Doca Street reverberou na cultura brasileira, sendo tema de livros, reportagens e documentários ao longo das décadas, incluindo o podcast Praia dos Ossos, que reconta o caso em detalhes.
Os veículos jornalísticos
Os principais veículos jornalísticos que cobriram o caso Ângela Diniz desempenharam um papel fundamental na forma como a opinião pública e a sociedade brasileira lidaram com o crime e sua repercussão. Inicialmente, muitos desses veículos seguiram a narrativa da defesa de Doca Street, enquanto, em uma segunda fase do julgamento, acompanharam o movimento feminista que se ergueu em resposta. Entre os veículos mais notáveis envolvidos na cobertura do caso estão:
1. Revista Manchete: A Manchete era uma das revistas mais populares da época e foi um dos principais veículos a cobrir o caso. Inicialmente, a revista explorou o lado sensacionalista do ocorrido, focando em detalhes da vida pessoal de Ângela Diniz, sua beleza e suas relações amorosas, o que contribuiu para o estereótipo da “mulher fatal”. No entanto, a revista também deu espaço posteriormente à repercussão do movimento feminista, refletindo as discussões sobre o machismo e a violência de gênero.
2. Jornal O Globo: O Globo foi um dos jornais de grande circulação que cobriu intensivamente o caso. A princípio, o jornal refletia o viés predominante da sociedade brasileira na década de 1970, enfocando a defesa de Doca Street e retratando o crime como uma tragédia “passional”. À medida que a opinião pública se transformava e o movimento feminista ganhava força, O Globo passou a trazer discussões sobre a injustiça do primeiro julgamento e a defesa dos direitos das mulheres.
3. Revista Veja: A Veja, maior revista de circulação semanal no Brasil, também fez uma cobertura extensa sobre o caso, incluindo análises sobre o julgamento de Doca Street e o contexto social em que o crime ocorreu. Embora o enfoque inicial tenha explorado a vida pessoal de Ângela, posteriormente a Veja foi um dos veículos que acompanhou as manifestações feministas, discutindo a problemática da “defesa da honra” e o impacto jurídico do caso.
4. Jornal do Brasil: O Jornal do Brasil, conhecido por uma cobertura mais voltada a análises críticas e editoriais profundos, trouxe artigos sobre o impacto social do crime. Foi um dos veículos que começou a discutir mais cedo a questão do machismo e da violência de gênero no contexto do caso. Suas reportagens deram voz às ativistas feministas e às críticas à Justiça pela branda condenação de Doca Street no primeiro julgamento.
5. O Estado de S. Paulo: O Estado de S. Paulo foi outro jornal importante que cobriu o caso. Tradicionalmente conservador, o veículo seguiu a linha predominante de grande parte da imprensa, mas, com o tempo, ajustou seu enfoque para refletir a crescente pressão social por justiça. Durante o segundo julgamento de Doca Street, o jornal ofereceu uma cobertura mais crítica, destacando o papel do feminismo na mudança de percepção sobre o caso.
6. Revista Claudia: A Claudia, uma revista voltada para o público feminino, foi uma das que mais apoiou a causa feminista no caso de Ângela Diniz. Suas páginas foram usadas para denunciar a violência de gênero e criticar a tese de “defesa da honra”. A revista ajudou a propagar o slogan “Quem ama não mata”, que se tornou uma das bandeiras centrais do movimento.
7. Revista Fatos e Fotos: Assim como a Manchete, a Fatos e Fotos cobriu o caso de maneira sensacionalista, focando bastante na vida social de Ângela Diniz e na tensão entre o casal. Esse tipo de abordagem ajudou a alimentar o interesse do público em torno do drama pessoal dos envolvidos, mas, ao mesmo tempo, reforçou estereótipos da época sobre mulheres que desafiavam padrões comportamentais conservadores.
A cobertura jornalística
É importante salientar que, durante o primeiro julgamento, muitos desses veículos foram acusados de contribuir para a construção da imagem de Ângela Diniz como uma mulher promíscua e provocadora, o que ajudou a embasar a tese de Doca Street de que ele teria agido por “defesa da honra”. Esse enquadramento midiático legitimava, em certo nível, o chamado “crime passional”, ou seja, aquele cometido “por amor”, uma visão muito comum na sociedade brasileira da época.
No entanto, com a crescente pressão dos movimentos feministas e o segundo julgamento, a abordagem dos veículos mudou de caráter. Os jornais e revistas começaram a dar mais espaço para as questões de violência doméstica e feminicídio, ajudando a provocar uma mudança de opinião pública. O debate sobre a tese da “legítima defesa da honra” passou a ser vistoa sob um novo prisma, questionando a validade desse argumento e trazendo à tona a discussão sobre os direitos das mulheres e a impunidade dos agressores.
Assim, a cobertura midiática do caso foi essencial tanto para a formação de uma opinião pública inicialmente favorável a Doca Street quanto para a reviravolta que levou à sua condenação mais severa. A imprensa não apenas refletiu as tensões sociais e culturais do Brasil da época, mas também desempenhou um papel central ao abordar o debate sobre feminicídio, violência de gênero e machismo.
Ângela Diniz era uma mulher independente e tinha uma vida social ativa, o que desafiava as normas conservadoras da sociedade brasileira da década de 1970. O seu relacionamento com o empresário e ex-militar Doca Street foi o centro do debate, com pouca ênfase no assassinato brutal. Prontamente Doca alegou que agiu em um momento de ciúmes e o uso da justificativa de “crimes passional” no julgamento evidenciou a falta de compreensão da gravidade da violência de gênero.
O julgamento de Doca Street foi polêmico e ele acabou sendo condenado a uma pena leve, gerando protestos e uma mobilização que adotou o slogan “Quem ama não mata”, divulgadoa nos meios de comunicação. Assim, o caso impulsionou o debate sobre a necessidade de mudanças na legislação e no tratamento de crimes de feminicídio e continua a ser lembrado em discussões sobre os direitos das mulheres.
A respeito da cobertura midiática, destaca-se que, na edição do dia 15 de janeiro de 1977, a revista Manchete, da editora Bloch, publicou uma matéria de capa com a foto de Ângela Diniz, acompanhada dos seguintes dizeres: “a morte da pantera”. Essa linguagem, carregada de juízo de valor, utiliza tal “apelido” reforçando o estereótipo de uma mulher fatal, capaz de “enlouquecer” qualquer homem.
A manchete “A morte da pantera” omite deliberadamente o agente responsável pelo assassinato de Ângela Diniz, apresentando sua morte de forma impessoal, como se fosse um evento trágico e/ou natural. Ao evitar termos como “assassinato” ou “crime” e ao usar a metáfora “pantera” para descrever Ângela, o título desumaniza a vítima e desloca a atenção da responsabilidade de Doca Street, conforme defendem Oliveira e Rodrigues:
a não citação direta de um feminicida ou do recurso da voz passiva é a manifestação da camaradagem masculina, fruto do machismo estrutural. São homens se protegendo.” (OLIVEIRA; RODRIGUES, 2021, p. 67).
A redação da matéria continua, extremamente gráfica, fazendo uso de termos como “rosto mutilado” e “dentes trincados”, dando detalhes que quase fetichizam a brutalidade do ato. Essas descrições desviam a atenção da gravidade do feminicídio, transformando a narrativa em algo cinematográfico, que serve para chocar o leitor.
Ao longo da matéria, problemas com drogas e amor também são citados. Essa escolha de palavras minimiza a gravidade do assassinato, atribuindo parte da culpa a um estilo de vida autodestrutivo, associando sua morte a questões pessoais, como se ela fosse inevitavelmente levada ao destino trágico. Ao destacar esses “problemas” sem contextualizar adequadamente a violência que sofreu, o texto sugere que sua vida era marcada por excessos e escolhas perigosas, enfraquecendo a percepção de Ângela como uma vítima de feminicídio e transferindo parte da responsabilidade pelo crime para a própria vítima.
Mas não foi apenas a revista Manchete que cobriu o assassinato de forma desrespeitosa com a vítima. Outros meios trataram como “novela” esse crime, tal como Branca Viana narra no podcast Praia dos Ossos:
[…] Os meios de comunicação do país inteiro mobilizaram repórteres para cobrir o caso. Tinha câmera pra receber o corpo da Ângela em Belo Horizonte. Tinha câmera dentro da igreja na missa do sétimo dia dela. Tinha câmera até do lado da cova na hora do enterro, tanto que um dos filhos dela jogou uma pedra no cinegrafista. Tudo foi filmado e transmitido […] (PRAIA DOS OSSOS, 2020).
Outro periódico, Fatos&Fotos, teve como capa em 17 de abril de 1978 a seguinte manchete: “Sensacional/Nova Série. Ângela Diniz. O trágico destino de uma pantera”. Este é o título que inicia o texto de Carlos Heitor Cony, jornalista que disse ter pena do assassino:
Vi o corpo da moça estendido no mármore da delegacia de Cabo Frio. Parecia ao mesmo tempo uma criança e boneca enorme quebrada… Mas desde o momento em que vi o seu cadáver tive imensa pena, não dela, boneca quebrada, mas de seu assassino” (FOLHA, 2006).
A publicação tratou do assassinato como espetáculo a ser acompanhado, explorando comercialmente a vítima. Essa escolha editorial retrata como o caso foi transformado em parte de uma narrativa contínua que poderia ser acompanhada como produto fictício de entretenimento.
O título “O trágico destino de uma pantera” segue a mesma linha de romantização do crime que foi observada em outras publicações. Assim como a Manchete, a revista Fatos&Fotos também utiliza o adjetivo “pantera” para referir-se à vítima, desumanizando Ângela e a transformando em uma figura exótica e misteriosa, ao invés de tratá-la como uma vítima real de violência de gênero. Além disso, o termo “destino” sugere que sua morte foi uma consequência inevitável de sua vida, reforçando estereótipos da “mulher fatal” que, por seu comportamento ou escolhas, acaba sendo tragicamente eliminada.
Quem ama não mata

Foi com a sequência de assassinatos de Eloísa Ballesteros e Maria Regina Santos Souza Rocha em 1980, ambos cometidos pelos maridos ciumentos, que se iniciaram as mobilizações feministas em Minas Gerais, explica Branca Vianna. Essa mobilização chamou a atenção da mídia e reverberou nacionalmente com o slogan “Quem ama não mata”. Essa comoção não ocorreu no caso de Ângela Diniz quatro anos antes, pois Ângela não era vista como uma “vítima ideal” devido à sua postura transgressora. Mas foi nesse clima que o segundo julgamento do Doca Street ocorreu.
Lana (2010) explica que, ao narrar o caso Ângela Diniz, a mídia utilizou diferentes enquadramentos em dois momentos. Logo após o crime, em janeiro de 1977, a cobertura destacou o passado escandaloso de Ângela, retratando-a como uma transgressora de valores, enquanto a honra masculina era exaltada. Esse enquadramento refletia uma perspectiva machista, focando mais no comportamento da vítima do que no crime de Doca. Já em novembro de 1981, durante o julgamento que condenou Doca, o foco mudou. A mídia passou a valorizar o ativismo feminista e a denunciar a violência contra a mulher, enfatizando o direito à vida e às escolhas de Ângela, com um tom de indignação em relação ao crime.
A Globo abordou o caso de Ângela Diniz por meio da série Quem Ama Não Mata, que foi ao ar em 1982. A série, em formato de antologia, trouxe episódios baseados em crimes passionais que chocaram o Brasil, sendo o caso de Ângela Diniz um dos mais emblemáticos. O episódio que tratou desse crime retratou o feminicídio de forma crítica, refletindo o movimento social e político que se formou em torno do julgamento de Doca Street.
Ao dramatizar o caso, a série ajudou a reforçar a discussão pública sobre a violência contra a mulher, que já havia ganhado força com os movimentos feministas na época do julgamento de Doca. A narrativa da Globo, assim como a cobertura da imprensa, no segundo momento, priorizou a defesa da vida e dos direitos das mulheres, contestando o discurso que tentava justificar o assassinato de Ângela com base em valores machistas e de honra masculina. A cobertura não se tornou totalmente feminista, mas havia uma ponderação ao falar sobre a história de Ângela e uma ênfase na culpa de Doca.
Desse modo, o assassinato de Ângela levantou inúmeras questões que transitavam entre o âmbito ético e jurídico, dentre as quais podemos citar:
- A violência de gênero: O assassinato de Angela expôs a cultura de tolerância à violência contra as mulheres. A ideia de que ciúmes e possessividade poderiam justificar atos extremos levantou questões sobre a normalização do machismo e o controle sobre o corpo e a vida das mulheres.
- Justificativa do crime passional: O uso da alegação de “crimes passionais” como defesa ética reflete uma visão distorcida das relações amorosas. Isso sugere que emoções intensas poderiam legitimar a violência, o que é profundamente problemático.
- Responsabilidade social: O caso destaca a responsabilidade da sociedade em educar sobre relacionamentos saudáveis e o respeito mútuo. A falta de uma postura crítica em relação à violência de gênero pode perpetuar essa problemática.
- Legislação sobre crimes de feminicídio: Na época do crime, a legislação brasileira não contemplava o feminicídio como uma categoria específica. Isso dificultou a aplicação de penas adequadas e refletiu a necessidade de uma revisão legal que considerasse a violência de gênero de forma mais rigorosa.
- Julgamento e penas: A condenação de Doca Street e a sua pena leve geraram discussões sobre a justiça no tratamento de casos de violência contra mulheres. O caso evidenciou a tolerância do sistema judiciário em relação a crimes cometidos por homens contra mulheres, o que desencadeou pedidos por reformas na legislação penal.
- Direitos das vítimas: O processo judicial e a forma como a narrativa foi construída em torno de Ângela Diniz levantaram questões sobre os direitos das vítimas e a importância de se ouvir e valorizar suas histórias. A falta de sensibilidade no tratamento de casos de violência de gênero reforça a necessidade de uma abordagem mais empática e justa no sistema judicial.
Após o assassinato de Ângela em 1976, Doca Street foi julgado e condenado por homicídio, mas a pena imposta foi considerada leve por muitos. A defesa alegou que o crime foi cometido em um momento de ciúmes, um argumento que, na época, influenciou a decisão do tribunal. Doca recebeu uma pena de apenas 6 anos de prisão, em regime semiaberto, o que gerou indignação e mobilização social.
Esse desfecho revelou a fragilidade da legislação brasileira em relação a crimes de violência de gênero. Naquele período, o conceito de feminicídio não existia e a narrativa do crime passional era frequentemente aceita sem questionamentos. A condenação de Doca Street e a reação da sociedade mostraram a urgência de reformar as leis para proteger melhor as vítimas de violência.
Eticamente, o caso de Ângela Diniz provocou uma reflexão profunda sobre o papel da sociedade em relação à violência de gênero. A reação pública ao julgamento e à pena de Doca evidenciou uma crescente conscientização sobre a gravidade do feminicídio. O caso se tornou um símbolo da luta contra a violência de gênero, impulsionando debates sobre machismo e a necessidade de uma mudança cultural.
O desfecho do caso de Angela permanece relevante na luta pelos direitos das mulheres no Brasil. Ele não apenas revelou as deficiências do sistema judicial, mas também serviu como um chamado à ação para a sociedade. A história de Ângela continua a inspirar movimentos feministas e a promover a reflexão sobre a necessidade de um tratamento mais justo e igualitário para todas as vítimas de violência, assim como a importância de educar sobre relacionamentos saudáveis e respeito mútuo.
Por Gabriely Lemos, Jully Cordeiro e Kézia Chaves
Produzido para a disciplina Crítica de Mídia e Ética Jornalística em 2024.1LEIA AS OUTRAS CRÍTICAS DO ESPECIAL
REFERÊNCIAS
ABREU, Ivy de Souza et al. FEMINICÍDIO NO BRASIL: A CULTURA DE MATAR MULHERES. São Paulo, 2018. Disponível em: https://multivix.edu.br/wpcontent/uploads/2018/08/feminicidio-no-brasil-a-cultura-de matar-mulheres.pdf
BATISTA, Tales [et al] A morte da pantera. Manchete, Rio de Janeiro, n.1291, 15 de jan. 1977, p. 4-11.
BEAUVOIR, Simone de. O Segundo Sexo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.
BLAY, Eva Alterman. Violência contra a mulher e políticas públicas. Estudos Avançados. 2003, vol.17, n.49, pp. 87-98. Disponível em: http://www.usp.br/nemge/textos_violencia/viol_polpublicas_blay.pdf#search=%22%2 2Angela%20diniz%22%22
BBC Brasil. (2023). Caso Ângela Diniz: a história por trás do crime que chocou o Brasil. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/ce9n3eg3q4jo.amp
FOLHA. 2006. Doca Street afirma que mereceu ser condenado. Folha, São Paulo, sexta-feira, 01 de setembro de 2006. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff0109200607.htm
LIMA, Vinícius. A justiça contra Doca Street. Manchete, Rio de Janeiro, n. 1402, 15 de nov. 1981, p. 22.
MALTA, Maria Helena. O novo aliado das feministas. IstoÉ, São Paulo, n. 1133, 18 de nov. 1981, P. 53.
MEGALE, João Batista. Doca e Ângela: anatomia de um crime. Manchete, Rio de Janeiro, n. 1292, 22 de jan. 1977, p. 14.
Migalhas. (2023). Caso Ângela Diniz x Doca Street: além da legítima defesa da honra. Migalhas, 2023. Disponível em: https://www.migalhas.com.br/amp/depeso/392255/caso-angela-diniz-x-doca-street-a lem-da-legitima-defesa-da-honra
OLIVEIRA, Niara de; RODRIGUES, Vanessa. Histórias de morte matada contadas feito morte morrida: a narrativa de feminicídios na imprensa brasileira. São Paulo: Drops, 2021.
PRAIA DOS OSSOS: O julgamento. Local: rádio Novelo, 2020. Podcast. Disponível em: https://radionovelo.com.br/originais/praiadosossos/o-julgamento/
PRAIA DOS OSSOS: O crime da Praia dos Osso. Local: rádio Novelo, 2020. Podcast. Disponível em: https://radionovelo.com.br/originais/praiadosossos/o-crime-da-praia-dos-ossos/
RIO DE JANEIRO, Estado do. Ângela Diniz. In: Sentença. Rio de Janeiro, 6 nov. 1981. Disponível em: http://www.tjrj.jus.br/documents/5989760/6631816/Trechos+digitalizados+dos+autos +processuais+de+Doca+Street.pdf/3e70f743-2314-6a42-09b9-6fdc09721806
Revista Manchete: https://memoria.bn.gov.br/DocReader/docreader.aspx?bib=004120&pesq=. 14
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Carne: o corpo feminino está sempre em pauta

Foto: Equipe Cinema em Movimento Desde a primeira infância, passando pela menstruação, mudanças no corpo até a menopausa e envelhecimento, o corpo das mulheres está constantemente sendo apontado, crucificado, medicalizado, desnudado e colocado em destaque. Seja na (hiper)sexualização de alguns – como o de mulheres negras, indígenas ou mesmo meninas – ou no julgamento de outros, como corpos com deficiência ou aqueles que fogem do modelo cisheteronormativo (pessoas trans ou intersexo, por exemplo), olhares e comentários são certos.
É disso que trata o curta-metragem Carne, de Camila Kater, lançado em 2019. Crua, mal passada, ao ponto, passada e bem-passada representam as fases da vida de cinco diferentes mulheres que narram a animação contando memórias íntimas – mas que são, de certa forma, facilmente próximas as vivências de outras. Me enxergo e me solidarizo com as dores delas, que são “apenas” vozes durante os 12 minutos de filme.
Penso no que aprendi sobre os significados de mulheridades, de precisar ficar calada sobre o que sinto. Ou mesmo sobre a maneira de lidar com os sentimentos confusos de estar no mundo e ter receio de existir livremente. As cinco histórias de diferentes pessoas compõem a trajetória de vidas-corpos com violências, olhares externos e, ainda que distantes, se cruzam no ser mulher.
O Ariadnes foi convidado pelo Projeto Cinema em Movimento para mediar duas sessões do curta em Mariana, durante a primeira semana de maio. O projeto, que visa levar por meio do cinema e produções audiovisuais independentes debates e reflexões sobre temas relevantes na sociedade, é uma parceria entre a MPC Filmes, Petrobrás e Ministério da Cultura/Governo Federal.
A primeira sessão ocorreu no dia 8 de maio na Escola Estadual Dom Silvério. No evento, estavam turmas do 2º e 3º ano do Ensino Médio, as quais se mostraram bastante participativas e interessadas. As meninas, especialmente, interagiram bastante e trouxeram experiências pessoais de como são afetadas pelo patriarcado (e por outros sistemas de opressão) para contribuir com a discussão. De início, as questionei sobre quando foi a primeira vez que tiveram de lidar com o assédio e – não surpreendentemente – as respostas trouxeram a percepção em comum de que elas sentiram as manifestações do assédio desde que eram crianças.
Depois, perguntei se, a depender do horário, ambiente e contexto, elas tinham medo de sair de casa. Novamente, a resposta afirmativa foi unânime. Elas argumentaram que tinham medo de serem estupradas, sequestradas ou de sofrerem qualquer violência relacionada ao fato de serem mulheres. Posteriormente, fiz este mesmo questionamento aos meninos presentes na sala, que responderam que o medo que tinham era somente relacionado à possibilidade de serem assaltados. Este contraste entre as respostas (e as vivências) evidencia como as opressões de gênero atuam cerceando os direitos – inclusive o da liberdade – de meninas e mulheres.
Eventos como esse são de extrema importância, uma vez que fomentam questionamentos, discussões e críticas que nem sempre são realizadas na escola. Fiquei reflexiva sobre como a sessão poderia motivar alunas e alunos presentes ali a, futuramente, estudar questões relacionadas aos movimentos sociais.
Já a segunda sessão foi no Instituto de Ciências Sociais Aplicadas (ICSA), no encerramento da Semana de Integração do PET-ICSA, dia 9 de maio. A sala estava um tanto quanto esvaziada, mas isso fez com que o debate fosse mais íntimo e interessante. Além de estudantes da graduação, estava a mãe de um deles, que trouxe uma pegada geracional fundamental para pensar sobre o corpo e vivências femininas.
Nós, jovens, por vezes mantemos um distanciamento daqueles que vieram antes da gente – principalmente no âmbito educacional, no qual o contato que temos é majoritariamente com docentes –, porém, o movimento de troca mais horizontal também é importante. Estar em diálogo com pessoas de diferentes gerações, raça/etnia, gênero e sexualidade é fundamental para que consigamos difundir e ampliar as percepções do mundo.
Iniciei o papo com uma pergunta voltada para as mulheres da roda: quando você se entendeu/percebeu enquanto mulher? As respostas foram distintas, mas ao mesmo tempo, tinham em comum a visão do outro para determinar um sentimento pessoal. Além disso, durante a conversa, um jovem relatou que sentia-se num “trilho de trem” e que a vivência masculina era rígida e não dava a possibilidade de fugir desse papel já determinado.
Entre outras histórias que ouvimos, fiquei refletindo sobre como os efeitos do patriarcado são ferozes contra as mulheres e meninas, mas também com os homens – e a sociedade em geral. Sendo assim, estabelecer um vínculo direto com as pessoas presentes, por meio do diálogo, reflexão e aprendizado é crucial para nos mantermos atentas sobre diferentes perspectivas. Acredito (e confio) no potencial transformador que a arte e a educação possuem, levando informação ou até uma inquietação sobre assuntos que precisam ser discutidos.
Por Lia Junqueira e Maria Clara Soares
Confira alguns registros das sessões:




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O cuidado das Marias

Montagem e desenho digital produzidos por Ana Beatriz Justino As cinco Marias têm uma história que é tão velha quanto o casamento heterosexual e ela se passa em uma cidade média, de um estado médio desse país. Começa com uma família grande, um pai, uma mãe, quatro filhos homens e cinco mulheres, todas com o nome Maria. O pai sempre saiu para trabalhar e ser o provedor da casa, a mãe cuidava das nove crianças, limpava a casa, fazia salgados para o marido vender no trabalho e outras funções de cuidado com os filhos, com a casa e com o marido.
O tempo passou e a família foi mudando. Uns partiram para a companhia das estrelas, inclusive a mãe dos nove filhos, outros se mudaram de casa e uns seguiram morando na casa da família. O que nunca mudou foi quem cuidava: com o falecimento da mãe, o cuidado passou a ser dividido pelas cinco Marias. Como as mulheres dessa família cresceram esbanjando cuidado! Cuidado com seus filhos, cuidado entre elas e, principalmente, aquele cuidado que foi forçado a elas.
Cuidar dos irmãos homens, que sempre precisavam de cuidado, cuidar do pai, cuidar dos homens de suas vidas. É, o cuidado que era feito pela mãe passou para as filhas. O irmão mais velho se casou e se mudou para longe, mas como sua mulher não resolve seus problemas, ele recorre sempre às irmãs. Elas são as responsáveis por resolver. De uma ligação para o banco até comprar seus presentes de Natal. E, se alguém reclama que elas têm que parar de ajudá-lo, os xingos são certos, “coitado dele, não sabe fazer sozinho!”
O irmão mais novo não se casou. E agora roda pela casa das irmãs, já que não consegue mais se cuidar sozinho. Um homem difícil que não sabe ouvir “não” e acha que, por ser homem, todos implicam com ele, “coitado dele, não sabe o que faz!” As brigas, os desentendimentos e os xingamentos também são destinados às Marias, já que são as únicas que fazem. A culpa também é delas por não realizarem tudo perfeito e resolverem tudo no prazo. Elas realmente são os pilares de cuidado da família.
O cuidado e a preocupação com a prole estão sempre ali: são leoas, como a mãe as ensinou. Seus filhos sempre serão protegidos. É, o cuidado não parou nos dois irmãos! Ele passou para os filhos, sobrinhos e netos. As filhas, netas e sobrinhas não precisam de tanto cuidado assim, elas aprenderam a se cuidar, para cuidar daqueles que mais precisam de cuidado, os homens. Mas a elas é destinada a cumplicidade – o código interno das que cuidam – as fofocas, os ombros amigos e os ensinamentos de cuidado, repassados entre as gerações de cuidado feminino.
A essas Marias e suas filhas também é destinado o fogão. Toda a alimentação de todas as datas comemorativas é destinada a essas mulheres: o maior dos cuidados de uma família descendente de italianos, a comida. E o cuidado passa de geração em geração, uma tradição feminina, as sobrinhas e filhas são as próximas na lista do cuidado. Ensinada desde cedo a cuidar, a abaixar a cabeça para os homens da família – menos os maridos, esses quase não são da família, então podem ser tratados sem muitos privilégios. Aos filhos e irmãos o cuidado sempre vai ser o bem mais importante da família.
Essa família esbanja cuidado, essas Marias são mulheres incríveis! Elas cuidam de tudo! Elas ensinam o cuidado! Realmente, o cuidado é sempre feminino!
Por Ana Beatriz Justino
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TCU faz raio-x do combate ao assédio nas universidades públicas

A existência e funcionamento de condutas para prevenção e combate ao assédio no ambiente universitário são essenciais para promoção de mais segurança. Foto: Maria Clara Soares Os dados mostram que, das 69 universidades federais, 41 não apresentam qualquer política ou estratégia para combater e lidar com o assédio, o que representa 61% do total. Dessa forma, as práticas de assédio, abuso e outras violações encontram um terreno fértil para acontecer, uma vez que, na sociedade em que vivemos, a experiência feminina, de pessoas negras e LGBTQIAPN+, por exemplo, é forjada por violências desde muito cedo. Por isso, é preciso lutar contra essas condutas, especialmente em espaços onde estamos para acessar a educação e conhecimento.
A pesquisa do Tribunal de Contas da União (TCU) foi realizada com o intuito de analisar a existência de condutas e políticas de prevenção e combate ao assédio nas instituições públicas de ensino superior. Além disso, buscou avaliar como se dão esses processos em diversas esferas: na capacitação de profissionais responsáveis; nos instrumentos de divulgação; das denúncias; da efetividade e conduta dos processos administrativos; e do apoio às pessoas afetadas por situações de assédio e outras violências.
A motivação se deu pelos altos números de casos e denúncias, que no período de 2022 até março de 2024, houve a abertura de 641 processos envolvendo assédio moral e sexual de docentes/servidores das universidades federais. Nesse mesmo recorte temporal, em 57 das 69 universidades federais do Brasil, houveram denúncias de assédio (moral e/ou sexual), ou seja, em 82% das instituições.
É importante reforçar que o número de denúncias nem sempre reflete a realidade, com um alto índice de casos que não são nem mesmo notificados, aqueles em que a universidade e os órgãos competentes não são acionados – estima-se que somente 10% dos acontecimentos são registrados, revelando alto número de subnotificação. Isso porque algumas violências acontecem “fora” do que se entende como universidade, como redes sociais privadas, moradias compartilhadas, repúblicas, entre outras. No entanto, ainda que seja mais difícil de registrar ou ter controle sobre esses outros espaços, é importante que eles sejam pensados e considerados, uma vez que as relações que ocorrem neles se dão, em sua maioria, apenas por conta da ligação com as instituições.
Para nortear o relatório foram elaboradas algumas perguntas Os principais assuntos tratados foram:
- a existência de políticas de prevenção e combate às violências institucionalizadas;
- o desenvolvimento de campanhas de capacitação e divulgação de materiais e informações sobre o assunto;
- sobre as denúncias, desde o acolhimento, protocolo até a efetivação;
- dos profissionais responsáveis por essas funções, se são qualificados e devidamente habilitados;
- dos resultados dos processos administrativos, se resultaram em punições efetivas aos responsáveis.
Alguns pontos que podemos destacar para pensar nas fragilidades desse enfrentamento nas instituições:
- 50 universidades não oferecem programas de capacitação sobre o tema;
- 51 carecem de protocolos de acolhimento e orientação para evitar a revitimização das vítimas;
- 55 não têm diretrizes para a composição e atuação de equipes de apuração com perspectiva de gênero.
Além disso, dentre as 28 universidades que possuem estratégias, 19 delas possuem lacunas normativas. Os motivos, de acordo com o relatório são: não abranger todos os integrantes da comunidade universitária (em especial dos trabalhadores terceirizados); ausência de participação dos integrantes da comunidade universitária no processo de elaboração e de aprovação de política de prevenção e/ou por ausência de definição de protocolos/fluxogramas e de estruturas relacionadas à prevenção e ao combate ao assédio ou ausência de integração entre as unidades internas.
Ou seja, mesmo nas instituições que têm as práticas já inseridas e sistematizadas, é preciso fazer mais no combate a essas violências. Seja na capacitação, no acolhimento ou mesmo na tematização/implementação no debate universitário.
A Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) foi selecionada para uma visita técnica e, inclusive, citada no relatório pela existência de “boas práticas” nos seguintes aspectos: elaboração de diagnóstico institucional e/ou atuação com base em evidências; existência de programas de capacitação/formação; e ações de acolhimento e orientação às pessoas em situação de assédio.
O reconhecimento é fruto do trabalho de diversas pessoas que trabalham incansavelmente contra o assédio e outras violências de gênero no âmbito universitário da UFOP. Em especial a Ouvidoria Feminina, que recebeu um prêmio do 1º Concurso Boas Práticas do Ministério da Educação (MEC), na categoria “Aprimoramento das Atividades de Ouvidoria”. Além, claro, de todos os outros projetos que são movidos pela causa, assim como nós, do Ariadnes.
Por que é importante termos tipos de conduta para lidar não só com assédio, mas violências de gênero em geral no ambiente universitário?
Uma vez que o ambiente universitário reproduz uma sociedade que vulnerabiliza as figuras femininas, assim como pessoas LGBTQIAPN+ e pessoas negras, é preciso primeiro, entender como funciona essa estrutura dentro das universidades e, depois, reconhecer e elaborar estratégias para lidar com os casos de violência.
Os dados do TCU são essenciais para colocar em debate a violência de gênero no ambiente universitário, claro. Porém, existem aspectos que ainda não são precisamente observados, como as repúblicas estudantis – bastante comuns não só na Universidade Federal de Ouro Preto, mas também no interior de São Paulo e em outros municípios mineiros. Por isso, a pesquisa “Violência Baseada em Gênero na Universidade”, das pesquisadoras Maria Beatriz Dionísio e Yasmin Curvelo, pós-graduandas em Psicologia na Universidade Federal de São Carlos (PPGPsi-UFSCar), sob orientação da profa. Sabrina Mazo D’Affonseca, busca por esses resultados.
Te convidamos a responder o formulário da pesquisa, que está disponível em: https://redcap.ufscar.br/surveys/?s=LFYNRJH7D43HT73C. Nele, podem responder estudantes mulheres, maiores de 18 anos, matriculadas a partir do 3° semestre/período em um curso de graduação ou pós-graduação, de universidades públicas ou privadas de todas as regiões do Brasil.
Todos os dados e informações desta matéria foram retirados do Relatório do Tribunal de Contas da União (TCU) de auditoria operacional nos sistemas e práticas de prevenção e combate ao assédio nas universidades federais.
Por Lia Junqueira
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Lady Gaga no Rio: catarse coletiva e luta por direitos da comunidade LGBTQIAPN+

Em meio aos milhões de leques, estávamos nós em catarse coletiva. Foto: Marina Gonçalves Um sábado ensolarado no Rio de Janeiro, a cidade repleta de pessoas de várias partes do Brasil – e do mundo –, agitação e ansiedade para o show: a atmosfera de Lady Gaga já estava no ar há alguns dias. Por onde passava, a trilha sonora e as conversas eram sobre a cantora estadunidense que faria o maior show de sua carreira na capital carioca, movimentando – além de pessoas –, a economia local e realizando um ato político.
Com o bater dos leques, looks extravagantes (maravilhosos) e bandeiras com as cores de arco-íris era possível identificar que estávamos em meio a muitas, muitas pessoas LGBTQIAPN+ (arrisco dizer que um dos maiores encontros, perdendo apenas para a Parada de São Paulo, que, inclusive, está próxima). Nós, também, como membros dessa comunidade colorida e brilhante, nos misturamos em meio ao calor que envolvia os corpos ali presentes.
Foi com a vibração da “bateção de leques” que a força, não só da Gaga, mas de milhões de membros da comunidade “furaram a bolha” em todo o mundo. Pessoas diversas estiveram presentes no show apoteótico, que sufocou a praia de Copacabana com a euforia esbravejante daqueles que viveram entoando seu cântico de luta: Born This Way (Nasci Desse Jeito, em tradução literal).
E assim, tirando o ar e espaço de qualquer sentimento que não fosse êxtase, orgulho e alegria, por diversos locais físicos, midiáticos e simbólicos, a comunidade passou dias com o barulho dos leques reverberando a consciência conservadora deste Brasil. Foi o momento de, além de tudo, envergonhar e intimidar a LGBTQIAPN+fobia, no país que mais mata pessoas Trans e Travestis em todo mundo, de acordo com a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra).
Também foi hora de expor – além das telas – alguns dos corpos mais procurados no consumo de pornografia no país. Pode parecer irônico (e é) que os desejos estejam tão reprimidos nesses lugares, que somente quando estamos sozinhos admitimos o que gostamos e/ou nos sentimos atraídas. Entre outras coisas, isso é efeito do pouquíssimo diálogo em torno de sexualidade, por exemplo, que deve ser livre e segura para se expressar nos ambientes.
A luta contra a LGBTQIAPN+fobia é feita no agora, mas também no antes e no depois. É preciso um trabalho de rede, com ambiente educacional, doméstico e de convivência, para criar pessoas mais conscientes e seguras de quem são – e podem ser – nesse mundo. Desde 17 de maio de 1990, a Organização Mundial da Saúde retirou “homossexualidade” do Código Internacional de Doenças, o que foi uma conquista a ser celebrada. Porém, ser gay, lésbica, bissexual, trans, entre as demais sexualidades e identidades de gênero, é muito mais.
O preço de retornar para a casa pela emblemática estação de metrô Siqueira Campos em Copacabana valeu a pena. Gaga foi uma das chamadas “divas pop” que garantiu refúgio para a comunidade em momentos, que só a gente sabe, são obscuros e sem saída. Ela nos contou uma versão religiosa que não tínhamos ouvido: a de que Ele (ou Ela?) nos fez assim. Sabemos que em uma sociedade cristã e conservadora, cantar/ouvir isso muda muito. Então, ainda que sufocados – e até mesmo atordoados – pela movimentação de corpos em sincronia e carros em desarmonia no entorno da estação, tenho certeza que todos viveriam essa catarse novamente.
O retorno para a cidade de origem trouxe o reflexo disso. Foi momento de relatar para diferentes pessoas e realidades a experiência do show. No trabalho, todo mundo já sabia que eu havia ido para o centro do Brasil – afinal, estava “Todo Mundo no Rio” – e que o feriado do Dia dos Trabalhadores tinha sido especial.
Foi tema de conversa no horário do almoço com homens de meia idade, acanhados, comentando frases como: “É, a mulher é boa né!?”, “E você viu os leques? Impressionante…”. Foi o assunto do momento, pelo menos comigo. Apesar disso, o “Efeito Gaga” não foi suficiente e o comentário conservador resistiu ao “trá trá trá” dos leques: “Aquilo ali foi show do diabo!”.
A nossa presença, potência e luta é intimidadora. Ela embaça, desalinha e sufoca as fobias da sociedade apenas com um único ato: um show. A arte mobiliza e desconcerta, e Gaga e tantas outras artistas, ativistas, membros da comunidade, simpatizantes, enfim, pessoas comuns fazem isso todos os dias. A artista, inclusive, levanta a bandeira (de maneira literal e figurada) quando defende e discursa a favor dos direitos de pessoas trans nos Estados Unidos (de ódio) no governo Trump, ou quando se coloca em ações a favor dos direitos reprodutivos.
Neste 17 de maio, Dia Internacional Contra a LGBTQIAPN+fobia, pensemos na arte enquanto possibilidade: de existência; reconhecimento; identificação; e tudo mais que nos evoca. O show gratuito no Rio de Janeiro também nos convida a pensar ações do setor público para a comunidade LGBTQIAPN+. Temos de cobrar políticas públicas ativas e contínuas para a garantia dos direitos das múltiplas formas de estar no mundo, para que nossa existência neste país ocupe as mídias e espaços com a alegria e orgulho em viver.
A presença desses corpos denota força, demarca a existência e continuidade dessas pessoas no mundo. Nós estamos aqui e continuaremos. Uma estratégia para alguns grupos é a elaboração de eventos e datas comemorativas para pautar um determinado tema e para demarcação da luta proposta. Assim acontece com a comunidade LGBTQIAPN+, que se coloca e reafirma enquanto viva e pulsante. O três de maio nos mostrou que temos força para pautar a mídia de um país inteiro, que somos muitos e continuaremos fortes, mas a luta ainda é extensa e precisa ser lembrada.
*Este texto foi escrito como um relato-experiência do espetáculo que foi Gaga no Rio de Janeiro e também como exposição de afetos e gritos – antes abafados – e que agora estão soltos por todos os lugares. Desde a Praia de Copacabana (RJ) até Mariana (MG), estamos sendo elevados pelo amor, como disse a cantora no discurso do Grammy deste ano.
Por Gabriel Maciel e Lia Junqueira.
