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  • Miradas da infância

    Cartaz apresenta a frase Miradas da infância em letra de criança. Embaixo, personagens de desenho animado em negativo, com as logos do projeto na parte inferior.
    Cartaz da mostra. Arte: Bento Vital.
    Cartaz em vermelho, com bordas em amarelo e azul, contendo a programação de filmes da mostra. Na parte inferior, personagens infantis em negativo.
    Programação completa.

    Olhar para as infâncias e pensar como elas mesmas imaginam o mundo. Essa é a proposta de Miradas da infância, mostra cinematográfica do projeto Ariadnes, que vai exibir longas-metragens protagonizados por meninos, meninas e menines e que apresentam perspectivas infantis sobre o mundo, ainda que esses filmes sejam dirigidos por adultas e adultos. Essas miradas se cruzam com questões sobre gênero, raça, sexualidade, etnia, região: quem são as crianças que o cinema nos mostra? Quais são e como são as infâncias pensadas ou lembradas pelos olhares adultos?

    Programação

    08/5: A princesinha
    A little princess, Alfonso Cuarón, 1995
    Adaptado do romance de Frances H. Burnett, o filme narra a história de uma órfã exposta a abusos em um internato de Nova York no início do século XX, após a morte de seu pai na Índia.

    15/5: Onde fica a casa do meu amigo
    Khane-ye doust kodjast? , Abbas Kiarostami, 1987
    Mistura entre ficção e documentário, o filme conta a história de Ahmed, que pega por engano o caderno de seu amigo e precisa devolvê-lo para evitar que o menino seja punido na escola, caso não leve o dever de casa.

    22/5: Meu pé de laranja lima
    Meu Pé de Laranja Lima, Marcos Bernstein, 2012
    Diante de uma realidade dura e da falta de afeto, o pequeno Zezé usa a imaginação para transformar um pé de laranja lima em seu refúgio e confidente. Entre travessuras e descobertas, ele encontra na amizade improvável com o “Portuga” o verdadeiro significado de ser amado. Baseado no clássico de José Mauro de Vasconcellos, o filme é um retrato poético e visceral sobre a infância e o momento em que a fantasia de ser criança dá lugar ao amadurecimento. Uma experiência obrigatória e emocionante que abraça qualquer um que assiste.

    29/5: O túmulo dos vagalumes
    Hotaru no haka, Isao Takahata (Studio Ghibli), 1988
    A animação percorre os desafios vividos por Seita, um adolescente de 14 anos e sua irmã Setsuko, de quatro anos, que depois de perderem seus pais precisam encontrar meios de sobreviver no Japão pós Segunda Guerra Mundial.

    12/6: Conta comigo
    Stand by me, Rob Reiner, 1986
    “Conta Comigo” é uma adaptação da novela “O Corpo” de Stephen King. O filme conta a história de quatro garotos que, ao descobrirem o desaparecimento de um menino em sua cidade natal, a fictícia Castle Rock, decidem ir à procura de seu paradeiro. Durante a busca, os amigos acabam vivendo uma aventura repleta de desafios e reflexões.”

    19/6: Close
    Close, Lukas Dhont, 2022
    Close é um drama belga que retrata a história de dois amigos inseparáveis, Léo e Rémi, de 13 anos, que veem sua relação mudar devido à pressão social. Sensível e impactante, o longa-metragem acompanha as consequências desse rompimento, abordando, desde cedo, temas como masculinidade tóxica, amizade e perda.

    26/6: Marte Um
    Marte Um, Gabriel Martins, 2022
    A partir das tensões políticas que se estabelecem no país após a eleição de um presidente de extrema-direita, Marte Um (2022) traz a história dos Martins, uma família negra de classe média-baixa que vive na periferia de Contagem, região metropolitana de Belo Horizonte. Sob um olhar sensível, a obra tece, a partir do acompanhamento de um cotidiano simples, múltiplas histórias que evidenciam a esperança frente a uma desigualdade social que sufoca sonhos.

    3/7: Lindinhas
    Mignonnes, Maïmouna Doucouré, 2020
    No longa acompanhamos Amy, uma menina de 11 anos de origem senegalesa que vive em Paris. Dividida entre dois mundos contrastantes — os valores tradicionais de sua família e a cultura influenciada pela internet —, ela se aproxima de um grupo de dança local, passando a explorar questões relacionadas à sua identidade, à descoberta da sexualidade e à hipersexualização infantil frequentemente presente nas redes sociais.

    • As sessões são gratuitas e acontecem sempre às 9h, na sala 207 do ICSA;
    • Todas as sessões serão seguidas de uma conversa;
    • Haverá emissão de certificados para quem comparecer a 75% das sessões.

  • O autoritarismo nas relações e na sociedade em Um Copo de Cólera

    Foto retirada de uma cena do filme “Um copo de cólera”

    O filme Um Copo de Cólera (1999), dirigido por Aluizio Abranches, é uma adaptação da novela homônima, escrita por  Raduan Nassar e publicada em 1978. Na história um ex-ativista, interpretado por Alexandre Borges, narra os acontecimentos de uma manhã em sua casa isolada no interior, após ter passado a noite fazendo sexo com uma jornalista, interpretada por Júlia Lemmertz. Tudo desanda quando o homem vê que formigas destruíram sua cerca viva e ele tem um ataque de raiva. O filme tem a duração de 72 minutos e intercala sexo, apatia e fúria nesse meio tempo.

    O sexo é apresentado de forma crua, não apenas como um ato físico, mas como uma expressão de dominação e conflito. A relação sexual entre os protagonistas é marcada pela agressividade e reflete as dinâmicas de poder e submissão que permeiam o relacionamento deles e, em um sentido mais amplo, a sociedade brasileira da época. Durante o regime militar, temas como autoritarismo, repressão e desigualdade estavam em evidência, e Um Copo de Cólera explora essas questões de forma simbólica, com o protagonista personificando o discurso autoritário, enquanto a jornalista representa a resistência intelectual e política.

    Os protagonistas não têm nome, tanto no livro quanto no filme, e a narrativa segue pelo olhar do homem, que é grosso e sem educação, trata mal os empregados que são as únicas pessoas de seu convívio, pois vive isolado, longe da cidade. A relação dos personagens principais é complexa; o homem é agressivo, durante o sexo mas também fora dele. A escolha de não nomear os protagonistas reforça a ideia de que eles são arquétipos de forças sociais maiores. Ele é uma figura de autoritarismo doméstico e emocional, com suas explosões de raiva e comportamento tirânico com os empregados. Ela, por outro lado, apresenta uma postura mais questionadora e independente, ainda que sua posição também esteja marcada por ambiguidades, pois aceita temporariamente o jogo de poder imposto por ele.

    Quando Raduan Nassar escreveu o livro, em 1978, o Brasil vivia sob a sombra da ditadura militar, e isso transparece no texto de maneira sutil, mas poderosa. A relação do casal funciona como um microcosmo das tensões da época: a agressividade do homem ecoa o discurso autoritário e repressivo do governo, enquanto o embate com a jornalista, mais intelectual e provocativa, reflete os enfrentamentos entre a sociedade civil e o regime opressor. O ataque de raiva causado pelas formigas destruindo a cerca viva pode ser interpretado como uma metáfora para a paranoia e o desejo de controle que caracterizavam a ditadura, onde qualquer ameaça, por menor que fosse, era tratada de forma desproporcional.

    Na Mostra  Toda Nudez Será Castigada  o filme recebeu críticas mistas, especialmente quanto ao protagonista masculino. O personagem, com suas longas divagações e monólogos, é frequentemente descrito como chato, preconceituoso e machista, características que tornam o filme difícil de acompanhar em alguns momentos. No entanto, esses traços não são gratuitos: eles são fundamentais para construir a figura de um homem consumido pelo isolamento, pelo ego e pela própria raiva.

    Outro ponto de discussão foram as cenas de sexo, que não incomodaram a maioria do público presente na mostra. Diferentemente de muitas produções da época, o filme conseguiu equilibrar a exposição dos corpos masculino e feminino, evitando um olhar exclusivamente masculino que costuma objetificar a mulher. As cenas, embora explícitas, servem mais como um recurso narrativo do que como um elemento gratuito, refletindo a tensão emocional e física que permeia a relação dos protagonistas.

    Um Copo de Cólera é uma obra que provoca e incomoda o espectador. Seja pela intensidade dos diálogos, pelas cenas de sexo ou pela representação do poder e da submissão, o filme e o livro dialogam com as contradições do Brasil dos anos 70, mas também permanecem atuais ao explorar as complexidades das relações humanas e as dinâmicas de poder. Apesar das críticas ao ritmo arrastado e ao protagonista desagradável, essas características contribuem para a densidade da obra, que continua sendo um retrato fiel de uma época marcada por opressões e resistência.

    Ana Rodrigues 

    Serviço
    Título original: Um Copo de Cólera
    Onde assistir: Prime Vídeo (Aluguel)
    Classificação indicativa: 18 anos (A18)
    Classificação da autora: 18 anos (A18)
    Justificativa: Cenas de nudez, sexo e violência.
    Gênero: Drama.

  • “É uma realidade que precisamos enfrentar com muita coragem”: Seminário Andifes  discute gênero no ensino superior

    Evento abordou desafios, políticas públicas e ações institucionais na promoção da equidade

    Na imagem, palestrantes e integrantes da Andifes se posicionam na parte frontal do palco de apresentação. Elas utilizam roupas diversas e coloridas.
    Imagem: TV UFOP/Andifes

    A Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) sediou, nessa quarta-feira (22), o seminário “Políticas Universitárias e de Gestão para Promoção da Equidade de Gênero nas Universidades Federais”, organizado pela Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes). A ocasião contou com a participação de lideranças acadêmicas e representantes dos âmbitos político, jurídico e social, de diferentes níveis, regional, estadual e nacional, para discutir ações e estratégias na promoção da equidade de gênero no ambiente universitário.

    Na mesa de abertura, Ângelo Oswaldo, prefeito de Ouro Preto, destacou a importância do protagonismo feminino em momentos históricos e culturais da cidade, mencionando a inclusão de Hipólita Jacinta em um panteão majoritariamente masculino e a relevância de Bárbara Heliodora no movimento Inconfidente. A partir disso, o representante do executivo reconheceu a necessidade de seguir ampliando as ações de equidade, sobretudo no espaço acadêmico.

    Em seguida, Cláudia Aparecida Marliére, reitora da UFOP, ressaltou a persistência de violências estruturais nas universidades e os esforços institucionais para combatê-las, citando projetos da instituição, como o Programa de Inclusão e Diversidade (PIDIC), o Ciclo Saudável (distribuição de absorventes), o Projeto MaNU (para mães universitárias), a Ouvidoria Feminina, entre outros.  Cabe destacar, que dentro do PIDC, o projeto Ariadnes atua como uma iniciativa fundamental para promover o exercício disciplinado da crítica de mídia, como elemento da educação contribuindo para a formação de uma consciência crítica e reflexiva em relação aos desafios contemporâneos de gênero. Para ela, essas Políticas Universitárias são fundamentais, pois o ambiente acadêmico é ainda muito hostil com as mulheres e gêneros dissidentes. “Essa violência se apresenta de muitas formas, sempre em uma relação de poder. É uma realidade que precisamos enfrentar com coragem”, afirmou.

    Também presente, a ministra do Supremo Tribunal Federal Cármen Lúcia destacou o papel transformador da educação na sociedade brasileira. Entre relatos pessoais e profissionais, ela afirmou que todas essas temáticas sociais e educacionais estão atreladas à democracia e vice-versa. “Não é possível falar de democracia sem falar de educação. Valores como igualdade e liberdade só se alcançam pelo ensino”, disse. Para a ministra, a Universidade precisa cada vez mais ampliar seu papel além dos muros institucionais, atuando em ensino, pesquisa e extensão de forma mais integrada à sociedade.

    Com uma participação remota, a ministra de Direitos Humanos, Maria Evaristo dos Santos, reforçou o impacto das desigualdades no acesso à educação e apresentou dados alarmantes sobre violência contra mulheres no Brasil. Nas palavras dela, “embora a legislação brasileira tenha avançado, a realidade ainda está marcada por um contexto de desigualdade e discriminação que precisamos superar”.

    Por fim, Andrea Latgé, do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), trouxe à tona a persistência da desigualdade de gênero não apenas na academia, como também no mercado de trabalho. Algo que se confirma pelos dados que revelam a sub-representação de mulheres nas ciências exatas e em cargos de liderança. De acordo com ela, isso evidencia a necessidade de políticas públicas específicas para enfrentar o chamado “efeito tesoura” na carreira acadêmica de muitas brasileiras.

    Como exposto, os debates evidenciaram a urgência de ações afirmativas, a importância do compromisso institucional com a equidade de gênero e a necessidade de um esforço conjunto entre governos, universidades e sociedade civil para construir um ambiente acadêmico mais inclusivo e justo.

    Por Giovanna Cabral e Maria Luísa Sousa

  • As consequências da liberdade feminina em “Persépolis”

    Imagem: Montagem de Ana Beatriz Justino sobre imagens de divulgação

    “Vinte anos depois, continua sendo uma leitura urgente e necessária.” Kirkus Reviews. Para algumas pessoas, Persépolis é uma antiga cidade persa que tem suas ruínas no Irã. Para os leitores, Persépolis é a história de uma menina iraniana cheia de personalidade. No livro, Marjane Satrapi conta, em formato de quadrinhos, a história da sua vida sendo uma menina e mulher iraniana no meio de tantas transformações em seu país, desde a revolução islâmica até sua mudança definitiva para a França, um intervalo de 14 anos.

    Desde as primeiras páginas entendemos que a criação da protagonista foi bem liberal, ela estudou em um liceu francês até se formar no ensino médio e seus pais sempre a incentivaram a ler livros para conhecer o mundo, desde revolucionários do Irã até Karl Marx. Os conhecimentos adquiridos por essa criação moldam sua personalidade e deram a ela desejos não possíveis de realização em seu país natal. No capítulo “A viagem”, após ver um anúncio do governo na televisão que diz que as universidades do país serão fechadas por imoralidade, ela se entristece ao saber que perderá a oportunidade de se tornar uma nova Marie Curie.

    Fotografia do livro Persépolis. Por: Ana Beatriz Justino

    No início do livro, a autora explica que quando o regime foi implantado ela ficou dividida pois, apesar de ser religiosa, ela e seus pais eram bem modernos. Sua religiosidade era tanta que ela queria ser uma profeta nas primeiras 25 páginas do livro. Isso muda com o tempo, mas é interessante pensar em como seria a vida se Deus fosse considerado uma mulher. Estaríamos passando por certas dificuldades? Ou se o Alcorão, livro sagrado muçulmano, fosse traduzido com uma ótica feminista?

    No artigo  “Tradição e transgressão em Persépolis, de Marjane Satrapi”, Laisa Marra, doutora em Teoria da Literatura e Literatura Comparada pela UFMG, diz que o regime islâmico é baseado no livro religioso Alcorão e que, a partir dele é possível várias interpretações sobre direitos femininos que são utilizados por ativistas feministas. 

    Também é a partir de uma compreensão dele, que é permitido que as mulheres se divorciem no Irã, desde que o esposo esteja de acordo com isso no momento do casamento. Essa é uma experiência contada no livro. Alguns anos após retornar da Europa a protagonista se apaixona e se casa, mas seu pai impõe como obrigação que o noivo dela seja de acordo com o divórcio.

    Durante uma entrevista para a divulgação do filme de mesmo nome, uma adaptação da história retratada na graphic novel, Marjane diz que não queria que aquilo fosse uma afirmação sociológica, política ou histórica. Mas ser mulher é ser também um corpo político, um corpo social que sofre mais que um corpo considerado masculino. Para além de ser uma mulher, a autora vem de um país considerado subdesenvolvido e lugar apenas de terroristas, desconsiderando as muitas vivências que podem existir junto com uma teocracia. Esse é o principal motivo pelo qual ela decidiu escrever o livro, para contar outras vivências sobre seu país.

    Durante a infância, vindo de uma família revolucionária, a jovem Satrapi é cercada por diferentes formas de opressão, desde reprimendas intelectuais até reprimendas físicas. Seu tio Anuch foi preso e morto pelo regime e, antes disso, o livro conta que a mãe da autora, após ser fotografada em um protesto, muda seu visual e se esconde por um tempo para evitar reprimendas do governo.

    O livro é cercado de violências de gênero como forma de punição, tanto antes quanto depois que a protagonista vai para Europa. A principal e mais marcante é o caso da jovem Nilufar, que é procurada por todo lado por ser comunista e se esconde na casa de um falsificador de passaporte. Dois dias depois do encontro da autora com a jovem ativista, Nilufar é presa e executada. Algumas páginas depois a mãe de Marjane conta que, antes de ser morta, Nilufar foi estuprada. Segundo as leis, não é permitido matar uma virgem, então eles a casam com qualquer um que passa a ter permissão de estuprá-la. 

    Fotografia do livro Persépolis. Por: Ana Beatriz Justino

    Primeira ida à Europa e seu retorno ao Irã

    Os pais de Marjane decidem enviá-la à Áustria depois de sua expulsão da escola. Durante esse período de sua vida ela conhece mais da cultura ocidental. Anarquismo, uso de drogas e culturas diferentes da sua, tudo isso com 14 anos. Os choques com a cultura ocidental foram muitos. Ela descobriu mais sobre liberdade sexual, pois na Áustria ela não seria punida por transar com alguém antes do casamento. Teve dois namorados e mudou de aparência mais de uma vez. 

    A protagonista foi para um país estranho próximo da puberdade e passou por mudanças físicas muito confusas para alguém tão jovem passar sozinha. Os problemas com identidade também se intensificaram, problemas que muitas garotas nessa fase passam, porém para a protagonista o buraco se torna mais profundo. Antes de se mudar, sua avó diz que ela tinha que ser fiel a si mesma. Ela mente sua nacionalidade por vergonha e como uma tentativa de ser aceita socialmente. Isso acaba com ela por pouco tempo. A autora começa a se entender melhor como uma mulher iraniana depois desse acontecimento.

    Os quatro anos passados na Áustria foram de pequenos e grandes ataques xenofóbicos. Desde comentários em seu primeiro alojamento até ser acusada de roubo em seu último alojamento. Em um dos quadrinhos é possível ver xenofobia e racismo, Marjane tem a pele clara e os cabelos lisos e se pergunta se seus “amigos” ocidentais estariam com ela se ela fosse um “menino moreno de cabelo enrolado”.

    Fotografia do livro Persépolis. Por: Ana Beatriz Justino

    Ao voltar para o Irã, outro problema além da culpa começa a assombrar a garota, os padrões culturais. No tempo em que esteve na Áustria, eram diferentes dos padrões do Irã. Marjane Satrapi se adaptou, tanto no estilo, quanto no jeito de agir, e as culturas diferentes foram um embate. Quando retornou, os comportamentos que ela reproduzia na Europa se diferenciam no Irã.

    E, para deixar a situação um pouco mais complicada, por passar uma parte de sua vida num país ocidental, sua personalidade e forma de encarar o mundo foram adquirindo nuances diferentes. Algumas amigas de infância, apesar de parecerem mais modernas, julgam a protagonista por fazer sexo com seu namorado antes do casamento, uma prática que é considerada crime no Irã, e isso a deixa muito incomodada.

    Durante os anos em que retorna ao seu país natal, além de se casar, a protagonista começa a frequentar a universidade, ela cursa comunicação visual. Em um determinado momento do curso os alunos são chamados para uma conferência com o tema “A conduta moral e religiosa” na qual as mulheres foram instruídas a usar lenços maiores, roupas menos largas, entre outras condutas morais. Ao final da reunião, Marjane se opõe e diz sua opinião, por que ela como mulher tem que seguir regras de conduta moral enquanto seus irmãos homens podem andar pela universidade com qualquer tipo de cabelo e com roupas mais marcadas que as mulheres ali presentes? Ela é chamada para a comissão islâmica e, depois da bronca, para sua surpresa é convidada a desenhar uniformes que atendam as alunas do curso.

    As transgressões não pararam por aí. Segundo a autora, os detalhes eram os responsáveis pela convocação das mulheres no comitê islamico por serem consideradas imorais, inclusive ela quase foi presa por usar meias vermelhas. Durante todo o livro é possível observar como a vida das mulheres iranianas é cercada de violências impostas pela religião. Marjane passa por assédios e escuta relato de amigas em que a vida da mulher é baseada em estar casada e, se essa mulher demonstra um pouco mais de liberdade, ela é tratada como prostituta e pode ser até presa.

    Em uma crítica no site Dana intitulada “Persépolis A (difícil) arte de crescer” O livro é comparado ao impacto de “O Diário de Anne Frank” e “O Diário de Zlata”, obras não ficcionais e autobiográficas que contam a vida de meninas que cresceram em um ambiente de opressão e guerra. Colocar a obra de Marjane Satrapi nessa posição dá visibilidade ao que aconteceu no Irã e entra para a história como uma narrativa lembrada para não se repetir. E, para além, mostra uma perspectiva do Irã diferente da perspectiva ocidentalizada, ajudando a representatividade de mulheres e meninas iranianas que não são muito representadas pela mídia.

    A graphic novel Persepolis consegue trazer para os leitores uma perspectiva do Irã diferente daquela retratada em filmes hollywoodianos de ação e dos jornais, exatamente o que era a principal intenção da autora. Em alguns momentos é desesperador ler o que Marjane Satrapi ouviu, viu ou viveu no Irã, tanto pela situação de guerra quanto por ser mulher. Com certeza a avó da autora está orgulhosa dela, onde quer que esteja.

    Por Ana Beatriz Justino

    Serviço

    Título original: Persépolis Completo

    Autora: Marjane Satrapi

    Tradução: Paulo Werneck 

    Editora: Quadrinhos na cia

    Número de páginas: 352

    Classificação indicativa: 12 anos (apresenta violência, conteúdo sexual e drogas)

  • Nem todos os homens,  mas sempre um homem

    Rápida recapitulação de Setembro de 2024.

    Fonte: https://www.pexels.com

    Homem é preso após atropelar ex quatro vezes. Atleta olímpica morre após ter corpo incendiado pelo namorado. Homem acusado de recrutar estranhos para estuprar sua mulher. Revenge Porn no Telegram: o canal português de misoginia assistido por 70 mil homens. Homem atropela duas vezes ex-companheira, filha e ex-sogra no DF. Coreia do Sul investiga Telegram por divulgação de deepfakes pornográficas com menores. Feminicídio no Brasil aumenta mesmo com esforços legislativos para proteger mulheres. Feminicídio: mulher de 22 anos é morta a facadas no DF; ex-namorado foi preso. Em 53 dias, RS registra nove feminicídios.

    No dia 5 de Setembro, às  20h – A organização Me Too Brasil confirmou que recebeu denúncias de assédio sexual contra Almeida.

    Parece até um compiladão da Aline Ramos, mas em vez de explorar a vida de pessoas famosas e sub-celebridades, estamos explorando a perseguição, importunação e o assassinato de mulheres pelo fato de serem mulheres.

    Esses acontecimentos não surgem no vácuo. Temos visto crescentemente um levante da extrema-direita autoritária e fascista, que modela a noção de nacionalidade a partir de ideias coercitivas, que aniquilam a diversidade. A necessidade da reafirmação de um pensamento e de um ambiente limitado, conservador e opressor se alia à vontade de cercear e até mesmo aniquilar os corpos diversos e suas modalidades de expressão, em um modelo em que a regra seja a de eliminar tudo aquilo que não ofereça semelhança aos próprios ideais. As personalidades reconhecidas à frente do movimento de direita, no Brasil, são uma amálgama de um pensamento mesquinho, retrógrado e, basicamente, de tudo o que há de ruim, e entre eles vê-se uma conjectura, um pacto, que fortalece a experiência de disseminar ódio contra as pluralidades.

    Mulher é morta com golpes de foice após discussão; suspeito é o próprio companheiro da vítima

    Tem-se portanto, uma mistura ideológica oportunista, em que cada parte se beneficia do discurso inflamado do outro, abrindo oportunidade para a “venda” de diversos temas entre as principais massas do movimento: milicianos, ancaps, olavistas, neoliberais, uma parte dos evangélicos, a bancada do agro, comerciantes (que se apresentam como burgueses), o Centrão e os liberalecos. Estes podem, muitas vezes, não concordar entre si, mas por dividir um inimigo em comum (o fantasma do comunismo nas Américas e o movimento “woke”), vivem “tolerando” uns aos outros, em prol da união das forças, o que tem impactado negativamente a esfera política e social da nossa sociedade (eufemismo).

    Feminicídio

    O que configura feminicídio? É todo homicídio praticado contra a mulher por razões da condição do gênero feminino e em decorrência da violência doméstica e familiar, ou por menosprezo ou discriminação à condição de mulher. Antes da lei, defendia-se a ideia errônea e grotesca de crime passional. A palavra ganhou destaque no Brasil quando a Lei nº 13.104/2015 foi aprovada, sendo incluída no rol do crime de homicídio a qualificadora do feminicídio, classificado como crime hediondo. A pena prevista é de reclusão de 40 anos, o que pode aumentar devido a agravantes. 

    Considera-se que há motivação de condição de sexo feminino quando o crime envolve:

    I – violência doméstica e familiar: a morte é consequência da violência cometida por um/a familiar ou por uma pessoa com quem a vítima conviveu ou mantinha laços de afetividade. Somos mortas dentro de nossas próprias casas, por pessoas que amamos.

    II – menosprezo ou discriminação à condição de mulher: advém e é manifestada pelo ódio, aversão ou objetificação da mulher.

    A lei foi sancionada pela então presidenta do Brasil Dilma Roussef, em 9 de março de 2015.

    Lendo Histórias de morte matada contadas feito morte morrida: A narrativa de feminicídios na imprensa brasileira, e utilizando grande parte do material das aulas de Crítica de Mídia e Ética Jornalística refleti criticamente ao longo do fluxo narrativo das autoras sobre como os feminicídios são abordados e narrados pelos meios de comunicação no Brasil. O título sugere essa inversão de valores apresentada de diferentes formas na construção das chamadas que noticiam mortes de mulheres, vítimas de violência doméstica ou de gênero, que são frequentemente relatadas na imprensa, muitas vezes minimizando ou banalizando o sofrimento delas, o que pode resultar em uma representação distorcida e insensível do caso. Desdobrando essa problemática com outro recorte, recomendo a monografia Quantas vezes se pode matar uma mulher morta?, que versa brilhantemente sobre como é realizada a cobertura jornalística sobre os feminicídios de mulheres com deficiência.

    1. A ideia de Morte Matada contraposta à ideia de Morte Morrida:

    A expressão “morte matada” pode ser entendida como uma tentativa de atribuir uma causa direta ao ato de matar — neste caso, o feminicídio. A ideia de “morte morrida”, por outro lado, remete a uma morte que é tratada com distanciamento, desumanização ou até mesmo banalização. Ou que ocorreu de forma natural, sem intenção e sem causador. Dessa forma, a narrativa das mortes femininas na mídia, e principalmente, a forma como é construída, pode, muitas vezes, seguir esse padrão: a morte da mulher é reduzida a um fato jornalístico, espetacularizado, ou tratado de maneira quase mecânica, sem aprofundar a complexidade das relações de gênero e violência que permeiam o trágico desfecho. Isso quando este é retratado.

    2. Narrativas de feminicídio na imprensa:

    Em rápida análise das chamadas da cobertura jornalística de feminicídios no Brasil, percebe-se uma profunda carência e apatia, o que não sensibiliza o suficiente os leitores sobre a gravidade do problema. Em vez de destacar as causas estruturais e culturais que permeiam a violência de gênero, as reportagens frequentemente se concentram em aspectos superficiais, como o perfil da vítima ou do agressor, ou ainda em detalhes sensacionalistas que não abordam o contexto de opressão que levou ao crime.

    Banalidade do mal:

    Para incrementar o desenvolvimento do livro, também incluo as reflexões do texto Os limites éticos na cobertura jornalística sobre casos que envolvem violência sexual contra mulheres e meninas no Brasil”, de Andressa Oliveira: 

    “Ao retomar o pensamento de Hannah Arendt, a banalidade do mal se efetiva quando uma sociedade, representada pelas suas lideranças políticas, além de não proteger os grupos vulneráveis como mulheres e crianças, viabiliza leis que corrobora com a prática da violência. A vítima de um estupro poderá ser reificada, tanto pelo crime que sofre, quanto pela condenação que lhe será imposta. A ausência de pensamento atinge sua forma absoluta quando os dados estatísticos e a subnotificação de casos são ignorados e recusados na elaboração de tal projeto de poder.”

    Exemplos de como as mortes são relatadas:

    • Ato violento como ator principal: quando a mídia relata o feminicídio de forma “nua e crua”, enfatizando os detalhes da morte (a maneira como foi cometido, como foi o assassinato, etc.), e quando reimagina e reencena essas mortes, perseguições, brutalidades, sem respeito e sem a conotação correta ao contexto e ao histórico de violência que a vítima, possivelmente, já havia enfrentado. Isso pode fazer com que a morte da mulher seja entendida apenas como um evento isolado, excluindo a conexão com a cultura patriarcal de violência que circunscreve as relações de poder dentro das sociedades.

     Andressa Oliveira reitera essa colocação, em seu texto para o ObjETHOS:

    “É preciso também descrever como uma adolescente foi violentada sexualmente dentro de uma UTI, porque a palavra estupro, em um país que registra 153 casos por dia, 6 casos por hora, cujo a estimativa aponta que 6 em cada 10 vítimas são crianças de 0 a 13 anos, ainda não é suficiente para que a sociedade compreenda o nível de barbárie na qual está acostumada a tolerar.”

    • Vítimas e seus estigmas: durante a narração de feminicídios a tendência (péssima), é colocar a mulher na posição de “culpada” ou responsável pela violência sofrida. Pode ocorrer pelos verbos e a forma como eles agem sobre o sujeito, e retomam o imaginário misógino de uma parte da população. Como exemplo, as frases: “ela estava em um relacionamento conturbado” ou “ela tinha atitudes que incomodavam o marido”, que induzem o pensamento a uma possível passabilidade da agressão cometida, como se fosse somente uma consequência das ações da vítima, que tem os holofotes voltados a si como reveladores de suas supostas faltas e pecados. 

    Como conclusão, a autora coloca que:

    “Os limites éticos enfrentam agora uma fronteira muito tênue: A proteção da imagem deve ser resguardada, mas a descrição da forma como a violência foi praticada não assegura a proteção contra o constrangimento da vítima e incide diretamente na forma como a sociedade constrói essa violência. Como destaca Meditsch (1997, p. 10), “[…] o jornalismo serve ao mesmo tempo para conhecer e reconhecer”. O jornalismo reconhece que as vítimas de violência sexual devem ter sua identidade protegida, mas não impede que a violência seja reproduzida a partir da linguagem.”

    • Se procuramos Eliza Samudio em ferramentas de busca, somos bombardeados com imagens da modelo em um ensaio fotográfico de lingerie, o que chama mais a atenção do que o fato de sua morte completa 12 anos e corpo nunca foi encontrado. O que sabemos sobre ela? Que era modelo e teve um relacionamento com Bruno Fernandes, à época goleiro. E sobre Bruno? Um jovem talentoso e promissor no cenário futebolístico, que perdeu tudo ao ser enganado por uma mulher promíscua. Em 26 de setembro de 2024, a CNN Brasil nos notifica sobre o desfecho:

    “Mesmo preso em regime fechado, Bruno assinou contrato com o Montes Claros em 2014, mas não chegou a jogar pela equipe mineira. Com o benefício do semiaberto em 2017, o goleiro foi anunciado como reforço do Boa Esporte e, mesmo com diversos protestos pelo país, ele atuou em cinco jogos, tendo sofrido quatro gols pelo time de Varginha. De lá para cá, Bruno foi anunciado por clubes profissionais e amadores, como Poços de Caldas, Rio Branco-AC, Atlético Carioca, Araguacema-TO, Orion FC e Búzios. Nova profissão e filho goleiro. Recentemente, o ex-atleta foi visto em uma nova profissão na cidade de Rio das Ostras, no Rio de Janeiro. Bruno atualmente trabalha para uma casa de móveis e foi visto fazendo a função de entregador de móveis.”

    O caso e suas abordagens merecem um estudo próprio e dariam um outro texto, com diversos outros desdobramentos, como o recentemente publicado no Ariadnes, Protagonismo nas narrativas de violência de gênero: a importância da voz das vítimas na mídia.

    Essas abordagens, mesmo que feitas sem a intenção, acabam desconsiderando o contexto de opressão social, desigualdade de gênero, machismo estrutural e controle social sobre corpos femininos.

    • Foco no agressor: Em alguns casos, a mídia tenta dar mais destaque ao perfil do agressor, mas em um movimento contrário, acaba tentando entender “por que ele matou” e, consequentemente, humanizando-o ou buscando explicações psicológicas ou sociais, que categorizam o crime como “doença”. Abordando os feminicidas como “monstros”, se esquece de que o perfil dos agressores é humano e, majoritariamente, masculino. O que, mais uma vez, exclui a abordagem das questões de poder e controle no contexto de gênero, o que pode desviar a atenção do fato de que a morte da mulher foi motivada por um padrão de violência sistemática que afeta muitas ao redor do mundo, e não somente um caso isolado, de uma figura grotesca e monstruosa, que não pertence ao corpo social, e que não seja resultado de seu meio.

    3. Ação e Consequências: Quando as mortes femininas são relatadas de forma simplista ou sensacionalista, sem analisarmos criticamente as causas e dinâmicas de poder envolvidas, quem consome este conteúdo poderá naturalizar a violência de gênero como consequência das ações do gênero majoritariamente afetado. Se uma mulher usa saia curta, ela não presta. Se usa saia curta, e sai para ir para a balada, pior ainda. Se fez essas duas ações, e tentou voltar sozinha para casa, enquanto estava alcoolizada, ela merece sofrer a violência. Isso faz com que muitas vítimas de feminicídio não procurem ajuda, justiça ou reparação, pois sabem que, de alguma forma vil e deturpada, a culpa poderá recair em suas ações. O número de denúncias sofre baixas, as estatísticas desaparecem, e se tornam acasos isolados, ao invés de serem vistas como parte de um problema estrutural que precisa ser enfrentado.

    A abordagem espetacularizada reforça estigmas e ideias preconceituosas sobre o papel da mulher na sociedade, e alimenta as justificativas para a violência. Mulheres devem praticar cursos de autodefesa, mulheres devem andar armadas, mulheres devem revidar, nunca o discurso é voltado a educar os homens. Nos tornamos o problema, e temos que lutar para virar a solução. 

    A repetição desse tipo de narrativa na mídia contribui para a perpetuação da cultura do estupro, amplamente difundida no Brasil, assim como a cultura do relativismo, da impunidade e da invisibilidade das vitimas, em que feminicídios não são vistos como crimes HEDIONDOS, mas como “tragédias” que acontecem “por cíumes”, “por amor”, “por traição” ou “diferenças de opinião”, que resultam em corpos violados, mortos, mutilados e marcados por violência, isso quando são encontrados.

    4. Como mudar?

    Como pensar uma imprensa engajada em pautas sociais? Como fazer com que busque adotar uma abordagem mais crítica e responsável sobre o tema do feminicídio? Algumas formas são através da:

    • Educação e conscientização: sensibilidade, respeito e conscientização do público podem ocorrer sem o uso de elementos apelativos, e levar a uma reflexão sobre as causas estruturais da violência de gênero, como o machismo, o patriarcado e a desigualdade.
    • Contexto e linguagem importam:  as vítimas de feminicídios não devem, assim como não PODEM ser reduzidas a somente números ou estatísticas. Quem são essas pessoas? O que elas faziam? Como contar suas histórias de vida, seus sonhos, seus desafios, para que a sociedade entenda a perda de uma vida? Nossos corpos não podem ser diminuídos a meras fatalidades, a agressão de um corpo não pode simbolizar menos uma. Quando uma mulher é assassinada, todo o corpo social deveria sentir essa perda como sintoma de um problema maior.
    • Denúncia ativa: além de informar sobre o fato, deve-se complementar a notícia com caminhos que auxiliem vítimas a denunciarem, voluntariamente, de forma segura, para que assim esta sejam recebidas por uma rede de apoio com profissionais capazes de fazer um atendimento de qualidade, que preserve o seu relato, sua dignidade e que seja respeitoso.
    • O poder das políticas públicas: a regulamentação do jornalismo e da mídia pode auxiliar a criação de um caminho que busque ativamente dar destaque à luta das mulheres por direitos. A partir de um movimento de estabilidade por parte das normas de contratação e atuação de jornalistas, muitos/as sentiriam segurança de difundir e noticiar pautas sociais, portanto torna-se imprescindível a implementação de políticas públicas de auxílio tanto ao profissional da área de comunicação quanto em relação à prevenção à violência. Isso pode aumentar a participação da sociedade na erradicação da violência de gênero, com organização de protestos, petições, abaixo-assinados, boicotes, entre outros, por terem o sentimento reafirmado de que suas vozes tem alcance e que importam.

    Existe uma importância fundamental das políticas públicas na regulamentação do jornalismo e da mídia como meio de promover a luta das mulheres por seus direitos e garantir um espaço mais seguro e igualitário para as profissionais da área. A proposta é que, ao estabelecer normas de contratação e de atuação mais estáveis para jornalistas, seria possível criar um ambiente em que as profissionais se sentissem mais seguras para abordar e difundir temas sociais, sem medo de represálias.

    “A International Women Media Foundation divulgou uma pesquisa realizada com 610 jornalistAs que apontou uma escalada nas ameaças à segurança e ao bem-estar das mulheres que trabalham na imprensa, nos Estados Unidos. A pesquisa ouviu jornalistas de 198 veículos. Do total, 33% sofreram ameaças ou foram alvo de violência digital. As profissionais foram ouvidas durante 26 treinamentos de segurança realizados em 19 cidades.”

    Esse movimento foi observado durante o governo Bolsonaro, no Brasil, e que poderá voltar a ser pauta nos Estragos Unidos durante o segundo governo de Trump, pois indica um contexto de ataques diretos à liberdade de imprensa e à segurança das mulheres jornalistas. 

    A pesquisa da IWM, (International Women Media Foundation), citada acima, reforça a gravidade da situação, apontando o aumento das ameaças e da violência digital direcionadas às jornalistas, um reflexo das condições precárias de trabalho e da hostilidade enfrentada pelas mulheres na imprensa. Políticas públicas eficazes se tornam essenciais para mitigar essas questões.

    É preciso então questionar, quanto vale a vida de uma mulher ou de uma menina no Brasil?

    Andressa Oliveira, nos encaminha para a seguinte conclusão:

    “[…] a empatia ao narrar aos fatos, o respeito pela dor dos familiares, a presença do advogado das partes envolvidas e a busca por fontes qualificadas, além de destacar que as narrativas das matérias jornalísticas precisam estar humanizadas porque “a mulher em situação de violência não se define somente pelo crime que viveu”.

    O Manual também aborda a proteção no âmbito da preservação da imagem da vítima e destaca que o jornalista tem o dever de informar a vítima sobre os possíveis efeitos da publicação da matéria que pode gerar “muita audiência e repercussão” (p. 16), assim como, também se constitui um dever do jornalista apurar se houve falha do Estado em relação a “assistência e reparação às vítimas” (p. 17), uma vez que, o Estado é o responsável por garantir rede de proteção a todo cidadão. “A sociedade, as mulheres em particular, precisa acreditar na possibilidade da interrupção da violência. A mídia pode ajudar apresentando os caminhos para uma eventual denúncia e divulgando serviços de referência no acolhimento e assistência às vítimas” (p. 18).”

    O Brasil está entre os países com maior índice de homicídios praticados contra mulheres, conforme dados apresentados pelo Mapa da Violência de 2015.

    As fontes utilizadas para a criação deste texto são valiosíssimas e fundamentais para entender e combater ativamente as “Histórias de morte matada contadas feito morte morrida”. Essa desconexão entre o assassinato de mulheres e a forma como é divulgado pela mídia, muitas vezes de forma insensível ou redutora, tem que ser duramente criticada. Quando adotamos uma abordagem mais crítica e humana sobre o feminicídio, a imprensa pode contribuir para a conscientização e comprometimento com as reivindicações de maiorias minorizadas. Os feminicídios não podem mais ser relatados como “morte morrida” — precisamos nomear corretamente, isso também é um ato político.

    Por Sophia Helena Ribeiro.

  • As elites em decadência e as mentiras do “American Way of Life”

    De olhos bem fechados, ou no original, Eyes Wide Shut é um filme, por incrível que pareça, de Natal! Criado por Stanley Kubrick e estrelado por Nicole Kidman e Tom Cruise, a obra britânico-estadunidense de 1999 tem como gêneros principais drama e suspense, mas nos leva por caminhos variados entre o erótico, o mistério e brinca com as sensações dentro de nossos psicológicos. É baseado no romance Traumnovelle, (Breve romance de sonho), de Arthur Schnitzler, em que os protagonistas da história também exploram os temas da sexualidade, da moralidade, da identidade e da fronteira entre a realidade e o desejo. O que caracteriza um retrato psicológico profundo da sociedade vienense da época (1926), especialmente em relação às normas sociais e à repressão, tema que também estava sendo pesquisado e discutido nos estudos pioneiros de Freud.

    O título do filme em si, “Eyes Wide Shut” (que de forma literal pode ser traduzido como “olhos abertamente fechados”), já demonstra um paradoxo. Como você pode estar, ao mesmo tempo, com os olhos (eyes), bem abertos (wide), e fechados (shut)? Desse modo, configura também uma metáfora para o estado de negação que Bill mantém ao longo de sua vida, por enxergar as situações cotidianas e não ter consciência dos problemas matrimoniais que tem, nem das preocupações da esposa. Sua posição como protagonista nos leva ao entendimento de uma “cegueira moral e crítica”, seja voltada para suas próprias inseguranças, prepotências, e para a complexidade do mundo em que vive, não apenas no que diz respeito à sexualidade, mas também em relação ao status social, classe e poder. Um símbolo disso é o assédio moral que recebe somente por caminhar na direção de um grupo de jovens que começam a tentar ofendê-lo e atacá-lo com termos de cunho pejorativo, e ao final chegam a empurrá-lo agressivamente.

    Deuses e monstros

    A parte mais marcante do enredo é a crítica lasciva e bem construída ao redor da elite novaiorquina, e sua decadência. Curiosamente, este é o último filme de Kubrick, que morreu apenas cinco dias depois do lançamento. 

    Tem-se sempre um clima de suspense e também uma tensão sexual silenciosa rondando a atmosfera do filme. Eyes Wide Shut lança o protagonista numa jornada em busca do desconhecido, alimentado pela vontade de entender o desejo da esposa, o qual não reconhece em si mesmo, e também na busca por se auto afirmar no processo.

    Vemos Kubrick utilizar o espaço, a música e a edição como táticas para criar uma imersão e tensão constante, uma técnica que lembra o trabalho de Alfred Hitchcock em filmes como Psicose (1960) e Janela Indiscreta (1954), também traçando outro paralelo com “uma tradição hitchcockiana” de colocar o homem comum em uma situação extraordinária. E, assim como Caio Bogoni descreve em sua crítica, “Stanley Kubrick, como um bom contador de histórias visuais, faz dos menores eventos algo interessante ao ilustrá-los tão significativamente”.

    Sua repercussão na crítica varia muito, principalmente por causa das cenas de orgia. A narrativa começa com a história de um casal perfeito, que foi convidado a passar a noite em uma festa de véspera de Natal, por Victor Ziegler, um magnata da alta sociedade novaiorquina. Durante a festa Bill e Alice Hartford recebem atenção de diversas personalidades e são bastante cortejados, porém, na comemoração, Bill é chamado para socorrer uma prostituta que teve uma overdose. O fato deve ser mantido em segredo. Depois disso, em uma discussão acalorada durante um momento privativo do casal, Alice (Nicole Kidman), ao ouvir que o marido não sentia ciúmes dela, revela a Bill (Tom Cruise), suas fantasias sexuais com um outro homem. Isso leva Bill a visualizar em sua imaginação a cena da traição da mulher, mas seu inconsciente tenta cancelar essas imagens dentro de sua própria mente. 

    Mulheres também sentem desejo? 

    Uma das partes mais interessantes é que a traição revelada pela mulher aconteceu somente em seu pensamento, e Bill Harford fica o tempo todo visualizando a esposa consumando a traição, mas, em paralelo, fica sempre tentando fugir dessas imagens. Esse poderoso e inóspito lugar do inconsciente, que o desejo reprimido permeia, afeta Bill, e começa a se desenvolver sua jornada do herói, com ambientação noturna e natalina, dentro de uma Nova York que passeia, simultaneamente, entre o familiar e o estranho. Como exemplo, temos a sequência em que ele visita a loja de fantasias “Rainbow”, que, por causa do horário, estava fechada. Porém ele toca a campainha procurando por um de seus pacientes (o proprietário anterior da loja), que para sua surpresa se mudou, e a propriedade passou a ser de um homem húngaro. 

    Ainda na loja, em uma cena diferente, ele entra em contato com um mundo de permissividade sexual, em que ele vê a filha do húngaro em uma situação sugestiva de um ménage à trois, ou sexo a três (um encontro sexual ou relacionamento entre três pessoas), com outros dois homens asiáticos. Em um primeiro momento, o pai parece decidido a chamar a polícia para denunciar o caso, porém o desdobramento deságua na sugestão de que tudo teria um preço, ou seja, que o seu silêncio poderia ser comprado.

    Em paralelo, quando Alice dança com um húngaro, durante a festa do início do filme, ele estava abertamente cortejando-a e fazendo propostas de encontros extraconjugais, e apresenta o seguinte questionamento:

    “Não acha que um dos encantos do casamento é tornar o fingimento uma necessidade para ambas as partes?”

    Casamento como uma instituição falida

    O filme também caminha para uma reflexão sobre o casamento e os relacionamentos. Há o exemplo de casal perfeito, com atores que são coroados como “America’s Sweethearts”, ou seja os queridinhos da América, que inclusive formaram um casal fora do cinema, muito popular na mídia, e principalmente, muito esteticamente atraentes, representando um ideal de beleza construído para as telas do cinema. Como discutido durante a mostra, Nicole Kidman, em sua primeira aparição, tem uma aparência que nos remete à pintura da Vênus de Botticelli, uma aparência singular e perfeita em alusão à deusa da beleza. 

    O nascimento de Vênus, de Sandro Botticelli. Fonte: Pinterest

    Durante o filme, vê-se frames de seu corpo nu, exposição que simboliza uma vulnerabilidade tanto dela quanto de outros personagens. Os corpos nus aparecem constantemente, principalmente os femininos, o que leva o espectador a entender que estes estão sempre disponíveis, e até mesmo dispostos e sujeitos ao livre acesso, sem qualquer contexto emocional imediato, o que, particularmente, cria uma sensação de desconforto e ruptura das noções de consentimento. 

    A nudez não é glamourizada, mas sim apresentada de forma impessoal e até distorcida, o que sugere, de certa forma, que apesar de estarem fisicamente “expostos”, os corpos femininos estão, emocionalmente separados e isolados, como demonstrado pelo uso de máscaras durante as cenas de orgias. Muitas vezes, indicam uma forma de esconder a identidade, permitindo que essa nova persona tenha a liberdade de agir sem expor as próprias vulnerabilidade emocionais ou psicológicas.

    No ambiente das orgias na mansão secreta, Bill encontra a nudez dessa forma descaracterizada e/ou despersonalizada. As pessoas são apresentadas como corpos sem rosto, ou seja, são apenas objetos em uma espécie de “mercado de prazer”. Refletido na “alienação” advinda do uso da nudez, que evita qualquer tipo de conexão emocional ou afetiva, Bill parece existir fora dessa relação, não percebendo os signos da sua própria sexualidade e da sua percepção do desejo humano. Logo, ele é descoberto como não pertencente àquele ambiente, e é condenado a “pagar por isso”, porém, uma das participantes do culto aparece e recebe o “castigo” em seu lugar. Isso demarca outra significante do filme, que é a liberdade e alcance que as mulheres têm por usufruírem e entenderem de sua sexualidade, enquanto o protagonista, que é reprimido, depende da ajuda destas personagens para adentrar em diversos locais, e principalmente, a explorar a própria sexualidade a partir disso.

    Corpos sujeitos

    Em vários momentos, a nudez está associada ao poder, especialmente em relação à seita secreta e seus rituais eróticos. As mulheres, em sua maioria, aparecem peladas, sem resguardos em relação à exposição, porém, em um movimento contrário, há uma menor exposição de corpos masculinos nus. O poder, na realidade, advém de quem controla esses corpos, a nudez se transforma, não em símbolo de liberdade ou prazer, mas de controle e submissão. O uso do corpo nu como uma ferramenta para controlar ou manipular os outros se torna evidente, especialmente durante as cenas da festa na mansão, onde as pessoas são forçadas a participar de rituais que despersonalizam e objetificam os corpos, em que um círculo de mulheres nuas ao centro performa uma espécie de ritual, enquanto os poderosos estão completamente vestidos e observam a cena de forma “estrangeira”, de longe. Até mesmo na cena de orgia, muitos dos participantes olham de fora, como em uma espécie de plateia durante a performance do sexo, o “voyeurismo” tem um lugar de destaque entre os fetiches praticados.

    Além disso, ao pensarmos na seita como significante, esta aparenta ser uma metáfora para uma estrutura social ou política oculta, em que as normas de poder e controle operam nas sombras. Vê-se então, a sexualidade como uma forma de dominação. Existem corpos que recebem prazer, e os corpos sujeitos a oferecer prazer, mas não a recebê-lo, em um culto ao corpo e aos instintos, porém não de forma animalesca. A nudez, bastante presente e descaracterizada, então, serve como um reflexo dessa dinâmica de poder, em que alguns indivíduos são reduzidos a corpos sem identidade, ou seja, apenas instrumentos para a satisfação dos desejos e manipulação dos outros, e isso ocorre principalmente com corpos femininos.

    Ou seja, o desejo incontrolável e a tentação se apresentam nas orgias de maneira sistemática e ritualizada, o que sugere que o desejo humano não é apenas algo instintivo e irracional, mas também uma força que pode ser manipulada, tanto por aqueles que controlam a seita quanto por aqueles que buscam satisfazê-lo. O poder das elites é representado de forma a transcender os limites morais (o dinheiro compra tudo), e também demonstra um claro desprezo pelas convenções sociais, que normalmente sustentam em seu cotidiano. Como exemplo, tem-se a festa de véspera de Natal na casa do magnata Victor Ziegler, em que tudo parece estar dentro da ordem e do que se espera de um evento de anfitriões tão ilustres, porém em um dos cômodos, o dono da casa trai a mulher enquanto usa diversos tipos de drogas, indo contra a fachada moralista e conservadora que apresenta promovendo um evento deste cunho. 

    Essa busca pelo prazer sem restrições leva, inevitavelmente, a um vazio existencial, pois em diversas cenas a nudez não é acompanhada de qualquer tipo de afeto genuíno, tornando-a vazia e superficial. A prostituta desmaiada no começo do filme é só um corpo, possivelmente entre muitos, e sua morte ou sua vida não simbolizariam nenhuma perda significativa, ou sequer teria qualquer impacto substancial na persona de Ziegler.

    Pelados em New York

    A própria busca de Bill por prazer é marcada por sua incapacidade de controlar ou entender o que está acontecendo ao seu redor. Mesmo que ele se envolva com várias mulheres ao longo do filme, cada interação demarca uma inabilidade de criar uma conexão real, refletindo, de certa forma, esse vazio, que ele sente tanto na sua própria vida sexual quanto na conjugal.

    Nesse sentido, o conflito psicológico dele, especialmente sobre suas inseguranças e ciúmes após a revelação de sua esposa, se atenua. Ao longo do filme, Bill passa por uma espécie de jornada do herói, em busca de respostas, tentando entender sua própria identidade sexual e seus verdadeiros desejos. Nesse processo, ele é constantemente confrontado com a nudez de outras pessoas, com outros corpos femininos, e com experiências sexuais frequentemente frustradas, vivendo situações que o deixam desconfortável e emocionalmente vulnerável de diversas formas. Em muitas dessas cenas, a nudez também pode ser lida junto ao medo e à insegurança de Bill, que, ao ver outras pessoas expostas se sente deslocado e impotente, incapaz de compreender suas emoções. 

    Temos diversos exemplos disso durante o filme: quando duas modelos insinuam relações sexuais a três, ao encontrar a prostituta em coma após uma overdose, ao confortar a filha de um falecido paciente e receber um beijo e uma declaração fervorosa de amor eterno, na cena da loja de fantasias, em seu encontro com a prostituta Domino, e em diversas outras ocasiões. Ele é sempre levado nessa espiral que o força a confrontar sua própria fragilidade emocional e a dificuldade de se comunicar com sua esposa, o que revela o abismo entre o desejo sexual e a verdadeira intimidade emocional. Bill parece sempre estar carregado, em um vai e vem, no espaço limítrofe do desejo e da razão. Em contraponto com as mulheres que o encontram, que parecem alcançar e tomar um pouco do controle do poder que advém da sexualidade, adentrando em espaços que Bill, muitas vezes, não consegue acesso.

    Quando Alice revela suas próprias fantasias sexuais, a dinâmica entre ela e Bill se torna mais tensa e desconfortável, pois ele percebe que a mulher que acreditava conhecer profundamente tem desejos e pensamentos que ele não pode controlar ou compreender. A nudez em torno de Alice, especialmente a sua nudez ligada à imaginação de consumar o ato da traição com outro homem, traz, em um primeiro momento, a sugestão de um desconforto tremendo em Bill, por quebrar a ilusão de que uma mulher casada não poderia sentir ou desenvolver desejo por alguém se não o próprio marido. 

    Para ele, o desejo era completamente masculino, e a sugestão que ele faz à própria esposa (de que os homens só se aproximavam dela por desejarem o seu corpo de forma sexual) demonstra uma ingenuidade muito grande, já que ela mesma tem consciência, inteligência emocional e controle dos desejos: ela não consuma e nem reprime as próprias fantasias. A revelação de que a mulher que ele ama também tem desejos sexuais é algo que ele não está preparado para aceitar.

    A relação entre Bill e Alice é, aparentemente, estável, mas a revelação dela sobre suas próprias fantasias e desejos profundos coloca em questão a confiança e a intimidade dentro da instituição que é o casamento tradicional e suas estruturas, ou seja, a ideia de posse. A partir desse ponto, torna-se uma obsessão de Bill controlar, entender e explorar o desejo sexual. Alice, por outro lado, oferece uma visão de um desejo feminino mais livre e confiante, em contraste com a repressão e a insegurança de Bill. Sua lembrança de um sonho que teve, onde se imaginava com outro homem, serve como uma forma de subverter a visão tradicional da mulher como “passiva e submissa”, ou de que as mesmas não podem sentir atração física ou tesão. O filme sugere que as fantasias sexuais e as emoções reprimidas são universais, mas tratadas de maneiras diferentes entre os sexos, principalmente quando pensamos na repressão histórica da sexualidade feminina.

    Tom Cruise e Nicole Kidman juntos com um membro da equipe durante medições no set do filme. Fonte: Reddit

    Eyes Wide Shut é, em muitos aspectos, um thriller psicológico, e a paranoia de Bill se intensifica à medida que ele se envolve mais profundamente na esfera secreta de encontros eróticos e rituais misteriosos. O filme utiliza a tensão crescente para criar um ambiente de inquietação, onde nada é totalmente claro, e as situações se tornam cada vez mais ambíguas.

    O filme foca o seu enredo em torno de Bill, mas uma parte elementar da narração é a introdução da uma seita secreta, com suas práticas de orgias e rituais, que se torna um dos aspectos mais fascinantes e perturbadores do filme. Essa atmosfera de sigilo e manipulação sugere um mundo em que o poder e o controle estão profundamente entrelaçados com o desejo e a sexualidade. Bill, embora em busca de respostas, não consegue se livrar de sua impotência diante dessa estrutura oculta, e, inclusive, não consegue se livrar de sua impotência frente a diversas outras estruturas de poder, mesmo com o status quo privilegiado que carrega, (branco, cis, hétero, médico, classe média-alta).

    Kubrick, famoso por seus detalhes meticulosos e por desafiar as expectativas do público, constrói essa narrativa cheia de simbolismo e pistas, em que nunca chega a entregar respostas definitivas. Há diferentes códigos, que levam a diferentes reflexões da elite social e política, não como um objeto mal formado e sem identidade, mas sim como pessoas, que permeiam e controlam a sociedade. O cineasta reforça a ideia de que há realidades paralelas em nossa vida cotidiana, invisíveis aos olhos da maioria das pessoas. Nesse contexto, qual seria o nosso papel na sociedade, dentro dessas estruturas de poder que se apresentam de maneiras tão determinantes?

    Por Sophia Helena Ribeiro

  • Duda Salabert levanta questionamentos em aula magna na UFOP: “O que você faz com os seus privilégios?”

    No dia 13/12 a deputada federal Duda Salabert (PDT – MG) participou de uma aula magna do curso de Economia no auditório do Instituto de Ciência Sociais e Aplicadas (ICSA) da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP).

    O tema da aula foi “Economia + Educação: metas para o desenvolvimento”. Duda é formada em Letras pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas) e tem mais de 20 anos de experiência como professora de Teoria Literária.

    Participaram da conversa as professoras Giule da Mata, do Departamento de Ciências Sociais, e Paula Miranda, do Departamento de Demografia da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e o aluno de Economia da UFOP Pedro Pereira. 

    Duda começou a aula falando de suas vivências pessoais e profissionais. Disse que ser uma mulher trans perpassa sua trajetória e por isso ela enfatiza dados e informações sobre a situação de travestis e transsexuais no Brasil. Ela conta que essas pessoas não são vistas como humanas e não têm direitos básicos, como banheiros, nome e identidade. Por isso, ela luta por esse grupo.

    Ao falar da comunidade trans, repetiu várias vezes que “A categoria de humanidade no Brasil nunca foi dada. Sempre esteve em disputa”. Ela utilizou como exemplo a história dos negros, que durante muito tempo da história do Brasil não eram considerados humanos. Mas a deputada também deu uma ponta de esperança, pois disse acreditar que um dia essa situação pode, sim, mudar.

    Como o tema da aula abordava educação e economia, Duda enfatizou a importância dos investimentos públicos do ensino básico ao ensino superior. Como um projeto do qual ela participa para garantir água potável para 200 escolas de Minas Gerais e o investimento para a criação do Primeiro Centro de Testagem de Vacina no Brasil na UFMG. Outro exemplo são cotas para pessoas trans e travestis nas universidades, que é uma pauta que está ganhando certa visibilidade agora. “Educação não é gasto, é investimento”, pontuou a deputada.

    Duda também repetiu algumas vezes a pergunta: “O que você faz com seus privilégios?”. A partir daí ela contou que, quando trabalhava como professora, tirou 300 reais que sobrava do salário e investiu para criar um pré-vestibular para travestis, mas com a falta de demanda percebeu que muitas não eram formadas nem mesmo no Ensino Fundamental. Duda citou a pesquisa feita pelo Núcleo de Direitos Humanos e Cidadania LGBT (NUH) da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (Fafich) da UFMG, que demonstra que 91% das travestis e transexuais entrevistadas não concluíram o ensino médio, por isso Duda criou um grupo de Ensino para Jovens Adultos (EJA), focado nas travestis.

    Com o projeto e investimento, conseguiram que uma aluna travesti ingressasse na universidade, mas ela logo saiu. Pois mesmo já tendo vivido em situações muito difíceis, a estudante não conseguiu se manter no ambiente universitário. Se sentia “muito burra, feia e a pior pessoa do mundo”. A deputada frisou que desde o início as universidades brasileiras não foram pensadas para todos, sempre foram pensadas para elite. 

    Durante a aula, outros temas foram política, educação em tempo integral, meritocracia – que não existe, especialmente para pessoas trans – e a extrema violência de uma mulher trans disputar eleições federais. A aula magna de Duda Salabert trouxe à tona a urgência de ações concretas para a inclusão de pessoas trans nas universidades brasileiras. Na UFOP, por exemplo, ainda não existem cotas específicas para essa população, o que evidencia uma negação de direitos e uma lacuna que precisa ser preenchida. Entretanto, é importante ressaltar que cotas, por si só, não são suficientes. Para garantir a permanência de estudantes trans, é essencial que existam políticas de assistência, como moradia, alimentação, apoio psicológico e financeiro, criando condições reais para que possam estudar com dignidade e se sintam pertencentes àquele ambiente. 

    O caso da aluna travesti que abandonou a universidade por falta de apoio reforça como as instituições ainda não estão preparadas para acolher plenamente a diversidade. Não basta abrir as portas; é preciso oferecer suporte contínuo. Que a reflexão levantada por Duda — “O que você faz com os seus privilégios?” — inspire a UFOP e outras universidades a repensarem seus compromissos com a equidade e a justiça social.

    Ana Luiza Rodrigues

  • Romances de Natal são para quem?

    Com o início de dezembro, as plataformas de streaming anunciam e promovem aqueles que serão os “queridinhos de Natal” daquele ano. Tem filme para – quase – todos os gostos; com produções infantis e animações, ficção científica, musicais, aventura e, o que não podia faltar, os romances natalinos. Essa seção engloba tanto as comédias românticas, quanto dramas e/ou somente romances, que são produções muito comuns nessa época. 

    O jornal estadunidense The New York Times, inclusive, realizou uma “super-análise” de 424 produções de dois canais de televisão por assinatura com foco em suas obras natalinas, que vai nos indicar exatamente quais são os estereótipos e as “receitas” para realização desses trabalhos. Algumas categorias colocadas são, por exemplo: cidades pequenas e/ou retorno à cidade natal e reviravoltas, mas não é só isso que esse tipo de produção audiovisual reproduz.  

    Uma busca simples por “filmes de natal” no Google já denuncia à primeira vista o questionamento do título, que nos convida para refletir sobre quais romances estão sendo retratados na época natalina. Quais corpos estão em evidência? Quais sexualidades são contempladas? Somente pelas capas conseguimos pressupor do que essas tramas vão nos mostrar: casais heterossexuais, cisgênero, brancos, sem deficiência, entre outros, são alguns indícios para nos alertar. E elas não mentem:

    Imagem: Captura de tela do Google

    Aqui no Ariadnes discutimos muito sobre o papel educativo da mídia em nossas vidas; como aprendemos a performar gênero; quais dispositivos são constantemente acionados para nos levar a um lugar em comum; como somos educadas a crer em um formato universal de amor e também de performance de sexualidade, por exemplo. Com o passar do tempo, pudemos observar algumas mudanças, ainda tímidas, nas produções hegemônicas – aquelas hollywoodianas, bem inseridas nos padrões que são tidos como “base” –, com a inserção de outras narrativas, outros corpos, sexualidades e pontos de vista. 

    Os filmes de Natal, no entanto, permanecem com essa mesma lógica cisgênero, heterossexual e branca em seus romances, que, a cada ano, se repetem no catálogo da Netflix, por exemplo. A atriz Lindsay Lohan, estrela juvenil que passou anos sumida, é presente nessas produções dos últimos tempos, representando um papel bastante parecido: uma mulher que está vivendo e/ou conhecendo um grande amor. Aqui não estou sendo reducionista, mas não é preciso muita imaginação para encaixá-la neste tipo de história, certo? E não tem nenhum problema existirem obras assim, claro, mas a questão é: quais outras possibilidades de narrativas existem e por que elas não são exploradas? A quem interessa o apagamento e silenciamento de outras histórias de amor natalinas?

    Provavelmente não existe uma única resposta ou abordagem possível para essas perguntas, porém, podemos elaborar algumas coisas a partir do que já discutimos aqui em outras críticas, como o fato de a mídia reforçar padrões sobre o amor que tornam-se inacessíveis e inalcançáveis. bell hooks, em Tudo Sobre o Amor: novas perspectivas, vai nos dizer em diversos trechos do livro como filmes, séries e obras literárias colaboram para uma representação e formação muito distantes do que é o amor de fato, já que não sabemos seu significado e, portanto, não o praticamos. 

    Nessas representações midiáticas o que entendemos é: as mulheres serão subservientes aos homens pois é o papel que lhes cabe; o amor não é para pessoas negras pois elas nem mesmo existem nestes papéis; pessoas LGBTQIAPN+ não têm direito ao amor e, quando têm, é no privado; entre outros indícios que nos afastam das ideias amorosas. Porém, é importante pensar em como isso foi construído e como são afirmações perversas e mentirosas. O amor deveria ser para todos nós, precisa ser. 

    A tranquilidade de sentir-se representada constantemente para esse mesmo público hétero-cis-branco também precisa ser alterada. Tanto para nós, enquanto pessoas LGBTQIAPN+; pessoas pretas; pessoas com deficiência nos sentirmos devidamente presentes, como estamos no mundo, e também para que essas outras pessoas possam enxergar para além de suas próprias experiências. 

    A Vogue elaborou uma lista dos “22 melhores filmes clássicos de Natal” em 2022 e, sem nenhuma surpresa, são os mesmos padrões que observamos hoje, é a continuidade dessa ideia de romances natalinos. De volta aos anos 40, mesmo com filmes em preto e branco, a indústria nunca mentiu – e nem escondeu – quais histórias de amor deveriam ser representadas em detrimento de outras. 

    Hoje, em 2024, existem algumas poucas obras que demonstram uma certa reflexão sobre a presença de mais pessoas no audiovisual de festas e fim de ano. Mas é preciso mais. Essas obras, mesmo que de forma breve, têm o poder de alterar as maneiras de existência de alguns grupos minoritários da sociedade, para legitimar suas vivências, seus amores e suas formas de estar no mundo. 

    Com isso, fica o incômodo: quais amores são dignos de uma obra natalina? Esperamos que cada vez mais amores possam ocupar esses espaços e que sejam representados de maneira digna e com toda a beleza que essa época do ano tem a capacidade de ser. Feliz Natal para todes! ❤ 

    Por Lia Junqueira

  • A dor de ser a única – qual o lugar de mulheres negras nos ambientes universitários? 

    “E eu estou rodeada por
    Espaços brancos,
    Onde dificilmente eu posso adentrar e permanecer.
    Então, por que eu escrevo?
    Escrevo, quase como na obrigação
    Para encontrar a mim mesma
    Enquanto eu escrevo”

    Enquanto eu escrevo, Grada Kilomba

    Tive contato com esse texto da Grada Kilomba em uma aula. Estava passando por situações difíceis e ele ficou em minha cabeça por um tempo, me fazendo pensar em como é difícil ocupar espaços brancos, especialmente o da Universidade.

    Quando criança eu queria ser diferente, queria que o meu cabelo fosse mais liso e a minha pele mais clara. Hoje percebo que tudo isso nasceu dos desenhos, brinquedos e produtos que eu consumia.

    Na adolescência eu comecei a aprender a gostar mais de mim mesma, do jeito que sou e a me aproximar de mais pessoas negras também. Por questões de pertencimento, acolhimento, coletividade e até mesmo conforto.

    Ao passar na Universidade, vim parar em um ambiente completamente diferente do que eu havia criado e que vivia na minha cidade. Desde criança meus pais incentivaram a mim e ao meu irmão a estudar, então não cursar faculdade nem passava pela minha cabeça. 

    Quando passei na UFOP minha primeira opção nunca foi morar em república, mas não teve jeito, pelos custos e pela localidade eu fui para uma. Pensei que seria legal, pois as “piores” características que algumas repúblicas tradicionais têm – e eu não queria – eram “batalha” e “trote”. Outro ponto é que os slogans das repúblicas pregam que são lugares acolhedores, para criar laços e fazer amizades.

    A partir daí, acho que me perdi. Talvez pelo deslumbre de um novo ciclo, por conhecer pessoas novas e acreditar pertencer a algo novo (spoiler: eu não era pertencente). Pensei ter encontrado um lar para passar os quatro anos de graduação, e esqueci que eu não sou uma pessoa que geralmente pertence a esses locais. Apesar do sistema de cotas, a Universidade continua sendo um espaço branco, do mesmo jeito que é masculino e patriarcal. Ainda que alguns cursos tenham mais mulheres cursando. Não é só sobre a maioria, mas sobre se sentir confortável e pertencente naquele local.

    Mesmo com a maioria das pessoas na Universidade sendo branca, aqui em Mariana há diversidade. De qualquer forma, desde que cheguei deixei avisado que não queria permanecer morando em uma casa na qual eu fosse a única mulher negra. Disse isso mais de uma vez,  várias vezes e não fui escutada. Tudo isso acabou me silenciando internamente também, que deixei de dar minha opinião em outras decisões. Parecia que eu não tinha voz. Após cinco períodos, nenhuma caloura negra “combinava com a casa” e alguma caloura branca, dentro do padrão de beleza, “era mais legal ou divertida”. Eu só enxerguei a dimensão de tudo quando uma dessas calouras começou a ter atitudes racistas e me tratava diferente das outras. Às vezes me ignorava e quem era cobrada de ir atrás de explicações era eu. 

    Uma coisa que me dói ainda é o fato de eu ter esperado chegar a esse nível. Eu sei que a culpa não é minha, mas acho que esse sentimento é inevitável. Pois eu tenho consciência racial e um olhar, mas não consegui aplicar à minha própria vida. Eu sempre faço o exercício do pescoço em todos lugares onde vou e dentro da minha própria “casa” eu não encontrava nenhuma pessoa negra. Me agarrei à ideia de que um dia poderia ter e em algum momento minha voz poderia ser ouvida. Mas nunca foi. E por vezes, as pessoas que deviam ser minhas amigas me fizeram pensar se  “esse é um problema real?”

    “Branco sabe quem é negro. Nós, negros, é que nos confundimos (e nos dispersamos!)”. Essa frase é o título de um artigo da escritora Cidinha da Silva. E é isso: por um momento, morando em uma cidade universitária e em república, eu posso ter esquecido que eu era diferente, mas a branquitude nunca esquece, mesmo que inconscientemente elas fazem as distinções.

    No livro E eu não sou uma mulher?, bell hooks discute e questiona sobre o lugar das mulheres negras na sociedade e nas discussões feministas e de raça. “Quando falam de pessoas negras, o foco tende a ser homens negros; e quando falam sobre mulheres, o foco tende a ser mulheres brancas”.  Nesses últimos meses eu me senti sem lugar. Morando com pessoas que se dizem progressistas, e dizem se importar comigo, mas em nenhum momento eu me senti acolhida ou compreendida. Na verdade, eu realmente não me senti uma mulher ou um ser humano, digno de empatia.

    Ando pensando bastante em uma famosa frase da escritora Angela Davis que sempre é usada: “Não basta não ser racista, é necessário ser anti racista”. E hoje, mais do que nunca, eu tenho certeza disso. É fácil dizer que não concorda com racismo, postar em redes sociais e até mesmo fazer algum trabalho acadêmico, mas diante da atitude de uma pessoa próxima não tomar nenhuma medida. 

    Por causa de alguns comentários, disfarçados de elogios e brincadeiras, eu me senti uma extraterrestre, uma mulher exótica. Por ter o cabelo cacheado e volumoso. Nunca pensei que isso aconteceria agora, depois de já ter passado por uma transição e por vários processos envolvendo estética e autoestima. A sensação é de que o racismo é um acúmulo de feridas que nunca se curam e todas as vezes que algo acontecer ela vai abrir mais um pouco e eu vou me sentir como aquela criança que não se via na TV. E como são violações não tão explícitas, a dimensão do quanto ela afeta a saúde mental e autoestima é menor.

    Excluir o senso de comunidade e pertencimento é um ato de violência. Não apoiar ou acolher uma pessoa após ela te dizer que foi vítima de racismo também é uma violência. 

    E por isso eu escrevo. É  um desabafo. Uma forma de procurar fazer algo com tudo que sinto. Pois esse tipo de violência machuca muito o emocional e o psicológico e eu nem sei como me curar ainda. Não é qualquer pessoa que entende a dimensão de algumas palavras e atitudes na vida de uma mulher negra, e as pessoas que moraram comigo não entenderam. Também escrevo por não conseguir ser forte, como geralmente dizem que nós temos que ser. Porque eu sofri racismo e as pessoas que me machucaram, as que se calaram diante disso, continuam vivendo a vida com leveza. E eu continuo com esse peso sobre mim, procurando me perdoar, pois eu sei que viver em um corpo que está mais sujeito à violências físicas ou psicológicas não é culpa minha e isso não me define. 

    Em minha mente eu me pergunto se existe alguma forma de passar por isso sem pensar que algo deveria acontecer. Não acho que seja um sentimento de vingança. Mas de justiça ou reparação, apesar de que, agora, nem sei mais o que é justiça. Pois nada tiraria a dor de mim.

  • Falta calcinha na ilha de Marajó?

    Foto: Roque de Sá/Agência Senado

    No dia 21 de abril, a Folha de São Paulo deu continuidade a um dos debates mais intragáveis do Brasil, a exploração sexual de crianças na Ilha de Marajó (PA). Durante dez dias, a reportagem acompanhou a realidade do Marajó, nas áreas urbanas de Breves e Melgaço, assim como em comunidades e casas existentes no curso de quatro rios: Aramã, Mapuá, Mujirum e Tajapuru. Com o intuito de apurar a “relação entre violações de direitos e ausência do Estado em comunidades mais isoladas da Amazônia Atlântica”, os repórteres da Folha também presenciaram a jornada de um dia de assistência, dentro do espaço do Conselho Tutelar e do Creas (Centro de Referência Especializado de Assistência Social) de Breves, envolvendo vítimas de abusos sexuais em comunidades distantes da cidade.

    Como tudo começou?

    A história da ilha de Marajó havia ganhado visibilidade, em 2019, com a ex-ministra e atual senadora da Mulher e dos Direitos Humanos no governo Jair Bolsonaro, Damares Alves, (Republicanos). 

    No dia 25/01/2020, a ministra desembarca em Belém para realizar uma ação do projeto “Abrace o Marajó”. É importante notar que, o projeto ficou ativo durante um ano e um mês, mesmo tendo diversas denúncias e acusações, assim como reclamações de entidades locais que trabalham em benefício da população afetada, tanto pelos problemas já existentes, quanto pela divulgação indelicada e perigosa que circulou o anúncio da problemática do local. Foi adicionado à Legislação Federal, pelo Senado Federal, no Decreto de número 11.113, de 29 de Junho de 2022, (Declaração de Alteração Permanente), e só foi revogado no Decreto de número 11.682, de 04 de Setembro de 2023, (Declaração de Revogação Permanente da Norma no Todo).

    Em junho de 2020, Damares foi novamente ao Marajó para entregar cestas básicas nos municípios de Afuá e Chaves, se aproveitando do alarmismo, que levou a um pânico moral ser instaurado. Após isso, realizou outra ação, que fazia parte da operação “Pão da Vida”, conjuntamente com a Operação Covid-19, momento em que foram distribuídas 16 mil cestas básicas para ribeirinhos e pessoas em situação de vulnerabilidade social.

    Como comprovado pela Carta Capital, existem apurações que indicaram valores inflados dos reais investimentos que seriam disponibilizados ao projeto. Ela estava sendo favorecida com as denúncias. Também houve informações sobre a existência de uma rede que conectava e beneficiava aliados políticos do partido Republicanos, agendas partidárias bem definidas pela direita e pela bancada evangélica, e até mesmo o agronegócio. Assim como foi apontado pelo Observatório de Marajó, a ineficácia do programa, que se “resumia à entrega de cestas básicas”, e que houveram denúncias da “exclusão da sociedade civil das discussões” ao Ministério Público Federal, o que demarca um esvaziamento do debate, e um recorte perigoso e enviesado de opiniões.

    O G1 teve acesso a um documento, obtido via Lei de Acesso à Informação, registrando que, em uma de suas visitas, no dia 2 de julho de 2021, a ex-ministra reuniu-se com ruralistas, fazendeiros e lideranças econômicas e religiosas em Soure (PA). A agenda era para apresentação do programa Abrace o Marajó, instituído por decreto em março de 2020. Um mês após a visita, 40 entidades da sociedade civil assinaram uma carta afirmando que a realização do programa do MMFDH “não tinha participação popular”.

    Em 29 de setembro de 2021, a ministra Damares Alves recebeu da Assembleia Legislativa do Pará (Alepa) o título de Cidadã do Pará, após votação secreta no dia anterior. A aprovação foi polêmica. Inclusive, em 18 de Outubro de 2022, Bordalo (PT), “pede a anulação do título de “Cidadã do Pará” de Damares Alves”, suas alegações sendo em  relação ao uso indevido de dados da CPI, as falsas declarações de crimes que “nunca foram antes denunciados, conhecidos ou até mesmo comprovados pelos órgãos públicos de segurança do Estado. Muito menos por Organizações não Governamentais (ONGS) e principalmente pelas duas Comissões Parlamentares de Inquéritos (CPI), instaladas pela Casa Legislativa, como a CPI da pedofilia, CPI do trafico humano, […]”. Por fim, ele demarca que “Damares não citou nenhuma medida do Governo Federal para combater as referidas acusações, muito menos explicou porque ela, então ministra, não fez as devidas denúncias públicas à época”.

    O projeto disponibilizaria…

    “A população não é ouvida, mas agricultores e religiosos da região têm espaço livre para dar seus pitacos e meter o bedelho…. “ – Carta Capital

    O Observatório concluiu que “enquanto ministra de Estado, Damares Alves não destinou os recursos milionários que por diversas vezes prometeu para a região, para fortalecer comunidades escolares. Ao invés disso, atentou contra a honra da população diversas vezes, espalhando mentiras, e abriu tais políticas públicas para grupos privados de São Paulo que defendem a privatização da educação pública”. Isso tudo é sintomático, pois o verdadeiro alarde gira em torno de um programa que foi descontinuado pelo atual governo, por apresentar diversas irregularidades, desde sua proposta até sua execução. 

    Damares ironizou e generalizou a questão local, ao sinalizar que o problema de abuso das crianças advém da “falta de calcinhas”. A senadora, criminosamente, associou a comunidade marajoara com a exploração sexual infantil, e o fez tendo consciência de que esta região possui o menor índice de desenvolvimento humano municipal do Brasil. O problema é real, ele existe, e está em pauta. Está sendo, e deverá continuar sendo denunciado, mas pelos meios devidos, e não explicitando opiniões e falsos relatos que não foram comprovados. 

    Reprodução da folha: Jovem com seu filho de 9 meses, em comunidade ribeirinha; ela foi vítima de estupro pelo pai, segundo a denúncia feita – Lalo de Almeida/Folhapress

    Enquanto se discute as fake news divulgadas por Damares Alves, crianças de comunidades ribeirinhas vivenciam, cotidianamente, violências de cunho sexual, físico e psicológico, muitas vezes cometidas por parentes e pessoas próximas. A reportagem da Folha acompanhou o caso de uma menina que acaba de completar 18 anos, e que ”se afeiçoa aos poucos ao filho de colo, depois de meses de resistência […]. No ano passado, foi estuprada pelo próprio pai e ficou grávida, conforme a denúncia feita. O agressor fugiu.”

    Apesar da falta de aplicação e consolidação de políticas públicas que surtam efeitos  positivos nas comunidades, o que acaba afetando e ocasionando deficiências na coleta de dados oficiais atuais sobre a exploração contra crianças e adolescentes especificamente no Marajó, o estado do Pará registra todos os dias, em média, cinco casos de abuso e exploração sexual de menores de idade, um número que pode ser considerado acima da média nacional, conforme números divulgados pelo Ministério Público Federal.

     Lendo a continuação da apuração da Folha, entende-se que o Conselho Tutelar de Breves, a Delegacia de Atendimento à Criança e ao Adolescente e a rede de assistência psicossocial não têm lanchas próprias para acesso às comunidades. O trabalho de campo dos conselheiros só ocorre quando há um empréstimo da lancha pela Polícia Militar ou quando a Prefeitura de Breves consegue a locação de um veículo.

    Não há ambulatório para vítimas de violência sexual, a delegacia não funciona aos fins de semana, inexiste um serviço de acolhimento e hospedagem para adultos que acompanham crianças e adolescentes que passaram por um abuso sexual. Algumas cidades do arquipélago não têm abrigos para crianças, que precisam ser levadas a outros municípios.

    Os crimes persistem, descaracterizam e agridem mais de 100 mil crianças, sendo que 20% têm idade de até 5 anos. Em 2010, a Justiça confirmou a condenação do ex-deputado estadual paraense Luiz Sefer pelo crime de estupro de uma menor de 9 anos. Já em Outubro de 2011, a sentença foi revogada, absolvendo Sefer por falta de “provas suficientes para considerar o [então] parlamentar culpado”. Em março de 2018,  a condenação foi restabelecida, “com a vigência da ordem de prisão contra o ex-parlamentar”. Entretanto, em 2019, o processo foi anulado, porque? “Os magistrados acataram a tese de que o caso não poderia ter sido aberto por determinação da justiça comum, já que na época da denúncia, o réu ocupava cargo público e tinha, por isso, foro privilegiado.”

    A justiça continua falhando com a comunidade paraense. A impunidade é agressiva, e cria marcas indeléveis para quem vivencia a arbitrariedade da balança de Iustitia.

    Por fim, a Vara Penal de Crimes Contra Crianças e Adolescentes de Belém anuncia uma pena definitiva, segundo o jornal Alma Preta “Em meio ao imbróglio judicial, em janeiro de 2022, […], determinando 20 anos de prisão, além de multa de R$ 120 mil em favor da vítima do abuso, mas a pena nunca foi cumprida.” A condenação ocorreu 16 anos depois do crime ter sido cometido. E, em 27 de Junho de 2024, descobrimos que “O Tribunal de Justiça do Estado do Pará (TJPA) suspendeu o processo”, por decisão do desembargador Roberto Gonçalves de Moura, que é vice-presidente do Tribunal.

    “O Estado não chega para quem vive nos rios, o que alimenta ciclos de violência sexual. A assistência que existe está voltada às cidades.” – Folha de São Paulo

    Crime e castigo

    Enquanto essas crianças vivenciam e sobrevivem a crimes reais, Damares Alves só foi condenada formalmente em setembro de 2023, pelo Ministério Público Federal, que “ajuizou uma ação civil pública, […], o motivo foram declarações falsas dadas pela ex-ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos no dia 8 de outubro de 2022, durante um culto evangélico em Goiânia”. Ela foi “condenada a pagar, junto com a União, R$ 5 milhões em danos morais à comunidade local a título de danos morais e sociais coletivos. O caso está em tramitação na Justiça Federal no Pará”. Já no âmbito do Ministério Público do Estado do Pará (MP-PA), o órgão afirmou que não há, entre as denúncias recebidas e investigadas por eles, “qualquer notícia de crimes relacionados a tráfico de órgãos”. 

    De acordo com o MPF, “a propagação deliberada de inverdades pela ex-ministra gerou danos sociais e morais coletivos à população do arquipélago”. Também segundo os procuradores responsáveis pelo caso, “esse tipo de informação falsa confunde a sociedade e prejudica a execução de políticas públicas sérias e comprometidas com a melhoria das condições sociais da população do Marajó, causando danos sociais e extrapatrimoniais aos moradores da região”. 

    Em conclusão, a situação de abuso e exploração sexual infantil na Ilha de Marajó expõe não apenas a fragilidade das políticas públicas na região, mas também a irresponsabilidade de ações e declarações em nível federal. A exploração de crianças e adolescentes persiste criminosamente, alimentada pela escassez de recursos e a falta de apoio efetivo da assistência social e das autoridades locais, mesmo que muitas ONG’s auxiliem a população local, ainda existe uma carência expressiva. Embora o foco do debate tenha sido desviado por falácias advindas da necessidade de criar um alarmismo político, a realidade das vítimas e a necessidade urgente de medidas concretas e contínuas não podem ser ignoradas, distorcidas e negociadas. O Estado falha em sua presença nas comunidades ribeirinhas, enquanto as políticas públicas, muitas vezes manipuladas por interesses alheios à realidade local, não conseguem oferecer soluções eficazes para esse flagelo. O direio á dignidade deveria ser inegociável. O caso da ex-ministra Damares Alves, com suas declarações infundadas, apenas intensifica o ciclo de desinformação e de negligência, prejudicando a implementação de iniciativas que realmente possam transformar a realidade dos marajoaras. A situação exige, portanto, uma ação coordenada e efetiva, que vá além das promessas vazias e dos discursos irresponsáveis, buscando garantir os direitos das crianças e adolescentes que ainda sofrem com a exploração sexual, e estão expostos, continuamente, a esse ciclo com outras formas de violência.

    Por Sophia Helena Ribeiro.

  • Qual é o lugar do abuso sexual masculino? Caso Lyle e Erik Menendez

    Quando um crime choca o país em 1989 e as investigações começam, os principais suspeitos são os próprios filhos do casal assassinado. Mas o que ninguém sabia sobre a família rica e importante de Los Angeles é que os meninos eram vítimas de abusos durante a vida inteira. Estamos falando do caso da família Menendez, que foi destaque nos anos 90 e voltou à tona agora em 2024 com o lançamento da série Monstros – Irmãos Menendez: Assassinos dos Pais da Netflix. 

    Criada por Ryan Murphy e Ian Brennan, a trama conta o percurso desde a morte de Jose (Javier Bardem) e Kitty Menendez (Chloë Sevigny), até o julgamento de seus filhos, Lyle (Nicholas Alexander Chavez) e Erik Menendez (Cooper Koch). Explora aspectos reais do caso, com base nas notícias e materiais jornalísticos e televisivos da época e misturando com ficção, o que dá uma certa leveza para a narrativa de true crime (crime real, na tradução).

    Créditos: Os filhos e o pai em cena da série

    Logo no primeiro episódio é possível enxergar a relação conflituosa que existia na família, com violência verbal e comportamentos explosivos dos meninos, Lyle e Erik — que, na época, tinham 21 e 18 anos respectivamente. Porém, é preciso fazer a ressalva de que a forma como eles são representados não é completamente fidedigna à realidade, claro. Até porque, após o lançamento da série, alguns parentes vieram a público dizer que “Esse não é o jeito do Lyle. Na verdade, ele nunca nem levantou a voz dessa maneira”, alega a tia dos irmãos em um vídeo do TikTok.  

    Então, antes de qualquer coisa, é fundamental fazer a reflexão de que muitos dos acontecimentos, ou a forma como eles são reproduzidos, podem estar bem distante da forma com que eram de fato. Com fins ficcionais e televisivos, obviamente fica mais atrativo polarizar a situação — que já dividiu a população norte-americana no primeiro julgamento em 1993 —, colocando um irmão mais violento, briguento e o outro mais sensível, trazendo a dualidade entre o bem e o mal. No entanto, quando trata-se de crimes reais e ficção, os fatos têm muito mais profundidade do que os 9 episódios da série; existem vidas reais e pessoas que estão, até hoje, lutando por suas versões do crime. 

    No artigo “A análise psicológica no True Crime: um estudo dos podcasts Modus Operandi e Assassinos em Série”, de Carlos Jáuregui e Luana Viana, é citado o interesse e consumo crescente por crimes reais no âmbito das mídias (seja podcast, como analisado no trabalho dos dois, séries ou filmes), e mais, como o público deseja entender essa “mente criminosa”. Os autores comentam sobre a criação de uma relação de atração/humanização e distanciamento/diferenciação, que estaria “ligada ao contexto sociocultural da sociedade   norte-americana, caracterizado por uma paranoia em relação a crimes violentos. Ao saber mais sobre esses personagens, o consumidor de True Crime experimentaria uma sensação de segurança, como se ter acesso aos meandros dessas mentes significasse também mais recursos para sobreviver aos perigos do mundo cão”. 

    Com isso, entendemos que a relação criada entre o produto e o público tem o poder de elaborar, no imaginário das pessoas, como são esses serial killers (assassinos em série), de aproximar e dividir opiniões sobre os casos — há também quem tenha medo de que “inspirem” novos casos. No entanto, há uma diferença quando falamos de true crime representado por jornalistas e comunicadores e, por outro lado, aquele representado no audiovisual de forma ficcional. O que deve-se prestar atenção é: as representações fantasiosas desses personagens podem deturpar nossa visão do real e do que é criado para fins apenas de entretenimento. 

    É evidente que Lyle e Erik da série têm muito do real, do que vivenciaram na época, de como eram fisicamente e dos traumas, porém, o que fica conflituoso é a construção violenta dos dois com as pessoas e uma possível relação “romântica” – incestuosa – entre os irmãos. Segundo relatos da família, os dois sempre foram tranquilos e carinhosos, sem qualquer demonstração de raiva extrema ou violência com outras pessoas ao redor. Sobre a possível tensão sexual, também é falsa e foi, inclusive, criada apenas para fins ficcionais, que dá um tom apelativo e sensacionalista para o programa. Em uma cena após o assassinato dos pais, os irmãos dão uma festa regada a álcool e drogas e dão um selinho, representando esse desejo entre os dois.

    Além disso, existe a suposição de que Erik seria um homem gay — e é claro que não teria qualquer problema com sua orientação sexual —, porém, ele não é e isso foi utilizado pela promotoria contra ele, alegando que ele poderia “gostar” dos abusos e por isso até começou a gostar de homens. O que configura uma homofobia profunda, que iguala o amor a outros homens ao desejo por práticas sexuais perversas. 

    Não são somente esses erros que a série retrata e, inclusive, a forma com que as imagens do momento da morte de Jose e Kitty são repetidas algumas boas vezes, trazendo esse trauma – e, claro, registros de muita violência –, só que de forma equivocada com a realidade. Os tiros, na série, são disparados de frente, atingindo rosto e desfigurando o casal, e, no caso real, foram de costas. Essas e outras questões me incomodam pessoalmente, fazendo os questionamentos: qual é o limite na representação de crimes no audiovisual e/ou de forma ficcional? É possível “adaptar” crimes reais sem que isso cause desconforto e traga de volta traumas ao presente? 

    Os questionamentos ficam em aberto, talvez não haja uma resposta certa ou única, mas servem para estimular nossas reflexões sobre o tema. 

    Os abusos sexuais subestimados e relativizados pela promotoria 

    Após a prisão dos irmãos em 1990, depois de Erik confessar para seu psicólogo ter cometido o crime, eles contrataram advogadas de defesa, que começam os atendimentos com os dois. Leslie Abramson (Ari Graynor), nome conhecido em outros casos da mesma época em Los Angeles, e Jill Lansing (Jess Weixler) foram escolhidas pela família para representar o caso. 

    Logo nas primeiras conversas que tiveram, Leslie questiona se houve algum acontecimento que pudesse mudar o tom do crime, como algum abuso ou violência dos pais com Lyle e Erik. No entanto, nesse momento os meninos temiam contar sobre o que viviam e hesitavam em falar qualquer coisa. Com o passar do tempo eles ganharam mais confiança nas duas profissionais e resolveram contar o que acontecia dentro da residência Menendez desde que o irmão mais velho tinha entre 6 e 7 anos de idade. 

    O momento em que eles conseguem falar abertamente sobre os traumas individualmente e descrevem os estupros e abusos que sofreram, inclusive, com um episódio emocionante feito em um único plano, nos envolve ainda mais na trama. Um relato de abuso sexual infantil é impactante por si só, ainda mais quando é com um membro da família e, com isso, a defesa decide que este será o principal argumento utilizado por elas para alegar “legítima defesa”. 

    Chega o momento do julgamento em 1993 e, como o caso ficou muito conhecido, havia cobertura midiática ostensiva sobre os irmãos, logo, criou-se uma atmosfera de programa televisivo com acompanhamento massivo. Sendo assim, as advogadas prepararam os dois com roupas em tons pastéis e até uso de óculos – mesmo sem que houvesse necessidade oftalmológica –, tudo para convencer a opinião pública de que eles não eram aqueles monstros terríveis. 

    Lyle inicia os relatos e, seguido por Erik, eles expõem e denunciam tudo que viveram durante anos, entre lágrimas e com a presença de todas as violências muito latentes. Com depoimentos de outros familiares, que acreditavam e tinham provas a favor dos irmãos, como a carta que Andy, primo, recebeu em 1988. 

    Carta original escrita por Erik Menendez enviada ao seu primo Andy em 1988

    Nela, Erik relata as brigas da família, que tornavam-se insustentáveis ao longo do tempo e que os abusos “ainda estão acontecendo todo dia, mas estão ficando cada vez piores”, em referência ao que Jose fazia com ele e como o jovem sentia-se em meio a tudo. Este documento, porém, não alterou a percepção da acusação, que insistia na premeditação fria e violenta dos assassinatos com intuito de receber a herança estimada em 14 milhões de dólares.

    O júri ficou dividido e o primeiro julgamento foi anulado, deixando a sensação de que “não foi suficiente tudo que relatamos aqui?!” nos irmãos. Porém, é preciso contextualizar um pouco de Los Angeles dos anos 90 e relembrar alguns crimes julgados que “não deram em nada”. Como o feminicídio de Dominique Dunne, em que o assassino, ex-namorado da vítima, não foi condenado, e o famigerado Caso O.J. Simpson, que assassinou sua ex-mulher, Nicole Brown Simpson, e seu amigo Ronald Goldman e também foi absolvido. 

    Dominique Dunne em Poltergeist

    Acredito que esses crimes numa mesma época contribuíram para que o Caso dos Irmãos Menendez “fosse diferente” ou que era preciso ter alguma condenação para que o tribunal não ficasse mal visto ante a opinião pública. Sendo assim, eles foram para o segundo julgamento e, dessa vez, sem câmeras e sem considerar os depoimentos que reiteram os abusos sofridos por Lyle e Erik. 

    Era somente o depoimento de cada um dos dois para defesa e suas advogadas – em um julgamento bastante misógino, diga-se de passagem. As condições não eram tão boas, mas, ainda assim, os relatos foram muito comoventes. Porém, nessa altura o júri já estava irredutível e os irmãos foram condenados à prisão perpétua sem direito a liberdade condicional em 1996. 

    Com esse desfecho e as alegações da promotoria de que “não existe abuso sexual masculino” ou “por que você não se defendeu”, fico pensando sobre este campo que estamos deixando subalternizado que é o abuso em meninos. Como lidar e retratar esses casos?

    Na matéria “Estereótipos masculinos dificultam denúncia de abusos sexuais entre homens” do Jornal da USP, o psicólogo Lucas Mascarim da Silva afirma que os estereótipos de masculinidade dificultam nosso acesso aos casos e nos distanciam deles: “Existe o ideal da masculinidade hegemônica, que é o ideal tradicional do homem forte, que não passa por situações de degradação ou que, quando passa por elas, não abaixa a cabeça e lida sozinho com elas. Esses ideais não dão espaço para que haja o compartilhamento de vivências de sofrimento, adoecimento e fragilidade”. 

    E isso pode ser observado não só na série televisiva de Ryan Murphy, mas também no julgamento dos irmãos, que são descredibilizados e quase que acusados de volta: “Como você, um homem, deixou isso acontecer? Então não deve ser ‘homem de verdade’”. Porém, esses fatores são bem mais profundos do que um só caso que nos choca na série, são milhares de homens e meninos abusados, que não conseguem romper com o ciclo de violência, que foram criados para ser “cabra macho” e carregam suas dores. 

    O que devemos refletir, enquanto comunicadoras e comunicadores, é sobre a representação de casos assim e a produção de notícias, conteúdos, fotografias ou qualquer outro material. É essencial repensar as formas de escrita, as perguntas que direcionamos para essas pessoas e como vamos contar essa história. O abuso sexual masculino acontece e como lidamos com isso? Quais impressões criamos, na comunicação, sobre esse tipo de crime? 

    É preciso pautar, problematizar e, ainda mais, contextualizar o sistema patriarcal que condena meninos ao silêncio que os tortura e gera consequências por toda sua vida.  

    Outros textos sobre abuso masculino que são interessantes: 

    Homen não chora: o abuso sexual contra meninos 

    A compreensão crítica do abuso sexual doméstico contra meninos.  

    Alegações de estupro ligam irmãos Menendez a Menudo: “Pode haver outras vítimas“ | CNN Brasil

    Serviço:

    Título Original: Monsters: The Lyle and Erik Menendez Story
    Onde Assistir: Netflix
    Classificação Indicativa: 18 anos (A18)
    Classificação da autora: 18 anos (A18)
    Justificativa: A série retrata violência explícita e relatos de abuso sexual. 
    Gênero: Crime real; Drama.   

    Por Lia Junqueira