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  • Miradas da infância

    Cartaz apresenta a frase Miradas da infância em letra de criança. Embaixo, personagens de desenho animado em negativo, com as logos do projeto na parte inferior.
    Cartaz da mostra. Arte: Bento Vital.
    Cartaz em vermelho, com bordas em amarelo e azul, contendo a programação de filmes da mostra. Na parte inferior, personagens infantis em negativo.
    Programação completa.

    Olhar para as infâncias e pensar como elas mesmas imaginam o mundo. Essa é a proposta de Miradas da infância, mostra cinematográfica do projeto Ariadnes, que vai exibir longas-metragens protagonizados por meninos, meninas e menines e que apresentam perspectivas infantis sobre o mundo, ainda que esses filmes sejam dirigidos por adultas e adultos. Essas miradas se cruzam com questões sobre gênero, raça, sexualidade, etnia, região: quem são as crianças que o cinema nos mostra? Quais são e como são as infâncias pensadas ou lembradas pelos olhares adultos?

    Programação

    08/5: A princesinha
    A little princess, Alfonso Cuarón, 1995
    Adaptado do romance de Frances H. Burnett, o filme narra a história de uma órfã exposta a abusos em um internato de Nova York no início do século XX, após a morte de seu pai na Índia.

    15/5: Onde fica a casa do meu amigo
    Khane-ye doust kodjast? , Abbas Kiarostami, 1987
    Mistura entre ficção e documentário, o filme conta a história de Ahmed, que pega por engano o caderno de seu amigo e precisa devolvê-lo para evitar que o menino seja punido na escola, caso não leve o dever de casa.

    22/5: Meu pé de laranja lima
    Meu Pé de Laranja Lima, Marcos Bernstein, 2012
    Diante de uma realidade dura e da falta de afeto, o pequeno Zezé usa a imaginação para transformar um pé de laranja lima em seu refúgio e confidente. Entre travessuras e descobertas, ele encontra na amizade improvável com o “Portuga” o verdadeiro significado de ser amado. Baseado no clássico de José Mauro de Vasconcellos, o filme é um retrato poético e visceral sobre a infância e o momento em que a fantasia de ser criança dá lugar ao amadurecimento. Uma experiência obrigatória e emocionante que abraça qualquer um que assiste.

    29/5: O túmulo dos vagalumes
    Hotaru no haka, Isao Takahata (Studio Ghibli), 1988
    A animação percorre os desafios vividos por Seita, um adolescente de 14 anos e sua irmã Setsuko, de quatro anos, que depois de perderem seus pais precisam encontrar meios de sobreviver no Japão pós Segunda Guerra Mundial.

    12/6: Conta comigo
    Stand by me, Rob Reiner, 1986
    “Conta Comigo” é uma adaptação da novela “O Corpo” de Stephen King. O filme conta a história de quatro garotos que, ao descobrirem o desaparecimento de um menino em sua cidade natal, a fictícia Castle Rock, decidem ir à procura de seu paradeiro. Durante a busca, os amigos acabam vivendo uma aventura repleta de desafios e reflexões.”

    19/6: Close
    Close, Lukas Dhont, 2022
    Close é um drama belga que retrata a história de dois amigos inseparáveis, Léo e Rémi, de 13 anos, que veem sua relação mudar devido à pressão social. Sensível e impactante, o longa-metragem acompanha as consequências desse rompimento, abordando, desde cedo, temas como masculinidade tóxica, amizade e perda.

    26/6: Marte Um
    Marte Um, Gabriel Martins, 2022
    A partir das tensões políticas que se estabelecem no país após a eleição de um presidente de extrema-direita, Marte Um (2022) traz a história dos Martins, uma família negra de classe média-baixa que vive na periferia de Contagem, região metropolitana de Belo Horizonte. Sob um olhar sensível, a obra tece, a partir do acompanhamento de um cotidiano simples, múltiplas histórias que evidenciam a esperança frente a uma desigualdade social que sufoca sonhos.

    3/7: Lindinhas
    Mignonnes, Maïmouna Doucouré, 2020
    No longa acompanhamos Amy, uma menina de 11 anos de origem senegalesa que vive em Paris. Dividida entre dois mundos contrastantes — os valores tradicionais de sua família e a cultura influenciada pela internet —, ela se aproxima de um grupo de dança local, passando a explorar questões relacionadas à sua identidade, à descoberta da sexualidade e à hipersexualização infantil frequentemente presente nas redes sociais.

    • As sessões são gratuitas e acontecem sempre às 9h, na sala 207 do ICSA;
    • Todas as sessões serão seguidas de uma conversa;
    • Haverá emissão de certificados para quem comparecer a 75% das sessões.

  • Chegar à universidade: aprender e praticar relações de gênero saudáveis

    Equipe do Ariadnes durante a atividade. Foto: Carmen Maria Gomes

    Para abrir o período 24.2 e a semana de integração do Programa de Educação Tutorial Conexão de Saberes (PET-ICSA), o projeto de incentivo à diversidade e convivência e de extensão Ariadnes realizou uma atividade que trouxe debates sobre o momento de entrada na universidade, como identificar violências e praticar boas relações de gênero, sexualidade e interseccionalidades. 

    Pensando em uma abordagem pedagógica e interativa, elaboramos um “Antibingo” com alguns exemplos de situações de violência no ambiente universitário e educacional, lembrando de inserir, inclusive, o extra-aula, como as repúblicas estudantis, uma vez que elas só existem por conta da universidade. Debater temas como estes torna-se fundamental para informar e abrir o diálogo com quem está chegando à universidade, eventualmente em uma nova cidade; em muitos casos, na primeira experiência fora de casa. 

    E, claro, gênero e sexualidade atravessam essa e muitas outras situações de nossas vidas, então precisamos estar atentas sobre os limites dessas relações dentro do ambiente universitário. Além disso, serve para repensar ações que achávamos corriqueiras, como comentários preconceituosos, antes de pensar com criticidade. O momento do Antibingo não é, como nos tradicionais, com intuito de vitória, mas para visualizar com exemplos práticos o que devemos prestar atenção e não devemos reproduzir. São 30 situações no total, distribuídas em uma cartela com 25 casas. Quem completa todas as frases ganha acolhimento por já ter vivenciado ou conhecer pessoas próximas que viveram situações de violências de gênero e um bombonzinho. 

    As situações são variadas e vão desde “Duvidar da capacidade intelectual de uma pessoa por conta de sua identidade” até “Ser conivente com assédio de colegas dentro do ambiente republicano e universitário”, passando por um tanto de outros exemplos. O sorteio foi realizado com uma mediação, explicando um pouco sobre as violências. Ao final, comentamos um pouco sobre as relações de poder e consentimento. 

    Todos esses momentos tiveram participação das pessoas que estavam presentes, com exemplos de violências – com elas ou com alguém que conheciam –, o que deixou o ambiente acolhedor e frutífero para mais debates como este. Por último, apresentamos outros projetos da universidade que dão apoio a grupos sociais minorizados e têm ferramentas de denúncia contra assédio, como a Ouvidoria Feminina; Andorinhas; Projeto Âmbar; e Papear, Ouvir e Conscientizar (POC). 

    Nós, do Ariadnes, esperamos que todas as pessoas que estão iniciando suas trajetórias acadêmicas sintam-se acolhidas e tenham experiências ótimas. No entanto, se alguma situação de violência acontecer, estamos dispostas a ouvir, acolher e ajudar com o encaminhamento de denúncias, se for o desejo da pessoa. Boa chegada e sucesso! 

    Confira aqui alguns registros da nossa atividade:

    Todas as imagens são da Carmen Maria Gomes, do PET. 

    Por Lia Junqueira

  • Escrever apesar de…

    Virginia Woolf por Nikoleta Sekulovic

    Virginia Woolf e sua irmã Vanessa Belll, mesmo tendo sido ensinadas por tutores, não tiveram acesso à educação formal avançada, como seus irmãos em Cambridge, o que era comum durante a virada do século XIX para o século XX. Ainda assim, sempre foram instigadas a estudar e adquirir conhecimentos, principalmente por terem uma mãe que vinha de uma família de editores, e um pai, que, como literato, frequentava e recebia visitas da alta sociedade literária de Londres. “A  room of one’s own”, ou “Um quarto todo seu” em português, um dos ensaios mais famosos da autora, nasce desse ambiente, mas pode ser localizado mais exatamente no entreguerras, nos quatro anos que estão entre o final da Primeira Guerra Mundial e o começo da Segunda. O livro nasce de diversas palestras proferidas por Woolf, na Universidade de Cambridge, sobre o tema da mulher e da ficção, e seu trabalho caminha, de forma categórica, no modernismo britânico, contendo o fluxo de consciência, caminhando para dentro do entendimento da sensibilidade, e de como traduzir sentimentos profundamente enraizados na humanidade para o papel. 

    Em um dos trechos de “Um teto todo seu”, a autora critica a falta de espaço dedicada aos almoços e jantares em romances, e anuncia que, no ensaio dela, eles terão sua cota. Os romancistas, naquela época majoritariamente homens, na tentativa de colocar somente o que era supostamente essencial em livros, acabam se esquecendo de que haviam muitas coisas que “valiam a pena” ser inseridas dentro de um  romance. 

    “É curioso o fato de que os romancistas têm um jeito de fazer-nos crer que os almoços são invariavelmente memoráveis por algo muito espirituoso que se disse ou muito sábio que se fez. Raramente, porém, desperdiçam uma palavra sequer sobre o que se comeu. Faz parte do consenso dos romancistas não mencionar sopa, salmão e pato, como se sopa, salmão e pato não tivessem importância alguma, como se ninguém jamais tivesse fumado um charuto ou bebido um copo de vinho. Aqui, no entanto, tomarei a liberdade de desafiar esse consenso e de dizer-lhes que o almoço, nessa ocasião, começou com filés de linguado num prato fundo sobre o qual o cozinheiro da universidade espalhara uma cobertura do mais alvo creme, não fossem, aqui e ali, manchas castanhas como as dos flancos de uma corça. Depois disso vieram as perdizes, mas enganam-se se isso lhes sugere um par de aves implumes e escuras num prato. As perdizes, numerosas e variadas, vieram acompanhadas de todo um séquito de molhos e saladas, picantes e doces, cada qual na sua ordem de entrada: batatas, finas como moedas, mas não tão duras; couves-de-bruxelas, folhudas como botões de rosa, porém mais suculentas. E mal havíamos terminado o assado e seu cortejo, o garçom, silencioso, talvez o próprio Bedel numa manifestação mais branda, pôs diante de nós, enrolado em guardanapos, um doce que se erguia em ondas de açúcar. Chamá-lo pudim, aparentando-o assim com o arroz e a tapioca, seria um insulto. Enquanto isso, os copos de vinho tinham se tingido de amarelo e de vermelho, tinham-se esvaziado, tinham-se enchido.”

    Em outra parte, ela versa sobre o desenvolvimento de um texto, em que um escritor versa sobre a inferioridade das mulheres, e o porquê de achar que sua pesquisa valia o espaço que ocupava. Ele, enquanto escrevia seu artigo, nunca parou para questionar sua utilidade, se o  que ele escrevia era bom ou não, se a forma como escrevia era correta, e se valia a pena alguém ler um  escritor como ele. Questionamentos que muitas mulheres têm ao começarem a escrever.

    “Mas, enquanto refletia, estive inconscientemente, em minha languidez, em meu desalento, desenhando uma figura no local onde, como meu vizinho, deveria redigir uma conclusão. Estive desenhando um rosto, um corpo. Era o rosto e o corpo do professor Von X, entregue à redação de sua obra monumental intitulada A INFERIORIDADE MENTAL, MORAL E FÍSICA DO SEXO FEMININO. No desenho, não era um homem que fosse atraente para as mulheres. Era corpulento, tinha queixo grande; para compensar, os olhos eram bem pequenos; o rosto era muito vermelho. Pela expressão, parecia trabalhar sob alguma emoção que o fazia cravar a caneta no papel como se estivesse matando algum inseto nocivo enquanto escrevia, mas, mesmo depois de matá-lo, não se dava por satisfeito; precisava continuar matando; mesmo assim, persistia alguma razão de fúria e irritação.”

    Para exemplificar melhor, ela usa grandes nomes de sua própria época para descrever que mulheres só conseguiam escrever minimamente bem quando possuíam fundos, (dinheiro de investimentos ou herança), e principalmente, um teto todo seu. E que muitas delas, por terem se acostumado a escrever de uma certa forma, continuariam a impor-se esses malabarismos na escrita, até mesmo depois de terem se consolidado como grandes escritoras.

    “[…]concedamos a ela um quarto só seu e quinhentas libras por ano, deixemos que seja sincera e exclua metade do que agora inclui no que diz e, um dia desses, ela escreverá um livro melhor.”

    Foto por: Sophia Ribeiro

    Depois de participar da palestra “Virginia Woolf como uma pesquisadora ideal”, da brilhante Jeanne Dubino, no dia 15 de Julho, no Instituto de Ciências Humanas e Sociais, no Auditório G-20, entendi que ‘Um quarto só seu’, (na tradução da editora Bazar do Tempo), pode ser lido como um ensaio de como pesquisar, ou de como iniciar, permanecer e terminar uma pesquisa. Empresto alguns dos tópicos da pesquisadora, compartilhados durante a apresentação, para exemplificar o meu entendimento sobre a lógica do livro aqui discutido. Nos seis capítulos do livro temos: 

    • Virginia iniciou seus questionamentos sobre as diferenças de tratamento e financiamento entre mulheres e homens, chegou a uma questão central e começou a investigar dois campi, “Oxbridge” (Oxford + Cambridge), majoritariamente masculino, e Fernham, majoritariamente feminino. Esteve presente em um almoço luxuoso em “Oxbridge” e também em um jantar modesto em Fernham. Após estar nesses dois mundos, de certa forma, distintos, inicia suas pesquisas na Biblioteca Britânica, após ter a permissão de adentrar aquele espaço concedida por um homem, já que em um primeiro momento tinha sido barrada por um “cidadão de bem” inconveniente.

    “Eu a abriria, se não fosse impedida por um cidadão de bem, grisalho, proibitivo, como um anjo barrando os portões do céu com sua túnica preta tremulante ao invés de asas brancas. Me repeliu em baixo tom, enquanto me afastava com as mãos, dizendo que senhoras só são permitidas na biblioteca se acompanhadas por um Membro da Faculdade ou providas de um cartão de visita.” – tradução da equipe de suporte do evento da Jeanne Dubino.

    “Devo tê-la aberto, pois instantaneamente surgiu dali, como um anjo da guarda a barrar o caminho com um agitar de túnica negra, e não de asas brancas, um cavalheiro súplice, grisalho e gentil, que lamentou em voz baixa, e fez-me sinais para que saísse, porque as damas só eram admitidas na biblioteca acompanhadas por um Fellow da faculdade ou providas de uma carta de apresentação. Que uma biblioteca famosa tenha sido amaldiçoada por uma mulher é motivo de total indiferença para ela. Venerável e calma, com todos os seus tesouros seguramente trancafiados em seu seio, ela dorme complacentemente e, no que me diz respeito, há de dormir para sempre. Nunca despertarei esses ecos, nunca buscarei novamente essa hospitalidade, jurei enquanto descia os degraus, enfurecida.” – tradução de Vera Ribeiro, para a editora Círculo do Livro.

    • Capítulos 2 e 3: Ela transita entre esses dois locais, e descreve em ricos detalhes os diferentes pensamentos que surgem a partir desses espaços. Chega à comparação entre William Shakespeare e a fictícia Judith Shakespeare, irmã do escritor. Ela tem uma presunção/conjectura/previsão interessante no capítulo 2:

    “Em cem anos […] as mulheres terão deixado de ser o sexo protegido. Logicamente, participarão de todas as atividades e de todos os trabalhos que antes lhes eram negados. A babá carregará carvão. A quitandeira vai operar uma máquina. Todas as suposições baseadas nos fatos observados quando as mulheres eram o sexo protegido terão desaparecido – como, por exemplo. . . de que mulheres, sacerdotes e jardineiros vivem mais do que as outras pessoas. Retire-se essa proteção, exponham-nas aos mesmos trabalhos e atividades, convertam-nas em soldadas, marinheiras, operadoras de máquinas […]. Quando ser mulher deixar de ser uma atividade protegida, pensei eu abrindo a porta, tudo poderá acontecer.”

    Coincidentemente, enquanto lia esse ensaio, também tive a experiência de participar de outro evento, dessa vez do Observatório Caleidoscópio, que realizou um seminário sobre mulheres na ciência e violência de gênero na universidade. Lancei mão da lógica de Woolf em busca de material para escrever seu artigo “As mulheres e a ficção”, para entender “As mulheres e a ciência” não como excludentes um do outro, e sim “as mulheres com a ciência”, ou até mesmo “as mulheres na ciência”.

    “Mas que relação tem tudo isso com o tema de meu artigo, “As mulheres e a ficção”? Foi o que me perguntei ao entrar em casa.”

    Na primeira apresentação, “Gênero e ciência: a presença institucional das cientistas brasileiras em meados do século XX”, de Daiane Silveira Rossi, somos expostas aos números reais da realidade da comunidade científica feminina brasileira, com base em uma análise de dados completa realizada pela acadêmica. Spoiler, os dados são desanimadores.

    Já durante a segunda exposição, “‘Rompendo o silêncio’: violência de gênero em uma universidade pública”, ministrada por Cris Cavaleiro, temos outro dado, ainda mais chocante que o primeiro. O número de casos dentro desses espaços primordialmente educacionais é gritante. Mesmo se uma mulher tiver acesso à educação, provavelmente/possivelmente ainda terá que lidar com a violência de gênero, assédio moral e físico, invisibilização da denúncia, perseguição, sequestro intelectual, entre outros inúmeros fatores que podem ser consultados na pesquisa da Cavaleiro, assim como podem ser visualizados, mais especificamente, no caso Boaventura, (que contém inúmeras denúncias de pesquisadoras), estudo realizado pelo observatório Ariadnes.

    “A pergunta eterna: porque nenhuma mulher escreveu notável literatura, enquanto homens, aparentemente, eram capazes de cantiga e soneto. Quais eram as condições vividas pelas mulheres, me perguntei […].”

    Retornando ao estudo do ensaio de Woolf, conseguimos traçar essa temporalidade, proposta, em um primeiro momento, quando esta:

    • Capítulo 4: Encaminha novos questionamentos, e consequentemente, uma nova pesquisa, em que esboça a história parcial da literatura feminina britânica. Assim como a cronologia de Daiane Silveira Rossi, que desenvolve uma linha do tempo com os dados das cientistas brasileiras, trazendo esse entendimento para um local próximo de nós, mulheres latino-americanas, tem-se um movimento de montar as peças do quebra-cabeça, procurando entender quais mulheres escreviam, e em quais condições. Chegamos aos ilustres nomes de: Lady Winchilsea (1661-1720), Margaret of Newcastle (1623-1673), Dorothy Osborne (1627-1695), Aphra Behn (1640-1689), Charlotte Brontë (1816-1855), Emily Brontë (1818-1848), George Eliot (1819-1880) e Jane Austen (1775-1817).
    • Capítulo 5: Desenvolvendo sua própria narrativa, ela cria uma história de uma escritora contemporânea, Mary Carmichael. Virginia Woolf sempre foi uma autora profunda, só que não teve problemas em se aventurar no que é considerado, muitas vezes, “trivial”. Com variedade e alcance, Woolf consegue retratar a experiência de disforia de gênero, assim como de transsexualidade, e de bissexualidade, de forma imersiva e descritiva, e notavelmente, à frente de seu tempo. Escreve desde a perspectiva de um cão até a imagem de uma mariposa presa no vidro, que, isolada, bate suas asas entre as quatro dimensões de uma janela em que se debate furiosamente. Nesse capítulo em específico, (5), de “Um teto todo seu”, ela descreve uma escrita de um romance lésbico, e como nenhum dos escritores modernistas sequer imaginava escrever textos envolvendo isso, por causa da decência e da moral. Assim, considerando, ela novamente repete sua previsão de cem anos, dessa vez indicando que, depois desse tempo, as pessoas vão aprovar a escrita de “Life’s Adventure”.

    “Virei a página e li… Desculpem-me uma interrupção tão brusca. Há algum homem presente?[…] Posso ficar tranquila que aqui somos todas mulheres? Então posso lhes contar que as palavras que li imediatamente a seguir diziam: “Chloe gostava de Olivia…”. Não se sobressaltem. Não enrubesçam. Vamos admitir aqui na privacidade aqui de nosso grupo que essas coisas às vezes acontecem. Às vezes, mulheres gostam de mulheres. […] Concedamos a ela mais cem anos, concluí lendo o último capítulo – narizes e ombros nus se mostravam desnudos contra um céu estrelado, pois alguém abrira a cortina na sala de visitas –,[…], um dia desses, ela escreverá um livro melhor. Será uma poeta, disse eu colocando Life’s Adventure, de Mary Carmichael, na ponta da prateleira, daqui a cem anos.”

    Em um movimento final, de conclusão do que pode ser considerado um tutorial, a autora:

    • Capítulo 6: Pede para que suas leitoras escreva. Woolf escreve de forma prosaica, uma ode revolucionária. Ela determina que, nós mulheres, devemos nos reerguer dentro da literatura. Devemos escrever sobre o que for, mas devemos escrever. Retomando essa imagem criada em nosso imaginário da irmã de Shakespeare, que caso existisse, poderia ser igual ou até mesmo mais celebrada do que o irmão, principalmente se fosse criada com as mesmas referências e educação que ele, mas que nunca saberíamos, pois a ela não foi direcionado/concedido o direito e ambição da escrita. Como conclusão, Woolf pontua que vale a pena:

    “Mas sustento que virá se trabalharmos por ela [Judith Shakespeare], e que trabalhar para isso, mesmo na pobreza e na obscuridade, vale a pena.” 

    Passei semanas tentando escolher exatamente sobre o que escrever, e chego ao final desse texto entendendo que, ao menos, escrevi alguma coisa. 

    Sophia Helena Ribeiro

  • Protagonismo nas narrativas de violência de gênero: a importância da voz das vítimas na mídia

    No documentário A vítima Invisível, da Netflix, dirigido por Juliana Antunes e lançado em 26 de setembro de 2024, a narrativa nos conta sobre a vida de Eliza Samudio, para além de sua morte, que aconteceu em junho de 2010. É uma perspectiva diferente da tradicional. Numa pesquisa para escrever um artigo sobre o feminicídio de Eliza, foi fácil encontrar detalhes da vida e carreira de Bruno Fernandes de Souza, sempre citado nas matérias jornalísticas como Goleiro Bruno, condenado pelo feminicídio de Eliza e pai de seu filho, Bruninho. Quando o crime aconteceu, Bruno jogava no Flamengo e era uma promessa do futebol. Em uma rápida pesquisa na internet era possível saber sobre a história da infância, os sonhos e a trajetória profissional dele. Já sobre Eliza foi preciso pesquisar mais, mas era possível saber um pouco sobre a infância dela. Seus sonhos, por outro lado, eram resumidos ao anseio de ser modelo e se casar com um jogador de futebol, além de sempre ser relembrada a  participação dela em filmes de conteúdo adulto. 

    Imagem de Eliza Samudio utilizada no cartaz de divulgação do documentário “A vítima invisível” da Netflix.

    O apagamento da vítima não é explicado pelo fato de o assassino ser um jogador famoso. Todos os dias, vítimas de abuso e violências de gênero, especialmente em crimes de proximidade, são apagadas de sua própria história. As subjetividades são esquecidas e é comum que a história de vida das mulheres sejam resumidas à ser vítima, enquanto os agressores tem mais espaço na narrativa, às vezes como uma forma de justificar a violência cometida, e excluindo o fato de que violências – simbólicas ou físicas – de gênero não são casos isolados ou incomuns, principalmente em relações sexuais afetivas. 

    Isso aconteceu na cobertura do feminicídio de Eliza, na qual diversas matérias reforçaram estereótipos de gênero e culpabilizaram a vítima por sua própria morte, deslocando a responsabilidade do crime para suas escolhas e atitudes, tentando justificar o assassinato. Além disso, reforçaram a imagem de Bruno, o agressor, como um homem enganado e que perdeu a carreira, minimizando a gravidade do crime e contribuindo para a perpetuação de um ciclo de violência contra as mulheres.

    Mas em A Vítima Invisível, descobrimos mais sobre Eliza, para além do estereótipo de “Maria Chuteira”. A mulher era apaixonada por futebol e era goleira quando criança. Uma colega de time cita que Eliza jogava bem e poderia ter tido uma carreira, uma vida diferente. Em mensagens encontradas em seu notebook, Eliza dizia a amigas que queria estudar e ser uma boa mãe para Bruninho, por quem ela demonstrava ter muito carinho e planos para o futuro. No entanto, esse lado de Eliza não era retratado pela mídia. Em dias de pesquisas, lendo artigos e matérias sobre o caso, eu não encontrei quase nada sobre essa Eliza mostrada no documentário. O que é muito violento, e me fez pensar sobre a importância de preservar a memória das vítimas de feminicídio, que não se resumem à agressão ou à relação com o agressor. 

    Ao humanizar Eliza, o documentário tenta combater o esquecimento e a tentativa de apagamento de sua história, mostrando que ela era muito mais do que sempre foi mostrado. A luta por justiça e memória é fundamental para casos como o do feminicídio de Eliza, pois o apagamento é mais uma forma de violência e silenciamento de mulheres que já foram violentadas e silenciadas para sempre.

    Um dia após o documentário ser lançado, foi ao ar o episódio Consentimento: O debate sobre estupro no O Assunto, podcast do G1, apresentado por Natuza Nery. Nele, Julia Duailibi entrevista a promotora do Ministério Público de São Paulo, co-autora do livro Precisamos falar de consentimento: Uma conversa descomplicada sobre violência sexual além do sim e do não, Silvia Chakian. O tema do episódio gira em torno de um caso que aconteceu na França. Gisele e Dominique Pelicot eram casados há mais de 50 anos, tiveram três filhos e viviam em um vilarejo. Mas tudo mudou em 2020, quando Dominique foi preso por filmar debaixo da saia de uma mulher. Ao apreender o celular dele, a polícia encontrou outros crimes. O homem tinha em seu celular cerca de 20 mil fotos e vídeos da esposa, drogada e dopada por ele, sendo estuprada por dezenas de homens, desde 2011. Dominique e mais 50 réus estão sendo julgados pela Justiça francesa desde setembro. No episódio do podcast, a conversa discorre sobre como o consentimento é abordado em leis de diferentes países, e o quão amplo é esse conceito, muito além do “sim” ou “não”.

    Consumindo esses dois produtos, o documentário e o podcast, que tratam de violências de gênero chocantes e que fogem do “comum”, casos que parecem chegar ao extremo, foi inevitável não pensar em Eliza e Gisele e em como elas, mesmo tendo vidas tão diferentes, foram violadas. Mas a forma como foram acolhidas pela sociedade e representadas pela mídia foi o que mais me chamou a atenção. Esses dois casos criminais são exemplos de representações de mulheres em matérias sobre violência de gênero, retratando a vítima boa ou a vítima má. O conceito aparece na dissertação de mestrado de Bárbara Caldeira, Entre assassinatos em série e uma série de assassinatos: o tecer da intriga nas construções narrativas de mulheres mortas e seus agressores nas páginas de dois impressos mineiros

    As vítimas boas são representadas como mulheres “perfeitas”; são virtuosas, comportadas, dedicadas à família e ao trabalho. Gisele se encaixa aqui. Talvez a comoção até em outros países e que levou milhares de pessoas a protestos nas ruas da França em busca de uma reforma nas leis do país, pode ser dada pelas circunstâncias bizarras do crime, cometido pelo próprio marido, mas também por toda a narrativa. Gisele prenche o checklist de comportamento esperado de uma mulher na nossa sociedade heteronormativa: era casada com o mesmo homem durante 50 anos, era mãe. Além disso, diferente de muitos casos de abuso, este tem muitas imagens que comprovam as barbaridades do crime cometido pelo marido e vários outros homens, e não “só” o relato da vítima.  

    Nessa perspectiva, Eliza era constantemente representada na mídia com imagens sensuais, usando roupas decotadas, retratada como garota de programa, amante de Bruno, entre outros estigmas que a enquadram na tipificação da vítima má. São aquelas que possuem relacionamento extraconjugal, que terminaram um relacionamento ou estão com outro parceiro, aquelas que sabiam do histórico de violência do parceiro e continuaram com ele, as que “provocam” o agressor. Em geral, mulheres que não se encaixam no perfil da vítima ideal são frequentemente culpabilizadas e silenciadas. Eliza, desde o início das agressões e ameaças de Bruno, sempre procurou ajuda, tanto da polícia como da imprensa, mas seu relato não foi o suficiente, e não é na maioria das vezes para as mulheres vítimas de agressão. Assim, a mídia fez de Eliza, além da vítima invisível, a vítima má, que algo fez para merecer aquilo. 

    A forma como a mídia retrata as vítimas de violências de gênero – especialmente abusos, estupro e feminicídio – pode moldar a percepção pública sobre o assunto. Por isso, é muito importante tratar essas violências como algo sistêmico, não como casos isolados. Um exemplo são os dados apresentados no Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2024, que mostram que feminicídios aumentaram 0,8% em 2023, comparando com o ano anterior, e agressões decorrentes de violência doméstica aumentaram 9,8%, totalizando 258.941, o que reforça o caráter estrutural. 

    Também é preciso fugir ao máximo das justificativas para o crime recorrendo a comportamentos da vítima. Eliza Samudio e Gisele Pelicot são duas mulheres opostas, seja em nacionalidade, idade ou história de vida; a primeira foi assassinada brutalmente, e até hoje não encontraram seu corpo. A segunda pensava ter uma vida normal, mas era dopada pelo marido e abusada por diversos homens, durante 10 anos. Não há justificativas isoladas para essas violências, não importa o cenário, nós sempre estamos em perigo, dentro de casa ou indo atrás dos direitos parentais do próprio filho. 

    Ana Rodrigues

  • O audiovisual sustenta o peso do #MeToo?

    Duas mulheres brancas, de cabelos castanhos compridos lisos, conversam. Uma delas está de perfil, tem franja, usa camisa sem manga cinza e está sentada em uma mesa. A outra está sentada na cadeira, com blusa de manga curta azul, e segura um celular.
    As atrizes Carey Mulligan e Zoe Kazan em Ela Disse. Divulgação

    Em setembro deste ano, mulheres do Reino Unido reagiram com revolta à decisão da Promotoria britânica de interromper o andamento de duas acusações de abuso sexual contra Harvey Weinstein no país. O caso do ex-produtor de cinema de Hollywood foi, entre 2016 e 2017, um dos maiores combustíveis do movimento #MeToo (#EuTambém), em que mulheres vieram a público, nas redes sociais ou na Justiça, denunciar violações contra homens poderosos da mídia dos EUA, entre os quais R. Kelly, Kevin Spacey e Bill Crosby, e de outros setores, como esporte, finanças e política.

    Rowena Chiu, que acusou Weinstein de tentativa de estupro em 1998, no Festival de cinema de Veneza, quando era assistente dele, disse ao jornal The Guardian que, uma década depois, ela e outras mulheres ainda estão aqui, ao contrário de quem pensava que o #MeToo seria um movimento passageiro e apesar da decisão da Justiça britânica.

    De fato, o #MeToo continua aqui, junto com as mulheres que tiveram coragem de denunciar – e com as que tiveram a coragem de sobreviver. Continua, também, no audiovisual – com resultados bastante distintos no cinema e na TV. Em 2019, o filme O Escândalo (Bombshell), “baseado em fatos reais”, narrou os casos de violência de gênero do ex-CEO da Fox News Roger Ailes de modo honesto, mas tímido.

    A foto mostra três mulheres brancas de pé em um espaço fechado, em plano americano. A primeira tem cabelos curtos loiros, usa vestido azul e está com cara de furiosa. A segunda tem cabelos lisos nos ombros e usa vestido rosa. A terceira tem cabelos longos, lisos e loiros, e usa vestido preto com detalhes vermelhos.
    Charlize Theron, Nicole Kidman e Margot Robbie em O escândalo. Divulgação.

    Três anos depois, Ela Disse (She said) mergulha na investigação do jornal The New York Times que primeiro expôs Weinstein. O filme é baseado no excelente livro jornalístico de mesmo nome, escrito pelas jornalistas Jodi Kantor e Megan Twohey. É também honesto, bem feito e bem atuado – mas igualmente não avança até onde poderia, apesar de uma ótima representação do processo jornalístico.

    Na TV, o badalado The Morning Show trouxe o assédio sexual em uma emissora como premissa. A primeira temporada orbitou em torno das revelações dos crimes de Mitch Kessler (Steve Carell, perfeito), âncora de um conhecido jornalístico matutino, e do terremoto das implicações nas vidas de quem ele abusou – e de quem o acobertou ou foi conivente por décadas.

    Mas veio a pandemia e, claramente, a série se perdeu na segunda temporada. Em vez de permanecer com o problema (emprestado de Donna Haraway), enfrentá-lo, a narrativa desvia o olhar. Mitch morre sem ser adequadamente responsabilizado, à parte o ostracismo milionário numa villa italiana e uma entrevista/mea culpa.

    A imagem mostra uma mulher e um homem sentados em bancada de telejornal. Ela tem cabelos castanhos claros lisos e olhos verdes e usa camisa preta. Ele tem cabelos acinzentados, usa óculos, terno e tem barba por fazer.
    Jennifer Aniston e Steve Carell em cena de The Morning Show. Divulgação.

    A terceira temporada, levada ao ar em 2023 na Apple TV+, tenta manter o assunto à tona, com as consequências dos atos de Mitch pairando sobre a redação e o assédio sexual no ambiente de trabalho à espreita. A estratégia é bem sucedida em alguns episódios; em outros, nem tanto. Mas a série consegue, ao menos, propor algum tipo de interseccionalidade à representação.

    E temos Emily em Paris. Que parece, desde a estreia em 2020 na Netflix, um lugar pouquíssimo propício para discutir um assunto denso, triste, difícil e pantanoso como assédio sexual. Na quarta temporada, lançada entre agosto e setembro deste ano, a personagem Sylvie (Philippine Leroy-Beaulieu), dona da agência publicitária de luxo em que Emily (Lily Collins) trabalha, revela a uma jornalista que o dono de um conglomerado de moda a assediara na juventude, com modus operandi que se repete ainda no presente.

    Sylvie demora a decidir se revelar como sobrevivente, talvez ciente do peso que ocupar publicamente essa posição carrega. Ou carregaria. Em Emily, o assunto rende uma conversa aqui, outra ali, num episódio, e nenhuma outra grande consequência.

    O tema desaparece da série como uma coleção passada, uma subtrama para salpicar de profundidade a rasíssima narrativa da produção. O Balance ton porc, equivalente francês do lema #MeToo, sequer é mencionado na brevíssima aparição do assédio como tema, ou acessório narrativo descartável, moda passageira.

    Enquanto o audiovisual tenta elaborar minimamente um movimento importante desta onda feminista, parece claro que, até aqui, a ficção total não tem dado conta de sustentar o peso e os impactos da discussão. As produções próximas de casos reais têm sido mais capazes de situar a discussão – mas ainda estão longe, muito longe, de alcançar o lugar de onde Rowena Chiu e outras centenas, milhares de sobreviventes falam. Para um filme, uma série de TV, é fácil partir. Para elas, é o que permanece.

    Por Karina Gomes Barbosa

  • Gênero e universidade: discussões sobre violência de gênero a partir de estudos na Universidade do Norte do Estado do Paraná

    As violências de gênero são discutidas em diversas frentes sociais. Nas universidades do país os estudos do tema, apesar de poucos, vêm se desenvolvendo cada vez mais. Um exemplo é a pesquisadora Maria Cristina Cavaleiro, que realizou uma pesquisa na Universidade do Norte do Estado do Paraná (UNEP) sobre violências de gênero dentro do ambiente universitário.

    Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a violência é definida como “o uso de força física ou poder, em ameaça ou na prática, contra si próprio, outra pessoa ou contra um grupo ou comunidade que resulte ou possa resultar em sofrimento, morte, dano psicológico, desenvolvimento prejudicado ou privação”. A violência também possui relação com a intencionalidade dos atos e a frequência com que eles acontecem.

    Durante a pesquisa “Violência de gênero na universidade: resistências para além de silêncios e omissões”, Maria Cristina Cavaleiro aponta uma dificuldade de conceituar agressão e violência. Segundo ela, essa dificuldade de entendimento das diferenças entre o que é uma agressão e o que se configura como violência interfere na compreensão das vítimas sobre o que está sendo vivenciado e em como a denúncia é feita.

    Os resultados da pesquisa apontam para uma continuidade da sociedade externa dentro do ambiente universitário. Essa instituição social é atravessada por variadas questões sociais, como cor, raça e poder aquisitivo. Mesmo sendo um ambiente que inicie diversas pautas sociais, estar incluso na sociedade transforma a universidade num possível lugar de recriação de problemas externos.

    Cavaleiro conta que foi convidada a fazer parte de uma comissão para entender e investigar casos de violência de gênero dentro da UENP, mas ela era a única professora efetiva que integrava o grupo. Nesse formato, a comissão não ganha força nem entrosamento com outros docentes.

    No início de sua pesquisa, Maria Cristina teve dificuldade de coletar dados sobre estudantes da universidade, como quantidade de alunos totais e quantidade de homens e mulheres. A contagem e separação dos alunos por gênero foi realizada de forma manual, já que a própria universidade não tinha o controle desses números.

    A pesquisa foi realizada nos três campi da UNEP, que em 2019, juntos, tinham cerca de 4341 estudantes ativos, maiores de 18 anos até o sexto período. Cavaleiro obteve 647 respondentes, mais que o mínimo necessário, apesar das dificuldades de comunicação entre os campi, pouco apoio dos docentes e da comunidade administrativa.

    No questionário, 71% das respostas foram dadas por pessoas do sexo feminino. No total, 358 estudantes afirmam ter presenciado algum tipo de violência no ambiente universitário, 81% das quais mulheres. Ou seja, 290 pessoas do sexo feminino já presenciaram violência no ambiente universitário. Cabe definir aqui que o ambiente universitário engloba tudo que se relaciona com a universidade, desde que seja criado em consequência dela ou que seja adaptado para ela.

    Entre as situações de violência mais presenciadas estão: comentários e piadas sexistas e machistas, piadas sobre o intelecto de mulheres ou seu lugar na sociedade, piadas com conotações LGBTfóbicas, comentários desagradáveis sobre a maneira de se vestir, comentários com conotações sexuais que desagradam ou humilham e rumores sobre a vida sexual.

    A maior parte das agressões são morais e psicológicas. Ambos os tipos de violência são definidos e previstos na lei Maria da Penha: violência moral é considerada “qualquer conduta que configure calúnia, difamação ou injúria”. Já a violência psicológica se configura como “qualquer conduta que lhe cause dano emocional e diminuição da autoestima ou que lhe prejudique e perturbe o pleno desenvolvimento ou que vise degradar ou controlar suas ações, comportamentos, crenças e decisões, mediante ameaça, constrangimento, humilhação, manipulação, isolamento, vigilância constante, perseguição contumaz, insulto, chantagem, ridicularização, exploração e limitação do direito de ir e vir ou qualquer outro meio que lhe cause prejuízo à saúde psicológica e à autodeterminação”.

    Outra das violências mais presenciadas é agressão sexual. O número de respostas, frisadas pela pesquisadora, foi de 53 pessoas. O dado parece baixo em relação ao total de alunos, mas se trata de testemunhar um crime e, mesmo que fosse apenas um caso, não deve ser tratado como exceção.

    Os tipos de violência com maior incidência são violência velada, fazer gozações, grosserias e situações vexatórias. Sofreram esse tipo de agressão, respectivamente 93%, 77% e 62% dos discentes que participaram da pesquisa. Como opções ainda havia “humilhação por parte de professores/as” – 59%; “ser forçado (a) a fazer coisas que não gostaria” foi apontado por 17%; “forçado (a) a participar de trotes”, 10%; e “submetido (a) a violência sexual”, 3%.

    Quando perguntadas onde as violências tendem a acontecer, a sala de aula ficou em 1º lugar. Em 2º lugar, áreas internas e abertas do campus e, em 3º lugar, festa universitária. É válido destacar que 10 respostas apontaram laboratórios de pesquisa e 8, salas de professores. Apesar do discurso de liberdade e diversidade, a universidade não garante tanta segurança àqueles diferentes do padrão universitário.

    A violência tem diversas nuances, muitas delas passam despercebidas ou são entendidas como “brincadeiras”, como é o caso do assédio moral. As formas de violência que não possuem provas físicas no corpo da vítima são as mais difíceis de serem investigadas, principalmente porque parte-se do princípio que a vítima está mentindo.

    No dossiê Gêneros e feminismo(s): novas perspectivas teóricas e caminhos sociais, a autora Tânia Mara Campos de Almeida fala que violência de gênero acontece com pessoas que ocupam lugares ditos femininos na sociedade (mulheres, crianças, pessoas trans, travestis). Essa violência tem um caráter específico, não machucam o outro que é igual a você ou é visto nas mesmas condições de valor, mas sim machuca outros que são socialmente vistos como inferiores. Os e as estudantes vítimas das agressões estão em uma posição acadêmica vista como inferior por quem a pratica, e isso é um sintoma da sociedade sexista que é recriada no ambiente universitário.

    As universidades como um todo são ambientes vistos e sentidos como sendo comandados por homens, brancos, cis e ricos. Mesmo que se discuta sobre inclusão e diversidade, esse é o perfil majoritário de quem compõe esse ambiente. Logo, é compreensível que as violências de gênero e os estudos sobre essas violências tenham dificuldade de serem realizados. Atualmente existem mais pesquisas nessa área, mesmo que ainda pouco discutidas entre a administração das universidades. As sobreviventes acham em ONGs, pesquisadoras e nas comunidades feministas, muitas vezes externas ao campus, a oportunidade de serem ouvidas e ajudadas.

    Como a universidade enxerga a violência de gênero

    Analisando os dados da pesquisa, as preocupações aumentam. A universidade foco do estudo tem como missão a construção integral da sociedade e de seus cidadãos promovendo democracia, a cidadania e o desenvolvimento socioeconômico, mas ainda perpetua problemas de gênero. Na pesquisa de Cavaleiro, 81% das vítimas de violência não denunciam o ato para a universidade.

    Como justificativa, estão o medo, presente em 523 respostas, ou vergonha. Três respostas chamam a atenção: “medo porque na maioria das vezes nenhuma providência é tomada, e pode até prejudicar a pessoa dentro do ambiente universitário dependendo de quem for o agressor”; “…sensação de que serão culpadas mesmo sendo as vítimas”; e “não saber como falar e com quem falar e achar que não vão acreditar”.

    A autora que Maria Cristina Cavaleiro usou de norte, Sara Ahmed, diz que “o silêncio sobre a violência é violência”. Segundo Cavaleiro, as instituições são cada vez mais performáticas, espetacularizam o acontecimento postando notas e vídeos de repúdio às situações, mas como medidas concretas nada é de fato construído. Muitas vezes a repreensão pelo fato ocorrido recai sobre a vítima e o agressor sai impune e volta a circular no ambiente acadêmico sem maiores penalidades.

    A falta de apoio da instituição pode vir de muitos fatores. O mais aceito é o medo de manchar a reputação, mas zelar pelo nome da instituição é criar um ambiente inseguro para grande parte dos estudantes. Resolver casos de violência muitas vezes significa tirar pódios de homens que são famosos ou que dão ainda mais crédito para a instituição como formadora de cientistas e mestres em assuntos distintos. O lugar da denúncia e da punição leva ao questionamento do que é certo e errado perante a sociedade e reeduca a comunidade acadêmica acerca das desigualdades já naturalizadas no social, diz Cavaleiro.

    Desde o início são colocadas barreiras para pesquisar violências de gênero. Além da pesquisa da UENP, também em 2019 o Intercept Brasil realizou uma pesquisa pautando gênero. E, entre diversos resultados, muitas universidades brasileiras, particulares e federais, não possuem políticas concretas contra ou que desincentivem a violência. Ambas as pesquisas apontam para descaso dos órgãos administrativos universitários em tratar do tema, falta de políticas públicas palpáveis, falta de diálogo e dificuldade de comunicação, revitimização das sobreviventes e banalização como principais resultados.

    Engana-se quem acha que esse tipo de situação acontece apenas em universidades brasileiras. As pesquisas nessa área se iniciaram em 1970 e 1980, no Canadá e nos Estados Unidos, mas apesar disso em 2015 o documentário The Haunting Ground expôs a dificuldade de punir agressores sexuais em universidades dos EUA. O documentário escancara como a instituição encobre casos de assédio e violência de professores e alunos considerados destaques para manter o nome da instituição, que é mais válido do que a agressão sofrida por alunas.

    Como saída para essas questões são apresentadas as ouvidorias, que atuam como mediadoras dos conflitos entre instituição e cidadãos. A ouvidoria da UENP, que foi base para a pesquisa de Maria Cristina Cavaleiro, fica ao lado da reitoria, tirando o ambiente confortável e privado para a denúncia. A ouvidoria da UFRJ, segundo reportagem do Projeto Colabora, não recebe denúncias anônimas, pois dificultariam a apuração e poderiam gerar faltas de provas e de dados, mas garante que os trâmites são sigilosos.

    Apesar de todos na universidade serem responsáveis por um ambiente seguro e acolhedor, o que se vê nas instituições é a instauração do medo de fazer a denúncia, principalmente pelo temor de retaliação. Violências de gênero ainda são um tabu social, acredito que não se discuta e não se combata porque é confortável para quem está no poder manter essa relação de inferioridade para com os diferentes de si, perpetuando as disputas sociais de gênero que garantem a permanência de homens brancos e cisgênero em posições de poder.

    Apesar de, a passos pequenos, as instâncias governamentais aumentaram a severidade das punições, por exemplo, contra assédio sexual. O governo federal adotou em 2023 um parecer da Advocacia-Geral da União (AGU) segundo o qual casos de assédio sexual deverão ser punidos com demissão em toda a administração pública federal. Essa medida se estende às instituições de ensino, e o parecer torna menos efêmeras as interpretações do que é considerado crime punível e do que não é.

    A vontade de realizar esse estudo, segundo Maria Cristina, surgiu por dois fatores: o estupro de uma aluna em 2018 e um trote realizado por alunas do curso de Agronomia com as calouras, divulgado em vídeo em 2019. A faculdade se pronunciou depois do primeiro ocorrido, com um vídeo nas redes sociais fazendo referência ao movimento não é não e um possível processo administrativo disciplinar foi aberto. Já o trote foi visto como uma brincadeira por alguns docentes e discentes da universidade e ficou por isso mesmo. A pesquisa iniciada em 2019 foi apresentada no Seminário do Observatório Sul-Sudeste do INCT Caleidoscópio, no dia 23 de maio de 2024. É possível assistir a apresentação pelo youtube.

    Por Ana Beatriz Justino

  • Lésbicas não podem ser mães?

    Na imagem, Carol, uma mulher branca e loira de cabelos curtos olha, com um sorriso de canto, para Therese, que está de pé, correspondendo o olhar. Therese utiliza um casaco preto e cabelos castanhos
    Créditos da imagem: cena do filme

    Carol é um filme de 2015, dirigido por Todd Haynes e baseado no livro The Price of Salt (traduzido como Carol), de Patricia Highsmith. O longa recebeu seis indicações ao Oscar de 2016 e foi considerado um dos melhores filmes do ano pelo American Film Institute. A produção trata do romance de Carol Aird (Cate Blanchett) e Therese Belivet (Rooney Mara), que se conhecem e se apaixonam no contexto de uma sociedade (ainda mais) machista e lesbofóbica da década de 50.

    Carol é uma mulher de meia idade, classe alta e é retratada com sofisticação, elegância e uma presença marcante. Seus movimentos e toques são precisos, certeiros. Seus trajes, compostos e impecáveis. Ela usa luvas, boinas, roupas acinturadas e com cores fortes. Therese, por sua vez, é uma mulher mais jovem, entre os 20 e 30 anos, retratada – especialmente no início do filme – como tímida, insegura e um tanto quanto acanhada. Isso é perceptível, por exemplo, em uma cena na qual o garçom pergunta às personagens o que desejam consumir. Carol, prontamente, faz seu pedido, enquanto Therese aparenta nervosismo ao ter que decidir um prato. 

    As personagens se conhecem quando Carol vai à loja de brinquedos em que Therese trabalha, onde deseja comprar uma boneca específica para sua filha Rindy (Sadie Heim). Nesta cena, Therese a vê, primeiramente, de longe. A câmera mostra seu olhar duradouro e expressão congelada ao reparar a presença de Carol. Este plano é interrompido por outra personagem, que, ao questionar Therese sobre uma informação, faz com que ela perca Carol de vista, o que passa a sensação de desespero a quem assiste. 

    Logo em seguida, Carol aparece no balcão onde Therese trabalha, e solicita ajuda para encontrar o presente que deseja. As personagens trocam olhares, sorrisos e, ao sair da loja, Carol elogia o gorro de Therese e a observa de cima abaixo, deixando-a desconcertada. Poucos dias depois, Carol consegue seu telefone e a convida para almoçar, ocasião na qual demonstra, mais explicitamente, seu interesse por Therese.

    O filme se passa em uma época natalina e a questão temporal é bastante explorada na produção. Os acessórios das personagens, as cores das vestimentas – muitas vezes, vermelhas e verdes – e a paleta de cores em tons terrosos expressam tanto o cenário de 1950, quanto as comemorações tradicionais de final de ano. 

    Créditos da imagem: cena do filme
    Créditos da imagem: cena do filme

    Paralela à paixão que começa a despontar, Carol vive um divórcio, em que seu ex-marido Harge Aird (Kyle Chandler) não aceita a separação e a violenta de diversas formas. Uma delas consiste em proibi-la de ver sua filha, uma vez que, ao saber que sua ex-esposa se relacionava com mulheres, Harge consegue uma guarda unilateral sob o argumento de imoralidade. 

    Fora da ficção, infelizmente, julgar pessoas LGBTQIPN+ como imorais é algo muito comum. A prova disso são os resultados obtidos na pesquisa Diversidade Sexual e Homofobia no Brasil (2011), os quais explicitaram que 45% dos entrevistados acreditam que a homossexualidade está diretamente ligada à imoralidade. Aqui, é importante questionarmos: quem define o que é moral ou não? E por que a homossexualidade está sempre no lado negativo da “linha”?

    Para Wermuth e Canciani (2018), a heteronormatividade, “sistema que regula as relações afetivas e sexuais de forma binária e dualista” (p. 14), incide na razão pela qual a homossexualidade é vista como anormal e imprópria. Isso porque, uma vez que a homossexualidade é condenada como algo contraproducente, a heterossexualidade é tida como a única opção natural, desejável e correta. 

    Voltando ao filme, depois que Harge impede a protagonista de ver sua filha, ela decide se afastar de Nova York por um período e convida Therese para acompanhá-la. Juntas, elas percorrem diversas cidades do oeste dos Estados Unidos e, neste percurso, o longa retrata a aproximação das personagens. A afinidade e intimidade entre elas se constitui de forma lenta, sem desespero e ansiedade. Tudo envolto por toques delicados, olhares duradouros e insinuações sutis. 

    Em dado momento, Carol descobre que estavam sendo gravadas por um detetive, contratado por Harge, para conseguir comprovar sua “imoralidade” e assegurar a guarda unilateral permanente de Rindy. Depois disso, para tentar reverter a situação e ver sua filha, Carol decide se afastar de Therese e encerrar a relação entre as duas, o que se caracteriza como um processo difícil e doloroso. 

    Na audiência, o advogado da personagem, ao defendê-la, diz que seu psicólogo e psiquiatra atestam a recuperação de Carol desde o “incidente do inverno”, como se ela estivesse curada daquilo que, ainda hoje, é considerado doença pela sociedade. Ao perceber como sua orientação sexual estava sendo tratada como algo errado/ desvio de caráter, Carol interrompe a sessão e argumenta que, apesar de amar a filha incondicionalmente e desejar a guarda dela, ela não teria utilidade na criação de Rindy se negasse sua própria essência. Então, ela diz que cede a guarda a Harge, contanto que possa visitá-la.

    Na sequência, Carol vai atrás de Therese, sugere uma reaproximação e a convida para morar com ela. Na cena final, Therese a olha de longe, em silêncio, dando a entender que aceita o convite. Carol retribui o olhar, com os olhos marejados de felicidade e o enquadramento se fecha em seu rosto. 

    Por um lado, Carol decide viver um romance lésbico e assumir sua essência, mas, por outro, teve de abrir mão da guarda da filha para isso. Ou seja, a mensagem transmitida é que, como mulher lésbica, Carol não poderia vivenciar a maternidade e ser completamente feliz. Ao afirmar sua identidade (vista como dissidente), automaticamente, a personagem é colocada no lugar de imoralidade/ irresponsabilidade que discutimos anteriormente. 

    O filme, apesar de trazer representatividade e ter um final parcialmente feliz em comparação à maioria das produções que retratam romances lésbicos (que nos reserva um fim trágico, como em The World to Come), evidencia que certos papeis sociais não devem ser de acesso à existência lésbica, e a maternidade é um deles. 

    Por Maria Clara Soares

    Serviço

    Título original: Carol

    Onde assistir: Não está disponível em nenhuma plataforma

    Classificação indicativa: 14 anos (A14)

    Classificação da autora: 14 anos (A14)

    Justificativa: O filme tem cenas de sexo e violências, inapropriadas para crianças

    Gênero: Drama e romance

  • Saúde e universidade: ações e projetos em gênero e sexualidade

    Foto: Projeto Previna

    A garantia de serviços de saúde básica e especializada para mulheres cishétero e pessoas LGBTQIAPN+ é uma pauta importante para a Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). Por aqui, existem alguns programas que realizam atividades como testagem de Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs) gratuitamente; debate sobre bem-estar menstrual e distribuição de kits menstruais; realização de exames papanicolau para identificação de doenças como HPV e câncer de colo do útero. 

    As questões de saúde relacionadas a esses grupos enfrentam estigmas na rede pública, inclusive por parte de alguns agentes de saúde, que não propiciam um ambiente seguro e confortável para realização de procedimentos. Isso faz com que as pessoas não procurem esses serviços e não chequem, de maneira adequada, seus exames e realizem tratamentos necessários. 

    Dessa forma, a atuação da universidade vai em busca de quebrar preconceitos, viabilizar e facilitar o acesso a esses serviços e, além disso, conseguir rastrear e compor estudos sobre infecções sexualmente transmissíveis, câncer de colo do útero e HPV, por exemplo. Os projetos ampliam ainda o debate sobre os estigmas, fazendo com que as pessoas lidem de maneira leve sobre os temas. 

    Conversamos com Claudia Martins, professora do departamento de Farmácia da UFOP, que nos apresentou melhor alguns dos projetos que estão em atividade atualmente na universidade. Eles são voltados para a população não somente ufopiana, mas também pessoas da cidade que podem acessar esses serviços, tudo gratuitamente. 

    Projeto Âmbar

    Criado em 2013 e registrado pela Pró-Reitoria de Extensão (PROEX), o projeto busca identificar os desafios relacionados à saúde da mulher e elaborar ações para a prevenção e a proteção, no sentido mais amplo de saúde. Hoje, ele realiza e coleta exames de papanicolau (ou citologia oncótica) em unidades básicas de saúde de Ouro Preto, em parceria com serviços da prefeitura, e também no posto da universidade. 

    Além disso, quando uma pessoa é identificada com lesões provocadas pelo vírus, a equipe do Âmbar promove o acompanhamento e prosseguimento com o tratamento previsto no Sistema Único de Saúde. 

    Onde está? 

    O projeto atua na rede de saúde pública de Ouro Preto, realizando coleta em Unidades Básicas de Saúde (UBS) e pela própria universidade no Centro de Saúde. 

    Basta apresentar um documento com foto e o cartão do SUS. 

    Conheça mais e acompanhe no Instagram do Projeto

    Projeto Previna 

    Com o intuito de amplificar e democratizar o acesso aos testes rápidos de infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) das pessoas, o Previna promove exames de diagnóstico para hepatite B e C, HIV e sífilis. 

    O projeto promove campanhas de prevenção, diagnóstico precoce, monitoramento e auxílio no manejo das ISTs, pensando em fatores como conforto, segurança e bem-estar das pessoas atendidas. 

    Onde está? 

    O Previna realiza atendimento nas segundas e terças, de 07h30 às 16h no Laboratório de Análises Clínicas da UFOP (LAPAC) – R. Nove, 27 – Bauxita, Ouro Preto.

    Nas quartas, a equipe vai ao Centro de Referência e Acolhimento LGBTQIAPN+, de 8h às 12h – Rua Barão de Ouro Branco, nº. 82, bairro Antônio Dias. 

    Não é necessário jejum para fazer a testagem. Leve documento com foto. 

    Conheça mais e acompanhe no Instagram do Projeto.

    Projeto Ciclo Saudável

    Para atender as necessidades das pessoas que menstruam dentro da universidade, o Projeto Ciclo Saudável: Cuidado e Dignidade Menstrual na UFOP, distribui materiais menstruais, promove debates sobre o tema, para desmistificar e tornar esse momento mais simples na vida das pessoas. Os kits disponibilizados contêm absorventes, escalda pés, chá e informativos sobre o período menstrual.

    O projeto promove também rodas de conversa para tirar tabus sobre os ciclos menstruais, que devem ser normalizados e todas as pessoas devem ter acesso aos materiais. 

    Ele é direcionado para pessoas que estão sendo assistidas pela PRACE.    

    Onde está? 

    Você pode acessar esse formulário para fazer sua inscrição e, assim que for confirmada, poderá retirar o kit mensalmente em três pontos de distribuição. São eles: 

    • Centro de Saúde da UFOP (Rua Professor Paulo Magalhães Gomes, 122, Bauxita, Ouro Preto) – de segunda a sexta, de 9h às 15h; 
    • Núcleo de Assuntos Comunitários Estudantis em Mariana (ICHS – Campus Mariana Rua do Seminário, s/n, Mariana) – de segunda a sexta, 8h às 12h e de 13h às 16h; 
    • Núcleo de Assuntos Comunitários Estudantis em João Monlevade (com horários e dias de funcionamento a definir).  

    Conheça mais e acompanhe no Instagram do Projeto.

    Extra: 

    Além dos projetos apresentados acima, a universidade realiza o procedimento de colocação do Dispositivo Intrauterino (DIU) no Centro de Saúde. Para dar início ao processo, vá até o postinho e faça uma consulta com um profissional responsável, realize os exames de HIV, Hepatites, Sífilis, Papanicolau e Beta HCG (exame de sangue que detecta gravidez). 

    Após os resultados, caso não haja nenhum impedimento, basta agendar e realizar o processo, que vai de acordo com a disponibilidade do posto, tudo gratuitamente e feito por um médico direcionado para o serviço. Depois do procedimento, é preciso fazer um ultrassom para checar se o dispositivo está bem posicionado. E, passados 30 dias, tem um retorno para ver se a adaptação foi tranquila. 

    Para o processo, os documentos necessários são: RG; CPF; Cartão do SUS e comprovante de residência. Este serviço é direcionado para estudantes da UFOP e também para comunidade ouropretana (unidade de saúde atende os bairros Bauxita, Lagoa, Vila Itacolomy e Vila Aparecida.)

    Serviços Gerais: 

    Os serviços de saúde da Universidade Federal de Ouro Preto também podem ser consultados no Centro de Saúde (ou Postinho da UFOP), no Morro do Cruzeiro em Ouro Preto – Rua Professor Paulo Magalhães Gomes, 122, Bauxita, Ouro Preto. 

    Alguns atendimentos específicos necessitam de agendamento prévio. Confira mais pelo portal da UFOP.

    Saiba mais sobre os projetos e sobre saúde na universidade:

    Projeto Ciclo Saudável: Bem-estar Menstrual para Bolsistas da PRACE | ICEB – UFOP 
    Projeto Ciclo Saudável: Cuidado e Dignidade Menstrual na UFOP – Confira 
    Projeto PREVINA realiza campanha de prevenção e monitoramento das ISTs | Universidade Federal de Ouro Preto – UFOP 
    Programa Âmbar: Desafios e ações em saúde da mulher | Universidade Federal de Ouro Preto – UFOP 
    Ambar   

    Por Lia Junqueira

  • Pela janela das menininhas

    Nesta rua tão movimentada, entre as árvores, me escondo para olhar dentro dessa janela. Esse meu ritual tão sagrado aconchega meu coração e eriça os meus pelos. Todo dia a mesma luta, me levanto, calço os sapatos, tomo meu café e vou para varanda observar. Todo dia observo pela janela as minhas menininhas, seus cabelos, seus corpos, seus jeitos, suas nuances e o ódio que sentem por mim. Me escondo como posso, se me verem o circo está montado, xingam, gritam e esperneiam e tenho que me esconder melhor por um dia ou dois.

    Pela janela, de dia ou de noite, em qualquer horário, eu as observo. Umas mais, outras menos, mas todas minhas, minhas menininhas. Meu serviço estressante não me dá prazer, minha mulher já se foi espiritualmente, meus filhos crescidos não se importam, então meu coração se aconchega em vê-las. 

    Vejo que alguns também as observam, as desejam e cobiçam, passam pelas minhas menininhas e se divertem por um momento, momento esse que me deixa irado. Elas são minhas! Somente minhas, para ver, ouvir e cobiçar. Ah, se eles ousarem bater ponto na minha janela, não respondo por mim.

    Temos, nessa variedade de menininhas, as recatadas, as abusadas e as nuas. As recatadas se impressionam ao me ver, arregalam os olhos, fogem de mim e contam às abusadas, que, por sua vez, vêm até a janela, como se não acreditassem no que estava acontecendo e, de forma bruta, me xingam e me afastam dos meus prazeres. 

    Minhas preferidas são as nuas, não ligam e se mostram a mim, assim como vieram ao mundo, suas curvas e maciez me contagiam. Elas não me veem, fico às sombras para não ser percebido, quando sou notado as nuas se tornam abusadas e me afastam dos meus prazeres.

    Fico triste quando elas estão tristes, fico apavorado quando elas estão apavoradas, fico feliz quando elas estão felizes. Faço parte delas, assim como elas fazem parte de mim. 

    Meu dia se transforma em sua pior versão quando as janelas se fecham, meu acalento vai embora e meus pelos se tranquilizam, e eu volto a minha casa fria, sem nenhuma delas para chamar de minha.

    Por: Ana Beatriz Justino

  • “O Império dos Sentidos” traz ao debate o limite do prazer humano

    Foto: reprodução filme

    O Império dos Sentidos (In the Realm of the Senses, no título original) é um filme franco-japonês de 1976 dirigido pelo cineasta Nagisa Ōshima e protagonizado por Eiko Matsuda (Sada Abe) e Tatsuya Fuji (Kichizo Ishida). Em 109 minutos o diretor explora a nudez, o sexo e a liberdade sexual, tendo produzido primeiro filme de arte a utilizar cenas não simuladas de sexo, explorando os limites do ato no relacionamento entre os dois personagens. O drama erótico incrementa a produção com elementos ficcionais com a história real do romance entre Sada e Kichizo, que aconteceu em 1936 e teve como desfecho o limite sexual testado, ao longo de toda a relação, pelo casal.

    Ambientado no contexto do Japão entre-guerras, o ponto de partida do filme se dá com a chegada da ex-prostituta na casa de seu senhorio, Kichizo, onde ela vai começar a trabalhar. Logo a partir da primeira interação é estabelecida a sintonia sexual que é destrinchada até o final da narrativa, permeando toda a história de amor. O contato inicial também apresenta o dono do estabelecimento em uma posição de poder que, ao longo da história, é desmoronada pela pulsão do desejo sexual de ambos, colocando-o como submisso à Sada.

    A partir disso temos uma virada no filme, com Sada controlando e se colocando como a dominante não só na relação, mas na história. Não à toa, “a moça não é normal, ao se colocar em cima do amante no ato sexual” foi uma das justificativas na época para a censura do filme no Brasil. Mesmo que lançado na década de 70, em uma época com produções pornográficas efervescentes, a moral e os bons costumes predominavam. Moral essa que é apresentada no filme com a obscenidade trazida à cena e colocando o espectador dentro do quarto, como vouyer.

    A prática do voyeurismo é posta no filme a todo momento, desde a primeira vez em que Sada vê Kichizo, quando ele está em um contato íntimo com sua esposa e é espiado por ela e uma outra funcionária. Nagisa coloca aquilo que comumente estaria fora da cena, o obsceno, para dentro do filme e traz o sexo como tema central. Aquilo que seria realizado na privacidade, é apresentado no filme com cenas em close-up, em riqueza de detalhes.

    Mesmo diante de censuras, a crítica não deixou de considerar a produção artística de Nagisa. “Pode a pornografia ser arte?” é o questionamento que a pesquisadora Vitória Ravazio estabelece a partir do seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) nomeado “Um estudo sobre erotismo e pornografia a partir da recepção crítica de O império dos sentidos no Brasil”. Vitória traz para o debate o contexto social e histórico do lançamento da produção. Além disso, ela nos apresenta pontos pertinentes para entender a questão levantada pela mostra de filmes do projeto Ariadnes Toda Nudez será Castigada.

    Produzido no Japão e circulado, inicialmente, na França, o filme nasceu com a proposta de apresentar a pornografia na arte cinematográfica. A produção foi realizada a partir da proposta e apoio da produção do mecenas francês Anatole Dauman, que exigiu a realização de um filme pronográfico. Com a fama de Nagisa já difundida na França, O Império dos Sentidos teve o espaço necessário para explorar os limites da época da nudez no cinema. 

    Remontando à época antiga de um Japão que possuía uma produção literária erótica fortemente apreciada pela classe mais abastada, Nagisa faz uma crítica ao cenário da época, que é militarizado e com fortes influências ocidentais. Assim como outro filme da mostra,A Criada, sua produção explora o sexo que foi profundamente explorado da Era Heian até a Kamakura. Encontra-se, então, no sexo o fio condutor para estabelecer um discurso sobre a história de uma nação que tem o sexo como parte do imaginário cultural. 

    A partir da obstinação de Sada por Kichizo, o filme explora os diversos sentidos sensoriais que o sexo pode proporcionar. Obcecada pelo chefe casado, a jovem estabelece o controle daquele homem que, para ao fim do longa, passa a ser apenas um corpo com interações sexuais. A partir de um determinado momento o sexo não encontra mais espaço na casa de Kichizo, onde sua esposa reside. Logo, com a necessidade da Sada de ter o momento com ele, o casal vai para uma casa de campo onde as práticas sexuais estão imersas. 

    Com noites ininterruptas de sexo, apresentadas explicitamente na produção, a narrativa, que é ancorada nos estímulos do sexo, se consolida. A crítica de cinema Dana Stevens (2013) afirma: “O Império dos Sentidos não é sobre sexo. Ele é sexo”. Assim, a partir desse momento, o filme traz diversas propostas para experiências sensoriais ao espectador. Com o quarto do casal com cheiro forte do sexo ininterrupto, que o casal se recusava a interromper, o espectador é inserido no obsceno que configura o sexo. Dentro do quarto com os personagens, o espectador é convidado a participar dos estímulos sexuais realizados a partir do uso de comidas e da recusa da jovem de pausar o ato nem para seu parceiro dormir.É em um contexto sobre a discussão nas redes sociais da representação do sexo nas produções cinematográfica que filmes como O Império dos Sentidos retomam a discussão sobre o ato sexual, diante de uma geração cada vez mais incomodada com o sexo no cinema.

    Por Gabriel Maciel

  • Assédio: embate entre estrutura de poder e performatividade masculina

    Era uma sexta-feira, dia de terapia, pós-almoço no chamado “prédio da gerência” na fábrica onde trabalho. Tinha acabado de comer uma deliciosa feijoada com aquele gostinho de esquenta do final de semana, sabe!? Minha chefe já tinha até ido embora, eu estava nas últimas tarefas do dia, só iria escovar meus dentes, seguir com as atividades e pegar o ônibus que sairia a uma hora depois.

    Entrei no banheiro masculino, o qual demorei algumas semanas para me acostumar a utilizar – porque banheiros compartilhados não me deixam confortável – e começo meu ritual da escovação, que aprendi desde criança. Durante esse processo, o diretor da fábrica entra no banheiro e eu logo me recordo das histórias ruins de uma das pessoas mais importantes da fábrica. Ele estava ouvindo algum áudio sobre trabalho e eu aceno com a cabeça, cumprimentando com neutralidade. 

    Depois dessa breve interação, dou a licença necessária para ele ir ao mictório. Após alguns segundos, percebi que o áudio havia acabado dando espaço para um silêncio preenchido brevemente pelo barulho da minha escovação, e isso por si só me deixava desconfortável. Por não estar ouvindo mais nada, tento observar pelo espelho alguma movimentação e a escova de dente recebe mais velocidade, para que eu conseguisse sair mais rápido dali. 

    O desconforto se somava a algumas outras coisas também: uma noite mal dormida preenchida com pesadelos, o cansaço da semana, as atividades inacabadas, a blusa polo que eu estava, que estava mais curta do que o comum, e, claro, o fato de estar sendo incomodado por essa situação. Importante mencionar que o incômodo não se dava pelo modelo da camiseta, mas sim por ela estar curta no meu corpo. Curta a ponto de possivelmente mostrar minha cintura em um ambiente bastante heterocisnormativo, algo que um gay afeminado – como eu – usaria.

    Depois de usar o banheiro, o diretor se aproxima da pia onde eu estava para poder sair e eu começo a racionalizar as alternativas para conseguir dar a passagem a ele. Caso eu me afastasse para a esquerda seria para ele ir à saída, caso eu me direcionasse para a direita seria para ele lavar as mãos após o uso do banheiro. Considerei, por motivos de higiene, a segunda alternativa e estava confiante e decidido em relação a essa ação. 

    Ele se aproxima, eu me movo à direita, parando a escovação, até que sinto as duas mãos sobre a blusa polo, que já me deixava desconfortável naquele ambiente. As mãos posicionadas, sem a minha permissão, me deixaram imóvel e sem saber o que estava acontecendo. Naquele momento não consigo lembrar nem o lugar que eu estava olhando, estava tudo escuro para mim. Era o estagiário da fábrica, seu diretor e o silêncio do banheiro. Aquele homem que nunca tinha dirigido a palavra a mim estava com as duas mãos no meu corpo.

    Esse movimento, que durou frações de segundos, foi somado à sua passagem atrás de mim. Achei que tinha acabado a situação, mas ao passar por mim, pude sentir a genitália dele. Ele conseguiu me violar mais uma vez. Lembro que, após a saída do homem do banheiro, eu olhei para o espelho e soltei “Não acredito”, frase que ecoou.

    Depois disso o gosto de “esquenta do final de semana” já havia passado e foi substituído por aquele amargor de quando você escova os dentes e come algo depois. Saio do banheiro e fico me questionando repetidamente se aquilo realmente aconteceu, se foi proposital, se havia espaço para ele passar. Olho ao redor e minha chefe, com a qual tenho uma ótima relação, já tinha ido embora e o meu amigo de trabalho também. Estava sozinho. Mando uma mensagem breve ao meu namorado comentando sobre possivelmente ter sofrido um abuso. Preocupado, ele me envia diversas mensagens e eu sigo fazendo minhas atividades pendentes.

    Mas então… O que fazer depois disso? Denunciar o abuso sexual do diretor casado da fábrica? Penso que não, uma denúncia desse gênero contra um homem de meia idade, com anos de empresa, que cultua a masculinidade, já teria um desfecho pronto. Finalizo minhas tarefas e vou responder as mensagens, deixo o meu parceiro mais despreocupado e comento com ele que talvez não tenha sido “nada demais” – eu ainda acreditava nisso. 

    Ao relatar isso, diversas interpretações me vêm em relação ao assediador, ao homem que possivelmente reprime sua sexualidade e a deixa escapar invadindo, sem consentimento, outros corpos. Ele possui já alguns casos de importunações com mulheres e homens em seu “portfólio”, que são comentados na surdina, mas que não o excluem do lugar da masculinidade que ele se apega. Na medida que isso ocorre, corpos de gays jovens afeminados – e até mesmo sexualizados pela sociedade – são a válvula de escape para essa sexualidade reprimida. É, então, nesse momento que a liberdade se embate com a repressão.

    Depois de ocupar minha cabeça com as tarefas, pego meu ônibus para casa e penso: “Se fosse um homem hetéro, ele faria isso?”. Tiro minhas conclusões, e o gosto delicioso de feijoada é preenchido pelo amargor de ter que voltar ao trabalho de novo na segunda-feira.

    Naquele mesmo dia abro a caixa de pandora com minha terapeuta sobre outros abusos que vivi, revivo e tento compreender como isso me afeta. Na mesma noite vou a uma festa e fico desconfortável com qualquer toque, aproximação ou expressões corporais. Exemplo disso é que até o toque do meu namorado se tornava, naquele dia, áspero e desconfortável. Essa sexta me afetou e vai demorar para passar, assim como as outras violências. Como diz minha terapeuta: “Na próxima sessão a gente volta nisso”.