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Miradas da infância

Cartaz da mostra. Arte: Bento Vital. 
Programação completa. Olhar para as infâncias e pensar como elas mesmas imaginam o mundo. Essa é a proposta de Miradas da infância, mostra cinematográfica do projeto Ariadnes, que vai exibir longas-metragens protagonizados por meninos, meninas e menines e que apresentam perspectivas infantis sobre o mundo, ainda que esses filmes sejam dirigidos por adultas e adultos. Essas miradas se cruzam com questões sobre gênero, raça, sexualidade, etnia, região: quem são as crianças que o cinema nos mostra? Quais são e como são as infâncias pensadas ou lembradas pelos olhares adultos?
Programação
08/5: A princesinha
A little princess, Alfonso Cuarón, 1995
Adaptado do romance de Frances H. Burnett, o filme narra a história de uma órfã exposta a abusos em um internato de Nova York no início do século XX, após a morte de seu pai na Índia.15/5: Onde fica a casa do meu amigo
Khane-ye doust kodjast? , Abbas Kiarostami, 1987
Mistura entre ficção e documentário, o filme conta a história de Ahmed, que pega por engano o caderno de seu amigo e precisa devolvê-lo para evitar que o menino seja punido na escola, caso não leve o dever de casa.22/5: Meu pé de laranja lima
Meu Pé de Laranja Lima, Marcos Bernstein, 2012
Diante de uma realidade dura e da falta de afeto, o pequeno Zezé usa a imaginação para transformar um pé de laranja lima em seu refúgio e confidente. Entre travessuras e descobertas, ele encontra na amizade improvável com o “Portuga” o verdadeiro significado de ser amado. Baseado no clássico de José Mauro de Vasconcellos, o filme é um retrato poético e visceral sobre a infância e o momento em que a fantasia de ser criança dá lugar ao amadurecimento. Uma experiência obrigatória e emocionante que abraça qualquer um que assiste.29/5: O túmulo dos vagalumes
Hotaru no haka, Isao Takahata (Studio Ghibli), 1988
A animação percorre os desafios vividos por Seita, um adolescente de 14 anos e sua irmã Setsuko, de quatro anos, que depois de perderem seus pais precisam encontrar meios de sobreviver no Japão pós Segunda Guerra Mundial.12/6: Conta comigo
Stand by me, Rob Reiner, 1986
“Conta Comigo” é uma adaptação da novela “O Corpo” de Stephen King. O filme conta a história de quatro garotos que, ao descobrirem o desaparecimento de um menino em sua cidade natal, a fictícia Castle Rock, decidem ir à procura de seu paradeiro. Durante a busca, os amigos acabam vivendo uma aventura repleta de desafios e reflexões.”19/6: Close
Close, Lukas Dhont, 2022
Close é um drama belga que retrata a história de dois amigos inseparáveis, Léo e Rémi, de 13 anos, que veem sua relação mudar devido à pressão social. Sensível e impactante, o longa-metragem acompanha as consequências desse rompimento, abordando, desde cedo, temas como masculinidade tóxica, amizade e perda.26/6: Marte Um
Marte Um, Gabriel Martins, 2022
A partir das tensões políticas que se estabelecem no país após a eleição de um presidente de extrema-direita, Marte Um (2022) traz a história dos Martins, uma família negra de classe média-baixa que vive na periferia de Contagem, região metropolitana de Belo Horizonte. Sob um olhar sensível, a obra tece, a partir do acompanhamento de um cotidiano simples, múltiplas histórias que evidenciam a esperança frente a uma desigualdade social que sufoca sonhos.3/7: Lindinhas
Mignonnes, Maïmouna Doucouré, 2020
No longa acompanhamos Amy, uma menina de 11 anos de origem senegalesa que vive em Paris. Dividida entre dois mundos contrastantes — os valores tradicionais de sua família e a cultura influenciada pela internet —, ela se aproxima de um grupo de dança local, passando a explorar questões relacionadas à sua identidade, à descoberta da sexualidade e à hipersexualização infantil frequentemente presente nas redes sociais.- As sessões são gratuitas e acontecem sempre às 9h, na sala 207 do ICSA;
- Todas as sessões serão seguidas de uma conversa;
- Haverá emissão de certificados para quem comparecer a 75% das sessões.
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Sem Coração: uma jornada de amadurecimento feminino
Quando pensamos na adolescência ou na jornada de amadurecimento por que passamos, certamente existem arrependimentos, lembranças boas, sentimentos dúbios ou um pouco de tudo isso junto. Este processo é, de fato, desafiador e cheio de momentos marcantes que vão formar quem somos/seremos enquanto pessoas adultas. É nesse período também que exploramos nossa sexualidade, nossos gostos pessoais e começamos a entender que lugar — político, inclusive — ocupamos no mundo.
Sem Coração (2024) trata desse período da vida de Tamara, interpretada por Maya de Vicq, da personagem “Sem Coração”, interpretada por Eduarda Samara, e um grupo de amigos no litoral de Alagoas. Dirigido por Nara Normande e Tião, o filme se passa em 1996 e é a extensão do curta-metragem homônimo de 2014. Ele traz algumas experiências conflituosas sobre amor, violência e realidade brasileira, sem tirar de vista a questão da sexualidade, já que desenvolve uma relação sáfica entre as duas personagens principais.
Tamara (Maya de Vicq) e Sem Coração (Eduarda Samara) avistam baleia encalhada na praia. Créditos: cena do filme
Em um passado não tão distante, mas o suficiente para não haver celulares naquele local — assim como em alguns locais do Brasil que, ainda hoje, não tem a presença destes aparelhos —, a narrativa nos transporta para as últimas férias de Tamara na vila pesqueira onde mora com sua família e amigos antes de se mudar para Brasília, onde vai estudar. A rotina era ir para praia, nadar, conversar entre si, invadir algumas casas desocupadas e assistir a fitas VHS pornográficas — um retrato bem jovem. Pensando nesse momento de intensa exploração das sexualidades, ainda inexperientes, o grupo de menos de 10 pessoas se masturba sem pudor, gasta o tempo falando sobre suas impressões do mundo e expectativas sobre a vida.Como o lugar é pequeno, todos se conhecem e as realidades daquelas pessoas se chocam. Existe a diferença de classe, que é fundamental para entender algumas relações do longa — principalmente de uma das protagonistas, Tamara, que tem uma condição privilegiada em relação aos seus amigos —, a diferença de raça, que determina a maneira mais brutal como as pessoas pretas serão enxergadas, por exemplo. E, claro, existe a relação de gênero, pois o processo de amadurecimento das meninas é mais duro e até mesmo violento.
Quando Tamara avista uma jovem misteriosa com uma cicatriz no peito, um sentimento diferente cresce dentro dela, uma admiração sem nome começa a ganhar espaço. “Sem Coração”, como é conhecida por conta da cirurgia que fez quando mais nova, tem uma vida bem distante de sua colega, já que precisa trabalhar pescando para garantir a sobrevivência de sua família. Em um trecho do filme, fica subentendido que, para complementar a renda, ela transava com alguns meninos da região em troca de dinheiro.
As duas desenvolvem uma amizade e parceria que vai se transformando num desejo. Até que, por fim, elas se beijam, como concretização de suas vontades e representação da liberdade da juventude. Elas podem ser quem desejam por uma fração do tempo, na tarde em que se encontram na casa abandonada e véspera de uma separação, já que Tamara está deixando a vila em breve.
Mas é importante observar a distância de realidades das duas meninas, que habitam o mesmo local mas em mundos diferentes. Enquanto Tamara pode sair da vila para buscar boas condições de estudo com o apoio dos pais, “Sem Coração” enfrenta a dureza de trocar estudo por trabalho e não tem perspectivas de “mudar de vida”. É interessante pensar sobre a construção de feminilidade das duas, já que compartilham o mesmo gênero e idade, mas possuem responsabilidades e pesos diferentes de ser mulher. Até mesmo porque “Sem Coração” é uma menina preta e pobre, enquanto Tamara é branca e de classe média.
É impossível ignorar essas sensações, assim como é impossível ignorar a baleia encalhada na praia — feita em tamanho real pela direção de arte do filme —, que representa os medos, o ato de descobrir e explorar aquilo que, de tão grande, não sabemos como lidar. O filme explora a adolescência bem como essa fase complicada, repleta de ansiedade, medo do novo e receio do que está por vir. É o sentimento de querer fazer tudo mas se deparar com uma sociedade desigual, racista, machista e que poda alguns de nossos sonhos.
Tamara (Maya de Vicq) e o grupo de amigos se abraçam. Créditos: cena do filme Sem Coração trata de um crescimento em conjunto, com suas diferenças demarcadas, mas em um movimento intenso de lidar com a nova fase da vida chegando. É perder a inocência infantil e começar a “sair do ninho”, pensando, claro, que alguns personagens possuem tempos diferentes, mais ou menos privilégios e até um certo nível de violência. A obra aborda desde o mais sensível até o mais duro, visitando, de maneira breve, diversos pontos da imensidão confusa que habita em nós no processo de crescer.
Tamara, Sem Coração e todo o grupo de amigos nos convidam a observar, e até olhar com mais carinho, para a adolescência. Elas nos lembram como é difícil, como dá medo e como é preciso mais compreensão nesse momento.
Para elaborar o texto, li algumas críticas que me ajudaram a construí-lo e entender alguns pontos do filme. São eles:
Críticas do AdoroCinema – Sem Coração
Sem Coração no Centro da Terra
‘Sem Coração’: Um poético estudo sobre as dores e descobertas do crescimento humano – Mídia NINJAServiço:
Título Original: Sem Coração
Onde Assistir: Netflix
Classificação Indicativa: 16 anos (A16)
Classificação da autora: 16 anos (A16)
Justificativa: O filme aborda a juventude de forma consistente e próxima ao real, com altos e baixos.
Gênero: Amadurecimento; Drama; Ficção.Por Lia Junqueira
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Onde a liberdade se confunde com crime: o consentimento nas festas
O ambiente republicano e as festas universitárias em Mariana e Ouro Preto em tese nos dão liberdade para ser quem somos e fazer o que desejamos, desde beijar quantas pessoas quisermos até performar a sexualidade e gênero com certa segurança nesses locais. Porém, algumas noções de consentimento parecem ficar confusas com as experiências que temos ao longo do tempo.
Principalmente para as meninas e mulheres — digo isso pois existem as recém-chegadas na universidade, com menos de 18 anos —, os homens aparentam não entender os limites impostos por elas, com seus corpos e sexualidade. Parece óbvio, mas é preciso dizer mais uma vez que uma mulher dançando, por exemplo, não é um convite para qualquer pessoa invadir esse espaço.
Não é porque uma pessoa está dançando livremente que ela, primeiro, deseja a companhia de alguém e, depois, que ela está “se oferecendo”. Muitas vezes a dança tem como único objetivo ela mesma e a diversão. No entanto, os parâmetros do consentimento e do desejo ficam deturpados com tamanha liberdade experienciada pelos jovens ufopianos*, no sentido de entenderem que têm “passe livre” com todas as pessoas, o que não é verdade.
Ao chegar a uma festa, ou rock*, é comum observar pessoas flertando, claro, mas também são comuns as cenas em que homens insistem de forma incisiva — e até violenta — para ficar com as mulheres. Ou mesmo afirmarem que são “amigos” e “é só um beijo, o que tem demais?”. O que tem é a falta de vontade, simples. Quando falamos da autonomia nesse ambiente, é, inclusive, a autonomia de dizer não.
Sobre a sexualidade, outra obviedade precisa ser dita: se uma mulher é lésbica, ela não vai beijar um homem apenas por ele ser “amigo”. E, na verdade, esse motivo é suficiente para um amigo não pedir para ficar com uma mulher lésbica, certo? Essas percepções básicas aparentam ficar de lado nessas ocasiões.
Sinto que existe quase uma obrigatoriedade de viver “intensamente”, beijando, frequentando festas e bebendo em grande quantidade. Mas é importante lembrar que fazer ou não essas escolhas cabe somente a nós, que sabemos nossos limites e nos conhecemos, ninguém mais pode limitar nossa liberdade. Infelizmente, ainda é preciso dizer mais de uma vez, ou até mesmo gritarmos, para sermos ouvidas.
A cultura em que estamos inseridas nos coloca em uma situação contraditória, diz que temos toda a liberdade, mas essa liberdade é utilizada contra nós, mulheres. É como se fôssemos tão livres que não pudéssemos dizer não. É essencial que possamos entender e enxergar esses acontecimentos como crimes, o que eles são, e que não demos continuidade a práticas como essas.
Muito se fala sobre a independência, mas é indispensável que essa independência seja integral e não nos aprisione nas mãos de homens que se dizem “evoluídos” mas não respeitam nosso próprio corpo. Estejamos atentas por nós e por aquelas que estão ao nosso redor.
*Jovens que estudam na Universidade Federal de Ouro Preto
*Como as festas de república são chamadas em Mariana e Ouro Preto -
Crítica tem gênero e cor: por que atletas de alto desempenho ainda são criticadas pelo cabelo?

Montagem das atletas Gabby Douglas e Simone Biles
Créditos: Donald Miralle /Sports Illustrated Antonio Martinez/Europa Press
O cabelo para pessoas negras, principalmente para as mulheres, é um símbolo além da estética, que representa resistência, autoestima, autocuidado e identidade. Mas também é alvo de comentários racistas e preconceituosos. As olimpíadas atraem a atenção e os olhares de todo o mundo para as competições dos vários esportes. E, na internet, durante as disputas, tudo é comentado, do desempenho dos atletas, principalmente femininas, até as roupas, maquiagem e cabelos.
Simone Biles é a maior medalhista da história na ginástica artística feminina . A Olimpíada de Paris, em 2024, foi um momento importante para a carreira dela, pois representou seu retorno após desistir da competição em 2020, em Tóquio, devido a questões de saúde mental. Biles voltou a competir em 2023, no Mundial da Antuérpia, onde realizou um duplo mortal carpado no ar (chamado Yurchenko Double Pike) que depois foi nomeado de Biles II, pois ela foi a única que conseguiu completar o movimento. A ginasta tem mais quatro acrobacias com seu nome.
Enfim, Simone é uma grande atleta, mas ainda assim o que chama a atenção de algumas pessoas e é alvo de comentários na internet é sua aparência, principalmente o seu cabelo. Ele é alisado e quando a ginasta vai participar de competições usa penteados presos, como tranças, que geralmente são feitas por sua mãe, e coques. Esse assunto foi um tópico tratado na série documental O Retorno de Simone Biles (original: Simone Biles: Rising), da Netflix, que acompanha os bastidores e a preparação física e mental da atleta para Paris 2024. Biles desabafou que os comentários sobre seu cabelo, na Olimpíada de 2016, no Rio de Janeiro, a incomodaram. “Disseram que era um cabelo bagunçado, duro, fora do lugar. As pessoas ficam confortáveis comentando coisas e por isso eu silencio [nas redes sociais]. O padrão de beleza é demais.”
Em 2017, a ginasta usou seu perfil no X (antigo Twitter) para contestar os comentários que recebeu sobre seu cabelo após uma participação em um evento nos Estados Unidos. “Tenho uma pergunta para todos que comentam sobre meu cabelo quando pareço genuinamente feliz na foto. Você parece perfeito o tempo todo? Tudo está em perfeita ordem?”, escreveu.
Neste ano, após ganhar sua quinta medalha de ouro nos Jogos Olímpicos, a atleta falou, de novo, em suas redes sociais sobre as críticas ao seu penteado durante o evento de qualificação da ginástica artística feminina. Biles postou stories em seu Instagram com a mensagem: “Não venha falar comigo sobre meu cabelo. Ele foi arrumado, mas o ônibus não tem ar condicionado e está tipo 90000 graus”, escreveu a ginasta. “Da próxima vez que você quiser comentar sobre o cabelo de uma garota negra, simplesmente não comente.”

Reprodução/ Instagram/ @simonebiles. O Retorno de Simone Biles cita que nas olimpíadas, antigamente, a aparência das ginastas importava muito e cabelos loiros e lisos eram considerados os mais bonitos, o que excluía mulheres negras de serem reconhecidas como bonitas e talentosas. Simone diz que sabe como é ser a única mulher negra na equipe e não ter nenhuma referência para seguir, mas que “felizmente, tivemos Betty Okino, Dominique Dawes, Gabby Douglas e muitas outras, mas foi um pouco tarde”. E essas atletas, citadas por Biles, também sofreram com os padrões de beleza eurocêntricos.
Há 12 anos, Gabby Douglas, com 16 anos, foi a primeira negra a conquistar o ouro no individual geral da ginástica artística nos Jogos Olímpicos, em 2012. Mas o que repercutiu mesmo nas redes sociais, Twitter e Facebook, foi o seu cabelo “feio” durante a competição. Os estadunidenses reclamavam que ela precisava cuidar do cabelo, passar um gel e escova, e “representar” as mulheres negras. Aliás, algumas mulheres negras eram autoras dos comentários contra a atleta, reproduzindo a violência enraizada de que os cabelos crespos têm que estar sempre alinhados.
Por muito tempo, e ainda hoje, tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, o preconceito com cabelos crespos e cacheados é grande. Pessoas negras alisam o cabelo ou os usam presos e esticados, para se sentirem aceitas e inseridas em alguns âmbitos da sociedade, como no ambiente de trabalho. Às vezes, desistem de participar de certas atividades com medo de mostrar os cabelos ou do suor que fariam os cabelos ficarem bagunçados. Uma pesquisa de 2017, intitulada The Good Hair Study, do Perception Institute, diz que uma em cada três mulheres negras não participa de esportes e uma das causas é o cabelo, em comparação com uma em cada dez mulheres brancas.
A cabeleireira estadunidense Malaika-Tamu Cooper diz na matéria O cabelo afro como direito civil nos Estados Unidos, do El País, que alisar o cabelo é, para além da vaidade, uma maneira de decidir como “sobreviver na América corporativa branca”. A reportagem também discorre sobre a ideia, alimentada pela mídia, de que o cabelo liso leva ao avanço econômico e social e que a mulher afro-americana mais rica no início do século XIX construiu sua riqueza a partir desse pressuposto. Madam C.J. Walker vendia produtos para alisar cabelos e o famoso “pente quente”.
O livro Sem perder a raiz: Corpo e cabelo como símbolos da identidade, da pedagoga e antropóloga Nilma Limo Gomes, retrata a importância dos cabelos em algumas comunidades africanas nas quais os cabelos tinham significado social e importância na vida cultural das etnias. O cabelo também era parte de um complexo sistema de linguagem e podia indicar estado civil, origem geográfica, idade, religião, identidade étnica, riqueza e posição social das pessoas.
Por isso – e outros motivos – ainda hoje o cabelo é um símbolo muito importante para a comunidade negra. Seja de resistência como os black powers, dreads e tranças, ou estética como laces, perucas e alisamentos. O que importa mesmo são as pessoas se sentirem livres para usarem o cabelo como preferirem, e como se sentem melhor. Alisar os cabelos não quer dizer negar a negritude ou não amar o seu cabelo, e isso também não deve ser passível de crítica ou questionamentos públicos. Nas olimpíadas o objetivo das atletas é executar os exercícios da forma mais precisa possível e não estarem com os cabelos e a maquiagem perfeita.
Por Ana Rodrigues
Textos que me ajudaram a construir o texto: https://stealthelook.com.br/as-atletas-negras-e-seus-cabelos-nas-olimpiadas-2024/
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Uma pauta para gênero e sexualidade na UFOP
Em menos de um mês, a Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) irá escolher uma nova gestão para os próximos quatro anos na consulta paritária que ocorre entre 2 e 3 de outubro. Entre as muitas questões urgentes que aflige e preocupam a comunidade universitária, o Ariadnes se debruça sobre o que considera ser uma pauta básica e fundamental de compromisso para a UFOP avançar nas questões relativas a gênero e sexualidade.
Compreendemos que, apesar de a universidade ser pensada e desejada como espaço de educação para a liberdade, ela é, muitas vezes, para muitas pessoas, local de exclusão, preconceito, violência e desigualdade. E os corpos sobre quem recaem as expressões de poder e ódio são corpos femininos, não-brancos, de extratos socioeconômicos inferiores, pertencentes à comunidade LGBTQIAPN+, com deficiência, indígenas. São, enfim, corpos com marcadores identitários da diferença em relação à imagem ideal do acadêmico: um homem, branco, de elite, funcional, cis, heteronormativo.
Acreditamos que não existe transformação possível que leve a universidade ao desejo utópico que a move que não leve em conta os atravessamentos de gênero e sexualidade. Acreditamos que a UFOP não irá avançar enquanto não enfrentar as violências que ocorrem, as desigualdades que se perpetuam, as barreiras erguidas e tradições ditas imutáveis.
Por isso, para nós do Ariadnes, é imprescindível que a próxima reitoria se comprometa, no mínimo, com as seguintes pautas:
- Enfrentar violências de gênero no ambiente republicano;
- Instaurar cotas e políticas de permanência para pessoas trans na graduação, pós-graduação e processos seletivos;
- Ampliar a oferta de bolsas para sujeitos vulnerabilizados na graduação e na pós-graduação;
- Tornar gratuita a emissão de novas vias de diplomas com nome social para pessoas trans e divulgar a possibilidade de troca gratuita dos diplomas;
- Ampliar a verba de programas voltados a gênero e sexualidade na UFOP, como PIDIC, Ciclo Saudável, Ouvidoria Feminina;
- Fortalecer políticas de permanência e desenvolvimento de mães na universidade, sejam docentes, estudantes, técnicas ou terceirizadas;
- Criar espaços de apoio para a presença de crianças na universidade, como creches, salas lúdicas, espaços de aleitamento, trocadores;
- Incentivar e financiar colônias de férias oferecidas na e pela universidade para a comunidade acadêmica, sobretudo em períodos de não coincidência entre o calendário escolar da Educação Básica e o da UFOP;
- Modificar o regimento da UFOP a fim de tornar claras as violências de gênero e sanções específicas;
- Instituir formação transversal em diversidade, gênero e sexualidade na graduação da UFOP;
- Criar formações obrigatórias em gênero e sexualidade para recém-empossados e empossadas, no âmbito do programa Sala Aberta;
- Incentivar paridade de gênero e presença de pessoas LGBTQIAPN+ na gestão superior da UFOP;
- Oferecer moradia ou espaços de acolhimento para pessoas em conflito familiar em função do gênero ou sexualidade;
- Ampliar o atendimento em saúde mental nos campi da UFOP;
- Fomentar ações, eventos e debates sobre gênero e sexualidade, em interseção com violência, geração, raça, classe e deficiência, entre outros;
- Produzir e divulgar periodicamente dados e indicadores internos sobre questões relativas a gênero e sexualidade, incluindo processos administrativos disciplinares e punições;
- Incentivar a institucionalização, nos Projetos Pedagógicos de cursos de graduação e pós-graduação, de disciplinas, linhas de pesquisa e áreas de concentração em gênero e sexualidade.
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Dependendo do seu lugar na hierarquia, é permitido assediar

Eu estava na minha casa, em um momento feliz com minhas amigas, era uma festa comum do ambiente republicano. Foi quando chegou esse homem, mais velho, conhecido e que não está na universidade há alguns anos.
Ele chegou entrando, sem nem mesmo ter sido convidado, e falando com todas as pessoas. Eram papos estranhos, aproximação demais e insistência fora do normal quando ia dar em cima de alguma menina. Tudo isso foi se tornando um problema naquela noite. A presença não desejada e as importunações recorrentes me fizeram ir atrás dos colegas dele.
Eles afirmaram que também estavam desconfortáveis com a presença dele. No entanto, não podiam fazer nada, já que aquele homem ocupa um lugar alto na hierarquia da casa – que é como as repúblicas de Mariana e Ouro Preto se dividem, com uma ordem dos mais velhos para os mais novos na casa; e os mais velhos detêm mais respeito.
“Ele é ex-aluno, não podemos fazer nada.”
Mas, dependendo do lugar na hierarquia, é permitido assediar sem que ninguém fale nada? Você é sobre-humano? Não existe punição para ex-alunos? Pensei sobre essas questões durante muito tempo, mas vejo que elas ficam sem resposta diante das consequências para pessoas de república que assediam e importunam mulheres.
As consequências – desses crimes – não são tratadas com a seriedade que deveriam. A grande punição? No máximo, ser “catado” – que é a expulsão da casa. É preciso coragem para enfrentar esse modo de funcionamento próprio da bolha republicana, porém somos constantemente desestimuladas a agir. Seja porque são ex-alunos, mais velhos, ou simplesmente porque é difícil nadar contra essa correnteza forte e bem estruturada.
Nesse dia, ele foi embora da minha casa depois de ter assediado todas as pessoas que moravam aqui. Ficamos, desde então, aterrorizadas com a presença dele em qualquer lugar, e mesmo depois desse episódio, ele continua no mesmo lugar naquela parede de quadrinhos e fui obrigada a cumprimentá-lo com educação quando nos encontramos.
Relato anônimo
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Até que ponto estamos seguras no ambiente republicano?

Fui a uma festa com a intenção de me divertir, beber e dançar com minhas amigas. Chegando lá, logo entendi que o ambiente não era seguro e tinha que fazer tudo para me proteger dos assédios, que, nesse dia, eram muitos.
Meu grupo tentou fazer uma rodinha para se proteger, mas nem assim deixamos de ser importunadas. Tinha homens para todos os cantos – mas isso não é problema, óbvio –, sem camisa, bêbados e drogados. Eles vinham atrás da gente, chegavam perto e tentavam encostar no meu corpo.
Quando íamos ao banheiro, ou pegar algo para beber, não podíamos ir sozinhas. Nem pensar em ir sozinhas, pois éramos seguidas. Chegou a um ponto tão insuportável que comecei a subir no murinho atrás de mim para me proteger das investidas desse grupo de homens.
Eu estava, literalmente, subindo nas paredes dessa casa para não ser assediada.
Nesse dia, eu e meu grupo de amigas não conseguimos curtir nada. Mesmo com o desconforto visível que muitas mulheres nesse ambiente pareciam e comentavam estar, nada foi feito. Os assediadores continuaram ali e, além disso, ainda eram bem quistos pelos organizadores da festa, que não se importaram com os crimes em plena vista.
Fui embora bem cedo, não me diverti nem um pouco nessa festa. Na verdade, foi um dia terrível, que não quero nem lembrar. Festa ali eu não vou mais.
Relato anônimo
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Pobres Criaturas: a visão masculina ou a liberdade de ser mulher?
A atriz Emma Stone em cena do filme. Crédito: cena de Pobres Criaturas “Gloriosamente demente e vivo” (Entertainment Weekly, 2023); “Inteligente e obscenamente divertido” (Time Out, 2023); “Nos convida a aceitar a parte mais corajosa e mais ousada de nós mesmos” (Loud and Clear, 2023). Essas são algumas das classificações que Pobres Criaturas (Poor Things, no título original) recebeu nos últimos tempos. Com um pé na ficção e outro na realidade, a narrativa nos instiga a pensar nas diversas possibilidades da vida. O filme é de 2023, dirigido por Yorgos Lanthimos e protagonizado por grandes nomes como Emma Stone – que também é produtora da obra – , Mark Ruffalo e Willem Dafoe.
Ele conta a história de uma mulher que, ao tentar tirar sua própria vida, é ressuscitada por um médico e torna-se um “experimento” dele. Com isso, Bella Baxter (interpretada por Stone) fica num corpo de adulta com mente de criança, que se desenvolve a cada dia. Quando um dos alunos – Max McCandles (Ramy Youssef) – do Dr. Godwin Baxter (Dafoe) começa a participar do estudo, ele oferece a mão da moça, para que se casem – mas com uma condição: nunca sair de perto do “pai”.
Para os trâmites do contrato nupcial, Godwin contrata um advogado, Duncan Weedburn (Ruffalo), que, ao ler as condições, fica intrigado para saber quem é a donzela “de tamanho valor”. Ele invade o quarto de Bella e instantaneamente desperta seu desejo por ela, acreditando tratar-se de uma mulher inocente e curiosa. No meio da noite, Duncan retorna à residência Baxter e a convence a desbravar o mundo junto com ele em uma viagem para Lisboa – já que, até então, não era permitida sua saída da casa e nem o contato com ninguém além de Godwin e sua equipe.
Mesmo com os empecilhos, Bella consegue “se libertar” e realiza a viagem com o advogado, desde o início regada a experiências sexuais – que, até então, a personagem não havia vivenciado. Mas, se pensamos que ela ficaria apegada a ele como seu único parceiro, estamos enganadíssimas. A personagem desbrava esse novo mundo em todos os sentidos possíveis; seja na culinária, em bebidas alcóolicas, contato com novas pessoas ou sexo, ela está aberta a tudo e em desenvolvimento frequente.
Por ter a mente infantil, ela enxerga tudo com certa “crueza” e inocência, no sentido literal mesmo, não compreendendo ironias e complexidades da “sociedade polida”. E isso diz muito sobre a maneira como Bella enxerga e vivencia o sexo, não somente como uma experiência prazerosa, mas também como potente formadora da identidade dela, que toma boa parte da trama. Ela entende a prática sexual como parte essencial da vida, o que acaba trazendo uma subversão dos papéis de gênero, já que Duncan – que se diz livre, mulherengo e desapegado – começa a surtar ao vê-la tendo mais desejo por outras pessoas e não somente por ele.
Emma Stone e Mark Ruffalo em cena do filme Quando falo dessa troca de papéis, penso no capítulo “Pedagogias da Sexualidade”, do livro “O corpo educado: pedagogias da sexualidade” de Guacira Lopes Louro, quando a autora explica que as meninas são criadas com determinados dispositivos “femininos” e, por outro lado, os meninos criados com outros dispositivos. E, justamente, esses pontos criam visões e lugares diferentes que ocupamos no mundo, onde os homens são viris, “pegadores” e livres, já as mulheres são belas, recatadas e puritanas. Dessa maneira, o advogado fica nervoso ao observá-la tão desprendida, já que é acostumado com mulheres caindo aos seus pés. Há uma cena em que ela vai dançar conforme sua vontade, do seu jeito e Duncan levanta-se e tenta “domá-la” de alguma forma, para que dance apenas como ele espera. Contudo, ela se afasta das garras dele e mostra-se mais solta ainda.
O que Yorgos Lanthimos e Emma Stone nos trazem em Pobres Criaturas faz essa perspectiva dos gêneros balançar inteiramente, uma vez que Bella explora seu próprio corpo em uma casa de prostituição por escolha, por exemplo, ou quando se masturba todos os dias para gozar e “ser feliz” – como diz no filme. O longa tem essa presença erótica muito forte, com direito a nudez frontal e sexo explícito e foi, inclusive, criticado por isso muitas vezes, não somente por essas cenas, mas também por uma visão “masculina” representada pela personagem. No entanto, será que é mesmo uma visão masculina ou estamos incomodadas com a liberdade feminina que Bella Baxter possui?
A própria atriz comentou sobre a repercussão negativa, afirmando que “houve muitas perguntas sobre, ‘Oh, esse era um escritor homem e um diretor homem, o olhar masculino nessa situação – como se sente?’ Acho que isso tira minha agência aqui […] Porque eu sou a produtora. Essa é a história que queríamos contar da maneira que queríamos contar. Então parece um pouco estranho para mim meio que me tirarem disso, porque eu estava atuando como se eu não fosse uma voz importante ali também, ou se me dissessem o que fazer”. Ela fala também sobre a importância desempenhada pelo sexo na narrativa, que é fundamental para o crescimento da personagem e foi uma escolha.
Fico pensando, além disso, no lugar dela enquanto agente, já que Bella não foi apenas um objeto, mas sim uma agente ativa nas cenas, nas quais ela impunha suas vontades e perguntava quando sentia-se incomodada. E mais, em uma das cenas ela afirma que nós, seres humanos, somos um “banquete em mutação”, o que desperta ainda mais o desejo pelas descobertas, pela libertação e experimentação. Mesmo na fase em que ela fica na casa de prostituição, há uma investigação do que é bom e o que não é; dos diferentes homens que frequentam e, até mesmo, sexo entre mulheres.
Inclusive, nesse período em que ela está no bordel da Ms. Swiney (Kathryn Hunter), observamos traços marcantes da realidade doentia que vivemos, quando um pai leva seus dois filhos crianças/pré-adolescentes para ver “como transar” ou com a presença de um padre. Ademais, vemos os fetiches mais bizarros, na cena em que Bella é amarrada e suspensa e um homem se esfrega no corpo dela.
Outro ponto, levantado no debate da mostra Toda Nudez Será Castigada na última sexta (23/8), é sobre a estranheza que sentimos ao observar Bella em seu desenvolvimento. Talvez esse tenha sido um dos motivos para as críticas, pois, até o voyeurismo – quando uma pessoa tem prazer com a observação de outros transando – ficou meio sem lugar ao vê-la ativamente no mundo do sexo. Não é “convidativo” ou atraente, e pode ter deixado alguns espectadores (homens, rs) frustrados.
A trama se desenrola com a personagem retornando a Londres, sua casa, quando o dr. Godwin está doente, prestes a morrer, e ela vai se casar com Max McCandles. No momento do casamento, Duncan e Alfie Blessington – o “marido” do corpo original dela, ou seja, de quem era antes – aparecem para impedir a união e levá-la de volta para sua antiga vida, já que o médico a resgatou de uma tentativa de suicídio. Bella retorna para a vida de Victoria Blessington e percebe por que deixou aquele lugar, que era cruel e a violentava. Ela retorna para sua casa, inicia os estudos em medicina e permanece com aqueles que querem seu bem, como Toinette (Suzy Bemba), uma das amigas que fez, e Max.
Emma Stone em cena final de Pobres Criaturas No final das contas, ela tira lições essenciais sobre a vida e sobre sua própria liberdade, em que ela precisa poder escolher e não ser enganada. Sobre o debate de sexo, a pesquisadora e crítica de cinema Isabel Wittmann afirma em Pobres Criaturas, sexualidade e autonomia que “Toda essa discussão sobre Pobres Criaturas e sobre o comportamento e as ações de Bella Baxter parece vir do desconforto que a descoberta do corpo parece gerar. Parece ser sobre uma incapacidade de conceber que uma mulher (mesmo ficcional) deseje. Se a trama tem sexo, esse sexo é percebido como forçado (ou na frente ou atrás das câmaras) e ela necessariamente é objetificada. Não há espaço para a possibilidade de agência, autonomia e mesmo expressão criativa (diegéticas ou extra-campo). Mulher não pode querer. Liberdade e gozo feminino incomodam, ainda.”
Por fim, penso que não existe uma resposta “certa” ou única para a pergunta do título, pois precisamos considerar uma série de coisas até chegar a um determinado lugar. Porém, devemos estar atentas a representações positivas sobre gênero e atentas a suas problematizações. Que tenhamos a liberdade e o ímpeto pela descoberta de Bella Baxter e não voltemos para um período de repressão de quem somos e do nosso prazer.
Por Lia Junqueira
Serviço
Título original: Poor Things
Onde assistir: Disney +
Classificação indicativa: 18 anos (A18)
Classificação da autora: 18 anos (A18)
Justificativa: A narrativa é complexa de ser compreendida, com cenas de sexo e violência.
Gênero: Ficção Científica/Comédia. -
A Criada: uma narrativa bem construída, perversa e deliciosamente erótica

créditos da imagem: cena do filme “Perverso e delicioso” (Wittmann, 2017), A Criada é um filme de 2016, dirigido por Park Chan-Wook e interpretado pelas protagonistas Kim Min-Hee (Hideko) e Tae-ri Kim (Sook-Hee). A produção trata de uma história complexa, repleta de reviravoltas, surpresas e vinganças. Fujiwara (Jung-woo Ha) é um golpista, que tenta se passar por conde para conquistar a condessa Hideko, herdeira de um grande patrimônio familiar. Então, ele contrata Sook-Hee para se passar por criada de Hideko e fazê-la se apaixonar pelo suposto conde; assim, ele poderá se casar com a herdeira, ficar com sua fortuna e interná-la em um hospício.
Mas, não é bem assim que a trama se desenrola… Ao longo do filme, uma paixão entre as personagens vai surgindo, o que muda todos os planos. A primeira cena em que as duas se conhecem é quando Hideko supostamente tem um pesadelo e grita em busca de socorro. Sook-Hee, então, vai até seu quarto para acalmá-la e se deita com ela. Em outra cena, na qual Sook-Hee é apresentada formalmente à condessa, ela se pega desconcertada diante de sua beleza e tem o seguinte pensamento (revelado somente a quem assiste): “Mas que inferno! O conde deveria ter dito que ela era tão bonita, estou completamente desconcertada”. Em seguida, Hideko pergunta a ela se gostou da casa e, antes da resposta da criada, complementa: “Sabia que o Sol quase não entra aqui? O meu tio não permite… Os raios de Sol desbotam os livros. Ninguém gosta de lugares tão sombrios”, já trazendo um sentimento de compaixão à personagem.
No início, apesar dos sentimentos de empatia e paixão já estarem crescendo, Sook-Hee tenta se concentrar em seu papel: fazer Hideko se apaixonar pelo conde. Afinal, ele lhe prometeu dinheiro e joias, e isso mudaria sua realidade financeira. Por isso, logo depois das apresentações formais, ela diz à condessa que Fujiwara (o conde) fala muito bem dela, que “toda noite na cama ele pensa em seu rosto”. A condessa finge acreditar, mas não pergunta muitos detalhes. Ao longo da trama, Sook-Hee faz vários comentários desse tipo, como “suas unhas dos pés crescem mais rápido quando vê o conde” ou “desde que o conde chegou, suas bochechas estão mais coradas” e, muitas vezes, irrita a condessa, que claramente não está apaixonada por Fujiwara.
O filme é repleto de cenas eróticas, envolventes e calorosas. A primeira delas consiste em Sook-Hee raspando um dos dentes de Hideko com os dedos, após ela reclamar que estava afiado demais e cortando. Neste momento, Hideko está tomando banho em uma banheira e, em volta dela, há produtos de banho como óleos e hidratantes, que deixam a cena mais composta e detalhista. Ela está nua e seu olhar e da criada se cruzam, ao mesmo tempo em que o enquadramento da câmera se movimenta e desce para os seios da condessa, representando o olhar de Sook-Hee.

créditos da imagem: cena do filme Em outra passagem, o recurso utilizado pela produção é semelhante: quando Sook-Hee tira o vestido de Hideko, o enquadramento desce e se movimenta para suas costas, representando, novamente, o olhar da criada. Ali, a intimidade das personagens vai sendo construída e em cenas seguintes, Sook-Hee começa a ficar desestabilizada quando vê aproximações entre condessa e Fujiwara. Paralelamente, a primeira cena de sexo entre as protagonistas ocorre sob o contexto que a condessa pergunta a Sook-Hee a respeito do que “os homens querem” depois do casamento (referindo-se à noite de núpcias) e alegando que ela é muito ingênua e inexperiente para saber. A criada, então, comovida (e interessada), dispõe-se a mostrar, na prática, “o que os homens querem”.
Ao se beijarem, Hideko se sente tomada de emoção e excitação, e pergunta: “Essa é a sensação?”, enquanto Sook-Hee, para não sair da personagem e justificar as seguintes ações sexuais, responde: “É isso que você vai sentir pelo conde”. Na sequência, as personagens fazem sexo, explorando mutuamente seus corpos e prazeres, ao mesmo tempo, narrando e acrescentando suas percepções, como no momento em que a criada, ao fazer sexo oral em Hideko, diz: “É tão quente, úmido, macio e fascinantemente lindo”. Sobre essas cenas, em uma entrevista à Folha de São Paulo, o diretor afirma que tentou, ao máximo, se afastar de objetificar os corpos das mulheres. Não à toa, nas passagens em que as personagens faziam sexo, segundo o site Adorocinema, Park Chan-Wook proibiu a presença de homens no set, inclusive ele mesmo, e construiu um ambiente “com pouca iluminação, velas, música e vinho para facilitar o relaxamento das envolvidas” (Leone, 2023).
Tal afirmação do diretor remete ao que conversamos na mostra Toda nudez será castigada, no dia 16/08, sobre nem toda imagem sexual ou erotizada ser objetificada. “Objetificar implica transformar em objeto, retirar a agência. A ideia de que um corpo erótico seja sempre objetificado implica na crença de que nenhum pessoa, nunca, tenha algum desejo que perpasse seu corpo. Implica, mesmo, até no julgamento moral sobre fetiches” (Wittmann, 2022). Isto é, taxar toda e qualquer cena de sexo como objetificada, além de beirar o conservadorismo, restringe a possibilidade de incômodo que o filme é capaz de nos gerar, além de limitar a representatividade da multiplicidade de desejos e erotismos. Neste sentido, Isabel Wittmann, em Reflexões sobre sexo e nudez no cinema (2022), afirma: “É claro que podemos problematizar a erotização da violência sexual, o olhar masculino e a objetificação. Podemos questionar para o prazer de quem as imagens são criadas, que desejos elas representam, quais discursos extraímos delas” e, ainda, complementa que “extirpar toda e qualquer presença desses elementos entendidos como incômodos de toda arte é como jogar o bebê fora com a água do banho”.
Esse debate é extremamente importante, uma vez que, segundo uma pesquisa conduzida pela UCLA, os jovens da geração Z (nascidos entre 1997 e 2010) preferem que não haja cenas de sexo nos filmes, veem como “desnecessário”. O que nos leva a questionar: o que define o que é necessário ou não nas produções audiovisuais? Por que a representação dos desejos e fetiches estão sendo vistas como de menor importância, a ponto de serem generalizadas como negativas? Wittmann (2022), acrescenta: “Eu não quero menos cenas de sexo só porque uma parte das que vemos hoje são “problemáticas” ou desinteressantes. Eu quero mais, feitas por gente mais diversa, com outros olhares (feministas e queer, entre outros)”.
Em A Criada, por exemplo, o diretor cumpre com maestria o papel que tinha proposto: as cenas de sexo são intensas, brincam com a fronteira entre o implícito e o explícito, envolvem quem assiste e, ainda, são cenas bem construídas com todo um enredo por trás. Ao contrário do que pensa o discurso conservador, as cenas que apresentam objetificação sexual da mulher não necessariamente precisam envolver nudez, como acontece em A Criada. Hideko é vista como símbolo sexual, não nas cenas de sexo, mas ao ler livros pornográficos para homens ricos, para que eles – ao observarem a condessa lendo passagens sexuais – fiquem envolvidos com a narrativa erótica e comprem os livros de seu tio.
Mas, voltando à narrativa da produção, as personagens – gradualmente – ficam mais íntimas não só sexual, mas emocionalmente, como fica explícito quando Hideko diz: “Eu poderia ter sido feliz se tivesse você aqui comigo”. Nessa passagem, Sook-Hee desvia de sua afirmação e diz que ela irá amar o conde e, por isso, deveria se casar com ele. Hideko rebate com a fala “mesmo se eu dissesse que amo outra pessoa, você iria querer que eu me casasse com ele?” e, diante da confirmação da criada, Hideko se irrita e a empurra com agressividade. Afinal, ela esperava que Sook-Hee declarasse seu amor por ela, e que não lhe deixasse casar-se com outra pessoa.
O conde e a condessa, enfim, se casam. Depois disso, é hora de executar a segunda parte do plano: internar Hideko no hospício. Mas, neste momento, quem é vista como louca e entregue à internação é Sook-Hee – e aí está o 1° plot twist da produção. Mas, posteriormente, fica claro que era tudo armação das protagonistas (2° plot twist) que, em dado momento, revelam uma à outra que o conde desejava enganar ambas. Diante disso, elas se unem para derrotá-lo. A criada, então, foge do hospício e a condessa envenena a bebida de Fujiwara, para que ele passe mal, seja capturado e levado ao tio de Hideko para ser torturado.
Hideko e Sook-Hee, finalmente, conseguem fugir e o longa termina com uma cena de sexo das protagonistas (que, pessoalmente, achei linda), em que elas dão beijos calorosos e passam a sensação de ternura e alívio, por terem conseguido ficar juntas. Esse final não só é positivo para trazer representatividade às lésbicas nas produções audiovisuais (uma vez que, como citei na crítica sobre The World to Come, a maioria delas nos mata ou nos dá um fim trágico), como para trazer uma resposta à sociedade machista e heterocentrada, que, como bem afirma Tânia Navarro Swain, enxerga mulheres lésbicas como sozinhas, desacompanhadas, vulneráveis e reféns da própria sorte (Swain, 2000, p.11).
Por Maria Clara Soares
Serviço
Título original: Ah-ga-ssi
Onde assistir: Não está disponível em nenhuma plataforma
Classificação indicativa: 18 anos (A18)
Classificação da autora: 16 anos (A16)
Justificativa: A narrativa é complexa de ser compreendida, com cenas de sexo e violência.
Gênero: Drama e romance
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Amizades entre mulheres podem salvar nossas vidas? As descobertas de amor e sexualidade em “Am I Ok?”
Nos momentos em que temos as ideias mais malucas ou quando precisamos de um ombro para chorar, é um alívio saber que existem pessoas com quem podemos contar. Muitas vezes são familiares ou companheiras(os), porém, as amigas ocupam um lugar especial em nossas rotinas e corações.
Lucy (Dakota Johnson) e Jane (Sonoya Mizuno) em cena de Am I Ok? Am I Ok? (Está Tudo Bem Comigo? na tradução brasileira) mostra a trajetória de uma amizade, que, ao longo do tempo, passa por encontros e desencontros, sejam na vida amorosa ou profissional. O filme, lançado em janeiro de 2022, é dirigido por Tig Notaro e Stephanie Allynne e conta a história de Lucy (Dakota Johnson) e Jane (Sonoya Mizuno), duas mulheres bem diferentes que se identificam em uma relação de irmandade.
No auge de seus 30 e poucos anos, a dupla de amigas inseparáveis se vê um tanto quanto perdida; uma delas tem diversos conflitos com carreira e relacionamentos, enquanto outra parece estável, mas basta uma promoção no trabalho para girar tudo do avesso. No entanto, a relação das duas parece dar a confiança necessária para continuarem nesse mundo.
Quando as duas já acreditavam saber tudo uma sobre a outra, Lucy surpreende-se por entender que é lésbica e, por isso, seus inúmeros dates com homens não davam certo. Por outro lado, Jane recebe uma proposta de trabalho que a levaria para Londres – sua cidade natal, apesar de ter passado boa parte da vida nos Estados Unidos. Muitas mudanças para pouco tempo de reflexão e a relação das duas fica remexida.
Lucy está no auge de suas trapalhadas, da vida amorosa complicada e experimentações e sente que a falta de Jane irá piorar tudo – apesar de não admitir. Enquanto isso, sua amiga está lidando com o fato de deixar a cidade onde viveu por anos e começar do zero em outro lugar. Por mais que ela tenha um namorado, o Danny (Jermaine Fowler), Jane gostaria de estar partilhando esse momento com sua melhor amiga.
Quando acontecem esses desencontros e elas ficam um tempo sem conversar, Lucy tem suas primeiras experiências com uma menina de seu trabalho, mas, por ser uma iniciante no mundo sáfico, logo vê que estava numa desilusão amorosa. E, nessas idas e vindas de novos dates com mulheres, ela vai se descobrindo e se encontrando consigo mesma. Algo interessante da trama é: ela não se resume apenas ao romance, apesar de dedicar tempo a ele. Mas, amizade é quem ganha o papel principal de Am I Ok?.
No final das contas, elas entendem que não importam os relacionamentos, ou o medo de mudar de país em busca de um sonho profissional, se elas têm o apoio uma da outra, já é suficiente. É algo que podemos refletir sobre a presença feminina em nossas vidas, em que há sempre uma figura de cuidadora. Nossas mães, avós, tias, amigas, professoras, companheiras e todas as outras que ocupam lugares tão especiais para nós e nos fazem crescer.
Representações como essa nos fazem acreditar que é possível ter o apoio e o carinho de nossas melhores amigas e não precisamos, necessariamente, depender de relações românticas para isso. Lucy é o amor da vida de Jane, assim como Jane é o amor da vida de Lucy e sem pensar no clichê de “me apaixonei pela minha melhor amiga”, mas sim enxergá-la e colocá-la nesse lugar de fraternidade mesmo.
Às vezes, o que mais precisamos é do abraço, apoio e presença das nossas amigas-amores para seguirmos nessa rotina difícil do trabalho, faculdade, relacionamentos e até mesmo outras amizades. É importante saber que podemos contar com elas sempre que precisamos e que é recíproco.
Serviço
Título Original: Am I Ok?
Onde assistir: Max (antiga HBO Max)
Classificação indicativa: 14 anos (A14)
Classificação da autora: 14 anos (A14)
Justificativa: O filme aborda dilemas da amizade e da vida adulta de maneira orgânica.
Gênero: Comédia/romance.Por Lia Junqueira.
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O poder do jornalismo em “A Grande Entrevista”

Imagem: Divulgação /Netflix O filme A Grande Entrevista tem direção de Philip Martin, que colaborou para sete episódios de The Crown. A produção, como a da série, também é da Netflix, e foi lançada em 5 de abril de 2024. O longa conta a história da entrevista que desmascarou o envolvimento do príncipe Andrew, terceiro filho de Elisabeth II, no caso Jeffrey Epstein, condenado por pedofilia, agressão sexual e tráfico de mulheres. O longa metragem é baseado no livro Scoop, que conta bastidores de entrevistas históricas e uma delas é a da BBC News.
Em novembro de 2019, foi ao ar no telejornal Newsnight a entrevista com Andrew conduzida pela jornalista Emily Maitlis. O intuito dele em participar era se retratar contra o envolvimento no caso Epstein e negar acusações de abuso sexual, feitas por Virginia Giuffre, relatando que o crime teria acontecido em 2001, quando ela tinha 17 anos de idade. O príncipe aceita conversar com Maitlis pois acreditava que se justificaria e limparia sua imagem com a população. Um dos motivos do assunto estar em foco em 2019 foi porque Epstein havia sido condenado e tirado a própria vida na prisão. Isso fez a mídia relembrar a amizade de Jeffrey e Andrew, que haviam sido vistos juntos em 2010 numa foto tirada por um paparazzi.
A jornalista e produtora Sam McAlister, interpretada por Billie Piper, programava a agenda do Newsnight, e é protagonista do filme. Ao longo da trama assistimos a McAlister tendo dificuldades em encontrar uma pauta interessante para o jornal da BBC News. Até que, em pesquisas, ela faz a ligação entre Epstein e Andrew e percebe que uma entrevista com o então duque de York renderia um bom furo jornalístico. O filme tem o clima de jornalismo investigativo, é dinâmico, com momentos de tensão e suspense, a trilha sonora e a montagem contribuem para a narrativa ter essas características.
A caracterização dos personagens é muito boa, principalmente na cena da entrevista, com Rufus Sewell como Príncipe Andrew e Gillian Anderson como a jornalista Emily Maitlis. O local, as roupas e até mesmo o rosto dos atores são similares aos da realidade. Isso dá a sensação que o filme é uma representação exata do que aconteceu, mas como é uma obra de ficção tem a liberdade de retirar e acrescentar acontecimentos para o melhor andamento da história.
O filme gira em torno da preparação para a entrevista e os dilemas de como seria dar espaço para um homem envolvido em um caso tão grande de violência sexual. Andrew foi treinado para responder às possíveis perguntas da entrevista, o que pode ter gerado mais confiança. Mas, estar em um ambiente que ele considerava seguro e para o qual se sentia preparado, fez com que suas respostas, ou a falta delas, entregasse seu envolvimento. Mesmo com provas, fotos e relatos, Andrew nega todas acusações e além disso, diz que era confortável estar na casa de Epstein, mesmo que ele tenha tido comportamentos “inadequados”.
No livro reportagem de Janet Malcolm O Jornalista e o Assassino, a autora discute sobre ética jornalística e a relação com as fontes, por meio da história de um homem, acusado de assassinar a própria família, que processou um jornalista que escreveu um livro baseado em seu julgamento. “A disparidade entre o que parece ser a intenção de uma entrevista quando ela está acontecendo e aquilo que no fim ela estava de fato ajudando a fazer é sempre um choque para o entrevistado”. Acredito que esse trecho se encaixa com o fim de A Grande Entrevista, no qual Andrew e sua equipe acreditavam estar retirando sua pele da reta do caso Epstein, mas na verdade foi o que o afundou mais no escândalo sexual, quando não pediu desculpas, não negou ser amigo de Epstein e se fez de desentendido diante das acusações de Virginia Giuffre. Após a exibição da entrevista, o príncipe perdeu seus títulos e foi afastado de cargos da realeza, além de ter pago 12 milhões de libras à Giuffre, mas sem assumir a culpa – e nem receber nenhuma punição judicial pelo caso.
Por Ana Rodrigues
Serviço:
Título original: Scoop
Onde assistir: Netflix
Classificação indicativa: 16 anos (A16)
Classificação da autora: 16 anos (A16)
Justificativa: O filme condiz com a classificação, não contém cenas explícitas dos crimes citados, mas há relatos de violências sexuais.
Gênero: Drama/Filme baseado em casos reais.
