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  • Miradas da infância

    Cartaz apresenta a frase Miradas da infância em letra de criança. Embaixo, personagens de desenho animado em negativo, com as logos do projeto na parte inferior.
    Cartaz da mostra. Arte: Bento Vital.
    Cartaz em vermelho, com bordas em amarelo e azul, contendo a programação de filmes da mostra. Na parte inferior, personagens infantis em negativo.
    Programação completa.

    Olhar para as infâncias e pensar como elas mesmas imaginam o mundo. Essa é a proposta de Miradas da infância, mostra cinematográfica do projeto Ariadnes, que vai exibir longas-metragens protagonizados por meninos, meninas e menines e que apresentam perspectivas infantis sobre o mundo, ainda que esses filmes sejam dirigidos por adultas e adultos. Essas miradas se cruzam com questões sobre gênero, raça, sexualidade, etnia, região: quem são as crianças que o cinema nos mostra? Quais são e como são as infâncias pensadas ou lembradas pelos olhares adultos?

    Programação

    08/5: A princesinha
    A little princess, Alfonso Cuarón, 1995
    Adaptado do romance de Frances H. Burnett, o filme narra a história de uma órfã exposta a abusos em um internato de Nova York no início do século XX, após a morte de seu pai na Índia.

    15/5: Onde fica a casa do meu amigo
    Khane-ye doust kodjast? , Abbas Kiarostami, 1987
    Mistura entre ficção e documentário, o filme conta a história de Ahmed, que pega por engano o caderno de seu amigo e precisa devolvê-lo para evitar que o menino seja punido na escola, caso não leve o dever de casa.

    22/5: Meu pé de laranja lima
    Meu Pé de Laranja Lima, Marcos Bernstein, 2012
    Diante de uma realidade dura e da falta de afeto, o pequeno Zezé usa a imaginação para transformar um pé de laranja lima em seu refúgio e confidente. Entre travessuras e descobertas, ele encontra na amizade improvável com o “Portuga” o verdadeiro significado de ser amado. Baseado no clássico de José Mauro de Vasconcellos, o filme é um retrato poético e visceral sobre a infância e o momento em que a fantasia de ser criança dá lugar ao amadurecimento. Uma experiência obrigatória e emocionante que abraça qualquer um que assiste.

    29/5: O túmulo dos vagalumes
    Hotaru no haka, Isao Takahata (Studio Ghibli), 1988
    A animação percorre os desafios vividos por Seita, um adolescente de 14 anos e sua irmã Setsuko, de quatro anos, que depois de perderem seus pais precisam encontrar meios de sobreviver no Japão pós Segunda Guerra Mundial.

    12/6: Conta comigo
    Stand by me, Rob Reiner, 1986
    “Conta Comigo” é uma adaptação da novela “O Corpo” de Stephen King. O filme conta a história de quatro garotos que, ao descobrirem o desaparecimento de um menino em sua cidade natal, a fictícia Castle Rock, decidem ir à procura de seu paradeiro. Durante a busca, os amigos acabam vivendo uma aventura repleta de desafios e reflexões.”

    19/6: Close
    Close, Lukas Dhont, 2022
    Close é um drama belga que retrata a história de dois amigos inseparáveis, Léo e Rémi, de 13 anos, que veem sua relação mudar devido à pressão social. Sensível e impactante, o longa-metragem acompanha as consequências desse rompimento, abordando, desde cedo, temas como masculinidade tóxica, amizade e perda.

    26/6: Marte Um
    Marte Um, Gabriel Martins, 2022
    A partir das tensões políticas que se estabelecem no país após a eleição de um presidente de extrema-direita, Marte Um (2022) traz a história dos Martins, uma família negra de classe média-baixa que vive na periferia de Contagem, região metropolitana de Belo Horizonte. Sob um olhar sensível, a obra tece, a partir do acompanhamento de um cotidiano simples, múltiplas histórias que evidenciam a esperança frente a uma desigualdade social que sufoca sonhos.

    3/7: Lindinhas
    Mignonnes, Maïmouna Doucouré, 2020
    No longa acompanhamos Amy, uma menina de 11 anos de origem senegalesa que vive em Paris. Dividida entre dois mundos contrastantes — os valores tradicionais de sua família e a cultura influenciada pela internet —, ela se aproxima de um grupo de dança local, passando a explorar questões relacionadas à sua identidade, à descoberta da sexualidade e à hipersexualização infantil frequentemente presente nas redes sociais.

    • As sessões são gratuitas e acontecem sempre às 9h, na sala 207 do ICSA;
    • Todas as sessões serão seguidas de uma conversa;
    • Haverá emissão de certificados para quem comparecer a 75% das sessões.

  • Toda nudez será castigada

    O que é pornografia? Esta é uma questão que interessa – e divide – os estudos feministas e de sexualidade há décadas. A discussão voltou à tona recentemente com o lançamento de filmes comerciais com forte presença de sexo. Mas todo sexo é pornográfico? Sua exibição explícita é sempre gratuita, objetificante ou opressiva? O olhar é sempre masculino? Quando a arte precisa ser justificável? A arte deve se explicar? Os super-heróis “sem genitália”, como critica o cineasta Richard Linklater, aniquilaram o sexo do/no cinema? Como fabular uma política da representação sexual a partir de uma perspectiva de gênero? Qual o lugar do desejo e do prazer no audiovisual? Como fabular uma política da representação sexual a partir de uma perspectiva de gênero?

    A partir desses debates, o projeto Ariadnes (PIDIC-Prace/Proex) idealizou a mostra Toda nudez será castigada. O título, emprestado da peça de Nelson Rodrigues, aparece como provocação. Nossa ideia é discutir a presença do sexo no cinema e todas as tensões e contradições que essas figurações suscitam desde a popularização do cinema, a partir de um ponto de vista gendrado. Esperamos contribuir com a literacia de mídia e com a educação para a igualdade de gênero a partir do audiovisual.

    As sessões acontecem sempre às sextas-feiras, das 9h às 12h, na sala 206 do bloco Padre Avelar, do ICSA (Instituto de Ciências Sociais Aplicadas). As exibições são seguidas de debates com a equipe do Ariadnes.

    Haverá emissão de certificado para quem comparecer a, pelo menos, 75% das sessões.

    Confira a programação, a sinopse e a classificação indicativa dos filmes:

    As sinopses foram traduzidas do Letterboxd, onde é possível encontrar as fichas técnicas completas de cada filme (em inglês).

    A criada, 16/8
    Na Coreia dos anos 1930, um vigarista e uma jovem se passam por um conde japonês e uma criada para seduzir uma herdeira japonesa e roubar sua fortuna.
    Duração: 145 min.
    Classificação indicativa: 18

    Pobres Criaturas, 23/8
    Trazida de volta à vida por um cientista heterodoxo, uma jovem mulher foge com um advogado em uma aventura ruidosa intercontinental. Livre dos preconceitos de sua época, ela se firma no propósito de defender igualdade e liberdade.
    Duração: 142 min.
    Classificação indicativa: 18

    O império dos sentidos, 30/8
    Baseado em uma história real do Japão pré-II Guerra, um homem e uma criada começam um caso tórrido. O desejo se torna uma obsessão sexual tão forte que, para intensificar seu prazer, eles abandonam tudo, até mesmo a vida.
    Duração: 105 min.
    Classificação indicativa: 18

    Love, 6/9
    Murphy é um americano vivendo em Paris que entra em uma relação muito sexualizada e emocionalmente carregada com a instável Electra. Sem se dar conta do efeito sísmico na relação, eles convidam uma bela vizinha para a cama deles.
    Duração: 134 min.
    Classificação indicativa: 18

    O último tango em Paris, 20/9
    Uma jovem parisiense começa um caso tórrido com um executivo americano de meia-idade que estabelece regras de que a relação clandestina deles será puramente sexual.
    Duração: 129 min.
    Classificação indicativa: 14

    A lei do desejo, 27/9
    Pablo, um bem sucedido diretor de cinema, desapontado com o relacionamento com seu jovem amante, Juan, se concentra em um novo projeto, um monólogo estrelado por sua irmã transgênero, Tina. Antonio, um jovem sério, se apaixona possessivamente pelo diretor, e sua paixão não tem limite até obter o objeto de seu desejo.
    Duração: 102 min.
    Classificação indicativa: 16

    Um copo de cólera, 4/10
    O caso tórrido de amor entre um homem de 40 anos que vive isolado do mundo, em uma fazenda perto de São Paulo, e uma jornalista politicamente engajada de 30 anos. Uma manhã, após uma noite de sexo, ele percebe um buraco feito por formigas saúvas na cerca. Esse simples fato levanta acusações e discórdia entre os amantes.
    Duração: 70 min.
    Classificação indicativa: 18

    De olhos bem fechados, 11/10
    Depois que Alice, esposa do dr. Bill Harford, admite ter fantasias sexuais com um homem que conheceu, Bill fica obcecado em ter um encontro sexual. Ele descobre um grupo clandestino sexual e vai a um dos encontros – e rapidamente descobre que não fazia ideia de onde estava se metendo.
    Duração: 159 min.
    Classificação indicativa: 18

    As sessões são gratuitas e acontecem sempre às 9h, na sala 206 do ICSA. Todas as sessões serão seguidas de uma conversa.

  • Casamento às Cegas e a rivalidade feminina

    Participantes do Casamento às Cegas: uma nova chance

    A cultura dos reality shows ganha o Brasil de tempos em tempos, como acontece anualmente com o Big Brother Brasil ou A Fazenda. No entanto, esse gênero possui o segmento romântico – ou de “pegação” –, como De Férias com o Ex Brasil e Casamento às Cegas Brasil, em que a heteronormatividade compulsória, o machismo e a rivalidade feminina são pautas recorrentes em todas as edições. 

    Na quarta, e mais recente, temporada de Casamento às Cegas, lançada pela Netflix em junho de 2024, o esquema é bem parecido com as anteriores: são 16 homens e 16 mulheres – com uma estrutura hétero e cisgênero, claro – que vão com a intenção de achar “o amor de suas vidas” somente pela voz, para que a aparência não interfira no chamado “experimento”. A ideia por si só é um tanto quanto irracional, mas todos concordam e se permitem viver essa grande jornada para encontrar sua “alma gêmea”. 

    Com o passar da primeira fase, em que os casais têm apenas 10 minutos para trocar ideia, eles passam a conversar apenas com aqueles com que mais houve identificação, ou química, por mais tempo. Até esse ponto tudo são flores, mas, quando uma amiga passa o mesmo tempo com o cara que você estava a fim, tudo pode se tornar um grande caos nos bastidores. 

    Divididas por gênero, as 16 pessoas encontram-se no lounge feminino e masculino para contar do date, sobre quem estão mais interessadas, beber – porque, nesse (como em outros) reality, o álcool parece guiar as dinâmicas – e conhecer umas às outras. O dos meninos é super divertido, descontraído e amigável, é quase como uma turma de escola que se reencontra mais velho e conta da vida para os amigos. 

    Já o lounge feminino é mais tenso, parecendo que, a qualquer momento, uma delas pode cometer o crime de falar sobre o mesmo cara com interesse e tudo desandar. Assim que Renata Giaffredo fala de sua ligação com Patrick Ribeiro, Marília Pinheiro – que também estava conversando com o paulista – afirma que vai tirar satisfações com ele. Uma corrida pela conquista do coração de Patrick começa, enquanto ele, no lounge ao lado, disse ter confundido as duas, e mais: “Achei até que eram a mesma pessoa.” 

    Nós, enquanto mulheres, fomos socializadas com a rivalidade feminina sendo naturalizada em nosso dia a dia, desde a comparação infantil de quem tem o melhor comportamento de “menininha”, até a idade adulta, em que enxergamos todas que estão ao nosso lado como possíveis rivais. Vale lembrar que isso não vale somente para desconhecidas ou aquelas que desejam a mesma pessoa que a gente, mas também para as comparações extremas que fazemos até com nossas amigas e irmãs. É como se todas as vitórias das mulheres fossem uma “mini-afronta” para as outras que estão por perto, e sempre queremos “nos superar” diante delas. 

    O que precisamos estar atentas é: as pessoas que estamos saindo, namorando ou casando, alimentam essa visão e competitividade? Na maioria das vezes, sim, pois essa é a realidade que observamos desde a infância, como disse acima. Mas é necessário fazer o exercício de observar a outra com carinho, empatia e, no mínimo respeito, pensando na definição de sororidade, em que: Não é amar todas as mulheres, mas sim não odiar uma mulher por ser mulher, como afirma trecho do livro “Vamos juntas? – O Guia Da Sororidade Para Todas” de Babi Souza. 

    Parece que, em programas como esses, é ainda mais fácil desgostar de alguma parceira, ou que algumas discussões são “forçadas” para fins de entretenimento – algo de que, pessoalmente, não duvido. No entanto, ao reforçar esse papel de mulheres megeras ou invejosas, estamos fomentando um discurso também machista, no qual não há amizade verdadeira entre sujeitos femininos, mas sim a busca incessante por um final feliz – e melhor – em relação à mulher ao lado. 

    Quando falo de final feliz, não necessariamente o relaciono ao casamento, mas também com carreira acadêmica, maternidade, trabalho e todas as outras esferas possíveis de “competir”. Temos que, primeiro, entender os motivos para esse sentimento constante de competição – o sistema patriarcal pode nos ajudar a encontrar – e, depois, compreender a realidade das mulheres que estão ao nosso redor. 

    Assim, é possível traçar novas possibilidades de relações femininas, com mais amizade, companheirismo e compaixão por aquelas que estão nessa caminhada cheia de percalços. 

    Retirando o zoom: um programa que se abstém de discussões  

    Não foram “somente” problemas entre mulheres que fizeram a quarta temporada de Casamento às Cegas ganhar notoriedade nos últimos tempos. O programa trouxe inúmeros debates importantes que devem ser feitos. 

    Diante de várias problemáticas e confusões causadas por declarações machistas e gordofóbicas – como o episódio em que Alexandre Thomaz afirma ter gostado “de uma mulher que tem voz de gorda” –, Camila Queiroz e Klebber Toledo, casal que apresenta o reality, comentam sobre o “compromisso com a realidade”, em que são “pessoas reais, num experimento e relações reais” e eles não poderiam intervir. 

    Mas até que ponto a realidade está sendo reforçada ou problematizada? De forma que, se há um preconceito – ou um crime – sendo registrado, é preciso explicá-lo e nomeá-lo. E, claro, responsabilizar as pessoas que cometeram tais atos. 

    Em entrevista ao portal Metrópoles, Camila comenta: “Eu adoraria poder não mostrar isso [comentários machistas] para o Brasil. Acima de tudo, eles sabem que tem uma câmera apontada para a cara deles e que tudo que eles disserem está registrado. Eu acho que isso fica mais claro ainda como o retrato da nossa sociedade se mostra”. Nossa sociedade é racista, machista, LGBTQIA+fóbica, e muito mais, no entanto, ao deixar “a realidade” prevalecer, esses valores conservadores são reforçados junto. 

    É preciso combatê-los com veemência, assim que acontecem, para que, dessa forma, possamos construir uma sociedade com mais equidade, respeito às diferenças – e ao próximo.

    Serviço:

    Onde assistir: Netflix
    Classificação indicativa: 16 anos (A16)
    Classificação da autora: 16 anos
    Justificativa: Cenas de sexo, consumo de bebida alcoólica, violência verbal e relato de estupro. Possui representações negativas sobre relacionamentos. 

    Por Lia Junqueira.

  • Casamento não é posse: relação sexual sem consentimento é estupro marital

    Ter relações sexuais com alguém desacordado é crime. Seja esposa ou  namorada, independente do tipo de vínculo, todo ato sexual precisa do consentimento de ambas as partes. Uma pessoa que está dormindo não tem consciência do que está acontecendo. Em 2023 o Projeto de Lei  228/2023 mudou a definição de estupro no Código Penal do Brasil, configurando estupro se aproveitar da vulnerabilidade ou ausência de sentido que impeça o consentimento expresso para conjunção carnal ou outro ato libidinoso. 

    Participantes e apresentadores da quarta temporada de Casamento as Cegas

    CASAMENTO ÀS CEGAS

    No dia 19 de junho de 2024 estreou na Netflix a primeira parte da quarta temporada de Casamento às Cegas Brasil, intitulada Uma Nova Chance. O reality show é a adaptação da versão estadunidense Love Is Blind. Basicamente, a dinâmica é composta por 10 participantes, cinco homens e cinco mulheres, que separados em cabines não têm contato físico e visual mas irão formar casais heterossexuais a partir de conversas. Os casais que formam uma conexão podem propor casamento e a partir daí vão para uma lua de mel, depois moram juntos por 30 dias e vão para o altar dizer se aceitam se casar ou não. Por isso, o programa é dividido em três partes e no fim acontece o reencontro dos participantes, mais ou menos um ano após as gravações de todas as etapas, para conversar sobre os desdobramentos dos relacionamentos.

    A temporada Uma Nova Chance tem esse título pois o elenco é formado por pessoas que já foram casadas ou estiveram em namoros duradouros. Em 10 de julho o episódio do reencontro foi lançado, com 65 minutos de duração. O que chamou a atenção das redes e gerou comentários acontece antes dos 20 minutos de programa e sem aviso de conteúdo sensível. Na tela passa a história dos participantes Ingrid Santa Rita e Leandro Marçal. A reação dos dois assistindo ao VT da retrospectiva ao longo do reality mostra desconforto, e o porquê dessa reação logo fica explícito. Ao assistir, foi impossível para mim não ficar desconfortável também. 

    Ingrid conta que o casamento deles acabou e os dois tinham falado “sim” no altar, mas não mantiveram a união após o término do programa. Ela cita alguns motivos e diz que Leandro tinha problemas com impotência sexual, mas ela como uma mulher negra o acolheu, “tirando todo o estereótipo de que um homem preto precisa estar sempre pronto para um sexo bom”. Ela também contou que ofereceu ajuda e sugeriu terapia em casal. Abalada, falou de uma semana em que Leandro tentou “resolver” o problema sozinho. Ele esperou Ingrid dormir e manteve relações sexuais com ela sem o seu consentimento. “Primeiro eu dormia pelada, depois eu dormia de calcinha, depois eu passei a dormir de pijama, depois eu peguei o travesseiro e fui dormir no meu sofá, fugindo de você na minha cama, no meu quarto, na minha casa. Você não me respeitou dia nenhum, por isso eu terminei com você”, contou aos prantos olhando para o seu abusador. Ela ainda disse que teve uma crise de pânico na frente das filhas, pedindo para que Leandro não encostasse em seu corpo. Ingrid também pediu para Leandro dizer o que ele fez com ela, diante das câmeras, mas a resposta foi o silêncio. 

    Em nenhum momento Leandro negou as acusações e ainda tentou rebater, e disse que “aquela foi uma semana atípica”. Depois de tudo, Ingrid levantou e se retirou do local aos prantos. Após isso, os apresentadores, Camila Queiroz e Klebber Toledo, pedem para Leandro sair e dizem que “assuntos delicados como o abordado agora precisam ser tratados com seriedade” e “esperamos que essa história encontre um desfecho oportuno para todos”. 

    Mas qual o nome desse assunto delicado? Estupro. Estupro marital. É importante nomear, para que todos entendam a gravidade e tratem o assunto com mais seriedade, dando a devida atenção. É comum associar estupro e assédio sexual a uma mulher andando na rua à noite, sozinha e desprotegida. Mas, segundo o Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) entre 2011 e 2022, o Brasil registrou um total de 350 mil agressões sexuais contra mulheres. Em 42,5 mil casos  – um a cada oito – o autor era o cônjuge ou namorado da vítima.

    No reencontro do Casamento às Cegas, a Netflix tratou a situação de Ingrid e Leandro como um conflito comum de casal, sem a devida atenção. O programa continuou como se nada tivesse acontecido e em nenhum momento a palavra “estupro” ou “abuso” foi citada. Embora a classificação indicativa do reality seja de 16 anos e inclua avisos de conteúdo sexual, linguagem imprópria e temas sensíveis, um episódio que narra esse tipo de violência exigia um alerta específico. As plataformas de streaming têm a responsabilidade de tratar temas sensíveis com respeito, incluindo a avaliação cuidadosa do conteúdo e a inclusão de avisos claros para permitir decisões conscientes dos espectadores. Manter uma comunicação transparente sobre os conteúdos e suas justificativas é necessário para evitar impactos negativos. É preciso também manter a responsabilidade pelo conteúdo que está sendo divulgado e não pensar apenas na venda e repercussão dos produtos. A Netflix disponibilizou o reencontro, os apresentadores deram os “avisos” , mas em nenhum momento palavras sinônimas a estupro foram usadas. Isso também fomenta a normalização deste tipo de violência e abuso contra as mulheres.

    Até quando homens vão continuar tratando mulheres como posse? O fato de estar em uma relação romântica/sexual com alguém não dá o direito da pessoa violar o seu espaço e suas escolhas. Só é sexo consensual se ambas as partes estão de acordo e estão confortavéis, se uma delas nem sabe, ou não vai lembrar depois, é estupro. É crime. É comum que as vítimas pensem que por estarem em um relacionamento o sexo é uma obrigação, mas não é. Sexo é escolha. E deve ser consensual entre as partes envolvidas.

    Por Ana Rodrigues 

    Onde assistir: Netflix

    Classificação indicativa: 16 anos (A16)

    Classificação da autora: 16 anos

     Justificativa: Cenas de sexo, consumo de bebida alcoólica, violência verbal e relato de estupro.

  • A que casais o “felizes para sempre” é reservado dentro e fora das produções audiovisuais?

    Na foto, em 1° plano, há as protagonistas, Abigail e Tallie, da esquerda para a direita. Atrás delas, estão seus respectivos maridos, com fisionomias de que estão olhando para o horizonte.
    Créditos: cena do filme

    Com 98 minutos de duração, o longa The World to Come, lançado no festival de Veneza em 2020 e dirigido por Mona Fastvold, retrata a história de amor entre Abigail (Katherine Waterston) e Tallie (Vanessa Kirby). Ambas são casadas, respectivamente com Dyer (Casey Affleck) e Finney (Christopher Abbott), homens que as viam como objetos de dominação, coerção e máquinas produtoras de herdeiros. 

    A trama se passa no contexto de 1856, época em que muitos remédios e tratamentos de doenças não tinham sido desenvolvidos. Diante desse cenário, Abigail perde sua filha Nellie – fruto do casamento com Dyer – por uma enfermidade, e a partir dali, vive imersa em profundo luto e tristeza. Algum tempo depois, Tallie e seu marido se mudam para a região onde o casal mora, estreitam laços e constroem uma relação, à primeira vista, de amizade. 

    O enredo enfatiza como a vida de Abigail volta a ter cor e felicidade após a aproximação de Tallie, que, em uma visita à residência de Abigail, desperta nela um olhar cuidadoso e repleto de paixão. Abigail, nessa visita, repara os cabelos ruivos e chamativos de Tallie e sua pele em “tons de rosa e violeta”. Com o passar do tempo, as visitas ficaram mais frequentes e os sentimentos, de ambas as partes, mais calorosos.

    Em um desses encontros, Tallie confidencia à Abigail que ela é um ponto de apoio e conforto em meio às maldades que sofre com o marido e acrescenta, ainda, que acredita ser vítima do ódio de Finney por não ter lhe dado filhos. Aqui, vale citar o argumento da pesquisadora Judith Butler, que discorre, em Problemas de Gênero, sobre a “instituição da maternidade compulsória para as mulheres” e como ela é enraizada na norma patriarcal de forma que pareça natural aos corpos com vulva. Nas palavras da autora: “A lei claramente paterna que sanciona e exige que o corpo feminino seja primariamente caracterizado nos termos de sua função reprodutora está inscrita neste corpo como a lei de sua necessidade natural” (Butler, 2018, p. 128). Isto é, o sistema patriarcal precisa que as mulheres queiram reproduzir e gerar herdeiros dos homens e, para isso, afirmar a predisposição feminina para esta função é uma das alternativas mais utilizadas. 

    Ainda, é interessante trazer a reflexão de Suane Felippe Soares, que, na tese Um estudo sobre a condição lésbica nas periferias da cidade do Rio de Janeiro, defende a maternidade como instrumento de controle das mulheres dentro da estrutura patriarcal, acrescentando a ideia de que “a produção de novos seres humanos é sempre muito importante para a formação das hierarquias neoliberais” (Soares, 2017, p. 217). 

    Mas, voltando à produção cinematográfica, as protagonistas, em determinado momento, se declaram apaixonadas e reforçam o sonho de viverem juntas, como um casal. Com o passar dos dias, Abigail estranhou a menor quantidade de visitas de sua amada, quando decidiu ir a sua casa para ver se descobria o motivo. Chegando perto da residência, deparou-se com a cena em que Finney gritava com Tallie que “a mulher não deve ter domínio sobre o próprio corpo, mas sim o marido”.

    Abigail, atordoada com o que havia escutado, fugiu do terreno da casa e, algumas semanas depois, descobriu que Tallie havia se mudado para o norte da região com seu marido. Ela recebe uma carta de Tallie pedindo desculpas por não ter conseguido se despedir e diz o quanto está infeliz naquele lugar. Além disso, ela revela que, todos os dias, Finney lê em voz alta as “instruções para as esposas do Antigo Testamento”, como forma de tortura. 

    Abigail manda uma carta de volta à Tallie, dizendo o quanto a ama e sente sua falta, mas quem lê é Finney, que descobre o romance entre as duas. Dias depois, Abigail, preocupada, decide visitar Tallie. No caminho, ela recita o que pretende falar à amada quando encontrá-la: “Quero te dizer que quero estar com você. Tudo que sinto de incrível, eu escolhi sentir. E sabe qual memória eu mais valorizo? A de você virando para mim, com aquele sorriso que você me deu quando percebeu que era amada por mim. Não tenho como saber tudo o que está por vir, mas sei que toda a confiança, coragem e cuidado que compartilhamos, brilhará sobre nós e nos protegerá. Você é a minha alegria.”

    Paralela às frases de amor ditas por Abigail, é mostrada a cena de Finney matando Tallie. Como tentativa (bem sucedida, inclusive) de sensibilizar o espectador, a fala de Abigail de que não quer perdê-la nunca narra a cena do assassinato de Tallie. Quando Abigail, finalmente, chega ao destino, Finney mente dizendo que Tallie morreu de difteria. Abigail deita ao lado do corpo dela, frio e sem vida, e chora copiosamente, relembrando os momentos bons que passaram juntas, agora presentes apenas em sua memória.

    Na última cena do filme, a imagem de Tallie aparece dizendo a Abigail para ela se lembrar que a imaginação pode ser sempre cultivada, e que, em pensamentos, elas poderiam estar juntas. O longa termina com um enquadramento fechado no rosto das personagens, que se olham com expressões de amor e ternura.  

    Diante desse cenário, penso sobre onde as lésbicas têm um “final feliz” garantido. Na realidade, não temos direito nem a existir com segurança, quem dirá a sermos felizes. E na ficção, em muitos filmes sáficos, como The World to Come, claramente também não temos. Neles (e trago a Maldição da Mansão Bly e Azul é a Cor mais Quente como exemplos complementares, em que no primeiro viramos um monstro do lago, e no segundo perdemos o “amor da nossa vida” porque o trocamos por um homem), é transmitida a mensagem de que ultrapassar a regra heteronormativa implica em graves consequências, e que esperar um “felizes para sempre” romantizado – como o dos casais heterossexuais – é pedir demais. 

    Por Maria Clara Soares

    Serviço

    Título original: The World to Come

    Onde assistir: Prime Video

    Classificação indicativa: 14 anos (A14)

    Classificação da autora: 14 anos (A14)

    Justificativa: A narrativa é complexa de ser compreendida, com cenas de preconceito que podem causar gatilhos aos espectadores

    Gênero: Drama e romance

  • Mãe é substantivo feminino de culpa?

    Miá Mello na peça “Mãe Fora da Caixa”. Foto: Gabriel Maciel

    Esse é um dos questionamentos trazidos pelo espetáculo “Mãe Fora da Caixa”, que explora a possibilidade de gravidez de uma mulher, sete anos após o nascimento de sua primeira filha. Com isso, ela revive em sua cabeça, durante os cinco minutos de duração do teste de farmácia, o misto de sentimentos da maternidade – positivos e negativos –, as memórias, os comentários e a (in)feliz presença paterna. 

    Quem interpreta a mulher é a atriz Miá Mello, mãe do Antônio e da Nina, que potencializa o texto com sua experiência pessoal e nos conduz pelos pensamentos e anseios do que é ser mãe na contemporaneidade. A peça é inspirada no livro de Thaís Vilarinho de mesmo nome; a direção é de Joana Lebreiro e o texto é de Claudia Gomes, do blog Humor de Mãe. Todas mulheres, todas mães e todas carregando os incômodos e amores de ocupar esse local tão bem delimitado na sociedade. 

    A personagem nos provoca com a verdade sem floreios, desde as dores e sangramentos do puerpério, o cansaço da recém-chegada maternidade, os comentários de outras pessoas até a falta de participação paterna – ainda que ele seja presente – e a vida sexual do casal pós-parto. Perpassando tantos tópicos e situações, Miá chega, ao que parece, a uma conclusão: “Mãe, substantivo feminino de culpa”. Mas por quê? 

    Durante a apresentação, nos são apresentados mil motivos para essa afirmação, pois é como se todos os atos, enquanto mãe, te colocassem à beira do abismo. Querer descansar mas ficar apreensiva com o bebê acordar; ir tomar banho e a criança chorar; dar um passeio no parquinho e receber todas as dicas e comparações que você – não – queria ou precisava; é o sentimento de dar conta do mundo inteiro por alguém, mas sozinha. 

    Além disso, sabemos que os motivos para as mães ocuparem esse lugar é cultural e socialmente construído pelo patriarcado, machismo e misoginia. O ideal de maternidade se dá desde a concepção, como se fosse uma incorporação do dito instinto e amor incondicional dessa mulher pelo feto que carrega. No artigo “A mãe perfeita: idealização e realidade”, Julia Tourinho vai nos conduzir pelas origens de como essa idealização materna foi construída e passada por profissionais de saúde e pela família tradicional, por exemplo. 

    Ao afirmar que mães vão gestar, parir, amamentar, cuidar e amar incondicionalmente suas crianças e sua relação com elas é nata é, no mínimo, cruel. É abandonar a subjetividade daquela mulher e a colocar em um papel sem nem o direito de escolha, e mais ainda, com a pressão de ser uma boa mãe. Sem mencionar outras pessoas que ocupam esse papel, como homens trans que gestam ou pessoas que assumem o cuidado e a maternagem. Mas o que é uma boa mãe? O inconsciente coletivo acredita em uma ideia mais ou menos assim: uma pessoa que abdique de seus desejos pessoais em prol dos cuidados com a(s) criança(s), que dê amor e bons ensinamentos, como a educação e a religião – é a criação de uma mãeesposa, conceito de Marcela Lagarde, discutido no artigo Precisamos Falar Sobre O Cativeiro Das Mulheres: A Figura Da Mãesposa Como Um Modelo De Aprisionamento No Audiovisual, da Universidade Federal de Pelotas. 

    Além disso, manter tudo organizado, bem limpo e bonito – tanto em casa quanto em relação à criança –, oferecer uma boa alimentação, brincar e ser saudável também são fatores essenciais no desempenho da maternidade ideal. Tudo isso com paciência, dedicação total e, claro, sem a “ajuda” paterna, pois a mãe boa é a que dá conta de tudo. Mas, refletindo sobre o artigo, a peça e a vida real, a mãe perfeita não existe – e nem vai existir.

    Acredito que uma das principais mensagens de “Mãe Fora da Caixa” é nos trazer para a real, em que as mães vão errar, porque também são seres humanos. É como um abraço de acolhimento e reconhecimento de todas as mães que sentem-se culpadas pelas mil e uma coisas que faziam e, pior, sentiam-se sozinhas nessa. Mas também, os pais – e a sociedade machista – precisam entender que a criação é algo compartilhado, correspondendo a um dos fundamentos feministas contemporâneos, que é a ética do cuidado. Ela deve ser adotada por todas as pessoas e posta em prática já. 

    No final, a atriz reforça, para mães e futuras mães, que a “ajuda” do pai não faz sentido. Esses homens, os pais, não deveriam estar ajudando, como se fosse uma participação coadjuvante, mas sim, assumindo papel de igualdade nos cuidados das crianças, o que é dever das duas pessoas. Até porque, com uma nova perspectiva, a mudança corresponde à dinâmica da vida pessoal e sexual dessas pessoas, com mais fluidez no processo. 

    Miá comenta ainda sobre a quantidade de homens na plateia – o que também foi uma surpresa para mim –, eram muitos! Escutar relatos femininos e refletir sobre como eles nos impactam e, mais ainda, o que podemos fazer, na prática, com isso, é mais do que importante. O que esperamos com isso é a criação de uma consciência maior sobre os desafios e a importância da presença paterna no desenvolvimento de uma criança. 

    Infelizmente a peça só teve uma única apresentação em Ouro Preto, mas vou deixar as redes de Mãe Fora da Caixa e uma dica valiosa sobre maternidade e maternagem, que é um Projeto da Universidade Federal de Pernambuco, “Maternagem, Mídia e Infância”.

    Texto por Lia Junqueira.

  • A impotência que o assédio me traz

    Eu estava sentada aguardando ser chamada pelo médico quando senti um toque no final nas minhas costas, na região do cóccix. Era um toque não desejado, mas achei que fosse sem querer.

    Como sou mulher, o primeiro pensamento é: a errada sou eu. Então cheguei para frente e fingi que não aconteceu. Afinal, não acreditei que, no meio da sala de espera lotada da Policlínica de Mariana, seria assediada. Foi quando um homem ao lado levantou a voz e disse: “Você tá passando a mão na menina?!” 

    Eu gelei. A menina era eu e o homem estava, de fato, passando a mão em mim. Me levantei, acompanhada da minha namorada, e trocamos de lugar, mas todos ao redor tinham escutado o que tinha acontecido. Me senti violada e impotente. É um sentimento estranho, pois o homem que me alertou parecia mais querer arrumar confusão com o assediador do que garantir a segurança de alguma mulher. 

    Uma agente de saúde foi até o assediador e o expulsou do local. Ele parecia fora de si, não sei se por conta de álcool ou de alguma substância ilícita, porém nada justifica suas mãos, sem consentimento, em outra pessoa. Foi um alívio. Ao trocar de assento, uma moça me disse que ele também tentou passar a mão nela, mas ela logo saiu e nada aconteceu. 

    Ainda sem reação, me sento calada e mais para frente no banco, receosa de acontecer qualquer coisa. A impotência do assédio me deixa revoltada, mas também amedrontada. É como se a culpa fosse nossa, mas é como se não pudéssemos fazer nada para mudar isso. 

    Pouco tempo depois, ele volta, com uma feição ainda mais confusa. Fiquei com medo daquilo se repetir — comigo ou outra mulher. Depois de algumas voltas, ele se senta ao lado de uma moça, que, já em alerta, se levanta e o deixa sozinho. A mulher em frente, com uma criança de colo e seu parceiro ao lado, ficou nitidamente insegura com a presença daquele homem e pediu para trocar de lugar. Nisso, a Guarda Municipal entra na recepção, à procura dele, e o retira do local. 

    Cheguei ali para ser acolhida, mas fui desrespeitada em uma situação que nunca tinha imaginado. Senti raiva de mim mesma por não ter reagido, mas não consegui dizer uma palavra sequer. 

  • Porque “The Handmaid’s Tale” não é notícia de ontem tampouco de amanhã

    Quando mencionamos o nome da série televisiva The Handmaid’s Tale (O Conto da Aia em português), a primeira imagem que provavelmente vem à mente são as aias vestidas de túnica vermelha e chapéus brancos que censuram seus olhares e os nossos, telespectadoras, sobre seus rostos, corpos e identidades. Nas últimas semanas, essa vestimenta ganhou nova camada de sentido ao ser colocada sobre o Cristo Redentor pelo artista Cristiano Siqueira do perfil @crisvector.

    Cena da série The Handmaid’s Tale, de 2017
    Cristiano Siqueira (@crisvector), 2024

    As roupas das aias também circularam nas redes sociais como o Instagram e o X, antigo Twitter, em diversas outras expressões imagéticas, desde charges a capas de manchetes online, para denunciar um projeto de lei que tramita em regime de urgência na Câmara dos Deputados. O PL 1904 pretende punir o aborto depois das 22 semanas de gestação em casos de estupro com o mesmo afinco que em casos de homicídio e com régua mais rígida que a punição destinada ao estuprador.

    Tamanha absurdidade gerou manifestações diversas, nas redes e nas ruas, e uma de suas expressões foram os usos das imagens em referência a The Handmaid’s Tale. Talvez seria o mesmo que dizer: “esse PL é o mesmo que tornar a narrativa das aias algo real”. Ou ainda: “não podemos permitir que essa distopia se torne o nosso presente”. 

    Fernando Motta, do perfil @DesenhosDoNando, ao comentar sobre a charge que publicou de uma criança grávida vestida de aia e um balão rosa nas mãos, disse para a Folha de São Paulo que os desenhos são para “tocar nesse lugar do absurdo dessa obra, que não é tão ficcional quanto parece. Tem gente que realmente quer isso aí. Essas pessoas estão no congresso”.

    Fernando Motta (@desenhosdonando), 2024

    Para quem nunca assistiu à série The Handmaid’s Tale faço um breve resumo. Composta por 5 temporadas e com a sexta (e última) ainda em produção, a série foi lançada em 2017 pelo canal de streaming Hulu e produzida por Bruce Muller. Na narrativa, acompanhamos a história da protagonista June que tem seu nome alterado para Offred após a tomada de poder por grupos radicais religiosos de extrema-direita na sociedade ficcional de Gilead. Nesta distopia, estão no centro os corpos de mulheres férteis que são violadas institucionalmente com legitimação do Estado, como solução para superar a crise da quase nula taxa de natalidade. São mulheres, as aias, que se tornam grávidas a partir de episódios frequentes de estupro.

    Em nossa atual e perpétua crise sobre os abusos em relação ao corpo femino, por que usar as imagens de The Handmaid’s Tale e não de outras narrativas distópicas que também colocam a mulher como corpos violentados e vítimas de estados autoritários, ou ainda outros símbolos feministas já consolidados em lutas contínuas pelo direito à legalidade do aborto? Vamos pelo começo.

    Foto: Juliana Blasina (@blasina_ju), 2024.

    A série televisiva The Handmaid’s Tale é uma adaptação do livro de mesmo nome da escritora canadense Margaret Atwood. A obra foi publicada em 1985 e dialogava com as preocupações daquela época. Isso porque nas décadas de 1980 e 1990, o contexto político, econômico e social de países ocidentais capitalistas é tomado por uma onda conservadora, com ataques diretos ao Estado do bem-estar social, retrocesos às liberdades civis e fortes críticas ao direito ao aborto. Esse espírito de direita e tradicionalista é encarnado nas ascensões de Ronald Reagan nos Estados Unidos, de Margaret Thatcher na Grã-Bretanha, de Brian Mulroney no Canadá e de Helmut Kohl na Alemanha. 

    Nos cinemas da época, a virilidade machista é celebrada. Nesse contexto, as produções cinematográficas de Hollywood, como Rambo, estrelados por Sylvester Stallone, não só supervalorizam a figura do homem branco, macho, forte e hétero, que luta contra governos ditatoriais ou tiranos que comumente são representados como regimes comunistas, como também procuram reiterar uma supremacia do homem em relação à mulher.

    Muitos anos se passaram desde o lançamento do romance distópico de Margaret Atwood até chegarmos a 2017, ano de lançamento da série televisiva e, vejam só: o pano de fundo político é embebido, novamente, pela ascensão de uma direita conservadora – essa muito mais radical – que assume uma corrente dominante de poder em muitos países. Assistimos a The Handmaid’s Tale ao mesmo tempo que vimos as eleições presidenciais conservadoras e radicais no Brasil, Estados Unidos, Hungria, Filipinas e Polônia. Mais recentemente, assistimos ao grupo Talibã retomar o poder no Afeganistão, assim como uma guerra na Palestina em que mulheres e crianças são os alvos principais. Todos cenários que dão um forte sotaque de realidade a esta ficção distópica.

    Trump, Putin, Bolsonaro, Erdogan, Modi, entre outros, são nomes que ganharam proeminência no contexto político de lançamento e exibição da série por suas pautas conservadoras de cunho moralistas e patriarcais, entre as quais podemos destacar projetos para proibir o aborto em quase todas as circunstâncias, valorização da família

    heteronormativa, retrocesso nos direitos civis da população LGBTQIAP+, perseguição a intelectuais considerados “inimigos” do regime, nacionalismo exacerbado, descredibilização da ciência, culto à cultura armamentista e incentivo à violência contra adversários — para citar apenas algumas.

    Diante da ascensão da popularidade desses homens entre seu eleitorado e dos receios que provocaram àqueles contrários ao seu discurso, a série pareceu acentuar os perigos que um governo sob o comando desses homens (e de seus grupos políticos) poderia representar: um presente distópico, no qual as minorias e grupos dissidentes seriam reprimidos com ainda mais força do que já presenciamos atualmente, com formas de violência legitimadas e conduzidas pelo Estado. Este é um dos motivos pelos quais a série ganhou tanta visibilidade e produziu mais quatro temporadas. E agora, porque os seus símbolos e visualidades são retomadas no contexto do PL 1904.

    Sobre o contexto estadunidense como um potencial distópico à época de lançamento da primeira temporada da série, Margaret Atwood endossa a opinião geral do público ao dizer, em 2018, para a ABC News: “Ainda não estamos vivendo em Gilead, mas há sintomas semelhantes aos de Gilead”. Em outra ocasião, para o mesmo canal, Atwood contribui para a percepção da íntima relação entre a ficção e o real ao afirmar: “Eu não sou uma profeta. Vamos nos livrar dessa ideia agora mesmo. Profecias são realmente sobre o agora. Na ficção científica é sempre sobre o agora”.

    As roupas das aias de The Handmaid’s Tale foram e são símbolos de muitas manifestações feministas. Nos primeiros anos de lançamento da série observamos atos que acionaram essa simbologia na Polônia, Irlanda, Canadá, Croácia, Turquia e Reino Unido. Em junho de 2017, nos Estados Unidos, durante corte de financiamento do governo Trump para programas de planejamento familiar, um grupo de ativistas pelos direitos reprodutivos das mulheres associadas à “Liga das Mulheres Eleitoras” (League of Women Voters) tomaram as ruas da cidade de Albany (no estado de Nova York) com as roupas diretamente inspiradas na série.

    Fotos mostram manifestantes pró aborto, com lenços verdes, e contra aborto, com lenços azuis, em manifestações em Buenos Aires, na Argentina. Foto: Natacha Pisarenko/ Jorge Saenz/ AP Photo

    Em junho de 2018, na Argentina, durante votações legislativas sobre legalização do aborto no país, manifestantes de grupos que se posicionaram pró-legalização usaram vestidos longos e sobretudos vermelhos, toucas brancas sobre os cabelos e os olhos. No outro espectro, manifestantes que se posicionaram contrárias à legalização usaram a cor azul, utilizada na série pelas mulheres de elite que oprimem e legitimam o papel subalterno das aias.

    Nesse mesmo contexto, em Buenos Aires, dezenas de mulheres também vestidas como aias realizaram um ato silencioso. Ao chegarem em frente ao parlamento, uma ativista leu em público uma carta escrita por Margaret Atwood (BBC NEWS, 2018). Em junho de 2024, no Brasil, protestos nas ruas e nas redes sociais contra o projeto que tramita em regime de urgência na Câmara dos Deputados e que, se aprovado, será altamente distópico, também vestiram e acionaram os elementos das roupas das aias.

    Mulheres protestam contra o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira, que pautou a urgência do PL do Estupro. Foto: Anis – Instituto de Bioética (@anisbioetica), 2024. Juliana Duarte / Iasmim Baima.

    De modo geral, as distopias são expectativas de um futuro repetidamente adiado da catástrofe humana. A partir da desilusão da ideia de progresso histórico, o curso do rio do tempo parece não ter outro destino, senão o da tragédia. Atwood nos apresenta uma perspectiva da tragédia feminina. Como seria o futuro catastrófico para mulheres? Essa imaginação de futuro nos leva de volta ao passado. O passado também é/foi catastrófico para as mulheres, e o seu retorno, sua atualização no futuro, é altamente distópico.

    Na distopia do tempo presente brasileiro querem fazer mães as crianças. Querem punir meninas, mulheres e pessoas que gestam com penas de até 20 anos para aborto após 22 semanas de gestação, mesmo nos casos permitidos por lei (uma lei, lembremos, de 1940). Em nosso presente em crise, 320 crianças e adolescentes sofrem exploração sexual – mercantilização de seus corpos – a cada 24 horas. Apenas sete em cada 100 casos são denunciados e 75% das vítimas são meninas, em sua maioria negras (dados da Organização Mundial da Saúde – OMS). Segundo o Painel de Dados da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos, até o momento, o Brasil já registra 11.692 denúncias relacionadas à violência sexual contra crianças e adolescentes. Diante desses números, torna-se óbvio quem mais seria impactada pela aprovação do projeto.

    De autoria coletiva, 33 deputados assinam o projeto de lei 1904/2024. Eduardo Bolsonaro (PL-SP), Carla Zambelli (PL-SP) e Nikolas Ferreira (PL-MG) são alguns dos autores, além do deputado federal Sóstenes Cavalcante (PL-RJ).

    No futuro distópico de The Handmaid’s Tale, que se assemelha mais a um regresso ao passado, vemos o progresso da violência contra a mulher, que é melhor e mais sofisticado se partirmos de um olhar de desejo masculino patriarcal. A construção dessa imaginação do futuro é realizada a partir de experiências passadas de opressão que se atualizam enquanto presente (futuro-presente) na ficção, ou diagnóstico, de Atwood. A sua verossimilhança está atrelada a percepções do hoje que vêem como possível esse futuro distópico a partir, principalmente, da guinada conservadora e de extrema direita que serve enquanto contexto histórico nos anos de lançamento da adaptação do livro para a série e que continuam a reverberar neste ano.

    Assim como um tribunal do futuro, Gilead, a sociedade fictícia de The Handmaid¸’s Tale, é o resultado da falta de ação no presente e onde aquele futuro se atualizou. Ao direcionar essa história a nós, principalmente quando, no final da primeira temporada, a protagonista June quebra a quarta parede (ela olha para a câmera) e se dirige a nós, como uma flecha que vem do futuro, nos aciona e nos questiona, em retroatividade e em provocação. Qual o nosso papel naqueles acontecimentos, naquela catástrofe, nas ações que não tomamos providência em nosso presente, ela pergunta.

    A ação das manifestantes que citamos neste texto só pôde ocorrer porque aquela mensagem as tocou de tal forma ao ponto de não desejar que aquele futuro-presente da série se realize. Mas essa é apenas uma parcela das espectadoras. O convite de The Handmaid’s Tale é que nos projetemos naquela possibilidade futura, que nos é verossímil a partir dos elementos que experimentamos no nosso presente e que são constantemente acionados pelo passado de June – o passado da personagem nos é educativo, elucidativo –, nos exigindo olhar para nossas próprias condições, como espectadoras.

    Enquanto homens brancos conservadores e radicais se perpetuarem no poder, The Handmaid’s Tale não será notícia velha de ontem tampouco de amanhã. Se manterá atual e presente, assim como persistem em se repetir as violências contra os corpos femininos e feminizados, e que não cessam de nos assombrar.

    Por Aryanne Araújo
    Aryanne Araújo é mestra em Comunicação pela Universidade Federal de Ouro Preto (2022). Sua dissertação, The Handmaid’s Tale e a emergência de uma situação comunicacional, explora a série televisiva e sua relevância na contemporaneidade.

  • “Anatomia de uma Queda” e quantas vezes uma mulher pode ser culpada

    Sandra Hüller em cena do filme, observada durante seu julgamento

    Samuel Maleski (Samuel Theis) é encontrado morto na porta de sua casa e, a partir disso, a vida dessa família – composta por Sandra, a esposa, e Daniel, o filho de 11 anos – é afetada para sempre. O filme trata da investigação sobre a morte sem dar a cara de um suspense/mistério convencional, e trata a situação como um grande drama vivido no tribunal, com a perspectiva feminista. 

    Anatomia de uma Queda, ou Anatomie D’une Chute originalmente, da diretora francesa Justine Triet, recebeu diversos prêmios, como a Palma de Ouro do Festival de Cannes em 2023, e o Oscar de Melhor Roteiro Original, além da indicação a Melhor Filme, em 2024. A personagem principal, Sandra, interpretada por Sandra Hüller, também foi indicada à categoria de Melhor Atriz no Oscar, justamente por um papel tão complexo e denso realizado por ela, que representa uma mulher que escapa de alguns padrões impostos e os questiona. 

    O que era só uma tarde comum na isolada e tranquila casa nos Alpes franceses em que a família residia transformou-se em um longo julgamento. Quando Daniel vai dar uma volta com Snoop, o cachorro, é surpreendido na volta com o corpo de seu pai estendido em frente à entrada da casa, com machucados e sangue. O menino, que é deficiente visual, grita pela mãe para entender o que está acontecendo e, ao chegar lá, ela telefona para a emergência. 

    Com todos os trâmites e burocracias de uma morte, como autópsia e investigação para entender como a queda aconteceu, Sandra é questionada diversas vezes como a principal testemunha do caso. O que torna tudo mais complicado é que só estavam presentes Samuel, Sandra, que alega estar dormindo e não ter visto/escutado nada, e Daniel, que chega após o acontecimento. Ela é oficialmente indiciada como principal suspeita de ter assassinado o marido. 

    A forma como a personagem de Sandra é construída é bem interessante: uma mulher independente, que prioriza a carreira, bissexual, fugindo do padrão “bela, recatada e do lar”. No entanto, esse conjunto de fatos se organiza contra a personagem, que é questionada veementemente enquanto esposa, mãe e dona de casa, por exemplo, por ser “desgarrada” dessa realidade tão feminina. 

    É como se ela não tivesse ido às aulas de bons costumes para as meninas, pulando a fase de agradar fielmente o marido, servir a família acima de tudo e abdicar de sua carreira profissional – como escritora, no caso – para dedicar tempo e energia aos dois homens de sua vida. Além disso, há um episódio em que Sandra traiu Samuel com uma mulher, o que tensiona ainda mais o processo. Mas, por que isso é exatamente um problema no julgamento? 

    Justamente porque não é o que crime está sendo julgado, mas sim, quem está sendo julgada. Sandra está neste lugar de julgamento pessoal, por ser quem ela é e o que representa em um mundo machista e um sistema patriarcal.  

    Ao levantar provas e evidências para sua defesa, ela ressalta o fato de o marido ser um homem frustrado, ansioso e com possíveis tendências suicidas – de um acontecimento meses antes em que ele teria tentado suicídio com alguns remédios. Ela fala sobre como Samuel tinha dificuldade em seguir com a carreira, com a infelicidade no emprego de professor, e como o acidente que resultou na deficiência do filho, Daniel, o fizeram “estagnar” na vida. 

    O mais curioso de toda a situação é: imaginemos que os papéis fossem invertidos. Seria difícil acreditar nessa versão direcionada para uma mulher ao invés de um homem? De uma mulher com questões de autoestima, ansiedade e depressão, por exemplo? Acredito que seriam reações diferentes do promotor e da juíza que julgou o caso. 

    Anatomia de uma Queda brinca com essa “inversão” e demonstra como a situação pode ser alterada quando os lugares são diferentes dos comuns na sociedade. É modificar esse lugar das mulheres em cuidado inerente em relação ao outro, das esposas fiéis e apaixonadas, da heteronormatividade e, principalmente, da mãe que não possui uma relação tão próxima com o filho. 

    Sandra não cumpre o checklist da “mulher” que conhecemos e isso nos desconcerta. Durante todas as sessões do julgamento observamos sua postura independente – ou podemos dizer “feminista” – ser questionada, enquanto homens em nossa sociedade comumente se isentam de responsabilidades com a casa e filhos, têm uma espécie de “passe livre”para trair e simplesmente serem os homens que conhecemos. Sejam eles maridos péssimos, pais ausentes ou preocupados demais com o trabalho, todos esses fatores não são apresentados como erros, mas sim como essa personalidade masculina. 

    A queda posta no filme não é somente física, mas também uma queda dos padrões de gênero, das “caixinhas” do que uma mulher e um homem podem ou não fazer, por exemplo. Existem diversas ações erradas para homens e mulheres, claro, mas por que culpabilizar somente uma mulher quando ela faz algo exatamente igual ao homem ao seu lado? 

    O filme nos deixa esse incômodo e essa reflexão de gênero: e se fosse um personagem masculino sendo assim, como seria visto? Estamos cuidando e dedicando toda nossa vida ao outro – seja ele um homem ou não – e deixando partes e vontades nossas de escanteio. É preciso autocompaixão ao nos perceber enquanto seres que também demandam cuidado. 

    Ao final, Sandra é absolvida do julgamento e declarada inocente. Mas, todo o processo é tão exaustivo e estressante, que a personagem foi culpada por ser quem ela era. Acredito que a provocação da trama é tentar sair desse senso comum social e pensar: e se uma mulher fosse assim, exatamente como um homem, seria aceita?   

    Serviço: 

    Título original: Anatomie D’une Chute

    Onde assistir: Prime Video 

    Classificação indicativa: 14 anos (A14)

    Classificação da autora: 14 anos (A14)

    Justificativa: O filme condiz com a classificação, não contém cenas explícitas do crime. 

    Gênero: Drama/Crime. 

    Por Lia Junqueira. 

  • Retratos e reflexões das mulheres sertanejas em No Rancho Fundo 

    Foto de divulgação dos personagens da novela.

    No dia 15 de abril, segunda-feira, foi ao ar o capítulo de estreia da nova telenovela das seis, No Rancho Fundo, da Rede Globo. A novela se passa no interior do Cariri em distritos fictícios do sertão nordestino. Gravada em cidades de Minas Gerais e Salvador, a Mina da Passagem em Mariana foi um dos palcos de filmagem e por isso o primeiro capítulo foi exibido em um telão em frente a igreja São Pedro dos Clérigos.

    Divulgação da exibição do primeiro capítulo em Mariana – MG

    Antes mesmo de ser lançada a novela já gerou polêmicas. No mês passado, quando a Globo divulgou a foto do núcleo principal, alguns internautas criticaram a representação de pessoas que vivem no sertão nordestino. O humorista Whindersson Nunes disse em seu Twitter: “Quero estar vivo quando fizerem novela com nordestinos ricos” e outras discussões foram tratadas na rede social. Outros usuários do Twitter levantaram  questões sobre a caracterização, algumas pessoas apontaram que os personagens parecem estar “sujos” e outras especularam que a maioria das obras brasileiras que se passam no Nordeste se resumem a retratar fome e miséria. 

    Mas a discussão que será levantada aqui é sobre as representações das mulheres sertanejas na nova trama, que vai de mulheres independentes e empoderadas a mulheres inocentes, sonhadoras e indefesas, algumas reforçando estereótipos. Em No Rancho Fundo acompanhamos a história da família Leonel e seus 10 membros. Zefa (Andréa Beltrão) é a matriarca e trabalha garimpando na beira do rio para sustentar a família, enquanto seu marido, Eurico (Alexandre Nero), fica em casa. A filha Quinota (Larissa Bocchino) é a protagonista e é uma jovem apaixonada por Marcelo Gouveia (José Loreto), mas o amor não é correspondido e ele só quer usá-la.

    O personagem de Alexandre Nero é caricato, tão pacato e infantilizado que chega a ser bobo. Ele espera ser servido pelas filhas enquanto a esposa trabalha fora. Em uma das cenas iniciais as filhas se recusam a servi-lo, e vão levar a marmita para a mãe, subvertendo o papel tradicional das mulheres na família e sociedade. Na novela, e em várias famílias do Brasil, esse é o papel da mãe: como mostram algumas pesquisas, 48% dos lares brasileiros têm como principais responsáveis pelo sustento da casa e dos filhos as mulheres.

    Na primeira aparição de Zelda, mãe e provedora da família protagonista, está no garimpo, com roupas consideradas masculinas, para conseguir trabalhar e ter respeito garantido. Personagem forte, que sabe se defender sozinha e deixa claro que mulheres não dependem dos homens para viver. Faz de tudo para proteger as filhas.

    Quinota é retratada como uma menina ingênua e, atraída por Gouveia, se deixa levar em seu papo de amor. No final do capítulo, Quinota é flagrada pela mãe, à noite, de camisola e aos beijos com Marcelo Gouveia, que saiu da cidade e foi até o sertão para a encontrar e fazer promessas. Zefa ao encontrar os dois fica chocada e nervosa e o primeiro capítulo acaba ali. 

    Por fim, a novela explora e agencia os papéis de gênero, retrata uma mãe forte, guerreira e provedora que acredita que suas filhas são inocentes. Desse modo, os tabus e estigmas em torno da inocência da juventude, as expectativas sociais sobre o comportamento esperado das mulheres e a sexualidade feminina estão presentes naquela família e podem ser desenvolvidos ao longo da trama. 

    Por Ana Rodrigues

  • Violências e processos de descoberta em “How To Have Sex”

    Mia McKenna-Bruce em cena do filme

    *Alerta de gatilho: esse texto contém relatos de violência sexual. 

    As “férias de nossas vidas”, com muita farra, pegação e dias incríveis, era a promessa da viagem que mudou a realidade de três meninas britânicas. Com uma pegada jovem e muito atual, How To Have Sex nos deixa anestesiadas, refletindo sobre experiências em comum ou de outras mulheres que conhecemos. Ao tratar sobre consentimento e descoberta, o filme aborda intimamente e coletivamente alguns tabus sobre a “primeira vez”.

    O drama britânico de 2023, dirigido por Molly Manning Walker, destacou-se ao tratar de temas profundos e ainda pouco discutidos com clareza na mídia. O filme ganhou a mostra Un Certain Regard, do Festival de Cannes, e foi indicado em outras premiações. A trama gira em torno da jornada de amadurecimento desse trio de amigas, que está em busca de novas experiências, mas, tendo contato com o mundo real, as coisas não são tão legais assim. 

    Quando Tara, interpretada por Mia McKenna-Bruce, chega com Em (Enva Lewis) e Skye (Lara Peake) ao resort incrível em Malia, ilha grega de Creta, os jogos e brincadeiras trazem à tona um assunto comum entre jovens e adolescentes: o sexo. No entanto, Tara – a única amiga virgem do grupo – fica desconfortável com o ambiente, como se precisasse viver tudo imediatamente para se encaixar naquelas conversas. A presença constante de bebidas alcoólicas e festas intensifica os dias delas, que vão conhecer companhias perigosas durante a viagem. 

    Na suíte ao lado, Tara começa a observar um menino, que flerta com ela e logo  convida todo o grupo para beber e jogar. Ao receber uma alfinetada de sua amiga, a menina sente-se mais ameaçada pela falta de experiência sexual, o que a deixa insegura e ansiosa. Com o passar dos dias outro menino, desse mesmo grupo, encontra Tara sozinha e a leva para a praia, sem que ninguém soubesse.

    Nesse momento ele a obriga a entrar no mar, mesmo com frio, e, ao sair, eles se beijam. A adolescente fica confusa com essa situação, experienciando um misto de sentimentos, quando o menino começa a ser mais incisivo e violento para transar com ela. Ele a estupra na areia. 

    Tara não estava bêbada, mas ela também não disse para parar – apesar de não querer fazer sexo com ele. Existe uma representação muito interessante nesse momento pois estava muito claro o desespero e medo da jovem, mas também uma dúvida interna sobre “Então isso é fazer sexo?”. O incômodo da personagem a afasta desse grupo de amigos e encontra outro, no qual ela fica mais à vontade. 

    Pela manhã, as amigas da jovem procuram por ela e começam a ficar preocupadas com o sumiço repentino. Simultaneamente, há um sentimento de confusão de Tara, que questiona se as coisas eram para acontecer dessa forma, mas, logo ao retornar para o resort ela comenta com as amigas que teve a sua tão esperada primeira vez.

    Por não ocupar mais o lugar da menina virgem do grupo, ela se vangloria do acontecimento, mesmo sabendo o quão doloroso foi o momento. Ao ser questionada se foi bom, ela confirma, um pouco receosa, e diz que espera ter mais experiências. No entanto, suas próximas “vezes” seriam estupros reincidentes com o mesmo menino, que a fazem sentir impotência e desejo que essas férias acabem o mais rápido possível. 

    A culpa é um sentimento que ronda a menina durante todo o período das férias, como se ela não pudesse ser ela mesma em nenhuma das situações que viveu, seja virgem ou não. Culpada por ser virgem e não mais “adiantada” como suas amigas; culpada por ter feito sexo e não ter gostado da sensação – que na verdade eram estupros – ou culpada por existir em meio a tanta violência. 

    How To Have Sex escancara o que as mulheres e meninas passam desde o momento em que existem nesse mundo, com uma sexualização quase que doentia de homens, a obrigatoriedade de realizar diversas atividades – incluindo não só o sexo, mas todas as outras – e, claro, a falta da possibilidade de serem respeitadas. 

    A  imposição nos é apresentada desde muito cedo, com nossos corpos e mentes sendo implicados e educados desde o início de nossas vidas enquanto mulheres. Sendo assim, a dificuldade na transgressão dessas barreiras que nos são impostas tornam-se sistêmicas e algo “tão simples” parece um pesadelo. 

    Dessa maneira, falar sobre consentimento, por exemplo, é importante desde as crianças mais novas até a idade adulta, pois os limites precisam ser definidos por nós e para nós mesmas. Além disso, é fundamental uma criação emancipadora e progressista, em que meninas possam realizar suas escolhas e viver “fora das caixinhas” que nos condicionam a isso. 

    A personagem de Tara infelizmente se encaixa em muitas narrativas comuns e próximas, mas a mensagem que esse episódio tão difícil nos traz é a chance de compreender o que aconteceu, debater sobre isso e, por fim, enxergar novas possibilidades de experiências de “primeiras vezes”. 

    Serviço:   

    Título Original: How to Have Sex 

    Onde assistir: Mubi 

    Classificação Indicativa: 16 anos (A16)

    Classificação da autora: 18 anos (A18)

    Justificativa: O filme trata e representa questões muito densas e violentas de forma explícita. Pode causar gatilhos de violência sexual, estupro e assédio. 

    Gênero: Coming Of Age (Amadurecimento) e Drama. 

    Por Lia Junqueira.