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  • Miradas da infância

    Cartaz apresenta a frase Miradas da infância em letra de criança. Embaixo, personagens de desenho animado em negativo, com as logos do projeto na parte inferior.
    Cartaz da mostra. Arte: Bento Vital.
    Cartaz em vermelho, com bordas em amarelo e azul, contendo a programação de filmes da mostra. Na parte inferior, personagens infantis em negativo.
    Programação completa.

    Olhar para as infâncias e pensar como elas mesmas imaginam o mundo. Essa é a proposta de Miradas da infância, mostra cinematográfica do projeto Ariadnes, que vai exibir longas-metragens protagonizados por meninos, meninas e menines e que apresentam perspectivas infantis sobre o mundo, ainda que esses filmes sejam dirigidos por adultas e adultos. Essas miradas se cruzam com questões sobre gênero, raça, sexualidade, etnia, região: quem são as crianças que o cinema nos mostra? Quais são e como são as infâncias pensadas ou lembradas pelos olhares adultos?

    Programação

    08/5: A princesinha
    A little princess, Alfonso Cuarón, 1995
    Adaptado do romance de Frances H. Burnett, o filme narra a história de uma órfã exposta a abusos em um internato de Nova York no início do século XX, após a morte de seu pai na Índia.

    15/5: Onde fica a casa do meu amigo
    Khane-ye doust kodjast? , Abbas Kiarostami, 1987
    Mistura entre ficção e documentário, o filme conta a história de Ahmed, que pega por engano o caderno de seu amigo e precisa devolvê-lo para evitar que o menino seja punido na escola, caso não leve o dever de casa.

    22/5: Meu pé de laranja lima
    Meu Pé de Laranja Lima, Marcos Bernstein, 2012
    Diante de uma realidade dura e da falta de afeto, o pequeno Zezé usa a imaginação para transformar um pé de laranja lima em seu refúgio e confidente. Entre travessuras e descobertas, ele encontra na amizade improvável com o “Portuga” o verdadeiro significado de ser amado. Baseado no clássico de José Mauro de Vasconcellos, o filme é um retrato poético e visceral sobre a infância e o momento em que a fantasia de ser criança dá lugar ao amadurecimento. Uma experiência obrigatória e emocionante que abraça qualquer um que assiste.

    29/5: O túmulo dos vagalumes
    Hotaru no haka, Isao Takahata (Studio Ghibli), 1988
    A animação percorre os desafios vividos por Seita, um adolescente de 14 anos e sua irmã Setsuko, de quatro anos, que depois de perderem seus pais precisam encontrar meios de sobreviver no Japão pós Segunda Guerra Mundial.

    12/6: Conta comigo
    Stand by me, Rob Reiner, 1986
    “Conta Comigo” é uma adaptação da novela “O Corpo” de Stephen King. O filme conta a história de quatro garotos que, ao descobrirem o desaparecimento de um menino em sua cidade natal, a fictícia Castle Rock, decidem ir à procura de seu paradeiro. Durante a busca, os amigos acabam vivendo uma aventura repleta de desafios e reflexões.”

    19/6: Close
    Close, Lukas Dhont, 2022
    Close é um drama belga que retrata a história de dois amigos inseparáveis, Léo e Rémi, de 13 anos, que veem sua relação mudar devido à pressão social. Sensível e impactante, o longa-metragem acompanha as consequências desse rompimento, abordando, desde cedo, temas como masculinidade tóxica, amizade e perda.

    26/6: Marte Um
    Marte Um, Gabriel Martins, 2022
    A partir das tensões políticas que se estabelecem no país após a eleição de um presidente de extrema-direita, Marte Um (2022) traz a história dos Martins, uma família negra de classe média-baixa que vive na periferia de Contagem, região metropolitana de Belo Horizonte. Sob um olhar sensível, a obra tece, a partir do acompanhamento de um cotidiano simples, múltiplas histórias que evidenciam a esperança frente a uma desigualdade social que sufoca sonhos.

    3/7: Lindinhas
    Mignonnes, Maïmouna Doucouré, 2020
    No longa acompanhamos Amy, uma menina de 11 anos de origem senegalesa que vive em Paris. Dividida entre dois mundos contrastantes — os valores tradicionais de sua família e a cultura influenciada pela internet —, ela se aproxima de um grupo de dança local, passando a explorar questões relacionadas à sua identidade, à descoberta da sexualidade e à hipersexualização infantil frequentemente presente nas redes sociais.

    • As sessões são gratuitas e acontecem sempre às 9h, na sala 207 do ICSA;
    • Todas as sessões serão seguidas de uma conversa;
    • Haverá emissão de certificados para quem comparecer a 75% das sessões.

  • Entre o anjo e o monstro: a cobertura midiática e o jornalismo de sensações no caso Isabella Nardoni

    Ana Carolina Cunha de Oliveira e Alexandre Alves Nardoni namoraram durante a adolescência e, aos 17 anos, ela engravidou. O relacionamento não era aprovado pelos pais dela e Alexandre não ficou muito feliz com a notícia da gravidez, pois estava tentando entrar para a faculdade de Direito. Os dois se separaram dois meses antes de Isabella de Oliveira Nardoni nascer. A menina nasceu em 18 de abril de 2002, em São Paulo. Alexandre pagava, às vezes, uma pensão de 250 reais, e tinha direito a visitas quinzenais. Um tempo após o nascimento de Isabella, Alexandre começou a namorar Anna Carolina Peixoto Jatobá, que também era estudante de Direito. Eles tiveram dois filhos juntos – na época do crime um tinha três anos e o outro, 11 meses. 

    No dia 29 de março de 2008, a partir das 23h59, a polícia foi acionada diversas vezes pois havia acontecido uma tentativa de roubo e uma criança havia sido arremessada da janela de um apartamento do Edifício London, na Zona Leste de São Paulo. Era sábado, um dos finais de semana que Isabella passaria com o pai. Ela tinha cinco anos e morreu no gramado da fachada do prédio. Alexandre e Anna Carolina Jatobá não ligaram para a polícia em momento algum. 

    Inicialmente o caso foi investigado como crime patrimonial, mas não foi o cenário encontrado pela polícia. Não havia nenhum sinal de procura por bens materiais, como gavetas abertas. A história de que a porta do apartamento foi arrombada, contada por Nardoni e Jatobá, foi desmentida rapidamente, pois a porta estava intacta. Desse modo, a polícia partiu para a teoria que o invasor tinha a chave da casa e, em dois dias, 23 pessoas foram interrogadas, mas nenhuma evidência foi encontrada. A partir daí, a polícia começou a interrogar familiares e vizinhos e descobriram que a relação do casal era conturbada, com muitas brigas e agressões, e que Jatobá tinha ciúmes de Isabella e sua mãe, Ana Carolina Oliveira. Outro alarmante na investigação foi que Alexandre e Anna Carolina não mencionaram a Isabella em momento algum e só focaram no suposto ladrão que invadiu a casa. 

    Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá mudaram o depoimento diversas vezes, pois os horários e os fatos contados não batiam com os da polícia na investigação. Depois de vários exames, a polícia encontrou gotas de sangue, compatíveis com o DNA de Isabella, na sala do apartamento, em uma fralda que estava lavada e no carro. Na camisa que Alexandre usava no dia do crime, havia resquícios do material da grade que protegia a janela do quarto de onde jogaram Isabella. Os legistas que realizaram a necropsia constataram que Isabella tinha outros sinais de agressão, para além dos sinais da queda. 

    Assim, com os laudos dos legistas, a polícia montou a ordem dos fatos e fez uma reconstituição. Constataram que o ferimento na cabeça de Isabella foi causado dentro do carro e estancado com a fralda que foi retirada no apartamento, por isso não foi encontrado sangue no elevador e corredor. Pela disposição em que eles estavam dentro do carro, Alexandre Nardoni dirigindo, a esposa do lado e Isabella atrás do banco do motorista, quem causou o ferimento foi Anna Carolina Jatobá.

    Depois, Alexandre pegou a menina no colo, estancou o sangue e tampou a boca dela para não chorar, pois ela tinha lesões na boca. No apartamento, ele tira a fralda da filha e arremessa Isabella no chão. Nessa queda ela quebrou o osso do rádio e a bacia. Após isso, aconteceu a asfixia. Isabella tinha lesões no pescoço e estava com os dedos e a boca roxos. Anna Carolina Jatobá asfixiou a menina. Alexandre Nardoni cortou a grade da janela com uma tesoura e jogou a filha pela janela. 

    Isabella foi enterrada em 31 de março. Em 3 de abril foi decretada a prisão preventiva de Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá. Já em 18 de abril, o casal foi indiciado pelo homicídio de Isabella. Em 2009, Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá foram condenados por homicídio triplamente qualificado e fraude processual: Alexandre Nardoni foi condenado a 31 anos de prisão e Anna Carolina Jatobá a 26 anos; os dois não puderam recorrer em liberdade. 

    Como o caso chamou atenção das pessoas da região e mobilizou a polícia, a imprensa cobriu-o desde o início e a repercussão foi rápida. Na televisão, todo dia havia matérias atualizando o público com as novas informações. Essa grande exposição midiática “provocou o clamor popular, eis que antes mesmo da liberação de qualquer laudo pericial centenas de pessoas cercavam o carro dos acusados clamando por justiça e taxando-os de assassinos” (TEIXEIRA, 2011, p. 15). Neste trabalho, vamos tratar dos aspectos dessa exposição exagerada da mídia e de como o jornalismo usou de recursos sentimentais para cobrir o caso, olhando principalmente para a cobertura jornalística da revista impressa Veja e da revista eletrônica Fantástico.

    A revista Veja é publicada semanalmente pela Editora Abril às quartas-feiras e foi criada em 1968 pelo jornalista Roberto Civita. Desde 2009, está disponível em versão digital. O Fantástico é um programa de televisão brasileiro exibido aos domingos pela TV Globo. Criado por Boni com a colaboração de Armando Nogueira e outros, o programa estreou em 5 de agosto de 1973. É menos formal, o que proporciona uma cobertura diferente dos telejornais hegemônicos. 

    Montagem com quatro capas de revistas semanais brasileiras sobre a cobertura do homicídio de Isabella Nardoni
    A construção do bem X mal nas capas de revistas semanais brasileiras. Montagem com reproduções.

    Um dia após o crime, o assunto já era o mais abordado nos principais veículos de comunicação. Em dezembro de 2008, o nome “Nardoni” obteve mais de 622.000 resultados na pesquisa do Google, principalmente em relação a notícias (SBEGHEN, 2017). Uma das maiores coberturas foi realizada pela emissora Rede Globo, que colocou 18 repórteres, 8 produtores e 20 cinegrafistas a campo, segundo dados da Folha de São Paulo (Teixeira, 2011). A emissora também teve acesso a detalhes dos laudos do caso e fez um acompanhamento diário – algumas vezes, em mais de um jornal que atualizava os acontecimentos na fase inquisitória. Na edição do Jornal Nacional de 15 de abril de 2008, quando os laudos periciais estavam quase concluídos, o caso Nardoni ocupou 15 minutos e 20 segundos do noticiário, o que representa 37% de um telejornal que é transmitido em horário nobre, em uma das emissoras mais assistidas do país (Teixeira, 2011). 

    No Fantástico, após um ano do homicídio, foi ao ar uma entrevista com a mãe de Isabella, Ana Carolina de Oliveira. As questões foram sobre a vida da mãe um ano após a morte da filha e como ela fez para continuar vivendo com o sofrimento da perda. A primeira entrevista de Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá, o pai e a madrasta de Isabella, após o crime, foi para o Fantástico. Os dois participaram juntos e foram submetidos ao teste do polígrafo. Esse instrumento é conhecido como detector de mentiras e mede as falas dos acusados com base em sentimentos ou sensações. Não é uma confirmação exata se estão mentindo ou não.

    Desse modo, a entrevista com o casal não teve como objetivo principal informar sobre o andamento da investigação e o envolvimento deles no caso, mas servir de julgamento prévio, buscando determinar se eram culpados ou não, antes mesmo do veredito da lei, utilizando do apelo emocional e da espetacularização. A entrevista está disponível na plataforma Globoplay, mas o teste de polígrafo que foi exibido em rede nacional, por gerador de caracteres, não aparece na tela.

    Em 2024, a emissora publicou uma matéria sobre os 15 anos do homicídio de Isabella no site do G1, na qual abordaram uma retrospectiva do caso, além da atualização sobre a situação dos condenados. Conforme o Estadão, na entrevista realizada pelo Fantástico com os principais suspeitos, os pontos de audiência aumentaram. O mesmo ocorreu com a entrevista feita com a mãe de Isabella, Ana Carolina Oliveira. 

    A simulação do crime exibida pelo Fantástico em 20 de abril de 2008 apresentava Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá como os autores do crime, mesmo que ambos tenham sido condenados somente em 2010. A animação reconstituiu minuciosamente o crime, com trilha sonora de suspense ao fundo e cenário escuro, com luz baixa e sombras colocadas propositalmente.

    O jornalismo não é muito diferente de um enredo de novela (Teixeira, 2011) e, ao longo das coberturas, o telespectador acompanhou o caso exibido de uma forma melodramática, com repetições e detalhes da violência e da brutalidade, junto a verbos em voz ativa, que dão a entender que os atos foram praticados e que tudo ocorreu exatamente como é mostrado (mesmo na fase inicial da investigação, ainda antes do indiciamento). 

    A atenção para o caso do assassinato de Isabella Nardoni nos veículos jornalísticos gerou grande comoção do público. O envolvimento foi tanto que a população chegou a cercar o carro dos acusados, ir em frente ao Fórum de Santana para comemorar a decisão da Justiça e soltar fogos de artifício após o veredito. A maneira como o crime foi coberto pode explicar essas reações, pois a descrição do caso era cheia de arquétipos do bem e mal. A Veja, em suas matérias, colaborou na construção dessa narrativa, explorando a comoção pública e evocando sensações ao trazer apelo, repetição e exagero. 

    Segundo Cunha (2012), a revista chegou a destinar 42 páginas de suas publicações semanais sobre o homicídio de Isabella, contando as capas e reportagens. Ao longo das edições, utilizavam do efeito de luz e sombra para separar o que consideravam ser o bem (Isabella) e o mal (Alexandre e Anna Carolina Jatobá), por meio de montagens, técnicas visuais e narrativas que influenciaram a percepção pública para declarar os acusados como culpados, como a história em quadrinhos reconstituindo o dia do crime.

    Um exemplo desse jornalismo de sensações é visível na capa da Revista Veja – ano 41 – nº 2057, de 23 de abril de 2008, em que o casal está iluminado, enquanto o restante da capa está composto por escuridão e remete a algo sombrio. Na capa, está escrito “FORAM ELES” com uma fonte exagerada, em comparação à frase anterior, “para a polícia não há mais dúvidas sobre a morte de Isabella”.

    Dessa forma, a capa imediatamente associa que Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá assassinaram Isabella, mas o julgamento ainda não tinha acontecido. Contrariando o artigo 5° da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, que trata sobre a presunção de inocência: “ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória”. 

    A Veja também contribuiu para o clima de condenação antecipada. Além de acompanhar os acusados até o fim do julgamento, a revista, ainda hoje, anos após o homicídio, utiliza mecanismos para trazer a família de Isabella Nardoni como pessoas públicas, mesmo não atualizando o caso com informações relevantes. A exemplo disso, em 2018, a revista publicou em seu site uma matéria com o título “‘Ele sabe que tem uma irmãzinha’, diz mãe de Isabella Nardoni sobre caçula”. 

    Para além da Veja e do Fantástico, citados aqui, a emissora Record dedicou reportagens no Jornal da Record como também em programas de investigação como o Domingo Espetacular. Programas do SBT também cobriram o caso, como o SBT Brasil, além de programas não jornalísticos, como o Casos de Família, que discutia as implicações do crime. A rede Bandeirantes também fez parte da cobertura jornalística em seus noticiários e programas investigativos, como o Brasil Urgente

    A maioria dessas coberturas utilizaram estratégias sensacionalistas para noticiar. Segundo Angrimani (1995), o “sensacionalismo é a produção de noticiário que extrapola o real, que superdimensiona o fato. Em casos mais específicos, inexiste a relação com qualquer fato e a “notícia” é elaborada como mero “exercício ficcional””. No caso do assassinato de Isabella Nardoni, ao longo das coberturas realizadas pela mídia, houve a exploração da notícia como espetáculo, utilizando imagens impactantes e simulações da brutalidade para despertar as emoções e sensações. Para isso, mantiveram o público constantemente informado e engajado com o caso e apontaram os culpados antes da Justiça, através da especulação. 

    Casos criminais e brutais costumam ganhar grande repercussão, principalmente pela alta cobertura da mídia. No entanto, crimes que envolvem crianças, e no caso Nardoni, em que o crime foi cometido pelo próprio pai, geram sentimentos intensos de revolta, indignação, senso de justiça, dor, compaixão e solidariedade (Teixeira, 2011). Além disso, o assassinato de crianças causa um envolvimento emocional profundo do público, pois desperta um sentimento de tristeza diante da perda da infância, que representa a inocência, e da interrupção trágica do futuro que aquela criança tinha pela frente.

    Um exemplo dessa perspectiva, é a matéria da revista Veja, na edição do dia 09 de abril de 2008, com o título “O ANJO E O/ MONSTRO”. Isabella representava o anjo, o pai e a madrasta, os monstros e as imagens utilizadas ajudavam a construir essa narrativa. “A imagem não traz nenhuma informação jornalística, a não ser a designação clara de que foi esta criança, tão bonita, com seu sorriso inocente, que morreu de maneira bárbara, jogada pela janela” (Vaz e França, 2009, p. 8). 

    Ana Carolina Oliveira passou a ser uma pessoa pública e suas aparições foram noticiadas em narrativas de sofrimento ou como uma a de “mãe forte”. Como dissemos, ela foi entrevistada pelo Fantástico, um ano depois do homicídio, para falar sobre a vida após a morte da filha. Na entrevista, são exploradas as questões do apelo emocional e da tristeza acerca da maternidade que foi interrompida. Ângulos com o foco nos olhos da mãe são utilizados a fim de dar destaque às lágrimas. As perguntas feitas a Ana Carolina Oliveira trazem questionamentos sobre o sentimento dela em diversos cenários, tanto sobre a morte da filha quanto sobre os sentimentos em relação aos culpados. Aqui, a mãe traz à tona um pouco do que Isabella costumava conversar com ela, sobre o sonho da menina em ser professora de inglês, além de mencionar que ainda guarda materiais antigos da filha e suas expectativas em ser mãe de novo. 

    Historicamente, a madrasta é uma figura cercada de desconfiança, isso é reforçado por narrativas populares, como nos contos de fadas Cinderela e Branca de Neve, nos quais a madrasta é vista como uma mulher cruel, invejosa e perigosa. No caso Nardoni, essa construção foi utilizada na cobertura da mídia e no julgamento do público, que tratava Anna Carolina Jatobá como uma espécie de antagonista dentro do drama familiar. Na reportagem do Fantástico, “Depoimentos traçam o perfil do casal Nardoni”, vizinhos relatam o ciúme exagerado de Anna Carolina Jatobá, tratando-a como descontrolada emocionalmente, doentia e louca em relação a Alexandre Nardoni.

    A forma como as matérias são produzidas e apresentadas sugere que o sofrimento de Ana Carolina Oliveira, a vítima, é consequência direta das ações de Anna Carolina Jatobá, que é retratada como a vilã da narrativa. Esse tipo de narrativa se assemelha à estrutura típica de romances ou novelas, onde o sofrimento da protagonista é sempre atribuído às maldades do antagonista. Essa construção narrativa simplifica uma situação complexa, reforçando estereótipos e criando um juízo de valor que não considera as nuances do caso. 

    Por outro lado, Alexandre Nardoni foi retratado como um pai que falhou em seu papel de protetor, mas cuja participação no crime parecia estar mais ligada à influência (maléfica) de Jatobá, como uma Eva. Esses exemplos refletem como a mídia reforçou estereótipos de gênero, moldando a percepção pública com base em expectativas tradicionais sobre maternidade, paternidade e o papel das mulheres dentro da família. Alexandre aproveitou o lugar de pai protetor, esperado pela sociedade, e repetia em entrevistas que Isabella era seu amor e a “princesinha” da família, usando o argumento de que a família era muito unida. Em março de 2010, no julgamento, Nardoni diz que a avó materna, a mãe de Ana Carolina Oliveira, Rosa Oliveira, não queria que Isabella nascesse e pediu para interromper a gravidez. Ele teria lutado pela vida da filha, tentando utilizar essa narrativa para justificar sua inocência. 

    Não encontramos estudos acadêmicos que analisem especificamente a cobertura jornalística do caso Nardoni sob a perspectiva de gênero. No entanto, percebemos que a representação de Jatobá se alinha com o que teóricas feministas discutem e desmistificam, especialmente em relação à ideia de um amor materno inato e natural. Badinter (1985) examina como a sociedade julga e diferencia as mulheres com base em suas relações biológicas com as crianças, reforçando a expectativa de um amor materno ideal e incondicional, ainda presente tanto na literatura quanto no senso comum. Assim, o fato de os principais suspeitos serem o pai e a madrasta fez com que a ideia de que eles teriam machucado a criança se tornasse mais crível. 

    Isso não significa que Anna Carolina Jatobá fosse inocente. Mas, mesmo diante das suspeitas, é fundamental que os direitos à presunção de inocência e ao devido processo legal sejam respeitados, evitando julgamentos precipitados pela mídia – principalmente carregados de estereótipos e estigmas sociais – ou pela opinião pública antes do término das investigações e da conclusão do processo judicial. Esses aspectos são essenciais para garantir que o julgamento seja o mais imparcial e justo possível, sem influências externas que possam comprometer o direito de defesa e a legitimidade das decisões judiciais. 

    A cobertura de crimes pela mídia exige um compromisso ético, mas o caso Isabella Nardoni expôs várias falhas nesse sentido. A abordagem sensacionalista, visando a audiência em vez da verdade, prevaleceu nas reportagens, levando a uma representação desproporcional e espetacularizada dos fatos. Segundo Pedroso (2001, p. 122), o jornalismo sensacionalista se caracteriza por intensificação, exagero e valorização da emoção em detrimento da informação. Essas características foram claramente observadas no tratamento do caso, que continuou a ser explorado mesmo após a condenação dos envolvidos, infringindo o direito à privacidade e ressaltando a falta de leis específicas para regular a cobertura midiática. 

    A intensa exposição dos envolvidos gerou um julgamento público que desconsiderou o princípio da presunção de inocência. A ausência de regulamentação para a atuação da imprensa em casos de grande repercussão permitiu que o sensacionalismo dominasse as narrativas, influenciando não apenas a opinião pública, mas também o andamento do processo judicial. Essa situação demonstra a fragilidade do sistema, onde a necessidade de cliques e audiência se sobrepõe à ética e ao respeito aos direitos dos acusados, criando um cenário de pré-julgamento antes do veredito final. 

    Como apontado por Christofoletti (2008), o sensacionalismo representa um desvio ético ao explorar o sofrimento humano e transformar notícias em espetáculo, violando os princípios fundamentais do jornalismo responsável. O caso Nardoni ilustra a urgência de se estabelecer normas mais rigorosas para a cobertura midiática, a fim de proteger os direitos dos envolvidos e assegurar que a informação seja tratada com a seriedade e o respeito que merece. Em última análise, é essencial que a imprensa reavalie suas práticas para promover uma cobertura que priorize a verdade e a ética, em vez do sensacionalismo que alimenta a curiosidade pública, principalmente em casos de luto.

    Por Ana Luiza Rodrigues, Laura Lanza e Pedro Vieira
    Produzido para a disciplina Crítica de Mídia e Ética Jornalística em 2024.1

    Referências 

    ANGRIMANI SOBRINHO, Danilo. Espreme que sai sangue. Um estudo do sensacionalismo na imprensa. São Paulo: Summus, 1995 (Coleção Novas Buscas em Comunicação, vol. 47). 

    BADINTER, E. (1985). Um amor conquistado: o mito do amor materno. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 

    BARBOSA, Renata Ribeiro Farias; NAKAGAWA, Fábio Sadao. A espetacularização da violência e os Direitos Humanos: uma análise da cobertura do caso Nardoni na revista Veja. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO, 38., 2015, Rio de Janeiro. Anais […]. Salvador: Universidade Federal da Bahia, 2015. Disponível em: https://portalintercom.org.br/anais/nacional2015/resumos/R10-1808-1.pdf. 

    BRASIL URGENTE. Madrasta de Isabela Nardoni pode mudar para semiaberto. YouTube, 25 de abril de 2017. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=meezfi2g79U. Acesso em: 3 de outubro de 2024. 

    COSTA, Pâmela Berton; OTA, Daniela Cristiane. Análise do Conteúdo Televisivo no Caso Isabella Nardoni. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO, 31., 2008, Natal. Anais […]. São Paulo: Intercom, 6 de setembro de 2008. Disponível em: http://www.intercom.org.br/papers/nacionais/2008/resumos/R3-0996-1.pdf. Acesso em: 3 de outubro de 2024. 

    CHRISTOFOLETTI, R. Ética no Jornalismo. São Paulo: Contexto, 2008. 

    DA CUNHA, Camila Rocha. Quando a mídia sentencia antes da justiça: análise da cobertura de Veja sobre o caso Isabella Nardoni. 2011. Trabalho de Conclusão de Curso de Jornalismo. Centro Universitário Franciscano. Disponível em: https://lapecjor.wordpress.com/wp-content/uploads/2011/04/quando-a-mc3addia-sentencia-an tes-da-justic3a7a-anc3a1lise-da-cobertura-de-veja-sobre-o-caso-isabella-nardoni.pdf. 

    DOMINGO ESPETACULAR. Exclusivo: Domingo Espetacular mostra o primeiro reencontro do casal Nardoni. YouTube, 11 de agosto de 2019. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=TRU4v-iCTDA. Acesso em: 2 de outubro de 2024. 

    ESTADÃO. Audiência da entrevista da mãe de Isabella não supera a do casal. O Estado de S. Paulo, 26 abr. 2018. Disponível em: https://www.estadao.com.br/sao-paulo/audiencia-da-entrevista-da-mae-de-isabella-nao-super a-a-do-casal/ 

    FALCKE, Denise; WAGNER, Adriana. Mães e madrastas: mitos sociais e autoconceito. Estudos de Psicologia (Natal), v. 5, p. 421-441, 2000. Disponível em: https://www.scielo.br/j/epsic/a/vVxcxmPK9gKM5cztVsj8vvJ/?lang=pt&format=html. 

    FANTÁSTICO. Casal Nardoni – entrevista com detector de mentiras – parte 1. YouTube, 8 de março de 2009. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=0h6sknm76OI. Acesso em: 01 de outubro de 2024. 

    FANTÁSTICO. Rede Globo de Transmissão Fantástico 22032009. YouTube, 8 de abril de 2010. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=aGTclFwQ2dE. Acesso em: 01 de outubro de 2024. 

    G1. Caso Nardoni: 15 anos após o crime, como estão os condenados pela morte da menina Isabella. G1, 29 mar. 2023. Disponível em: https://g1.globo.com/sp/vale-do-paraiba-regiao/noticia/2023/03/29/caso-nardoni-15-anos-apo s-o-crime-como-estao-os-condenados-pela-morte-da-menina-isabella.ghtml.

    JORNAL DA RECORD. Exclusivo: mãe e avó de Isabela Nardoni revelam planos para uma nova vida. YouTube, 13 de março de 2013. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=r0Xd8IPD0V0. Acesso em: 2 de outubro de 2024. 

    JUSBRASIL. Saiba quem é quem no julgamento do casal Nardoni. JusBrasil, 2010. Disponível em: https://www.jusbrasil.com.br/noticias/saiba-quem-e-quem-no-julgamento-do-casal-nardoni/2 125278. 

    MEMÓRIA GLOBO. Caso Isabella Nardoni. Memória Globo, 2023. Disponível em: https://memoriaglobo.globo.com/jornalismo/coberturas/caso-isabella-nardoni/noticia/caso-isa bella-nardoni.ghtml#ancora_9. 

    SANTOS, Aparecida de Fátima Moreira dos. A influência midiática no Tribunal do Júri brasileiro: breve análise do caso Isabella Nardoni. Revista Científica Eletrônica do Curso de Direito, ISSN 2358-8551, v. 9, ed. jan. 2016. Disponível em: http://faef.revista.inf.br/imagens_arquivos/arquivos_destaque/MMh5O1bteVky9wk_2019-2-28-17-0-23.pdf. 

    PEDROSO, Rosa Nívea. A construção do discurso de sedução em um jornal sensacionalista. São Paulo: Annablume, 2001. 

    SBEGHEN, Beatriz Carvalho. A influência da mídia no procedimento do júri: Caso Nardoni. Jus Brasil, 2017. Disponível em: https://www.jusbrasil.com.br/artigos/ainfluencia-da-midia-no-procedimento-do-juri-caso-nar doni/398100185. 

    TEIXEIRA, Marieli Rangel. As propriedades do jornalismo sensacionalista: uma análise da cobertura do caso Isabella Nardoni. 2011. Dissertação de Mestrado. Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Disponível em: https://repositorio.pucrs.br/dspace/bitstream/10923/2064/1/000432475-Texto%2BCompleto-0 .pdf. 

    VEJA. ‘Ele sabe que tem uma irmãzinha’, diz mãe de Isabella Nardoni sobre caçula. Veja, 29 mar. 2018. Disponível em:https://veja.abril.com.br/brasil/ele-sabe-que-tem-uma-irmazinha-diz-mae-de-isabella-nardoni sobre-cacula/.

  • A mulher brasileira no cinema: um olhar sobre as obras de Anna Muylaert

    Montagem feita a partir de cenas dos filmes É Proibido Fumar e Que Horas Ela Volta? /Mariana Amaral

    O cinema é uma das maiores fontes de representação da realidade, é uma ferramenta artística que é usada como forma de produzir críticas e entendimentos sobre a dinâmica das sociedades. Quando olhamos para obras que discutem gênero no Brasil, um dos nomes que surgem é o de Anna Muylaert, cineasta há mais de 30 anos. A partir de um olhar como mulher dentro da sociedade brasileira, ela busca em seus filmes retratar as realidades dessas mulheres.

    A partir dos filmes É Proibido Fumar (2009) e Que Horas Ela Volta? (2015), analisei como a construção das personagens coloca em cena a realidade de muitas de nós. O primeiro filme retrata a história de Baby (Glória Pires), uma professora de violão que não atende às expectativas impostas em uma sociedade patriarcal sobre uma mulher na casa dos 30 anos. O segundo é um clássico do cinema nacional. Ele traz a história de Val (Regina Casé) uma mulher nordestina que vai para São Paulo e lá consegue trabalho de empregada doméstica em uma casa de classe média alta. Vários anos depois, Jéssica (Camila Márdila) filha de Val, vai morar com ela em São Paulo com objetivo de fazer o vestibular de uma prestigiada universidade.         

    Nas duas produções, a dinâmica entre as personagens femininas em cena é algo marcante, que demonstra várias nuances sociais com perspectiva de gênero. Os personagens masculinos estão presentes, mas não carregam tanta profundidade. Isso acontece mesmo no caso da história de Baby, em que uma das razões de ela decidir parar de fumar é por causa do seu interesse amoroso, o decadente músico Max (Paulo Miklos), que não gosta de cigarro. Ao longo do filme, personagens secundárias como Teca (Dani Nefussi), Pop (Marisa Orth), irmãs de Baby, e Stelinha (Alessandra Colasanti), ex-namorada de Max, trazem aspectos interessantes para uma discussão de gênero.   

    Durante a narrativa observamos a pressão que Baby sente em atingir certas expectativas sociais que suas irmãs “conseguiram”, como constituir uma família “tradicional” ou ter um emprego com alta remuneração. Com isso, ela se envolve em um relacionamento nem um pouco saudável, apenas para conseguir algo “estável”. Teca é uma mulher casada que acabou de ter uma bebê e tem um marido nem um pouco parceiro em relação ao cuidado da casa e da filha; já Pop tem um cargo de grande importância em uma empresa multinacional. A partir dessas narrativas, essas personagens trazem reflexões sobre o que se espera de uma mulher dentro da sociedade e como elas são vistas quando não seguem esse padrão.  

    Em Que Horas Ela Volta? essa dinâmica é visível no comportamento de Val em relação aos patrões e vice-versa, além de Jéssica em relação a todos, principalmente com Bárbara (Karine Teles), a dona da casa. Esse filme trata sobre desigualdades brutais presentes na sociedade, isso é algo marcante e relevante da produção. A personagem Bárbara representa o preconceito de um grupo social sobre a ascensão de uma classe trabalhadora em busca de boas oportunidades. Jéssica representa a quebra naquele sistema hierarquizado, já que ela não se submete às vontades dos patrões de sua mãe e tem um pensamento crítico sobre o mundo. 

    Nesse filme, Anna usa as três personagens femininas para desmascarar uma sociedade cheia de preconceitos. No início, Val atende e obedece todos os pedidos de Bárbara, sem questionar, e acha que viver no quartinho dos fundos é um grande favor da família para a qual trabalha. Porém com a chegada da filha esse pensamento vai embora, já que a jovem teve um outro tipo de educação, com questionamentos sobre estruturas de poder. Para a patroa, esse tipo de pensamento “polui” a vida familiar daquela casa, pois é inimaginável para ela uma doméstica não fazer todas as suas vontades e a filha da empregada passar em uma universidade super concorrida, enquanto seu próprio filho é reprovado.

    Nos dois filmes também temos a sexualização dos corpos femininos. Em É Proibido Fumar a personagem Stelinha é tratada por Max apenas como objeto sexual. Durante o filme ele diz várias vezes para Baby que a ex dele é louca. Ele não respeita nem um pouco Baby, sai com a ex enquanto está com ela e demora a assumi-la como sua namorada. Além disso, usa a fragilidade dela para manipulá-la. Observamos que Max só assume Baby oficialmente quando a considera uma mulher ideal (tudo isso dentro de expectativas patriarcais e sexistas), uma mulher “boa pra casar”. 

    Quando Baby e Max vão morar juntos, isso mexe muito com o psicológico dela, já que finalmente ela atendia a algum critério social. Mas no decorrer da narrativa, ela enxerga que aquilo não é bom, aquele cara não é o amor da vida dela e não vale a pena tudo aquilo. Ela deixa Max e segue sua vida, sem se preocupar mais com essas amarras sociais.

    Já em Que Horas Ela Volta? a sexualização ocorre de maneira diferente; não é algo visível, mas nas entrelinhas. Isso acontece com Jéssica, que sofre investidas de José Carlos (Lourenço Mutarelli), patrão de Val e marido de Bárbara. Assim que ela chega à casa, ele está muito disposto a ajudá-la, oferece quarto de hóspedes, a leva no atelier dele, puxa conversa com ela. Após um tempo de convivência dentro da casa, chega um dia que José se declara para Jéssica e a pede em casamento. Obviamente ela acha aquilo completamente estranho. 

    A partir dessa análise sobre esses dois filmes, trazendo essas perspectivas de gênero dentro de uma sociedade patriarcal heteronormativa, observa se que Anna Muylaert retrata por meio dessas obras vivências que diversas mulheres já passaram ou ainda passam. Ela traz em seus filmes a realidade da sociedade brasileira, com críticas a esse sistema, o que contribui para discussões sobre gênero e papeis sociais de homens e mulheres. Nessas produções, ao centralizar as experiências femininas e questionar normas estabelecidas, a cineasta não apenas denuncia desigualdades, mas também abre espaço para reflexões sobre o lugar da mulher na sociedade contemporânea.

    Por Mariana Amaral

    Serviço:

    Título Original: É Proibido Fumar 

    Onde Assistir: Youtube

    Duração: 1h 29min (89min)

    Gênero: Drama

    Classificação Indicativa: 16 anos (A16)

    Nossa Classificação: 18 anos (A18)  

    Justificativa: O filme apresenta questões de saúde mental, uso de tabaco e conteúdo sugestivo de relações sexuais.  

    Título Original: Que Horas Ela Volta? 

    Onde Assistir: Youtube, Netflix e assinatura premium da Amazon Prime Video 

    Duração: 1h 52min (112min)

    Gênero: Drama

    Classificação Indicativa: 14 anos (A14)

    Nossa Classificação: 14 anos (A14)

    Justificativa: O filme trata de temas sensíveis relacionados à maternidade, abandono, desigualdade de classe e relações de poder.

  • A amizade e a ausência na linguagem de Elena Ferrante

    A tetralogia napolitana, da autora italiana Elena Ferrante, conta sobre a realidade de uma Nápoles pós-Segunda Guerra, enfrentando as consequências desse período: a pobreza, a fome e a violência. Para além disso, os livros são um retrato de como era ser mulher na sociedade da época, mostrando como alguns desses desafios também perpassam a atualidade. São quatro títulos: A amiga genial, que acompanha as garotas na infância e pré adolescência; História do novo sobrenome, o qual relata a adolescência; História de quem foge e de quem fica, abordando a vida adulta; e História da menina perdida, que conta sobre a velhice das duas amigas.

    Ao acompanhar Rafaella Cerullo (Lila) e Elena Greco (Lenu) crescendo, é possível compreender o papel de mulheres por toda a vida, em diferentes contextos; as duas são muito diferentes e, por suas escolhas, isso é intensificado. Mesmo em meio às diferenças e ao caos que as cercam, algo se constrói: a amizade.

    Elena Greco (Lenu)  abraça Rafaella Cerullo (Lila), enquanto leem  “Mulherzinhas” em cena da série “My brilliant friend”, de 2018, baseada na tetralogia napolitana

    Amizade

    Em A amiga genial, as garotas enfrentam a figura de Dom Achille, monstro de suas histórias infantis. Com o dinheiro que recebem do homem, compram um exemplar do livro Mulherzinhas, de Louisa May Alcott: elas passam  dias lendo trechos juntas, compartilhando seus sonhos de saírem do bairro e passam a ver uma à outra como irmãs, assim como as protagonistas da obra que as acompanhou. Suas vidas tornam-se conectadas, assim como suas ações; onde está Rafaella Cerullo, encontra-se Elena Greco.

    Toda garota já passou pela experiência de se conectar tão fortemente com uma amiga que vocês passam a ser uma só: os filmes, os livros, os gostos e as opiniões nunca mais se decidem sozinhos. Mas, em algum momento, a vida leva vocês para lugares diferentes. Suas opiniões não são as mesmas, porque suas vivências são diferentes; vocês não se entendem mais. Lenu e Lila enfrentaram esse mesmo problema por toda a vida, discutindo entre si e, a cada livro, dividindo mais minha opinião sobre quem é a “amiga genial” – de acordo com Rafaella Cerullo, esse papel é ocupado por sua amiga.

    “Eu quero que você estude, que vá embora daqui, que se torne a melhor de todas, como você já é. Você é minha amiga genial, precisa se tornar a melhor de todos, entre homens e mulheres.” – Lila Cerullo

    Em determinados momentos, Lila é o centro dos holofotes. No primário, é a pupila da professora; na adolescência, é casada, tendo um filho ainda jovem e sendo dona de casa, a garota que alcançou o sucesso na visão dos pais. Sua astúcia e coragem atraíam a todos do bairro e, com o passar dos anos, sua generosidade com os moradores do local a tornou uma figura especial ao olhar das pessoas. Apesar disso, Lenu também alcança o apreço dos demais; ela ingressa na escola, depois no ginásio e, ainda, na universidade. Se torna uma escritora famosa, com um marido respeitado e filhas. É uma disputa entre elas mas, ao mesmo tempo, uma demonstração do impacto das escolhas (aquelas que são suas ou as que lhe foram impostas); afinal, quem realmente alcançou o sucesso? Existe uma fórmula para a felicidade?

    Lenu (a esquerda) dança com Lila (a direita) na 1ª temporada de “My brilliant friend”

    Ausência

    Elena Ferrante é, na verdade, um pseudônimo. Desde a publicação de A amiga genial na Itália, em 2011, o mundo procura saber quem é a pessoa de verdade por trás dos livros. Prevendo o movimento de curiosidade dos seus leitores, em 1991, Ferrante escreveu uma carta no livro Frantumaglia: “Acredito que os livros, uma vez que tenham sido escritos, não têm qualquer necessidade de seus autores. Se eles têm algo a dizer, vão encontrar cedo ou tarde seus leitores”.

    Pessoalmente, acredito que a autora escreve para aqueles que desejam permitir os sentimentos de serem sentidos (a tetralogia napolitana é exemplo disso, não poupando reviravoltas ao longo de seus volumes). Com o passar dos anos, a “febre Ferrante” acabou fomentando a curiosidade acerca da autoria dos sucessos italianos, chegando a apontar alguns nomes. Alguns defendem a investigação sobre a autoria, mas, particularmente, sinto que fazer isso é como se ocupassem o lugar de Gennaro, filho de Lila: a insistência em encontrar alguém que não deseja ser localizado.

    Entre Lila e sua criadora, uma semelhança é nítida: a escolha de ser ausente. Em outra entrevista, Elena Ferrante afirma que “não escolhi o anonimato, e sim, a ausência”. Ao longo de todos os livros, é perceptível como Rafaella Cerullo nutre o desejo de sumir daqueles que a conhecem para viver sua própria vida e traçar novos caminhos por meio da abstração; ao ficar velha, a protagonista faz exatamente isso, cortando todas as fotos com sua imagem e desaparecendo com qualquer vestígio que comprovasse que ela já existiu: aquela Lila já não está mais ali. Afinal de contas, ela já esteve ali por inteiro? 

    Lila em seu casamento, na 1ª temporada de “My brilliant friend”

    Títulos originais: L’amica geniale, Storia del nuovo cognome, Storia di chi fugge e storia di chi resta e Storia della bambina perduta

    Recomendação de faixa etária: 18 anos (A18)

    Justificativa: Os livros contêm apologia à violência, sexo explícito e uso de drogas.

    Gênero: Romance

    Por Maria Vital

  • O acolhimento como resposta à negação da saúde para corpos dissidentes

    Em 2025, completam-se 35 anos da implementação do Sistema Único de Saúde (SUS) no Brasil. O sistema surge para atender as demandas de saúde pública da população e, com o passar dos anos, tem feito tentativas para atender de maneira integral grupos marginalizados da sociedade. Isso acontece desde o início dos anos 2000 e culmina, em 2011, com o marco da Política Nacional de Saúde LGBT, que prevê diretrizes e protocolos para o atendimento da comunidade. Apesar dos avanços, ainda existem dificuldades na implementação eficaz do acesso.

    Uma pesquisa feita em 2016 por pesquisadores da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) com 626 pessoas trans revelou que cerca de 66,3% das mulheres não consultam um médico para utilizar hormônios. Das 291 que responderam sobre esse tema, 39,2% compram hormônios pela internet e 27,1% conseguem com amigos ou conhecidos. Esse cenário é o reflexo de um país formado por raízes transfóbicas que são reproduzidas no atendimento dessa população.

    Graças a conquistas da comunidade desde o início deste século, a política foi construída ao longo dos anos por meio da luta. A portaria reconhece a necessidade de reduzir o preconceito institucional do sistema e é tida como um avanço histórico da população LGBTQIAPN+, que ainda enfrenta fragilidades no atendimento. O que esse grupo vivencia na saúde pública é a não garantia de diretrizes previstas.

    Entre os princípios da política destaca-se o papel do SUS em “garantir acesso ao processo transexualizador na rede do SUS, nos moldes regulamentados”; “atuar na eliminação do preconceito e da discriminação da população LGBT nos serviços de saúde”; e “garantir o uso do nome social de travestis e transexuais, de acordo com a Carta dos Direitos dos Usuários da Saúde”. Apesar disso, ainda hoje a população trans encontra entraves no acesso integral ao atendimento na saúde pública.

    Bandeira do Brasil em close, com as cores do arco-íris, e nomes assinados em cima.
    Bandeira do Orgulho LGBTQIAPN+ em conjunto a bandeira nacional. Foto: Gabriel Maciel.

    Segundo dados de 2021 levantados pela Faculdade de Medicina de Botucatu da Universidade Estadual Paulista (FMB/Unesp), o Brasil conta com cerca de 3 milhões de pessoas transgêneras ou não binárias. Este número representa cerca de 2% da população nacional. “Ele fala que não é um menino trans, é um menino”, relata J., mãe de H., de 13 anos. H. é uma dessas milhões de pessoas com experiências transfóbicas na vida.

    Como conta a mãe, o atendimento à saúde pública para o filho passou por entraves. No município de Mariana (MG), cidade onde eles moram, o tratamento não foi acolhedor.  “Eu fui com o pedido, falaram que tinha o medicamento, a injeção de leuprorrelina, mas só que não podia dar porque ele era uma criança trans.” Segundo a bula, dois anos é a idade mínima para o remédio. Não há nenhuma proibição de uso para crianças ou adolescentes trans, pelo contrário: a área da saúde discute benefícios da terapia de supressão hormonal há décadas.

    O contexto vivenciado pela família é de um país que, segundo dados da Associação Nacional de Travestis e Transsexuais (Antra), somente no ano de 2024 registrou 122 assassinatos de pessoas trans e travestis. Minas Gerais foi o segundo estado com o maior número de crimes: 12. As violências são perpetradas em diversos espaços e são, muitas vezes, institucionalizadas. Ocupando o primeiro lugar no ranking de nações que mais matam pessoas trans no mundo, a comunidade trans sobrevive no Brasil, por vezes, do apoio coletivo, da resistência de determinadas instituições e pelas diretrizes do SUS.

    Foto em ângulo superior de um homem pardo de costas, com blusa branca, com adesivos do orgulho trans.
    Desenho em aquarela com borboleta junto às cores da bandeira trans sinalizam o movimento de resistência e transformação da comunidade. Foto: Gabriel Maciel.

    Como parte de uma sociedade transfóbica, o sistema de saúde também é afetado. Um exemplo é que, apenas em maio de 2019, a transexualidade deixou oficialmente de ser considerada uma doença pela Organização Mundial da Saúde (OMS), depois de ter sido definida como transtorno mental durante 28 anos na Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas de Saúde (CID). Esses anos refletem o atraso no tratamento integral da comunidade em todo o globo, em especial no Brasil.

    Em Ouro Preto, o Centro de Referência e Apoio LGBTQIAPN+ (CRA), criado em 2023, é um exemplo de órgão público que propõe atendimento múltiplo para a comunidade trans da região. A partir do aparato, composto por equipe jurídica, psicológica e da área da saúde, sujeitos como H. encontram a viabilização dos seus direitos.

    Cinco pessoas sorridentes reunidas em uma sala.
    Descontraída, equipe do CRA-OP realiza bate-papo no espaço como parte das atividades da Semana da Visibilidade Trans do CRA-OP.  Foto: Gabriel Maciel.

    Vitor Pinto é diretor de Promoção Social de Ouro Preto e um dos responsáveis pelo espaço. Ele reforça o papel social diante destes cenários: “Temos diversas frentes de trabalho do centro de referência LGBT, mas o central, o principal é fazer com que a população consiga acessos aos direitos que foram negligenciados durante toda a história”.

    Reflexo de um sistema de saúde que opera sob a perspectiva interprofissional, o CRA possibilitou a H. o acesso ao processo transexualizador e a outros direitos. “Ele começou o acompanhamento aqui [no CRA] em junho do ano passado, 2024. E olha, para você ver, esse acompanhamento gerou muitos frutos. Ele conseguiu fazer a retificação de nome e conseguiu fazer o acompanhamento em Belo Horizonte com o bloqueador. Então, foi em muito pouco tempo”, destaca J., sobre o encontro do filho com o local.

    Apesar de órgãos que buscam a viabilização dos direitos, Centros de Acolhimento como este são uma ação isolada, estabelecida a partir de decisão municipal. Ao comentar sobre as dificuldades financeiras do centro, Vitor reforça a necessidade de políticas e realiza um comparativo com outros projetos governamentais. “O Centro de Referência LGBT funciona exclusivamente com recursos vindos da Prefeitura de Ouro Preto. Não tem uma política nacional ou estadual de destinação de recurso, como a gente tem para os outros serviços, como o Centro POP, os CRAs e para as unidades básicas de saúde, então tem essa dificuldade financeira”.

    Mesa com diversos folhetos informativos sobre saúde, prevenção e direitos da comunidade LGBTQIAPN+.
    O CRA de Ouro Preto, além de acolher, é um espaço que informa sobre as pautas da comunidade e para ela. Foto: Gabriel Maciel.

    O trabalho do CRA também tem o objetivo político de reconfigurar o cenário local diante da comunidade trans. Com atuação ampla em diferentes frentes, e parceria estruturada recentemente com o município vizinho de Mariana, a instituição segue propondo caminhos. Vitor revela que, para ampliar os direitos no acesso à saúde, por exemplo, a instituição atua de diversas formas: “O ponto central é trabalhar com a população em geral, com a sensibilização, apresentando e mostrando a pauta, trabalhando com os servidores públicos municipais nessa sensibilização e na capacitação deles”.

    Homem pardo de cabelos curtos e camiseta cinza fala para outro homem, de costas, com cabelos enrolados. Ao fundo, mural de colagens.
    Em entrevista, Vitor Pinto relata sobre suas perspectivas do CRA, ao fundo, grafismos utilizados na Parada LGBTQIAPN+ de Ouro Preto ambientam a conversa. Foto: Gabriela Cortez.

    O que Mariana (não) tem feito
    Se Ouro Preto avança, na cidade vizinha a situação é mais precária. Em Mariana, os cuidados em saúde sexual e reprodutiva são divididos em dois centros de atendimento: a Casa Rosa, dedicada ao atendimento do público “feminino”, e a Casa Azul, dedicada ao atendimento do público “masculino”. A lógica desta divisão, que segue o binarismo de gênero – classificação de gênero em duas formas: masculino e feminino –, afasta a população LGBTQIAPN+, em especial as pessoas trans e travestis, do acesso a essas especialidades.

    Questionada sobre o funcionamento das unidades Casa Azul e Casa Rosa no atendimento a população transsexual e travesti, a subsecretária de Assistência e Políticas Públicas em Saúde, Larissa Oliveira, afirma que a assistência a saúde sexual e reprodutiva “não é exclusividade das conhecidas “Casa Azul” e “Casa Rosa”, elas atendem demandas da atenção especializada, e em alguns procedimentos apoiam as Unidades Básicas de Saúde”. A subsecretária afirma ainda que a divisão rosa/azul “acompanha um traço da organização da nossa sociedade e políticas nacionais”.

    Sobre o atendimento psicossocial, o município não conta com uma linha de cuidados especializados para a comunidade LGBTQIAPN+. Entretanto, segundo Oliveira,“vêm sendo desenvolvidas iniciativas de qualificação, levantamento de demandas, prevenção a doenças conhecidas como de maior incidência neste grupo”. De acordo com ela, essa ação é feita como parte da Política Estadual de Promoção e Prevenção à Saúde. Há poucos meses, Mariana criou o Departamento de Promoção à Diversidade, vinculado à Secretaria de Desenvolvimento Social, com Saulo Camêllo à frente. Em junho, a prefeitura realizou uma ação para facilitar o processo de retificação de nome.

    Alguns processos não são realizados na cidade, sendo necessário o deslocamento para municípios próximos. Para o serviço do processo transexualizador é preciso ir ao Hospital Eduardo de Menezes, em Belo Horizonte, que é referência regional. Procedimentos como consultas com ginecologia, urologista, endocrinologista, angiologista, entre outros, são ofertados pelo município. A distribuição de Profilaxia Pré e Pós-exposição (PrEP e PeP), de medicamentos para tratamento e de autotestes de HIV, não é realizada em Mariana; é preciso se deslocar até a Policlínica de Ouro Preto. Porém, segundo a subsecretária, “com a nova estrutura da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) esperamos trazer ainda este ano [a distribuição dos medicamentos]”. De acordo com Oliveira, até a publicação da reportagem, a unidade ainda não conseguiu autorização para o fornecimento de PrEP, e a referência ainda é Ouro Preto.

    O que é possível fazer
    Iniciativas em todo o país demonstram que é possível aplicar, com qualidade, as políticas nacionais de saúde para a população LGBTQIAPN+ em nível local. Em Minas Gerais, a cidade de Uberaba, no Triângulo Mineiro, inaugurou o Centro de Referência em Saúde da População LGBT+ (Cresp) em outubro de 2023. Em entrevista concedida para esta reportagem, a prefeita da cidade, Elisa Araújo (PSD-MG), afirma que a iniciativa “foi pensada para promover a igualdade de direitos e garantir acesso à saúde de qualidade para todos, sem discriminação”.

    Pessoas reunidas em frente ao prédio do CRESP LGBT+.
    Unidade especializada na saúde da população LGBTQIAPN+ foi inaugurada no final de 2023. Foto: Alfredo Neto/PMU/Reprodução.

    Atualmente, o centro realiza cerca de 150 atendimentos por mês, contando com equipe multidisciplinar, que inclui profissionais da saúde como médicos, enfermeiros, psicólogos e assistentes sociais, absorvendo as demandas de saúde específicas dessa população, em um espaço seguro e acolhedor.

    Segundo a prefeita, passados mais de dois anos da implantação, o Cresp tem sido bem aceito pela população uberabense. “A recepção tem sido positiva, com a maioria da população reconhecendo a importância para garantir acesso igualitário à saúde e combater a discriminação. A criação de um espaço dedicado à população LGBTQIAPN+ é vista como um avanço nos direitos humanos e na saúde pública. Embora ainda haja resistências em algumas áreas, especialmente em relação ao estigma LGBTQIAPN+, o Cresp tem investido em campanhas de sensibilização e debates, contribuindo para um ambiente mais inclusivo e acolhedor.”

    Apesar dos estigmas e preconceitos citados pela chefe do Executivo, a articulação política e o envolvimento da sociedade civil organizada permitiu a efetivação da política pública. “A implementação do Cresp contou com uma parceria eficaz entre o Executivo e o Legislativo, superando possíveis resistências políticas e garantindo recursos para a criação do centro. Apesar da polarização que temas LGBTQIAPN+ podem gerar, o alinhamento em prol da inclusão e da igualdade de direitos foi fundamental. A aprovação do projeto recebeu apoio de vereadores, permitindo a criação de um espaço dedicado e especializado para a saúde da população LGBTQIAPN+”, comenta Araújo.

    Em tempos da escalada da extrema-direita e do pânico moral instalado em torno das sexualidades e identidades de gênero, a instalação do centro não impactou negativamente o desempenho de Elisa na campanha em busca da reeleição, em 2024, pelo contrário. Segundo a prefeita, “a criação do centro de referência e outras medidas voltadas à inclusão da comunidade LGBTQIAPN+ tiveram um impacto positivo na campanha eleitoral de 2024, reforçando o compromisso da gestão com a igualdade e os direitos humanos”.

    É preciso alterar a estrutura
    Segundo o Ministério da Saúde, a Atenção Primária em Saúde (APS) é a “principal porta de entrada do SUS e do centro de comunicação com toda a Rede de Atenção dos SUS”. E justamente na porta de entrada, pessoas da comunidade LGBTQIAPN+ encontram entraves gerados pelo preconceito e pela intolerância, que prejudicam o acesso a esse direito. Buscando transformar a relação da população LGBTQIAPN+ com os postos de saúde e a comunidade local, a Secretaria de Saúde da cidade de Salvador começou a desenvolver em 2016 o projeto “Unidade Básica Amiga da Saúde LGBTQIAPN+”.

    O projeto consiste em capacitar, no mínimo, 75% das equipes atuantes na unidade, oferecendo letramento sobre a temática e pactuando os critérios de atendimento que precisam ser desenvolvidos em cada equipamento público. Após os ajustes, a unidade que estiver apta recebe uma certificação. O uso do nome social e a sua impressão no Cartão Nacional de Saúde do SUS, inclusão de questões de identidade de gênero e orientação sexual no prontuário e na anamnese, realização de atividades educativas nas datas temáticas, combate à LGBTfobia, a promoção da visibilidade trans e lésbica e a inclusão desta população nas datas temáticas (janeiro roxo, outubro rosa, novembro azul, dezembro vermelho, etc.) são exemplos de processos internos que as UBS precisam realizar após a outorga do certificado.

    Profissionais de todas as áreas fazem parte desse processo, como os da portaria e da gerência, médicas, enfermeiras, assistentes sociais, nutricionistas, psicólogas, técnicas de enfermagem, agentes comunitários de saúde, equipe de saúde bucal, dentistas e auxiliar em saúde bucal. Além do treinamento comum, profissionais distintos recebem capacitação para lidar com as especificidades dessa população. “Por exemplo, a gente vai discutir com a odontologia, com os profissionais de odonto, o impacto da hormonização com estrógeno em mulheres trans e travestis para a saúde gengival. Já com as psicólogas, uma outra demanda, enfim. Então, as outras qualificações, os outros treinamentos, eles acontecem por tema específico e não mais essa grande roda de conversa com as unidades”, explica Erik Abad, técnico de referência do campo temático Saúde da População LGBT+ da Prefeitura de Salvador.

    Com orgulho, Abad destaca os impactos da iniciativa na promoção efetiva da saúde para pessoas LGBTQIAPN+. Segundo ele, “o primeiro resultado é a incorporação dos temas relacionados a essa população nas atividades da atenção primária. Então, a gente vê isso transversalmente. Por exemplo, agosto dourado, vai discutir aleitamento humano, já consegue incluir o homem trans, casais de mulheres lésbicas… Então, a gente já vê o tema espraiado, em toda a secretaria, na atenção primária”.

    Grupo de pessoas reunidos em frente a prédio, segurando a bandeira do arco-íris.
    Unidades de Saúde da cidade de Salvador recebem certificação de qualidade no atendimento à população LGBTQIAPN+. Foto: ASCOM/PMS/Reprodução.

    Esse acesso seguro e digno aos serviços básicos de saúde ajuda a desafogar as unidades de urgência e emergência. Segundo Abad, “a gente já consegue perceber o maior acesso dessa população na atenção primária. A gente já tem recebido cada vez mais casos, que já discutimos com a equipe de pessoas que acessaram a atenção primária diretamente, e não a urgência e emergência ou um serviço especializado. Por exemplo, no ano passado, a gente teve dois homens trans fazendo pré-natal na atenção primária. Faziam também na rede especializada, mas estavam vinculados à unidade de saúde da família. Isso era algo, sei lá, impensável há cinco, seis anos. Então, tem essa dimensão da ampliação do acesso, que é o nosso principal objetivo, na verdade”.

    Os exemplos, tanto da cidade vizinha, Ouro Preto, quanto de Uberaba e Salvador, mostram que é possível, com investimento e articulação política, superar os desafios e garantir para a população LGBTQIAPN+, em especial às pessoas trans e travestis, acesso à saúde de forma integral, da atenção básica aos serviços especializados.

    Alguns nomes foram ocultos para proteger a integridade e os direitos das fontes.

    Por Gabriel Maciel, Levy Eduardo e Ryan Dias
    Reportagem desenvolvida para a disciplina Jornalismo, Gêneros e Sexualidades do curso de jornalismo da UFOP, em abril de 2025, sob orientação da professora Karina Gomes Barbosa.

  • Psicose: entre a passividade das mulheres e dos pássaros 

    Marion Crane (Janet Leigh) e Norman Bates (Anthony Perkins) no Bates Motel. Imagem: trecho do filme

    A tarefa de falar e refletir por uma perspectiva gendrada sobre um dos filmes de horror mais clássicos da história do cinema vai muito além da análise fílmica. É preciso considerar os arredores da produção, a época e quais significados são criados e evocados a partir dessas produções. Além disso, a obra foi considerada “o melhor filme de todos os tempos” pela revista Variety. Não será nada fácil e peço, desde já, licença aos cinéfilos de plantão. 

    Psicose (ou Psycho no título original) foi lançado em 1960 e dirigido por Alfred Hitchcock, tornando-se um, se não o, dos longas mais famosos do diretor e uma das principais referências de horror – que podemos observar em diversas produções posteriores. O filme é inspirado no livro homônimo de Robert Bloch, de 1959, que trata do mistério do Motel Bates, porém tem diferenças fundamentais da produção de Hitchcock, como a caracterização do personagem de Norman Bates, que no livro era um homem de meia-idade e acima do peso, mas nas telas foi representado por Anthony Perkins, ator galã da época. 

    Quando uma secretária rouba 40 mil dólares para quitar as dívidas de seu amante e foge dirigindo sem rumo pelas estradas do Arizona, inicia-se o que é considerado o “primeiro filme” dentro de Psicose. É o momento em que Marion Crane (Janet Leigh) busca ativamente pelo que acredita e sente desejo. Porém, por conta da intensa chuva e pelo cansaço que já se estendia durante as horas de direção, ela decide parar num motel na beira da estrada e conhece Norman Bates (Anthony Perkins), dono do local e quem a recebe. 

    O encontro, que nos mantém em alerta o tempo inteiro, possui logo no início um diálogo incômodo e que me chama a atenção para uma interpretação: a passividade dos pássaros, que passam pelo processo de taxidermia feito por Norman. Ele afirma que os animais são “mais fáceis” de se realizar o empalhamento, mas será? Talvez essa seja mais uma afirmação do que se quer acreditar sobre isso. O dono do motel ainda compara a forma de Marion se alimentar à dos animais, nos provocando novamente com essa interação.

    Há ainda uma relação entre sexo e horror, que são primos quase-irmãos quando pensamos nesse cinema, que coloca as mulheres seminuas (ou nuas), com roupas sexualizadas e com corpos à mostra para que o terror se estabeleça. A morte no banho de Marion Crane, assassinada por Norman Bates, potencializa e corporifica a violência nesse corpo feminino, que jorra sangue e esbraveja seus gritos. 

    A personagem que inicia o filme com agência e atitude acaba como um dos pássaros empalhados na sala de Norman, já sem condições de tomar seu próprio caminho. Nesse contexto, podemos estabelecer uma ligação simbólica entre ambos, que são interceptados de sua vida e ação, mas não porque são passivas. Essa imagem é criada de propósito, para que acreditemos na imposição de violências aos corpos femininos, por exemplo, e para que observemos isso de maneira também passiva.  

    Clássico poster de Psicose, em sua versão original de 1960 

    O destaque dado ao corpo de Janet Leigh, atriz que interpreta a personagem feminina principal, no cartaz de divulgação dá outros contornos a esse horror que estamos pensando e fomos acostumadas a consumir. O terror, afinal de contas, é ser mulher? O medo se coloca – e é construído – através de nossos corpos, fazendo deles vetores para mais violências. 

    O cinema de Hitchcock é conhecido pelo “olhar masculino” e por experiências traumatizantes para mulheres (dentro e fora das tramas). A própria Janet afirma em entrevista que os banhos em chuveiros foram drasticamente alterados pela gravação do longa, uma vez que não conseguia mais se banhar tranquilamente, sem o medo de ser assassinada – assim como ocorreu em Psicose. Algo que precisamos refletir é: esse sentimento de insegurança da atriz com um ato simples torna-se também um reflexo da sensação de ser mulher nesse mundo. 

    Estamos sendo mortas, feridas e julgadas somente por existir, e a cultura representa – e reforça – tudo isso de maneira brutal. Os olhares masculinos voltados para Marion desde o início, quando Cassidy lança um olhar lascivo sobre a mulher; o policial que a persegue e aborda na estrada; ou mesmo Norman, que a observa se despir por um buraco na parede. Podemos pensar ainda nas câmeras, que a observam na cena inicial do filme, quando ela está no quarto de hotel com Sam (John Gavin) seminua ou mesmo na cena do chuveiro, na qual observamos pedaços dela. 

    Isso se constitui como “tradição” e dá a impressão de que é um lugar intocável, que não pode ser criticado, seja no cinema ou na literatura. No entanto, o que elaboramos com a mostra O Horror Tem Corpo de Mulher é que essas expressões artísticas precisam ser questionadas e nos trazer incômodos, uma vez que nossos corpos e subjetividades vêm sendo colocadas como centro da violência – seja como vítima, veículo ou vilã. 

    Dentre os comentários feitos durante a exibição do filme, pensamos também sobre o “complexo materno masculino” que fala de sujeitos que não desenvolvem sua independência e, claro, sobre o Complexo de Édipo, já que Norman demonstra um fascínio e obsessão pela figura de sua mãe – da qual, inclusive, utiliza as roupas e performa essa figura. No entanto, esses temas dizem respeito à área da psicologia e psicanálise, nas quais não possuo o devido aprofundamento.  

    Os significados clínicos de “psicose” apontam para sintoma de doença psíquica ou a perda de contato com a realidade, causando delírios, alucinações ou confusão mental. No filme, quem acaba sendo mais atravessado por esse processo é Norman, que os manifesta sobre e com os corpos femininos tudo o que sente. Que daqui em diante possamos ver representações menos violentas e trágicas para as mulheres – não só no cinema de horror, mas em todos. 

    Alguns textos me auxiliaram na construção dessa crítica: 

    Crítica | Psicose (1960) 

    Psicose: Veja como o filme traumatizou Janet Leigh 

    The Male Gaze in Alfred Hitchcock’s Psycho | English 245: Film Form and Culture 

    Serviço: 

    Título Original: Psycho
    Onde assistir: Telecine 
    Gênero: Terror, Mistério
    Classificação: 14 anos (A14)
    Nossa classificação: 16 anos (A16)
    Justificativa: O filme contém representações de violência e o corpo feminino atua como vetor. 

    Por Lia Junqueira

  • “Corações Jovens” e as novas maneiras de explorar o amor 

    “Você já se apaixonou? Como é a sensação? Ah, o primeiro amor…” 

    Os olhares entre Elias (Lou Goossens) e Alexander (Marius de Saeger) denotam a relação de afeto construída entre os dois. Imagem: trecho do filme

    Esses são os questionamentos e conversas que iniciam Corações Jovens (Young Hearts no original), produção belga-holandesa de 2024 e estreia de Anthony Schatteman como diretor. O filme fala de amor, de família e, principalmente, de novas descobertas e possibilidades de experimentar esses sentimentos e a forma de lidar com eles. 

    A história se passa numa pequena cidade europeia na qual Elias (Lou Goossens) reside com sua família e vive de maneira tranquila, até que um novo vizinho chega e embaralha a rotina e os sentimentos do adolescente de 14 anos. Alexander (Marius de Saeger) tem a mesma idade de Elias e, além de vizinho, passa a dividir a mesma sala de aula com ele, assim adentra no mesmo grupo de amigos e rotina diária do jovem. 

    Os sentimentos que são despertados a partir desse momento resultam numa confusão de sensações, bem típicas da adolescência, quando estamos nos entendendo e nos colocando no mundo. O amor, por sua vez, não foge disso, e nos insere num emaranhado de pensamentos, que, no filme, são descritos de maneira intensa por meio dos olhares e do silêncio de Elias. O jovem hesita em perguntar, em falar, mas seus olhos transmitem o tamanho das dúvidas, questionamentos e medo por se descobrir apaixonado por um menino. 

    Alexander, por outro lado, vem de Bruxelas – capital da Bélgica – e já havia se relacionado com outro garoto antes da mudança, ou seja, para ele essas relações ocupavam outro lugar, o de liberdade com quem era. Porém, mesmo com um ambiente tranquilo e de diálogo aberto, Elias se vê cercado de uma opressão que vem de dentro, do que somos induzidas a acreditar como normal ou mesmo como possível – é a agência do machismo em relação aos homens, que também machuca e os impede de viver de maneira plena. 

    No meio de tudo isso, Fred (Dirk Van Dijck), avô de Elias e com quem tem uma relação muito próxima, relata sua história de amor com a avó do menino, que já faleceu. Ele ressalta que “um amor desses a gente não encontra duas vezes” e o convence de que Alexander é uma pessoa muito importante para perder. Dessa maneira, ele retorna e mostra, com todo seu amor, que está presente e não tem vergonha de assumir isso para o mundo – e todos ao redor na festa em que estavam.  

    Enquanto a história se desenrolava, foi impossível não lembrar de Close (2022), filme de Lukas Dhont, pela semelhança das imagens, das novidades e até do andar de bicicleta pelos campos europeus. Porém, diferente do drama de Leo e Remi, os personagens de Young Hearts têm a possibilidade de viver – em primeiro lugar – e experienciar essa paixão. Além disso, todas as pessoas que estavam perto dos jovens não se afastam ou os violentam. Ainda que haja reflexos ligeiros desses comportamentos com um grupo de meninos mais velhos da escola, eles não sobressaem à beleza da relação de Elias e Alexander. 

    Agora, no momento em que acabamos de passar pelo mês do orgulho LGBTQIAPN+, é importante pensarmos sobre os significados mobilizados pela mídia – seja no jornalismo ou em produções culturais como filmes, séries e shows –, do que é ser um corpo lésbico, gay, bissexual, trans, queer, intersexo, assexual, panssexual, não binário, dentre outras identidades. Precisa, e deve, ser mais do que orgulho, mas possibilidade de existência, de segurança e também de acolhimento. 

    Exibimos Corações Jovens no dia 26 de junho em parceria com o Centro de Referência e Acolhimento LGBT+ (CRA) de Ouro Preto, MG, e também junto aos projetos Diversidade e Representatividade LGBTQIAPN+ e Papear, Ouvir e Conscientizar (POC), ambos ligados ao Programa de Incentivo à Diversidade e Convivência (PIDIC) da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). A sessão foi como uma abertura especial da nossa terceira Mostra Cinematográfica O Amor é Filme, na qual vamos seguir discutindo, com perspectiva de gênero e sexualidade, sobre amor(es).

    Les copains (Os namorados) durante sua viagem de trem para Bruxelas. Imagem: trecho do filme/zionvxn.

    A sessão foi um momento de compartilhar afetos e unir forças àqueles que nos fortalecem, dividem pensamentos semelhantes e caminham numa mesma direção: a igualdade para todas as pessoas. Pensar nisso é também considerar as intersecções entre as opressões que atuam em nossa sociedade patriarcal, racista, misógina e neoliberal, por exemplo. Porém, algo que nos aproxima dessa produção é o acolhimento. 

    Nesse contexto, Young Hearts se apresenta como o esforço da comunidade em criar espaços seguros para a vivência de amores plurais. Parte da discussão no espaço do CRA pensa justamente na falta de acolhimento das gerações passadas de pessoas LGBTQIAPN+, na violência, no abandono e no descaso que elas/eles/elus sofreram ao assumirem seus relacionamentos, principalmente no contexto familiar. 

    No Centro de Referência (CRA) todes se sentiram acolhides para expor seus pensamentos quanto ao filme, para relatarem casos particulares, para comentar desconfortos e alegrias, o que só adiciona para o conteúdo assistido. Percebe-se o acolhimento que o local traz para muita gente, e as maneiras que as pessoas encontraram de ocupar esse espaço de forma livre. A sessão contou com 18 pessoas, pipoca, refrigerante, e muito afeto compartilhado.

    Registro da sessão na II Semana do Orgulho LGBT+ no CRA

    O filme é um respiro de ar fresco frente a tantas outras produções, e nos permite “esperançar” um futuro em que jovens corações tenham espaço para amar da forma que escolherem, sem sofrer represálias por isso. Elias e Alexander, por meio de suas atuações, demarcam novas maneiras de pensar o sentir, e entregam uma obra leve e otimista para todos os afetos.

    O maior mérito de Young Hearts é sua capacidade de retratar o primeiro amor de forma universal. As borboletas no estômago, os olhares tímidos, a ansiedade de se aproximar da pessoa amada e a confusão dos próprios sentimentos são experiências com as quais qualquer pessoa pode se identificar, principalmente os mais novos, que estão aprendendo a lidar com o turbilhão de emoções da puberdade. O filme capta essa fase da vida com um naturalismo raro, focando nos pequenos gestos e nos silêncios que dizem mais do que palavras.

    Elias e Alexander andam de bicicleta enquanto procuram a mão um do outro. Imagem: trecho do filme

    A relação de Elias com sua família, especialmente com seu avô, é um dos pilares emocionais do filme, e foi considerado pela maior parte dos presentes na sessão como a parte mais bonita da exibição. É através de conversas sutis e de um ambiente de aceitação que ele encontra o espaço para começar a entender a si mesmo. O filme sugere que o diálogo e o apoio familiar são fundamentais no processo de auto aceitação, tratando o tema com uma normalidade que é tanto reconfortante quanto educativa.

    A direção de Anthony Schatteman é contida e observacional. A câmera se move com calma, valorizando a paisagem bucólica do interior da Bélgica, que serve como um cenário quase idílico para o desabrochar do romance. A estética do filme, com sua luz natural e ritmo tranquilo, complementa perfeitamente o tom sensível da narrativa, com capturas belíssimas de rios e lagos, trazendo fluidez para a obra e dando vazão aos sentimentos.

    Young Hearts é um filme delicado, sincero e comovente sobre a descoberta do primeiro amor e da própria identidade. Sua força reside na simplicidade e na autenticidade com que aborda esse tema, provando que histórias sobre o amor LGBTQIAPN+ não precisam ser definidas pela dor para serem profundas e impactantes. É uma obra que celebra a inocência, a coragem de ser quem se é e a beleza universal de se apaixonar pela primeira vez.

    Um post do projeto Diversidade e Representatividade LGBTQIAPN+ afirma que:

    “na contramão dos silêncios de tantas adolescências LGBTQIA+, esse filme [Corações Jovens] oferece o que muitos de nós buscamos: o acolhimento. E, pela primeira vez, o amor não é segredo, nem é sentença. Mas primavera. 

    O amor acontece.
    A família não grita.
    Os amigos não somem.
    O mundo não vira costas.
    E, nesses pequenos minutos, 
    o amor floresce”.

    Esperamos que nossos amores possam ser sempre vividos, acolhidos e possam florescer com liberdade e segurança. 

    Serviço:

    Título Original: Young Hearts
    Onde assistir: Não está disponível para streaming. 
    Gênero: Drama, Romance, Amadurecimento
    Classificação: 12 anos (A12)
    Nossa classificação: 12 anos (A12)
    Justificativa: O filme contém representações positivas e prósperas de amor entre pessoas do mesmo gênero. 

    Por Lia Junqueira e Sophia Ribeiro

  • Mulheres, poder e robôs: o paradoxo de gênero nas animações de vanguarda

    Love, Death & Robots é uma antologia animada da Netflix que se propõe a explorar temas diversos como amor, morte e tecnologia, e frequentemente recai em representações diversas de gênero. Ao longo de suas temporadas, a série apresenta uma predominância de narrativas de temas variados, explorando novas formas de animação e de contar histórias, surpreendendo o público a cada lançamento.

    A Siren do episódio ‘Jibaro’, uma figura mítica coberta de ouro e joias cuja história explora temas como cobiça e a violência colonial.

    Em sua quarta temporada, recentemente anunciada no catálogo da Netflix, vemos ‘Can’t stop’, que é uma espécie de videoclipe da banda Red Hot Chilli Peppers, ‘Minicontatos imediatos’, em que vemos uma invasão alienígena protagonizada por miniaturas, ‘Spider Rose’, vingança intergaláctica com direito à guerra e sobrevivência dentro do espaço, ‘Os Caras do 400’, um episódio de apocalipse meio distópico contra bebês gigantes, ‘A Outra coisa grande’ (spoiler: o gato é a mão da revolução das máquinas), ‘Gólgota’, outro episódio de invasão alienígena misturada com fanatismo religioso, ‘O grito do tiranossauro’, especialmente feito para zombar do youtubert Mr. Beast, ‘Como Zeke Entendeu a Religião’, sobre II Guerra Mundial e a igreja, ‘Dispositivos inteligentes, donos idiotas’, se eletrodomésticos pudessem falar, como seria? E, por fim, ‘Pois ele se move sorrateiramente’, que, para não dar muitos spoilers do plot, saibam que é sobre um gato e o djabo.

    #paratodosverem: Um pequeno robô de brinquedo, com cabeça e corpo verdes e brancos, está ao lado de um gato persa laranja e peludo.  O robô tem olhos vermelhos circulares e brilhantes e um sorriso fixo.  O gato, com uma expressão séria, encara a câmera.  Ambos estão sobre um balcão em uma cozinha com iluminação escura.
    Um robô doméstico e um gato dividem a cena, representando a exploração de temas como tecnologia e consciência artificial presentes na antologia Love, Death & Robots.

    Desde a primeira temporada, episódios como ‘The Witness’ e ‘Beyond the Aquila Rift’ apresentam mulheres em situações de vulnerabilidade extrema, muitas vezes associadas à violência sexual ou à exploração do corpo feminino. Em ‘Jibaro’ (traduzido como Fazendeiro) temos a epítome desse sentimento, principalmente quando percebemos as inúmeras possibilidades de interpretação que a obra garante, transgredindo desde o óbvio até uma interpretação do colonialismo predatório espanhol. Essas representações, que na maioria das vezes são bem formalizadas e apresentadas, reforçam a presença feminina dentro de séries de ficção científica, porém amplificam a falta de mulheres dentro da criação de narrativas femininas, traduzidas em plots majoritariamente exploradores, tratando-as como objetos de desejo ou vítimas a serem salvas, sem aprofundar suas histórias ou complexidades emocionais.

    Episódios:

    (SPOILER) ‘Jibaro’ é um conto surreal, muito visualmente hipnótico sobre obsessão, ganância e destruição mútua. No episódio temos a história de uma “siren”, (uma criatura mítica que habita lagos e mares), e de um cavaleiro surdo. É o nono episódio da terceira temporada da série e seria uma reinterpretação sombria e ao mesmo tempo poética do mito da sereia, ambientada em uma floresta tropical que remete a Porto Rico, assim como o nome Jibaro, que é a palavra utilizada para camponeses/trabalhadores do campo. Dirigido por Alberto Mielgo, o episódio se destaca pela ausência de diálogos e pela narrativa visual intensa, explorando temas como ganância, comunicação (ou a falta dela) e a complexidade das relações humanas.

    O episódio se passa em uma floresta tropical rica em ouro e cores, onde um grupo de conquistadores armados é dizimado pela sereia dourada; quando ela emite sons (uma espécie de canto), eles entram em transe e matam uns aos outros ao se jogarem nas águas ou colidirem violentamente. No entanto, o cavaleiro surdo (o “Jíbaro”) aparenta ser imune ao chamado hipnótico da sereia. Intrigada por sua sobrevivência, ela se aproxima, e a narrativa toma um rumo inesperado ao transformá-lo no alvo de sua obsessão. Essa atração mútua entre eles desencadeia uma espiral de violência e desejo, culminando em um desfecho trágico e simbólico. O encontro entre os dois é uma dança de violência, desejo e exploração, como uma metáfora poderosa para violência colonial, que acaba em um ataque e roubo por parte de Jibaro. Após despertar curiosidade e afeto na criatura, ele leva os ornamentos de ouro e abandona a sereia, que acorda ferida e despojada de seus bens, procurando uma maneira de se vingar. 

    Neste contexto, o cavaleiro surdo representa a exploração e a violência, contrastando com a figura da sereia, que busca proteção, conexão e compreensão. A interação entre eles reflete as complexas dinâmicas de poder, desejo e destruição, principalmente quando pensamos no contexto colonizador que a obra atravessa.

    Com uma animação hiper-realista quase indistinguível de live-action, ‘Jibaro’ é amplamente considerado um dos melhores e mais impactantes episódios de toda a série Love, Death & Robots, tendo ganhado o Emmy de Melhor Curta de Animação no ano de 2022, e alcançado uma classificação de 8,1/10 no IMDb. Sua estética visual impressionante é resultado de uma articulação meticulosamente trabalhada da água, do sangue e da luz, com movimentos tão fluidos e expressivos que ultrapassam a necessidade de diálogos, utilizando da trilha sonora para construir toda a tensão e emoção com sons ambientais e música. Apesar de ser elogiado como uma verdadeira obra de arte, um dado sobre sua produção levanta um questionamento: das 167 pessoas na equipe, apenas 34 são mulheres, o que nos leva a perguntar quem, de fato, roteiriza as representações femininas nas animações?

    Episódios como ‘Sonnie’s Edge’ e ‘Good Hunting’ apresentam mulheres que buscam vingança contra seus respectivos abusadores – o tradicional recurso narrativo do rape revenge. Embora essas histórias possam parecer empoderadoras à primeira vista, elas frequentemente utilizam a violência explícita como meio narrativo, sem questionar as estruturas de poder subjacentes. A sexualização das personagens femininas nesses contextos costuma ser vista como uma forma de reafirmar estereótipos de gênero. Em Sonnie’s vemos a protagonista sendo morta após pensar que encontrou amor em uma outra mulher. Sobre a produção do episódio? De 154 pessoas, apenas 33 são mulheres, e nenhuma participou da roteirização ou da direção. 

    Em ‘Good Hunting’, entre uma equipe de 105 pessoas, apenas 21 são mulheres, e o principal: vemos a nudez dos personagens o tempo todo, que se torna o fio condutor da trágica jornada da protagonista, que vai da força mítica da natureza, passando pela brutal objetificação do patriarcado industrial que destroi o seu corpo, até a poderosa e violenta retomada do controle através da tecnologia. Mas, até quando elas aparentam ser as protagonistas, a história nunca as representa totalmente, transformando-as em meras passageiras da trama, como se sempre houvesse algo mais importante que elas. A maioria das personagens femininas é moldada com base em estereótipos tradicionais (como o da mulher abusada), sem explorar a complexidade das experiências de gênero, resumindo-as a meras vítimas com sede de vingança, ou seja, elas não são nada além da vontade de matar.

    Embora Love, Death & Robots ofereça uma variedade de estilos de animação e abordagens criativas, suas representações de gênero frequentemente reforçam normas patriarcais e limitam a diversidade de experiências femininas. E a questão vai além de apenas não abranger mulheres nas produções, é preciso observar que a presença feminina, embora necessária, não é suficiente para garantir a mudança. Se as próprias mulheres na equipe de criação perpetuarem uma visão machista, o resultado final continua a ser a falta de uma perspectiva gendrada genuinamente crítica nessas narrativas.

    Por Sophia Helena Ribeiro

  • “Exquece que a mãe tá enjauldada”: a prisão de Deolane Bezerra no jornalismo

    No dia 4 de setembro, Deolane Bezerra, advogada e empresária, com ampla presença e influência nas redes sociais, foi presa durante as investigações da Operação Integration da Polícia Civil de Pernambuco.  A operação investiga, desde abril de 2023, um suposto esquema de lavagem de dinheiro proveniente de jogo do bicho e jogos de azar na internet, operado pelas plataformas de apostas, popularmente conhecidas como bets. 

    A influenciadora digital, natural de Pernambuco, popularizou-se na internet no ano de 2021, compartilhando fotos e vídeos de sua rotina com doses de humor. Com a rápida notoriedade que ganhou, a doutora Deolane, como ficou conhecida devido a sua profissão de advogada criminalista, foi convidada a participar do reality show A Fazenda, da Record, em 2022. Sua participação no programa, ainda que breve, foi marcada por uma série de polêmicas e intrigas com outras participantes. Ela desistiu do programa após suas irmãs, Daniele e Dayanne Bezerra, alugarem carros de som e ficarem em frente à sede do confinamento dos participantes. Na época, as duas também alegaram que a mãe das irmãs Bezerra estava internada, o que culminou na saída da influenciadora da 14ª temporada da atração televisiva. 

    Deolane se tornou um fenômeno ainda maior nas redes sociais após a participação no programa, e logo foi notada por empresas de apostas digitais, as bets, que ofereceram propostas milionárias para a influenciadora fazer uma ampla divulgação dessas plataformas em seus canais oficiais. Atualmente, ela detém milhões de seguidores somados no Instagram e TikTok, onde mostra aos seguidores o seu dia a dia luxuoso, de propriedades, carros, viagens e itens de vestuário de grife. Sua presença polêmica nas redes, normalmente, é acompanhada de mensagens sobre como sua fé cristã foi o único motivo de ter conquistado seu atual estilo de vida ostentativo. 

    Print tirado da rede social Instagram de Deolane Bezerra, em 16 de julho de 2024. Reprodução: Deolane Bezerra.

    Em julho de 2024, Deolane abriu sua própria empresa de apostas e jogos de azar online,  a ZeroUmBet. Dois meses após, na primeira semana do mês de setembro, a advogada foi presa em Pernambuco. Seu mandado de prisão foi motivado por divulgar a casa de apostas Esporte da Sorte e por possível envolvimento com lavagem de dinheiro por meio de sua empresa. Após a prisão, a Polícia Civil determinou o bloqueio de R$20 milhões de suas contas pessoais e de R$14 milhões de sua empresa por lavagem de dinheiro. 

    Devido a sua fama nas redes sociais e por ser considerada como uma “subcelebridade” no cenário das figuras reconhecidas brasileiras, a sua prisão foi amplamente coberta na mídia. Entretanto, as manchetes veiculadas nos veículos jornalísticos foram muito além de explicações sobre o envolvimento da influenciadora com as casas de jogos de aposta e seu possível envolvimento com os crimes de lavagem de dinheiro.

    Nos jornais, Deolane não é só apresentada como uma figura que apresentava uma vida extremamente ostentativa, de luxos, que pode ter sido conquistada de forma ilícita. Ela é pautada e representada de forma estereotipada, sendo colocada para o público como a “ex-mulher do cantor Mc Kevin” e aquela que teve um “romance conturbado com Fiuk” – além das publicações de diversas notícias sobre seus procedimentos estéticos, suas relações com familiares, suas intrigas com outras mulheres e com seus antigos parceiros. As imagens atreladas a essas notícias são, muitas vezes, de Deolane usando biquínis, roupas curtas ou mostrando partes do seu corpo. Nas notícias veiculadas no dia 4 de setembro de 2024, Deolane Bezerra só existe se for atrelada à imagem de mulher descontrolada, a um par romântico ou à sexualização de seu corpo.

    Notícia veiculada na CNN Brasil, em 04 de setembro de  2024.

    Nesta crítica, as manchetes e imagens das notícias da prisão de Deolane Bezerra veiculadas pela Folha de São Paulo, o Portal Metrópole, a CNN e o Portal Terra serão analisadas. Esse escopo de produções jornalísticas foi escolhido, a fim de contemplar como veículos de comunicação brasileiros amplamente reconhecidos pautam a imagem e a vida de uma mulher em suas notícias, por muitas vezes usando uma linguagem sensacionalista, além de reconhecer as estratificações geradas por um jornalismo constituído por homens, quando suas pautas são protagonizadas por mulheres. 

    Análise da cobertura jornalística
    A primeira veiculação da CNN Brasil sobre o dia da prisão de Deolane Bezerra, 4 de setembro, foi publicada às 07h e seguiu de forma periódica posteriormente. Em geral, a cobertura da emissora destaca uma abordagem que prioriza a construção de uma narrativa informativa, mas ainda sensacionalista. Desde a primeira matéria, as escolhas das imagens utilizadas revelam uma estratégia de enquadramento que se apoia no reforço da apresentação de uma mulher sensual e provocativa. As fotos mostram a influenciadora bem arrumada com roupas femininas e provocativas, frequentemente em ambientes luxuosos, como salões de beleza e em uma lancha, o que reforça os estereótipos de feminilidade e superficialidade, que, muitas vezes, são atribuídos como características inerentes da personalidade da mulher. 

    Notícia veiculada no CNN Brasil, em 04 de setembro de  2024.

    A cobertura também incorpora elementos de fofocas, como relacionamentos passados e polêmicas, que desviam o foco das acusações legais que ela enfrenta, contribuindo para uma narrativa que se assemelha mais ao entretenimento do que ao jornalismo investigativo. A exemplo disso a notícia “Fiuk, bafo e vizinhos: relembre polêmicas envolvendo Deolane Bezerra”, com a linha fina “Viúva de MC Kevin, a advogada foi presa na manhã desta quarta-feira (4); entenda”, veiculada no portal no dia 4 de setembro, poucas horas após o cumprimento do mandato de prisão, exemplifica o sensacionalismo misturado com pitadas de reforço de estereótipos de gênero. 

    Notícia veiculada no CNN Brasil, em 04 de setembro de  2024.

    Ao enfatizar aspectos de sua vida pessoal e apresentar imagens insinuantes em suas manchetes, a CNN não apenas atrai a atenção do público, mas também perpetua estereótipos de gênero que podem prejudicar a percepção da audiência sobre a seriedade do caso.

    O veículo Terra cobre a prisão de Deolane Bezerra pautando-se no “infotenimento”, ou seja, usando de informações relevantes como pano de fundo para publicações sobre vidas pessoais para o entretenimento do público, revelando uma estratégia que mescla aspectos sensacionalistas e informações de interesse público. O veículo enfatiza sua notoriedade como ex-participante de “A Fazenda”, posicionando a influenciadora dentro de uma narrativa de celebridade polêmica.

    A quantidade excessiva de notícias, com um fluxo constante de informações, contribui para uma sensação de saturação, em que o foco se perde em meio a detalhes repetitivos. O canal publica uma série de reportagens que, muitas vezes, reiteram os mesmos pontos, o que sugere uma busca por cliques e visualizações em vez de uma cobertura informativa. Esse fenômeno é típico do sensacionalismo, onde a urgência de relatar “novidades” acaba prejudicando a qualidade da informação de interesse público.

    A cobertura do Portal Metrópoles apresenta uma abordagem que combina informações factuais com elementos que enfatizam o drama pessoal e aspectos da vida pessoal da advogada. Desde o dia do cumprimento do mandado de prisão, o veículo destaca quem é Deolane, enfatizando sua fama como advogada e influencer, com uma base de seguidores considerável. Assim como a cobertura do Terra,  é notável  a repetição de informações, como a descrição da prisão e os detalhes da operação, que parecem redundantes. Essa estratégia, combinada com a quantidade de reportagens produzidas, pode criar uma sensação de sobrecarga informativa. O canal também faz uso de elementos visuais, como o vídeo que mostra a polícia chegando à mansão de Deolane, o que adiciona um aspecto de dramatização à cobertura.

    Embora a cobertura se concentre nas acusações de lavagem de dinheiro e jogos ilegais, a narrativa frequentemente se desvia para aspectos mais sensacionalistas, como a vida pessoal de Deolane, suas reações e a dinâmica familiar. Esse enfoque pode contribuir para uma percepção distorcida do caso, em que a gravidade das acusações é ofuscada por uma abordagem mais voltada ao entretenimento.

    Por fim, a análise da cobertura da Folha de São Paulo sobre a prisão de Deolane Bezerra revela aspectos semelhantes aos vistos em outros veículos, mas com algumas diferenças notáveis no tom e na abordagem. Embora a Folha apresente informações mais factuais e diretas, ela ainda cai em alguns dos padrões sensacionalistas que cercam o caso de Deolane, em especial na ênfase dada a sua vida pessoal e a relacionamentos midiáticos.

    A Folha destaca o fato de Deolane ter ganhado notoriedade principalmente após a morte de MC Kevin, o que reitera a associação de sua fama a um homem, eventos trágicos e escândalos. A cobertura coloca em evidência sua participação em programas de entretenimento, como “A Fazenda”. Assim, a advogada é retratada como uma figura pública que orbita no campo do entretenimento. 

    A inclusão de manchetes como “Entenda a conturbada relação entre Deolane Bezerra e Fiuk” e “Fiuk diz ‘não vamos desejar o mal’ após prisão de Deolane” reforça o caráter de entretenimento e fofoca que permeia a cobertura do caso. A escolha de focar em detalhes da relação pessoal de Deolane com o cantor Fiuk — que é irrelevante para o caso judicial — desvia a atenção das questões centrais de lavagem de dinheiro e jogos ilegais. Essa abordagem fragmenta a imagem de Deolane, enfatizando seu envolvimento em conflitos públicos e reforçando a narrativa midiática que trivializa a mulher em sua totalidade, explorando sua vida pessoal.

    Embora a cobertura da Folha se concentre menos em elementos estéticos e sensacionalistas em comparação a veículos como CNN e Terra, a ênfase dada às relações pessoais, a escândalos e ao drama familiar desvia o foco das questões legais, assim como ocorre em outras mídias. Isso ilustra um fenômeno comum na representação de mulheres públicas, onde aspectos pessoais e escândalos são as principais formas de serem descritas.

    Embora a Folha de São Paulo tenha uma abordagem mais contida em comparação com veículos como CNN e Canal Terra, ela ainda participa da construção de uma narrativa que se concentra mais nos aspectos sensacionalistas e pessoais de Deolane Bezerra, perpetuando estereótipos de gênero. 

    Questões-chave do caso
    Todas as referências analisadas enfatizaram a dificuldade do jornalismo em respeitar Deolane como mulher. A cobertura revelou questões profundas sobre como a mídia trata figuras femininas e, também, sobre o papel do sensacionalismo abrangente. 

    Ademais, há o reforço em estereótipos de gênero ao enfatizar aspectos da aparência, comportamento e vida pessoal de Deolane. Nas manchetes e fotos, ao focar em sua vida de luxo, roupas provocantes e escândalos pessoais, a mídia contribui para a perpetuação de uma imagem de mulher associada ao superficial e ao entretenimento. Essa abordagem reflete um viés de gênero comum, onde mulheres em posições de poder ou relevância pública são frequentemente julgadas mais por sua aparência e comportamento do que por suas realizações. Quando falamos sobre esse entretenimento, percebemos que a narrativa trata toda a seriedade das acusações como um plano de fundo para destrinchar sobre a vida pessoal de Deolane. Esse tratamento midiático reflete uma questão mais ampla sobre como mulheres de destaque são tratadas na mídia, especialmente aquelas que não se encaixam no arquétipo tradicional de feminilidade.

    A transformação de uma investigação criminal em um “circo midiático” pode prejudicar a percepção pública da seriedade do caso e influenciar o julgamento da audiência sobre a culpabilidade ou inocência de Deolane. E não é essa a responsabilidade do jornalismo. Em vez de fornecer as  informações sobre  o mandado de prisão e as investigações da Operação Integration, a cobertura se inclina para uma narrativa superficial, que alimenta a curiosidade pública à custa da imagem de uma mulher. 

    Assim, é perceptível que o jornalismo ainda não consegue pautar adequadamente figuras femininas. O viés sensacionalista e a transformação da vida de Deolane em espetáculo reforçam estereótipos de gênero. Além disso, essas coberturas, centradas no entretenimento, obscurecem a principal questão da informação pública sobre a operação e os problemas advindos da popularização dos jogos de azar e das bets.

    O papel do jornalismo na cobertura de casos protagonizados por mulheres
    Natalia Schwengber (2021) analisa o caso de Amanda Knox a partir de publicações do portal britânico Daily Mail. Amanda é uma mulher americana que foi acusada de matar sua colega de quarto, na Itália, durante um intercâmbio. A cobertura feita pelo veículo transformou a acusada em um objeto sexual, desviando do real propósito da notícia que deveria ser de informar sobre o caso.

    Schwengber (2021, p. 34) aponta essa dicotomia entre a necessidade da informação e o sensacionalismo da matéria, que é evidenciado na construção da notícia publicada pelo jornalista Nick Pisa: “A responsabilidade do jornalista britânico era trazer as informações e acontecimentos sobre o crime, agindo, assim, de forma responsável no caso. Porém, o jornalista moldou a notícia de forma a transformar a principal acusada naquele momento em uma personagem repleta de adjetificações carregadas de conotações sexuais, fazendo com que sua vida pessoal gerasse mais cliques e visualizações em suas reportagens.”

    Essa mesma abordagem sensacionalista é observada na cobertura da prisão de Deolane, na qual apontar para seu passado, principalmente evocando intrigas com outras mulheres, relacionamentos e sua “sensualidade” por meio das manchetes e fotos, é mais importante que a informação em si, como ocorreu no caso de Amanda.  “Esse é um exemplo de jornalismo sensacionalista no qual o único foco do jornalista era obter cliques, trazendo poucas informações e apurações sobre o crime” (Schwengber, 2021, p.38).

    Além disso, o jornalismo é um conhecimento social, criado a partir de determinado ponto de vista (Schwengber, 2021). Assim,  quando os veículos decidem pautar a vida de Deolane, a partir de estereótipos de gênero e performances de sensualidades, é perceptível que essa lógica de produção é advinda do ponto de vista de um jornalismo masculino, constituído e produzido por homens. Apesar da inserção de mulheres no mercado de trabalho na área, elas ainda precisam operar em um lógica masculina de produção e transmissão de conhecimento, como aponta Louro (1997, p. 89). 

    A reprodução dessa lógica de representação de corpos e vidas femininas, também é uma violência simbólica, que reforça as ideias de “subordinação feminina” (Bourdieu, 1998). Ao mostrar o corpo de Deolane como algo estritamente sexual, reproduzindo somente fotos da influenciadora em posições sugestivas e com roupas decotadas, que apelam para o male gaze, além de informações sobre a sua vida amorosa e familiar, o jornal se apoia em construções simbólicas de gênero, subordinando a vida e o copo de Deolane ao ponto de vista patriarcal, passível de ser mercantilizado por visualizações (Mazer, 2013). 

    Ao sujeitar a vida e a imagem de Deolane Bezerra a essas violências simbólicas de gênero e fugir dos princípios da objetividade informacional jornalística, ao explorar sua vida pessoal, em notícias que deveriam ser sobre sua prisão e investigação da sua participação em lavagem de dinheiro em jogos de aposta, os veículos estão em dissonância com os princípios éticos do jornalismo. 

    Essas transgressões do tratamento da imagem de Deolane vão contra as normas de ética apresentados no Art. 6º, cláusula oito, do Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, sobre o respeito “à intimidade, à privacidade, à honra e à imagem do cidadão”. O Código também afirma de forma explícita, no mesmo artigo, na cláusula nove, que é dever do jornalista defender os direitos do cidadão e contribuir para a garantia de direitos individuais, em especial de grupos minoritários, como mulheres. Entretanto, ao falar da vida de Deolane de forma sensacionalista, e reforçando as ideias de que certos preceitos (família e o amor romântico) são as únicas formas de definir e apresentar uma mulher, as notícias reforçam a lógica patriarcal de quais lugares uma mulher pode pertencer e ocupar. 

    Essa lógica de produção de um jornalismo masculino também está em discordância com a décima sexta cláusula, do mesmo artigo, que aponta que o papel do jornalista é combater a violência de gênero. A produção de notícias sensacionalistas, trazendo outros atores, como o local onde conheceu seu falecido marido, MC Kevin, um possível afastamento com a sua ex-sogra, Valquiria Nacimento, após a morte de Kevin e suas cirurgias estéticas de forma detalhada, não obedecem ao direito à não interferência em sua vida privada, assegurado no Artigo 12 da Declaração Universal dos Direitos Humanos e colocado como uma das responsabilidades do jornalista no Princípio VI de “Respeito à Privacidade e à Dignidade Humana” apresentados no  Princípios Internacionais da Ética Profissional no Jornalismo. 

    Notícia veiculada no veículo Terra, em 04 de setembro de  2024.

    Essas reproduções de violências simbólicas de gênero jornalísticas também estão em desacordo com a “Convenção sobre a eliminação de todas as formas de discriminação contra as mulheres” da Organização das Nações Unidas (ONU), de 1979, que foi promulgada no Brasil. A convenção prevê em seu Artigo 6 º o seguinte princípio: “ O direito de toda mulher a ser livre de violência abrange, entre outros: a. o direito da mulher a ser livre de todas as formas de discriminação; e b. o direito da mulher a ser valorizada e educada livre de padrões estereotipados de comportamento e costumes sociais e culturais baseados em conceitos de inferioridade ou subordinação.”

    Por Bárbara Aleixo Otoni Costa, Maysa Quesia Mendes e Sarah Elisa Carvalho Moreira
    Produzido para a disciplina Crítica de Mídia e Ética Jornalística em 2024.1

    REFERÊNCIAS

    Associação Brasileira de Imprensa. Princípios Internacionais da Ética Profissional no Jornalismo, 1983. Disponível em: https://www.abi.org.br/institucional/legislacao/principios-internacionais-da-etica-profissional-no-jornalismo/. Acesso em: 10 set. 2024.

    BENTO, Gabriela. Advogada e influencer Deolane Bezerra é presa em operação da polícia de PE. CNN Brasil, 04 set. 2024. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/advogada-e-influencer-deolane-bezerra-e-presa-em-operacao-da-policia-de-pe/. Acesso em: 04 set. 2024.

    BITTENCOURT, Carol. Deolane Bezerra presa: Felipe Neto se manifesta e faz apelo impressionante. Terra, 04 set. 2024. Disponível em: https://www.terra.com.br/diversao/tv/deolane-bezerra-presa-felipe-neto-se-manifesta-e-faz-apelo-impressionante,1998e4a7a697d7abf110085a599cf5f4xxsh9zdy.html. Acesso em: 04 out. 2024.

    BITTENCOURT, Carol. Deolane Bezerra presa: mãe da famosa é alvo de ação da polícia. Terra, 04 set. 2024. Disponível em: https://www.terra.com.br/diversao/tv/deolane-bezerra-presa-mae-da-famosa-e-alvo-de-acao-da-policia,9d0bf36b5652b3c081c456c220c3d5dai0nv58v1.html. Acesso em: 04 out. 2024.

    BITTENCOURT, Carol. Leia a carta escrita por Deolane Bezerra direto da prisão. Terra, 04 set. 2024. Disponível em: https://www.terra.com.br/diversao/tv/leia-a-carta-escrita-por-deolane-bezerra-direto-da-prisao,e955379183a5be27d0a03bf8f59ec05ccw8u0i0q.html. Acesso em: 04 out. 2024.

    BRAGA, Laura. Quem é Deolane Bezerra, presa em Pernambuco. Metrópoles, 04 set. 2024. Disponível em: https://www.metropoles.com/brasil/quem-e-deolane-bezerra-presa. Acesso em: 04 out. 2024.

    BURIGO, Arthur. Deolane diz que prisão é “grande injustiça” e mostra preconceito contra ela e família. Folha de S.Paulo, 04 set. 2024. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2024/09/deolane-diz-que-prisao-e-grande-injustica-e-mostra-preconceito-contra-ela-e-familia.shtml. Acesso em: 04 out. 2024.

    CNN Brasil. Deolane Bezerra é levada ao IML para exame de corpo de delito. CNN Brasil, 04 set. 2024. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/deolane-bezerra-e-levada-ao-iml-para-exame-de-corpo-de-delito/. Acesso em: 04 set. 2024.

    COUTO, Letícia. Deolane Bezerra teve fortuna de R$ 2 bilhões bloqueada após prisão. Terra, 04 set. 2024. Disponível em: https://www.terra.com.br/diversao/gente/deolane-bezerra-teve-fortuna-de-r-2-bilhoes-bloqueada-apos-prisao,8636166a644c1a53e48f2d10685d6e589fjwlkv4.html. Acesso em: 04 out. 2024.

    FERREIRA, Caroline. Fiuk, bafo e vizinhos: relembre polêmicas envolvendo Deolane Bezerra. CNN Brasil, 04 set. 2024. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/entretenimento/fiuk-bafo-e-vizinhos-relembre-polemicas-envolvendo-deolane-bezerra/. Acesso em: 04 set. 2024.

    HEROLD, Valentine. Deolane Bezerra é levada para presídio e ficará em cela separada, diz governo de PE. Folha de S.Paulo, 04 set. 2024. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2024/09/deolane-bezerra-e-levada-para-presidio-e-ficara-em-cela-separada-diz-governo-de-pe.shtml. Acesso em: 04 out. 2024.

    LIMA, Ana. “Não vamos desejar o mal”, diz Fiuk sobre prisão de Deolane. Folha de S.Paulo, 04 set. 2024. Disponível em: https://f5.folha.uol.com.br/celebridades/2024/09/nao-vamos-desejar-o-mal-diz-fiuk-sobre-prisao-de-deolane.shtml. Acesso em: 04 out. 2024.

    LOURO, Guacira Lopes. Gênero, sexualidade e educação. Petrópolis: Vozes, 1997.

    MAZER, Dulce Helena. IMPRESSÕES DO CORPO FEMININO: reificação e representação da mulher na imprensa. In: Congresso de Ciências da Comunicação na Região Sul, XIV, 2013, Santa Cruz do Sul. Anais de Resumo, Santa Cruz do Sul: Intercom, 2013. p. 1-15.

    MEIRELES, Leonardo; PINHEIRO, Mirelle; CARONE, Carlos. Deolane Bezerra é presa em Pernambuco. Metrópoles, 04 set. 2024. Disponível em: https://www.metropoles.com/distrito-federal/na-mira/deolane-bezerra-presa-pernambuco. Acesso em: 04 out. 2024.

    NETO, Francisco. Deolane Bezerra, presa no Recife, ganhou notoriedade após morte de MC Kevin. Folha de S.Paulo, 04 set. 2024. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2024/09/deolane-bezerra-presa-no-recife-ganhou-notoriedade-apos-morte-de-mc-kevin.shtml. Acesso em: 04 out. 2024.

    ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Declaração Universal dos Direitos Humanos, 1948. Disponível em: https://www.unicef.org/brazil/declaracao-universal-dos-direitos-humanos. Acesso em: 10 set. 2024.

    SCHWENGBER, Natália Wailand. Relações de gênero e jornalismo em rede: uma análise do caso Amanda Knox no jornal Daily Mail em 2008. Tese (Bacharelado em Jornalismo) – Escola de Comunicação, Artes e Design (FAMECOS), Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, 2021.

    TERRA. Como Deolane Bezerra ficou rica? Saiba qual é o patrimônio estimado da influencer e de onde ele vem. Terra, 04 set. 2024. Disponível em: https://www.terra.com.br/diversao/gente/como-deolane-bezerra-ficou-rica-saiba-qual-e-o-patrimonio-estimado-da-influencer-e-de-onde-ele-vem,50c6e6b24acf4d1c21774a73e97be668cdkezbgd.html. Acesso em: 04 out. 2024.

    TERRA. Prisão da ex-A Fazenda Deolane Bezerra envolve acusações de jogo ilegal e lavagem de dinheiro; aos detalhes. Terra, 04 set. 2024. Disponível em: https://www.terra.com.br/diversao/gente/prisao-da-ex-a-fazenda-deolane-bezerra-envolve-acusacoes-de-jogo-ilegal-e-lavagem-de-dinheiro-aos-detalhes,801a62869161de82129bc9378f7c8415xjm8r7h8.html. Acesso em: 04 out. 2024.

    VITORIA, Dayres. Deolane Bezerra, influencer presa, já se envolveu em outros casos policiais; relembre. CNN Brasil, 04 set. 2024. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/deolane-bezerra-influencer-presa-ja-se-envolveu-em-outros-casos-policiais-relembre/. Acesso em: 04 set. 2024.

  • Pesquisa aponta o Impacto do ensino de gênero e sexualidade na formação em Jornalismo na Ufop

    Apresentados em abril no Encontro Nacional de Ensino de Jornalismo (ENEjor), resultados de pesquisa  trazem dados importantes sobre a Universidade


    A pesquisa surgiu a partir de uma percepção informal sobre o impacto proporcionado pela disciplina eletiva Gênero e Jornalismo em relação ao debate de gênero e sexualidade no curso de Jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop). Para investigar esse processo que estaria relacionado ao aumento de Trabalhos de Conclusão de Curso (TCCs) nessa temática, o projeto de ensino Pró-Ativa realizou um levantamento documental de todos os trabalhos já defendidos no curso. A partir das análises dos TCCs, a percepção se quantificou em dados, concretizando o impacto da eletiva, ofertada atualmente na nova matriz curricular como Jornalismo, Gêneros e Sexualidades.

    Foto: Captura de tela | Apresentação no ENEjor sobre a pesquisa Pró-Ativa

    A pesquisa foi contemplada no programa Pró-Ativa, iniciativa da Pró-reitoria de Graduação (Prograd) da Ufop para contribuir com a melhoria do ensino de graduação. O bolsista e estudante de jornalismo Gabriel Maciel, junto à orientadora Karina Gomes Barbosa, realizaram o levantamento dos TCCs, que é histórico para o curso, e sinalizaram pontos de atenção à Universidade.

    Foram observados os 626 TCCs apresentados no período de 2012.1 a 2024.1 de forma quantitativa e qualitativa, considerando um corte pré e pós-disciplina. Com uma taxa de 1,27% de ausência de informação, a análise realizou a catalogação desses projetos por itens como autoria; orientação; período; palavras-chave e resumo. A pesquisa comprovou o impacto de um ensino gendrado no jornalismo, que se materializa com a disciplina. O aumento dos TCCs dentro do tema foi evidente ao longo dos anos, o que se observa no gráfico abaixo:

    Gráfico apresenta expressivo aumento nas defesas de TCCs a partir do 2016.2, em que a eletiva passou a ser ministrada

    O impacto pode ser observado a partir da expansão dos TCCs no tema no decorrer dos períodos, à medida  que a disciplina foi sendo ofertada. As defesas saltaram de 6,3%, antes da oferta da disciplina, para 30,7%. Adotando diferentes inflexões no decorrer dos anos, os projetos dos formandos apresentam a pluralidade de vivências, dentro e fora da Universidade, e os diferentes interesses em relação a gênero e sexualidade.

    A disciplina eletiva foi, portanto, um ganho relevante para a universidade. Porém, não há institucionalização para um ensino gendrado no curso. O Plano de Desenvolvimento Institucional (PDI) reflete essa percepção, o documento não estabelece um projeto consistente para o desenvolvimento de temáticas para a comunidade LGBTQIAPN+, por exemplo. Essa constatação trouxe um novo percurso para os pesquisadores, que agora vão investigar a presença de gênero e sexualidade na formação em Jornalismo em um novo projeto.

    O impacto positivo da eletiva é importante, mas frágil. Um exemplo disso é que, neste momento, “Jornalismo, Gêneros e Sexualidades” é ofertada pela professora Karina Gomes Barbosa, que anteriormente, compartilhava a disciplina com o professor Felipe Viero, egresso do corpo docente da graduação. Na impossibilidade de um dos dois, a disciplina não é ofertada, o que demonstra que não há, ainda, uma institucionalização junto ao corpo docente

    Por trás do tempo, o que a pesquisa conta?

    Nesse processo de catalogação histórica sobre a trajetória formativa do curso, foi traçada a linha do tempo sobre esses 12 anos de ensino em jornalismo. Ela nos mostra os anos em que a disciplina foi ofertada e seus impactos. E, para além dos gráficos, sinaliza pioneirismos como os primeiros TCCs categorizados com uma perspectiva sobre gênero/sexualidade. Confira:

    A construção documental realizada pelo projeto de pesquisa de 2024 e que será aprofundada em 2025 são estruturadas, também, a partir de documentos importantes para a universidade, como o PDI, os projetos político-pedagógicos e as Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs) do Jornalismo, que prevê as competências esperadas para quem se forma na área, que passam pelos direitos humanos, por exemplo. Além disso, o PDI estimula uma formação ética e alinhada à diversidade sociocultural e aos direitos humanos.

    Relatos no artigo Gênero e sexualidade na formação em Comunicação, de autoria dos docentes, indicam que a oferta da disciplina capacita jornalistas ao olhar gendrado na profissão. A professora Karina Gomes Barbosa, orientadora da pesquisa, reforça:

    “Vivi  o  privilégio  de  uma  sala  de  aula  engajada  e disposta  ao  diálogo.  Uma  sala  de  aula  composta  majoritariamente  por  mulheres cisheterossexuais, mas  com  presença  marcante  de  sujeitos  LGBTQI+,  bem  como  de mulheres  negras,  retrato  da  diversidade  crescente  que  toma  conta  da  universidade pública brasileira, a transforma e enriquece. Uma sala de aula feminista.”

    Por Gabriel Maciel Penha

  • Quem pode falar na confraria dos homens? 


    Na última segunda (09), tivemos uma experiência esclarecedora sobre o funcionamento das repúblicas tradicionais de Ouro Preto e muito do que essa cultura envolve. A audiência pública do Ministério Público Federal que era, inicialmente, sobre as repúblicas federais no contexto da política assistencial de moradia estudantil da UFOP, se transformou em uma reunião de homens, que foram defender suas experiências maravilhosas naquelas casas centenárias e a importância das repúblicas para a preservação do patrimônio histórico (as próprias moradias em que eles fazem a manutenção). 

    É claro, existem os pontos positivos do sistema republicano. Quando apontamos as violências e os crimes recorrentes nesses espaços é pela gravidade dos fatos, não apenas uma generalização. É importante pensar que os afetos (fruto da recepção em uma nova cidade e forma de viver, longe da família e iniciando uma graduação, que, muitas vezes configura a primeira vez morando fora) e o contexto em que o “mundo” novo é apresentado moldam a forma de enxergar e vivenciar a vida ouropretana nas repúblicas (e a vida universitária em geral, mas cabe a ênfase na cidade de Ouro Preto, onde as 69 repúblicas federais estão localizadas). 

    Quantas “casos isolados” de estupro, racismo, LGBTQIAPN+fobia, abuso de poder, assédio moral e sexual existem ao longo da história destas repúblicas? Em um ano? Já ouvi falar em vários no mesmo mês, mas fica para outro texto. E mesmo se for só um, já é o bastante para revolta e, claro, para que haja a devida punição e mudanças sejam feitas, pois muitos casos se tratam de atos criminosos. Porém, as “punições” nesses casos são diferentes. Primeiro porque há variações, como quando um “bicho” (nome utilizado de forma pejorativa para se referir aos calouros/pessoas novas na casa) faz algo considerado errado e seu castigo é virar um “lavrado”, um copo de cachaça. 

    Uma das punições mais severas é ser “catado”/expulso da república na qual você estava “batalhando” pela vaga (mesmo tendo pago o aluguel, contribuído com a divisão de contas básicas e feito tarefas dentro da casa, mas, o mais importante, ter morado ali, você ainda não é morador*). No entanto, essa catação pode decorrer de diferentes motivos, como o fato de não comparecer aos compromissos da casa — como sociais e festas do mundo republicano — ou não realizar as atividades domésticas. 

    Mas, pensa aqui com a gente, se as vagas nas moradias federais (que são aquelas em que a universidade custeia o aluguel ou detém a propriedade da casa) teriam de ser reservadas para as pessoas de acordo com critérios socioeconômicos, que muitas vezes precisam trabalhar para se manterem nas cidades, como suportar essa rotina totalmente dedicada à república? 

    A conta não fecha. E não é para fechar mesmo, é para excluir. 

    Existem inúmeros relatos — e regras claras, dentro dessas casas — de que quando você é “bicho”, você serve os outros; você abaixa a cabeça e aceita; você faz mais atividades que os outros moradores porque deseja ser escolhido; você não escolhe seu dia a dia, porque determinam até sua hora de acordar; você prioriza atividades republicanas em detrimento, inclusive, das aulas; e tantas outras coisas. Tudo isso com a premissa de aprender a cuidar da casa e criar um laço com o lugar. Daí eu me pergunto: quem consegue sustentar essa rotina? Pois é, um grupo seleto de pessoas. 

    Alguns questionamentos levantados em uma das falas durante a audiência foram: “Como a necessidade de deixar meus horários de aula no quadro da casa auxilia na preservação desse patrimônio?” ou “Como virar cachaça na minha boca auxilia na preservação desse patrimônio”. E, para fechar, “como a obrigatoriedade de frequentar festas e dormir pouco tendo que ir para aula no dia seguinte cedo auxilia na preservação desse patrimônio?”. 

    O que reforça duas coisas: a primeira é que o discurso preparado pela galera que estava na audiência para defender as repúblicas foi de que eles estavam ajudando a “preservar o patrimônio”, até porque são casas históricas, tombadas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), na tradicional Ouro Preto. Até aí pensamos: beleza, há algum sentido no discurso. Muitas casas estavam de fato em situação de abandono antes de serem incorporadas ao patrimônio da Ufop e, posteriormente, colocadas a serviço das repúblicas federais. 

    Porém, o que me leva ao segundo ponto é a real razão para a audiência pública acontecer: “atual gestão das repúblicas federais vinculadas à Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), no contexto da política assistencial de moradia estudantil e sua inserção na comunidade local”, segundo a matéria do MPF. O tema não era patrimônio, ainda que este importe. Ou seja, a mudança do foco nos discursos foi uma estratégia para defender as repúblicas ali presentes e, especialmente, para desviar o foco do que realmente importa: a inserção de estudantes pobres nas moradias públicas da universidade.

    Nem todas as tradições devem ser preservadas. Nem toda regra ou lei é ética – embora devam ser respeitadas, cumpridas e questionadas nos fóruns adequados. Durante a audiência, muitos estudantes defenderam as repúblicas federais com base em normas, citando, por exemplo, que a casa é cedida pela universidade e segue a resolução CUNI 1540. Sim, é fundamental que se entenda que a conformidade com normas e regulamentos, embora legítima, não deve encerrar o debate, pois nem toda regra ou tradição é inquestionavelmente ética e digna de ser preservada sem críticas, especialmente quando o contexto é uma audiência pública para discutir os problemas desses espaços. Se as repúblicas são imóveis da UFOP, cedidos para moradia estudantil, é justo que o acesso a elas seja garantido a estudantes em situação de vulnerabilidade socioeconômica. Hoje, isso não acontece.

    Há pouco tempo, para uma pessoa pobre estar na universidade era, quase sempre, irreal. A Lei de Cotas existe há apenas 13 anos e tem relação direta com essa exclusão histórica e estrutural. Ela reserva vagas para quem estudou em escola pública, para pessoas de baixa renda, por raça e também para pessoas com deficiência. Justamente para enfrentar os efeitos duradouros da escravidão e de outras formas de desigualdade. O Brasil foi o último país das Américas a abolir a escravidão, após 300 anos. Essas frases são usadas e repetidas muitas vezes, e é importante mexer nessa cicatriz aberta. Este país tem uma dívida, e falar sobre isso na cidade de Ouro Preto é simbólico.

    O reitor Luciano Campos da Silva apresentou dados: hoje, 51,2% dos estudantes em universidades federais se identificam como negros, 70% são considerados de baixa renda. Contudo, nas repúblicas federais da UFOP, apenas 39% dos moradores são considerados de baixa renda. 

    O racismo é uma marca na história do Brasil que está longe de acabar. Apesar dos avanços com as políticas públicas que trouxeram diversidade às universidades, pensar em um ambiente idealizado por e para pessoas brancas – e majoritariamente de classes médias ou altas –, sem problematizá-lo, não é certo. O que deveria acontecer diante de casos de racismo e outros crimes era a garantia de proteção, permanência e assistência aos estudantes negros e pobres.

    Ao entrar nas repúblicas, nas casas históricas e olhar para os muitos quadrinhos de ex-moradores, é perceptível quem não são as pessoas que se formam ali. É simbólico — e perverso — imaginar uma pessoa negra que passa na universidade e chega a uma casa onde vai servir, trabalhar como “bicho” e ser submetida a uma lógica de hierarquia e humilhação.

    Mas é tudo pela tradição! Assim não só o racismo, mas a homofobia, a misoginia e várias outras formas de violência e preconceito se tornam aceitáveis. 

    As palmas e narrativas seletivas 

    Durante a audiência, com o auditório lotado, temas como machismo, abuso, racismo e LGBTQIA+fobia chegaram a ser mencionados. Nessas horas, muitos presentes reagiram com expressões de tédio, como se esses assuntos fossem repetitivos, deslocados ou incômodos dentro daquele espaço. O fato de não estarem no foco “oficial” (assim como o patrimônio) da audiência serviu como justificativa para ignorá-los, como se discutir essas violências não fosse urgente. A postura foi de deslegitimar essas pautas, como se elas atrapalhassem a defesa da tradição e da história das casas — quando, na verdade, são questões centrais que atravessam a permanência estudantil e a vivência de muitos corpos dentro dessas repúblicas.

    O que importa, para muitos, é a história da república se manter de pé. A que custo? A qualquer custo. Ao custo da exclusão, da ampliação de vulnerabilidades socioeconômicas, ao custo do escanteamento das violências, ao custo de quem é discriminado, expulso, violentado, por não se encaixar num sistema que funciona para alguns, mas de forma alguma para todas e todos. Afinal, todos os erros e crimes são sempre tratados como casos isolados — mesmo acontecendo, recorrentemente, nos mesmos espaços.

    Enquanto mulheres, nos sentimos acuadas e amedrontadas por aquelas palmas incessantes e alongadas após as falas dos homens (todos cisgênero), em sua maioria brancos, hétero e, acima de tudo, republicanos. Eram muitos e eram fortes, ali unidos. Eles defendem o sistema e se defendem entre si, fazendo com que verdadeiras violências sejam vistas como “o jeitinho” deles, ou mais, que tudo isso seja legitimado por um sistema que, por exemplo, força as pessoas a beberem até caírem (ou até morrerem). 

    Por mais que o camarada ao nosso lado na audiência reafirme que “ele bebeu porque quis!”, ao comentar com os amigos da república sobre o caso de xenofobia, trote violento e tentativa de abuso sexual contra um estudante maranhense ocorrido em 2022, a prática de beber grandes quantidades, mesmo sem concordar, e permancer calado é comum nessas casas, pois assim as pessoas são consideradas “bichos bons” e são escolhidas mais rapidamente. Esse mesmo camarada ainda demonstrou impaciência durante a fala do Diretório Central dos Estudantes (DCE) — coincidentemente, ou não, uma das poucas falas que criticava o sistema republicano, trazendo à tona diversos casos de violência desse ambiente, como abuso sexual, racismo, LGBTQIA+fóbia e outros.  

    Rita Segato denuncia em seu livro La Guerra Contra las Mujeres (2016) a existência de uma confraria dos homens, uma organização mafiosa que se defende, se ajuda e funciona em prol da manutenção de seus privilégios e do sistema de dominação-exploração na qual nós, mulheres, e outros corpos desviantes vivemos. É importante ressaltar que um mesmo sistema é responsável pelas diversas violências destinadas às pessoas LGBTQIAPN+, negras, entre outros grupos que compõem as interseccionalidades e, por isso, são constantemente enxergadas como vidas “menos importantes”. 

    Rita afirma que: “A estrutura funcional hierarquicamente disposta que o mandato de masculinidade origina é análogo à ordem da máfia; por esse tipo de violência, o poder é expresso, exibido e consolidado de forma truculenta perante os olhos do público”

    Estávamos ali, no centro dessa reunião dos machos, olhando de perto para aqueles que nos violentaram mais uma vez (psicologicamente, simbolicamente). Eles afirmam que “esses casos são antigos, vocês estão presas nos anos 2000!” ou “isso é só uma generalização de um sistema muito lindo e unido”. Quando, na verdade, querem dizer: “Nós queremos a liberdade para continuar exercendo esse poder, essas violações contra todos que desejarmos e que isso fique bem camuflado nas tradições ouropretanas”. 

    É importante dizer, mais uma vez, que o ponto principal da audiência não era a continuidade ou existência dessas moradias (até porque sabemos que elas vão continuar e têm relevância), mas sim a inserção de estudantes pobres nesses locais — que são, idealmente, destinados justamente para essas pessoas. No entanto, a entrada e permanência desse grupo é impossibilitada pelo sistema republicano federal, esse mesmo que acolhe pessoas com situação financeira amplamente confortável com a possibilidade de custear outros aluguéis. 

    Isso faz com que, indiretamente, um perfil de pessoas seja estabelecido e aceito nesses locais (claro, com seus pequenos pontos de diversidade) e, mais uma vez, os homens brancos cisheteronormativos colham os frutos de seus privilégios e tomem a fala e narrativa diante de nossos olhos. Por essa razão, quando esses caras escutam críticas, por mais breves que sejam, eles se enfurecem e usam de seu poder para nos calar. Suas palmas têm destino certeiro: só aplaudem quem dança a mesma música; só concordam com um mesmo discurso; só funcionam num mesmo sistema. 

    *Quando uma pessoa é “escolhida” acontece uma celebração surpresa, na qual geralmente os “bichos” são embebedados no rito de passagem para moradores. A decisão das escolhas é de quem está acima da hierarquia, selecionando quem acha apto para dar continuidade na história da casa. O tempo até tornar-se morador(a) é variado, pode ser a duração de um período da UFOP ou mais, chegando até a ano(s).