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  • Miradas da infância

    Cartaz apresenta a frase Miradas da infância em letra de criança. Embaixo, personagens de desenho animado em negativo, com as logos do projeto na parte inferior.
    Cartaz da mostra. Arte: Bento Vital.
    Cartaz em vermelho, com bordas em amarelo e azul, contendo a programação de filmes da mostra. Na parte inferior, personagens infantis em negativo.
    Programação completa.

    Olhar para as infâncias e pensar como elas mesmas imaginam o mundo. Essa é a proposta de Miradas da infância, mostra cinematográfica do projeto Ariadnes, que vai exibir longas-metragens protagonizados por meninos, meninas e menines e que apresentam perspectivas infantis sobre o mundo, ainda que esses filmes sejam dirigidos por adultas e adultos. Essas miradas se cruzam com questões sobre gênero, raça, sexualidade, etnia, região: quem são as crianças que o cinema nos mostra? Quais são e como são as infâncias pensadas ou lembradas pelos olhares adultos?

    Programação

    08/5: A princesinha
    A little princess, Alfonso Cuarón, 1995
    Adaptado do romance de Frances H. Burnett, o filme narra a história de uma órfã exposta a abusos em um internato de Nova York no início do século XX, após a morte de seu pai na Índia.

    15/5: Onde fica a casa do meu amigo
    Khane-ye doust kodjast? , Abbas Kiarostami, 1987
    Mistura entre ficção e documentário, o filme conta a história de Ahmed, que pega por engano o caderno de seu amigo e precisa devolvê-lo para evitar que o menino seja punido na escola, caso não leve o dever de casa.

    22/5: Meu pé de laranja lima
    Meu Pé de Laranja Lima, Marcos Bernstein, 2012
    Diante de uma realidade dura e da falta de afeto, o pequeno Zezé usa a imaginação para transformar um pé de laranja lima em seu refúgio e confidente. Entre travessuras e descobertas, ele encontra na amizade improvável com o “Portuga” o verdadeiro significado de ser amado. Baseado no clássico de José Mauro de Vasconcellos, o filme é um retrato poético e visceral sobre a infância e o momento em que a fantasia de ser criança dá lugar ao amadurecimento. Uma experiência obrigatória e emocionante que abraça qualquer um que assiste.

    29/5: O túmulo dos vagalumes
    Hotaru no haka, Isao Takahata (Studio Ghibli), 1988
    A animação percorre os desafios vividos por Seita, um adolescente de 14 anos e sua irmã Setsuko, de quatro anos, que depois de perderem seus pais precisam encontrar meios de sobreviver no Japão pós Segunda Guerra Mundial.

    12/6: Conta comigo
    Stand by me, Rob Reiner, 1986
    “Conta Comigo” é uma adaptação da novela “O Corpo” de Stephen King. O filme conta a história de quatro garotos que, ao descobrirem o desaparecimento de um menino em sua cidade natal, a fictícia Castle Rock, decidem ir à procura de seu paradeiro. Durante a busca, os amigos acabam vivendo uma aventura repleta de desafios e reflexões.”

    19/6: Close
    Close, Lukas Dhont, 2022
    Close é um drama belga que retrata a história de dois amigos inseparáveis, Léo e Rémi, de 13 anos, que veem sua relação mudar devido à pressão social. Sensível e impactante, o longa-metragem acompanha as consequências desse rompimento, abordando, desde cedo, temas como masculinidade tóxica, amizade e perda.

    26/6: Marte Um
    Marte Um, Gabriel Martins, 2022
    A partir das tensões políticas que se estabelecem no país após a eleição de um presidente de extrema-direita, Marte Um (2022) traz a história dos Martins, uma família negra de classe média-baixa que vive na periferia de Contagem, região metropolitana de Belo Horizonte. Sob um olhar sensível, a obra tece, a partir do acompanhamento de um cotidiano simples, múltiplas histórias que evidenciam a esperança frente a uma desigualdade social que sufoca sonhos.

    3/7: Lindinhas
    Mignonnes, Maïmouna Doucouré, 2020
    No longa acompanhamos Amy, uma menina de 11 anos de origem senegalesa que vive em Paris. Dividida entre dois mundos contrastantes — os valores tradicionais de sua família e a cultura influenciada pela internet —, ela se aproxima de um grupo de dança local, passando a explorar questões relacionadas à sua identidade, à descoberta da sexualidade e à hipersexualização infantil frequentemente presente nas redes sociais.

    • As sessões são gratuitas e acontecem sempre às 9h, na sala 207 do ICSA;
    • Todas as sessões serão seguidas de uma conversa;
    • Haverá emissão de certificados para quem comparecer a 75% das sessões.

  • “Jem e as hologramas” andaram para as “Guerreiras do K-Pop” correrem

    Imagem de desenho animado de cinco mulheres com cabelos estilo anos 80 em cores chamativas rosa, azul, lilás, vermelho e pink. Elas tocam instrumentos de rock.
    As amigas e músicas de Jem e as hologramas. Foto: reprodução

    Ia o final da década de 1980 e eu, como várias garotas, assistíamos a Jem e as Hologramas na TV aberta. Para mim, sempre foi um desenho revolucionário, porque não havia lutas e músculos masculinos em display. Tudo era embalado por música pop e as personagens femininas trocavam de roupa (e que figurino! – descobri, adulta, que os looks eram inspirados na alta costura da época).

    Corta para 2025 e minha filha me convenceu a assistir a Guerreiras do K-Pop na Netflix com ela. Com todas as diferenças, a animação tem algumas das qualidades que há quatro décadas encantaram aquela menina (inclusive os figurinos incríveis e as músicas). Guerreiras… até tem batalhas (porque as três protegem o mundo contra demônios), que são, porém, trabalhadas narrativa e visualmente sem explorar violência extrema, longe da masculinidade viril e à beira do humor.

    Se há 40 anos (completados no último dia 6 de outubro) Jem e sua trupe integravam uma estratégia mercadológica de consumo audiovisual relacionada à emergência da MTV e dos videoclipes, o trio formado por Rumi, Mira e Zoey mostra como a hegemonia das heroínas princesas, brancas, apaixonadas e passivas definitivamente ficou para trás – numa linha traçável de Mulan e que se intensifica nos últimos anos com Red, Raya e o Último Dragão, A Caminho da Lua, Cada um na sua Casa, Encanto, Caçadores de Trolls, O príncipe dragão, Contos de Arcadia, Carmen Sandiego, She-ra e as princesas do poder, Avatar, Jurassic World, A Casa Coruja e mais um monte de coisa.

    Três garotas posam com armas brancas e roupas fashion, com cabelos estilosos
    As protagonistas de Guerreiras do K-Pop com figurino fashionista e as armas brancas que usam para defender o mundo dos demônios. Foto: Divulgação/Netflix

    São animações diversas entre si, mas com a busca comum pela fuga das narrativas adocicadas e ocidentalizadas dos contos de fada. Comerciais, sim, mas muito mais preocupadas com aventura, autoconhecimento, autoaceitação, empoderamento e imagens diversas de meninos e meninas – uma diversidade que também diz respeito ao soft power oriental; meninas latinas, indígenas, africanas, árabes ainda estão amplamente fora do quadro.

    Algo mais salta aos olhos desde Jem, passando por grande parte desse conjunto, e que também é muito forte em Guerreiras do K-Pop. Tratam-se de animações sobre a amizade, mais especialmente sobre a amizade feminina. É um tema que, por sua vez, está presente no audiovisual infantojuvenil desde o início da década de 1980, com animações como My Little Pony, correndo em paralelo aos mundos masculinos criados pela Mattel e pela Hasbro (co-produtora de Jem), com He-man e a She-ra original, Gi Joe, Transformers e afins.

    É verdade que animações protagonizadas por meninas-não-princesas sempre tiveram um lugar no audiovisual, mas não tão proeminente quanto agora: Três espiãs demais, Kim Possible, As meninas superpoderosas, Winx, Miraculous são exemplos bem executados.

    Certamente os pequenos pôneis e os ursinhos carinhosos geraram (e geram – basta entrar na loja de chocolates…) fatia considerável de produtos, brinquedos e outros vendáveis para alimentar a máquina capitalista. Mas, dentro da cultura da mídia, oferecem outras visualidades ao público.

    O aspecto mais marcante de Jem e Guerreiras é colocar meninas à frente de narrativas altamente empoderadas, que reforçam os laços entre as amigas. Adriana Cavarero trata as amizades femininas como espaços narrativos em que mulheres e meninas trocam histórias de vida, tendo em vista que suas experiências nunca foram narradas no palco, na esfera pública; esse sempre foi o espaço dos heróis.

    Três garotas fazem caras e bocas irritadas.
    Da esquerda para a direita, Mira, Rumi e Zoey em casa, de moletom, curtindo uma noite entre amigas em Guerreiras do K-Pop. Foto: Divulgação/Netflix

    Cavarero destaca que, enquanto amizades masculinas falam de coisas – carros, viagens, shakes, coaches, esportes, cervejas, mulheres (a lista é de minha lavra) – as amizades entre mulheres narram suas vidas. Essa narração inscreve a vida feminina na materialidade do acontecido, de algo que se passou no mundo. Além disso, permite que a narradora elabore a sucessão de eventos únicos que constitui uma vida com um fio narrativo; um sentido que, inexistente no viver, é conferido pelo ato de tecer uma trama do vivido.

    Jem falava também de um aspecto muito comum na cultura patriarcal: a rivalidade feminina – ainda que construída por homens corporativos. Nem isso há na animação de 2025. E daí vem a maior força de produtos culturais como Guerreiras do K-Pop, à parte a relação muito atual com a moda. Para além do apuro técnico da animação, das músicas extremamente bem elaboradas e executadas (têm sido chamadas de chiclete), da representação engraçadíssima da boy band rival demoníaca (os Saja Boys) e da jornada de formação da protagonista, Rumi, trata-se de uma animação sobre a importância da amizade, de confiar as narrativas de nossas vidas umas às outras.

    Guerreiras do K-Pop é atualmente o filme mais visto da história da Netflix. Nenhum produto audiovisual chega a essa marca tendo sido visto apenas por meninas e mulheres, ou seja: a animação, que tradicionalmente seria encaixotada como “chick flick”, “desenho de menina” ou de “mulherzinha”, alcançou um público extremamente abrangente. Prova, assim, que o protagonismo feminino, o protagonismo de garotas, a amizade feminina, é uma narrativa para todos os públicos.

    Por Karina Gomes Barbosa

    Jem e as Hologramas
    Título original: Jem (Jem and the Holograms)
    Onde assistir: há diversos episódios no Youtube
    Gênero: série animada musical infantojuvenil
    Temas: amizade feminina, música, tecnologia, rivalidade feminina, namoro
    Classificação: Livre
    Nossa classificação: Livre

    Guerreiras do K-pop
    Título original: KPop Demon Hunters
    Onde assistir: Netflix
    Gênero: longa de animação musical infantojuvenil
    Temas: amizade feminina, música, demônios, autocuidado, flerte
    Classificação: 10
    Nossa classificação: Livre
    Justificativa: a representação de violência da animação é fantasiosa e engraçada, sem nenhuma cena inadequada para crianças. Certamente as qualidades do filme valem a pena para crianças e adultos.

  • Quando uma menina é assassinada, o que a imprensa escolhe contar? 

    Essa pesquisa começou a partir de um questionamento da professora Karina Gomes Barbosa (UFOP), que já investigava temas relacionados a gênero, infância e violência, com foco principalmente nas coberturas jornalísticas de crimes contra mulheres. Em um dado momento, Karina deslocou seu olhar para a cobertura de infantofeminicídios, refletindo sobre como a mídia aborda, ou silencia, esse tipo de violência. 

    Dessa inquietação resultou o artigo “De simulações desumanizadoras a fabulações críticas: reparar violências jornalísticas à ‘Menina sem Nome’”, escrito com Adriana Santana (UFPE). Neste trabalho, as autoras analisam a forma como reportagem do Fantástico, programa da Rede Globo, e telejornais da NETV, em 2023, relembraram o caso do assassinato de uma menina não identificada, ocorrido em 1970, em Recife. Problematizam as narrativas desumanizadoras que marcam parte do jornalismo e propuseram caminhos críticos de reparação simbólica, como a fabulação crítica, na qual deram o nome Maria à menina:Provavelmente, ela se chamava Maria, o nome mais comum em Pernambuco na década de seu nascimento (1960), segundo o projeto Nomes do Brasil, do IBGE” (p. 16).

    A partir daí, se iniciou a minha pesquisa de Iniciação Científica, intitulada “Perspectivas críticas sobre a mídia: um olhar gendrado, decolonial e ético sobre o caso Miriam Brandão”. Esta pesquisa, financiada com bolsa do CNPq, buscou investigar a cobertura jornalística do sequestro e assassinato de Miriam Oppenheimer Leão Brandão, de 5 anos, ocorrido em 1992, em Belo Horizonte (MG).

    O estudo se insere em uma linha de investigação que analisa como o jornalismo historicamente materializa o feminicídio de meninas, incluindo pesquisas anteriores sobre casos como o de Maria, em Recife. Também leva em consideração os infantofeminicídios como o de Araceli Cabrera Sánchez Crespo, de 8 anos, assassinada em 1973, em Vitória (ES), e o de Ana Lídia Braga, de 8 anos, assassinada em 1970, em Brasília. 

    Nos interessou compreender os modos pelos quais o jornalismo representa esses crimes, a fim de propor uma reflexão crítica, ética, com perspectiva de gênero e infância, sobre a cobertura midiática. Suas histórias permanecem presentes no imaginário nacional, ressurgindo periodicamente como fantasmagoria. Ao mesmo tempo, a santificação de algumas dessas meninas as retira do humano, influenciando a forma como esses crimes são compreendidos, e reforçando a necessidade de uma postura ética no jornalismo que compreenda, critique e proponha ações transformadoras.

    Chamada na capa do EM no dia 08 de janeiro de 1993, essa é a segunda vez que o rosto de Miriam aparece no jornal.

    Em março deste ano, eu e a professora Karina fomos até a Biblioteca Pública Estadual de Minas Gerais, em Belo Horizonte, para acessar arquivos digitalizados do jornal Estado de Minas, do período de 1992 e 1993, época em que aconteceu o sequestro, assassinato e os julgamentos dos acusados do caso Miriam Brandão. 

    Foto de Miriam Brandão retirada do site do Ministério Público do Estado de Minas Gerais

    O caso analisado 

    Na manhã do dia 22 de dezembro de 1992, no bairro Dona Clara, região da Pampulha em BH, Miriam Brandão foi sequestrada enquanto dormia em sua casa. Na época, ela tinha 5 anos e morava com o pai, Volney Brandão, a mãe, Jocélia Brandão, e o irmão, Pedro Henrique, de 8 anos. Após 16 dias de investigação, a polícia localizou os sequestradores: os irmãos William Gontijo Ferreira, de 23 anos, e Wellington Gontijo Ferreira, 22, e uma cúmplice, Rosemeire Pinheiro da Silva, namorada de William, que trabalhava na farmácia da família Brandão. 

    O crime foi motivado pela percepção de que a família possuía boas condições financeiras; segundo os relatos, os irmãos planejaram o sequestro com o objetivo de obter dinheiro para quitar dívidas relacionadas a uma rinha de galos. Eles pediram 150 mil dólares de resgate, valor que foi arrecadado pela família, mas não pago. Durante o período, os sequestradores permaneceram em um local próximo à residência da vítima. Ao longo dos dias, a família, as autoridades e a imprensa mantiveram a esperança de que Miriam retornaria com vida. No entanto, conforme relato dos próprios criminosos, a criança foi assassinada no segundo dia de cativeiro, por chorar muito. 

    No dia 23 de dezembro William asfixiou e em seguida esquartejou e carbonizou o corpo de Miriam. Quando a polícia encontrou o sequestrador, havia no local do crime apenas 150 gramas de cinzas e dois dentes. Essas informações são constantemente reiteradas e relembradas nas matérias jornalísticas. 

    Durante a pesquisa, refletimos sobre a possibilidade de compreender o caso como um feminicídio, o que se mostrou difícil diante da ausência do corpo. O caso do assassinato de Miriam Brandão é emblemático por isso, pois impede a verificação de abuso sexual ou das condições de tratamento durante o sequestro. A única versão disponível é a narrada pelos sequestradores. Apesar disso, a análise comparativa com outros assassinatos de meninas já citados aqui revela que o gênero é um marcador central para compreender essas violências, sendo determinante na brutalidade dos crimes.

    O crime de feminicídio é o assassinato de uma mulher por razões da condição de gênero. Essas razões são entendidas quando envolvem violência doméstica e familiar e menosprezo ou discriminação à condição de mulher. Exemplos ajudam a identificar tais situações, como agressões que visam especificamente o corpo feminino, facadas nos seios ou na região da virilha; a raspagem forçada do cabelo, como forma de humilhação pública; ou ainda atos de vingança motivados por recusa de relacionamentos e pelo controle sobre a vida da mulher. Esses elementos demonstram que a violência vai além da intenção de matar, carregando um significado simbólico e de dominação que expõe a raiz misógina do feminicídio.

    As coberturas jornalísticas 

    A pesquisa de Iniciação Científica começou em setembro de 2024 e se encerrou em agosto de 2025. Nesse período estudamos matérias tanto da época em que o crime aconteceu, nos anos 90, quanto podcast e reportagem audiovisual de 2024, produzidos 30 anos após o crime. Essas análises e os resultados parciais foram submetidos e apresentados em congressos de comunicação e jornalismo, possibilitando discussão e aprimoramento das análises.

    Em agosto, o artigo “Gênero, infância e violência: os assassinatos de Ana Lídia Braga e Miriam Brandão no Correio Braziliense e Estado de Minas”, foi apresentado no XV Encontro Nacional de História da Mídia (Alcar), escrito com Ana Beatriz Nogueira Justino (bolsista de IC – PIP-Ufop) e a professora Karina Gomes Barbosa. Em setembro, apresentei o artigo “Gênero e infância no podcast “Crimes que Abalaram Minas Gerais” sobre o caso Miriam Brandão”, na Intercom Nacional no IJ – Jornalismo, e o artigo “Ana Lídia Braga e Miriam Brandão: sensacionalismo, moralidade e simulações no jornalismo audiovisual”, foi aceito para apresentação no JPJor, em novembro, na UEPG.

    Para tabular e analisar as matérias do Estado de Minas nos baseamos na Análise de Cobertura Jornalística (ACJ), proposta por Gislene Silva e Flávia Maia (2011), que busca compreender a cobertura como configuração social de acontecimentos a partir de estratégias de apuração, composição e disposição da notícia. O protocolo foi adaptado para incluir uma camada analítica de gênero e infância, orientando a leitura crítica das narrativas midiáticas e das hierarquizações de vidas que se produzem no noticiário. Essa adaptação foi desenvolvida nas atividades do Ariadnes, observatório de mídia, gêneros e sexualidades ao qual essa pesquisa se vincula, e que vem sendo incorporada às metodologias do grupo, como em artigo sobre coberturas de violências de gênero no ambiente universitário. 

    Por fim, apresento de forma resumida alguns resultados desta pesquisa. Eles indicam que o jornal Estado de Minas fez uma cobertura jornalística intensa, especialmente nas datas próximas ao desaparecimento e o assassinato de Miriam. Tivemos acesso a 38 matérias sobre o caso no Estado de Minas, de dezembro de 1992 a março de 1993. Dessas, 18 saíram na capa e apenas 9 tinham imagens. Miriam, no entanto, apareceu em foto duas vezes, na primeira menção ao caso e ainda sem ter seu nome no título: “Filha de médico é sequestrada em BH” e quando encontraram William (primeira imagem neste texto).

    Em dezembro de 1992, mês do sequestro, o caso saiu em seis capas das oito edições analisadas. Já em janeiro de 1993, quando seu corpo foi encontrado, foram 25 matérias publicadas, 9 aparecendo na capa. Nos meses seguintes (fevereiro e março), o número caiu para 14 matérias, e só 2 chegaram à capa.

    O foco do jornal estava muito mais nos acusados, nos familiares e nos detalhes técnicos da investigação do que na própria Miriam, o que reforça sua invisibilização. Além disso, a cobertura dividia espaço o tempo todo com outro caso de grande repercussão nacional, o assassinato de Daniela Perez, e também com os debates sobre a pena de morte puxados pelo então presidente Itamar Franco e tendo Jocélia Brandão e Glória Perez, mães de Miriam e Daniela, respectivamente, como protagonistas.

    Nuvem de palavras gerada no Manus a partir dos resultados da pesquisa, indicando os modos com a imprensa nomeou Miriam

    O nome de Miriam foi escrito errado durante toda a cobertura, o que revela descaso e é outro reforço à invisibilização. Ao mesmo tempo, o jornal insistia em chamá-la de “garotinha” e usar outros termos que representam fragilidade, além de destacar a brutalidade do crime de forma sensacionalista, como se o impacto estivesse mais na crueldade do ato do que na vida interrompida de uma criança,  como sujeito de direitos. O jornalismo reduziu Miriam a um corpo violentado, ignorando sua existência e as dimensões estruturais do crime. Em vez de contextualização ou mesmo de estatísticas, sua memória foi transformada em espetáculo pela repetição da violência. 

    Uma surpresa ao longo da pesquisa foi não encontrarmos o caso do assassinato de Miriam em efemérides de um, cinco ou 10 anos. Após as notícias sobre os julgamentos e as penas dos condenados, a menina deixou de ser lembrada no Estado de Minas.

    Assinaturas das matérias analisadas: das 32 publicações analisadas, apenas 4 foram assinadas.

    A ausência de autoria sugere menor especialização e aprofundamento da cobertura, reforçando um enquadramento restrito ao viés criminal e silenciando discussões mais amplas sobre gênero, infância e violência estrutural.

    As outras coberturas analisadas, da Record Minas em 2024, incluindo um podcast e uma reportagem audiovisual da série Crimes que Abalaram Minas Gerais, mostram que, mesmo décadas depois, o tratamento do caso ainda segue a lógica criminal e sensacionalista. A memória de Miriam é explorada para gerar impacto emocional, evocando como poderia ter sido sua vida interrompida há 30 anos, mas sem qualquer menção à legislação que, em 1994, tornou estupro e homicídio qualificado crimes inafiançáveis e passíveis de punição mais rigorosa (Lei 8.930/1994), defendida por figuras como Jocélia e Glória.

    Em 1992, a ausência de uma cobertura com perspectiva de gênero e infância pode ser explicada pelo formato hard news e pela inexistência da Lei nº 13.104/2015, que tipifica o feminicídio. Mesmo assim, é possível perceber que casos como o de Miriam não eram isolados, ao olhar para a editora “Polícia” do EM enquanto procuramos notícias na Biblioteca Pública. 

    Montagem com recortes de algumas noticias na editoria “Polícia” no Estado de Minas em janeiro de 1993. No título “Esta é a desconhecida estuprada e assassinada” a matéria contém a foto do corpo no IML, com a legenda “As sardas se destacam no rosto da mulher ainda não-identificada”.

    Como aponta Judith Butler em Quadros de Guerra: Vidas Passíveis de Luto e Carlos Alberto de Carvalho em O jornalismo, ator social colonizado e colonizador, as escolhas jornalísticas sobre quem merece atenção refletem desigualdades sociais; Miriam, sendo uma menina branca, com família estruturada e condições financeiras mais favoráveis, teve seu caso noticiado. Ainda assim, sua memória se dilui com o tempo, pois sem um contexto midiático de injustiça social e mistério, já que os acusados foram julgados e condenados, a menina foi gradualmente esquecida.

    Quando Miriam foi assassinada, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) estava em vigor, já propondo a compreensão da criança como sujeitos de direitos e incentivando novas formas de noticiar violações contra esses grupos. Essa abordagem, porém, não fica aparente na cobertura do EM, bastante centrada nos adultos – nos pais e nos criminosos – e relegando Miriam a mero “objeto” da violência, importante apenas na medida de sua fragilidade infantofeminina.

    Este olhar evidencia como o jornalismo contribui para a construção de narrativas seletivas sobre violência contra meninas e mulheres, reforçando padrões de visibilidade que priorizam certas vidas em detrimento de outras. A pesquisa mostra que refletir sobre essas escolhas é fundamental para compreender os limites e possibilidades da cobertura midiática, visando a importância de incluir e considerar as interseccionalidades das vítimas e o papel da imprensa na promoção de debates mais amplos sobre justiça, direitos humanos e memória social.

    Por Ana Rodrigues

  • Eu cuido, tu cuidas e ela cuida

    Eu cuidei da minha mãe e do meu pai por 10 anos. Nasci em 1963, numa família de classe média em Belo Horizonte. Minha filha tinha uns 11 anos e meu rapaz uns 7 quando minha mãe foi diagnosticada com Alzheimer. Eu já tinha convivido com meu sogro tendo a mesma doença e agora ela estava ali, ainda mais pertinho de mim. A mulher que me criou estava começando com os sintomas e, depois de um tempo, eu e meus irmãos decidimos que não era uma boa ideia deixar dois idosos sozinhos dentro de casa. Começamos a revezar quem iria dormir com eles.

    A partir daí, toda quinta-feira eu saía de casa, na região metropolitana de Belo Horizonte, e dirigia até a casa dos meus pais para dormir com eles. A rotina era sempre a mesma: arrumar a casa, dar os remédios certos, fazer comida, dar banho e vestir roupa, isso sem contar com a atenção que dois idosos precisavam. Além disso, continuava minha rotina de trabalho normalmente, continuei lecionando História.

    Há uns seis anos, meus filhos estavam com uns 15 anos, minha mais velha, e 11 anos meu caçula. Minha mãe começou a precisar de cuidados mais intensos, sua mobilidade estava pior, ela se lembrava cada vez menos de mim e dos meus irmãos, estava cada vez mais agressiva e comendo menos. Redobramos os cuidados. Antes, eu ia apenas na quinta, que era minha folga, passava o dia cuidando deles, dormia e voltava para minha casa na manhã de sexta-feira. Passei a revezar os fins de semana com meu irmão. Um fim de semana sim e um não eu estava lá! Recriando a rotina de toda quinta.

    Em 2022, meu irmão Zé, que revezava os fins de semana de cuidado comigo, faleceu. Passei por uma fase meio estranha, fiquei tão triste que cheguei a perder uns 10 quilos, dava para ver em meu físico que minha cabeça não estava bem. Meu irmão era meu parceiro de luta e eu passei também a ser responsável por limpar o apartamento em que ele morava sozinho.

    Em 2023, em um dia que eu estava de plantão na casa dos meus pais, minha mãe sofreu uma queda e quebrou o fêmur. Eu a levei ao hospital naquele dia, e quanta culpa eu senti. Ela operou e colocou prótese. O que me lembro mais foi a sentença do médico: ele disse que ela não passaria de um ano.

    Depois do incidente a colocamos na fisioterapia, na esperança que ela saísse da cadeira de rodas. Ela não aguentou a fisioterapia, ficou na cadeira de rodas e pirou cada vez mais. O Alzheimer tirou dela a fala e a prótese, o andar. O corpo não aceitou muito bem o objeto estranho e a partir daí ela entrou e saiu do hospital, até ficar lá porque o corpo não aguentava mais.

    Dormi com ela praticamente todas as noites no hospital. Eu a representava legalmente lá e meus irmãos afirmavam não poder revezar comigo. Eu trabalhava de manhã, de tarde e de noite. Quando saía do serviço noturno ia para o hospital, dormia e acordava às 4h20 da manhã para trabalhar na minha cidade. Por nove meses foi assim. Fiquei com ela o tempo todo.

    Na madrugada em que ela se foi, eu não estava presente. Foi um dos únicos dias em que eu não estava. Tinha levado minha filha para a cidade onde ela estudava. Recebi o telefonema e voltei. Cuidei dela até o fim, do jeito que pude.

    Agora eu cuido do meu pai. Ele tem 100 anos de pura energia! Cuidar dele é mais fácil, ele também requer cuidados, mas consegue se locomover sozinho, ainda fala e brinca, apesar de ratear a memória de vez em quando. Minha rotina com ele continua quase a mesma, às quintas eu saio de casa às 5 da manhã, passo o dia com meu pai e volto para casa na sexta para trabalhar de manhã.

    Eu não tenho nenhuma intenção de colocar meu pai em um asilo. Para mim não justifica que eles tenham cuidado de mim por tantos anos e eu não cuide deles. O meu cuidado com eles é a forma de retribuir o amor que eles me deram a vida toda.

    ******

    A mãe de quem passou por essa história é minha avó. E esse relato, apesar de parecer ser de uma filha, é o relato do meu pai. Foi ele quem passou por essa rotina de cuidado por quase 10 anos. Relatar assim coloca a gente para pensar que, se fosse uma mulher passando por essa situação seria normalizado, pois todas têm que cuidar, já que o cuidado é criado e feito em sua maioria por mulheres. Minha avó teve seis filhos homens, então o cuidado recaiu sobre eles. Meu pai sabe passar, cozinhar, costurar… e cuidar dos meus avós.

    Mas ele é um em um milhão. Segundo dados do Instituto Brasileira de Geografia e Estatística (IBGE), em 2019, 92,1% das pessoas que cuidavam de parentes idosos eram mulheres. O ato de cuidar é imposto às mulheres desde novas – atire a primeira pedra quem de nós nunca ganhou um jogo de panelinhas ou uma bonequinha para cuidar? O cuidado com os idosos não é diferente: se falamos de cuidado, o gênero que cuida é feminino.

    Porém, os homens também são capazes de praticar o cuidado, com os mais velhos, com crianças. Meu pai é um exemplo dessa possibilidade. Claro, ele não é perfeito, o escutei dizer algumas vezes que, já que não tinham uma irmã, eles precisavam cuidar dos pais. Se minha vó tivesse uma filha, provavelmente a rotina que descrevi seria dela.

    E, mesmo que meu pai escolhesse contratar alguém para cuidar dos meus avós, seria uma mulher. Essa afirmação vem do entendimento da economia do cuidado. Cargos de cuidado, como babás, cuidador de idosos e cuidados com a casa (o chamado trabalho doméstico) são exercidos, em sua maioria, por mulheres. Segundo a Pesquisa Nacional sobre Trabalho Doméstico e de Cuidados Remunerados, executada pelo Instituto de Pesquisa Econômica (Ipea) e pelo Ministério da Igualdade Racial (MIR), 93,9%  das participantes eram mulheres, e dessas, 69,9% eram mulheres negras.

    O trabalho de cuidado é desvalorizado em relação a outras ocupações, além de ser pouco comentado. Em 2024, o Governo Federal instituiu a Política Nacional de Cuidados, que tem como um dos objetivos enfrentar a precarização do trabalho e “promover o conhecimento, a redução e a redistribuição do trabalho não remunerado do cuidado, realizado primordialmente pelas mulheres”. Já que além de ser um trabalho feminino invisível, é desvalorizado na remuneração. O cuidar também é uma tarefa.

  • Os bebês de (Rosemary?) Solange

    Na reta final do remake de Vale Tudo, há duas grávidas. Uma delas, nossa esquerdista resistência favorita, a chérie Solange Duprat espera gêmeos do esquerdomacho Afonso Roitman. Para além das absolutamente inoportunas publicidades (os “merchans”) da personagem – promovendo sabão em pó depois de saber que o cunhado dado como morto está vivo etc. -, quero falar aqui do modo como a trama construiu essa gravidez.

    Em resumo, como uma versão comédia mórbida da gestação de Rosemary Woodhouse, interpretada por Mia Farrow no clássico de terror O bebê de Rosemary (1868), do declarado culpado por abuso sexual Roman Polanski.

    Primeiro, a mulher, que é uma produtora de sucesso, independente, decidiu que gostaria de ser mãe. Sem um parceiro ou parceira estável, começou a pensar em inseminação. Pediu a seu melhor amigo e roomate, Sardinha – um ato absolutamente normal e corriqueiro na vida de dois adultos amigos –, para ser o doador do material genético. Foi recebida com um espanto quase vitoriano do outro, como se ela estivesse propondo um crime grave.

    Depois, quando Solange começou a olhar banco de doadores de esperma, pesando características, desejos, expectativas, passou a ser julgada não apenas por Sardinha, mas por Renato, seu chefe e ex-namorado, que deixou claro desde o início da trama (quando a atuação permite deixar algo claro…) não querer filhos, não curtir crianças etc.

    Close de mão feminina segurando um pacote de exame de gravidez
    Solange no início da jornada de terror de sua gestação. Foto: reprodução TV Globo

    Renato se ofereceu para ser pai do filho da ex – sem ter sido convidado –, numa invasão sem noção do espaço privado e da autonomia dessa mulher sobre seu corpo e suas escolhas. E então, numa reviravolta, Solange se descobre grávida pelos métodos ancestrais, depois de uma noite casual com Afonso.

    Aos primeiros sintomas, Solange ganhou broncas de Sardinha por estar à flor da pele. Precisou se desculpar pelo humor instável, sem nenhuma empatia masculina. Quando demonstrou aumento de apetite, foi repreendida no ambiente de trabalho por estar comendo os biscoitos corporativos. Precisou se explicar. Pressionada, deu a notícia ao chefe, que se ofereceu para acompanhá-la no ultrassom – afinal, que pecado uma mulher ir sozinha, desamparada, ver seus fetos, né?

    (Nota lateral sobre a heterossexualidade compulsória: quando eu engravidei, os formulários de maternidade e de “cursos de gestante” traziam os seguintes campos: “Nome da mãe” e “Nome do marido”. Pois é.)

    No exame, Solange descobre que está grávida de gêmeos, e Renato fica exultante. Tão exultante que, quando a médica parabeniza o “papai” pela novidade, ele não a corrige ou desmente. Assume o papel, diante de uma Solange estupefata, mas sem reação. Afinal, deitada na maca, com gel na barriga, estava num dos muitos momentos de vulnerabilidade física em que a gravidez coloca mulheres e pessoas que gestam.

    Ela o cobra depois, indignada, e ele mal pede desculpas. Se justifica, estava feliz (devia estar pensando que o exagero já era fruto dos hormônios descontrolados). Quando Solange conta a novidade a Sardinha, ele fica felicíssimo com os futuros afilhados e, na sequência, tem uma ideia brilhante: fazer um bolão sobre o sexo das crianças, monetizando em cima das projeções de identidade de gênero dos embriões, sem consultar a mãe sobre a relação dela com essas expectativas da cisgeneridade.

    Apesar de Solange ter declarado que se trata de uma produção solo, Sardinha a pressionava o tempo todo para revelar a paternidade. Fuçou, caçou pistas, abriu correspondência da amiga, até sacar que o pai biológico é Afonso. Tirou satisfações e demandou que Solange contasse ao pai, que teria o direito de saber… Tudo que uma pessoa no início da gestação precisa: apoio, solidariedade, compreensão e respeito à sua autonomia e suas decisões. A narrativa é que ela estava enganando Afonso e escondendo algo dele.

    Não bastasse a narrativa de terror e disciplina sobre os corpos femininos, sua sexualidade e direitos reprodutivos, o tom da trama toda foi de arrepiar. Os eventos foram tratados como momentos leves da novela, divertidinhos, meio como o segundo ato de uma comédia romântica dos anos 1990 datada e esquecível.

    (O terceiro ato começou quando os filhos no ventre da mulher serviram de motivo para o doente Afonso querer se curar. E se Solange perdesse os gêmeos? Ele abandonava o tratamento?)

    Solange ficou cercada de homens dizendo a ela o que fazer, como gerir o próprio corpo e as decisões sobre sua gravidez, demandando poder de escolha sobre questões que absolutamente não lhes diziam respeito. E olha que esses são seus amigos. E olha que ela nem cogitou, por exemplo, interromper a gestação. Só podemos imaginar o show de horrores que seria.

    Por Karina Gomes Barbosa

  • Todo mundo sabe, ninguém fala

    Eu estava na biblioteca, era dia de organização nova das seções. Quando fui apontar para um livro na prateleira, senti alguém chegar por trás, me encoxando. Fiquei paralisada. Saí. 

    Tudo aconteceu muito rápido, sem que houvesse tempo para entender ou reagir. Tinham pessoas por perto, mas todos ficaram confusos com aquele movimento estranho. Numa fração de segundos ocorreu um toque – indesejado, sem consentimento – que permanece em mim como trauma.

    Ele dividia comigo esse ambiente de trabalho, e mesmo que já tivesse escutado outras histórias de importunação sexual, assédio e até stalking, nunca tinha acontecido comigo – até aquele momento. Os relatos circulam há tempos na Universidade Federal de Ouro Preto, mas parece que ninguém faz nada. 

    Quando ele estava sentado na biblioteca, tinham ainda umas movimentações esquisitas na genitália, a gente observava isso. Mas, assim como os outros relatos, isso acontecia e ninguém falava. Fazia parte do dia a dia e ninguém se aproximava. 

    Depois desse episódio, comuniquei ao responsável pela biblioteca e mudei meu horário, para não encontrar com ele. Mas, no meio disso, esperei que algo fosse feito; que ele pudesse ser expulso da função, por exemplo. Mais uma vez eu vi que ninguém iria fazer nada, que agora, as dores e trauma ficariam individuais – em mim, no meu corpo. 

    Eu me pergunto se é porque ele é homem ou se é porque já aconteceram tantos casos que as pessoas parecem não se importar. Já são anos no mesmo ambiente e inúmeros relatos, mas nenhuma providência. 

    Algum tempo depois estava fazendo uma disciplina em que ele também estava matriculado. Nela, éramos divididos em duplas ou trios e, como ele estava (mais uma vez) sozinho, “excluído”, reuniram algumas pessoas para analisar se ele poderia fazer o trabalho em conjunto. Eu era uma dessas pessoas. 

    Ali, na frente de dois professores – também homens – tive que não só negar a possibilidade de parceria, mas também explicar o porquê. Tive que me abrir e falar das minhas dores; do episódio de importunação sexual que vivi e ainda citar outros, reafirmando que realizar um trabalho com esse homem é perigoso, arriscado. 

    O que ouvi foi que a situação é difícil, delicada, mas, de novo, não tem muito o que fazer. 

    Desde 2018 o Ariadnes escuta relatos anônimos sobre assédio.

  • Em busca de Maria Schneider

    Imagem de uma mulher jovem, branca, em primeiro plano, com cabelos escuros cacheados na altura dos ombros, com franja. Ela olha fixamente para a câmera. Atrás dela, vários fotógrafos tiram fotos.
    Anamaria Vartolomei em cena de Meu nome é Maria. Foto: Divulgação.

    Rever Último tango em Paris depois de mais de duas décadas teve um sabor amargo. O filme continua lá, mas mudou. E eu mudei. Agora, pude perceber com mais clareza como o longa de Bernardo Bertolucci, de 1972, se estrutura de fato como uma dança. A alusão do título não é apenas à sequência final, mas também à estrutura poética da obra, com movimentos de aproximação e baile entre Jeanne (Maria Schneider) e Paul (Marlon Brando) pela Paris dos anos 1970, até a separação trágica no ato final, como um tango.

    Mas não está aí a questão, e nem foi por isso que exibimos o filme na nossa mostra Toda nudez será castigada. Último tango… é daqueles filmes que nos convidam – demandam, de uma perspectiva gendrada – a pensar a crítica de dentro para fora e seu reverso. No século XXI, com tudo que as teorias feministas do cinema nos ensinaram sobre o olhar no cinema há 50 anos, com tudo que sabemos sobre as condições de produção violentas a que a atriz francesa Maria Schneider foi submetida, é possível olhar para o filme de Bertolucci apenas esteticamente?

    Obviamente, essa é uma pergunta retórica e não pretendo discutir outras possibilidades críticas além daquelas que animam o Ariadnes. O filme é marcado por uma extrema assimetria entre a exposição dos corpos da jovem Schneider, que é desnudada e tem sua erotização posta em cena a partir do olhar desejante e para o deleite masculinos, e um Marlon Brando decadente, cansado, derrotado.

    Sim, é o personagem dele. Mas também não é. É a medida pela qual o cinema hegemônico, e o cinema de autor, construíam as relações de desejo na grande maioria dos filmes, sejam comerciais ou “de arte”: de um lado um sujeito agente de desejo; do outro, um objeto de desejo à disposição do olhar masculino dentro da tela (o olhar do personagem de Brando), fora da tela (o espectador, no masculino) e da câmera (do diretor).

    Talvez por isso as mulheres em nossa sessão tenham se incomodado tanto com a repetição da lógica cênica em que Maria Schneider está nua em pelo e Brando, vestido (ele nunca aparece sem roupa). O filme não propõe nos identificarmos com ela. Jeanne/Maria está ali, sendo exibida (não exibindo-se). E, ainda assim, a identificação é inevitável, porque essa mulher sobrevive ao olhar masculino, como tantas de nós.

    É impossível, também, não me deslocar do filme e discutir a cena de estupro, figurado, que já é perturbadora pelo que mostra, pelo modo como mostra. Mas é muito mais perturbadora pelo que Maria Schneider contou ao mundo anos depois: a cena foi filmada à revelia dela, sem seu consentimento; não estava no roteiro. A atriz não sabia o que seria captado ali, no chão do cenário do apartamento; que ela seria submetida a uma simulação de estupro anal, aos 19 anos, por um astro hollywoodiano, sob o olhar de uma equipe de filmagem.

    A atriz Maria Schneider em cena de Último tango em Paris. Foto: divulgação.

    A atriz contou que se sentiu humilhada e um pouco violentada por Brando e Bertolucci – exatamente a sensação que o diretor queria extrair dela (em nome do cinema?), por isso o descaso em simular o estupro de uma jovem atriz em seu primeiro papel de protagonista. Em vez de consolá-la após a filmagem, o co-protagonista (Brando teria sugerido o uso da manteiga como lubrificante) lhe disse para não se preocupar, era só um filme; mas a manteiga era real; as lágrimas dela eram reais; o impacto devastador da experiência foi real para ela.

    Cansada das justificativas masculinas para agredir mulheres narrativamente, cenicamente, visualmente, fui assistir a Meu nome é Maria (2024), cinebiografia da atriz dirigida por Jessica Palud, em busca de algo diferente; em busca de Maria Schneider. A cena está lá, claro – era inevitável, explicou a diretora em entrevista. Mas de outra perspectiva: aqui, não há desculpas para não se incomodar e perceber o que estava acontecendo. Schneider foi violada diante de várias testemunhas (quase todos homens), que olhavam cúmplices e omissas enquanto a câmera registrava.

    Meu nome é Maria é um filme comedido, pontual, de narrativa irregular. Revê o próprio cinema à luz da história. E tenta fazer justiça tardia a uma atriz que foi sugada pela misoginia, por homens em quem confiava e que teve a vida e a carreira negativamente marcadas pelo filme de Bertolucci – enquanto ele e Brando se beneficiaram financeira e profissionalmente.

    Anamaria Vartolomei, que interpreta Schneider em Meu nome é Maria, foi respeitada durante o processo, que contou com um coordenador de intimidade para recriar a cena. Matt Dillon, que vive o Paul de Brando com surpreendente semelhança, parece ter respeitado a atriz. Essas medidas não anulam a violência do momento, conforme Vartolomei afirmou em entrevistas, porque encenar um estupro nunca é impune.

    A cinebiografia nos oferece um outro ponto de vista, feminino. O que nos mostra é o pânico de uma mulher no chão, de barriga para baixo, tendo de ficar no personagem enquanto o corpo dela, real, não o corpo imaginário de Jeanne, é submetido àquela violência. Por isso, mesmo tendo visto Último tango em Paris diversas vezes, é o olhar desesperado da mulher em primeiro plano de Meu nome é Maria que volta à minha mente.

    Imagem de uma mulher de vestido branco e um homem de camisa longa vermelha. Os dois estão sentados no chão de um cômodo vazio, prestes a se beijarem.
    Anamaria Vartolomei e Matt Dillon encenam Maria Schneider e Marlon Brando em Último tango em Paris. Foto: Divulgação.

    Por Karina Gomes Barbosa

    Serviço:

    Último tango em Paris
    Título original: Ultimo tango a Parigi
    Onde assistir: Prime Video (aluguel ou compra)
    Gênero: Drama
    Temas: Estupro, violência, sexo
    Classificação: 14 anos (A14)
    Nossa classificação: 14 anos (A14)
    Justificativa: O filme contém representação de um estupro, nudez frontal feminina, violência com arma de fogo e misoginia.

    Meu nome é Maria
    Título original: Maria
    Onde assistir: AppleTV+ (aluguel ou compra)
    Gênero: Drama biográfico
    Temas: Estupro, violência
    Classificação: 14 anos (A14)
    Nossa classificação: 14 anos (A14)
    Justificativa: O filme contém representação de um estupro, uso de drogas e violência.

  • Identidades digitais, gênero e performatividade no filme “Haru”

    Imagem: captura do filme

    A cultura nos ajuda a compreender um pouco sobre como as identidades e a performatividade de gênero se constroem e se manifestam em espaços online, como em Haru. O filme é um romance feito no Japão, em 1996, por Yoshimitsu Morita, diretor e roteirista. Vencedor dos prêmio de Melhor Atriz (Eri Fukatsu) e Melhor Roteiro no 18º Festival de Cinema de Yokohama (1997), conta a história de dois jovens, Noboru Hayami e Mitsue Fujima, que se conhecem por meio de um fórum sobre filmes. Eles acabam se apaixonando à distância, desafiando noções convencionais de autenticidade e conexão interpessoal.

    Noboru é um rapaz que costumava jogar futebol americano na escola, mas acabou deixando o esporte de lado depois de sofrer uma lesão nas costas. Em consequência disso, acompanhamos sua rotina como um funcionário comum na grande Tóquio. Já Mitsue é uma moça traumatizada pela perda do seu ex-namorado, que muda constantemente de emprego na sua cidade, Morioka. Ambos se conheceram utilizando nomes e identidades diferentes: “Haru” (Noboru) e “Hoshi’ (Mitsue). De agora em diante vamos nos referir aos personagens por meio do nome nos seus perfis.

    No começo do filme, vemos que Haru ama conversar sobre filmes com sua namorada e fazer passeios no cinema, enquanto acompanhamos Hoshi ser perseguida por um amigo próximo do seu ex. É nesse contexto de vida que ambos se conectam, sendo que Hoshi se apresenta no fórum por um perfil que se identifica no gênero masculino. O relacionamento entre os dois começa a crescer sem que cada um revele suas verdadeiras faces, compartilhando conversas sinceras sobre suas preocupações e desafios diários em trocas de e-mails. E, por mais que Hoshi revele que fingiu ser um homem, a confiança entre ambos acaba não entrando em colapso por causa disso.

    Imagem: captura do filme

    A dinâmica dos relacionamentos na web começou na década de 90, no início da era da internet, proporcionando às pessoas se aproximarem e se conectarem de diferentes localidades. Sherry Turkle, professora de Estudos Sociais de Ciência e Tecnologia no Massachusetts Institute of Technology, explica que nesse tipo de relação podemos nos apresentar como queremos e atuar de acordo com o que outro espera de nós, sem nos comprometermos com uma identidade fixa. Naturalmente, as pessoas vão moldando e expressando sua identidade ao longo da vida e, de acordo com Erik Erikson, psicólogo e psicanalista, o desenvolvimento dessas identidades vai se ajustando por meio das experiências sociais e da autorreflexão dos indivíduos.

    Por assumirem pseudônimos que não refletissem suas identidades no offline, questões sobre a autenticidade e a construção das relações de ambos, baseadas nas suas personas online, podem ser levantadas. Neste filme, Hoshi escolhe uma identidade no gênero masculino para se proteger do assédio online, descrito pela personagem como algo comum quando descobrem se tratar de uma mulher por trás da tela. danah boyd, socióloga estadunidense, esclarece que essas dinâmicas refletem e amplificam as complexidades que já existem nas relações no offline, principalmente ligadas ao gênero.

    A partir dos estudos de Judith Butler, filósofa estadunidense pós-estruturalista, podemos compreender que esta vulnerabilidade à qual as mulheres são expostas reforça regimes de poder, onde atributos de gênero são utilizados para manter opressões e violências contra mulheres. Com isso, o espaço disponível no fórum é um local onde Hoshi pode experimentar sua identidade de maneira que a autenticidade passa de um conceito absoluto para que a personagem possa se tornar visível no ambiente virtual.

    Imagem: captura do filme

    E para confirmar que ambos eram “pessoas reais”, uma viagem de trem que Haru realiza a negócios foi o momento encontrado para um breve encontro. Ambos seguravam uma câmera, gravando enquanto acenavam para o outro com um lenço. Haru de dentro do trem e Hoshi em um ponto específico da estrada no lado de fora. Ao saber que Haru estava conversando com sua irmã, que se apresentava como pseudônimo Rose, Hoshi para de se comunicar com ele por um tempo, dando-se conta aos poucos de que as interações que tinham acabavam lhe servindo de apoio emocional. O reencontro, agora em carne e osso, acontece em uma plataforma na estação de Tóquio, onde Mitsue e Noboru finalmente materializam a existência um do outro.

    Haru (1996) é um filme que demonstra a complexidade das identidades e suas construções, e como as conexões humanas desenvolvidas nas plataformas digitais podem ser profundas e significativas para além dos pseudônimos escolhidos. É pela jornada vivida por Haru e Hoshi que compreendemos a autenticidade dos sentimentos compartilhados, de maneira que a busca de conexões genuínas transcendem o espaço, o tempo e as tecnologias.

    Por: Natalia Lima Amaral

    Serviço:

    Título Original: ハル
    Onde Assistir: Mubi
    Duração: 1h 58m (118min)
    Classificação Indicativa:
    Classificação da autora: Livre
    Gênero: Romance/Drama

    Referências
    BOYD, danah. It’s Complicated: The Social Lives of Networked Teens. New Haven: Yale University Press, 2014.
    BUTLER, Judith. Vulnerabilidad corporal, coalición y la política de la calle. Nómades, Bogotá, n. 46, p. 13-29, jun. 2017.
    ERIKSON, Erik H. Identity: Youth and Crisis. New York: Norton, 1968.
    TURKLE, Sherry. Alone Together: Why We Expect More from Technology and Less from Each Other. New York: Basic Books, 2011.

  • A retórica do ódio como projeto político

    O caso Salabert vs. Ferreira e os limites da liberdade de expressão no Brasil

    Um grupo de aproximadamente 15 a 20 pessoas, majoritariamente mulheres, posa em frente ao Congresso Nacional do Brasil sob um céu nublado. Elas seguram uma grande bandeira trans horizontalmente na altura do peito e dos braços estendidos, enquanto outra parte da bandeira se estende no chão à frente delas, com símbolos que parecem ser cruzes ou pássaros pretos sobre as faixas rosa, azul e branca. O prédio do Congresso, com suas duas torres e a cúpula do Senado, é visível ao fundo.
    Um grito de visibilidade e resistência! Pessoas trans e aliadas levam suas vozes e a bandeira da comunidade para o Congresso Nacional, reafirmando a luta por direitos e respeito. (Foto: Mídia Ninja).

    A recente deliberação do Superior Tribunal de Justiça (STJ), que manteve a condenação do deputado federal Nikolas Ferreira por danos morais contra a deputada Duda Salabert, no dia tal, suscita uma análise aprofundada sobre a relação entre identidade de gênero, discurso de ódio e os contornos da liberdade de expressão no ordenamento jurídico brasileiro. O episódio evidencia a persistência da transfobia institucional e a crescente tensão em torno da representatividade de minorias em espaços de poder.

    A decisão judicial consolida um importante precedente, e vai de encontro com as recentes resoluções do STF sobre o Marco Civil da Internet, e também sobre a liberdade de expressão, que não constitui um direito absoluto e não pode ser invocada para legitimar práticas discriminatórias que atentem contra a dignidade. Ao considerar a recusa em reconhecer a identidade de gênero da parlamentar como um ato ilícito, o STJ alinha-se à jurisprudência que equiparou a transfobia ao crime de racismo. Esse entendimento reforça um marco civilizatório fundamental, no qual o respeito à identidade de indivíduos transgênero é tratado como uma obrigação tanto do Estado quanto da sociedade no geral. 

    O caso extrapola o âmbito individual de crenças pessoais, justamente para simbolizar um conflito sociopolítico mais amplo, que estaria se opondo à um projeto de sociedade inclusivo e plural para admitir uma agenda que instrumentaliza a intolerância, a covardia, a falta de debate e, principalmente, a impunidade. A presença de parlamentares trans no Legislativo representa uma ruptura significativa com a hegemonia cisheteronormativa histórica na política brasileira, o que preocupa a bancada evangélica e principalmente os conservadores que se apresentam hostis e somente se manifestam para cometer violências políticas, principalmente quando se trata de gênero.

    Uma mulher de cabelos castanhos longos e ondulados, usando maquiagem nos olhos e batom rosa-choque, está olhando diretamente para a câmera. Ela veste uma camisa branca de botões com uma textura sutil e tem uma expressão séria, mas calma. As mãos estão fora do quadro, mas a pose sugere que estão apoiadas na cintura. O fundo está ligeiramente desfocado, mostrando edifícios urbanos com arquitetura de estilo antigo sob luz natural.
    Natural de Belo Horizonte, Duda Salabert Rosa é a primeira trans eleita do Congresso Nacional. Duda foi a mais votada de Minas, com 208.332 votos.

    Sob a ótica dos estudos de gênero, mais especificamente a partir das contribuições de Judith Butler, entendemos que a linguagem é performativa, ou seja, produz efeitos materiais na realidade. O ato de nomear ou de se recusar a nomear corretamente um indivíduo é uma ferramenta de poder que pode validar ou invalidar sua existência social. A partir dela, nós só passaríamos a fazer parte do corpo social a partir da aprovação, da identidade apresentada, pela perspectiva do outro. 

    Nesse sentido, o discurso transfóbico opera como um mecanismo de exclusão, visando justamente retirar a legitimidade e a inteligibilidade de corpos dissidentes da esfera pública, para rejeitá-los dentro do corpus social, e consequentemente reprimi-los. Portanto a decisão do STJ não apenas repara um dano individual, mas também sinaliza um compromisso do Judiciário em proteger grupos vulnerabilizados. O desafio constante e impetuoso do nosso Supremo Tribunal é pressionar a aplicação e a continuidade de políticas públicas assim como a disseminação de uma cultura que garanta ambientes seguros para a plena participação de todas as pessoas, consolidando o direito à identidade como um pilar inegociável da democracia brasileira.

    O banheiro inclusivo para mulheres cis

    No cenário político e social do Brasil, a violência contra identidades dissidentes se manifesta em um espectro que vai desde oportunistas no palanque do Congresso Nacional até a porta de um banheiro público. De um lado, temos a condenação definitiva do deputado Nikolas Ferreira por transfobia contra a deputada Duda Salabert, um ato de violência verbal calculado, transformado em espetáculo político, já que o deputado é amplamente conhecido por sua espetacularização do ódio e tentativas de lacração. 

    Do outro lado, em um recente e infeliz incidente em Pernambuco, onde um casal impediu uma mulher cisgênero de usar o banheiro feminino por confundi-la com uma mulher trans. Quando paramos para pensar em ambos, os eventos aparentam ser casos isolados, mas não são, e, embora distintos, são facetas da mesma perigosa doença social da direita “protetora” das crianças. Essa obsessão em policiar os corpos e em impor uma visão restrita e frágil do que significa ser homem ou mulher é sintomática. Vemos exemplos diários do que o ódio causa a esses corpos e identidades. Essa retórica de ódio não existe no vácuo e não nasce do nada: é um discurso oportunista, que supostamente autorizaria a vigilância cotidiana por parte dos ditos cidadãos de bem, revelando uma crise profunda na forma como o gênero é compreendido e performado em nossa sociedade. 

    Um homem jovem, com uma peruca loira desgrenhada na cabeça, está atrás de um microfone em um ambiente que parece ser o plenário da Câmara dos Deputados. Ele veste um terno azul-escuro com camisa branca e gravata preta. Suas mãos estão levantadas, com as palmas voltadas para fora, próximas às orelhas, como se estivesse ajustando a peruca ou fazendo um gesto. Ele tem a boca ligeiramente aberta, como se estivesse falando. O fundo é escuro, com painéis verticais.
    Um lamentável espetáculo de transfobia na Casa Legislativa. A peruca usada por Nikolas durante um discurso não foi ‘liberdade de expressão’, mas sim um ataque à dignidade e existência de pessoas trans no Brasil. (Pablo Valadares/Câmara dos Deputados)

    Podemos analisar a trajetória do deputado mais votado de Minas Gerais como um enorme estudo de caso sobre as maneiras utilizadas para a instrumentalização do preconceito. Seus ataques sistemáticos, que culminaram na condenação noticiada pelo G1, “nunca foram sobre opinião”, declarou Duda Salabert, para quem a decisão seria uma “vitória da comunidade LGBTQIA+”. Não é à toa que Nikolas fala o que fala, especialmente quando usa a tribuna para negar a identidade de Salabert ou quando aparece de forma ridicularizante com uma peruca no Dia da Mulher. Ele executa um roteiro político muito claro, que é o de desumanizar minorias para solidificar seu capital político junto a uma base reacionária, mesquinha, retrógrada e conservadora. 

    Aqui, a teoria de Judith Butler nos ajuda a ir além do óbvio, ela distingue “performance” de “performatividade”. A atuação de Ferreira com a peruca é uma performance consciente, teatral, destinada a ridicularizar. Contudo, o alvo real de seu ataque é a performatividade de gênero de Duda Salabert e de todas as pessoas trans. A performatividade, segundo Butler, não é um ato isolado, mas uma série de repetições e citações de normas sociais que, ao longo do tempo, constroem e solidificam a identidade de gênero que o corpo quer manifestar, independentemente do gênero designado originalmente pela tão acusada/ativada biologia que os conservadores gostam de acionar sempre como argumento. 

    O ataque de Ferreira é uma tentativa violenta de interromper essa performatividade, de declará-la inválida e ilegítima e é aqui que o incidente de Pernambuco se conecta de forma assustadora. O casal que barrou a personal trainer do banheiro agiu como uma espécie informal de vigilantes do gênero, executando na prática a vigilância que o discurso de Ferreira legitima. Isso expõe o verdadeiro alvo do pânico moral, ou seja, qualquer um que escape à norma como a personal trainer que, mesmo sendo uma mulher cisgênero, foi punida por não se conformar à imagem estereotipada de feminilidade que o casal usou como base para exclui-lá, utilizando a imagem de seu corpo, mais musculoso, para torná-la “ilegível” dentro da frágil cartilha de gênero que eles defendiam.

    Judith Butler chama isso de operar dentro da “matriz de inteligibilidade”. A sociedade constrói uma matriz que define quais corpos e identidades são “reais” e “naturais” (inteligíveis) e quais são “falsos” ou “ameaçadores” (ininteligíveis). O casal, ao confrontar a mulher, estava policiando as fronteiras dessa matriz, e ambos se sentiram confortáveis e no direito de interrogar e, posteriormente, barrar um corpo que para eles não se encaixava. A defesa absurda de que “tentaram ajudar” e que foram interpretados de forma errada revela a naturalização dessa violência, já que na visão deles, estavam “ajudando” a manter a “ordem natural” do banheiro, protegendo-o de um corpo que julgaram não pertencer àquele espaço. 

    A transfobia é a ponta de um iceberg dentro de um sistema de controle muito mais amplo. O pânico em torno do “banheiro trans” nunca foi sobre segurança, e sim sobre o controle e a manutenção de normas de gênero rígidas e excludentes. Esses casos provam que, quando abrimos a porta para policiar corpos, ninguém está seguro, pois os critérios para ser um “homem de verdade” ou uma “mulher de verdade” são arbitrários e podem ser usados contra qualquer um. Nikolas Ferreira e outros políticos que atacam pessoas trans estão reforçando as normas mais violentas e excludentes, dando permissão para que todos se tornem fiscais da identidade alheia. 

    A linha que conecta o discurso de ódio na Câmara dos Deputados ao confronto no banheiro de um shopping é direta e causal. Não podemos lutar pela causa trans sem lutar contra a tirania da norma. Os direitos de cada indivíduo à autodeterminação só existem sem a existência de uma necessidade de se conformar a um roteiro pré-aprovado de feminilidade ou masculinidade. A condenação de Ferreira é uma vitória legal crucial, mas a batalha cultural e social é muito mais profunda, e exige que desafiemos todos a não terem medo do gênero, para que possamos expandir nossa capacidade de reconhecimento, a acolher a diversidade de corpos e expressões, e a entender que a verdadeira ameaça não é quem pode entrar em qual banheiro.

    Por Sophia Helena Ribeiro

  • Gênero e HQ’s: Invincible como analogia ao patriarcado

    Uma imagem promocional vibrante e dramática da série animada "Invincible". No primeiro plano, o protagonista Invincible (Mark Grayson) aparece em seu traje azul e amarelo, visivelmente ferido com rasgos e sangue, ajoelhado em um cenário de destruição e escombros que estão em chamas, com uma cidade em ruínas ao fundo. Seu rosto expressa dor e fúria, com o punho cerrado e os dentes cerrados. Abaixo dele, refletido em uma poça de sangue ou líquido escuro no chão, está a imagem de seu pai, Omni-Man (Nolan Grayson), em seu traje branco e vermelho, deitado e aparentemente sem vida ou gravemente ferido, cercado por uma grande quantidade de sangue. O título "INVINCIBLE" em letras amarelas estilizadas com contorno preto e detalhes em azul domina a parte superior da imagem.
    A arte de ‘Invincible’ captura a essência brutal de seus confrontos. A imagem do pai aparece refletida em uma poça de sangue ao invés da imagem do filho.

    Invincible, da Amazon Prime Video, é uma animação no estilo dos clássicos super-heróis, inclusive a obra é baseada nos quadrinhos de mesmo nome. Acompanhamos a história de Mark Grayson, sua mãe (Debbie) e seu pai (Nolan), durante a adolescência de Mark, quando ele começa a manifestar seus poderes, advindos da genética “alienígena” do pai. Quando pensamos para além dos personagens principais da trama, podemos encontrar uma subversão de diversos clichês de gênero, como os relacionados ao papel das mulheres dentro de histórias de heróis. Ainda assim, apesar dos acertos importantes, a obra tropeça em estereótipos, no tratamento e criação de suas personagens femininas todo o tempo nos quadrinhos, e vemos um movimento contrário dentro da animação. Mesmo com essas diferenças, esta crítica se refere somente à adaptação animada da série de quadrinhos, e não ao material original (HQs).

    A série, traduzida como “Invencível” no Brasil, critica o patriarcado ao explorar os efeitos nocivos do poder sem controle, especialmente através do personagem Omni-Man, interpretado por Nolan Grayson, o pai de Mark (o Invincible), que performa um análogo do Superman encarnando a masculinidade tóxica e a influência destrutiva das estruturas patriarcais. A série desafia as narrativas tradicionais de super-heróis justamente ao retratar as consequências devastadoras das ações de uma figura poderosa, tanto em escala pessoal quanto global, e ao destacar a vulnerabilidade escondida sob uma fachada de invencibilidade

    A natureza corrosiva do poder sem controle

    Omni-Man, apesar de sua fachada heroica, revela uma natureza brutal e destrutiva, alimentada por uma ideologia patriarcal (viltrumita), que valoriza o domínio e o controle dos outros planetas. As ações de Omni-Man, particularmente o ataque ao seu filho e a devastação do planeta, são a prova das consequências do poder sem controle. Essa tentativa de subjugar a humanidade, justificada por sua força e longevidade, evidencia o abuso de autoridade típico de um sistema patriarcal.

    Quando a obra subverte essa narrativa típica de super-heróis, ao retratar o lado sombrio do heroísmo e o potencial que aqueles com grande poder têm para causar danos imensos, questiona a ideia de uma dicotomia clara entre heróis e vilões, sugerindo que mesmo aqueles destinados a proteger podem ser movidos por forças destrutivas e ter interesse maquiavélicos. Quando Omni-Man personifica a masculinidade tóxica, priorizando força, domínio e repressão emocional em detrimento da empatia e da vulnerabilidade, muitos glorificam sua existência e o veem como o exemplo a ser seguido, inclusive Mark deseja ser Invencível por aspirar ser como o seu pai. Porém essa incapacidade de se conectar com os outros em um nível emocional e suas explosões violentas destacam os efeitos prejudiciais dos papéis de gênero rígidos e da supressão das emoções nos homens, o que vai para além da ficção, já que é um problema da vida real. Só depois do ataque e posterior abandono de seu pai, Mark entende os perigos do discurso viltrumita que ele promove e defende.

    Apesar de seu exterior aparentemente invencível, Omni-Man é, em última análise, vulnerável às suas próprias falhas e às consequências de suas ações. Isso enfatiza o custo humano das estruturas de poder patriarcais, já que ele perde sua família e todo o legado que construiu enquanto defensor da Terra. Ou seja, mesmo aqueles que parecem estar no controle são suscetíveis às mesmas forças destrutivas. Omni-Man se vê privado de retornar à família, por quem tem apego, por medo da reação do exército viltrumita ao descobrir que ele teria falhado em sua missão de conquistar a Terra, e abandonado seu posto como “conquistador”. Isso desafia o retrato tradicional da masculinidade, sugerindo que a verdadeira força não reside no domínio e na agressão, mas na empatia, na vulnerabilidade e na conexão genuína, que foi o que Nolan Grayson conquistou ao se abrir a um relacionamento com Debbie, e ao se tornar pai de Mark.

    A série incentiva os espectadores (que estiverem abertos) a questionar os aspectos nocivos da masculinidade patriarcal, a abraçar uma compreensão mais complexa do que significa essa performatividade masculina e a usar o gênero de super-heróis como um veículo para criticar o patriarcado, expondo as consequências destrutivas do poder sem controle, da masculinidade tóxica e da supressão da vulnerabilidade.

    As mulheres invencíveis

    Uma imagem da personagem Atom Eve da série animada "Invincible". Ela está flutuando no ar contra um céu azul com nuvens brancas, vestindo seu uniforme de super-heroína rosa com uma capa e o símbolo de uma estrela dentro de um círculo no peito. Seus longos cabelos ruivos esvoaçam e ela tem uma expressão séria no rosto. De suas mãos estendidas, emitem explosões de energia rosa brilhante e irregular.
    Atom Eve: A heroína da série Invincible

    Personagens como Eve Wilkins e Debbie Grayson têm papel central na trama e não são reduzidas a estereótipos de “namorada do herói” ou “mãe coitadinha”. Atom Eve (Eve Wilkins), especialmente, é uma jovem super-heroína que, como a maior parte delas, não recorre ao tradicional combate físico, buscando soluções mais éticas e sociais para os problemas do mundo. Ela é uma das personagens mais fortes do universo da série, tendo acesso a poderes em escalas atômicas, conseguindo alterar e manusear partículas da forma que quiser, a partir do seu conhecimento avançado em química. Seu uniforme é rosa, tem um símbolo de vênus, apropriado da alquimia, que representa as mulheres, e em volta dele vemos círculos de nêutrons e prótons, simbolizando seus poderes químicos. 

    O problema? O roteiro faz Eve parecer incapaz de se proteger e incapaz de lutar sem Mark ou os outros Guardiões do Globo (nome da associação de super herois dentro da série). Seu arco de abandonar a equipe e atuar como uma espécie de “heroína social” é um sopro de ar fresco, já que a vemos em uma jornada de transformação e de compreensão sobre si mesma. 

    Eve é uma das personagens que tem a esfera psicológica mais bem desenvolvida. O tempo todo a vemos na dualidade de ser super poderosa mas falhar em atividades cotidianas; vemos o quanto ela é odiada pelo pai, e o quanto nunca se sente boa o suficiente, apesar de suas tentativas. Vemos Eve se desdobrando pelo respeito e reconhecimento dos outros, e, mesmo tendo um monte de traumas não resolvidos, ela é uma das únicas personagens que parecem se desvencilhar dessa narrativa de coadjuvante e existir separadamente do protagonista, tendo um arco de desenvolvimento muito bem demarcado e pensado, após o começo tenebroso de sua construção enquanto personagem. 

    A incapacidade de Eve de controlar plenamente seus poderes é justificada no roteiro como uma consequência de traumas passados. Essa limitação, que a impede de reorganizar a matéria viva, funciona como um mecanismo narrativo para que ela não se torne mais poderosa que o protagonista. Contudo, essa barreira é convenientemente superada na terceira temporada (spoiler!), após sua suposta morte e ressurreição. O problema…

    Nos quadrinhos, toda vez que Eve renasce, ela utiliza seus poderes para aumentar o próprio corpo, principalmente seu busto, tronco e nádegas, o que agradou imensa parte masculina do fandom, e isso foi adaptado para a série também. Apesar desses erros pontuais de adaptação (tem coisa que é melhor não aparecer), com o desenrolar da série entendemos muitas das camadas de Eve, que ganha, pelaAmazon Prime, uma obra própria (Atom Eve), desenvolve inúmeros aspectos fora da série Invincible e humaniza profundamente a personagem.


    Já Amber, a ex-namorada de Mark antes de ele se relacionar com Eve, embora não seja uma personagem com poderes, é retratada como inteligente, perceptiva e crítica. Ela não está disposta a ser uma coadjuvante na vida do super-herói e exige honestidade e respeito, o que desafia a narrativa clássica da “garota que espera”, passiva e dependente. Isso vai na contramão da história de Debbie, mãe de Mark. Todos aguardavam grandes feitos dessa personagem, e ela foi ainda mais aplaudida por ter sido adaptada como uma mulher negra, diferentemente dos quadrinhos. 

    Infelizmente, o roteiro não deu espaço para Amber evoluir, transformando-a em um mero degrau que Mark teria que atravessar durante sua ascensão como super-herói. Essa escolha retira a profundidade da personagem e cria uma atmosfera entediante ao seu redor, o que infelizmente levou parte do fandom a detestá-la, abrindo precedentes para ofensas misóginas e, principalmente, racistas.

    Essa construção de personagem ecoa diretamente as teorias da feminista Teresa de Lauretis. Em seus estudos sobre as “tecnologias de gênero”, De Lauretis argumenta que o cinema e outras narrativas frequentemente posicionam a mulher não como um sujeito com sua própria jornada, mas como um “obstáculo” ou um “espaço”, até mesmo parte da paisagem, que o herói masculino precisa atravessar para cumprir seu destino. Amber se torna exatamente isso, o território para o desenvolvimento de Mark. Ao ser reduzida a uma função na jornada dele, sua personagem perde agência própria e se torna alvo fácil para a frustração do público.

    É nesse ponto que uma personagem, inicialmente criada para introduzir amor e afeto na vida de Mark, se desvirtua e se transforma em um palanque para discursos de ódio. A reação do fandom transcende a mera crítica a um roteiro fraco e revela uma adesão afetiva a uma estrutura narrativa que desumaniza a personagem feminina.

    Originalmente concebida para evitar que Mark se tornasse uma força destrutiva e se considerasse superior à raça humana (um ponto que, por si só, já denota falhas no roteiro e merece críticas), a personagem acaba por se converter em um catalisador para contínuos debates sobre representatividade em séries e, lamentavelmente, para discursos racistas.

    Diante desse cenário, as seguintes perguntas se tornam inevitáveis e urgentes:

    Como o fascismo se alimenta de afetos distorcidos e instrumentaliza a emoção para suas próprias agendas? 

    De que maneira o ódio é tão facilmente direcionado a uma personagem que ousa não cumprir o papel de coadjuvante silenciosa, desafiando expectativas? 

    Por que o feminismo, em sua busca por dar protagonismo a essas personagens e a grupos marginalizados, é tão temido por regimes autoritários? 

    Qual o papel crucial da linguagem e da memória que utilizamos para construir (ou destruir) essas figuras na incessante disputa por narrativas mais justas e equitativas?

    Fascismo e patriarcado

    Conforme aponta Cristine Krüger Kapustan na recente newsletter do Instituto Racionalidades, a política contemporânea tem trocado a razão crítica pela adesão emocional a discursos autoritários. Esse fenômeno, ligado ao patriarcado e ao neofascismo, opera de forma sutil: em vez de fardas e marchas, ele se manifesta nas redes sociais, em piadas e na normalização da violência, usando a mentira como estratégia para manipular medos e inseguranças. A adesão a essa “onda conservadora” não é, portanto, racional, mas afetiva.

    Nesse cenário, o feminismo se posiciona como um antagonista radical. Enquanto o autoritarismo se baseia na imposição e no silenciamento, o feminismo propõe uma prática política de cuidado, escuta e reconstrução de laços. É justamente por desafiar essa cultura do abandono que o movimento é tão combatido por quem defende o retrocesso.

    Omni-Man, o pai de Mark, encarna uma forma extrema de masculinidade tóxica: autoritária, violenta, sem empatia, com um discurso totalmente eugenista. E a crítica ao personagem envolve justamente essas estruturas patriarcais e colonizadoras. Acredito que esse é um dos melhores e piores pontos da série. Assim como em The Boys, também da Amazon Prime, muito da crítica se perde dentro do fandom, que começa a glorificar as atitudes grosseiramente exageradas e categoricamente caricatas dos personagens. 

    Em The Boys, Homelander se torna, para a visão de alguns homens, uma espécie de sábio líder, e parte dos fãs da série espelha suas atitudes e psicologia, como o “Complexo de Deus” que ele possui e suas tendências abertamente nazistas também. A crítica é escancarada, não vemos demonstrações sutis, o que ajuda a traçar alguns paralelos entre esses dois fandoms, já que uma parte do público que assistiu a The Boys pode se interessar pelo conteúdo de Invincible e vise-versa. 

    A imagem mostra o personagem Capitão Pátria (Homelander) da série "The Boys", interpretado por Antony Starr, em um momento de aparente triunfo ou aclamação. Ele está em pé, no que parece ser um estádio ou arena, com os braços estendidos lateralmente e ligeiramente para cima, em uma pose clássica de super-herói que abraça a multidão. Ele veste seu uniforme azul-escuro texturizado com detalhes em vermelho e dourado, incluindo uma capa vermelha que esvoaça por trás e um cinto dourado com um emblema de águia. Seu cabelo loiro está penteado para trás, e sua expressão facial é séria e confiante, olhando ligeiramente para cima e para a direita. Confetes coloridos, predominantemente vermelhos, azuis e brancos, caem ao redor dele, reforçando a atmosfera de celebração. O fundo está desfocado, mas é possível discernir as luzes de um estádio e a silhueta do público, sugerindo um evento grandioso.
    A complexidade do Capitão Pátria em ‘The Boys’ é inegável. O símbolo da América (ou do que ela se tornou.).

    Essa desconstrução da figura do “pai heróico” serve como um comentário relevante sobre a forma como a masculinidade tradicional pode se tornar perigosa e destrutiva, já que o Omni-Man esteve ausente durante grande parte da infância de Mark, e só começou a se interessar em cuidar do filho durante a fase em que o protagonista começa a desenvolver seus poderes viltrumitas. Depois que Nolan Grayson começa a se afeiçoar por sua família terráquea, ele começa a questionar e se opor ao modelo de conquista interplanetária que os Viltrumitas são treinados para fazer, o que só acontece muito tardiamente na série e só reforça o caráter coletivo de lavagem cerebral que o patriarcado efetua. 

    Nolan só reproduz os padrões de masculinidade tóxica, nunca refletindo o quanto a necessidade de utilização dessa ultraviolência e da subjugação de outras espécies é problemática. Isso é ainda mais emblemático quando, em um acesso de fúria, Omni-Man comete assassinatos em massa para utilizar de exemplo com Mark, demonstrando a “inferioridade” da raça humana, e o quanto o sangue viltrumita deles era superior e deveria ser celebrado/adorado. Mark se recusa a aceitar essa narrativa, e decide se opor à possível invasão viltrumita, que iria ocorrer a partir da conquista daquele planeta por Nolan. Com isso, o pai começa a esmurrar o filho, em uma tentativa de fazê-lo se dobrar às suas vontades a partir da violência. 

    Durante a cena em que espanca Mark, ele faz um monólogo sobre a longevidade, vitalidade e necessidade de expansão viltrumita:

    “Por que você me fez fazer isso? Você está lutando para ver todos ao seu redor morrerem! Pense bem, Mark! Você sobreviverá a todos os seres frágeis e insignificantes deste planeta. Você viverá para ver este mundo virar pó e ser levado pelos ares! Todos e tudo o que você conhece desaparecerá! O que você terá depois de 500 anos?”

    “Você pai, eu teria você.”

    Após esse momento, um verdadeiro divisor de águas na obra, vemos Mark fazendo de tudo para não se assemelhar à imagem do pai e para escapar do destino – quase inescapável – de se tornar o guerreiro exemplar viltrumita como seu pai idealizou. Essa realidade é a única em que Mark foge do cruel final da Terra conquistada e explorada pela nação alienígena viltrumita, já que existem realidades paralelas em que pai e filho se juntam para dividir e conquistar.

    Onde Invincible tropeça

    O que salta aos olhos é o subaproveitamento das personagens femininas, já que apesar do destaque de Eve, muitas personagens femininas acabam sendo mal exploradas ou definidas principalmente a partir das suas interações com outros homens. A própria Amber acaba perdendo profundidade e atuação direta à medida que a série avança, ou seja, a narrativa ainda gira, majoritariamente, em torno de conflitos masculinos. Mesmo acertando algumas vezes na inclusão e na apresentação de representatividade racial e sexual, ainda é bastante centrada em protagonistas brancos e heterossexuais. Mulheres negras, por exemplo, aparecem pouco e quase sempre em papéis secundários, como Amber, que só existe para namorar temporariamente Mark, e para fazê-lo refletir sobre o quanto sua mãe teve uma maternidade sozinha. 

    Debbie, por sua vez, foi abandonada durante todo o puerpério para que Nolan pudesse cuidar de ameaças universais, ou seja, os problemas dela sempre ficavam em segundo plano, já que ele tinha que assumir o papel de super-herói do mundo, Omni-man, e não de pai. Ela é chamada de “mascote” por Nolan, e tratada como uma espécie de animal de estimação com data de validade. Após sua morte, o plano de Nolan era recomeçar o processo de conquista e integração dos viltrumitas em outro planeta. 

    A imagem é uma cena animada de "Invincible" que mostra dois personagens voando em uma cidade em ruínas. No primeiro plano e de costas para o observador, está o protagonista Invincible (Mark Grayson) em seu uniforme azul-escuro com detalhes pretos. Ele olha para cima, para o outro personagem. À frente e acima dele, flutuando no ar, está o personagem Conquista (em sua forma humana, com um braço visivelmente modificado e metálico). Ele veste um uniforme branco e cinza, com um cinto e detalhes no peito. Ele parece mais velho, com cabelo e barba grisalhos, e uma expressão séria. O cenário ao fundo é uma cidade devastada, com muitos edifícios destruídos e escombros espalhados. O céu é claro, indicando que a cena ocorre durante o dia. Eles protagonizam um confronto de grande importância para a série.

    Conquista e Mark se enfrentam em um confronto violento que definirá o futuro da humanidade.

    A série é extremamente violenta, o que é esperado de uma série de animação com super-heróis e super poderes, mas em certos momentos a violência contra personagens femininas parece gratuita ou serve mais para reforçar o trauma de personagens masculinos do que como comentário ou crítica social. Eve fica completamente desfigurada depois de lutar com Conquista, durante a terceira temporada, e eu acredito que não seria necessário mostrá-la dessa forma. 

    Outra super-heroína que tem o corpo o tempo todo destruído é a Dupli-Kate, personagem amplamente odiada pelo fandom por ser uma mulher adúltera e traíra. Ela começa a ser odiada quando Rex trai Atom Eve com ela, porém quando ela trai Rex com o Imortal, seu comportamento é amplamente repreendido por todos, mas Rex é perdoado por seus atos após um arco de redenção – e é até ovacionado pelos espectadores após seu sacrifício final na terceira temporada. 

    Essa escolha pode acabar reforçando a ideia de que homens podem errar e recomeçar, mas que mulheres não têm o mesmo direito, e que o sofrimento das mulheres é apenas um pano de fundo para o crescimento dos homens, principalmente após ataques violentos desferidos contra elas. Ver Eve totalmente machucada fez com que Mark tivesse mais vontade de lutar contra Conquista, e a morte de Dupli-Kate se tornou pano de fundo para a vingança que seu irmão começou a planejar. 

    O pior de todos os exemplos é Anissa, uma das guerreiras viltrumitas, que estupra Mark, dando à luz seu filho de nome parecido, Marky. Ela o derrota em um duelo, comete um crime hediondo, não se arrepende, dá à luz um filho de Mark e após isso renuncia aos seus hábitos viltrumitas e vive uma vida normal na Terra. Que lição aprendemos com isso? Qual a necessidade desse plot ser desenvolvido e adaptado para a série de animação?

    Invincible está um passo à frente na desconstrução de arquétipos masculinos do gênero de super-heróis e oferece momentos significativos de protagonismo feminino. No entanto, peca terrivelmente em inúmeras subtramas, que ainda estão longe de uma narrativa verdadeiramente acolhedora e que explicitamente defendam os direitos das mulheres, principalmente quando pensamos no fato de que os quadrinhos estão muito longe dessa versão recriada pela Amazon Prime

    Falta dar às mulheres mais espaço e complexidade para existirem além dos conflitos masculinos. Falta pensar em boas construções de narrativas femininas para além da vida do protagonista. Podemos reconhecer o potencial da série e torcer para que, nas próximas temporadas, Invincible se torne não só uma crítica à masculinidade, mas também um espaço mais abrangente e reflexivo que dê conta de criticar tudo aquilo que propõe contrariar dentro do material original.

    Por Sophia Helena Ribeiro

    Título Original: Invincible

    Onde Assistir: Amazon Prime Video 

    Classificação Indicativa: 16 anos (A16)

    Classificação da autora: 18 anos (A18)

    Justificativa: A série retrata violência extrema e linguagem explícita

    Gênero: Animação/Ação

    Baseado em: Série de quadrinhos de mesmo nome.

  • Quem pode falar de crime ambiental em Mariana?

    Uma xilogravura vibrante de J. Borges, intitulada "O Cão no Jardim". A imagem apresenta um cachorro estilizado, predominantemente preto com padrões de linhas finas que criam textura, sentado em meio a árvores também estilizadas. Duas árvores maiores, com folhagens verdes escuras pontilhadas, ladeiam o cão, enquanto uma árvore menor com folhagem similar está à direita. Elementos amarelos brilhantes, como o tronco de uma árvore e as pernas dianteira e traseira do cachorro, contrastam com o preto e o verde. A obra é contornada por uma borda decorativa com linhas diagonais brancas sobre um fundo preto. Na parte inferior, o título "O CÃO NO JARDIM J. BORGES" está escrito em letras maiúsculas brancas.
    Xilogravura G – O Cão no Jardim – de J. Borges

    Em Mariana, a história se repete como farsa. Passear pela cidade é respirar a grandiosidade de um passado barroco, com suas igrejas folheadas a ouro e suas ladeiras que contam histórias de arte, fé e, principalmente, de exploração. Hoje, um novo brilho se mistura ao dourado das igrejas: o brilho acetinado das placas de patrocínio. “Esta obra de restauro foi um presente da Vale”. “A recuperação deste patrimônio foi possível graças à Fundação Renova”. “Patrocínio Cultural: Samarco”.

    A cultura com crachá, a arte carimbada pelas mesmas corporações cujas atividades redefiniram a paisagem e a vida da região, é bem-vinda, e até mesmo celebrada. É a reparação que se pode ver, fotografar e inaugurar com grandes festas em salões vazios. É o perdão comprado em suaves prestações de marketing cultural, em que a mesma mão que assina o cheque para restaurar um anjo barroco de Aleijadinho é a que permitiu que uma onda de rejeitos soterrasse distritos, vidas e o futuro do Rio Doce.

    Essa intervenção é nobre. É a empresa “devolvendo à comunidade” (devolvendo o quê? Ninguém fala ao certo). A poeira tóxica da mineração assenta, não somente nos móveis das casas, e tampouco nas ruas que passamos, mas nos pulmões de quem respira essa poeira tóxica. E quando este pó assenta, em seu lugar surge o pó de ouro da cultura restaurada. Ninguém questiona a legitimidade dessa troca. Ninguém vê como um problema a logo da mineradora estampada na fachada de uma igreja do século XVIII. Isso não é uma intervenção agressiva. Isso é progresso, é responsabilidade social. Tudo em nome do progresso em primeiro lugar, e devolver para a comunidade? Só quando for extremamente necessário.

    Mas, ai do artista que estende um simples barbante numa praça PÚBLICA para expor suas xilogravuras. Essa arte de resistência, que há séculos ouve a voz do povo com suas folhas de papel impressas na força do braço e do talento. Esse, sim, é o verdadeiro problema!!

    O varal de xilogravuras do artista Bruno Miné, com suas crônicas visuais, é uma afronta. É uma “intervenção indevida”, e agride o espaço público. Polui visualmente o cenário histórico que o dinheiro da mineração tão generosamente ajuda a “preservar” — e descaracterizar, vide a última reforma da Praça Gomes Freire bancada pela Renova. O varal não tem licença, não tem edital, não tem placa de patrocínio. Seu único “carimbo” é o da autenticidade. Varal esse que expõe patrimônio imaterial, forma escolhida de exposição que vai de acordo com a estética e a expressão artística de Bruno.

    E aí reside a suprema ironia de Mariana e também de Ouro Preto. A intervenção que destrói, que mata, que polui um ecossistema inteiro, gera o lucro que depois financia uma cultura “limpa”, oficial e bem-comportada, e essa cultura, por sua vez, serve para legitimar as mesmas empresas e para apagar a memória do crime. É um ciclo perfeito de autolavagem, (lê-se GreenWashing), em que a arte se torna cúmplice do silêncio.

    Enquanto isso, a arte que grita, que lembra, que resiste no varal, que busca sobreviver, essa é a que precisa ser fiscalizada e contida. Ela é perigosa. Não por ferir a estética da praça, mas por ferir a narrativa conveniente de que tudo foi reparado, de que a vida segue em seu brilho patrocinado, a vida em que um fiscal dá carteirada em artistas só pelo prazer de diminuí-lo, e (supostamente) estaria tudo bem.

    No fim, entre o ouro das igrejas e a lama dos rios, a questão é sobre qual patrimônio se quer preservar. O que pode ser comprado e restaurado para aplacar a consciência, ou o patrimônio imaterial da memória e da verdade? Em Mariana, um varal de xilogravuras é visto como um problema porque, ao contrário das intervenções corporativas, ele não decora a paisagem, ele a revela. E em terras onde a memória foi afogada, um simples varal de arte é um ato de teimosa ressurreição.

    A ironia é um veneno que escorre lento pelas ruas da cidade, um gosto amargo que o povo de Mariana conhece bem.

    No dia 14 de Junho, o artista urbano Bruno Miné, de 30 anos, fez a denúncia em suas redes sociais após ter sido abordado por um fiscal à paisana da Prefeitura de Mariana, no Jardim (no centro histórico), por supostamente ter praticado “crime ambiental” ao montar um varal de xilogravuras na praça pública. A situação gerou polêmica entre os moradores da cidade, vitimada por uma das maiores crime-tragédias ambientais do Brasil – o rompimento da Barragem de Fundão.

    Enquanto a burocracia municipal se ocupa em proteger a paisagem de uma inofensiva intervenção artística, a verdadeira ferida, a chaga aberta que nunca cicatriza, continua a ser ignorada. O verdadeiro crime ambiental, aquele que soterrou territórios inteiros, matou 20 pessoas e envenenou o Rio Doce com uma lama tóxica e eterna, esse parece não chocar tanto as autoridades.

    O rompimento da barragem de Fundão, da Samarco, uma joint-venture da Vale e da BHP, foi uma tragédia anunciada. Um “acidente” que, na verdade, foi o resultado de uma negligência criminosa, da ganância que coloca o lucro acima da vida e do meio ambiente, ou seja, um desastre-crime. A lama da mineração, essa sim, desfigurou o patrimônio histórico e cultural de uma região inteira, um patrimônio que não se resume ao físico tangível, mas sim ao que pulsa na vida das pessoas, nos sentimentos dela, na memória, e no rio que era o sustento e alma de tantas comunidades.

    No Brasil, a Lei de Crimes Ambientais existe somente no papel, para punir quem destrói a natureza. Prevê multas, até mesmo reclusão para os responsáveis, mas na realidade, assim como a lama da Vale, ela é turva e movediça. Dez anos se passaram desde o rompimento, e a impunidade ainda reina, acordos milionários como o da repactuação são firmados, mas a reparação integral dos danos, a recuperação do meio ambiente e a punição dos verdadeiros culpados parecem uma miragem nesse deserto que, a primeira vista, parece um oásis.

    A Vale, gigante da mineração, tem um histórico de desastres ambientais que vai de Mariana a Brumadinho. E a cada nova tragédia, a mesma ladainha: notas de pesar, promessas de ajuda, e uma máquina de publicidade que trabalha para limpar a imagem da empresa, enquanto a lama continua a contaminar tudo o que toca. Assine o PID, tá acabando o tempo, hein! Última oportunidade, quem não assinou bota o dedo aqui, que já vai fechar.

    É por isso que a cena do artista Bruno Miné sendo constrangido em Mariana é mais do que uma simples notícia, é um cruel retrato de um país que inverte valores, que se preocupa com o “cisco no olho enquanto a trave lhe cega”. Um país onde a arte que questiona é tratada como crime, enquanto o crime que destrói é tratado como negócio.

    O ocorrido anda, fala, e cheira a racismo. A clara censura a Bruno, um artista pardo, deixa o amargo gosto do não pertencimento da arte com o espaço que deveria integrar. O Jardim só poderia ser palco para artes domesticadas, artes aprovadas e licenciadas, principalmente se vierem com um selo da Vale. Não tem espaço para um artista independente apresentar seu estilo. Só a branquitude cabe no Jardim. E com isso, o apagamento histórico da cultura negra e das diferentes identidades das regiões brasileiras, que são plurais em sua natureza, continua reafirmando as injustiças sociais.

    Uma imagem contendo um poema em duas colunas. A coluna da esquerda apresenta o poema original em francês, enquanto a coluna da direita exibe sua tradução para o português. O poema, que começa com "Écoutez, monde blanc" e "Escuta, mundo branco", fala sobre temas como história, trabalho forçado e a experiência de pessoas negras, mencionando elementos como o sangue negro, navios negreiros, plantações de algodão e cana-de-açúcar, matadouros de Chicago e o Congo-Oceano.
    – René Depestre, Cap’tain zombi (1967)

    A arte, ao contrário da mineração predatória, não mata, não destrói, não deixa um rastro de contaminação e dor. A arte incomoda, provoca, faz pensar. E talvez seja esse o verdadeiro “crime” do artista de Mariana: o de lembrar, com sua xilogravura, que a maior ameaça ao patrimônio e ao meio ambiente não é a arte que ocupa as praças, mas a ganância que literalmente move montanhas e devasta vidas. E essa, a arte de ignorar um crime, o Brasil parece dominar com uma perfeição assustadora.

    Por Sophia Helena Ribeiro