É preciso lembrar para existir

O que separa o Brasil que patologizava identidades dissidentes do Brasil que hoje abriga a maior parada LGBTQIA+ do mundo? Uma das possíveis respostas está em uma luta que muitas vezes foi silenciada e, se chegou aos livros didáticos nas escolas, chegou em notas de rodapé ou quadros de um quarto de página. Me lembro de quando foram liberadas as aulas presenciais, em um contexto ainda pandêmico, e entrei em uma sala do nono ano do Ensino Fundamental. Os alunos regulares desse período costumam estar entre os 14 e 15 anos, época em que os hormônios estão fervilhando e as primeiras paixões e contatos sexuais começam a acontecer. 

A missão do dia era ministrar uma aula sobre movimentos sociais contemporâneos – como se pudesse condensar todos eles em 50 minutos, mas tinha de fazê-lo de acordo com o planejamento – e quando falei dos movimentos LGBTQIA+ no Brasil fui interceptado com violência por um aluno que bradou que ali não era espaço para viadagem. O ato que interrompeu minha aula é parte da mesma violência que aniquila, simbólica e literalmente, sujeitos dissidentes todos os dias. Olhando para o contexto brasileiro, a partir dessa contradição entre ser o país que mais mata LGBTQIA+ e que também possui a maior parada de orgulho do mundo, a leitura do livro Movimento LGBTI+: uma breve história do século XIX aos nossos dias, do professor e pesquisador Renan Quinalha, revela um caminho possível para entendermos o cenário atual em que tudo parece estar conquistado e solidificado.

Foto aérea de uma multidão massiva na Parada do Orgulho LGBTQIA+ em uma avenida de São Paulo, no Brasil. No centro, uma gigantesca bandeira do arco-íris se estende sobre a rua. As pessoas estão densamente aglomeradas, celebrando, tirando fotos e caminhando em direção ao fundo da imagem.
29ª Parada do Orgulho LGBTQIA+. São Paulo (SP), 21/06/2025. Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil

Dentre as várias histórias possíveis de serem narradas, Quinalha opta por registrar o movimento organizado com prioridade para a dimensão político-organizativa do ativismo, ou o que ele chama de o “movimento”. Portanto, em uma de suas escolhas, o pesquisador começa a análise a partir da segunda metade do XIX, na qual os movimentos passaram a adotar uma ação coletiva, quando se é criado um senso de comunidade em torno das identidades. É a partir dessas “comunidades imaginadas” que o livro oferece uma visão panorâmica da luta LGBQIA+ ocidental. É importante destacar que o texto tem uma perspectiva ocidentalizada e eurocentrada para a discussão – como o próprio autor ressalta, visão muito influenciada pelo imperialismo cultural estadunidense que exporta para o mundo a Revolta de Stonewall como um grande marco inicial do ativismo.

Dividido em três seções, o livro dedica a primeira parte a questões conceituais introdutórias para debate, resultando na percepção de que o campo de gênero e sexualidade tem sido organizado a partir de duas concepções que sofrem de aproximações e afastamentos: essencialismo e construtivismo. Sob a ótica do essencialismo, o gênero e a sexualidade são vistos como algo binário (homem/mulher, hétero/homo) e, nela, orientação sexual e identidade de gênero são inatas, ou seja, parte da essência do sujeito. O autor destaca a importância histórica desse argumento, que serviu de escudo no combate a discursos religiosos, legais, médico-científicos, entre outros que produziram estigmatizações para vivências dissidentes. 

Já a perspectiva construtivista, mesmo possuindo divergências entre autores, convergem no entendimento do papel histórico e cultural na formação de sujeitos, a despeito de códigos genéticos e biológicos, olhando para as relações de poder que se estabelecem na sociedade. Ambos os discursos se entrelaçam em diversos momentos da história a fim de sustentarem as reivindicações de cada grupo e contexto.

A segunda parte, e mais extensa, tem como foco o ativismo em três momentos: um protoativismo nascido na Alemanha, a cena estadunidense e o contexto brasileiro. A justificativa por esse eurocentrismo encontra os discursos médicos e o debate sobre sexualidade surgidos na Alemanha no final do século XIX como precursores que olharam para a questão da dissidência sexual, ainda que com posturas eugenistas. Como dito, a questão cultural imperialista que os Estados Unidos impôs e ainda impõe ao mundo a partir de suas narrativas míticas tem um peso. Além disso, outro ponto que Quinalha usa como justificativa para abordar a luta nesses territórios é a aglutinação de pessoas em regiões cosmopolitas, favorecendo um diálogo entre um maior número de sujeitos dissidentes. 

Olhando para o cenário nacional, o texto possui um recorte que parte da luta resultante do ativismo organizado durante a ditadura civil-militar. Embora os ecos de Stonewall tenham sido abafados por aqui por conta do endurecimento dos “anos de chumbo”, a década de 1970 viu o nascimento dos primeiros coletivos brasileiros. É nessa reconstrução que Quinalha traz uma contribuição para o debate: o entendimento dessa trajetória a partir de uma perspectiva cíclica, diferentemente de pesquisas clássicas que consideram o ativismo a partir da metáfora de ondas. Enquanto a ideia de onda pressupõe um pico e uma queda lineares para que outra fase comece, os ciclos propostos pelo autor são sobrepostos, não lineares e possuem simultaneidades. Isso corrobora com a ideia de que a resistência no Brasil nunca seguiu uma linha reta.

Fotografia em preto e branco de uma manifestação de rua. Um grupo de pessoas marcha segurando uma grande faixa com a frase: “Contra a discriminação do/a trabalhador/a homossexual”. Ao fundo aparecem prédios, postes e fios elétricos urbanos.
Grupo Somos em 1980 durante a Greve dos Metalúrgicos, no ABC Paulista (Acervo Fernando Uchoa/Divulgação)

Após apresentar essa perspectiva panorâmica, Quinalha nos guia pelos impasses da luta LGBTQIA+ contemporânea. Na última parte da obra, talvez a mais fértil, o pesquisador lança um olhar para as armadilhas atuais e possíveis caminhos para superação delas. Ele questiona, por exemplo, como o mercado se apropria de uma negligência estatal para mercantilizar o orgulho por meio do pink money, reduzindo a cidadania à capacidade de consumo. Diante disso, Quinalha propõe um resgate do pensamento marxista, outrora tão criticado, para combater as apropriações capitalistas contemporâneas, além de um olhar crítico para as representações midiáticas de nossas subjetividades. Mas, mais importante ainda, o professor nos deixa o alerta para as diversas tentativas de apagamento institucionais de nossa história, principalmente por discursos e governos de extrema-direita. O exercício de lembrar e registrar segue sendo o instrumento mais efetivo contra o esquecimento de nossa comunidade. 

O grande mérito de Quinalha reside na densidade de sua pesquisa, traduzida em uma linguagem que foge do hermetismo e convida diferentes públicos ao debate, combatendo um apagamento histórico sistemático. Contudo, mesmo em uma obra que celebra dissidências, as estruturas de poder se fazem notar quando o protagonismo ainda recai sobre um movimento predominantemente branco e cisgênero, cujas vozes foram as mais documentadas e visibilizadas pelo tempo. Isso acaba gerando lacunas como o apagamento de trajetórias lésbicas e trans, além de uma repetição exaustiva da ideia de que o cosmopolitismo das grandes metrópoles é o único solo fértil para o ativismo – o que acaba obscurecendo a resistência de cidades interioranas e de outros territórios. Um panorama tão vasto dificilmente daria conta de todas as subjetividades sem deixar arestas. Ainda assim, o livro é um ponto de partida indispensável para uma compreensão geral da história dos nossos ativismos e armar-se contra a LGBTfobia.

A partir de uma história repleta de lacunas e silenciamentos, que haja espaço para a viadagem, sim! E também para lesbianidades, travestilidades, bissexualidades, queeridades. No mundo, na academia, nos livros e nas aulas de história. O dia 17 de maio vem nos lembrar que nenhum direito está plenamente conquistado; eles não são pontos de chegada, mas processos que exigem manutenção diária. O livro de Quinalha mostra como a trajetória LGBTQIA+ no Brasil é marcada por avanços que frequentemente enfrentam contra-ataques conservadores e tentativas de retrocesso institucional. 

Portanto, o dia 17 de maio é um chamado à vigilância. Em um país onde a cidadania de corpos dissidentes ainda é pauta de negociação e disputa, a compreensão de lutas do passado fornece pistas para identificar ameaças do presente e o vislumbre de outros futuros possíveis. Que sejamos orgulhosos de sermos quem somos e cientes de que a liberdade é um exercício coletivo e ininterrupto, pois o direito de existir continua sendo escrito com coragem e, sobretudo, memória.

Capa do livro "Movimento LGBTI+: Uma breve história do século XIX aos nossos dias", de Renan Quinalha. O design é moderno, com a palavra "MOVIMENTO" em letras pretas gigantes ao fundo. No centro, um círculo vermelho destaca o título. Na base, a sigla "LGBTI+" aparece em cores vibrantes.
Foto: Divulgação/Autêntica


Livro:
Movimento LGBTI+: Uma breve história do século XIX aos nossos dias

Autor: Renan Quinalha

Editora: Autêntica

Faixa etária sugerida: recomendado para o público jovem e adulto

Justificativa: obra para formação cidadã, que apresenta marcos históricos da luta por direitos LGBTQIAPN+ no Brasil e no mundo.

por Flávio Reis

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