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Miradas da infância

Cartaz da mostra. Arte: Bento Vital. 
Programação completa. Olhar para as infâncias e pensar como elas mesmas imaginam o mundo. Essa é a proposta de Miradas da infância, mostra cinematográfica do projeto Ariadnes, que vai exibir longas-metragens protagonizados por meninos, meninas e menines e que apresentam perspectivas infantis sobre o mundo, ainda que esses filmes sejam dirigidos por adultas e adultos. Essas miradas se cruzam com questões sobre gênero, raça, sexualidade, etnia, região: quem são as crianças que o cinema nos mostra? Quais são e como são as infâncias pensadas ou lembradas pelos olhares adultos?
Programação
08/5: A princesinha
A little princess, Alfonso Cuarón, 1995
Adaptado do romance de Frances H. Burnett, o filme narra a história de uma órfã exposta a abusos em um internato de Nova York no início do século XX, após a morte de seu pai na Índia.15/5: Onde fica a casa do meu amigo
Khane-ye doust kodjast? , Abbas Kiarostami, 1987
Mistura entre ficção e documentário, o filme conta a história de Ahmed, que pega por engano o caderno de seu amigo e precisa devolvê-lo para evitar que o menino seja punido na escola, caso não leve o dever de casa.22/5: Meu pé de laranja lima
Meu Pé de Laranja Lima, Marcos Bernstein, 2012
Diante de uma realidade dura e da falta de afeto, o pequeno Zezé usa a imaginação para transformar um pé de laranja lima em seu refúgio e confidente. Entre travessuras e descobertas, ele encontra na amizade improvável com o “Portuga” o verdadeiro significado de ser amado. Baseado no clássico de José Mauro de Vasconcellos, o filme é um retrato poético e visceral sobre a infância e o momento em que a fantasia de ser criança dá lugar ao amadurecimento. Uma experiência obrigatória e emocionante que abraça qualquer um que assiste.29/5: O túmulo dos vagalumes
Hotaru no haka, Isao Takahata (Studio Ghibli), 1988
A animação percorre os desafios vividos por Seita, um adolescente de 14 anos e sua irmã Setsuko, de quatro anos, que depois de perderem seus pais precisam encontrar meios de sobreviver no Japão pós Segunda Guerra Mundial.12/6: Conta comigo
Stand by me, Rob Reiner, 1986
“Conta Comigo” é uma adaptação da novela “O Corpo” de Stephen King. O filme conta a história de quatro garotos que, ao descobrirem o desaparecimento de um menino em sua cidade natal, a fictícia Castle Rock, decidem ir à procura de seu paradeiro. Durante a busca, os amigos acabam vivendo uma aventura repleta de desafios e reflexões.”19/6: Close
Close, Lukas Dhont, 2022
Close é um drama belga que retrata a história de dois amigos inseparáveis, Léo e Rémi, de 13 anos, que veem sua relação mudar devido à pressão social. Sensível e impactante, o longa-metragem acompanha as consequências desse rompimento, abordando, desde cedo, temas como masculinidade tóxica, amizade e perda.26/6: Marte Um
Marte Um, Gabriel Martins, 2022
A partir das tensões políticas que se estabelecem no país após a eleição de um presidente de extrema-direita, Marte Um (2022) traz a história dos Martins, uma família negra de classe média-baixa que vive na periferia de Contagem, região metropolitana de Belo Horizonte. Sob um olhar sensível, a obra tece, a partir do acompanhamento de um cotidiano simples, múltiplas histórias que evidenciam a esperança frente a uma desigualdade social que sufoca sonhos.3/7: Lindinhas
Mignonnes, Maïmouna Doucouré, 2020
No longa acompanhamos Amy, uma menina de 11 anos de origem senegalesa que vive em Paris. Dividida entre dois mundos contrastantes — os valores tradicionais de sua família e a cultura influenciada pela internet —, ela se aproxima de um grupo de dança local, passando a explorar questões relacionadas à sua identidade, à descoberta da sexualidade e à hipersexualização infantil frequentemente presente nas redes sociais.- As sessões são gratuitas e acontecem sempre às 9h, na sala 207 do ICSA;
- Todas as sessões serão seguidas de uma conversa;
- Haverá emissão de certificados para quem comparecer a 75% das sessões.
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“Monster”- Quem é o monstro?

Créditos: cena do filme O diretor japonês Hirokazu Kore-eda nos provoca com essa pergunta diversas vezes durante Monster, que junto a elementos do terror torna a narrativa tão angustiante que nos instiga a buscar um vilão. Vencedor do melhor roteiro em 2023 pelo Festival de Cannes, o filme traz a estrutura do mistério para debatermos sobre a violência de gênero e a castração de afetos na relação entre duas crianças, Minato e Eri.
O filme apresenta a luta travada entre Saori (Sakura Ando) contra a burocracia do sistema escolar e social japonês representada pela escola de seu filho Minato (Soya Kurokawa). Preocupada com a possibilidade de seu filho estar sofrendo abusos pelo professor, ela recorre à diretora cercada de homens vestidos de ternos e um roteiro de perguntas e respostas apáticas e desumanizadas. Saori, então, no lugar de respostas que dêem amparo à uma mãe solo, encontra apenas a pergunta: “Quem é o monstro?”.
A verdade e a omissão são o que reveste a produção, moldando o roteiro – já premiado – e nos levando a entender o que ocorre com Minato, que apresenta diversos ferimentos e um distanciamento, da câmera e da mãe, ao longo do filme. Outra vítima também das omissões e do preconceito é Eri, o qual é animalizado pelo seu pai a partir da comparação da cabeça do seu filho substituída pela do cérebro de um porco. E mais uma vez o filme nos provoca a partir da nossa interpretação e das ações do pai a pensar: “Quem é o monstro?”.
A fragmentação do roteiro une, ao final do filme, as violências sofridas pelos personagens e nos leva à conclusão de que a monstruosidade está na estrutura. A estrutura social que articula para que a mãe não encontre respostas para auxiliar seu filho fere Minato e Eri, simultaneamente, e até mesmo o professor (Eita Nagayama). Percebe-se, então, que a base social é similar ao objetivo do roteiro que nos deixa perdidos e sem respostas no decorrer da produção.
Ao final do filme nos deparamos com questões como: O filme trata sobre homossexualidade ou sobre afetos? Sobre transexualidade? Qual a posição desses agentes que estão no topo dessa estrutura, eles também são vítimas? As respostas você talvez encontre assistindo ao filme – algumas vezes, talvez – e encaixando o complexo quebra-cabeça deixado pelo diretor.
Serviço:
Título Original: Kaibutsu
Onde assistir: TeleCine
Classificação indicativa: 14 anos (14A)
Classificação do autor: 16 anos (16A)
Justificativa: O filme é complexo em sua estrutura e possui cenas de violências com crianças.
Gênero: Drama, SuspensePor Gabriel Maciel
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Salve Jorge: a novela que retrata a realidade do tráfico de mulheres no mundo

Créditos: cena da novela Com 179 episódios, cada um com aproximadamente 50 minutos de duração, a novela Salve Jorge, escrita por Glória Perez e exibida pela rede Globo, conquistou o coração dos brasileiros nos anos de 2012 e 2013. Não à toa, seu sucesso foi tamanho que, mais de 10 anos depois, a música “Alma de Guerreiro”, de Seu Jorge – composta especialmente para a novela – ainda é bastante associada a ela.
Como de praxe nas produções de Glória Perez – em que problemas sociais são trazidos à tona – Salve Jorge aborda em diversas nuances o tráfico internacional de pessoas, principalmente o de mulheres e o de bebês. Para compor a narrativa, o elenco trazia nomes como Nanda Costa (Morena), Rodrigo Lombardi (Théo), Carolina Dieckmann (Jéssica), Giovanna Antonelli (Heloísa), Thammy Miranda (Jô), Alexandre Nero (Stenio) e Cláudia Raia (Lívia).
No início da trama, a protagonista Morena (Nanda Costa) é convidada a ir para a Turquia por seis meses para trabalhar em um café, onde supostamente receberia 1500 dólares e poderia proporcionar melhores condições financeiras à sua família, que estava prestes a ser despejada da moradia no Complexo do Alemão. Empolgada com a oportunidade, Morena viajou, por intermédio de Wanda (Totia Meirelles) e, chegando lá, percebeu que tudo se tratava de uma emboscada, e que ela havia sido vítima de tráfico humano para a prostituição.
Ao longo dos episódios, Morena se aproxima de Jéssica (Carolina Dieckmann), que também foi traficada e, juntas, criam vários planos de fuga para escapar da boate em que eram encarceradas. Mas, em uma dessas tentativas de fuga, Jéssica descobre a identidade da chefe de todo o esquema, Lívia Marini (Cláudia Raia), que a mata injetando em seu corpo uma seringa de drogas e fazendo parecer uma overdose.
Fora da ficção, Simone Borges, de 25 anos, foi assassinada de forma semelhante. Ela foi para a Espanha em busca de trabalhar e juntar dinheiro para sua cerimônia de casamento, mas, chegando lá, foi obrigada a se prostituir. Quando tentou escapar, foi envenenada e, com sua filha já morta, João José Felipe recebeu uma ligação que o avisava que caso ele não trouxesse o corpo de Simone de volta ao Brasil, ela seria enterrada como indigente.
Em algumas cenas da novela, João José aparece e relata sua história e de sua família. Além dele, Ana Lúcia – uma das vítimas traficadas para Israel – também conta sua história, que, inclusive, originou a narrativa da novela. Ela conta que, junto de sua amiga Kelly Fernanda Martins foi a um pagode no Rio de Janeiro e, lá, foram aliciadas por Rosana, que prometia um salário de 1500 dólares para o emprego de garçonete, mais alguns bônus de passagens, procedimentos estéticos e roupas de grife.
Chegando a Israel, especificamente em Tel Aviv, Ana Lúcia e Kelly perceberam que foram enganadas e teriam que se prostituir para “pagar a dívida” que lhes fora atribuída. A vítima conta que, para atingir o tal valor da dívida, teria que ter cerca de 30 relações sexuais por noite. Foi então que Kelly recuperou seu passaporte – antes confiscado – e decidiu ir até a embaixada pedir socorro, mas foi descoberta e assassinada por espancamento antes de concluir seu plano.
O caso de Kelly chamou a atenção da polícia brasileira que, em contato com a de Israel, invadiu o lugar que estavam encarceradas e libertou nove mulheres, dentre elas, Ana Lúcia. Como elas, há milhares de mulheres que recebem propostas ilusórias e são traficadas em todo o mundo. De acordo com uma pesquisa feita pela Organização Mundial do Trabalho (OMT), o tráfico de pessoas é um dos crimes mais lucrativos, e movimenta cerca de 32 bilhões de dólares por ano.
Ainda segundo a OMT, por volta de 80% das vítimas são mulheres e destinadas à exploração sexual. Esse número evidencia as consequências desastrosas que o patriarcado – sistema que inferioriza, objetifica e sexualiza as mulheres – tem em diversas sociedades e culturas. Como defende a segunda onda do feminismo, o patriarcado abrange além da esfera pessoal, a política: ele influencia em todos os âmbitos, desde o familiar ao mercado de trabalho, legislativo e institucional.
Isso fica claro ao notar o grande poder que essa estrutura tem ao reduzir a existência de mulheres ao produto do desejo masculino, seja no quesito doméstico, sexual ou fetichista. A pesquisadora e escritora feminista bell hooks explica que “em troca de todos os benefícios que os homens recebem do patriarcado, eles são obrigados a dominar as mulheres, explorar e oprimir-nos, usando a violência se for preciso para manter o patriarcado intacto”. Isto é, são tantos os benefícios que os homens recebem diante desse sistema de dominação-opressão às mulheres, que eles precisam mantê-lo sob qualquer circunstância, principalmente a da violência.
Mas, mesmo diante de uma estrutura que as mata e as destrói, as mulheres ainda são as culpadas e responsabilizadas por tamanha violência. Um exemplo disso são esses comentários em uma reportagem do Fantástico sobre tráfico internacional de mulheres:
De acordo com o primeiro comentário, a culpa do tráfico de pessoas é dos sonhos das mulheres e, em contrapartida, para o segundo, o erro está na ambição. Nas entrelinhas, ambos os perfis culpam as vítimas por terem sonhos e lutarem por condições de vida melhores, mas, em nenhum momento, o sistema machista e/ou os homens são apontados como os criminosos responsáveis por destruir a vida de tantas mulheres. Eles nunca são.
Por Maria Clara Soares
Serviço
Título original: Salve Jorge
Onde assistir: Globoplay
Classificação indicativa: 14 anos (A14)
Classificação da autora: 14 anos (A14)
Justificativa: cenas de violência física, sexual e psicológica, que podem causar gatilhos aos espectadores.
Gênero: Drama e romance
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Refletindo o machismo por meio dos vídeos virais de Anaterra Oliveira

Imagem: Reprodução de um vídeo de Anaterra Oliveira Com vídeos curtos, com cerca de 1 minuto e meio de duração, a atriz e estudante de psicologia Anaterra Oliveira (@anaterra.oli) acumula mais de 5 milhões de curtidas no TikTok. Em seus vídeos, Anaterra aborda diversos assuntos, como cuidar dos filhos, trabalho, medos, relacionamentos, entre outros. E o que aparentemente é uma pergunta comum gera questionamentos profundos sobre racismo, desigualdade social e gênero, em sua maioria. Nas calçadas, com um microfone em mãos, ela faz perguntas a homens e mulheres de diversas idades. O que chama a atenção, e pode explicar o sucesso de visualizações e compartilhamentos dos vídeos, é o abismo entre as respostas e como o machismo, a misoginia, a objetificação e o sexismo estão enraizados em nossa sociedade e são percebidos nos assuntos mais comuns.
Tem dois vídeos que me marcaram, os que se iniciam com as perguntas “Qual foi a pior coisa que uma mulher já te fez?” e “Qual a pior coisa que uma mulher pode fazer?”. As respostas dos homens são quase unanimidade: “trair” ou “traição”. Quando as mulheres recebem a mesma pergunta em relação aos homens, as respostas são um soco no estômago: “Me deixou deficiente visual”, “abuso sexual”, “agressão”, “estupro”, “não saber ser pai”, “controlar a vida da mulher”. Os vídeos são expositivos, a entrevistadora só faz as perguntas. O choque das respostas é o que gera a reflexão nos comentários e, às vezes, a discussão se estende para outras redes sociais.
Em assuntos relacionados à maternidade e paternidade fica clara a desigualdade. Perguntados sobre quantas horas do dia dedicam a seus filhos, os pais respondem uma, duas, às vezes quatro. Já as mulheres dedicam 24 horas, ou 10 horas as que trabalham fora. E quando chegam do trabalho, o que eles fazem? Assistem à TV, descansam, relaxam no sofá, vão dormir. E elas? Lavam roupa, passam roupa, fazem comida, serviços domésticos. Perguntadas se conseguem parar e relaxar, a resposta é não. Essa dupla jornada e sobrecarga de trabalhos afeta as mulheres de forma física e mental. Segundo pesquisa do Think Olga em 2023, a cada 10 mulheres brasileiras, 6 sofrem de ansiedade. Além do dito amadurecimento precoce, é cobrado das meninas mais responsabilidade de cuidado, comparado aos meninos. O peso de sempre estar cuidando e não ter tempo para cuidar de si ou alguém para ser cuidada também pode influenciar no adoecimento mental.
O machismo* que adoece as mulheres não é um problema exclusivo delas, pois não são as únicas afetadas. Sim, o machismo que mata mulheres diariamente é o mesmo que causa a morte de vários homens. No documentário Precisamos falar com os homens?, idealizado pela ONU Mulheres Brasil, em parceria com o Grupo Boticário e o site Papo de Homem, é discutido como o machismo age na vida das pessoas e a necessidade de conversas com os meninos e os homens sobre isso, pois são eles que morrem por descaso com a saúde, relação perigosa com bebidas alcoólicas e modo agressivo de dirigir. Na vida dos homens é por meio da proibição de demonstrar sentimentos e fragilidade; em contrapartida não podem negar sexo e muito menos brochar. Manifestar afeto por outro homem? Jamais! Na vida das mulheres o machismo se manifesta por meio da imposição de um padrão estético e modo de agir, performando feminilidade, fragilidade e delicadeza, a sexualização de seus corpos, desvalidação de suas falas, o feminicídio e uma infinidade de outras coisas. Porém, há diferentes formas de performar masculinidades e feminilidades. Temos que abandonar o hábito de rotular as pessoas de forma rasa, reduzindo-as a estereótipos e excluindo as subjetividades. Isso gera preconceitos, como a LGBTQIA+fobia, já que a identidade dessas pessoas vai além das limitações desses rótulos.
Pensando na nossa sociedade, é fácil associar que a imposição de papéis de gênero vem desde a gravidez. Um exemplo é a febre dos chás revelação como um grande evento, no qual se criam expectativas em torno do sexo biólogico da criança. Imagina-se uma menina doce, que vai brincar de boneca e cozinhar com a mãe, e um menino esperto, que vai ganhar carrinhos, armas e vai jogar bola com o pai. Desse modo, quando crianças, os meninos não podem chorar, porque o choro não faz parte do “masculino” e eles não podem ter características que geralmente são atribuídas às mulheres, pois remetem à fraqueza. Com essa masculinidade tóxica, eles também reprimem seus sentimentos e podem passar a usar a violência para se expressar. Na adolescência eles são estimulados a ter mais liberdade com o corpo, comparado às meninas, e a se desenvolverem sexualmente. Por isso às vezes se sentem no direito de importuná-las e sexualizá-las. É necessário que esse cenário mude para que possamos criar meninos que se tornem adultos funcionais, que não sobrecarreguem as mulheres, que saibam expressar e demonstrar sentimentos, fazer sua própria comida e serviços domésticos e assumir o papel de pai presente na criação das crianças.
Mesmo afetando a vida dos homens, o machismo também os privilegia em detrimento das mulheres, como exposto nos vídeos de Anaterra. Um exemplo é o vídeo em que o questionamento é sobre um mundo apenas com mulheres. Para muitos homens é um paraíso sexual; para as mulheres, um mundo apenas com homens seria um verdadeiro pesadelo, assim como é andar sozinha com um homem na rua. Além da desigualdade salarial: a diferença do salário de um homem branco comparado ao de uma mulher negra é destoante.
As respostas dos homens nos vídeos de Anaterra são genuínas, pois é a maneira como eles enxergam o mundo e as mulheres. No documentário Precisamos falar com os homens?, uma pesquisa mostra que os homens não reconhecem violências além da física, pois se sentem habituados nesse contexto no qual reproduzem diversas violências invisíveis. Como se sentir confortável em expor materiais íntimos de outra pessoa na internet, que é violência e crime, controlar as ações e roupas de outra pessoa é um tipo de violência, não dividir as tarefas domésticas é um tipo de violência, dizer que mulher não pode dirigir, entre outras. Quando Anaterra questiona sobre “duas mulheres que você admira”, a resposta inicial é o silêncio, depois a maioria das respostas são “mãe” e “namorada” e algumas atrizes e cantoras famosas, “porque são bonitas”. Agora, para “dois homens que você admira” são muitas respostas. Outra face do machismo é a validação masculina: os homens costumam respeitar outros homens e suas opiniões. Isso explica quando, mesmo não concordando com alguma atitude machista de um amigo, o homem não chama atenção ou repreende. É uma situação difícil e o problema é sistêmico, mas prefiro acreditar que aos poucos, um dia, as coisas vão mudar, para melhor.
*Machismo é o comportamento que rejeita a igualdade de condições sociais e direitos entre homens e mulheres. É a superioridade dos homens sobre as mulheres.
Precisamos falar com os homens? (Documentário com descrição de audio e Libras)
Por Ana Rodrigues
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Por uma educação básica mais inclusiva: projeto de lei deseja implantar aulas sobre Direitos Humanos e combate a todos os tipos de discriminação

Foto: Lia Junqueira Acreditamos que a educação é um agente de mudança fundamental na vida de todas as pessoas, por isso, o debate de temas como racismo, violência de gênero e LGBTfobia são componentes indispensáveis para jovens e adolescentes. A partir desse pensamento, o deputado federal Tadeu Veneri (PT-PR), apresentou um Projeto de Lei que pretende incluir aulas para ampliar as informações dos temas na Educação Básica.
Com aulas voltadas para o Ensino Médio, quando entende-se que as pessoas estudantes estão mais maduras para compreender os assuntos, alguns complexos, a proposta é que estudantes de universidades públicas e privadas comandem esse momento, que será contabilizado como atividade complementar para quem está na graduação. Dessa forma, é vantajoso para quem ensina e para quem aprende, que ver e ter contato com outros pontos de vista.
Por meio de atividades como essa, podemos ter trocas capazes de mudar a realidade de estudantes, pais e professores, pois, ao trazer novas informações e referências sobre os temas, conseguimos compreender de maneira mais aprofundada. Como bell hooks afirma em “Ensinando Pensamento Crítico: sabedoria prática”, devemos constantemente explorar nossa capacidade de aprendizado com novas perspectivas, pois, se um estudante branco, hétero e cis entender um novo olhar sobre o racismo, por exemplo, isso pode transformá-lo por completo.
Outro fator importante no aprendizado é a aproximação e identificação, ainda mais com pessoas jovens, que muitas vezes enxergam-se incompreendidas por professores mais velhos. Com esse projeto, eles teriam a possibilidade de aprender com pessoas de idade próxima e com experiências parecidas, o que também auxilia no processo de aprendizagem.
Além disso, no Ensinamento 3: Pedagogia Engajada, bell hooks entende que o aprendizado de temas sensíveis – ou qualquer outro tipo de tema – é melhor elaborado quando temos um público engajado e interessado em aprender. Para isso, a construção de uma comunidade dentro da sala de aula, em que os alunos se conheçam e reconheçam também quem está repassando as informações, é fundamental na participação conjunta de todas as pessoas.
Enxergar um(a) estudante enquanto pensador ativo e capaz de colaborar com o aprendizado de todas as pessoas ao redor faz toda a diferença quando queremos debater e prosseguir com diálogos. É importante que todos os atores na educação estejam integralmente envolvidos e dispostos a ampliar as conversas e sair de suas zonas de conforto, o que não é fácil, mas, necessário em diversas situações.
Dessa maneira, instigar jovens e adolescentes a conhecerem e irem mais a fundo sobre temas tão importantes como Direitos Humanos, racismo, violência de gênero e LGBTfobia dá para eles outra perspectiva e entendimento cidadão, possibilitando o desenvolvimento de mais consciência sobre nosso cotidiano e respeito a grupos e sujeitos mais vulneráveis na sociedade.
A importância de falar abertamente sobre todas as coisas nos dá novas chances e olhares, para que mudanças possam ser concretizadas e erros passados sejam esclarecidos.
Por Lia Junqueira.
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Mulheres acompanham mulheres: o cuidado é historicamente feminino

Nos últimos dias tenho tido mais contato com o dia a dia hospitalar, na área do câncer de mama especificamente. Com isso, tenho confirmado uma percepção que já havia tido antes: a presença feminina é a que comanda esse ambiente. Apesar do tipo de câncer estar principalmente vinculado às mulheres, homens também podem desenvolver a doença, em números reduzidos, de acordo com o Instituto Nacional do Câncer.
Ao observar tantas mulheres, não somente que estão em tratamento, mas também que as que estão junto com elas, fico imaginando a divisão de cuidados nas famílias, pois muitas vezes ocorre a sobrecarga das figuras femininas em um momento em que todos deveriam estar envolvidos. Segundo pesquisa realizada pela Sociedade Brasileira de Mastologia, 70% das mulheres são abandonadas pelos parceiros ao serem diagnosticadas com câncer, o que só piora toda a situação, pois além de estar passando por um momento de fragilidade na saúde, passam também em seus relacionamentos.
Todo esse cenário soma-se ao cotidiano que estou vivenciando e transforma-se em uma conclusão difícil e complexa: nós, mulheres, não podemos contar nem mesmo com nossos companheiros, a quem tanto nos dedicamos por toda a vida e de quem cuidamos quando necessário. A facilidade que um homem tem de se isentar de responsabilidades é tão grande que, mesmo em um momento péssimo para todas as pessoas ao redor, ainda assim eles recebem cuidados básicos – como comida feita, roupas lavadas e uma casa limpa. Enquanto isso, muito provavelmente uma mulher está assumindo mais responsabilidades do que deveria, cuidando de outra que está doente, de um homem ou de si mesma – quando não são as três tarefas simultaneamente.
A cultura do cuidado foi direcionada a nós desde sempre, quando nossos direitos básicos nem haviam sido definidos e o único lugar que ocupávamos era dentro de casa (ou em trabalhos forçados, como a mão de obra escravizada ou em classes mais pobres, em que o trabalho também era uma realidade). No entanto, essa herança perpetua-se de uma forma tão latente e brutal que nos sentimos na obrigação de realizar a maior parte dos serviços ou o acompanhamento de uma paciente em grave estado de saúde.
Como Guacira Lopes Louro afirma em O Corpo Educado: pedagogias da sexualidade, nós fomos socializadas de corpo e mente para ocupar lugares pré-determinados, e isso não deixaria de ser observado nas práticas de cuidado. As brincadeiras a que meninas estão expostas são totalmente voltadas para funções domésticas, como cozinhar, brincar de boneca e arrumar as coisas de casa. Todo esse conjunto nos condiciona, desde a primeira infância, a dar assistência para todos.
Ser mulher é, muitas vezes, cuidar mais do outro do que de si mesma – um ótimo exemplo é a maternidade, em que as mães trabalham até a exaustão física e mental –, mas, ao chegar a uma situação limite, quem cuida de nós mesmas? A resposta segue na mesma linha, pois é muito provável que outra mulher cuide. Até quando? Como é possível romper com essa prática adoecedora do cuidado tão inerente?
Acredito que muitas mudanças podem ser observadas em direção à independência e conquista de direitos por conta da luta feminista, porém não têm sido suficientes para equilibrar essa situação que continua nos impedindo de descansar mente e corpo. A exaustão feminina também está ligada à preocupação contínua com afazeres domésticos, profissionais e com a saúde de toda a família. Como nos livramos desse sentimento?
São respostas em construção por enquanto, mas é sempre bom reforçar que não precisamos carregar todo o peso do cuidado sozinhas. Procurar apoio e nos manter perto de pessoas que nos fazem bem é fundamental nesse processo, para que não fiquemos doentes e impossibilitadas de dar qualquer suporte para quem tanto amamos.
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Quem são as meninas que estão na moda?

Montagem sobre imagens de divulgação Dia desses a Folha de S.Paulo anunciou que “ser menina está na moda”. Logo no título, relaciona essa meninice a laços e cor-de-rosa. Na linha fina, continua: moda delicada. O mote da reportagem eram os lançamentos, em 2023, de dois filmes que aludem ao ser-menina: Barbie e Priscila. Ambos são dirigidos por duas mulheres, Greta Gerwig e Sofia Coppola, respectivamente, que têm se dedicado a refletir cinematograficamente sobre diferentes modos de ser menina – mas isso é conversa pra outra hora.
Ao longo do texto, o jornal elenca mais signos dessa meninice que anda na moda: tutu de balé, sapatilha, cetim, tranças, bonecas, presilha de cabelo, gola Peter Pan (han?), meias brancas, a cor do ano da Pantone, peach fuzz (“um tom de pêssego gentil e aveludado”, segundo a própria). Outros elementos dessa onda seriam gastos superficiais e consumismo, jantares entre amigas, Taylor Swift, glitter, montação, amizade (e pulseiras da amizade).
A reportagem aponta que a identidade de menina tem sido performada por mulheres da casa dos 30 anos que ganham bem, têm carreiras e responsabilidades e gastam muito dinheiro com alguns ou muitos dos itens enumerados acima. Diz a Folha que “ser menina — não mulher, mas menina — agora significa experimentação, liberdade e tudo isso pode ser vivido com o poder aquisitivo de uma adulta”. O apelo estético dessa identidade, continua, tem a ver com uma juventude descomplicada e claramente nostálgica.
O texto também traz, é verdade, a contraparte da adolescência como uma idade em formação e filmes de Coppola em que as restrições às meninas aparecem diretamente e passa como um sopro pelas restrições vividas pelas mulheres em 2023.
Um dos sentidos propostos pelo texto é de uma identidade que pode ser consumida – e, não à toa, é fortemente marcada pelo consumismo. Uma identidade, portanto, à venda, para qualquer mulher utilizar. Mas a gente sabe que identidade não se trata apenas de um item numa prateleira que se veste; trata-se de algo que nos atravessa, constitui e também nos assujeita. Além disso, é uma estética que não está disponível a todas as mulheres, apenas às que podem comprá-la e que têm permissão para usá-la.
Esse ser-menina que aparece no jornal também é profundamente marcado por uma hiperfeminilidade retrógrada, em vez de nostálgica, e associa o ser-menina com alguma versão de meninice que nunca viveu a quarta onda feminista, dominada por corpos femininos jovens em assembleia. É muito, muito limitante equacionar ser menina com o universo fru-fru defendido na reportagem e, de novo, privilegia apenas um tipo de feminilidade, jogando para fora do quadro uma infinidade de outras performances de meninas.
Ao se ancorar apenas em Barbie (e Margot Robbie), Priscila (Cailee Spaeny) e Taylor Swift, conta histórias de ser-menina heteronormativas, cis, brancas e do Norte Global. Três encarnações diferentes da bonequinha de plástico tão inatingíveis para meninas (e mulheres) que parecem, mesmo, fantasiosas, irreais, de outro mundo.
Ser menina, ou o ser-menina, a meninice, tem sido, defendo, uma perspectiva secundária dos estudos feministas. Há nichos, sobretudo nos EUA, Canadá e Reino Unido, com tradição de pesquisa, que nos ensinam que a ideia de menina (como a de qualquer identidade) não é fixa; é cultural e envolta em uma série de disputas.
Contudo, há alguns marcos temporais e aspectos singulares das experiências de ser menina na contemporaneidade que não podem ser desconsiderados quando vamos montar essa ideia de meninice que, para a Folha, não existem – e que, claramente, não estão “na moda”, ou seja, ninguém quer consumir. Um dos principais é a vida escolar, que ocupa grande parte da infância e adolescência de muitas meninas (ainda que meninas sejam o grupo que mais está fora da escola hoje, no mundo).
A menarca é um marco temporal vivido pelas meninas cis com impactos profundos em sociabilidade, mudanças corporais, etc. Meninas trans podem enfrentar questões de transição de gênero que também têm impactos no corpo e na vivência social delas.
Os corpos de meninas são os mais sujeitos à violação sexual; do mesmo modo, elas vivem a realidade do casamento infantil, da exploração sexual, do trabalho infantil. São impedidas de exercer várias dimensões da infância e adolescência consideradas “não femininas”, punidas por comportamentos considerados desviantes.
Meninas negras e indígenas são alvos mais constantes dessas e outras violências, como os feminicídios de crianças e adolescentes de povos tradicionais. Meninas vivem a exclusão de espaços públicos, desestímulo ao ingresso nas áreas de STEM (ciência, tecnologia, engenharia e matemática, em inglês), assédios sexuais, adultização.
Em um outro lado da moeda, o jornal The New York Times publicou recentemente uma reportagem assustadora sobre como o ambiente digital é facilmente um pesadelo para meninas, que se tornam presas de pedófilos e abusadores on-line, especialmente no Instagram. Às vezes, com a cumplicidade parental. Há tempos já sabemos dos perigos tóxicos das redes sociais para a autoestima das meninas, mais suscetíveis a transtornos de imagem, pornô de vingança, violência on-line…
Nada disso “está na moda”, nada disso está à disposição para consumo de uma identidade plástica e commodificada pelo capitalismo neoliberal e extrativista, que aposta neste nicho por enquanto – enquanto for lucrativo. As jornadas das narrativas de Barbie Estereotipada e Priscila Presley podem não ser fáceis, mas são muito mais fáceis que as de quaisquer meninas que não sejam Barbie e Priscila, que sejam meninas reais.
Qualquer identidade que ambicione a um “ser-menina” tem obrigação de performar não apenas traços de feminilidade, mas de se engajar com as lutas pela derrubada do patriarcado, sob risco de despolitizar as demandas coletivas que movem os feminismos. Para o capitalismo, é fundamental que desejemos ser Barbie, que evoquemos certos aspectos de uma meninice restrita a poucas (às bonecas plásticas?). Mas o capitalismo também precisa que esqueçamos o que tem feito com as meninas do mundo.
É nossa obrigação não esquecer.
Por Karina Gomes Barbosa
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“Passivonas”: a leveza de uma comédia LGBTQIA+

Imagem de divulgação do filme As comédias românticas que marcaram gerações inteiras com suas relações heteronormativas e brancas nos fizeram acreditar que essa era a única alternativa de amor possível no cinema. No entanto, com o avanço de pautas sociais, representatividade e presença LGBTQIA+, preta, trans e mesmo feminina, não somente no cotidiano, como também no mundo das artes, podemos destacar outras produções imagináveis no audiovisual de hoje em dia.
“Passivonas”, na tradução livre de Bottoms, ou Clube de Luta para Meninas, como foi batizado no Brasil, é um filme de 2023 dirigido pela canadense Emma Seligman. A cineasta dirigiu outro sucesso com uma das protagonistas, Rachel Sennott, que foi Shiva Baby, e propõe abordagens interessantes sobre as relações amorosas e interpessoais da atualidade.
O filme traz características muito próprias da geração Z, com conflitos amorosos e a narrativa dos anos 2000 da conquista e do amadurecimento, também conhecido como coming of age – que é uma narrativa de formação e de acompanhamento desse processo –, porém, com uma pegada diferente. Quem comanda e arquiteta um “plano infalível” para fazer os grupos das “gostosonas” e mais populares da escola se apaixonarem são duas meninas, Josie, interpretada por Ayo Edebiri, e PJ, interpretada por Rachel Sennott. Elas montam um clube de luta para que as garotas possam aprender técnicas de defesa pessoal. Só um detalhe impede isso: elas não sabem nada sobre luta.
A narrativa se dá nesse processo de trapalhadas na tentativa de conseguir a atenção dessas meninas, porém, o que é mais interessante é que o filme não precisa, necessariamente, passar uma lição de moral profunda e densa, é a comédia pela própria comédia. Inclusive, o universo mostrado ali é, por si só, caótico, o qual nos lembra muito aqueles filmes do início dos anos 2000 de romance adolescente/jovem, como Meninas Malvadas ou As Patricinhas de Beverly Hills, nos conduzindo nesse mundinho sem precisar de conexões extensas e trabalhosas.
Passivonas tem como característica um tom bobo, leve e brincalhão, mas não sem discutir coisas importantes, até porque, somente pelo fato de duas meninas lésbicas serem a dupla protagonista, isso já denota uma diferença em relação aos dramas colegiais a que estamos acostumadas. Estão presentes as questões de gênero, com a masculinidade frágil dos meninos do time de futebol e os relacionamentos tóxicos que eles têm com algumas das meninas da escola.
Além disso, a sexualidade é colocada de uma forma respeitosa e condizente com a realidade adolescente do filme, sem apelações indevidas ou estigmatização extensiva. Acredito que um dos fatores principais dessa obra é a sutileza de cada piada e tirada, pois muitas das questões “problemáticas” – como misoginia e LGBTfobia – são tratadas como sátiras, deixando a leveza prevalecer.
Ainda que não existam problematizações profundas em volta de boa parte dos temas abordados, Bottoms ocupa um lugar especial para as pessoas LGBTQIA+, que também merecem assistir situações cômicas e “bobas” acontecendo nas telas com personagens da comunidade. A representatividade ocupada por PJ e Josie, as “lésbicas fracassadas”, que não pegam ninguém, já foi apresentada de forma heteronormativa milhares de vezes, por isso é importante outros corpos, gêneros e sexualidades viverem esses papéis.
Não somente viverem esses papéis, mas performar certas realidades do mundo contemporâneo, contendo algumas subjetividades, em que uma pessoa tomará decisões ruins ou julgáveis – assim como PJ, que acaba vivendo um conflito com sua melhor amiga. A questão central não é afastar o público jovem e LGBTQIA+ de confrontos ou “limpar” suas imagens, mas sim representá-los de forma respeitosa e sem tantos estereótipos, por exemplo, a promiscuidade ou hipersexualização comumente destacados.
O que Emma Seligman nos propõe é enxergar essas pessoas, essas meninas, com todas as suas complexidades, acertos e erros – o que é mais do que comum, afinal, são jovens –, e conseguir dar risada de si mesmo, das situações mais pitorescas e doidas que somos capazes de fazer pela crush, ou pessoa que estamos afim. É preciso mais espaço para produções “farofa” para esse público, que espera, assim como as pessoas hétero, as representações mais tranquilas e “paspalhonas” sobre seus amores e desilusões amorosas.
Passivonas nos dá a possibilidade de uma risada sincera e gostosa, com uma consciência que nos ronda a todo momento, seja sobre a brotheragem dos meninos – situação em que meninos ajudam outros meninos a todo custo –, ou sobre o entendimento enquanto mulher lésbica/bissexual da liberdade que deveríamos ter.
Serviço:
Título original: Bottoms
Onde assistir: Amazon Prime Video
Classificação indicativa: 16 anos (A16)
Classificação da autora: 14 anos (A14)
Justificativa: O filme é voltado justamente para essa idade, de um entendimento um pouco mais avançado sobre sua sexualidade e evolução.
Gênero: Comédia e Coming of age (Amadurecimento)
Por Lia Junqueira.
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O Lobby do Batom e as mulheres que escreveram a história em 1987/88

Manifestação das mulheres que apresentaram a Carta das Mulheres Brasileiras aos Constituintes em 1987. Foto disponível em: 30 anos da Constituinte Desde 2015 com a prorrogação da Lei nº 13.086, o dia 24 de fevereiro é considerado o Dia da Conquista do Voto Feminino no Brasil. Mas por quê? Em 24 de fevereiro de 1932, após muita luta do movimento feminista e influência de diversos movimentos de mulheres sufragistas, o direito ao voto obrigatório para as mulheres foi garantido pelo primeiro Código Eleitoral brasileiro. A resistência das mulheres feministas brasileiras não começou e nem parou por aí. De pouco em pouco elas vão conseguindo ocupar espaços. Apesar disso, ainda hoje, o Brasil é um dos países com menor participação feminina nos parlamentos federais e, segundo dados da União da Interparlamentar, as mulheres compõem apenas 17,7% da Câmara dos Deputados. Apesar disso, o que não falta é mobilização entre as mulheres para acabar com a desigualdade de gênero. Aqui, vou falar um pouco sobre o movimento das mulheres para integrar seus direitos cidadãos na Assembleia Nacional Constituinte (ANC) de 1987, após a redemocratização do Brasil.
“Elas chegaram”, foi o grito que preencheu o plenário no dia 26 de março de 1987. Não há consenso entre as notícias sobre o ocorrido e o número de manifestantes. Mas, pessoas que estavam presentes disseram que eram milhares. Milhares de mulheres brasileiras manifestando seus direitos. De todos os cantos do Brasil, parlamentares de diferentes partidos, ativistas e trabalhadoras domésticas. Elas carregavam cartazes, cantavam em coro e levavam consigo uma carta de oito páginas e mais de 70 sugestões de propostas para a nova constituição. O destinatário era Ulysses Guimarães, o então presidente da Câmara dos Deputados e da Assembleia Nacional Constituinte de 1987-1988, ele que liderou a reformulação da nova Constituição Brasileira. O remetente eram as mulheres brasileiras, que viram na nova constituição, uma oportunidade de reivindicar seu lugar na lei.

Remetentes da Carta das Mulheres Brasileiras aos Constituintes. “Mas é preciso ter força, é preciso ter raça, é preciso ter gana sempre”. Ao som de Maria, Maria de Milton Nascimento, o coro de mulheres, puxado por Comba Marques Porto após o discurso de algumas mulheres naquela manifestação, inundava o congresso. Comba fazia parte do movimento feminista e era advogada. Ela também fazia parte do Centro da Mulher Brasileira na época da ditadura, no qual se organizavam em grupos de estudos. Para o podcast Jogo de Cartas, Comba conta que nos encontros do Centro elas se reuniam para ler as leis do país e começaram pelo Código Civil. Para reunir todas aquelas mulheres de todo canto do Brasil, tudo foi combinado por meio de cartas e no boca a boca. A falta de tecnologia e redes sociais nunca as impediu de se organizarem em busca de seus direitos.
A ANC, era a esperança de um novo Brasil, após anos de ditadura. Por isso, grupos minoritários estavam presentes para reivindicar seus direitos jurídicos. Além das mulheres, pessoas do movimento negro, do movimento índigena, do movimeto LGBTQIA+ e do movimento de pessoas com deficiência lutaram e compareceram, mesmo que de fora, sem poder entrar no plenário. Lá dentro nas cadeiras, dessas representações citadas, entre 559 parlamentares, havia 26 mulheres e entre essas só uma mulher negra, Benedita da Silva.
Por isso, também é importante fazer recortes dentro das lutas e movimentos sociais. Pois, fazer parte de um mesmo grupo, não quer dizer igualdade, aliança ou unanimidade. No feminismo, as mulheres buscavam por igualdade de gênero nas leis do Brasil. Mas existem os subgrupos com sua subjetividade, com diferentes pessoas e diferentes interseccionalidades*. Mulheres ricas debatem pautas diferentes das mulheres pobres, do mesmo jeito que as discussões de mulheres negras e indígenas também se diferem das de mulheres brancas. Por exemplo, na época da Constituinte, as feministas discutiam sobre a legalização do aborto e do divórcio, enquanto as mulheres negras lutavam pela melhoria e legalização do trabalho doméstico e os devidos direitos da profissão.
A deputada Benedita da Silva trabalhou na construção da Constituição de 98, era parlamentar e fazia parte das mulheres que estiveram na manifestação em 1997. Defendeu as questões das trabalhadoras domésticas. Seu slogan era Mulher, negra e favelada. Benedita, que também já foi trabalhadora doméstica, ali, era a porta voz do feminismo negro. Que tinha como integrantes a autora, intelectual, ativista, filósofa e professora Lélia Gonzalez e a filósofa, escritora e ativista antirracista Sueli Carneiro, entre muitas outras mulheres negras.
Na Constituinte, parecia que para lutar por uma causa, você tem que pertencer a ela. Por que as feministas brancas pouco se incomodaram com a falta de representatividade? Por que os homens, brancos e ricos não se incomodaram e não se incomodam com a falta de diversidade e direitos na política brasileira? Essas perguntas têm respostas. Ninguém quer perder seu lugar de privilégio. Mas vale citar que na assembleia existiam pessoas aliadas às causas das minorias. Poucas, mas tinham. E que bom, pois sem aliados é difícil fazer a diferença, principalmente na política.
Obviamente, as pautas levantadas pelas mulheres, lá em 1987, não foram bem recebidas. Existiam mulheres e homens de esquerda, centro e direita. As feministas não tinham muito apoio dos homens, de qualquer um dos lados. Naquela época, a palavra feminismo era praticamente um palavrão e o movimento era visto como “ódio aos homens”. Ainda assim, era importante ter aliados homens, pois eram (e ainda são) maioria no Congresso. Além de que quando eles falavam sobre as pautas de gênero, os outros homens escutavam. Já quando elas falavam, não prestavam tanta atenção assim.
Antes da ANC, o movimento feminista já havia conquistado, após insistência com o presidente Tancredo Neves, a criação do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher (CNDM), que foi instituído em 1985 no governo de José Sarney. O CNDM é um órgão vinculado ao Ministério da Justiça, com a finalidade de “promover em âmbito nacional, políticas que visem a eliminar a discriminação da mulher, assegurando-lhe condições de liberdade e de igualdade de direitos, bem como sua plena participação nas atividades políticas, econômicas e culturais do país” (lei no 7.353, de 29 de agosto de 1985). Vale ressaltar que inicialmente era composto apenas por mulheres brancas.
Enfim, o que essa junção de mulheres parlamentares e organizações da sociedade civil ligadas ao movimento feminista – conhecidas como Lobby do Batom – conseguiram mudar na Constituição de 88, após a entrega daquela carta?
Diversas conquistas, apesar de ainda precisarmos de muitas outras. Vou citar algumas: a igualdade entre homens e mulheres em direitos e obrigações; direito à amamentação, incluindo as presidiárias; posse de terras para as mulheres de áreas rurais; aumento da licença maternidade para 120 dias e da paternidade para 5; igualdade conjugal; reconhecimento da família de modo geral, não necessariamente apenas por meio de casamento entre homem e mulher como era antes; a coibição da violência nas relações familiares, o que em 2006 dá espaço para a criação da Lei Maria da Penha. Para as domésticas, foi garantido folga todo domingo, salário fixo e décimo terceiro. Mas não conseguiram igualdade de trabalho perante outras profissões. Isso só foi adquirido em 2015, quase 30 anos depois e elas continuam na luta pela melhoria de seus direitos.
Para saber com mais detalhes sobre a história do Lobby do Batom, conhecer as mulheres que fizeram parte disso e como elas se organizaram, ouça o podcast Jogo de Cartas. É um podcast produzido pela Rádio Novelo em parceria com o Instituto Update, apresentado pela cientista social e co-fundadora do Instituto Update, Beatriz Della Costa, e pela jornalista Vitória Régia da Silva. Em 7 episódios elas contam com a participação das mulheres presentes na criação e na entrega da carta, em 1987. Há muitas curiosidades, contexto histórico e é uma história que merece ser contada, ouvida e que nos dá perspectiva de futuro. Pois, pouco a pouco, as mulheres vão conquistando seu espaço na sociedade brasileira.
*Interseccionalidade é a sobreposição ou intersecção de identidades sociais. Como se fosse uma encruzilhada de opressões ou privilégios.
Por Ana Rodrigues
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Clarice sob um olhar gendrado: a realidade misógina representada na série

Créditos da imagem: cena do filme Clarice é uma série norte-americana, lançada em 2021 e dirigida por Alex Kurtzman e Jenny Lumet. Com 13 episódios – de aproximadamente 43 minutos cada – o seriado trata sobre a vida profissional e emocional de Clarice Starling (Rebecca Breeds), uma agente do FBI. A personagem é considerada especialista em capturar assassinos em série, como fez com “Buffalo Bill” (Ted Levine), em O Silêncio dos Inocentes, e com Nils Hagen (Peter McRobbie).
Mas, antes de contar sobre Clarice, é importante contextualizar sobre o filme que inspirou a série: O Silêncio dos Inocentes. O longa, de 113 minutos, lançado em 1991 e também norte-americano, enquadra-se nos gêneros de suspense, drama e terror. Foi dirigido por Jonathan Demme e estrelado por Jodie Foster, que interpretou o papel de Clarice na produção.
No filme, Clarice investiga o serial killer “Buffalo Bill”, que sequestra, arranca a pele das mulheres e as assassina. Mas, para investigar a fundo, ela entra em contato com o Dr. Hannibal Lecter (Anthony Hopkins), um assassino canibal em série, para compreender como funciona a mente de um psicopata e ficar mais próxima de solucionar o caso. A trama ganhou os prêmios do Oscar em cinco categorias: Melhor filme, Melhor Diretor, Melhor Ator, Melhor Atriz e Melhor Roteiro Adaptado.
Depois disso, devido aos direitos autorais sobre os personagens protagonistas terem sido separados em diferentes estúdios, a continuação do longa seguiu caminhos distintos: Hannibal em uma série, e Clarice, em outra. Nela, a personagem lida com diversos traumas adquiridos no caso do “Buffalo Bill”, uma vez que foi uma das vítimas e foi colocada em uma situação de vulnerabilidade diante do serial killer.
Em sequência, devido ao seu grande desempenho profissional, ela é escolhida pela procuradora-geral dos Estados Unidos, Ruth Martin (Jayne Atkinson), para a próxima missão: descobrir quem está por trás de três feminicídios cometidos de forma semelhante. Mas, apesar de seu sucesso referente à resolução dos casos, o comandante da força tarefa, Paul Krendler, a questiona frequentemente em relação ao seu trabalho e condição psíquica.
Além disso, na maioria das vezes, isso é feito em frente ao resto da equipe, o que implica em outras questões como assédio, humilhação e constrangimento. Ainda, a protagonista passa por diversas situações de exclusão de gênero, visto que – embora seja a agente responsável pelo caso – não há uniformes para o seu tamanho, apenas para os homens.
Infelizmente, esse contexto não é restrito à série. Fora da ficção, devido ao machismo enraizado na sociedade, no mercado de trabalho, as mulheres enfrentam várias situações de desigualdade de gênero, são constantemente diminuídas em público e vítimas de diversos tipos de assédio: sexual, moral e constitucional.
Isso é perceptível, por exemplo, no ramo do jornalismo, em que, de acordo com os dados da Fenaj – Federação Nacional dos Jornalistas – apenas 13% dos cargos de chefia são ocupados por mulheres nas redações. Tal discrepância é consequência de uma sociedade misógina, que enxerga as mulheres como inferiores aos homens, no sentido intelectual, físico e moral: são vistas como vulneráveis, como serventes que devem viver restritas à esfera doméstica.
Além disso, dentro e fora do mercado de trabalho, as mulheres são objetificadas e sexualizadas. Isto é, são vistas com uma função estritamente sexual: a de satisfazer aos homens. Não à toa, segundo dados da revista Veja, 18% das mulheres já foi vítima de assédio sexual no trabalho, enquanto a porcentagem dos homens é 5 vezes menor (3,4%).
Mas, voltando ao filme, no caso dos três feminicídios, Clarice segue suas investigações e descobre um ponto em comum: as mulheres assassinadas tinham feito parte de um teste clínico medicinal para um remédio chamado Reprisol. O dono da empresa que fabrica esse medicamento, Nils Hagen, sabia que o composto causava malformações nos fetos das gestantes e, visando o lucro, continuou a vender.
Ainda, o feminicida mantinha mulheres traficadas em cativeiro e as violentava sexualmente, pois queria ter um outro filho saudável, mas seus genes não permitiam. Foi quando mandou raptar Clarice, que com sua inteligência e profissionalismo, conseguiu sair da situação e, junto com sua equipe, libertar as mulheres.
Só no estágio final do filme é que Paul Krendler demonstra sua satisfação e respeito em relação ao desempenho de Clarice. Ou seja, a protagonista teve que se esforçar – bem mais que seus colegas homens – para mostrar seu bom serviço e capacidade de lidar com crimes. Mas, é importante ressaltar que, dentro da série, a personagem tem vários privilégios em razão de corresponder ao padrão de beleza feminino: branca, magra, olhos azuis e cabelo liso.
Já Ardelia (Devyn A. Tyler), sua melhor amiga e colega de trabalho, por ser negra, sofre preconceito de gênero e de raça e, por isso, teve que lutar ainda mais para ascender na carreira, conseguir reconhecimento, e chegar a um cargo de equidade com Clarice. Infelizmente, é mais uma das representações em que a série foi fiel ao que ocorre na realidade: mulheres negras, em relação às brancas, têm que enfrentar mais barreiras de discriminação para crescer em todos os sentidos.
Por Maria Clara Soares
Serviço
Título original: Clarice
Onde assistir: Prime Video
Classificação indicativa: 16 anos (A16)
Classificação da autora: 16 anos (A16)
Justificativa: Cenas de violência física, sexual e psicológica, que podem causar gatilhos aos espectadores.
Gênero: Drama e Suspense
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Cobertura de feminicídios e deficiência: uma perspectiva de gênero

Foto: Geovana Zanaki No dia 02 de fevereiro, o Projeto Ariadnes realizou mais uma Oficina. Tratamos da cobertura dos feminicídios das pessoas com deficiência, debatendo termos corretos e uma perspectiva de gênero sobre o tema, que ainda é muito pouco discutido. Quem conduziu esse momento mais do que importante foi Lívia Labanca, jornalista pela UFOP e mestranda em Comunicação na Universidade Federal de Minas Gerais, UFMG, que fez parte de nossa equipe durante a graduação.
Falar sobre violências físicas, psicológicas e patrimoniais, por exemplo, é um assunto difícil de engolir e trazer para o debate. No entanto, ao falar sobre a violência midiática que mata, estupra e agride novamente essas mulheres, é possível alcançar um novo local de problematização. O papel da cobertura noticiosa possui impactos que perduram na forma que enxergamos os casos. Dessa maneira, se todas as informações disponíveis sobre o assunto são repletas de capacitismo e misoginia, assim será nossa percepção formada.
Alguns traços fundamentais nessa cobertura problemática são facilmente notados – e também poderiam ser modificados sem qualquer dificuldade –, como o uso da voz passiva (exemplo: A mulher foi morta…) que coloca o foco do crime na vítima, e não no agressor. Outro ponto é a apuração rasa, utilizando fontes como polícia e família, que não refletem sobre os motivos, tornando feminicídios episódicos, e podem, ainda, reforçar um estereótipo de “mulher de malandro”, termo usado de forma pejorativa quando mulheres sofrem violência doméstica e continuam nessas relações, como se elas fossem culpadas.
Ainda sobre a apuração, casos de feminicídio de mulheres com deficiência não recebem uma atenção especial, um lugar importante em sites, jornais e noticiários, fazendo com que pareçam “raridade”. Além disso, esses casos não possuem desfechos na mídia atual, pois, ao publicar a informação de um assassinato, ela não se esgota ali, principalmente de um feminicídio. A morte de uma mulher é o início de uma investigação, que busca justiça para essa vítima.
Dessa forma, o dia ou semana após o crime deveria continuar em destaque, com suítes – o desdobramento de uma notícia –, fazendo com que o trabalho da/o jornalista fique mais aprofundado. Porém, algo que devemos estar constantemente atentas é sobre a cobertura local, pois nos veículos com menos visibilidade é que estão concentrados números assustadores de violência midiática.

Foto: Karina Gomes Barbosa Lívia fez indicações preciosas de leituras para se aprofundar no tema, como “Histórias de morte matada contadas feito morte morrida: A narrativa de feminicídios na imprensa brasileira”, de Niara de Oliveira e Vanessa Rodrigues; “Sobrevivi…posso contar”, de Maria da Penha; e “Comunicação e Acessibilidades: um guia para práticas hospitaleiras”, organizado por Sônia Caldas Pessoa, Camila Mantovani, Ângela Salgueiro Marques e Phellipy Pereira Jácome. Ela indicou ainda o Manual de Cobertura Universa, para pensar e aprender, na prática, maneiras de realizar uma cobertura, no mínimo, respeitosa.
Essas recomendações foram alguns dos principais materiais utilizados por ela em seu Trabalho de Conclusão de Curso, que discutiu e analisou a cobertura de cinco feminicídios de mulheres com deficiência em diferentes regiões do país.
No final, quando estávamos em debate sobre qual é o lugar da perspectiva de gênero dentro do jornalismo e dentro do curso da UFOP, as participantes realizaram a observação da ausência de homens na oficina. Essa ausência histórica é reflexo do desinteresse e, principalmente, da visão de homens e meninos que não se entendem como implicados na questão de gênero, violência e cobertura desses temas. Porém, esse é o grupo que mais produz e reproduz todos os tipos de ofensa e, claro, o grupo mais ouvido.
Logo, sem a presença masculina em debates como esse, a tarefa de realizar uma cobertura mais profissional e com a perspectiva de gênero fica mais difícil. Essa não deveria, e não é, uma luta somente feminina. Os homens não somente do jornalismo, mas de todos os campos devem se interessar pelo debate de gênero, por um debate que também os implica.
As mudanças e avanços são notáveis em relação ao passado, no entanto, não são suficientes para prosseguir com uma notícia que prioriza a polícia como fonte ou coloca “assassinato brutal” ao invés de feminicídio, por exemplo. Portanto, é preciso interesse – de todas as pessoas, homens ou mulheres –, apuração aprofundada e perspectiva de gênero para uma cobertura de qualidade.
Por Lia Junqueira.
